AS COMUNIDADES DE FÉ COMO CONTEXTOS RELIGIOSOS MARCADOS PELA AMBIVALÊNCIA EXISTENCIAL: ENTRE CURA E ADOECIMENTO

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AS COMUNIDADES DE FÉ COMO CONTEXTOS RELIGIOSOS MARCADOS PELA AMBIVALÊNCIA EXISTENCIAL: ENTRE CURA E ADOECIMENTO

RONEY RICARDO COZZER2023

AS COMUNIDADES DE FÉ COMO CONTEXTOS RELIGIOSOS MARCADOS PELA AMBIVALÊNCIA EXISTENCIAL: ENTRE CURA E ADOECIMENTO*

RONEY RICARDO COZZER**

DOI 10.18224/frag.v33iEsp.13495

Resumo: este artigo considera a relação entre a espiritualidade e a saúde emocional do indi- víduo, levando em conta a influência das comunidades de fé nessa relação, tanto para a cura e aporte emocional, quanto para o seu adoecimento. O pressuposto básico é que comunidades de fé evangélicas se constituem como contextos ambivalentes, uma vez que tanto contribuem para o bem-estar emocional dos indivíduos que as constituem, como também operam com discursos e procedimentos que fazem as pessoas adoecerem emocionalmente. Nota-se que, no movimento evangélico, o fator comunitário esvaziou-se para dar lugar à valorização da coletividade. Conquanto a vivência comunitária da fé no interior de uma igreja evangélica represente a melhora da própria subjetividade, é observável também que há fatores que são altamente destrutivos no aspecto psicológico. Identificar esses fatores e oferecer respostas possíveis, se coloca como caminho possível para a humanização dessas comunidades de fé.

Palavras-chave: Religião. Espiritualidade. Ambivalência. Comunidade. Saúde.

O fenômeno religioso é complexo e amplo, de modo que sua análise deve rejeitar tanto reducionismos como também generalizações. Seja essa reflexão produzida por quem olha de dentro, como por quem olha de fora, sempre existirão limites e variáveis (conhecidas e não conhecidas), e isso deve ser reconhecido para que seja “pavimentado o caminho” para uma análise que seja mais responsável, menos parcial e contributiva. Este é o esforço deste pesquisador, neste artigo. Na condição de alguém que analisa a partir de dentro, olha também com os olhos de um pesquisador instrumentalizado que busca pautar-se pela imparcialidade.

  • Recebido em: 25.05.2023. Aprovado em: 27.06.2023. ** Doutorando em Teologia Sistemático-Pastoral pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio). Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR) e possui formação em Psicanálise. E-mail: roneyricardoteologia@gmail.com/Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3443166950417908.

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o assunto com propriedade experiencial, além da teórica, na mesma medida em que se recorre a instrumentos e métodos de pesquisa, que permitem a construção de sua análise de modo cuidadoso. Este artigo, portanto, busca situar-se entre a apologética apaixonada e a crítica irrestrita, optando por um caminho de pesquisa que segue no esforço de analisar a questão central considerando as dimensões positivas e negativas e oferecer uma reflexão crítico-prática com vistas a contribuir à ampliação da discussão possível sobre o tema.

Deve-se mencionar, à guisa de consideração da questão do enviesamento na pesquisa, que mesmo um pesquisador que olha de fora, cujo objeto de análise e pesquisa não esteja situado em sua esfera de vivência pessoal, corre o risco de emitir juízos e chegar a conclusões limitadas e até mesmo impróprias, e isso justamente por não experienciar ele próprio as questões que considera em sua pesquisa. Se de um lado, o pesquisador que está envolvido pessoalmente com o seu objeto de pesquisa corre o risco de ser parcial, o pesquisador que não está envolvido pessoalmente com o seu objeto de pesquisa também não está livre de ser parcial, por não ter vivenciado ele próprio questões que considera em seu estudo.

Não se pretende afirmar aqui que a experienciação e a participação ativa, por parte do pesquisador, em seu objeto de pesquisa, seja um critério sem o qual não se possa produzir com qualidade e isenção. Ou ainda: que para quem pesquisa sem esse envolvimento será impossível operar com qualidade. O que se pretende comunicar é que essa participação pode ser um fator positivo, e não necessariamente um fator negativo (ainda que não se deva deixar de considerar os riscos envolvidos). Aliás, em linhas gerais, nenhum pesquisador está totalmente incólume a seu objeto de pesquisa.

Considerando isto, o presente artigo discorre sobre alguns conceitos fundamentais à sua proposta, que consiste em analisar aspectos que vem tornando as comunidades de fé evangélicas contextos ambivalentes à saúde emocional das pessoas, comunidades que, de maneira paradoxal, tanto produzem “cura”, como contribuem para adoecer os indivíduos. Caminha por uma análise crítica e conclui com propostas possíveis que podem auxiliar tanto no melhoramento das próprias comunidades de fé com vistas a reduzir essa ambivalência, potencializando assim sua capacidade de ajudar emocional e psicologicamente as pessoas, e visando oferecer aportes ao indivíduo no sentido de orientar sua relação com a comunidade de fé, sendo capaz de preservar a sua própria integridade emocional e espiritual.

A CONCEPÇÃO DE SAÚDE E DE ESPIRITUALIDADE

O termo "saúde”, neste artigo, é utilizado sobretudo em referência à saúde emocional, ainda que nem sempre. E quanto ao conceito de espiritualidade, importante destacar que ele é utilizado em seu sentido mais “laico”, e lato, não ficando restrito aos limites da semântica religiosa.

Sobre o conceito de saúde, atualmente ele abrange diferentes aspectos constitutivos do ser humano, como o espiritual e o emocional, não apenas o físico. O ser humano é visto como um ser holístico, com diferentes dimensões, as quais estão conectadas e quando uma se vê prejudicada em alguma medida, o indivíduo sofre. Desse modo, é de fato necessário considerar o termo saúde de modo mais abrangente.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1947, definiu “saúde" como sendo "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença” (BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE, 2023). Essa definição sinaliza para a compreensão de saúde como sendo abrangente, não estando reduzida apenas à dimensão física do ser humano.

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Não é impróprio afirmar que o fator espiritualidade pode ser pensado em conexão direta com a saúde do indivíduo. Adoecer espiritualmente pode implicar adoecimento físico. A somatização é um problema reconhecido entre profissionais da Psicologia, da Psicanálise e da própria medicina e que sinaliza para esse fato. A subjetividade humana, quando adoecida, pode desembocar na so- matização. Uma mente que sofre pode implicar num corpo que adoece. Com efeito, “os sintomas sem explicação médica são frequentes e estão associados a sofrimento mental em vários contextos" (TÓFOLI; ANDRADE; FORTES, 2011, p. 59).

A somatização pode ser entendida, basicamente, como “uma manifestação de conflitos e angústias psicológicos por meio de sintomas corporais” (COELHO; ÁVILA, p. 279). Na somati- zação, o indivíduo vivencia fisicamente problemas de ordem emocional e psicológica. E esses pro- blemas, por serem de ordem emocional e psicológica, acabam por não encontrar um diagnóstico de natureza patológica.

Dentre os diversos fatores possíveis que podem causar essa somatização, estão fatores de ordem espiritual e religiosa. Daí decorre também a necessidade de se compreender esses fatores, em si mesmos, e os contextos que os favorecem. Quadros como depressão e ansiedade comumente se associam a sintomas sem explicação médica, como indicado por Tófoli, Andrade e Fortes (2011, p. 60).

A subjetividade humana constrói-se também a partir de fatores externos a ela. O indivíduo vai assimilando, ao longo da vida, eventos, saberes e sentimentos que podem ser benéficos ou pre- judiciais. O sujeito assimila esses fatores através de seus sentidos.

[...] A obra do matemático Benoît Mandelbrot abriu perspectivas extraordinárias para a descrição das propriedades matemáticas dos objetos naturais em termos de “fractais”. Qualquer ramificação infinita que corresponda a certa regra é um "fractal". Os pensa- mentos que circulam no espaço de minha consciência produzem este texto ao manipular o fractal da língua francesa, o de uma linguagem especializada e o do gênero “Dicionário" e da espécie "Introdução”, obedecendo igualmente a outras ordens latentes: “simples", "claro”, “sucinto”, “sem notas”, “público não especializado”, “circunspecção”, etc. Mas meu olhar se dirige para a janela, procurando a luz que vai transformar-se em crepúsculo, e um nome familiar traz um sorriso aos meus lábios. Minha vida é um sistema muito complexo de fractais, um sistema que se move simultaneamente em várias dimensões. Conto algumas delas, como “professor”, “colega”, “vizinho”, ou “amor”, “leitura”, “música”, "cozinha”, e depois paro. A cada instante estou sendo feito por todas essas dimensões e por milhares de outras que nem estão (ainda) definidas pelos dicionários e cujas combinações são praticamente infinitas [...] (ELIADE; COULIANO, 2019, p. 17).

Noutras palavras, o ser humano não vive incólume aos fatores que o cercam, que lhe são externos. Suas relações, os fatos do seu cotidiano, da sua vida familiar, social, profissional e religio- sa, têm implicações diretas em sua psicologia. Sua mente cria também registro de suas memórias afetivas, traumas, alegrias e tristezas.

Note-se, contudo, que a somatização é uma das implicações possíveis decorrentes do adoe- cimento emocional e espiritual das pessoas nas comunidades de fé evangélicas. E que compromete assim a qualidade de saúde e de vida das pessoas. Compreender o que é saúde passa pela compreensão deste assunto também. No interesse deste artigo, o tema da somatização é importante, inclusive por indicar que o ser humano é um ser com dimensões integradas, que se afetam mutuamente.

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Com relação ao conceito de “espiritualidade”, trata-se de outra epistemologia fundamental a este estudo. Inicialmente, pode-se mencionar que "religiosidade” e “espiritualidade" são conceitos com distinções, mas correlacionados. É possível refletir sobre espiritualidade sem necessariamente incluir o tema da religiosidade, ainda que seja inviável falar de religiosidade à parte do conceito de espiritualidade.

Cassiano Floristán (2009, p. 183) afirma que a espiritualidade, "entendida como reflexão sobre o saber sapiencial religioso, sobre a experiência com o Absoluto ou sobre os valores últimos e profundos que transcendem o ser humano, a espiritualidade ultrapassa o domínio do cristão, inclusive, do religioso".

A noção de espiritualidade e até mesmo de religiosidade possui como característica ser inerente ao ser humano, e não necessariamente conectada ou mesmo depende da religião institucionalizada. Não se trata de uma compreensão recente. Sigmund Freud (1856-1939) trocou correspondências com um amigo a respeito da religião e do sentimento religioso e faz um registro interessante a respeito desse "sentimento peculiar" do ser humano:

[...] Esta, diz ele, consiste num sentimento peculiar, que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si, que encontra confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas. Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de 'eternidade', um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico', por assim dizer. Esse sentimento, acrescenta, configura um fato puramente subjetivo, e não um artigo de fé; não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal, mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos, é por eles veiculado para canais específicos e, indubitavelmente, também por eles exaurido. Acredita ele que uma pessoa, embora rejeite toda crença e toda ilusão, pode corretamente chamar-se a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento oceânico (FREUD, 1996, p. 73).

Esse texto de Freud sinaliza para o fato de que a prática da religiosidade ou a realidade desse sentimento religioso (“sentimento oceânico”), é inerente ao ser humano e nele está transpondo determinados limites colocados pela religião institucionalizada. E hoje essa compreensão é bem aceita. Há ateus falando sobre espiritualidade, como é o caso do físico e astrônomo Marcelo Gleiser¹. Mas é importante destacar que essa característica da espiritualidade não a coloca como an- tagônica à religiosidade. Com efeito, no geral, o interesse pelas questões de espiritualidade é maior entre os círculos religiosos. E na vivência religiosa a espiritualidade do sujeito vai sendo moldada. Questões de fé, de convicções religiosas, de doutrinas e de cosmovisão vão sendo cristalizados na pessoa. E isso tudo reflete, inclusive, na vida cotidiana.

Dito isto, em relação à saúde, espiritualidade e suas implicações na vida, é necessário destacar que é razoável concluir que se o indivíduo vivencia uma espiritualidade, numa comunidade de fé religiosa, que é saudável, isso, naturalmente, há de refletir positivamente em sua vida. E o inverso também é verdadeiro.

Deste modo, tanto por questão de epistemologia como por questão de metodologia, é preciso lançar um olhar sobre o contexto religioso, em particular o evangélico, objeto de interesse desta pesquisa. Para se compreender como as comunidades de fé em particular as evangélicas – são comunidades marcadas por ambivalência religiosa, que tanto auxilia como também adoece a espi- ritualidade, é preciso buscar compreende a sua condição, na Pós-modernidade.

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O CONTEXTO RELIGIOSO EVANGÉLICO

O contexto eclesial atual convive com uma série de possibilidades, mas oferece também muitos desafios sérios que precisam ser considerados. Não se pode negar que são muitos os testemunhos pessoais de indivíduos que se viram restaurados emocional e psicologicamente (para não citar os aspectos familiar e social) a partir do encontro que vieram a ter com a espiritualidade presente em cultos evangélicos.

Vale considerar aqui o que se entende por “evangélico", um movimento que hoje assume diferentes formas e grupos, mas carrega em si determinados distintivos comuns:

A palavra “evangélicos” aparece em três sentidos: no sentido amplo, europeu, é apenas sinônimo de protestante; no sentido amplíssimo, latino-americano, é sinônimo de todo cristão não-católico romano (o IBGE inclui, até, mórmons e testemunhas de Jeová); outro, restrito, específico, no sentido inglês, representa uma vertente da Igreja com ênfase no relacionamento pessoal com Cristo, em reação a uma religião estatal e sacramentalista (CAVALCANTI, 2013, p. 7).

O ambiente religioso pode oferecer (e em muitos casos, de fato oferece) muitos benefícios às pessoas que os frequentam, como acolhida, escuta atenta, pastoralidade, construção de relacionamen- tos estáveis e duradouros (inclusive conjugais), espaço de fala e de relevância, dentre outros aspectos positivos que poderiam ser levantados. Em igrejas pentecostais, por exemplo, é muito comum que mulheres de pouca instrução, que ocupam funções com baixas remunerações e que convivem com limitações familiares e sociais, que na sociedade passem como pessoas sem qualquer relevância maior, contudo, em suas comunidades de fé, ocupam lugar de relevância e de fala, sendo dignificadas.

Nessas comunidades de fé pentecostais, a mulher semianalfabeta ou mesmo analfabeta não é só uma mulher semianalfabeta ou analfabeta: ela é bem mais que isso; ela é a líder espiritual de um grupo de mulheres no Círculo de Oração, é a pastora, é a missionária que planta igrejas, é a esposa do pastor que, na prática, muitas vezes, pastoreia juntamente com ele, dentre outras ativi- dades que contribuem para dar a ela voz e vez, e integrá-la, legitimamente, a um grupo maior, o qual, por sua vez, a reconhece e respeita.

Também o trabalhador braçal, analfabeto, sem uma colocação social de maior destaque, assume, na sua comunidade de fé, a posição de alguém importante, relevante para os seus “irmãos”. Ele é o diácono, o presbítero, o evangelista, por vezes o pastor da comunidade de fé. Ele é útil, ele é respeitado como obreiro, como líder espiritual de um “rebanho”. Ali ele é dignificado, e sua existência ganha profundo significado e utilidade.

Esses espaços religiosos podem ser compreendidos como espaços de dignidade e de dignifi- cação do ser humano num determinado círculo social e religioso. E esse processo de dignificação humana, verificada em muitas comunidades de fé evangélicas, é o reflexo de pessoas que se unem e se ajudam em torno de uma fé comum, a fé pentecostal. Em grande parte do movimento evangé- lico brasileiro, são pessoas com poucos recursos que, ligadas por uma mesma fé e por uma mesma experiência religiosa, caminham juntas na vida e se auxiliam, inclusive, em demandas sociais e vicissitudes nas quais o Estado não se faz presente e das quais uma parcela significativa da população e da academia não toma parte existencial.

O Documentário Santa Cruz (1999), dirigido por João Moreira Salles, retrata o desenvolvi- mento de uma pequena comunidade de fé pentecostal na cidade de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

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Esse documentário apresenta situações e depoimentos que podem ser vistos como evidências de que as comunidades de fé evangélicas podem constituir-se ambientes em que seus membros se ajudam:

O documentário também retrata um pouco da história de Maria Noêmia, casada, apo- sentada e missionária. Ela se doa à comunidade, prestando "orações fortes” em favor de curas e "abertura de porta de emprego" (expressão que é quase um idiomatismo pente- costal). Ela se sente na obrigação de repassar aquilo que ela entende como dom recebido de Deus, dádiva alcançada para ajudar as pessoas. A senhora Maria Noêmia aparece no documentário sempre acompanhada de seu marido. Ela relata que sua vida antes da conversão era marcada pelo sofrimento, tendo falta até mesmo de itens essenciais à vida, como a alimentação. Comenta ainda que tinha uma vida entregue ao vício das bebidas alcoólicas, chegando a procurar ajuda em religiões espíritas e de matriz africana para abandonar o vício, sem, contudo, obter sucesso. Foi somente quando se converteu ao evangelho que abandonou definitivamente o vício. A senhora Maria Noêmia é mencionada pelo Pastor Jamil [o líder da igreja] como sendo uma missionária, que em suas andanças abre novos "trabalhos”. Seu exemplo é um dentre milhares no Brasil que se doaram a esse esforço missionário no sentido de compartilhar a mensagem do evangelho (COZZER; SILVA, 2018, p. 24, grifo meu).

Todavia, como mencionado anteriormente, as comunidades de fé evangélicas também podem constituir-se espaços adoecedores das pessoas. Essa dinâmica ambivalente é uma realidade para essas igrejas. Essas comunidades são mantenedoras de determinados complexos de ignorância. Em geral, são fruto ou minimamente mantêm relação com má hermenêutica do texto bíblico. E nessa conjuntura a Bíblia acaba sendo usada para legitimar esses complexos de ignorância.

Esses complexos de ignorância contribuem para que se estabeleçam práticas nas comunidades de fé que são por demais negativas, como a exclusão e a segregação de pessoas em seu interior, em função de questões de natureza teológica, moral e até política. Pessoas divorciadas (com destaque para mulheres divorciadas), homossexuais, o jovem ou a jovem que manteve relações sexuais antes do casamento, o obreiro que diverge de sua liderança exemplifica classes de pessoas que são segre- gadas e, quando não, excluídas da comunidade de fé.

Essa postura adoecedora assumida pelas comunidades de fé evangélicas deve muito ao fun- damentalismo teológico e religioso, muito típico, tanto em igrejas tradicionais e reformadas, como em igrejas pentecostais. Naturalmente, o movimento evangélico brasileiro está começando a “pagar uma conta" muito alta em função disso. Ao menos três reflexos dessa ambivalência do contexto eclesial podem aqui ser destacados, de modo resumido.

Em primeiro lugar, o “derretimento” da instituição eclesial: cada vez mais, a instituição faz menos sentido. Não por acaso, cresce no Brasil um movimento que, embora amorfo, é real: o movimento dos “desigrejados”. Esse fenômeno sinaliza para as significativas modificações que vem acontecendo no cenário religioso brasileiro e, em particular, no universo protestante (NEPOMU- CENO, 2020, p. 14).

Em segundo lugar, o adoecimento emocional das pessoas que integram essas comunidades de fé. Por fim, o empobrecimento do discurso religioso, pentecostal e reformado: discursos pro- fundamente comprometidos com a legitimação da instituição, da teologia vigente, do moralismo religioso, dentre outros aspectos, e que muito pouco tem a oferecer sobre Jesus, sobre o evangelho e sobre a condição humana.

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APORTES PARA A MELHORIA DA RELAÇÃO INDIVÍDUO E CONTEXTO RELIGIOSO

Diversos fatores podem ser considerados como aportes possíveis para a melhoria da relação do indivíduo e o contexto religioso no qual ele mesmo se insere. Um deles é o uso de terapias ou de uma terapia em particular para auxiliar os indivíduos no sentido de melhorarem sua própria espiritualidade e a lidar melhor com determinados desafios existenciais que se colocam para ele. Atualmente, existem diversas terapias às quais se pode recorrer para auxiliar na [re]organização desse mundo interior, isto é, da espiritualidade.

Uma dessas terapias é a TCC, Terapia Cognitivo Comportamental. Essa terapia se ocupa da questão do comportamento humano. Pode ser entendida como uma psicoterapia. E psicoterapia é um "método de tratamento psicológico das doenças psíquicas que utiliza como meio terapêutico a relação entre o médico e o paciente, sob a forma de uma relação ou de uma transferência” (ROU- DINESCO; PLON, 1998, p. 624).

Terapias como a Cognitivo Comportamental podem contribuir, inclusive, para o melhora- mento das relações coletivas no interior das comunidades de fé. Uma vez que o indivíduo melhora, esse já é um caminho para o melhoramento da comunidade no seu todo. Desse modo, havendo essa abertura por parte das comunidades de fé, elas poderiam ser significativamente beneficiadas pelo diálogo com essa área de conhecimento e pela atuação de profissionais da TCC em seu interior ou mesmo que externamente a elas, atendendo seus membros.

Na TCC acontece de se propor que o atendido faça ressignificações de valores e de ideias que carrega consigo, construídos ao longo da sua vida. A TCC também propõe a adoção de determinadas práticas e de emoções que beneficiem o indivíduo. É que a TCC foca nas questões comportamental e cognitiva, em como a cognição do sujeito reflete em seu comportamento.

A TCC emprega técnicas que lidam com as emoções, ações e pensamentos do indivíduo, e se coloca ainda como uma resposta possível para se lidar com determinados transtornos, como destacado, inclusive, por Aaron T. Beeck: “[...] um número crescente de diferentes transtornos, e transtornos mais graves, são agora tratados com terapia cognitiva [...]” (BEECK, 2000, p. 14).

Sugerir que uma terapia seja usada no sentido de auxiliar o indivíduo a lidar com os desafios que o contexto eclesial pode colocar implica sugerir uma abertura no sentido de que se recorra a ajuda especializada e profissional para o melhoramento das relações comunitárias da fé e para a própria vivência do indivíduo nesse contexto. Vale considerar aqui o que foi escrito por um pastor a respeito do problema da depressão, tão recorrente na atualidade, inclusive entre pessoas religiosas:

Estima-se que 20% das pessoas estão sofrendo com problemas depressivos. Segundo a OMS37, a depressão aumenta na proporção de 1% ao ano e a previsão é que ela será o principal problema de saúde até 2020.

Tanto a psiquiatria quanto a psicologia têm feito grandes avanços no campo dos distúrbios depressivos, porém ainda “derrapam” numa série de paradigmas errados, experimentando uma grande margem de ineficiência.

[...] O que vemos, na prática, é que a abordagem pastoral em associação com as demais abordagens, devidamente peneiradas, parece produzir os melhores resultados diante do enorme desafio que envolve qualquer quadro depressivo (BORGES, 2007, p. 07).

A religiosidade por si só nem sempre será suficiente, como também a Psicologia e outras áreas de conhecimento também não serão suficientes em si mesmas para a resolução de determinados

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problemas enfrentados pelo indivíduo em âmbito religioso. Por isso mesmo, adiante serão suge- ridos "caminhos possíveis” a serem seguidos pelas comunidades eclesiais, que podem contribuir diretamente para a diminuição dessa ambivalência existencial com vistas a tornar as igrejas mais saudáveis e a cumprir assim a missão a que se destinam, de fato.

CAMINHOS POSSÍVEIS E VIÁVEIS

Há caminhos viáveis com vistas a diminuir essa ambivalência no contexto religioso evangélico. Aqui são sugeridos pelo menos três. Em primeiro lugar, pode-se buscar transpor didaticamente a Hermenêutica e a Exegese Bíblicas a serviço da humanização das comunidades de fé evangélicas. Essas disciplinas teológicas muito podem contribuir no sentido de superar complexos de ignorância, que contribuem para adoecer as comunidades de fé, e que são decorrentes de má interpretação da Bíblia. Discorrendo sobre a tarefa da Exegese Bíblica, Uwe Wegner afirma o seguinte:

Ela [a Exegese Bíblica] deve ter uma finalidade comunitária e popular, exatamente no sentido de poder melhor respaldar, confirmar, alimentar e animar, mas eventualmente também redirecionar, corrigir ou relativizar as expressões e convicções de fé das comu- nidades. A exegese pode, assim, oferecer importantes subsídios para a leitura popular dos textos bíblicos (WEGNER, 1998, p. 24, grifo meu).

Wegner entende a Exegese Bíblica como uma disciplina contributiva às comunidades de fé e útil tanto para reafirmar determinadas crenças, como também para relativizar outras.

A primeira tarefa da exegese é aclarar as situações descritas nos textos, ou seja, redescobrir o passado bíblico de tal forma que o que foi narrado nos textos se torne transparente e compreensível para nós que vivemos em outra época e em circunstâncias e cultura diferentes.

(...) A segunda tarefa da exegese é permitir que possa ser ouvida a intenção que o texto teve em sua origem, à parte do filtro que representam nossos condicionamentos como leitores. [...] As várias confissões distinguem-se entre si por priorizar determinados textos, certas linhas de interpretação e conteúdos específicos da Bíblia. Na medida em que interpreta cuidadosamente os textos, a exegese pode oferecer importantes subsídios para as igrejas verificarem ou revisarem suas opções. A exegese séria levar-nos-á sempre a um confronto sadio com posições ou alternativas de interpretação confessionais diferentes da nossa, podendo oferecer importante respaldo para os esforços de aproximação doutrinal e ética entre as igrejas (WEGNER, 1998, p. 23).

Como se pode perceber pelos textos de Wegner, uma disciplina teológica específica pode ser encarada como útil à igreja e, por extensão, pode-se afirmar que a própria Teologia. Deste modo, um segundo caminho possível implica em promover uma abertura teologal com vistas ao diálogo e ao acolhimento. Essa abertura teologal não necessariamente implica a abolição de uma teologia própria, confessional. Ou a abolição de uma tradição teológica específica.

Mesmo uma teologia que esteja a serviço de uma confessionalidade e que busque reafirmar determinados dogmas, pode mostrar-se mais aberta, dialogal e sensível às demandas de uma époса para a qual ela mesmo se dirige, operando, inclusive, em termos de transdisciplinaridade.

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Pensar uma disciplina teológica em termos de transdisciplinaridade significa [...] pensar uma teologia que seja bíblica e ortodoxa, mas não unívoca e ensimesmada. Podemos aprender com nossos irmãos que pensam diferente! Sempre há aquele "ângulo” não observado por nós, aquele detalhe exegético que passou despercebido e aquela sensibi- lidade sentida pelo outro e não por nós, em alguns momentos. Que riqueza há nisso. O diálogo, sem dúvida, abre as fronteiras do conhecimento, fortalece a cooperação mútua e ajuda na construção de uma Teologia que, mantendo-se fiel aos cânones da ortodoxia bíblica, se abre à possibilidade de atualização, revisão e melhoramento (COZZER; HENRIQUE, 2021, p. 12).

Por fim, outro caminho possível consiste em buscar promover a recuperação de epistemolo- gias fundamentais à Eclesiologia brasileira, como as que se seguem: compreensão de que a comu- nidade é mais importante que coletividade, que a ética é mais necessária que estética, e que a vida humana deve estar acima da instituição. Todos esses caminhos são possíveis de serem percorridos pelas lideranças evangélicas com suas respectivas comunidades de fé, visando, assim, o seu próprio bem-estar espiritual, emocional, espiritual e relacional.

As comunidades de fé evangélicas não passaram incólumes a determinadas tendências ruins da Pós-modernidade, a determinadas desafios que ela coloca. Um deles é o do consumismo que conduz ao adoecimento emocional e espiritual das pessoas. Leve-se em conta que na Pós-modernidade o consu- mismo transpôs os limites do consumo de bens e de serviços e entrou na esfera das relações humanas. O consumismo acaba por valorizar, mesmo que de modo inconsciente, o supérfluo, o fútil.

Não necessariamente decorre do atendimento a necessidades humanas básicas e legítimas:

[...] hoje, o desejo de consumo é considerado como de grande importância. É dado im- prescindível na máquina que move o mercado. O grande prazer da maioria dos brasileiros é passear no shopping e comprar. Somos seduzidos pelo prazer de consumir, de comprar, não por causa de uma necessidade verdadeira, mas de uma necessidade percebida, pre- sumida e pelo simples prazer (GOMES, 2010, p. 72).

No contexto religioso, o consumismo assume roupagem religiosa. Não deixa de ser uma forma degradante de consumismo por ser consumismo religioso. E ele estabelece uma mudança substancial na relação do indivíduo com o divino, com a comunidade de fé e com as práticas reli- giosas. Um relação que se baseia na troca de bens e serviços religiosos e, por vezes, meramente em interesses de natureza narcísica e econômica.

Para o protestantismo histórico, Cristo é o centro da sua devoção e o amor ao próximo uma viga mestra na prática religiosa do protestante. Valores como simplicidade, alteridade, cuidado, fra- ternidade e liberalidade para com os necessitados são absolutamente familiares a esse protestantismo. Contudo, diante dessa realidade de consumismo religioso, esses valores sofrem um esvaziamento e a religiosidade vai assumindo outros contornos que são adoecedores. Daí a necessidade de se resgatar valores fundantes da fé crista histórica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Note-se que o conceito de “comunidade” está intimamente ligado à concepção teológica de igreja. E comunidade pressupõe unidade e fraternidade, demandando elos reais entre seus mem-

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bros, o que, por vezes, não se observa mais no interior dessas igrejas. Com efeito, no movimento evangélico, o fator comunitário esvaziou-se para dar lugar à valorização da coletividade, dentre outros desafios que o fazem adoecer.

Conquanto a vivência comunitária da fé no interior de uma igreja evangélica represente a melhora da própria subjetividade, é observável também que existam fatores que são altamente des- trutivos no aspecto psicológico, conforme indicados neste artigo. Identificar esses fatores e oferecer respostas possíveis, se coloca como caminho possível para a humanização dessas comunidades de fé. Esta comunicação pretende contribuir, por meio de indicações e diálogo com autores de referência, como os que foram aqui citados, com a questão abordada.

Considerou-se aqui aspectos de natureza teológica, eclesiológica e terapêutica no sentido de diminuir essa ambivalência existencial constatada nas comunidades de fé pentecostais. As comunidades de fé possuem importância vital para aqueles que as frequentam, assumindo exatamente um sentido que também é exist

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