A IGREJA E A SINAGOGA

Versão Integral em Texto

A IGREJA E A SINAGOGA

Salomão Ferraz1936

A IGREJA E A SINAGOGA

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(Esta foi a tese apresentada, defendida e aprovada no I Congresso Católico Livre, ocorrido na Cidade de São Paulo em dezembro de 1936, que resultou na conquista da Autonomia da Igreja Católica Apostólica Livre no Brasil e que constitui um dos documentos básicos da Catolicismo Salomonita) Dom Felismar Manoel – Bispo Primaz da ICAI-TS – Advento de 2010

A IGREJA E A SINAGOGA

(Mensagem apresentada ao Congresso Católico Livre, reunido em São Paulo, de 9 a 14 de Dezembro de 1936)

Salomão Ferraz

São Paulo 1936

Pesquisa: Dom Felismar Manoel Coordenação: Dom Raimundo Augusto de Oliveira Editoração e Diagramação: Maria Andrea Ferreira da Silva

FEIRA DE SANTANA 2013


"Estas coisas tenho dito, para que não vos escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; e tempo ainda virá que todo o que vos matar, julgará prestar um obséquio a Deus"

(João 16, 1-2).

Com estas palavras, no cenáculo, Jesus prevenia os seus discípulos da sorte que os aguardaria em próximo porvir, longe de receberem os aplausos da religião tradicional e oficial, como os seus mais altos expoentes, quais realmente eram, eles seriam repudiados pelos representantes oficiais da religião de Israel, seriam desautorizados e mais do que desautorizados, seriam perseguidos e expulsos da sinagoga e lançados à margem do visível redil de suas mais caras tradições, quando mais trágica não houvesse de ser a sua sorte.

A condição deles devia ser assaz penosa. Como dar, ao mundo pagão, testemunho da religião divina, revelada a Israel desde os séculos antigos, quando OS próprios representantes desta religião não OS reconheciam e os expeliam até no seu grêmio, como elementos estranhos, indesejáveis?


Com que autoridade se apresentariam perante o mundo, como representantes de uma gloriosa tradição de fé revelada, àqueles que foram corridos e expulsos do convívio dos representantes oficiais de sua própria religião? Que credenciais apresentariam eles ao grande mundo gentílico? Que crédito, poderiam merecer, quando os pagãos argumentassem com eles a maneira de Pilatos: “a tua própria nação e os principais sacerdotes entregaram-te as minhas mãos"?

O Selo do Espírito Santo

É por isso que nosso Senhor põe nas mãos deles uma outra credencial que vale muito mais do que todas as chancelas oficiais, e sem a qual todos os sinetes oficiais são de nenhum valor; o selo do Espírito Santo, o Paráclito, o Espírito da verdade, que lhes seria enviado da parte do Pai.

Munidos de semelhante credencial, eles dariam testemunho de Cristo, da Sua divindade, do Seu amor, do Seu poder, da Sua redenção.


Expulsos, embora, das sinagogas, cortados das relações com o oficialismo religioso do dia, não estavam cortados da comunhão com Cristo e com o verdadeiro Israel de Deus, o Israel que traz na fronte e no teor de sua vida, a marca do Altíssimo.

Assim foi nos dias apostólicos, e assim tem sido sempre, especialmente em períodos de geral decadência espiritual. E quem se dispuser a dar leal testemunho de cristo, sem traficar com o mundo, com o pecado, com os erros ou OS preconceitos, deve estar preparado para arcar com as consequências.

"O Tal Diotrefes"

E a primeira destas consequências é ser excluídos dos quadros oficiais da religião. "Expulsar-vos-ão das sinagogas". A sinagoga havia se tornado, naquele tempo, o símbolo da religião em decadência.

E tal espírito de "sinagoga” começou bem cedo a proliferar na própria Igreja, como escreve


João na sua Terceira Epístola, a respeito de um tal Diotrefes, que em certa igreja gostava de ter a primazia: “Escrevi algumas coisas a igreja, mas o tal Diotrefes, que gosta de primazia entre eles, não nos recebe, e não satisfeito com isso, ele mesmo não recebe os irmãos, e aqueles que os querem receber, ele proíbe de o fazerem, e os exclui da igreja". Era o “espírito da sinagoga" que começava a transportar-se para a Igreja, e que tantos males têm causado a causa da religião, arvorando o mandonismo como bandeira e a intolerância descaridosa como regra.

O "espírito da sinagoga", que prevalece hoje em tantos setores dos que professam a religião cristã, não pode tolerar o espírito elevado, largo e divino de Jesus Cristo e daqueles que assim o representam. Prefere cada qual viver no seu cubículo, com os seus tabus, com os seus preconceitos, substituindo o zelo da verdade, pelo zelo sectário ou das conveniências do momento. É mais fácil levar o povo explorando a sua ignorância, a sua superstição, ou o seu espírito de revolta, do que instruí-lo lealmente na verdade cristã integral, em todos os seus aspetos. Porém a verdade


integral, católica, no real sentido do termo, é que emancipa as almas. As meias verdades, ou as verdades unilaterais, no espírito apertado da seita, conduzem ao fanatismo, fomentam desnecessários ódios e desagregam as almas.

Certo é que o testemunho da verdade suscita odiosidades e violências, porem odiosidades e violências inócuas não medram, e isso porque, não correspondidas da mesma forma, não encontrando do outro lado terreno propicio a sua propagação, morrem com os seus autores.

Os que trabalham, pois, com Cristo, no espírito de Cristo, embora provocando reações nas sinagogas de todos OS quadrantes, estão realmente edificando o Reino de Deus e concorrendo para uma situação social em que impera a verdade e a justiça, o amor, e por isso mesmo também a paz e a verdadeira liberdade.

Ser, pois, por amor de Cristo, "expulso da sinagoga" qualquer que ela seja, é somente um motivo de honra para quem traz no seu intimo, o "testemunho da verdade, que procede do Pai".


O Senhor preveniu os Seus discípulos para que não se julgassem a si próprios pelos aspectos da sinagoga ou pela sua situação na sinagoga, mas pelo testemunho do Espírito. "Estas coisas vos tenho dito, para que não vos escandalizeis".

Há uma abismal diferença entre o “Espírito da verdade” e o espírito da sinagoga, e consequentemente entre os que são animados pelo Espírito da verdade e os que são atuados pela mentalidade da sinagoga.

O Espírito da Verdade

O Espírito da verdade, como a sua própria designação o indica, é o que coloca no lugar supremo a Jesus Cristo e a verdade, a quem tudo o mais se subordina. O espírito da sinagoga, pelo contrario, deifica a ordem estabelecida e os seus representantes, os quais zelam mais da sua própria posição de prestigio e mando, do que da gloria de Deus, do que dos interesses da verdade e do bem das almas. São por isso intolerantes, e arvoram o vicio da


intolerância como a suma virtude e o apanágio dos seus adeptos. E por essa razão não hesitam em expulsar da sinagoga, negando-lhes pão e água, aos que, com os olhos de Cristo, não poder ler exatamente na cartilha deles.

Mas o que há de salvar hoje o mundo, que ameaça ruína, não é absolutamente o espírito estreito, intolerante e mesquinho da sinagoga, fomentador de ódios, despeitos e rivalidades entre OS homens que são reduzidos servilismo fanático com espasmos de violentas reações extremistas, mas é o Espírito da verdade, que testifica de Cristo, que liberta do pecado e do vão temor das almas e as edifica na divina estrutura da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. O espírito da sinagoga dilacera a Igreja, escravizando as almas; o Espírito da verdade unifica as almas na fé, no amor, na liberdade dos filhos de Deus, edificando-as no senso divino e livre de uma santa Igreja universal.

E os que pretendem servir lealmente a Cristo, hoje, nestes dias de depressão espiritual, assim como os que o serviram nos dias primitivos, devem ser prevenidos, para que não


esmoreçam, para que não se escandalizem, quando forem porventura lançados fora da sinagoga de qualquer oficialismo farisaico.

Fora da Sinagoga, Junto de Cristo

Fora da sinagoga, talvez, porém mais junto de Cristo, respirando a plenos autos as auras livres do Espírito da verdade. E onde Cristo está, é onde se mostram os sinais iniludíveis do Espírito da verdade, ai também se encontra uma legitima expressão as Santa Igreja Católica e Apostólica, sem embargo das decisões de intolerância absorvente e facciosa da sinagoga.

O que absolutamente importa é estar em comunhão com Cristo, no espírito de Cristo. E os que estão com Ele, em consonância com os seus ideais, com espírito elevado e fraternal, sem ódios, sem paixões subalternas, em qualquer lugar que estejam reunidos em Seu Nome, ai constituem uma legitima expressão de Sua Igreja, do Seu rebanho, a que nenhum aresto da sinagoga poderá jamais avaliar.


"Porque onde dois ou mais estiverem reunidos em meu Nome, ai estou Eu no meio deles".

Tal e a magna carta de Cristo, que garante os seus leais servidores contra toda a violência das sinagogas antigas e modernas.

A Chave de Davi

A chave suprema, a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, que fecha e ninguém abre, encontra-se na Sua mão divina, e nenhum pretenso preposto seu, aqui na terra, poderá jamais arrebata-la e usá-la arbitrariamente a seu talante. E essa chave é prometida especialmente a todos quantos, como os fieis cristãos em Filadélfia, guardam zelosamente a Sua palavra e não negam o Seu Nome, embora impugnados e combatidos, como diz o Apocalipse, pelo satânico espírito da sinagoga.

Os que tem o selo do Espírito da verdade, que amam a Deus, a verdade, a justiça e o bem,


podem viver e agir livremente, sem temer quaisquer trovões de sinagogas.

O que cumpre, em nossos dias, não é justificar, não é edificar o velho espírito de sinagoga, estreito, intolerante, fanático, perseguidor, mas o espírito generoso, largo, cordial, fiel e fraternal da Santa Igreja de Cristo.

Esta é a verdadeira rocha, sobre a qual edificada a Igreja de Cristo, contra ela não poderão jamais prevalecer as portas das potências do abismo.

A igreja hebraica, de tão gloriosas tradições, veio a cair no funesto espírito de sinagoga. É preciso que os cristãos, hoje, reajam e não se deixem estultamente arrastar ao mesmo precipício.

Contra o espírito mau da sinagoga não é remédio a indiferença religiosa ou o espírito da impiedade, que tem o efeito somente de agravar o mal. Único remédio, divino, eficaz, é o Espírito Santo, de verdade, de amor, pureza e comunhão.


Distintivos da Sinagoga

A sinagoga é propriedade de homens para o serviço de Deus, como pretenderá: mas a Igreja de Cristo é a casa de Deus, para a Sua Gloria, sob a custódia do Espírito Santo, a cargo de homens, para o serviço dos homens.

A sinagoga tem como o seu mais vivo escopo servir, ou ao interesse dos chefes, ou de castas, para assegurar-lhes Ο poderio (clericalismo), ou ao interesse de grupos, de facções (sectarismo); ao passo que a Igreja visa, acima de tudo, honrar a Deus e, no espírito de amor, de sacrifício e liberdade, servir a humanidade na pessoa de cada um de seus membros. Os processos da sinagoga diferem também profundamente dos processos de Cristo e da verdadeira Igreja. A sinagoga procura segurar os seus adeptos pelo medo,


que lhes incute, de ficarem mal vistos e boicotados pelos seus comparsas, no caso de incorrerem no desagrado dos chefes ou da facção. A Igreja, pelo contrario, com plena confiança em Deus, nutre o mais profundo respeito pela consciência de cada homem e de cada mulher de retas intenções. A ninguém procura levar pela compressão, pelo pavor, pelo suborno ou pelo dolo, mas pela verdade, pela persuasão, pelo amor, pela paciência, pelo exemplo. A sinagoga inculca o fanatismo, o ódio; a Igreja ensina o amor, a paciência, a tolerância pela opinião sincera dos outros, a verdadeira caridade que tudo suporta, tudo sofre, tudo espera. A sinagoga escraviza; a verdadeira Igreja ensina os homens a ser livres, disciplinados, e a usar dignamente da sua liberdade para o bem geral.

A sinagoga vive para si, para assegurar o poderio de chefes ou de grupos, a Igreja, como Cristo, deixa-se imolar em sacrifício, para servir com amor aos homens, sem preocupações de honras ou vantagens humanas que possa porventura auferir.


Há vários tipos de sinagogas com rótulos de igreja: sinagogas em que os chefes são os únicos donos, e sinagogas em que o povo é o dono, em que o povo manda; sinagoga de governo oligárquico ou monárquico, e sinagogas de governos democráticos; porem sempre sinagogas, com o espírito estreito, intolerante, fanático, entreguista, faccioso, perseguidor.

O que confere a uma comunidade, grande ou pequena, o feitio moral e espiritual que faz dela uma parcela da Igreja de Cristo, uma legitima expressão da Santa Igreja Católica e Apostólica, não é esta ou aquela forma administrativa, mas, sobretudo, o seu espírito.

Sinagogas Rivais

Contra o mau espírito da sinagoga, de que se acha eivada a Igreja hodierna em todos os seus ramos, e que responde pela fraqueza da religião organizada em face dos tremendos problemas sociais da atualidade, não é remédio o afã com que muitos se empenham em erguer


sinagogas rivais no mesmo espírito tacanho, intolerante, inquisitorial, descaridoso. Basta de sinagogas: o que as almas carecem é a comunhão real, ampla, viva, integral com Cristo, no poder do Espírito Santo, no senso glorioso e inspirador de uma comunhão viva com Deus o Pai, de quem toda a família no céu e sobre a terra toma o nome.

Certo é que levantar uma simples sinagoga, arvorando como fundamento algum princípio doutrinário ou de ordem administrativa, embora verdadeira e útil em si, ou arvorando com cega intolerância a bandeira de alguma prática peculiar que fere superficialmente a atenção das massas, é, de fato, muito mais simples do que trabalhar com inteligência, com afinco e com fé, a fim de edificar nas almas, com a sua respectiva expressão externa, a estrutura grandiosa da Igreja, a qual tem Cristo como cabeça, como chefe supremo, no dizer de são Paulo, e de quem todo o corpo, nas suas múltiplas partes conjuntado, ajustado e coligado, sem exclusão de nenhuma de suas peças legitimas, e com a contribuição vital de cada um para a vida do todo, efetua o crescimento


do corpo pela sua edificação em amor. Edificação em amor entenda-se, e não a golpes de autoritarismo opressor.

Difícil é, certamente, hoje, como sempre, uma obra desta natureza. Mas foi esta obra pela qual Jesus Cristo deu a Sua vida, e pela qual são Paulo e os demais Apóstolos lutaram, sofreram e ofereceram em holocausto também as suas vidas. A sinagoga OS perseguia não lhes deu descanso um só momento. Mas eles não se deixaram vencer da virulenta oposição da sinagoga, nem se deixaram eivar de seu espírito. Contra a sinagoga fanática, estreita, intolerante, eles não pensaram em levantar outra sinagoga nos mesmos termos, mas lançaram os fundamentos da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Judeus e Samaritanos

A sinagoga fomenta espírito de odiosa rivalidade contra os samaritanos, de modo a ficar célebre a frase de que "os judeus não se


comunicam com os samaritanos”. A Igreja passou por cima destas pendências e recebeu com carinho e respeito os crentes samaritanos. As prevenções odiosas do sectarismo não são da índole da Igreja, mas da sinagoga.

As nações, apesar das fundas divergências que as dividem umas das outras e dos interesses particulares que as separam reconhecem, todavia, a moeda fiduciária umas das outras: papel moeda é dinheiro corrente em toda a parte. Porém, as organizações religiosas, na demência do espírito da sinagoga, não reconhecem os Sacramentos umas das outras, a não ser em escala muito restrita, tornando a batizar os que já foram batizados e disputando por minúcias impertinentes em prejuízo do espírito de universal irmandade em Cristo, de que os sacramentos deveriam ser a visível expressão e veículo, independente de questões administrativas e o absurdo do espírito de sinagoga, nesta matéria, tem chegado a tal ponto, que uma associação piedosa e consagrada, como o Exercito da Salvação, para poder agir em paz, sem atritos, julgou melhor abolir de seu sistema


os Sacramentos, a culpa de tal mutilação é menos deles do que do espírito de sinagoga que prevalece, em geral, nos grêmios religiosos.

O Critério da Sinagoga

O espírito da sinagoga julga a validade das coisas, mesmo as mais santas e que mais visivelmente trazem as marcas de Deus, pela sua conformidade e inconformidade com pequeninas regras formuladas pelos homens. Jesus Cristo não era de Deus, na opinião farisaica da sinagoga, simplesmente porque não respeitava a lei do sábado exatamente como eles entendiam e ensinavam. E hoje, o mesmo espírito farisaico impugna também Ο ministério de homens fiéis, abençoados por Deus em feitos de valor, pela simples razão de que não receberam a sua investidura de acordo com certos cânones, feitos por eles, e que reputam mais importante do que as leis da justiça e da caridade. E selo deles vale mais do que o selo de Deus.


Tal é Ο farisaísmo dos que fazem absolutamente depender a validade das ordens ministeriais da rigidez de certa continuidade histórica. E o mesmo se poderia dizer dos que arvoram um certo modo de batismo como termo de comunhão ou de excomunhão entre os crentes. É a mentalidade de sinagoga.

Porém, o Espírito da Igreja, como o de Cristo, é largo, é generoso, caridoso e livre da escravidão a regrinhas, que podem ser boas em si, em sentido geral, mas nunca em caráter absoluto, inexorável, sobrepondo-se as leis da justiça, do amor, da caridade fraternal. Não se confunda a Igreja com a sinagoga.

Os judeus, no caso da cura do cego de nascença, tinham combinado “expulsar da sinagoga todos os que confessassem que Jesus era o Cristo". A sinagoga é sempre a mesma em todos os tempos, e a sua arma predileta é também sempre a mesma: a expulsão dos que lhes caem no desagrado.

A Estolidez da Sinagoga


Fabricantes de máquinas de escrever, para maior conveniência do público, e também no interesse deles próprios, são acordes em construir máquinas com um certo dispositivo de teclado, a que dão o nome de “universal"; de modo que alguém que aprendeu a usar a máquina “Royal” não tem maior dificuldade em usar uma “Remington”, uma "Underwood", ou qualquer outra. Nenhum fabricante tem a estolidez de montar uma máquina com um teclado em tudo diferente do que os outros fazem, com o intuito de não fornecer clientes para outras marcas. É que elas compreendem que, servindo ao interesse geral, servem ao próprio interesse.

Pois o que os fabricantes de máquinas de escrever não fazem, os cristãos têm a estolidez de fazer uns com os outros, baralhando nomes, mudando ritos sem necessidade, levando por toda a parte a confusão às almas. Era esse, exatamente esse, o espírito da sinagoga, em que judeus e samaritanos mais facilmente poderiam tolerar os pagãos idólatras, do que tolerar entre si um ao


outro, apesar de possuírem, ambos OS privilégios inestimáveis da religião divina, revelada ao povo de Israel.

A sinagoga acentua e provoca diferenças, como entre Jerusalém e Carazim, com fins egoísticos, partidários, insensatos. E, modernamente o espírito de sinagoga aparece, ora desacreditando a Bíblia ou as edições que não trazem o carimbo de uma certa sinagoga, ora desacreditando o sacramento da Eucaristia e tratando com menoscabo o culto externo, em geral, como praticado por outros que não pertencem a mesma sinagoga. Porém, o Espírito da Igreja é outro: procura em tudo conhecer a verdade e evitar discrepâncias, procurando a uniformidade geral da expressão, para não causar dividas e perplexidade as almas.

Fabricantes de material elétrico adotam, para seus produtos, um padrão comum. Qualquer que seja a procedência de uma lâmpada, obedece a certa bitola, que se adapta a qualquer soquete. Ninguém tem a insensatez de adotar uma medida de soquete somente para as suas


lâmpadas e não para as outras. Mas o que os homens do comercio não fazem, apesar da forte concorrência entre si, os cristãos fazem uns contra os outros, adotando cada grupo uma medida propositalmente diferente para s seus adeptos, para que recebam luz e conforto somente deles, e não de outrem. E o resultado é que há muitos que rendem o ultimo alento às escuras, sem a luz do conforto de ministro ou Sacramento, só pelo motivo de que, no momento, não se encontra um ministro do tipo peculiar a que foram ensinados reconhecer como o único válido e verdadeiro.

O espírito de sinagoga frisa diferenças de práticas religiosas, para ter os adeptos presos ao seu exclusivismo; a Igreja, porém, procura um padrão comum que sirva para todos, em todas as conjunturas. E por isso não segue práticas nem nomenclaturas religiosas arbitrárias ou sectárias, mas procura conformar-se, com o uso universal, para o bem das almas. E quando encontra diversidade de expressão, não faz disso motivo de escândalo, mas procura ler o real sentido das almas, o fundo, a intenção, com espírito de caridade.


Fiel ou Infalível?

A sinagoga zela, acima de tudo, a sua própria existência, o seu prestigio; a Igreja zela a sua missão, a sua finalidade, no desempenho da qual se dispõe a deixar consumir. O lema da Igreja é: "fidelidade”, “Se fiel até a morte"; o lema da sinagoga é a presunção de “infabilidade”. Humildemente a Igreja procura ser fiel, e nesta fidelidade encontra Ο caminho seguro e certo; a sinagoga apresenta-se como infalível, e comete OS maiores destinos.

O Zelo da Sinagoga

A sinagoga tem como principal escopo o fazer proselitismo, angariar adeptos e segurá- los, relegando outras questões a um plano secundário. São capazes de rodear a terra e o


mar para fazer um prosélito, como dizia Nosso Senhor. Porém o fim principal da Igreja é proclamar o Evangelho da livre graça de Deus, libertar do pecado as almas, uní-las a Deus e umas as outras em amor fraternal, em amor universal, para com os seus clarões iluminar as trevas do mundo. Sinagoga e Igreja, embora muitas vezes se confundindo uma com a outra, são, contudo entidades diversas, com escopos diferentes.

A sinagoga, glosa do poderio sobre as almas, nada tem do espírito largo, generoso e de leal apreciação, mas somente o de critica descaridosa e amarga para tudo o que não cai dentro de seu sistema e da sua jurisdição; e vive a semear desconfiança, a inculcar mórbidos temores, e a empeçonhar o ânimo dos crentes contra os seus irmãos. Porém, a verdadeira Igreja, fiel a Cristo e a verdade, não busca o predomínio, mas trabalha zelosamente pela verdade, pela paz e a boa vontade entre os homens, e muito especialmente entre os que seguem o mesmo Senhor, abraçam a mesma fé, e que foram publicamente selados pelo mesmo batismo em nome do Deus Trino.


E que estamos nós, cristãos, edificando hoje no mundo, e especialmente em nossa Pátria? A Igreja de Cristo ou a sinagoga?

A sinagoga não resiste aos embates das forças contrárias, mas a verdadeira Igreja de Cristo mantém-se firme, ereta, inalabalavel, edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular.

O Furacão

Ouve-se, em nossos dias, o rugir furioso da tormenta, das convulsões sociais, sopra com ímpeto o furacão, e das montanhas descem com fragor as caudais violentas, arrasadoras. Pobres sinagogas, erigidas superficialmente no espírito do fanatismo e intolerância, para exploração do vulgo, sem base na rocha dos séculos, não resistem aos embates; mas a verdadeira Igreja de Cristo, coluna e apoio da verdade, no dizer de são Paulo, ficará indene, e sairá mais pura e mais forte dos embates. A sinagoga procura os arrimos da política e não


recusa o auxilio até de satanás para manter-se no prestigio, no poder. Mas a Igreja de Cristo, cônscia de seu próprio valor e de suas bases eternas, não precisa amparar-se às escoras das facções políticas da direita ou da esquerda, porque se mantém de pé, por si, pelo divino poder que a sustenta e que a salvará em toda a conjuntura. Mesmo no dilúvio, a arca sagrada sobrepaira, sobre o geral cataclismo.

A grande obra social, ainda em nossos dias, como nos dias apostólicos e sempre, é a da edificação da Igreja de Cristo.

Mas edificar a Igreja não é o mesmo que edificar sinagogas. Ninguém se iluda com os sucessos fáceis, fanatizando as turbas, porque o Dia do Senhor, que se aproxima, virá demonstrar, de um modo claro o valor ou a inanidade de toda a obra social. O valor real de uma obra não se aquilata pela grandiosidade e opulência das suas solenidades, do seu ritual e dos seus monumentos de arte, nem ainda do seu anti-ritualismo simplista, mas pelo seu espírito. A face de muito monumento de arte religiosa, erigido no espírito de sinagoga, Nosso


Senhor diria hoje o mesmo que disse do famoso santuário da metrópole dos hebreus, quando os discípulos lhe chamavam a atenção para a imponência da estrutura: na verdade, na verdade vos digo, que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja demolida".

São Paulo e a Sinagoga

Toda a vida de São Paulo foi uma porfiada luta contra o espírito da sinagoga, a sinagoga dos judeus, de onde o expulsaram, e da qual se conformou em retirar-se, e a sinagoga que teimava em infiltrar-se dentro da própria Igreja pela atuação teimosa do partido judaizante, que alegava os seus privilégios singulares de raça, de tradição, mesmo de tradição apostólica, como os genuínos representantes dos doze, e procurando, destarte, sobrepor-se aos demais irmãos e desacreditar o ministério apostólico de São Paulo. “Eles vos procuram zelosamente, dizia São Paulo aos gálatas, não com bons motivos, mas que querem vos excluir, para que zelosamente os procurais a eles” (Gal 4,17).


Quanto a questões de privilégios de raça ou de tradição, são Paulo, podia competir vantajosamente com qualquer um deles, “hebreu de hebreus, a tribo de Benjamim, estrito observador da lei, fariseu”. Porém, todas estas coisas, todos estes privilégios exteriores, de que se valem os homens para desprezar os seus irmãos, São Paulo considerava como escória como lixo, em face do conhecimento real que ele tinha de Cristo e da sua graça, mediante a fé que salva, que emancipa e fraterniza as almas.

Porém é penosamente interessante observar como, hoje, vivem muitos a alegar desmedidamente semelhantes privilégios de sucessão de ordens e outros privilégios que os autorizam, segundo crêem, a quebrar a unidade espiritual com os seus irmãos.

O que São Paulo lançou fora, como lixo, em face do glorioso conhecimento da graça de Cristo pela fé, é o que muitos vivem hoje a ajuntar e guardar zelosamente como o seu mais rico patrimônio! O espírito da sinagoga, infiltrando-se no mundo cristão, tem rebaixado e desvirtuado o nobre padrão apostólico da Igreja.


O Escândalo da Sinagoga

A conversão dos judeus tem sido retardada durante séculos, não somente devido a sua dureza e impenitência, mas sobretudo pelo espírito da sinagoga que eles estão observando no cristianismo organizado. Sinagoga por sinagoga, preferem a das suas tradições. Não há lucro em sair de uma sinagoga para outra. Só a Igreja, no sentido apostólico, é que pode ter vantagem sobre a velha sinagoga dos hebreus.

Indivíduos há, retos e bons, exemplares em tudo e não desprovidos de religião no seu intimo, e que, no entanto, se conservam arredios de qualquer grêmio religioso. A causa disso não é somente a sua astenia, a sua indiferença, mas deve ser atribuída, em grande parte, ao repulsivo espírito de sinagoga, e que se esforça por mudar-lhe o espírito, etano (?) a ser lançado fora e a buscar Cristo alhures, "fora do acampamento", como diz a Epistola aos Hebreus, do que aquele que permanece esquivo, de fora, de palanque, como simples "torcedor”, enquanto outros, heroicamente, se


batem, para sustentar aqui e ali, a boa causa... obedece ao leme somente Ο barco em movimento. Há muito mais esperança para quem se move erradamente, com boas intenções, do que para quem se deixa levar da correntesa, não se arrisca a sair do ancoradouro. O prêmio supremo da vida pertencem aos homens de valor, de fé, que não temem arranhões e não fogem a luta.

Fusão de Sinagogas

O remédio contra o espírito de sinagoga, hoje, não é uma grande associação de sinagogas, não é reunir muitas sinagogas em uma só. Uma grande associação de sinagogas, mesmo que isto seja possível, não constitui a Igreja, mas a mesma sinagoga, e muito mais perniciosa. Muitos limões galegos não se tornam uma laranja baiana, mas continuam os mesmos limões, acres, sem o desejado sabor. Uma grande sinagoga, com milhões de adeptos, não é menos sinagoga que um pequeno grupo,


sectários e esquivos, que acalenta o espirito de sinagoga.

O que cumpre, antes de tudo, é implantar diretamente nas almas, pelo testemunho corajoso da

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