A Crença, o Ritual e a divisão do Poder no discurso oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
ALDENOR ALVES SOARES
“A CRENÇA, O RITUAL E A DIVISÃO DO PODER NO
DISCURSO OFICIAL DA IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL”
Foto: Catedral Anglicana da Santíssima Trindade – Recife (PE)
RECIFE 2002
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA MESTRADO EM SOCIOLOGIA
“A Crença, o Ritual e a divisão do Poder no discurso oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil” por Aldenor Alves Soares
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Sociologia, em cumprimento de requisito para a obtenção do grau de Mestre em Sociologia. Orientador: Dr. Joanildo Albuquerque Burity; Co-orientador: Dr. Paulo Henrique Martins.
RECIFE 2002
ii
BANCA EXAMINADORA
Dr. Paulo Henrique Martins (Presidente – PPGS/UFPE)
Dr. Roberto Mauro Cortez Motta (Examinador Interno – PPGA/UFPE)
Dr. Paulo Donizete Siepierski (Examinador Externo – UFRPE/STBNB)
Drª. Roberta Bivar Carneiro Campos (Suplente – PPGA/UFPE)
iii
DEDICATÓRIA
À Ilcélia Soares, minha irmã, motivadora incansável de minha paixão pelo conhecimento como forma de resgate de uma auto-estima reconciliada.
iv
AGRADECIMENTOS
À minha mãe, Ilce Alves Soares, pelo apoio afetivo e financeiro que tem demonstrado a cada nova etapa de minha formação acadêmica.
Aos professores do Curso de Mestrado em Sociologia da UFPE, pelo estímulo acadêmico e pelas orientações teóricas, principalmente meu orientador Dr. Joanildo Albuquerque Burity e meu co-orientador Dr. Paulo Henrique Martins.
Ao Prof. Alexsandro Silva de Jesus, pela convivência lúdica e intelectualmente estimulante durante o período da pesquisa.
Aos colegas Gustavo Gilson e Luciana Dantas, que durante o curso se transformaram em interlocutores fraternos.
Ao Bispo Sebastião Gameleira e a Paróquia do Semeador, que acolheram-me fraternalmente em suas companhias enquanto eu realizava a pesquisa, possibilitando assim minha inserção no universo simbólico e institucional da IEAB.
E, finalmente, ao meu filho Pedro Paulo e a minha namorada Thelma Cavalcanti, pessoas que dão aquele suporte afetivo sem o qual nenhuma atividade intelectual prospera.
v
ABREVIATURAS
AC: Arcebispo de Cantuária CA: Comunhão Anglicana CAP: Credo Apostólico CAR: Catedral Anglicana do Recife CAT: Catecismo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil CCA: Conselho Consultivo Anglicano CD: Cânones Diocesanos da DAR CG: Cânones Gerais CL: Conferência de Lambeth CN: Credo Niceno CONST: Constituição da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil DAR: Diocese Anglicana do Recife DM: Diocese Meridional DSO: Diocese Sul-ocidental IEAB: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil LO: Liturgia para Ordenações da DAR LOC: Livro de Oração Comum MA: Manual do Acólito MML: Manual do Ministro Leigo e da Ministra Leiga PMSA: Pequeno Manual do Sodalício do Altar QL: Quadrilátero de Lambeth
vi
RP: Reunião dos Primazes TNAR: Trinta e Nove Artigos de Religião
vii
RESUMO
Esta dissertação tem como objeto de estudo o discurso oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), especialmente no que tange à sua configuração institucional concreta: a crença (doutrina), o ritual (liturgia) e a divisão do poder (organização).
A explanação do φαινοµενον é teoricamente baseada na discussão em torno da tipologia "igreja/seita" elaborada pela sociologia do Protestantismo, principalmente em autores como Max Weber, Ernst Troeltsch, Richard Niebuhr, Joachim Wach e Roger Mehl.
A tese central deste trabalho é: "seita" e "igreja" estão em conflito permanente enquanto formas de apropriação social do sagrado (até dentro de uma mesma instituição), apontando direções discursivas ambivalentes; mas também, e de forma indissociável, em uma procura permanente de conciliação retórica sobre a crença, o ritual e a organização.
viii
ABSTRACT
This dissertation has as study object the official speech of the Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), especially in what it plays to its concrete institutional configuration: the faith (doctrine), the ritual (liturgy) and the power (organization).
The explanation of the φαινοµενον is based theoretically in the discussion around the typology "church/sect" elaborated by the sociology of the Protestantism, mainly in authors as Max Weber, Ernst Troeltsch, Richard Niebuhr, Joachim Wach and Roger Mehl.
The central thesis of this work is: "sect" and "church" are in permanent conflict while forms of social appropriation of the sacred (until inside of a same institution), aiming ambivalent discursive directions; but that also, they show in a permanent search of rhetorical conciliation about the faith, the ritual and the organization.
ix
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO, 01
TEORIA TIPOLÓGICA: “ECCLESIA” E “SECTA”, 17 1.1 – O nascimento de uma tipologia: Max Weber, 19 1.2 – Uma tipologia em expansão: Ersnt Troeltsch, 27 1.3 – A metamorfose dos tipos em perspectiva diacrônica: Richard Niebuhr, 32 1.4 – A periferia do modelo sob ataque: Joachim Wach e Roger Mell, 37 1.5 – O continuum, 49
CRENÇA, 59 2.1 – Existe uma “doutrina normativa” distintivamente anglicana?, 59 2.2 – Religião e legitimação: sociologia do éthos anglicano, 81
RITUAL , 96 3.1 – Ritual e Poder: geografia, moda, script e coreografia, 96 3.2 – Ritual e Simbolismo: festas, seqüências litúrgicas e sacramentos, 110 3.3 – Ritual Anglicano: culto de “igreja” e não de “seita”, 128
PODER, 134 4.1 – O local, o regional, o nacional e o global no anglicanismo, 134 4.2 – O estamento sacerdotal: graus hierárquicos e atribuições, 149
x
4.3 – O estamento laico: tipologia, funções e poder, 155 4.4 – Controle Disciplinar, 160
CONCLUSÃO, 167 BIBLIOGRAFIA, 170 ANEXO, 179
xi
INTRODUÇÃO
O uso acadêmico das categorias analíticas “seita” e “igreja” em sociologia da religião é, ao mesmo tempo, clássico, problemático e meio fora de moda. Clássico porque ligado a nomes como Weber (1944, 1982, 1994) e Troeltsch (1931, 1976), além de ter sido usado em larga escala e por um bom tempo na tradição da sociologia da religião (que manual de sociologia da religião não faz referência a tais termos?).
Problemático porque vem sofrendo uma série de questionamentos sobre sua legitimidade enquanto instrumento de análise sociológica de alguns fenômenos religiosos (o neopentecostalismo brasileiro, in Campos, 1997:36-38; os novos movimentos religiosos na América Latina, in Cipriani et all, 2000:77-94) e meio fora de moda porque parece estar caindo cada vez mais em esquecimento na literatura especializada.
Tais constatações não significam, porém, que estas categorias caducaram completamente e já não possuem nenhuma utilidade hermenêutica ou qualquer potência heurística. Pelo contrário: usadas corretamente ainda podem oferecer um quadro de referência interessante e útil para a compreensão de alguns fenômenos religiosos.
xii
Empiricamente, seu uso deve estar circunscrito ao cristianismo, mais especificamente ao Catolicismo Romano e àquelas instituições religiosas surgidas da Reforma Protestante (séc. XVI) e que, em alguns casos, tornaram-se oficiais em estados europeus específicos (Anglicana, Luterana e Reformada/Presbiteriana). Mesmo nessa circunscrição tal uso não pode ser aleatório e indiscriminado: há aspectos envolvidos na realidade factual destas instituições religiosas que podem ser melhor compreendidos com o uso de outras categorias hermenêuticas.
Assim sendo, algumas instituições religiosas em alguns aspectos (bastante idiossincráticos) podem ser compreendidas adequadamente, mas não exaustivamente, pelo uso de tais categorias. A pretensão e o ideal em vista neste estudo é combinar a análise teórica com a realidade empírica: é nesse sentido que se pretende analisar uma realidade empírica específica (a IEAB) e apenas em alguns aspectos (discurso oficial nas áreas da crença, ritual e poder).
Por um lado pretende-se fazer um esforço teórico para compreender tal realidade empírica à luz dessas categorias; e por outro, elucidar certas questões deste aparato teórico a partir de pistas fornecidas pelo próprio objeto de estudo. Dessa forma, teoria e objeto de análise buscarão integrar-se e iluminar-se mutuamente em contribuição e crítica recíproca.
A questão subjacente a esta empresa não se reduz unicamente a compreender se a IEAB é uma “igreja” ou uma “seita” ou taxá-la com este ou aquele rótulo, sepultando-a sob este ou aquele epitáfio de forma preconceituosa ou ideologicamente eivada.
xiii
A IEAB é a escolhida justamente porque sua configuração institucional (crença, ritual e estrutura de poder) possui a característica sui generis de fazer emergir a hipótese de que os tipos ideais “seita” e “igreja” estão em conflito permanente enquanto formas de apropriação social do sagrado (mesmo dentro de uma mesma instituição), apontando direções discursivas ambivalentes; mas que também e de forma indissociável, manifesta-se numa busca permanente de conciliação retórica sobre a crença, o ritual e a estrutura de poder.
Dessa forma, o que estamos sugerindo é que as categorias analíticas “igreja” e “seita” sejam visadas de forma dialética, delimitando assim seu uso teórico. Por um lado o objeto de análise possibilita o questionamento de alguns usos enviesados dessas categorias (p. ex: supor que existe apenas conflito entre tais tipos), e por outro, esta abordagem específica das categorias (a abordagem dialética) oferece um exemplo elucidativo de sua contemporaneidade em termos de funcionalidade hermenêutica.
Epistemologicamente falando, surge então a possibilidade de uma síntese criativa e frutífera entre uma teoria sociológica que se pretende científica (na medida em que é capaz de confrontar-se com a realidade factual e fenomênica e de tal faticidade haurir uma interlocução relevante do ponto de vista compreensivo e explicativo) e seu objeto empírico de análise.
Teoria e objeto de estudo iluminam-se dialeticamente, contribuindo para enriquecer a reflexão da teoria sociológica da religião, assim como a compreensão de alguns aspectos da IEAB (uma religião específica) enquanto realidade empírica. Deste
xiv
movimento ondulatório e dessa circunlocução pretende-se oferecer uma modesta contribuição aos estudos sociológicos do protestantismo brasileiro.
A IEAB é a representante tupiniquim do anglicanismo; e nesta tradição religiosa convivem lado a lado, tendências discursivas católicas e protestantes de uma forma especial e única: nenhum outro ramo do cristianismo brasileiro faz dessa síntese seu modo de produção religiosa característico como faz o anglicanismo.
Como a análise sociológica do cristianismo ocidental moderno, baseado no uso das categorias “seita” e “igreja”, busca dar conta especificamente da relação entre algumas ênfases que se cristalizaram de forma exemplar no catolicismo e no protestantismo, o anglicanismo melhor do que qualquer outro ramo do cristianismo – por manter tais ênfases juntas – pode oferecer sua inventividade retórica como um objeto de análise singular no que tange à relação entre “igreja” e “seita” e algumas de suas possibilidades históricas; que a propósito, coloca em xeque algumas apropriações indevidas dessas categorias, que em geral acabam caindo no erro do essencialismo (que é supor as categorias na qualidade de realidades empíricas acabadas e não como tipos ideais).
A delimitação conceitual proposta neste estudo é: tais categorias, usadas de forma dialética (supondo conflito e reconciliação in actu), oferecem um útil instrumento de avaliação (num continuum) da configuração sociológica (forma de associação, grau de solidariedade, tipo de liderança, controle; em suma, processo de institucionalização e racionalização) exarada no discurso oficial da IEAB.
xv
Com vistas à delimitação do objeto de estudo, pode-se dizer que o discurso oficial, concretamente delimitado naqueles documentos que a instituição sacramentou como normativos para a crença, o ritual e a estrutura de poder, torna-se a mediação visível (o sacramentum) entre o fenômeno religioso enquanto construção social e seu locus de expressividade; afinal o discurso oficial contém também, de forma explícita ou subliminar, os elementos que poderiam ser denominados de apriorísticos, isto é, reveladores da condição social da possibilidade (para usar uma adaptação que Bourdieu fez de Kant) de sua existência. Dialeticamente falando: discurso oficial e sua respectiva condição de produção correlacionam-se e iluminam-se reciprocamente.
Isto não significa nem implica que o discurso não-oficial também não expresse tal densidade apriorística; pode expressar até mais em alguns contextos. Os dois caminhos oferecem pistas que podem levar aos fatores e condicionantes sociais. A decisão de usar o primeiro e não o segundo neste estudo está mais relacionada à convicção de que mesmo o segundo dependerá do primeiro para sua eficaz empreitada.
O limite imposto a quem prefere circunscrever-se ao discurso oficial tem seu ônus (isto é inegável!), no entanto, é um tributo que deve ser pago em nome da construção de uma base consistente para pesquisas ulteriores, como também em nome do conhecimento cumulativo, afinal uma nova geração de pesquisas sobre o tema não poderá ser construída ex nihilo!
A IEAB é uma instituição religiosa minoritária (cerca de 90.000 membros no território nacional, sendo 5.000 em Recife) e sem expressão no espaço público
xvi
brasileiro, embora não se deva desprezar o fato de que o anglicanismo (CA = Comunhão Anglicana) está presente em 165 países e conta atualmente com cerca de 100 milhões de membros, vale dizer, constitui-se no maior grupo dentro do protestantismo histórico, e o terceiro do cristianismo, ao lado de ortodoxos orientais (IO = Igreja Ortodoxa [300 milhões]) e católicos romanos (ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana [800 milhões]).
GRÁFICO 1: CONTINGENTE DAS 3 MAIORES IGREJAS CRISTÃS DO MUNDO¹ OS TRÊS MAIORES GRUPOS CRISTÃOS DO MUNDO ICAR CA IO Fonte: Anglican Communion
A IEAB, no entanto, é tão interessante como objeto de estudo, que mesmo sendo assim sua realidade no Brasil (centenária² e estéril como a Sara do Patriarca judeu Abraão), ainda é capaz de atrair a atenção e despertar o eros científico de um sociólogo: eu sou a prova viva deste fato! Este é um terreno onde números e projeção midiática talvez não devessem pesar tanto. Aliás, mesmo que fosse apenas para explicar mais uma ínfima parte da realidade fenomênica, ainda assim justificar-se-ia este labor acadêmico sobre a IEAB, que pretende ser enriquecedor do ponto de vista científico. Não é a voragem por penetrar toda a realidade algo constitutivo do verdadeiro labor científico?
¹ No Protestantismo histórico, os 3 maiores grupos são os luteranos (90 milhões), presbiterianos (70 milhões) e batistas (55 milhões).
xvii
A “realidade” ou o “conhecimento” per si já não convencem a muitos da importância, relevância e urgência de uma pesquisa nestes tempos de descrença na neutralidade axiológica e relativização epistemológica; é que na verdade, o que para uns é a “menina dos olhos”, para outros sequer existe. Como convencer o incrédulo das visões da fé? Como convencer aquele que não está apaixonado das realidades invisíveis do amor? Qualquer tentativa soa como legitimação.
Com exceção de uma tese de doutoramento defendida no Departamento de História da Universidade de São Paulo - USP (que focaliza apenas o cenário baiano num determinado corte cronológico, comparando representações do anglicanismo local e do movimento batista numa perspectiva histórica: Silva, 1998), não se tem notícia de outro esforço da academia brasileira para visar o anglicanismo tupiniquim como um objeto digno de análise científica.
Objeto de estudo socialmente insignificante e ignorado academicamente! Por que ainda insisto em visá-lo cientificamente? Já disse: entre outras razões, estou convencido de sua contribuição para uma releitura das categorias “igreja” e “seita” em perspectiva dialética na sociologia da religião, bem como da necessidade de ampliar o conhecimento acadêmico sobre a realidade fenomênica do universo protestante brasileiro. Isto não basta? Então vejamos.
Segundo todos os prognósticos, as denominações que compõem o protestantismo histórico brasileiro estão vegetando estatisticamente em comparação com o vigoroso boom do neopentecostalismo; no entanto a Catedral Anglicana do
² Veja o anexo sobre a Sinopse de História da IEAB.
xviii
Recife (CAR), que conta atualmente com 3.500 membros, ostenta um crescimento estatístico sem precedentes e sem concorrentes na dimensão local do protestantismo histórico pernambucano, e mesmo em muitos setores do neopentecostalismo.
Quais fatores interferem neste processo e torna possível que uma paróquia da minguada IEAB revele-se tão eficiente no quesito do “crescimento numérico” quanto uma comunidade religiosa neopentecostal? Que relação existe entre esta performance da CAR e a IEAB enquanto instituição religiosa?
Mais: o reitor da CAR é um carismático líder de destaque no cenário religioso e secular pernambucano, talvez um dos maiores em termos de desenvoltura e habilidade de trânsito na high society e na eficiência enquanto “cura d’almas”. Este fenômeno relaciona-se de alguma forma com a IEAB enquanto instituição religiosa ou emerge completamente divorciado de sua realidade?
A Diocese Anglicana do Recife (DAR) atraiu recentemente um grande número de clérigos de outras denominações cristãs para seus quadros e está em pleno processo de expansão no Nordeste. O que está acontecendo por trás desse processo migratório e expansionista? Uma leitura destes fenômenos com as lentes das categorias “igreja” e “seita”, devidamente submetidas a um processo de purificação, não seria em nada adequado, proveitoso ou enriquecedor?
Todas essas perguntas apontam numa direção: no contexto do Recife o anglicanismo pede uma avaliação acadêmica mais detida, pelo menos se o protestantismo histórico ainda desperta algum interesse nos herdeiros de Weber!
xix
Todavia, para compreender o fenômeno local (CAR, DAR), faz-se necessário visar inicialmente sua configuração mais ampla - a IEAB (a dimensão nacional da DAR), pois esta faz parte daquela assim como o planeta gira na órbita do sol.
Não tenho dúvidas que uma análise sociológica da retórica oficial da IEAB nas áreas da crença, ritual e estrutura de poder constitui-se conditio sine qua non para a compreensão dos processos in actu mencionados acima como parte da realidade e do cenário religioso local.
É justamente neste ponto em que se situa a contribuição deste estudo e não especificamente na análise exaustiva dos processos mencionados do contexto da DAR, vale dizer, o crescimento local, o expansionismo regional e o trânsito religioso de quadros sacerdotais.
Esta análise sociológica da retórica oficial da IEAB que ora intentamos empreender, também constitui-se como tarefa prioritária, prévia e fundamental para ulteriores pesquisas sobre o campo anglicano. Todos estes fatores apontam para a relevância, urgência e necessidade de uma pesquisa como esta.
O problema central desta pesquisa é:
► de que forma a retórica da instituição religiosa denominada IEAB formula seu discurso oficial (nas áreas da crença, ritual e estrutura de poder) com o intuito de dar conta de sua tentativa de síntese entre as tradições católica e protestante? Ou em outras palavras: como a doutrina, a liturgia e a máquina administrativa da IEAB articulam
xx
sintética e dialeticamente aqueles elementos típicos de “igreja” e “seita” em seu universo simbólico?
Catolicismo e Protestantismo são geralmente apontados como configurações históricas exemplares no que diz respeito à cristalização e sedimentação daqueles elementos que são reunidos para a construção de uma tipologia das comunidades religiosas como sendo “igrejas” e “seitas” respectivamente.
Supõe-se (equivocadamente) apenas o conflito entre tais categorias, que seriam reunidas num gradiente (continuum) de forma a ocuparem posições diametralmente opostas ou pelo menos configuradas como estando em pólos contrários. O nó górdio é que a IEAB, como nenhuma outra denominação religiosa brasileira, reúne numa mesma instituição elementos tradicionalmente ligados a estas duas tradições virtualmente consideradas contraditórias.
Sendo assim, várias questões emergem da discussão deste problema: isto é possível de ser feito de forma consistente? Como isto é operacionalizado na IEAB? Esta tentativa dialética de síntese entre “igreja” (representada por elementos típicos do catolicismo romano) e “seita” (representada por elementos típicos do protestantismo), que o discurso oficial da IEAB busca operar, coloca em xeque ou pelo menos abre a possibilidade de uma releitura de tais categorias enquanto instrumentos de análise sociológica para a construção de uma tipologia dialética das comunidades religiosas? O caráter heurístico de tais categorias aplica-se ao caso da IEAB?
xxi
As hipóteses subjacentes a este trabalho são:
O discurso oficial da IEAB nas áreas da formulação doutrinária (crença), convenção litúrgica (ritual) e estrutura organizacional (poder) esforça-se para acoplar elementos contraditórios e antitéticos numa síntese nem sempre lógica ou coerente, hesitando constantemente entre um discurso de “igreja” e um discurso de “seita”, dependendo da influência em sua formulação da corrente teológica em foco (high church x low church); mas, sem dúvida, numa permanente busca de equacionamento da problemática eclesial e teológica em diálogo com as tradições católica e protestante;
O conflito que eclodiu na Reforma Protestante (séc. XVI), perpetua-se na IEAB em forma de tensão dialética interna como em nenhuma outra instituição religiosa brasileira. Este elemento é o novum que a IEAB pode oferecer ao contexto religioso brasileiro; e é isto especificamente o que lhe pode abrir perspectivas variadas de existência no conturbado e imprevisível contexto religioso brasileiro;
Como dissemos anteriormente: “seita” e “igreja” estão em conflito permanente enquanto formas de apropriação social do sagrado (mesmo dentro de uma mesma instituição), apontando direções discursivas ambivalentes; mas que também e de forma indissociável, manifestam-se numa busca permanente de conciliação retórica sobre a crença, o ritual e a estrutura de poder;
Os tipos puros “seita” e “igreja” não existem na realidade empírica; daí que servem apenas para avaliar (de forma didática) numa espécie de continuum (gradiente) certos traços ou características sociológicas das comunidades³ com o objetivo de melhor descrevê-los e classificá-los, explicando desta forma a tendência de seus
³ Forma de associação, grau de solidariedade, tipo de liderança, controle; a saber, os estágios de institucionalização e racionalização.
xxii
movimentos e determinando aqueles aspectos que podem ser considerados como constantes ou variáveis.
O objetivo geral deste trabalho é:
► Conhecer de forma mais profunda e científica (a partir do instrumental teórico vinculado às categorias “seita” e “igreja” da sociologia da religião) a instituição religiosa denominada “IEAB” (enquanto detentora de poder discursivo oficial para produzir sentido religioso em forma de crença, ritual e estrutura de poder).
Os objetivos específicos são:
Descrever e sintetizar parcialmente os principais conteúdos dos documentos oficiais da IEAB (o ritual contido no LOC, a estrutura de poder proposta nos Cânones/Constituição e o “espírito” da confissão de crença exarada nos Credos, 39 Artigos de Religião, Quadrilátero de Lambeth e no próprio LOC);
Definir e conceituar tais conteúdos, para assim poder compreender a lógica e sentido que possuem para a própria IEAB;
Comparar e diferenciar tais significados de seus concorrentes mais próximos, especificamente aqueles cristalizados de forma mais substancial na tradição Católica Romana de um lado e na tradição Protestante do outro;
Enfatizar e frisar aqueles pontos de maior relevância da crença, ritual e organização onde a tentativa de conciliação ou a expressão do conflito entre “igreja” e “seita” manifesta-se de forma explícita ou subliminar, e, finalmente;
xxiii
- Interpretar e explicar o objeto de estudo através do expediente de aplicar e relacionar as categorias analíticas “seita” e “igreja” da sociologia da religião à síntese que a IEAB procurar operar entre tendências católicas e protestantes, virtualmente presentes nos seus atos retóricos que são especificamente visados neste estudo.
No que diz respeito à metodologia, é importante frisar que a coleta de dados realizou-se mediante a aplicação de três técnicas: observação participante, entrevistas não-estruturadas (naturais e focalizadas: Gil, 1995; Richardson, 1999) e pesquisa documental:
- Filiei-me oficialmente à IEAB em 15 de dezembro de 1997 (quando recebi o rito sacramental da Confirmação das mãos do Bispo diocesano local) e atuei como um adepto até o primeiro semestre de 2000 (quando enviei carta ao Bispo diocesano solicitando minha exclusão do rol de membros da instituição). Neste período procurei vivenciar intensamente a condição de membro em plena comunhão, Ministro Leigo (na Missão do Semeador) e Candidato às Sagradas Ordens, transitando entre as paróquias e no âmbito do clero diocesano. Nesta condição, procurei atuar como um membro pleno do grupo, com suas idiossincrasias rituais, credais e organizacionais. Foi fundamental tal inserção para compreender adequadamente e em profundidade o universo simbólico dessa instituição religiosa. Em momento algum revelei que ali estava também para proceder a uma coleta de dados para uma pesquisa acadêmica. Na verdade, tal postura foi importante para resguardar de maiores distorções o fenômeno observado, que fatalmente ocorreriam se os atores e sujeitos do processo tomassem consciência de que eu era um elemento “alienígena” e um “espião”.
xxiv
Mais do que isso: procurei sentir na própria pele o modus vivendi existencial e institucional de um membro comum da IEAB. Nesse período freqüentei os serviços religiosos, recebi os sacramentos e auxiliei o Presbítero da Missão do Semeador (o hoje Bispo Sebastião Gameleira) na sua obra pastoral, missionária e docente (na verdade, minha prévia formação acadêmica na área de teologia e experiência anterior com comunidades religiosas na função pastoral, ajudaram no meu processo de inserção institucional na IEAB). Também participei de cursos de formação do Seminário Teológico Anglicano do Recife, estudando matérias específicas sobre a IEAB e o anglicanismo, assim como observei reuniões litúrgicas de várias paróquias e encontros conciliares da DAR;
Conversei exaustivamente com diversos clérigos e leigos (sempre informalmente), “entrevistando-os” de forma não-estruturada e não-programada; procurando habitar da forma mais natural possível esse universo simbólico; fazendo parte integral dele, sem jamais perder de vista o objetivo de estudá-lo sociologicamente a partir “de dentro”, mas com o visar “de fora”;
Além de observar de forma participante (Gil, 1995:105-110) e de dialogar com vários atores sociais da IEAB – algo fundamental para “ouvir” a tradição oral circulante no espaço sagrado e sua forma de apropriação do discurso oficial (aquilo que as pessoas “sabem, explicam ou arrazoam”: Selltiz et al, 1967:273) – procedi pesquisa documental de fontes primárias e secundárias.
A Pesquisa Participante possibilitou-nos: a) o acesso a dados sobre situações habituais em que os membros das comunidades da IEAB estavam envolvidos; b) a possibilidade de acesso a dados que a instituição considera de domínio privado e; c) a
xxv
captação das “palavras de esclarecimento” que acompanham o comportamento dos observados no que se refere à tríade crença-ritual-poder (Kluckhoon, 1946:103-118).
Analisei o conteúdo dos seguintes documentos (fontes primárias): a) Livro de Oração Comum (para o ritual); b) Catecismo, 39 Artigos de Religião e Credos (para a crença) e; c) Cânones Gerais/Diocesanos e a Constituição (para a estrutura de poder).
Embora o método da Análise de Conteúdo (AC) não tenha sido utilizado de forma exclusiva e exaustiva, buscou-se detectar de forma qualitativa: a) as características “ausentes” da mensagem (Richardson, 1999:221) e; b) as inferências dos conhecimentos relativos às “condições de produção e recepção” (Bardin, 1979:31) da mensagem contida nos documentos oficiais da IEAB.
Também, complementando a AC, alguns insights da Análise de Discurso (AD) foram incorporados ao trabalho para explicitar, ainda que en passant, a implicação ideológica (Orlandi, 1999:16,31,32,38; Pêcheux, 1975 e Brandão, 1997:27) de alguns mecanismos de manutenção do universo simbólico anglicano.
Também, como está listada na bibliografia, consultei vários textos (fontes secundárias) da autoria de teólogos anglicanos, assim como de especialistas não anglicanos sobre anglicanismo, teologia e sociologia da religião.
Acredito que desta forma foi possível acumular “conhecimento” sobre o anglicanismo, a IEAB e a DAR de forma substancial, ou pelo menos de uma forma que
xxvi
a análise ora empreendida seja revestida de informações coletadas de um modo criterioso, confiável, sistemático e racional.
A estrutura do trabalho é dividida em quatro capítulos:
- No primeiro, discute-se uma fundamentação teórica como approach do fenômeno estudado a partir das categorias “seita” e “igreja”, conforme a perspectiva da sociologia do protestant