Meninos, eu vi!
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
DIOCESE ANGLICANA DO RECIFE
Testemunho Episcopal
MENINOS, EU VI!
Meninos, eu vi – e li – na revista “O Cruzeiro”, há exatos 52 anos, o Arcebispo de Cantuária, Dr. Geofrey Fischer, coroando a rainha Elizabeth II, minha primeira memória do anglicanismo. Volta e meia, as reportagens dos anos 1950 relacionavam a família real com a Igreja da Inglaterra. Idem os livros didáticos dos Colégios. Uma matéria alusiva ao falecido presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt mostrava o momento do enterro com um cruciferário e um clérigo episcopal de cassoque preto, sobrepeliz e tipete. "Que interessante e estranha igreja é essa?”, me perguntava, como criança e adolescente católico romano praticante.
Meninos, eu vi, na rua Carneiro Vilela, no bairro dos Aflitos, no Recife-PE, na “Holy Trinity Church”, há exatos 40 anos, a comunidade de fala inglesa e o seu Pároco, reverendo John Ellsworth (que me fez ler ainda começando a universidade o alentado “A History of the Church in England”). Por lá passaram os reverendos Phillip, Pape, Sad, Medeiros, e, em particular, o pioneiro em língua portuguesa, reverendo Alfredo Rocha da Fonseca Filho, que me convidou para o acolitar em seu primeiro culto, e no culto da primeira visita do Bispo Sherrill, enchendo-me de literatura, e fazendo uma estranha “profecia”: “Se esse rapaz fosse anglicano... chegaria a Bispo...” Impressionado fiquei com a visita do reverendo José Del Nero, grande pregador e exímio musicista, a tocar o velho órgão de tubo. "Que interessante e estranha igreja é essa?", me perguntava como jovem universitário luterano (IELB) praticante.
Meninos, eu vi, no ginásio da Universidade de Illinois, em Urbana, EUA, o reverendo John Stott, há exatos 37 anos, expor, para uma silenciosa e atenta platéia de 8.000 estudantes, de 52 países, na Conferência Missionária da Aliança Bíblica Universitária (IVF), o livro de II Timóteo. Passei a devorar os seus livros, os de C. S. Lewis, os de J. I. Packer, e de outros autores evangélicos anglicanos, como era comum nos anos 1960 e 1970. A essa altura, já começara a “piruar” cultos anglicanos aqui, ali e acolá, em minhas viagens. "Estou me sentindo atraído por essa interessante e estranha Igreja”, dizia como jovem professor universitário luterano e missionário com a ABU.
Meninos eu vi – e li – a literatura disponível sobre a então “Igreja Episcopal Brasileira”, e conversei com quem pude, para matar uma curiosidade arrefecida. Havia, claramente, um passado épico (1890-1949), com os bispos Kinsolving e Thomas, evangélicos, com a Igreja se sentindo parte do mundo protestante (Confederação Evangélica Brasileira), com uma taxa de crescimento semelhante a do presbiterianismo (em cujo Colégio “José Manoel da Conceição”, em Moema-SP acorriam os postulantes às Sagradas Ordens). Mas, isso era passado, apenas passado. Como passado era o episcopado anglo-católico tradicional do Bispo Melcher (nos anos 1950). Conheci os seus piedosos (e formais) “descendentes eclesiásticos”, os bispos Kratz, Simões e Sória. Mas, agora, para aquela corrente “se todo batizado é cristão, evangelizar o Brasil é mero proselitismo”. E foi aí que começou a declinar o ardor missionário, e a declinar a taxa de crescimento. Salário e pensões vindas da (P)ECUSA. Dólares cortados e “crise de vocações”, seminário fechado por dez anos, uma “igreja de manutenção” e não de expansão, ênfase demasiada na liturgia, distanciamento do mundo protestante e acercamento do mundo católico romano. Algo de profundo estava se passando, e, definitivamente, a Igreja não era mais a mesma. “Sinto-me atraído pelo Anglicanismo, e pela antiga Igreja. Não tenho nenhuma afinidade com essa 'nova", lamentava há mais de 30 anos.
Meninos, eu vi, o Bispo Sherril como um dos co-presidentes da “Cruzada Billy Graham Grande Rio", e também vi e ouvi o malabarismo da tradução do reverendo Benjamim Moraes Filho, presbiteriano, para evitar um desastre com a fala do Arcebispo de Cantuária, Dr. Michael Ramsey, diante de 150.000 pessoas no estádio do Maracanã, censurando o fato da própria campanha, em nosso país “cristão”. Aquela altura, algumas comunidades inglesas permaneciam isoladas e declinantes, muitas comunidades japonesas permaneciam isoladas e declinantes, também. Livros, bolsas, missionários, traziam, então, avassaladoramente, o liberal catolicismo, com o seu universalismo (“Para que evangelizar se todos estão salvos?”). Novas missões não eram abertas, velhas missões fechavam, congregações envelheciam, em uma instituição atingida por uma crise de decadência (algo exótico para a realidade religiosa brasileira), a única denominação reformada a romper com a proposta dos seus pioneiros. "Por aí não vou. E, se entrar, serei trucidado”, pensava com os meus inquietos botões nos anos 1970. E o que dizer de todas aquelas igrejas e cultos anglicanos que ia freqüentando enquanto viajava pelo mundo?
Meninos eu vi – e conversei – com Bispo Sherrill, em dezembro de 1975, na reunião com o secretário executivo do Movimento de Lausanne, Gottfried Osei-Mensah, no Seminário Batista, no Rio de Janeiro. Percebi que o velho guerreiro já estava desencantado com o “novo” anglicanismo do sul-sudeste do Brasil, e partia para sua grande, nova, e última cartada. Criei coragem, e lhe perguntei: “Bispo Sherrill, quando é que o senhor vai criar um trabalho evangélico e evangelístico no Nordeste?” Fitando-me com seus expressivos olhos azuis, me respondeu: "Quando vou criar? Já criei. O reverendo Paulo Garcia está lá para isso. E eu em breve para lá também vou”. O coração do jovem aluno do Mestrado em Ciência Política do IUPERJ bateu forte. A conversa animou-se. Voltei para o Recife, fui morar nos Aflitos, freqüentar a Paróquia da Santíssima Trindade, e, em 21.06.1976, no dia que completei 32 anos, ao lado do meu hoje falecido genitor, fui recebido na comunhão da então “Igreja Episcopal do Brasil".
Meninos, eu vi e convivi com o Bispo Sherrill por 11 anos. Com ele fui “leitor” (ministro leigo), postulante, candidato, diácono e presbítero (e ele seria um dos co-sagrantes do meu episcopado). Aprendi muito com ele. Vi nascer as primeiras missões. Cansado de tantos anos de episcopado – primeiro no Rio de Janeiro, e, depois, no Recife –, ele concedia espaços demais para o titular da principal Paróquia (seu pupilo de estimação, em quem tanto acreditava), não teve a paciência de emancipar a então Diocese Setentrional, missionária, não articulou com os seus colegas bispos (era, então, primaz em exercício, com a morte do Bispo Kratz), nem apresentou uma lista com nomes alternativos, quando da sua sucessão. Foi um voto plebiscitário, onde amargou a sua maior e mais dolorosa derrota. Ele e o nordeste teve que engolir alguém totalmente desconhecido, como uma forma de “intervenção branca” (votada pelo Sínodo) da já hegemônica corrente liberal católica. Como jovem Diácono e Coadjutor, tive que dar a notícia à Paróquia da Santíssima Trindade. “Acabou-se o que era doce... É fria...”, comentava com meus botões diaconais.
Meninos eu vi o choro e a revolta dos fiéis, a depressão do Pároco e o desalento do Bispo. Eu vi – e fui “apresentador” (de quem não conhecia) na sagração do novo Bispo, em Porto Alegre, e, ainda, “escalado” para fazer discursos de saudação (“O que é que eu vou dizer?”) lá e cá. Eu vi Sherrill ir embora, e convivi com a nossa Diocese em “guerra fria” entre o “Bispo de Direito” e o “Bispo de Fato”. Tensões, cooptações, fofocas, traições, terrorismos. “Detesto evangélicos, e odeio carismáticos”. E nós? E agora? "Onde é que fui me meter”, comentava com os meus botões presbiterais, na Emanuel, na Santíssima Trindade, e na marginalizada Missão da Redenção.
Meninos eu vi e li os documentos das Conferências de Lambeth de 1968 e 1978 (emprestados por Sherrill) e 1988 (emprestados por Clóvis). Lambeth 1998 eu estava lá, como “testemunha ocular da História”. Congressos, Encontros, Consultas, visitas a templos-museus – lá e cá – e a multidões sem templo, por esse mundo anglicano afora. A ECUSA perdendo um milhão de membros, e a Igreja da Nigéria ganhando sete milhões de membros. São tantas as memórias...
Meninos eu vi, por tantas vezes, como delegado diocesano ao Sínodo e membro da JUNET nos episcopados de Sherrill e Clóvis a velha sede provincial como uma desoladora “cidade fantasma”, literalmente cheirando a mofo. Uma sensação terrível de decadência. Nunca a Província se confrontou com a verdade dos números: em Lambeth falaram que tínhamos mais de 100.000 membros, contando todo mundo (vivos e mortos), desde Kinsolving, em uma experiência única de união estatística entre a "igreja triunfante” e a “igreja militante”...
Meninos eu vi, toda a cúpula da IEAB (o termo “Anglicana” foi proposta minha ao Sínodo) reunida para comer e beber no restaurante do português que existia na esquina da rua da sede provincial. E eu, um tanto deslocado, caí na besteira de falar algo como “quando eu me converti”, para receber um sonoro apupo (que o então primaz, Olavo, tentou consertar), sem dúvida uma das mais dolorosas experiências de toda a minha vida cristã.
Meninos eu vi “O Estandarte Cristão” transformado em um “Pravda”, um “Diário Oficial com Fotos”, com um intransigente unilateralismo. Todas as publicações e todos os oradores da Província de uma só linha de pensamento. Era uma tremenda gafe se falar em correntes do anglicanismo. Inclusividade? “O que é isso companheiro?” A nossa Igreja é muito pequena para se dar ao luxo de ter correntes. O que vale é a “corrente da Igreja" (leia-se, o liberal catolicismo). A (P)ECUSA já tirara o “Protestante” do nome. Aqui, evangélicos e carismáticos, discriminados, eram cidadãos de segunda classe. E ex-evangélicos que aderem, vão se tornando os mais ferrenhos adversários do evangelicalismo. Praticando um “ecumenismo unilateral” (apenas com liberais/Teologia da Libertação) a IEAB foi, progressivamente, se isolando, apesar da presença formal nos órgãos ecumênicos (diga-se de passagem, esvaziados).
Meninos eu vi o milagre do que foi a minha eleição ao episcopado, e o milagre maior de ter sobrevivido até aqui. Eu vi – e ouvi – o secretário da Câmara dos Bispos ler a ata da reunião extraordinária (realizada em São Paulo), em que se tentou obstacular a homologação da minha eleição, por “representar um perigo para o futuro da Igreja”. No dia seguinte tive que ser socorrido no serviço médico do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Com diferenças essenciais que apenas, com o tempo, vão se acentuando, é difícil se falar em “colegialidade”, apesar da civilidade e da cortesia, que se deve buscar (e nem sempre se consegue).
Meninos eu vi a grande Diocese que me coube supervisionar (que incluía a Amazônia), o nosso Colégio falindo em Belém-PA, com 27 ações trabalhistas e 03 processos de crime do colarinho branco. Por toda Diocese, impostos atrasados, dívidas, cânones ultrapassados, ausência de CNPJ, desconhecimento de Bíblia, ignorância do Anglicanismo, barreiras contra o Episcopado, individualismo, congregacionalismos, cismas, aventureirismo. Eu vi o liberalismo se infiltrar e resvalar na “crise gay” do Concílio de 2003. "Afasta de mim esse cálice".
Eu vi e conversei com o Arcebispo George Carey (que almoçou em minha casa), e com o Arcebispo Rowan Williams (almoçamos juntos em restaurante de hotel). Já vi muita coisa de muita gente em 28 anos de anglicanismo. Eu vi o anglicanismo mundial, e me apaixonei por ele. Dele há, ainda, escassos sinais na DAR. A IEAB, por sua vez, tem sido apenas uma jurisdição, um espaço institucional, um glorioso passado longínquo, um decadente e intolerante passado recente, um presente de tensões e um futuro incerto. O eco da onda pan-sexualista e pro-sodomita, que nos vem da ECUSA, é apenas uma parte visível dos seus problemas.
Será, meninos, que Kinsolving sonhou e trabalhou em vão? Será, meninos, que Sherrill sonhou e trabalhou em vão? Será, meninos, que eu tenho sonhado e trabalhado em vão? Será a DAR um dia uma verdadeira Diocese Anglicana? Haverá um reavivamento na IEAB? Haverá um futuro para o anglicanismo evangélico e/ou carismático entre nós? Pelo tanto que já vi, o que posso antever? “De boas extensões está pavimentada a estrada que conduz ao inferno”. Equívocos, inexperiência e ingenuidade constroem o acostamento dessa estrada, e a ambição a sua sinalização.
Meninos, por mais de meio século eu vi. E continuo vendo. Estou vendo se aproximar a poeira do tropel do Cavalo de Tróia. Estou de olhos abertos.
Paripueira (AL), 07 de Julho de 2004.
Dom Robinson Cavalcanti, ose Bispo Diocesano