A Crise do Anglicanismo entre Modernidade e Pós-Modernidade: O Caso da Diocese Anglicana do Recife

Versão Integral em Texto

A Crise do Anglicanismo entre Modernidade e Pós-Modernidade: O Caso da Diocese Anglicana do Recife

Gecionny Rodrigo Pinto de Souza2009

A CRISE DO ANGLICANISMO ENTRE MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE: O CASO DA DIOCESE ANGLICANA DO RECIFE

GECIONNY RODRIGO PINTO DE SOUZA

Natal/RN 2009


GECIONNY RODRIGO PINTO DE SOUZA

A CRISE DO ANGLICANISMO ENTRE MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE: O CASO DA DIOCESE ANGLICANA DO RECIFE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como Requisito para obtenção do título de especialista na Pós-graduação lato sensu em Ética, Subjetividade e Educação pela Escola Superior de Teologia (EST/RS), tendo como orientador o Prof. Ms.Anaxuel Fernandes.

Natal/RN 2009


DEDICATÓRIA

Dedico este estudo, em primeiro lugar, a minha esposa Jailza Silva do Nascimento que comigo compartilha a vida e o amor há dez anos, em segundo a família Pinto, como um todo. Em especial a minha querida mãe (in memorian) Lindacy Lima Pinto e ao meu pai Gecival Ferreira da Silva(in memorian).

Ao meu Bispo e Pai em Deus, Dom Sebastião Armando Gameleira, da Diocese Anglicana do Recife, clérigos (especialmente aos Revdos Rodson, Israel, Félix e Jorge Aquino), ao Teólogo Welington Pinheiro, ao Ministro Pastoral Izaías e a todos os leigos(as) das Comunidades Anglicanas de Natal-RN.


AGRADECIMENTOS

"Dêem graças a Deus, o Senhor, porque ele é bom" (Salmo 118:29)

A Santíssima Trindade, que é sem dúvidas a razão maior do meu existir; sua força encorajadora me ilumina para enfrentar desafios de cabeça erguida.

A todos os professores da Especialização da EST/STP, de forma especial a minha orientadora Prof. Ms Anaxuell, que desde o início da pesquisa até a conclusão sempre me incentivou e acreditou no meu potencial acadêmico, ao Prof. Dr.Valério, ao Prof. Dr. Orivaldo Pimentel e ao Prof. Ms. Jean, pelo apóio acadêmico e também aos meus amigos e colegas de classe que me incentivaram durante esta jornada.

A meus colegas e amigos da EST/STP que, ao longo do curso, caminharam juntos comigo, trocando idéias e estudando, a fim de realizarmos nosso grande objetivo: sermos especialistas. Em especial aos meus amigos Marcos, Célio e Leonardo que, com alguns deles, desde o primeiro ano, estamos juntos, desenvolvendo atividades no compartilhamento do conhecimento.

Aos Professores de Teologia: Pr.Gilberto Pinheiro(STP), Cônego Zé Mário e Irmã Lúcia(SSP) e Rev.Airton e Enoque Jr. (STEN) e Richard Femmer(SAET) e ao filósofo Avelino Neto. Não poderia deixar de agradecer à Professora Iracema Cristina pela correção ortográfica.

E a todos que colaboraram de forma anônima e indireta para a efetivação dessa pesquisa e não foram por mim citados ou lembrados.


RESUMO

Este Trabalho de Conclusão de Curso descreve uma breve releitura histórica do nascimento do Anglicanismo e da formação da Comunhão Anglicana, com a formação das correntes teológicas (tipologias) presentes na Igreja Anglicana e as primeiras tensões existentes entre elas. Procura estabelecer uma relação hermenêutica entre a Pós-Modernidade e a Comunhão Anglicana que mergulhou numa crise institucional, especialmente após a ordenação de mulheres e questões ligadas aos homossexuais (ordenação e matrimônio). Mostrarei as repercussões diretas ou indiretas na crise da Comunhão Anglicana na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. De forma especial, estudaremos os cismas ocorridos na Diocese Anglicana do Recife.

Palavras chaves: anglicana, crise, cisma, hermenêutica, Pós-Modernidade.


ABSTRACT

Conclusion this Course describes a brief historical re-reading of the birth of Anglicanism and the formation of the Anglican Communion, with the formation of theological currents (types) in the Anglican Church and the early tensions between them. It seeks to establish a relationship between hermeneutics post - modernity and the Anglican Communion that plunged into a constitutional crisis, especially after the ordination of women and issues relating to homosexuals (ordination and marriage). Show the direct or indirect impact on the crisis of the Anglican Communion in the Episcopal Church of Brazil, especially to study the schism occurred in the Anglican Diocese of Recife.

Keywords: Anglican crisis, schism, hermeneutics, post-modernity


SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO.................................................................................................................8
  2. ANGLICANISMO: UMA CASA DIVIDIDA?....................................................................12
  3. COMUNHÃO ANGLICANA: UMA CRISE SEM PROCEDENTES?....................................24
  4. CISMAS ANGLICANOS NO RECIFE: ORTODOXOS X LIBERAIS?...........................43
  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................59
  6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................62
  7. APÊNDICE....................................................................................................................66
  8. LISTA DE SIGLAS.........................................................................................................70

1 INTRODUÇÃO

A minha biografia fez com que eu me interessasse profundamente por estudos na área de religião. Interesse muitas vezes ambiguo, pois de um lado a minha prática religiosa, como clérigo anglicano, e de outro meus estudos científicos me levavam a conclusões nem sempre fáceis de serem conciliadas no meu desenvolvimento intelectual. Esta é uma confidência que poderá ser usada para criticar meu trabalho, mas nem por isso deixarei de fazê-la por acreditar ser impossível a dissociação de forma plena da obra produzida por um pesquisador, de sua vida, ideologia e motivações, como afirmou WEBER (1991, p. 9):

A interpretação da ação deve tomar nota do fato fundamentalmente importante de que aquelas formações coletivas, que fazem parte tanto do pensamento cotidiano quanto do jurídico (ou de outras disciplinas), são representações de algo que em parte existe e em parte pretende vigência, que se encontram na mente de pessoas reais (não apenas dos juízes e funcionários, mas também do 'público') e pelas quais se orientam suas ações. Como tais têm importância casual enorme, muitas vezes até dominante para desenrolá-lo das ações das pessoas reais.

Minha aproximação com a presente temática surgiu das minhas leituras e observações feitas no mundo anglicano, sendo o meu objetivo principal fazer uma reflexão crítica sobre o Anglicanismo e não sua apologia e/ou divulgação.

Nesse sentido, se não é a "empatia" que garante a compreensão do objeto. Inversamente, não é o pesquisador não crente a garantia de maior objetividade com relação a um objeto religioso de estudo.

Com a presente pesquisa, buscaremos fazer uma análise panorâmica do atual contexto da Comunhão Anglicana (Conjunto de Igrejas ligadas à Igreja da Inglaterra), tendo como ponto de partida o processo de formação das tipologias anglicanas, passando pela crise na pós-modernidade e terminando com uma

avaliação sobre a Diocese Anglicana do Recife dentro do contexto da IEAB (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil).

Pesquisar sobre o Anglicanismo no Brasil é profundamente paradoxal, pois, apesar de termos uma considerável exposição midiática pelo fato da importância da Igreja no mundo, sendo primeira enquanto famílias de igrejas unidas, a segunda em número de países em que está presente e a terceira em número de seguidores, a Igreja Anglicana ainda é desconhecida para a maior parte do povo brasileiro, inclusive para os acadêmicos que pouco a pesquisam.

O Anglicanismo é um fenômeno sócio-histórico sui generis, fruto de um contexto específico na Inglaterra, antes da chegada da Igreja Católica Romana à Bretanha, durante a submissão da Igreja Celta ao Papado e no século XVI, num processo de rupturas e continuidades iniciado pelo Rei Henrique VIII e concluído pela rainha Elizabeth I. Sabemos que a conhecida Comunhão Anglicana surgiu posteriormente, fruto da expansão imperialista e missionária da Inglaterra pelo mundo nos séculos XVII, XVIII, XIX e XX.

A Igreja Anglicana, já na sua ruptura com a Igreja Católica Romana, assumiu características polêmicas ao permitir o então Rei e chefe político da Igreja, Henrique VIII, a contrair seis matrimônios.

Quanto à expansão do Anglicanismo pela África, a poligamia (casamentos de um homem com várias mulheres) foi permitida para os convertidos do Islamismo, rompendo ou relativizando a normatividade absoluta da monogamia pregada pelo Cristianismo tradicional. Contudo, as polêmicas iriam aumentar no século XX, com o início das ordenações de mulheres ao sacerdócio, e, no século XXI, com a ordenação de homossexuais não celibatários e com a bênção matrimonial para pessoas do mesmo sexo.

As polêmicas aumentaram em 2002, com a eleição e ordenação do primeiro bispo assumidamente homossexual da Comunhão Anglicana, o Reverendo Gene Robinson, da Diocese de New Hampshire nos EUA. E a elaboração de liturgia para bênção matrimonial entre pessoas do mesmo sexo na diocese de New Westminster no Canadá. Na presente pesquisa, não pretendemos estudar este comportamento humano, mas nos restringiremos a analisar os fatos e discursos pró e contra a ordenação e bênção matrimoniais de homossexuais dentro do anglicanismo mundial.

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), além de ser fundada por missionários norte-americanos em Porto Alegre, em 1890, fazia parte da Província dos EUA até 1965, quando obteve sua autonomia, mas até hoje mantém parcerias com a Igreja Episcopal dos EUA.

É interessante notar que a crise institucional do Anglicanismo na Diocese Anglicana do Recife - DAR (formada pela região Nordeste desde 1976) teve início em 2002, mesmo ano da Sagração (ordenação episcopal) do Reverendo Gene Robinson na Igreja Episcopal dos EUA, quando da saída (I cisma do Recife) de um grupo significativo de fiéis liderados pelo Reverendo Paulo Gárcia (incluindo a maior parte de Catedral Anglicana da Santíssima Trindade) e filiação a Igreja Episcopal Carismática (Um cisma norte-americano de 1992).

A fragmentação da DAR em duas que se afirmam fiéis a Comunhão Anglicana e sem reconhecimento mútuo ocorreu em 2006 com o Bispo Robinson Cavalcanti. Considero esse processo como o "Grande Cisma do Recife".

Com a presente pesquisa, pretende-se compreender melhor a crise do Anglicanismo em Recife, percebendo as contradições presentes nos discursos que procuravam justificar os cismas ocorridos. Recife foi uma das primeiras cidades a receber a presença dos anglicanos no Nordeste juntamente com Salvador, devido principalmente às atividades comerciais desenvolvidas no Porto destas cidades.

No decorrer da pesquisa, investigamos as origens plurais da Comunhão Anglicana como fonte de permanente tensão institucional interna e analisamos os subjetivismos presentes na atual crise da Comunhão Anglicana e ainda examinamos o processo de fragmentação institucional da Diocese Anglicana do Recife entre 2002 e 2006.

Minha pesquisa está inserida no campo da subjetividade e da ética, analisados a partir do paradigma da pós-modernidade, já que é nesse contexto que a religião cristã desenvolve sua hermenêutica acerca de temas morais como o homossexualismo.

O estudo do período (2002-2006) se constitui no processo de maior fragmentação institucional da Diocese Anglicana do Recife, com o estabelecimento de três catedrais e três bispos diocesanos distintos em uma mesma área eclesiástica.

Um dos principais conceitos explorados nesta pesquisa é o de pós- modernismo, que pode ser entendido com a ausência/relativização de valores e a busca pelo prazer, favorecendo uma reflexão que precisa ser avaliada em contra ponto à Modernidade, na qual o Anglicanismo emergiu como uma realidade institucional independente, sofrendo a influência do dogmatismo, do Protestantismo Confessional de um lado e do Catolicismo Tridentino do outro. Foi a época das certezas (dogmas teológicos) e das apologéticas (defesa da fé verdadeira). Nesse período, o Anglicanismo decretou seus 39 Artigos de Religião- TNAR (Confissão de Fé histórica da Igreja da Inglaterra).

No fundo, nossa intenção é saber em que medida o subjetivismo pós- moderno pode nos ajudar a compreender melhor os cismas anglicanos ocorridos na DAR.

No primeiro capítulo, faremos uma breve releitura história do nascimento do Anglicanismo e da formação da Comunhão Anglicana, com a formação das correntes teológicas (tipologias) presentes na Igreja Anglicana e as primeiras tensões existentes entre elas. No segundo, vamos estabelecer uma relação entre a pós-modernidade e a Comunhão Anglicana, que mergulhou numa crise institucional, especialmente após a ordenação de mulheres e homossexual não celibatária e bênçãos matrimoniais de pessoas do mesmo sexo. No último, mostraremos as repercussões diretas ou indiretas na crise da Comunhão Anglicana na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e, de forma especial, estudaremos os cismas ocorridos na Diocese Anglicana do Recife.


2 ANGLICANISMO: UMA CASA DIVIDIDA?

Ao iniciarmos nossa breve análise, devemos estar conscientes de que toda sistematização ou corte histórico provoca indubitavelmente uma visão reducionista ou equivocada sobre uma realidade histórica, porque acaba por simplificar um complexo processo histórico.

Cabe-nos diferenciar a Igreja da Inglaterra da Igreja Anglicana, apesar de anglicana significar inglesa e hoje quando se diz Igreja da Inglaterra está se referindo a uma província da Comunhão Anglicana. A Igreja da Inglaterra é anterior a Igreja Anglicana que, enquanto instituição separada da Igreja Católica Romana, realmente surge no século XVI.

Contudo, a Igreja Anglicana surgida no século XVI herdou e preservou boa parte das tradições, estruturas, história e teologias provenientes da Igreja da Inglaterra, seja no período celta, seja no período católico romano.

Veremos, de forma bastante sintética, alguns aspectos da história da Igreja da Inglaterra anteriores à Reforma Anglicana. Vamos começar pela origem da Igreja da Inglaterra. Segundo o teólogo anglicano AQUINO (2000, p.15):

A origem da Igreja da Inglaterra não está associada ao trabalho oficial de missionários designados para esta missão específica, mas está ligado basicamente ao trabalho de mão-de-obra leiga que espalhou a fé cristă por onde passava.

Já no século VI, o trono papal foi ocupado por um homem chamado Gregório 1, ou Gregório Magno, que tinha como preocupação a vocação missionária. Assim manda um monge com a missão de re-cristianizar a Inglaterra, após as invasões bárbaras. Esse monge era Santo Agostinho de Cantuária que não deve ser confundido com Santo Agostinho de Hipona. Segundo KICKNÖFEL (1995, p.19): "No outono de 597, Agostinho foi sagrado bispo da Inglaterra e no natal do mesmo ano já teria convertido e batizado mais de 10 mil pagãos nas redondezas de Cantuária" 1.

Durante o período medieval, a Igreja da Inglaterra foi evoluindo numa ambigüidade motivada por fatores geográficos e políticos. De um lado, mesmo ligada a Roma, conservava características de independência e isolamento devido à sua posição geográfica (distante de Roma) e por seus reis quererem influência romana diminuída. De outro lado, os seus líderes, arcebispos de Cantuária e, principalmente, as ordens monásticas ali estabelecidas que lutavam para tirar a vida religiosa inglesa desse isolamento.

Um episódio que marcou a Igreja Inglesa foi o movimento desencadeado pelo professor da Universidade de Oxford, John Wyclif (1328-1384). O teólogo anglicano SILVA (1951, p.173) destaca a importância de Wyclif: "foram as linhas por ele traçadas que Henrique VIII, com consciência disso ou não, seguiu no século XVI"2

O seu exemplo e os seus ensinamentos influenciaram João Huss (1369- 1415) e Jerônimo de Praga que continuou a obra de Huss e pereceu na fogueira em Constança, no ano de 1416.

As idéias luteranas³ não foram bem recebidas pelo rei, já que percebemos que Henrique VIII, nos primeiros tempos do seu governo, mostrou-se zeloso pela fé católica romana. Em 1521, contra a obra de Lutero sobre "O Cativeiro Babilônico" escreveu uma "Afirmação dos Sete Sacramentos", que lhe valeu do Papa Leão X o título de "Defensor da Fé". Como afirma o historiador católico PIERRARD (1982, p.176):

O caso da Grã- Bretanha é particular. Na Inglaterra onde a idéia de uma Igreja de Estado já era familiar, Henrique VIII havia tomado, desde o início do seu reinado, a iniciativa de uma reforma disciplinar, aliás, bastante hostil ao luteranismo.

A motivação para o rompimento do rei Henrique VIII pode ter sido majoritariamente política e pessoal, mas também já existia um debate teológico, pois

1 Cantuária é a sede espiritual da Comunhão Anglicana, por ter a cátedra do Arcebispo de Cantuária e por ser a primeira igreja da Comunhão Anglicana historicamente constituída. 2 A Teologia de Wyclif foi uma das bases da reforma anglicana e negava a autoridade papal e questionava o dogma da transubstanciação da hóstia durante a missa, as indulgências e as relíquias. 3 Refere-se as idéias defendidas pelo monge agostiniano Lutero que defendeu a salvação pela graça, condenou a venda de indulgências e incentivou a leitura da Bíblia pelos leigos.Após ser excomungado acabou organizando a Igreja Luterana, que passou a ser denominada genericamente de protestante.

ao pedir a anulação do seu casamento, fundamentava-se num erro de sua validade, dado que a dispensa (permissão) concedida por Júlio II em 1503 era contrária ao texto do Levítico cap. 18, versículo 16 e cap. 20, versículo 21, que proibia a união desse gênero. O papa acabou por delegar os cardeais Wolsey e Campeggio para o julgamento da causa do rei na Inglaterra.

O historiador católico latino-americano MATOS (1995, p.48) afirmou: “É um erro histórico atribuir o rompimento com Roma, por parte da Igreja da Inglaterra, apenas às "paixões” de Henrique VIII (1491-1547)".

O bispo Fisher, advogado da rainha, sustentava a validade do casamento real, inferindo da lei do Levirato expressa em Deuteronômio cap. 25, versículo 5 e Mateus cap. 22, versículo 24.

Em 1534, ocorre o Ato de Dispensa, pelo qual o rei Henrique VIII proibia todo o clero de apelar para Roma e afirma que o Arcebispo de Cantuária e seus sucessores terão todo o poder e autoridade para conceder tudo o que antes estava reservado ao Papa.

Aqueles que recusaram o cismas5, como o Bispo John Fisher e o leigo Thomas More, sofreram a morte ou aceitaram as conseqüências do exílio por adesão ao Papa. Por outro lado, o partido reformador chefiado por Thomas Cromwell publicou em 1526 e 1538 as imposições reais, que condenava as superstições papistas e impunha o uso da Bíblia, em inglês, em cada igreja.

O grande papel de Henrique VIII para a Reforma Anglicana foi o rompimento político com Roma, mas teologicamente a Igreja não tinha assimilado as idéias básicas da Reforma Religiosa. Como confirma o historiador católico romano COMBY (1994, p.26):

Contudo, Henrique VIII mantém o essencial: a fé católica (Os Seis Artigos de 1539). Favoráveis à minoria do jovem rei Eduardo VI (1547-1553), as idéias calvinistas se insinuam no Book of Common Prayer (Livro de Oração Comum de 1549) e nos Quarenta e dois artigos (1552).

4 Era a lei que permitia o casamento de um irmão com a cunhada para garantir descendência do irmão. 5 Chama-se cisma uma divisão institucional sem alteração das características teológicas básicas, mas fundada em aspectos secundários. 6 É uma importante fonte da Teologia Anglicana que se baseia no princípio patrístico de que : " " a fé que rezamos é a fé que professamos". Foi uma importante confissão de fé anglicana de tom marcadamente protestante, que acabou sendo reduzido para os Trinta e Nove Artigos de Religião, que hoje só é obrigatório para os clérigos anglicanos ingleses como uma referência histórica e não teológica.

No reinado de Eduardo VI foi possível a elaboração de uma legislação que favorecesse claramente os partidários da Reforma. Com a morte de Eduardo IV (1553), sobe ao trono sua irmã Maria Tudor (1553-1558), profundamente católica romana, consegue reconciliar a Igreja Anglicana com Roma.

Em 1558, sobe ao trono Elizabeth I (1558-1603), que em menos de um ano aprova no parlamento dois atos que caracterizarão daí pra frente a Igreja Anglicana: com o primeiro a rainha se declarava 'suprema regente' da Igreja e do Estado e impunha como único livro oficial de culto o Livro de Oração Comum - LOC (1559).

Os puritanos queriam 'purificar' a Igreja Anglicana tirando todos os 'trapos do papado'. Para eles, o Livro de Oração Comum de 1559, fruto da ação de Elizabeth I, que para eles estava eivado de papismo e infidelidade às Escrituras.

Aos adversários da posição anglicana, católicos ou puritanos, responderam dois insignes teólogos anglicanos: John Jewel e Richard Hooker.

A Reforma Anglicana estava consolidada, apesar das futuras pressões puritanas que seriam dirimidas de uma vez por todas com a Revolução Gloriosa (1688). Somente depois de consolidado o anglicanismo terá condições de iniciar sua expansão pelo mundo e criar as base para o estabelecimento da Comunhão Anglicana.

Como vemos com MACQUARRIE apud LACOSTE (2004, p.124):

O anglicanismo nunca se considerou como uma seita que data do século XVI. Continua sem ruptura a Eclesia anglicana fundada por Agostinho de Cantuária há mais de treze séculos, mesmo se hoje esse ramo da Igreja transborde muito além das fronteiras da Inglaterra.

É importante perceber que o conceito de ruptura não é necessariamente contrário ao conceito de continuidade. O fato da Reforma representar uma ruptura com o papado não significa que a Igreja da Inglaterra virou uma seita protestante no sentido sociológico. Vemos também que a Igreja foi se expandindo para além das fronteiras nacionais, através de missões colonizadoras ou migrações. O autor afirma ainda que:

Não havia ainda uma organização formal entre as Igrejas, que surgiram das Ilhas Britânicas, mas tudo indica que a troca de

8 O termo puritano passou a ser aplicado genericamente a todos que insistem na moralidade ou pureza cristă acima de qualquer outro aspecto. Escreveu Apologia Ecclesiae Anglicanæ (1562), tornou-se numa defesa da Igreja Anglicana e de seu catolicismo, baseado nas Escrituras e nos Padres da Igreja dos seis primeiros séculos

experiências era frutífera, principalmente na área da organização sinodal da Igreja, que inclui o laicato. 10.

Como vimos, a estrutura administrativa da Comunhão Anglicana foi surgindo e se desenvolvendo aos poucos, à medida que ia se tomando consciência de que o Anglicanismo não era somente a religião oficial da Inglaterra, mas também uma Igreja multinacional, multiétnica e multicultural. E que no início herdou o clericalismo da Igreja Católica Romana, só permitindo a participação dos leigos e leigas nas decisões eclesiásticas no século XX.

Segundo LACOSTE (2004, p.124) "Anglicanismo aparece pela primeira vez em inglês em 1838 na pena de Newman, mas se encontra a palavra em francês desde 1801".

Quando LACOSTE fala em Anglicanismo, não se está falando ainda da Comunhão Anglicana, que é uma criação posterior, mas do conjunto de crenças e práticas de cristãos que estão em plena comunhão com a sede de Cantuária, se distinguindo, desta forma, de outras confissões cristãs.

TAKATSU (s/d, p.2) afirma que:

No interior da Comunhão Anglicana há, pelo menos, três movimentos que influíram direta ou indiretamente nas Igrejas que vieram expressar como a Comunhão Anglicana, aos quais devemos fazer breves referências: evangélico, católico e liberal.

A concepção de síntese entre o catolicismo romano e o protestantismo continental ficou conhecida com Via Média. De fato, no início tínhamos apenas o partido católico e o partido protestante, que representavam aspectos políticos, culturais, sociais e econômicos.

Sabemos que o restabelecimento do Anglicanismo se deu com a Revolução Gloriosa e a aceitação de Guilherme de Orange (calvinista) casado com Mary (anglicana devota). Contudo, a Igreja era formada pela aglutinação de partidos eclesiásticos: Anglo - católico (High Chuch - Igreja Alta), evangélico (Low Church - Igreja Baixa) e Liberal (Broad Chuch - Igreja Larga).

O movimento evangélico anglicano de Charles e John Wesley, herdeiro dos puritanos, apesar de não serem calvinistas (não aceitaram a predestinação e sim o livre arbítrio humano), que em seus desdobramentos daria origem ao metodismo,

10 A palavra deriva de Leigos que vem de "Laos", ou seja, d o povo. Foi uma forma de distinção do clero que ocorreu no processo de desenvolvimento institucional da Igreja Cristã.

que deve ser entendido dentro do contexto da expansão capitalista da sociedade inglesa no século XVII. TAKATSU (s/d, p.7) interpreta este movimento como um protesto contra:

A frivolidade e dissipação, esbanjamento, consumismo da sociedade do século XVII. Contra o mundanismo aberto da Igreja e a pobreza teológica. Eram puritanos, interessados mais na conversão pessoal.

Como uma forma de oposição ao liberalismo anglicano, ressurgiu com toda força o movimento Anglo-católico, conhecido como "Movimento de Oxford" ou Panfletários (Tractarianos, aqueles que faziam tratados). Surgiu em 1833 quando John Keeble proferiu seu discurso sobre a Apostasia Nacional na universidade, que era o centro do pensamento anglicano conservador.

TAKATSU (s/d, p.10), assim caracterizou o movimento:

Teceu críticas aos estadistas cristãos que, influenciados pela opinião pública, estavam legislando contra a Igreja. Afirmava que a Igreja merecia respeito não como uma instituição nacional, mas como um instrumento da vontade divina.

O que é importante para além de toda controvérsia com o Estado no Movimento de Oxford é o fato de que este movimento enfatizava a idéia de Catolicidade da Igreja Anglicana, defendendo que a administração eclesiástica deveria ser feita pelos bispos, legítimos sucessores dos apóstolos. Notemos que tanto o movimento evangélico como o movimento anglo-católico estavam reagindo de forma conservadora contra a influência do mundo na Igreja e contra os teólogos liberais em diálogo com as ciências. Depois teremos católicos liberais e evangélicos liberais.

O que de fato percebemos antes da 1ª Conferência de LAMBETH (1867) é que eles não tinham uma visão crítica sobre a Bíblia e as instituições sem compreender que a Revelação divina é mediada historicamente e sociologicamente condicionada.

TAKATSU (s/d, p.11) nos informa sobre o impacto da obra de Darwin, Origem das Espécies (1859):

Esta obra pôs muitos clérigos em grande agitação. Pois a Teoria da Evolução colocou em dificuldade a leitura não poética do Livro de Gênesis ou da primeira cláusula do Credo (Creio em Deus Pai Criador do céu e da terra). Na visão deles a obra de Darwin diminuiu o espaço para milagres.

Sabemos que, a partir daí, a polarização entre os literalistas e os alegoristas acabaram se desdobrando entre aqueles que acreditam na Bíblia e aqueles que acreditam na Ciência. Até mesmo um Bispo, J.W. Colenso, da Diocese de Natal na África do Sul, passou a dizer que a Bíblia não era a Palavra de Deus, mas que a Palavra de Deus poderia ser ouvida através desta.

TAKATSU (s/d, p.12) aponta o desfecho desta questão:

Colenso foi censurado e deposto. [...] Houve não só debates e controvérsias, mas movimentos para revogar a deposição dele. Para revogá-la, era preciso que houvesse um tribunal superior de apelação acima do tribunal da Província do Sul da África.[...]. Para se ter um tribunal superior de apelação seria preciso um organismo legislativo superior aos sínodos gerais das Igrejas da Comunhão Anglicana. Após muita troca de correspondência entre os bispos e o Arcebispo de Cantuária, chegou-se a conclusão de que não haveria um Sínodo Geral da Comunhão Anglicana, mas sim uma Conferência dos bispos diocesanos.

Alguns aspectos são importantes para a compreensão da transição do Anglicanismo, enquanto ramo da Igreja Inglaterra presente em outros países para a formação da Comunhão Anglicana, que se constitui num conjunto de igrejas autônomas em comunhão histórica e simbólica com a Igreja da Inglaterra.

Vejamos o caso da Igreja Episcopal TEC (Antiga Igreja Episcopal Protestante dos Estados Unidos), como uma primeira tentativa de adaptar-se a uma nova situação pós-colonial. TAKATSU (s/d, p.13) mostra que:

Devido à independência dos Estados Unidos, o comportamento da Igreja em relação ao Estado tinha que ser outro. Os fundadores dos Estados Unidos não pensavam numa Igreja oficial. Havia muitas Igrejas em ação. Além disso, entre os anglicanos havia clérigos fieis ao Rei da Inglaterra. Muitos deles voltaram à Inglaterra ou migravam para o Canadá. Por outro lado, havia membros da Igreja Anglicana entre os fundadores da República. O primeiro presidente, George Washington, era membro fiel da Igreja Episcopal.

Podemos perceber o dilema ético, político e religioso presente nos atores sociais envolvidos neste processo histórico. De um lado a sua relação com a Igreja da Inglaterra, de outro sua rejeição a autoridade política da Inglaterra, autoridade esta que, por sua vez, interfere na Igreja nacional.

Além destes conflitos ideológicos, existia uma série de questões hierárquicas, litúrgicas e da administração eclesiásticas que causaram tensão na transição do Anglicanismo para a formação de uma Igreja Autônoma da Comunhão Anglicana. TAKATSU (s/d, p.13) resumiu os conflitos nos seguintes termos:

Os bispos da Inglaterra não estavam dispostos a ordenar americanos para o episcopado. Como poderiam eles ordenar clérigos considerados rebeldes do ponto de vista dos ingleses? Assim, o primeiro bispo foi sagrado pelos bispos escoceses em Aberdeen, em 1784. Em muitos pontos a nova Igreja aceitou o Livro de Oração Comum inglês. É claro que, desde o início, foi exigido da Igreja o exercício da distinção entre o essencial e não essencial.[...] Orar pelos reis não era essencial. Isso foi substituído por uma oração pelo povo, pela nação e por aqueles que exercem todos os tipos de autoridade e trabalham pelo povo.

Sabemos que a partir daí os bispos passaram a ser eleitos por suas dioceses, tanto pela representação clerical como pelos leigos. Qualquer bispo diocesano pode ser eleito Primaz, ou seja, primeiro entre os iguais. TAKATSU (s/d, p.14) expressa que:

O espírito de "primeiro entre os pares", isto é, aquele que governa a Igreja com seus irmãos bispos, presbíteros e leigos vem, também, da tradição do Arcebispo de Cantuária. Esse espírito está expresso num documento de 1842 que diz que não agirá contra a maioria de seus irmãos. Trata-se do espírito de consulta e colegialidade.

Atualmente, em meio à crise da Comunhão Anglicana que gira em torno da questão da sexualidade, muitos questionam o papel do Arcebispo de Cantuária, querendo aumentar seus poderes ou eliminando sua figura enquanto símbolo da unidade. Esse processo de busca de autonomia não se restringiu aos EUA, mas foi ocorrendo paulatinamente em todo o mundo, pois foi somente com a formação de Sínodos nacionais em cada província que pode ocorrer a Conferência (Lambeth) que, apesar de não ser um Sínodo Universal da Comunhão Anglicana, apresenta as proposições da maioria dos anglicanos.

Segundo o teólogo anglicano CALVANI (2008,

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