A Santa Igreja Católica

Versão Integral em Texto

A Santa Igreja Católica

Reverendo Salomão Ferraz1930

A Santa Igreja Católica

(Esta obra foi publicada pelo Reverendo Salomão Ferraz em 1930, definindo a sua visão sobre a Santa Igreja Católica, quando o Catolicismo Salomonita ainda era apenas um movimento cristão brasileiro, sem autonomia eclesial, estando ainda sob a jurisdição da Igreja Episcopal Brasileira - Ramo Anglicano - e portanto, na sua fase pré-romana, ou seja, antes de sua malograda e nefasta união com a Igreja de Roma. Dom Felismar Manoel - Bispo Primaz do Catolicismo Salomonita no Brasil. Mosteiro Compaixão Sagrada 18/05/2013

Tríduo das Rogações de 16 a Duque de Caxias, RJ)

A Santa Igreja Católica

Nos grandes conflitos sociais, cruentos ou incruentos, o que tem importância, o que tem valor, não são os partidos que vencem ou que são vencidos, mas os princípios que prevalecem. A questão primordial, para um indivíduo ou um povo, não são as facções que eventualmente manejam as rédeas do poder, mas os princípios diretores de sua vida espiritual. Se estes princípios foram verdadeiros, abraçados com inteligência pelas massas, então o futuro nacional estará plenamente assegurado. Mas se estes princípios forem falsos, insubsistentes, subversivos, não se pode antever senão um futuro pejado de calamidades e misérias.

Da "Oração da Pedra"

Dom Salomão Ferraz São Paulo – 1930


Preâmbulo

As questões religiosas não pertencem, como alguns pensam, ao puro domínio das abstrações, mas afetam profundamente o viver dos indivíduos e dos povos. Quando os interesses nacionais colidem com os de natureza religiosa, é porque alguma coisa vai errada, ou na orientação política vigente, ou na interpretação dos princípios e fatos religiosos, ou talvez em ambas as partes que contendem.

Urge, pois, não somente que estudem os princípios e processos de boa e sã política, mas também os que dizem de perto com a prática da religião. A liberdade religiosa, sendo uma das mais belas franquias cívicas de um povo, impõe também aos homens que versam desta ordem o dever de pôr ao alcance dos seus concidadãos o contingente, embora exíguo, das suas luzes, o fruto dos seus estudos, das suas reflexões e experiências.

Há realmente no Brasil, o perigo de um cáus religioso com a sua funesta repercussão na vida moral e social de uma população heterogênea, procedente das mais variadas raças do velho mundo. O magno problema social, na atualidade, é o da assimilação destas diferentes raças, afim de constituirem conosco uma só família nacional, sem rivalidades, sem dissídios, sem desnecessários conflitos de qualquer natureza. E a religião cristã, devidamente interpretada em seus elementos vitais, é a grande força unificadora, não somente de povos e raças, mas também de correntes de princípios que, legítimas em si, mostram-se perpetuamente antagônicas.

É, pois, na religião de Cristo, ou, para melhor dizer, em Cristo, que essas correntes, legítimas porém divergentes, se encontram sem explosão, sem exclusão, sem extermínio, mas produzindo claridade, energia e vida. Nele é que perfeitamente se harmoniza o princípio de liberdade com o de autoridade. Mas esse encontro há de se produzir exatamente na sua personalidade divina, real, viva e não em algum ponto fora dela. As correntes elétricas, quando se chocam no aparelho

próprio, produzem luz e força; fora dele, porém, fazem o curto circúito, a explosão, o incêndio, o desastre, a morte.

Assim é que, no mundo cristão, as divergências, quando legítimas, só poderão ser eliminadas pela sua confluência em Cristo, e não pelo mero embate de umas contra as outras.. A reconciliação religiosa do oriente e do ocidente, há séculos separados, não se efetivará por via de fórmulas dogmáticas conciliatórias, nem pela renúncia de uma das partes, afim de reconhecer na outra o único cetro regente, mas pelo verdadeiro retorno de uns e outros a Cristo. Ortodoxos chamam-se uns, ciosos da pureza apostólica de sua doutrina, conservada através do conflito multissecular de acerbas controversias; e católicos, em sentido restrito, é o nome que a si próprios se dão os do ocidente. Pretendem uns a harmonia do mundo cristão pela força de um credo integral de que se reputam guardiães, e outros pelo poder de uma autoridade central, de que se crêem depositários.

E qual o resultado de semelhantes atitudes? No oriente, a desintegração daquela Igreja, que não resistiu ao embate de forças seculares, chegando ao estado em que hoje se encontra; e no ocidente, a revolução da Reforma que cindiu a Igreja, menos pela grande força dos elementos dissidentes, do que pelo desprestígio em que caira o poder central.

O de que uns e outros mais carecem hoje é de renunciar as respectivas pretensões do saber e do bastão do poderio como termos de comunhão, e humildemente galgarem o ponto mais alto, junto à cruz, como ignorantes e fracos, mas redimidos por Cristo e irmanados pelo preciosíssimo sangue que a todos purifica e os consagra para Deus.

As pretensões doutrinárias tornam os homens arrogantes, irreconciliáveis; e as ambições do mando, mesmo com os mais nobres motivos, indispõem-lhes o ânimo para acolher os irmãos com humildade, com paciência, com amor e espírito fraternal.

Dogmatismo e poderio, eis os dois grandes ídolos que dividem o mundo cristão em nossos dias. E não haverá possível acordo, enquanto os grupos em litígio não se resolverem a subir juntos, com alma e coração, ao Altar de Deus (Introibo ad altare Dei). E aí, compungidos e humilhados à vista de seus

próprios delitos, como corporações, e postos em face do abismo inescrutável do amor de Deus, aprenderão que a real sabedoria é a que vem da cruz, e que o único poder que vence os dissídios e preserva os corações em paz, é o poder do amor, inspirado naquele que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

Aos cristãos não existe o direito de falar de paz entre as nações, nem erguer protestos contra as guerras, enquanto viverem a fomentar amargas discórdias entre si. A paz da Igreja deve anteceder a paz dos povos.

Os sinais evidentes de social delinquência, em nossos dias, provocam nos homens três atitudes diferentes. Uns, os que não vêem senão o ensejo de se chafurdarem também na podridão, como suínos, a se resolverem na vasa, sorvendo ávidamente as impurezas. Outros, dotados de senso de retidão e decência moral, porém descrentes, só sabem soltar um grito de imprecação e pessimismo. Porém aos homens de fé é que está reservada a tarefa de açacalar as armaduras e, sob a inspiração do celestial Comandante, evitando atritos com os próprios camaradas, marchar em ordem para a vitória da verdade, da justiça e da paz em um mundo cambaleante, lacerado por instintos bestiais desgovernados. O único remédio é o que se encontra na fé, na atuação cristã, inteligente, disciplinada. “Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”. I João 5:4.

O dever supremo hoje, é o de semear a paz, a boa vontade e o mútuo respeito entre os crentes, incentivando, para isso, a sagração pública da sua unidade em Cristo, como homens livres, emancipados pela cruz, e por isso mesmo humildes, reverentes - curvados, cada um deles, mesmo o mais obscuro, sob o sentimento vivo de uma responsabilidade pública, compartilhada por todos, e jamais entregue sine conditione às mãos dos que ocupam as sedes do poder, qualquer que ele seja, espiritual ou temporal. A disciplina do Altar, no mais alto sentido cristão, é a verdadeira escola e base de granito, em que se pode firmar e prosperar toda a real democracia.

Reverendo Salomão Ferraz - São Paulo, abril de 1930


Definindo Objetivos

O uso do discernimento – acatar as tradições, o corretivo dos abusos – atitudes justas, definição de objetivos.

De duas coisas principais depende a solidez e estabilidade de uma obra: alicerces e prumo... O que resta, agora, não é ir metendo mãos à obra fazendo tudo à pressa, às cegas, atabalhoadamente, a torto e a direito, visando apenas a ingente quantidades de obras feitas, porém urge refletir por um momento e dar toda a atenção e o mais rigoroso cuidado ao segurar do prumo. Porque qualquer inclinação de uma parte ou de outra, será fatal. Veja, pois, cada um como edifica! De "Princípios e Métodos”

Definindo Objetivos

Discernimento - É sobremodo grave a tarefa de quem se propõe a difundir princípios religiosos e congraçar as almas em torno deles. Se estes princípios forem sãos, equilibrados, construtivos concorrerão para o bem geral do povo, para a sua educação moral e cívica, sem prejuizo do seu progresso geral; mas se forem falhos, unilaterais, extravagantes, só poderão exercer um efeito dissolvente nas massas. A justeza de uma causa não se aquilata pelo ardor dos seus propagadores, nem ainda pelo êxito estrondoso que logrem porventura alcançar, de inicio, com as turbas, mas deve ser computada pelos seus méritos reais, depois de meticuloso exame.

É tempo, no Brasil, de se estudarem com calma todos os problemas que dizem com a vida nacional em seus vários

aspectos, políticos, socias e religiosos, e outros, intimamente ligados entre sí. Ninguém pode, por exemplo, cuidar de religião sem ver imediatamente as suas íntimas relações com a vida nacional no seu conjunto. A respeito de um sistema religioso qualquer, não se deve perguntar somente se faz bem ou se agrada o indivíduo que o professa, mas também se os seus efeitos serão de proveito para a inteira comunidade.

Erro monstruoso seria, de certo, o encerrarmo-nos dentro de muralhas chinezas, suspeitosos de tudo o que nos vem de fora; mas de bom aviso não é, também, acolher sem restrições, ou sem detida análise, tudo o que se nos inculca de outras terras. As grandes idéias e as grandes instituições são o patrimônio geral da humanidade e perdem, por isso, o caráter regional quanto ao seu fundo básico, mas conservam certo cunho especial dos paises em que são implantadas.

Cumpre-nos pois, em tudo, saber discernir o que é de natureza essencial e o que pertence à mera categoria de acidentes, e não aceitar irrefletidamente as coisas, sem as passar pelo filtro do nosso próprio critério.

Não nos convém de certo a prevenção sistemática contra tudo o que tenha procedência do estrangeiro, especialmente quando se nos apresenta com espírito respeitoso para conosco, procurando ajudar-nos e receber também o nosso auxílio, nesse intercâmbio honroso que faz a glória e a alegria dos povos cônscios dos seus destinos.

E assim será bem aceita por nós toda a propaganda social, científica ou religiosa, que não tenha por efeito malquistar-nos com o nosso passado nem indispor-nos, por atitudes extremadas, com o ambiente da vida nacional. Temos o direito e o dever de conservar, em suas linhas gerais, o nosso feitio individual como povo, olhando com reserva para quanto pretenda fazer táboa raza, como indígno e desprezível, de todo o nosso passado.

Verdade é que não pode haver real progresso, em qualquer dos domínios frouxos, covardes, da vida, sem a intrepidez dos que ousam romper com um meio inquinado de vícios seculares e de abusos que, tolerados, perpetuar-se-iam indefinidamente para a geral desgraça. Mas para isso é necessário que se assinale com exatidão, como nas

intervençoes cirúrgicas, o ponto certo em que se deve fazer a ruptura, afim de não se atassalharem as carnes do enfermo, deformando-as, inutilmente. Com isso não se pretende, de certo, acoroçoar atitudes frouxas, covardes, esquivas e inócuas, porém as que se distinguem por justas, e por isso mesmo intrépidas, firmes e intransigentes no meio de contradições apaixonadas e extremistas.

E quanto às nossas crenças religiosas, cumpre-nos aderir com vigor a tudo que é essencial, e que é exatamente o que pertence ao patrimônio comum de toda a cristandade. Cavando fundo sobre a crosta de camadas diferenciais, chegaremos a rocha comum subjacente em que se irmanam os crentes por todo o orbe.

Essa rocha, que não é o mínimo de princípios cristãos, mas o máximo, porque os abrange a todos, é o que constitui o elemento essencial da fé católica.

Ritos e Cerimônias

No tocante aos ritos e cerimônias do culto externo, embora não sejam essenciais em si, não são todavia de natureza tão secundária e desvaliosa como a muitos se afigura. Não convém adotados ou omitidos arbitrariamente ao sabor de cada indivíduo ou grupo, mas de acordo, o quanto possível, com a usança geral da Igreja. Podem ter um efeito reverencial, conciliador, unificante, ou podem ter um caráter contencioso, displicente e provocador. Sendo os mesmos ou quase os mesmos em toda parte, mostram, à primeira vista, que a religião de Cristo é uma só, apezar de serem muitos e diversos os povos que a professam, e a despeito dos sistemas vários que a representam.

Se alguma agência religiosa inclui entre as suas finalidades o propósito de fazer oposição sistemática e incondicional a qualquer outra, há então todo o proveito de se acentuarem e criarem diferenças irreconciliáveis, à maneira de certos políticos de aldeia que, vitoriosos e senhores da situação, entregam-se furiosamente ao extermínio de tudo o que fizeram os seus antecessores, arrancando as placas de ruas e praças, substituindo-as por outras, e inutilizando obras públicas que possam sugerir, de alguma forma, um título de benemerência aos seus rivais. Há uma coisa porém que não logram mudar, a

não ser para pior; é o espírito estreito, intolerante, desonesto, pequenino.

Porém se o objetivo de uma obra religiosa é, deliberadamente, o de ajudar as almas, instruí-las, incutir-lhes sentimentos nobres de reverência para com Deus e de amor e respeito pelos homens, especialmente aqueles que trabalham para o mesmo fim, então sentir-se-á toda a conveniência em fazer o mínimo possível de alterações no que toca as cerimônias, usos e costumes religiosos existentes, e muito particularmente quando estes representam tradições multisseculares da Igreja Universal.

Atitudes Justas

  • Será este o modo de agir de quem se dispõe a efetivar uma obra religiosa construtiva em qualquer parte do mundo. Não terá garbo em diferir de outros em coisas de somenos, mas não fugirá também de mostrar-se diverso e melhor em tudo o que for necessário e indispensável, especialmente em dar provas de tolerância em face da intolerância, de justiça e equidade em presença da injustiça, de paciência no meio de provocações, espírito de apreciação em revide a insultos e impropérios, de amor cristão e fraternal em resposta a hostilidades. As atitudes justas, respeitadoras, fraternais, sem frouxidão ou subserviência, falam muito mais alto do que todos os argumentos.

É inegavel que a propaganda religiosa, de tipo intolerante e infenso às formas tradicionais do culto cristão, apresenta, por vezes, frutos de verdadeira conversão e mudança de vida. E isso lhes serve de argumento para se firmarem de que é esse o verdadeiro e único método de agir. Mas se observarmos com atenção, veremos que nos seus conversos foi inoculada uma disposição de espírito doentia, impregnada de ódio sectário, e uma tal e qual fobia infraternal e irreverente. Tais prosélitos são ensinados a menoscabar tudo o que representa o patrimônio sagrado das suas tradições, a começar pelo batismo, que renunciam como irrito e falso, a fim de receberem, às mãos de enviados de outras terras, ou de seus discípulos, um novo batismo, o verdadeiro, como são levados a crer. E o espírito desrespeitoso, não contente com isto, vai

por diante, malsinando tudo, até colocar o pé profano sobre o Altar da Santa Comunhão, falando com desdém da propria Instituição de Cristo e do pão asmo que se consagra na Eucaristia segundo o rito cristão tradicional no pais. E assim prossegue, dando a tudo uma interpretação grotesca e degradante. É isto incontestavelmente um mau processo, de consequências muito mais graves do que a principio se imaginam. E as maiores vítimas são os proprios que o empregam, criando em torno deles um ambiente de impiedade e desacato, de que se queixam depois com amargor.

Eliminando dos seus templos e das suas devoções o simbolismo da cruz, pelo motivo de haver sido usado com ignorância e superstição, eles engendram, por sua vez, uma outra superstição, de efeitos mais funestos, porque irreverente, audaciosa e fautora de preconceitos odientos, dificeis de se removerem: é o medo supersticioso da cruz. O símbolo da fé, da redenção, da vitória e da fraternidade vem a ser considerado por muitos como 0 sinal da besta apocalíptica, ou a senha do inimigo das almas.

Atitude monstruosa, aberrante de toda a tradição cristã e dos proprios termos da Escritura Sagrada, pode ser ótima para quem visa engrossar fileiras de partido a todo preço, porém péssima para o real serviço em prol das almas, que devem ser edificadas na fé, na verdade, na tolerância humilde e caridosa, no amor de Deus, e no espírito da universal unidade dos que crêm em Jesus Cristo.

Sabido é que tal atitude extremada, visivelmente injusta, é assumida por ignorância nascida de velhos preconceitos sectários, e não propriamente por má fé, nem por maus intentos. Porém as boas intenções não redimem os maléficos efeitos de crenças e práticas menos corretas.

A cruz, quer usada no simbolismo das palavras, quer nos das formas ou dos gestos devocionais, significa sempre a mesma coisa - gratidão ao Salvador que nos remiu, confiança no valor do seu preciosíssímo sangue, e a lealdade que devemos a quem deu a sua vida por nós.


O corretivo dos abusos

Se as formas do culto externo, praticadas com abusos, cairam porventura em desprestigio, o melhor serviço que se pode prestar ao público e à causa da religião, é reabilitá-las, oferecendo o exemplo de como podem ser usadas com espírito sério, devoto e inteligente. Essa religião com pretensões a um puro espiritualismo, sem fórmulas que a traduzam ao alcance dos sentidos, não é a religião de Cristo, não é a religião do Verbo que se fez carne e habitou entre nós, mas é a velha heresia gnóstica dos tempos primitivos, modernamente representada por alguns sistemas anti-cristãos radicados à India, e tão em voga, hoje, com certos espíritos que nunca beberam na fonte divinal da religião de Cristo.

E se abusos justificam o desprezo das coisas que assim foram tratadas, e a rancorosa aversão para com elas, então a Bíblia mereceria a mesma sorte, como há hoje muitos que assim pensam. Pois não há livro no mundo, de que mais se tenha abusado do que a Biblia, maltratada por amigos e inimigos. Mas o corretivo de tais abusos não é deitar o sagrado volume às chamas nem o proibir a sua leitura, como alguns fazem com imenso dano para as almas, mas ensinar o povo a lê-la com inteligência e espírito reverente.

O que resulta dessa propaganda de caráter sectário e intolerante é a formação de uma atmosfera empestada de querelas e desnecessárias amarguras, com recíprocos baldões e ameaças com o castigo do inferno, que desgraçadamente não raro se efetivam, não na outra vida, mas mesmo nesta, criando-se um verdadeiro inferno de desavenças no seio de famílias e entre amigos, que já não se entendem uns aos outros. E quando começam a voltar às boas, é ao preço de certa indiferença religiosa. É que uns e outros se bateram pelas cascas da nóz, esquecendo a melhor parte, a qual, devidamente recebida, teria servido para apertar entre eles os vínculos sagrados de amizade e amor cristão.

Definindo Objetivos

Há certos quesitos que devem ser

levados ao foro da consciência de quantos se empenham na obra religiosa. Qual o fim colimado pela propaganda que fazem? Ajudar as almas ou exercer sobre elas predomínio? Instruir as massas, ou explorar nelas, por processos demagógicos, o mero espírito de revolta e deserção? Edificar ou dispersar? Unificar ou dividir? Avivar a chama broxuleante da fé nos corações, ou apagá-la com atitudes extremadas e irreverentes? Que se pretende? Promover os interesses de seita, acentuando para isso diferenças com outros, ou promover os fins do reino de Deus pela fraternização dos homens em Cristo? Inspirar outras agências que visam o mesmo objetivo, oferecendo-lhes, para isso, um modelo, um estímulo, para que melhor se corrijam dos seus defeitos e se restaurem das enfermidades crônicas que as afligem, ou desacreditá-las no conceito do povo, trazendo assim geral desprestígio para toda a religião de Cristo? Honrar perante o mundo o nome de Cristo, ou desonrá-lo, fazendo acreditar que a religião divina, na obra de unificar as almas, vale menos que certas associações seculares de objetivos filantrópicos, que têm os seus membros reconhecidos em todo o mundo?

Tais interpelações, como acima, não podem ser acoimadas de gratuitas ou impertinentes, especialmente quando o mundo, avariado por uma recente catástrofe de proporções inauditas, se defronta com uma situação moral tremenda que só a influência de Cristo, direta e incontrastada, poderá conjurar. E a nossa propria pátria, nos dias que atravessa, reclama dos seus filhos uma atitude tal, inteligente, coesa e valorosa, que só na religião divina, inspiradora da fé, da fraternidade e da paz, lhes será dado encontrar.

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A Unidade da Igreja

O sacramento da Unidade - conceito católico da igreja - chibolethes provincianos - a autoridade moral - sede visível de unidade - selo inviolável de unidade - sede suprema do poder - o lábaro da cruz -


Prece a favor da Santa Igreja Católica

Altíssimo Deus, supremo doador de todo o bem; A tua benção nós imploramos a favor da tua santa Igreja Católica: a cada um de nós seus membros anima e esclarece, em todo o lugar, com a plena luz da verdade, enchendo os seus corações de amor, e do espírito de concórdia e paz. Onde se encontra a tua Igreja em decadência e corrompida, digna-te purificá-la e erguê-la; onde em erro, dá-lhe a tua instrução, e conduze-a pela reta vereda; deturpada por abusos, opera-lhe saudavel reforma; e onde se revela íntegra e fiel, seja por ti confirmada; e onde sofre, à mingua de recursos, envia-lhe o teu socorro. E sana enfim todas as suas discórdias; por amor daquele que morreu e ressurgiu, e vive agora para interceder por nós. Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. Amém.

  • Da Liturgia da Santa Comunhão

A Unidade da Igreja

Pedagogia Religiosa

  • Moysés, o legislador hebreu, foi o mais perfeito educador de quantos floresceram nos tempos antigos. E a obra da instrução religiosa, em nossos dias, encontra nele um modelo de valor inestimável.

É de notar a suma habilidade com que, a passos seguros e firmes, vai do concreto para o abstrato, do conhecido para o incógnito, do simples para o complexo, mediante transições naturais e faceis. Encontra ele, para se firmar, um ponto de partida que é ao mesmo tempo um fulcro, em torno do qual deve revolver em ordem, em harmonia e perfeita coesão, todo o ensino religioso e cívico.

Esse ponto central, que fala ao mesmo tempo à razão, à imaginação e aos mais profundos afetos da alma, é a Instituição da Páscoa, que seria solenemente celebrada, no decurso das gerações, em comemoração do estupendo fasto nacional que foi o Exodo. "Guardareis isto para vós e para vossos filhos para sempre. E quando tiverdes entrado na terra

que o Senhor vos há de dar, segundo a sua promessa, observareis este serviço". E passa então a mostrar o fim didático que teria esta observância para as futuras gerações: "Quando vossos filhos perguntarem: Que quereis dizer com esse rito? respondereis: É o sacrificio da Páscoa do Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egipcios e livrou as nossas casas".

O legislador hebreu escolhe o momento culminante e decisivo na história do povo, a memorável saída do Egito, e põe-no como fundamento e como eixo em torno do qual se deve desenvolver toda a obra da educação religiosa e nacional.

A Eucaristia

  • Jesus Cristo, o incomparavel mestre e educador dos homens, diante do qual os demais desaparecem como estrelas à luz do sol, não deixou desnorteados os seus seguidores, sem um ponto central e concreto, que seria para eles como a pedra angular em que se assentasse todo o vasto edificio da obra, particularmente divina, de que OS encarregara, da educação religiosa e moral dos povos. Ao instituir a Eucaristia, ele insiste sobre o aspecto memorial e didático do rito: "Fazei isto em memória de mim". A palavra "memória", aqui, seria melhor traduzida como "memorial". E São Paulo, comentando a instituição, assim se exprime: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, "anunciais a morte do Senhor até que ele venha". Vê-se, pois, que no pensamento de Cristo, bem como no do apóstolo São Paulo, a Eucaristia, além de outros objetivos, tem um fim distintivamente instrutivo, visando tornar Cristo lembrado, honrado e conhecido, não apenas dos fiéis, mas também das novas gerações e do público em geral. E este rito, tal como o da Páscoa dos judeus, é, também, de natureza a provocar nas crianças a natural curiosidade de saber o sentido de todo aquele ato solene.

É aí, portanto, onde se encontra o ponto de partida e o mais feliz programa de um curso de instrução religiosa. O ensino cristão, assim ministrado, perde o seu caráter vago e distante, tornando-se coerente, empolgante, prático, substancial. Ao mesmo tempo, desaparece o feitio abstrato e meramente

curioso, em que se degenera tanto esforço bem intencionado para disseminar a instrução religiosa, assumindo tal ensino uma finalidade concreta, preparando o catecúmeno para um ato visível e objetivo, que é tomar parte na Santa Eucaristia, e tendo como consequência definir a sua atitude perante os homens e aos olhos da sua propria consciência.

Sacramento da Unidade

  • Tal deve ser o plano de uma sólida instrução religiosa. Mas para isso é necessário, antes de tudo, que se conheça a significação, o valor e a finalidade da Santa Eucaristia. Sacramento da unidade, não pode ser tido em alta estima onde reinar o espírito individualista e faccioso. Desaparecido o espírito de união, e em seu lugar prevalecendo apenas o zelo arrogante e sectário, a Eucaristia cai também no menosprezo, como se fosse apenas um simples apêndice humilhante e importuno de uma religião espiritual.

Sacramento da Fé

  • É também o sacramento da fé, da religião revelada, divina, sobrenatural. E quando a chama da fé se vai apagando, substituída pelos fogos fatuos de um modernismo naturalista e incrédulo, reprodução do velho arianismo, o Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor vai também caindo no descrédito por espíritos frívolos, que todavia se julgam superiores e emancipados.

Mas o Sacramento do Altar, fielmente celebrado e recebido, com fé humilde e singela, é o meio divino de atear a flama da fé nos corações, livrando-os de acabar nas trevas da descrença e do pessimismo, e renovando neles a fonte de perenes alegrias.

Fruto da fé, a Santa Eucaristia, qual lente cristalina que focaliza e aumenta o calor dos raios solares, é o grande meio, instituído por Cristo, para a renovação contínua e salutar da fé.

Conceito Católico da Igreja

  • Por isso um dos distintivos mais salientes que deve ter uma eficiente educação religiosa,

há de ser a proeminência dada ao caráter católico da Igreja, deixando ficar em plano relativamente secundário o sistema peculiar - romano, anglicano, ortodoxo ou evangélico - a que possa estar o crente eventualmente filiado pelas suas proprias preferências ou quaisquer circunstâncias alheias à sua atuação.

Dividido em vários ritos e sistemas disciplinares, como se encontra 0 mundo cristão, não seria isso de maior consequência, se não fora o espírito de ignorância, de recíproca hostilidade e desamor que prevalece entre tantos que professam a religião do Mestre. Foi esse mau espírito, de que nenhuma das partes é inocente, o que rasgou, nos séculos passados, a túnica inconsutil de Cristo.

E o mundo necessita, hoje talvez mais do que nunca, depois do século apostólico, de que toda a Igreja apresente uma frente única contra o inimigo comum - o materialismo incrédulo, truculento, dissolvente.

E a mesa da Santa Comunhão deveria ser o lugar privilegiado, no alto, na região em que prevalece a caridade cristã, fora do ruído infernal da contenda das línguas, onde todos os crentes se irmanassem, esquecidas todas as diferenças, perdoadas todas as mágoas, como uma só família e um só corpo em Jesus Cristo.

E por isso urge, nos tempos que correm, passar em revista a doutrina e prática do Sacramento do Altar, estudando o assunto com isenção de ânimo e reformando os nossos pensamentos e hábitos em tudo o que estiverem de encontro ao ensino e ao espírito de Cristo.

Mas não podemos encontrar um conceito exato do valor da Eucaristia como Sacramento de unidade, sem alguma noção, mais ou menos clara, do que constitui a base elementar da unidade da Igreja. Esta unidade, não apenas espiritual, intrínseca, latente, abstrata, mas concreta, visível, profunda, integral, constitui, na sua essência, o ideal católico, ou, noutros termos, o ideal de Cristo.

Conformar-se, pois, com uma Igreja dividida, ou dissimular a situação taxando de herejes indistintamente a todos quantos, embora reverentes, piedosos e sinceros, não se alinham ao sistema que reputamos o melhor, é agravar o mal em vez de

promover-lhe a cura.

Unidade pela Supremacia

  • E assim, o meio sumário, que muitos imaginam capaz de resolver de um golpe o delicadíssimo problema da unidade da Igreja, é o de reconhecer a supremacia, de jure, de um dos ramos da Igreja, escolhendo, para isso, aquele que pareça haver resistido menos mal ao embate dos séculos, e arvorá-lo como o núcleo necessário e absolutamente indispensavel de unidade. Mas esse recurso, tentado com maestria durante séculos, fracassou, como os fatos o demonstram. E não poderia deixar de fracassar, visto não ser o método de Cristo, nem o dos apóstolos, nem o da Igreja Primitiva. Antes da idéia de ordem, segundo o exemplo e o preceito de Cristo, vem o amor; e antes do pensamento de governar, vem o de servir. O de que necessitamos

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