A Fé Nacional - V

Versão Integral em Texto

A Fé Nacional - V

Salomão Ferraz1932

A Fé Nacional

VENITE AD ME OMNES /

Salomão Ferraz

A Fé Nacional

São Paulo ۱۶/

V

A Fé Nacional

CESAR E BARRABAZ CONCLUSÕES


Cesar e Barrabaz

EMAVENTURADOS os pacificado- res; porque eles serão chamados filhos de Deus. S. Mat. V: 9.

Lavabo

AVAREI as minhas mãos na ino- cencia, e assim, ó Senhor, me acercarei do teu altar: Para ouvir a vóz dos teus louvores e proclamar teus feitos portentosos. Senhor, eu amo a beleza da tua casa, e o lugar em que assiste a tua gloria. Não me deixes, ó Deus, perecer com os impios, nem a minha alma com os que obram a iniquidade: Nas mãos dos quais se encontra o crime, e cujas dextras ostentam as peitas. Eu ando porém sinceramente: li- vra-me, tem de mim piedade. Em terreno plano eu firmo meus pés, e nas congregações te bendirei, Senhor. Gloria ao Pai, e ao Filho, e ao Es- pirito Santo; como era no principio, agora e sempre, pelos seculos dos se- culos. Amen.

Do Ofertorio, na Missa, quando o cele- brante lava as mãos.


S varios capitulos que formam este livro não são propriamente ensaios academicos, e muito menos o fruto de exoticas pesquizas, por campos lon- ginquos, inaccessiveis ao comum dos homens que pen- sam e que estudam. Firmando-nos embora sobre autori- dades competentes, não são elas todavia o nosso unico ponto de apoio. A mais forte armadura, de que dis- pomos, são as nossas proprias convicções, adquiridas no embate de agonias interiores, e nos conflitos, ás vezes bem asperos, com as circunstancias. Se temos em grande estima o Altar, é porque havemos galgado pessoalmente os seus degraus, e aí deparado, invaria- velmente, as indiziveis bençãos que resultam da obe- diencia humilde ao que o Mestre ordenou: "Fazei isto em memoria de mim". A visão que temos da verdade catolica, no sen- tido lato e generoso que o termo assume neste livro, é a resultante do fato cristão lealmente verificado de varios angulos distintos, e que admiravelmente se com- pletam: do angulo oriental da tradição consubstancia- da na Igreja do Oriente, com o seu misticismo e pro- fundo espirito de adoração; do de Roma, com o seu senso pratico de ordem, de unidade e proporção, como se vê da liturgia incomparavel da Missa; (*) e do ponto

(*) O Bispo Gore, o mais notavel dos escritores anglicanos da atualidade, ha pouco falecido, escrevendo sobre as vantagens e desvantagens da liturgia anglicana, diz no seu livro "The Body of Christ", á pag. 282, que a liturgia da Missa latina, sim- plesmente vertida para o idioma inglez, para uso da Igreja, te- ria evitado muita controversia liturgica e doutrinaria em que se debatem, sem possivel acordo, varias escolas. A liturgia da Missa, segundo esse escritor, paira em plano sobranceiro, fóra


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de vista evangelico, ou protestante, como queiram, em que as almas são levadas a sentir a sua direta depen- dencia de Cristo e do Santo Espirito, formando assim o tipo dos homens livres, porém piedosos e fraternais, especialmente quando bem instruidos e sem os exces- sos da demagogia anti-catolica. E' que S. Pedro, S. Paulo e S. João, embora ocupando posições diversas, são todavia colunas essenciais, que asseguram a esta- bilidade, a beleza e harmonia da Igreja una, santa, ca- tolica e apostolica. E por isso o conceito que temos da Igreja Catolica em nossos dias, semelhante ao de S. João no introito do Apocalipse, é o de uma Igreja por assim dizer for- mada de Igrejas, cada qual com suas virtudes, mas tambem, por suas fragilidades merecendo, por vezes, energicas repreensões do Santo Espirito. Catolicismo, pois, conforme o entendemos, não pode jamais cir- cunscrever-se aos limites traçados pela jurisdição oficial da Sé Romana, mas vai além e abranje, como o do canon da Missa, todos os que professam a fé catolica e apostolica, omnibus orthodoxis, atquae Catholicae et Apostolicae, fidei cultoribus. Tem sido nosso esforço o de contemplar a ver- dade cristã pelos varios prismas legitimos do pensa- mento religioso. E temos assim nos aplicado a vê-la, o quanto possivel, com os olhos dos crentes ortodoxos, assim como com os da piedade catolica romana, sem os oculos rubros de quaisquer preconceitos; e igual- mente, e não sem fruto, com os olhos do sistema evan- ge'ico, no seio do qual havemos encontrado as mais

do alcance das contendas. Ele não advoga por certo a sua for- ma em lingua, vulgar outróra, mas hoje ininteligivel a povo comum, nem tão pouco a comunhão dos fieis em uma só das especies; todavia opina que esse oficio, devidamente trasladado, seria o melhor que se pudera desejar para a celebração da Eu- caristia,

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decisivas e salutares experiencias na vida religiosa. E temos sobretudo procurado olhar para os homens e as cousas com os olhos de Cristo, os olhos da sua im- parcial singeleza que não faz acepção de pessoas, e pelo prisma dos ideais altaneiros do seu reino. A verdade divina, multiforme nos seus aspectos, não pode ser bem apreendida isoladamente pelo sim- ples individuo, nem por uma particular escola ou des- tacado grupo de crentes. Ela só se mostra em seu justo relevo e na devida proporção, em sua beleza e harmonia, quando vista pelo conjunto acorde das almas convertidas e animadas de amor fraternal. A. visão catolica da verdade é obliterada pelo espirito de seita, pela atitude de isolamento infraternal, intolerante, mesmo no caso em que ostenta na bandeira o titulo pomposo de "catolica". O que importa não são os rotulos, mas a realidade. Catolicismo, no sentido que tem nos Credos, assim como na carta de S. Paulo aos Efesios, é de natureza generosa e inclusiva, e não de feitio exclusivista; é um catolicismo que vê com os proprios olhos, atravez de uma experiencia pessoal, profunda e marcada, e tambem com os olhos dos outros que procuram andar sincera- mente nos passos de Cristo. "Habite Cristo pela fé nos vossos corações escreve S. Paulo aos Efesios sendo vós arraigados e fundados em amor, afim de que possais compreender com todos os santos qual seja a largura, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que sobrepuja tudo que dele se pode conhecer, afim de que sejais cheios até á inteira ple- nitude de Deus". (Efesios 3:17-19). E' pois um catolicismo que procura conhecer a Cristo, não só individualmente, e nem apenas com os fieis em Efeso, ou em Roma, ou em Alexandria, mas com todos os santos, em todo lugar e em todos os tempos, com São Francisco de Assis e Santa Teresa, e


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de vista evangelico, ou protestante, como queiram, em que as almas são levadas a sentir a sua direta depen- dencia de Cristo e do Santo Espirito, formando assim o tipo dos homens livres, porém piedosos e fraternais, especialmente quando bem instruidos e sem os exces- sos da demagogia anti-catolica. E' que S. Pedro, S. Paulo e S. João, embora ocupando posições diversas, são todavia colunas essenciais, que asseguram a esta- bilidade, a beleza e harmonia da Igreja una, santa, ca- tolica e apostolica. E por isso o conceito que temos da Igreja Catolica em nossos dias, semelhante ao de S. João no introito do Apocalipse, é o de uma Igreja por assim dizer for- mada de Igrejas, cada qual com suas virtudes, mas tambem, por suas fragilidades merecendo, por vezes, energicas repreensões do Santo Espirito. Catolicismo, pois, conforme o entendemos, não pode jamais cir- cunscrever-se aos limites traçados pela jurisdição oficial da Sé Romana, mas vai além e abranje, como o do canon da Missa, todos os que professam a fé catolica e apostolica, omnibus orthodoxis, atquae Catholicae et Apostolicae, fidei cultoribus. Tem sido nosso esforço o de contemplar a ver- dade cristã pelos varios prismas legitimos do pensa- mento religioso. E temos assim nos aplicado a vê-la, o quanto possivel, com os olhos dos crentes ortodoxos, assim como com os da piedade catolica romana, sem os oculos rubros de quaisquer preconceitos; e igual- mente, e não sem fruto, com os olhos do sistema evan- ge'ico, no seio do qual havemos encontrado as mais

do alcance das contendas. Ele não advoga por certo a sua for- ma em lingua, vulgar outróra, mas hoje ininteligivel a povo comum, nem tão pouco a comunhão dos fieis em uma só das especies; todavia opina que esse oficio, devidamente trasladado, seria o melhor que se pudera desejar para a celebração da Eu- caristia,

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velmente os crentes uns dos outros, e empecem o teste- munho, tão necessario em nossos dias, da sua real uni- dade como um só corpo em Cristo. Porém não desejamos tambem de forma alguma acalentar a estolidez de um otimismo cégo, alheio á sombria realidade ambiente. Observa-se em toda parte um mal estar generalizado e profundo, manifestando- se, como o virus de Hansen, por uma alarmante atonia moral e espiritual. E quando uma sociedade se mostra insensivel aos mais altos ideais de justiça, de disciplina moral e liberdade, e deliberadamente os repele, e pra- ticamente rejeita a Cristo, como os Judeus na Sexta- Feira da Paixão, dando preferencia, ou ao predominio de Cesar, "Não temos outro rei senão a Cesar", ou á demagogia de Barrabaz, "Solta-nos Barrabaz, e a este crucifica", então já não resta mais outro aviso, senão o que se encontra nas palavras profeticas de Cristo: "Os que estão na Judéa fujam para os mon- tes"; porque é chegado o dia do juizo, em que um povo em massa, pela sua propria boca, se vota ao exterminio. E' grave a situação, quando os homens, nos do- minios da politica e na esfera religiosa, não descobrem outro meio de se regerem, a não ser o de extenderem os pulsos para receber as algemas das ditaduras poli- ticas de carater permanente, ou as de qualquer infali- bilismo religioso do mesmo feitio; ou então quando, delirando em febre, são vistos a correr freneticamente atrás das bandeiras encarnadas dos Barrabazes sedicio-- sos, a liderança dos quais eles acolhem de bom grado, por isso que exploram as paixões do povo e as suas tendencias malsas, em prejuizo do ascendente moral e espiritual de Jesus Cristo, que liberta os homens pela cruz e os congraça pelos laços do amor e do mutuo respeito. Nas horas criticas de decadencia social, em que os mais sanguineos formam nas maltas truculentas


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dos Barrabazes da demagogia, outros, quiçá mais astutos, acolhem-se debaixo do pavilhão do cesa- rismo em todas as suas formas. E ha ocasiões em que Cesar e Barrabaz dão-se as mãos imperialismo re- ligioso e nacionalismo rubro em pacto formal, no pro- posito ostensivo de oferecer amparo aos povos por meio de grilhões. Porém a salvação publica não pode vir de Cesar, nem tão pouco de Barrabaz, ainda quando se mostram amigos. Quando se rejeita praticamente a Cristo e o seu imperio moral, procurando-se abrigo nas formulas politicas e sociais artificiosas, então só resta aos individuos, ou grupo deles, que não querem sover- ter-se na catastrofe, a indicação do escritor aos He- breus: "Saiamos, pois, a ele (Cristo) fóra dos ar- raiais, levando sobre nós o seu oprobrio." Exgotados os recursos de salvação coletiva, só fica um alvitre aos que temem a Deus e acodem aos re- clamos do invisivel: o de recolherem-se ao santuario do seu intimo e ao convivio de uma elite espiritual que tem a Cristo como Rei. "Vai, pois, povo meu, entra nas tuas camaras, e fecha as tuas portas sobre ti, até que passem as calamidades." (Isaias 26-20). Se o oficialismo, refractario e desvairado, não ajuda o povo a acertar com o caminho da paz interior e da verdadeira liberdade, então só remanesce aos espi- ritos que atendem aos reclamos do alto, a atitude ex- trema de se retirarem e deixarem-se guiar, como os ma- gos, pelo clarão sideral que os leva a Cristo, a despeito dos Herodes do oficialismo que, não podendo fugir á declaração da verdade, limitam-se a urdir planos sinis- tros para burlar os seus efeitos. Ninguem se iluda com as ditaduras, qualquer que seja o seu feitio, politico ou religioso. Entre a causa de Barrabaz e a de Cesar, a ultima certamente é menos má, humanamente falando, porque disfarça, ainda por algum tempo, esmagando-a como sob um rolo com-

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pressor, a podridão intestina, juntamente com ele- mentos sadios e perduraveis. Mas não regenera cousa alguma, e só concorre para tornar, no fim, maior a catastrofe. E quando os homens, deliquescentes e desvaira- dos, preferem antes a Cesar do que o dominio moral e espiritual do Cristo, elles igualmente conseguem pôr em liberdade o Barrabaz da demagogia sediciosa. E quan- do Cesar e Barrabaz se tornam os idolos de um povo dementado, que prefere ver Cristo no patibulo, e com ele estrangulada a verdadeira liberdade que redime e santifica as almas, então já não se pode esperar outro desfecho, senão o do bando negro das aves que se apascentam das carcassas. "Onde estiver o cadaver, aí se ajuntarão tambem os corvos". E sempre que um individuo, ou um povo, se encontrar carcomido, a exa- lar maus olores, aí tambem aparecerão, automatica- mente, inexoravelmente, os elementos da sua destrui- ção. A verdadeira diretriz não está com os que espe- ram a salvação por via do cesarismo, ultramontano ou politico, e nem tão pouco com os bandos que facilmente adérem aos Barrabazes do espirito sedicioso em todas as suas modalidades. O remedio consiste em receber lealmente no intimo d'a'ma a soberania moral e espiri- tual de Jesus Cristo, aceitando-o como Rei e Senhor "Este é o Senhor de todos" como dizia S. Pedro na casa do centurião romano. O remedio eficaz, pois, contra o cesarismo em todas as suas formas não consiste em dar mão forte aos Barrabazes da demagogia politica ou religiosa; e o corretivo da demagogia não será encontrado em pô- rem-se nas mãos do cesarismo, incondicionalmente, as re- deas do mando absoluto. O antidoto de um e outro destes principios virulentos, que reciprocamente se hos- tilizam, e ás vezes tambem se aliam, deve ser buscado em duas fontes principais: - a) No espirito de reve-


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rencia e piedade doutrinaria, devocional e pratica. Efetivamente, no altar, na livre comunhão com o Se- nhor, que prometeu estar presente em toda a parte onde dois ou três se reunirem no seu nome, em espirito humilde, reverente e fraternal, é que se encontra a ver- dadeira força emancipadora das almas "No teu san- tuario ha força e gloria." Os que assim se congre- gam, em nome de Cristo, nos ideais de Cristo e do seu reino, não têm necessidade de se deterem ante quais- quer imposições dos que se julgam detentores unicos da divina autoridade. Quando Cristo expirou na cruz, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo, dando livre accesso ás almas que buscam ao Senhor no santuario. Bom é fazer tudo com decencia e com ordem, com geral acordo, sempre que possivel; mas tambem, se necessario e em certas ocasiões, com a intrepidez de um S. Pedro que, á vista de ordens iniquas, emanadas do cesarismo de então, soube dizer com ousadia: "Im- porta antes obedecer a Deus do que aos homens." b) No cultivo do espirito de real fraternidade e camaradagem entre as almas crentes, sem distinções de seitas ou de partidos, e sem depender, necessariamente, para isto, da permissão dos que se imaginam armados com direito ao predominio absoluto das almas. Ao ce- sarismo convem, a todo transe, criar toda a sorte de prevenções entre os crentes, fazendo crêr, aos que lhe obedecem ao mando, que os demais são hipocritas, fal- sarios, movidos por interesses inconfessaveis, e que não acreditam sequer em Deus. Nada, pois, de relações com eles! E' o velho processo maquiavelico de dividir para melhor dominar. Por outro lado, o demagogismo religioso faz outro tanto, sem nada ficar a dever ao cesarismo. A tal ponto chegam por vezes na truculencia indiscriminada das suas atitudes, que violam até o santo sinal do Ba- tismo, dando como irrito e nulo um ato que foi feito solenemente em nome da Santissima Trindade: só pela

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razão, ao que parece, de não ter sido administrado pelas suas mãos ou as de seus socios! O seu plano, com plena conciencia ou não, é o mesmo do cesarismo: dividir os crentes para melhor os ter a seu talante. E as consequencias são tambem as mesmas: uma fé toldada de duvidas, uma fraternidade cristã claudicante, uma obliterada visão de Jesus Cristo e da sua Santa Igreja, e um motivo para a impiedade escarnecer dos crentes e manter-se em atitude hostil á Igreja. mo Tal espirito de reverencia e fraternidade, colunas mestras da religião e de toda a construção social, deve afirmar-se ousadamente, não em nome de um humanis- superficial e maneiroso, mas "em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo", o nome augusto da Santissima Trindade, que deu a cada crente o seu solene ingresso na Santa Igreja Catolica, da qual nenhuma força humana, nem a do cesarismo prepotente, nem a da demagogia dos Barrabazes todos do mundo, o po- derá jamais arrancar. car. E quando alguem o interpelar sobre as razões que o fazem considerar-se dentro dos precintos da Santa Igreja, fóra da qual não ha salva- ção, como realmente não ha, ele poderá responder: "Eu estou de posse de uma credencial firmada pela mais alta autoridade que se pode invocar, mais alta que a de Bispos, de Patriarcas ou de Papas, e mais alta que a dos proprios anjos no céu: sobre mim foi afixado, com a divina autoridade de Cristo, o selo do "Pai, e do Filho, e do Espirito Santo." Não preciso de mais. E não ha nenhuma força, neste mundo, enquanto me guardar fiel, que possa arrancar ou invalidar este selo." Espiritos cansados e desiludidos, hoje, e ás vezes depois de experiencias amargas com a demagogia re- ligiosa de grupos extremistas, ao contemplarem os mo- numentos e os recursos do cesarismo religioso, com a sua admiravel tessitura de um militarismo consu- mado, e que traz tambem no seio tesouros inestima-


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veis de piedade e de gloriosas tradições são ten- tados a considerá-lo como o unico reducto de salvação para um mundo a pique de sumir-se no vortice do anar- quismo. Mas é preciso que não sejam ingenuos, e se lembrem tambem de que igualmente grandiosas e so- berbas, cheias de pias tradições, guardando com santa religiosidade os oraculos das Santas Escrituras, eram as instituições judaicas, com o seu templo majestoso em Sião, e que no entanto não impediram a derrocada nacional. E que se lembrem tambem de que é preci- samente o cesarismo, qual o do Tibre e o da Russia, que vem armando e pondo na rua as mais perigosas maltas de sublevação politica e religiosa. Exactamente nos paizes em que tem sido incontrastada a vigencia do absolutismo religioso, é que têm surgido as reacções mais violentas. A Cesar será dado talvez pôr em cheque, tempo- rariamente, os excessos de Barrabaz e seus asseclas, mas tornar-se-á fatalmente, no fim, como alos Hebreus do 1.° seculo, o coveiro da nacionalidade. Não é de Roma que vem a salvação, e muito menos de Moscou, mas a salvação vem do alto, da Jerusalém celestial, a séde de luz e vida, onde reina o Cristo vivo, e que foi morto, mas vive para sempre, a derramar so- bre os crentes efluvios de graça, de poder e verdadeira liberdade. E finalmente com humildade, no temor de Deus, en- tregamos estas considerações ás conciencias retas, cle- rigos e leigos, que colocam acima dos partidos a patria, acima de conveniencias gregarias a verdade, e acima das seitas a Igreja; e, dentro da Igreja, como parte da es- trutura desta, a personalidade, o homem redimido, san- tificado e emancipado pela cruz, como cousa sagrada a que não deve tocar o ferro que mutila e profana: pe- dra viva, ajustada e consagrada aos mais altos fins da vida humana sobre a terra, e aos gloriosos destinos que se desdobram no além.


Conclusões

CUMPRE-NOS aqui resumir, afinal, o geral teor des- tes capitulos, pois que levam, todos, de uma ou de outra fórma, para uma méta que se afigura tão longin- qua, fóra do alcance da vista, e que somente a fé póde en- trever. Longe porém de ser isto um motivo de desmaio, é antes um poderoso incentivo para as almas bem nor- teadas, que abraçam, com animo, os heroicos termos que a inspiração impõe aos paladinos do ideal vida pela fé. "O justo viverá pela sua fé". Que faremos pois? - é a pergunta que hão de fazer muitos leitores, em cujas conciencias terão calado, de al- guma sorte, as razões aduzidas nestas paginas. Onde é que se encontra o gremio religioso, neste país ou alhures, a que nos possamos acolher para dar expressão aos ideais aqui gizados? Teremos porventura de fundar uma nova igreja, um corpo ecletico, em que se concretizem, com eficacia, os principios aqui preconizados? E' bem possivel que assim pensem alguns, porém erradamente, ao nosso ver. Tempo houve, em circuns- tancias especiais, no seculo XVI, em que uma revolução tornou-se inevitavel e que, apezar dos pezares, não deixou de ser benefica, mais benefica porventura ao elemento conservador da Igreja, do que aos proprios dissidentes. Em uma revolução, embora justificada, os que menos aproveitam dos seus frutos são os que a levam a peito. E' que eles, em geral, facilmente se esquecem dos ale- vantados motivos que originariamente os impeliram. Re-


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ligiosamente, hoje, não estamos, ou pelo menos não de- vemos estar em fase revolucionaria. Nunca deveriamos ter estado! exclamarão alguns, indignados - mas isto é porque o despeito não lhes permite ler com imparcia- lidade a historia, nem aquilatar com serenidade os seus fatos. Porém mais errados ainda estarão, em nossa opinião, os que querem ver a Igreja em perpetua con- vulsão. A quadra em que vivemos, na historia do mundo, reclama a presença dos reedificadores, daqueles que sou- beram assimilar o patrimonio moral e espiritual dos an- tepassados e, bastante humildes para reconhecer-lhes as falhas e delas se penitenciarem, são aptos tambem para pôr mãos á obra restauradora. O que cumpre aos crentes, na presente conjuntura, não é, propriamente, sair da Igreja de Roma, nem deser- tar da Igreja Anglicana, nem mesmo desligar-se de qual- quer gremio christão a que estejam porventura encorpo- rados. Ainda-se em geral de uma parte para outra e fi- ca-se na mesma. O que será essencial, hoje, é dar pro- vas de um espirito renovado, com uma atitude de fé in- tegral fé em Deus, fé viva no Cristo Redentor, fé no Espirito Santificador e, como consequencia, fé na irman- dade dos crentes, e por isso mesmo no seu ideal de ca- tolica unidade em Cristo, com espirito de respeito, de bôa vontade, de reciproca apreciação, de colaboração e caridade. O primeiro dever que se nos impõe, como cristãos, é o de ser humildes e contritos, não apenas como indivi- duos, mas ainda como agremiações. A noção de que os individuos podem errar e fraquejar, porém, nunca as cor- porações, só póde ser verdadeira na mentalidade enfer- miça do orgulho partidario, ou como pura abstração. Os fatos reais, do passado e do presente, desmentem seme- lhantes pretensões.

Conclusões 235

O segundo dever, que nos incumbe, é o de ser justos e imparciais em nossos juizos, deixando o habito iniquo de nos julgarmos a nós mesmos pelos creditos dos nossos ideais e das nossas boas intenções, desprezando o passivo dos nossos fracassos, e ao mesmo tempo levando á conta dos outros somente as suas falhas, sem tomar em con- sideração o haver dos seus nobres intentos e das dificul- dades e tentações que tiveram de enfrentar. E daí a necessidade de nos mostrarmos compassivos e fraternais para com todos os gremios cristãos, evitando sobre eles qualquer juizo temerario. "Bemaventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericordia". E se por nossas atitudes retas e caridosas tivermos de incorrer no desagrado dos faraós da intolerancia au- toritaria, aqui ou alí, não seja isso motivo para esmore- cer na boa causa. A politica dos faraós, especialmente os maus faraós que não conheceram a José, é sempre a mesma, no Egito e em todo o mundo: a de eliminar os filhos machos do povo que querem ter submisso, e que podem pór em risco o seu prestigio. Porém assim como os pais de Moisés, que não temeram o mandamento do rei e foram elogiados pela sua fé, assim tambem hoje se encontram conciencias retas, que sabem sobrepôr a voz da conciencia a quaisquer injunções anti-cristas e deshu- manas, venham de onde vierem; conciencias retas que fazem jús ao galardão prometido por Cristo aos que sabem conduzir-se com galhardia moral: "Bemaventura- dos os que sofrem perseguição por causa da justiça; por- que deles é o reino dos céus". O que é mistér, antes de mais nada, em nossos dias, nas relações entre os crentes, bem como igualmente entre os povos, é apenas, com animo firme, sem pedir licença aos faraós do mandonismo ou ás camarilhas reacionarias pôr em pratica os termos e o espirito do Sermão da Montanha, como resumidos nas Beatitudes,


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te. Não basta ter entre as mãos o texto da Santa Escri- tura. Os judeus, que rejeitaram e crucificaram a Cristo, eram versadissimos na Lei, nos Profetas e nos Salmos. Sem o limpido olhar da humildade e da contrição, sem uma atitude reverente para com Deus, para com OS homens e a vida, o proprio livro sagrado se deturpa, os seus ensinos se pervertem, e sua luz se transforma em trevas, em confusão. Nada ha que sirva de sucedaneo a esta condição primordial. Antes de se examinar o valor de doutrinas e fatos transcendentes, urge tomar a termo, meticulosamente, as injunções de Cristo no Sermão da Montanha. * * * O conteúdo deste livro póde assim resumir-se: 1.° A fé tradicional da Igreja, como expressa nas decisões dos grandes concilios e na experiencia cristã dos seculos, constitue uma rocha inexpugnavel. Ha uma comum experiencia dos cristãos, em todos os seculos, e que a confirma em seus principios, com a sua correspon- dente expressão no culto e na vida pratica. Ha na fé cristã, a despeito da opulencia variegada da expressão, um fundo invariavel e comum, que tende sempre a afir- mar-se pela sua propria força intrinseca, não obstante transvios temporarios ou parciais. São os principios catolicos semelhantes á planta, a qual, mesmo na caver- na, se contorce em procura da luz, de onde quer que ela venha. Tais principios, á maneira da arca da aliança na antiga dispensação, não necessitam de amparo temera- rio, porque por si mesmos se impõem com o auxilio apenas do testemunho idoneo dos crentes. Quando Oza, nos dias de Daví, ao ser transportada a arca, extende violentamente a mão para ampará-la, ao ver escoucean-

Conclusões 237


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do os bois que a tiravam na carruagem - ele foi fulmi- nado. Ha muita gente, ainda hoje, que pensa em valer- se do braço do Estado, com as suas sanções, em defesa dos principios que reputam vitais na religião. Mais con- fiança em Deus, e menos temeridade no trato com o que ha de mais sagrado no mundo a personalidade humana, onde faz o Altissimo a sua habitação cousas serão levadas avante de outra fórma. e as

2.º E' de suma importancia atender-se á hierar- quia de valores. Uma cousa é errada, não porque o seja em si, mas por se achar deslocada da sua posição. E nesta hierarquia de valores, considerada do ponto de vista pratico, tem inegavelmente a precedencia a fé ou a atitude espiritual. Antes de tomar-se em consideração o dogma ou a politica da Igreja, é de toda a importancia considerar-se a atitude espiritual para com Deus e os homens. A isto podem chamar "fideismo", ou o que quizerem, mas é este o caminho que seguiu Cristo, que começou o seu ensino com o Sermão na Montanha. E' por aqui que sempre se ha de começar, sob pena de nunca se atinar com o caminho da paz e da ordem. 3.º E' de um valor primacial o individuo, que nunca deve ser anulado pela maquina, qualquer que ela seja, in- dustrial, politica ou eclesiastica. A organização do corpo coletivo tem por fim garantir ao individuo o seu progresso normal em todas as direções justas e nobilitantes. O reino de Deus não é construido de cimento armado, em estrutura de aço com os intersticios tomados com pedra em pó, mas com pedras vivas, integrais, com personalida- des inteiriças, distintas, consagradas. "Se me edificares um altar de pedras disse Deus a Moisés não o levantarás de pedras lavradas; pois se levantares sobre ele a ferramenta

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