O Estandarte Christão - 08/1895

Versão Integral em Texto

O Estandarte Christão - 08/1895

J. W. MorrisW. C. BrownA. V. Cabral1895

O ESTANDARTE CHRISTÃO

ORGAM DA EGREJA PROTESTANTE EPISCOPAL NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

VOL. III. ASSIGNATURA: POR ANNO 3$000 PORTO ALEGRE, AGOSTO DE 1895 PUBLICAÇÃO: UMA VEZ NO FIM DE CADA MEZ N. 8.

Expediente Toda a correspondencia deve-se dirigir á caixa do correio n. 5. O escriptorio da redacção acha-se no edi- ficio da Escola Americana n. 387 Rua Volun- tarios da Patria. J. W. Morris REDACTORES REVDOS. W. C. Brown A. V. Cabral N'esta redacção dão-se todas as informa- ções sobre tratados, e publicações evangelicas. Todas as pessoas que desejarem tomar assigna- tura d'este jornal dar-se-hão ao encommodo de Hos remetter seu endereço que serão imme- diatamente attendidas. reio. Os pagamentos poderão ser feitos pelo cor-

Relação das Egrejas

A Capella da Trindade Rua dos Voluntarios da Patria N. 386 PORTO ALEGRE Pastor: Rev. James W. Morris. Junta Parochial: Raymundo José Pereira, 1.º Guardião João Leirias, 2.º Guardião; Gervasio M. de Moraes Sarmento, Thesoureiro; Major José Lopes de Oliveira, Secretario; Carlos Emil Hardegger; Gabriel dos Santos.

A Capella do Bom Pastor Rua Riachuelo Nr. 126 PORTO ALEGRE Pastor: Rev. W. C. Brown. Diacono: Rev. V. Brande. Junta Parochial: Antonio P. da Silva, Thesoureiro; Pinto de Leão, 1º Guardião; José P. S. Norte 2º Guardião.

A Capella do Calvario RIO DOS SINOS Pastor: Rev. Antonio M. de Fraga. Junta Parochial: André Machado Fraga, 1.º Guardião; Maurilio M. de M. Sarmento, 2.º Guardião; Ernesto Gomes de P. Bastos, Thesoureiro; Affonso Antonio da Cunha, Secretario; Odorico F. de Souza; Lucas M. de M. Sarmento.

A Capella do Redemptor Rua Felix da Cunha Nr. 61 PELOTAS Pastor: Rev. J. G. Meem. Junta Parochial: Belmiro F. da Silva, 1.° Guardião; Raphael A. dos Santos, 2.º Guardião; Amaro Pinto de Oliveira, Thesoureiro; Joaquim A. Fróes, Registrador; Manoel G. de Cas- tro; Alypio J. dos Santos.

A Capella do Salvador Rua 20 de Fevereiro, Esquina Villete RIO GRANDE Pastor: Rev. L. L. Kinsolving. Junta Parochial: João Thomaz de Oliveira, 1.º Guardião; Thomaz V. Thomaz, 2.º Guardião; João Thomaz V. Thomaz, Thesoureiro; Manoel Thomaz de Oliveira, 1.º Guardião; Angelo Catalan, 2.º Guar- dião; João Vicente Romeu, Registrador; Antonio Gazzineo, Jacyntho de Santa Anna.

Viamão (Congregação ainda não formada) Rev.: Americo V. Cabral.

E' terminante

Eu o confessarei diante de meu Pae que está nos Céos. E o que me negar diante dos homens, tamé bem Eu o negarei diante de meu Pae que está nos Céos.

Ha muitos modos de mostrarmos a nossa gratidão para com Jesus Christo, mas quer-me parecer que nós não provamos a nossa gratidão para com Elle, quando nos envergonhamos do Seu Nome, isto é, quan- do nos envergonhamos de ser christãos. Imaginae um piloto que descobrisse, um parcel desconhecido aos outros navegantes e que, em lugar de avisar seus collegas conservasse, o mais absoluto silencio. E' o que faz o christão, o individuo cujos olhos foram abertos para conhecer os perigos que corre a nossa alma (quando está indif- ferente a Jesus Christo) e que conserva o mais absoluto silencio, escondendo com a capa de um falso acanhamento essa luz rei que Jesus lhe deu e que pode ser o pha- rol de salvamento para quantos o rodeiam. Quando Nosso Bemdicto Mestre andou neste mundo, um homem muito sabio, en- tre os Judeus, chamado Nicodemus, gos- tou muito de Jesus, cria nelle, mas tinha tanto medo dos seus patricios que só pro- curava Jesus Christo de noute quando nin- guem o podia vêr. Assim ainda hoje ha muitas pessoas que que sabem que as doutrinas de nosso Bem- dicto Mestre são a verdade, sabem que Jesus Christo só quer o que é melhor pa- ra nós, sabem tudo isso, mas não querem parecer christãos, por motivos como estes: I. Tem medo de perder algum lucro que porventura tenham, em virtude de não te rem religião alguma. II. Tem medo da ironia dos que o cer- cam. Examinemos estes dois motivos e veja- mos se elles tem o peso que se lhes pre- tende dar. Em primeiro lugar eu queria perguntar aos patrões, por exemplo, que mal ha para elles que seus empregados sigam o Evan- gelho? Distrahe é o que elles dizem, não tem motivo mais algum de accusação. Mas a Egreja não distrahe o empregado do cumprimento dos seus deveres mais do que o faz o baile, o espectaculo, o prado, o café concerto, o circo e o lupanar. E se admittissemos que o Evangelho distrahe alguem do cumprimento de seus deveres, quando muito ao contrario elle nos recom- menda diligencia em nosso cuidado, os nossos adversarios tambem haveriam de concordar que o Evangelho era a especie de distracção que menos poderia affectar á o caracter de um empregado e que, muito pelo contrario, era destinada a adornal-o cada vez mais com os predicados de uma moralidade sólida. A questão vista pelo lado dos que tem empregados christãos está pois resolvida, Agora quanto aos christãos, elles não devem temer a perda de seus empregos por serem christãos. Se elles são christãos ficis e diligentes, vão ter acceitação em qualquer parte, porque a sociedade nunca precisou tanto de homens de bem, como agora, A. ironia. I. Examinemos agora o segundo ponto que muitas vezes impede que os christãos se manifestem e se venham unir á Egreja: Nos tempos da Egreja Primitiva vemos como S. Paulo foi apedrejado, como S. Es- tevam foi morto; e mesmo nós seculos es- curos da Edade Média a Egreja de Jesus Christo teve seus martyres e confessores, Rodrigo da Costa. de Almeida Lobo, Mais tarde, quando surgiu a Reforma Religiosa, foi essa Reforma affogada em sangue na Hespanha e em Portugal. Em França a noitada de S. Bartholomeu e nos Paizes Baixos o degollamento de 30.000 pessoas são factos que marcam sinistra mente a historia das perseguições religio- sas,

Mas hoje a civilisação modificada e di- rigida em grande parte pelos principios christãos já não exige do christão esses sacrificios, senão nos paizes barbaros ou semi barbaros. Hoje a fogueira onde o christão tem de comprovar, muitas vezes, é a fogueira do desprezo dos que o cer- cam. Os humildes pescadores do lago de Genezareth como o eminemte S. Paulo, don- tor por excellencia da theologia christä. foram todos elles amargamente desprezados, O christão de hoje tambem tem que soffrer o desprezo, a ironia, o motejo e á esta guerra singular ha muito poucos que resistem, justamente porque são poucos que querem perder o favor transitorio e in- constante do mundo. Comtudo as palavras de Jesus vem a nós como a vóz de um general em todo o horror da batalha, ani- mando os sens soldados por uma ordem terminante que colloca o soldado entre duas acções tão sómente: «Vencer ou more- rer», «Todo aquelle pois que me confessar diante dos homens, tambem Eu o confessa- rei diante de meu Pae que está nos Céos. E o que me negar diante dos homens, tam- bem Eu o negaria diante de meu Pai que está nos Céos, Mas ainda n'este respeito podemos vêr que o triumpho hade coroar os esforços da fidelidade a Jesus Chriso. Se um christão continua fiel, afinal os seus parentes, os seus amigos vendo a simplicidade, a pureza de sua vida hão de emmudecer, não tendo de dizer mal. E mais do que isso, mui- tos hão de ser despertados por esse exemplo e se hão de converter. Sim: hão de converter-se pelo vosso testemunho! Si os christãos procurassem occultar em suas acções e em suas pala- vras a fé que os anima, então o christia- nismo não tería ultrapassado os estreitos limites da Judéa. Essa confissão corajosa que os christãos teem dado em todos os seculos a custa da sua posição, da sua fortuna, da sua vida, tem sido a semente de fè lançada no gran- de campo da humanidade, fazendo exem- plificar o numero dos crentes e dos ade- ptos. Mas qual a maneira de confessar Jesus Christo? A melhor maneira de confessar Jesus Christo é praticar as virtudes chris- tās, fazendo a nossa vida uma imitação da vida de Jesus Christo, deixando firmemente de tomar parte nas dissoluções deste mun- do corrompido. Mas da mesma maneira que um soldado na batalha não se aparta de seus compa- nheiros para ir combater sósinho, porém, muito ao contrario, esforça-se por cerrar cada vez máis a fileira, assim um christão não deve negligenciar o dever de unir-se á Egreja de Jesus Christo para que os seus esforços sejam de melhor forma apro- veitados. E assim como um contracto de matrimonio deve ser publico para que to- dos saibam a alliança legitima que uniu o dous entes, assim tambem o pacto entre o homem e Deus, a alliança entre Jesus Christo e o homem deve ser publicada. E' por isso que nós convidamos os que que- rem seguir Jesus Christo a fazerem uma profissão publica de sua fé, e, a abjurarem publicamente, em presença dos seus futuros irmãos, toda pompa e vaidade d'este mun- do perverso. Ha n'esta união com a Egreja e n'essa profissão vantagens muitissimas para a Egreja de Jesus Christo, e muitas mais ainda para o christão em particular, E' natural que muitos pensem que seu contingente nada vale para a Egreja. Mas todos, mesmo os mais humildes, tem uma esphera de influencia, tem um circulo em que convivem e onde o seu exemplo hade reflectir mais cedo ou mais tarde. Pois bem a nossa influencia é uma das cousas que nós temos de melhor para offerar ao Nosso Divino Mestre em grati- dão pelo seu immenso amor para comnosco, E quanto ás vantagens que o christão pó- de tirar de sua união com a Egreja ellas são innumeraveis. A Egreja é a grande escola militar do Christianismo onde se vão preparar devidamente os recrutas que tem professado o nome de Jesus Christo, E aproveito a occasião para notar aos ir- mãos que a profissão é apenas um dos pri- meiros passos no progresso de uma vida christã, e que deveis lembrar-vos que a Biblia e o posto da oração ahi estão di- ante de vós como fontes inexgotaveis de consolação e de instrucção religiosa. D'eveis, depois de ter professado o nome de Jesus Christo perante Deus e os ho- mens, usar de muito amor, de muita cari- dade em trato com os vossos irmãos. Não deveis ser muito rigidos em julgar os vos- sos irmãos porque deveis lembrar-vos que á semelhança do povo hebreu que precisou 40 annos de preparação no deserto afim de estar apto a tomar conta da terra pro- mettida, visto ter trazido da terra da es- cravidão tantas más inclinações, assim nós, sahidos a pouco tempo das trévas egypeias da escravidão espiritual não podemos exigir dos nossos irmãos uma perfectibili- dade relativa. Pelotas, Julho de 1895, Pro Veritate.


Mais luz! Foi este o derradeiro pensamento, a der- radeira exclamação do grande poeta alle- mão Goethe ao transpor o limiar da mor- te. O sol nascente começára a brilhar, e o poeta, enlevado pelo seu brilho levanta-se em busca do astro solar. Mas a morte apodera-se d'elle, e cahe então n'um divan exclamando: > Mais luz! é o ultimo pedido d'aquelle grande poeta. Trazendo este facto á vossa apreciação, presados leitores, não é meu intuito, rela- tar simplesmente o que a historia nos con- ta, porém sim estabelecer uma comparação, e oxalá que ella vos faça comprehender o fim que levo em mente, trazendo-vos tambem ao conhecimento d'essa brilhante luz de que vos quero fallar. A luz do astro solar despertou no poeta aquelle pensamento que elle exprimio na hora derradeira, e que hoje ainda resoa. Aquella expressão foi uma prova elo- quente da anciedade que se apoderou d'a- quelle genio na hora extrema, d'essa ancie- dade que que ainda no dia de hoje se apodera de muitos corações. Mas de que luz fallaria o poeta? Seria acaso da luz de sua intelligencia, cujos raios já havião dourado as suas producções poeticas? Não nos é dado saber. Porém, n'este ponto ha espirito de duvida esse não pode existir quando pensamos que aquella exclamação foi uma prova de an- ciedade. E quantos entes, em nossos dias, ancio- sos, não exclamarão da mesma forma que o poeta? Quantos depois de verem extinguir-se esse brilho, pouco duradouro, das coisas mundanas não exclamarão: Mais luz ?! D'eveis porém almejar uma outra luz. Uma luz que nunca se apaga, uma luz que até o cego pode vér, uma luz que brilha, cujos raios dourão a vida humana, dão ao homem um novo aspecto, uma fei- ção mais digna e mais brilhante. E essa luz que tanto já tenho exaltado é a luz do bemdito Evangelho. Sim; presados leitores, Goethe ao expi- rar anciava por mais luz; e quantos nos nossos dias não anceiam pela luz da ver- dade pela luz do Evangelho? Cumpramos agora um dever. Vamos mostrar a estes, essa brilhante Luz que foi buscar sua origem nesse grande motor que é Jesus Christo; vamos expôr as bellas e vivificadoras doutrinas do Divino Mestre; chamar essas almas ao ar- rependimento, convidando-as e mostrando Thes a necessidade de entrarem n'uma nova phase de vida. Dirijamos tambem uma palavra a esses mancebos, inexperientes, que attrahidos pela luz das coisas mundanas, vão preci- pitando-se pela porta larga, mal sabendo o fim a que vão chegar. Não esqueçamos pois esses jovens de quem a patria esp enthusiasma, o hymno marcial, que con- duzia nossos avós ao campo da honra, di- rijamos uma palavra que não só accenda esse grande fogo do enthusiasmo, mas que, ainda mais, faça despertal-os d'essa lethar- gia, em que jazem, conhecendo afinal, que no Evangelho encontrarão uma fonte onde podem beber, puras doutrinas, ensinos uteis, acharão tambem alli innumeros themas para o desenvolvimento de sua natureza intellectual, innumeros consolos para a sua natureza espiritual, e ainda mais, se obe- decerem aos santos preceitos de Nosso bemdito Mestre, conhecerão tambem que o Evangelho satisfaz as necessidades da na- tureza physica. Sim; porque aquelle que tiver por nór- ma de vida o Evangelho será um homem temperado, sadio, frugal; terá as bençãos de Deus como recompensa de sua obedien- cia e fidelidade ás leis leis do Omnipotente. Incomprehensiveis são as riquezas de Nosso Senhor Jesus Christo, e tu leitor de amigo si quizeres participar d'ellas, abraça este Evangelho que é a mina inexgotavel de um sem numero de thesouros. Estás ancioso? Pedes mais luz? Appro- xima-te ao Evangelho e esse foco productor d'uma luz que nunca se apaga, que o cego enxerga e cujos raios dão á vida humana um aspecto mais bri- lhante e mais digno. Frederico G. Schmidt. Rio Grande, Agosto de 1895.


Nova inquisição?!! Leiam os amaveis leitores o seguinte que transcrevemos d'um jornal, leiam bem, porque nos parece até incrivel que n'este seculo XIX, e n'um paiz civllisado como a velha Allemanha, se estabeleça um regi- men inquisitorial. Leiam, e aquelles que por acaso ainda tem em conta as apregoa- das virtudes d'esses jesuitas que infeliz- mente, parecem querer estabelecer em nos- sa patria o seu quartel general, vejam es- ta amostra, este fructo, das apregoadas virtudes dos taes. N'aquella Allemanha que foi o berço da Reforma, a patria do grande reformador Luthero, houve tambem um jornalista, que pegando na sua penna luminosa, traçou ar- tigos que vierão por fim trazer á luz da verdade os factos que se davão no mos- teiro de Mariaberg. „Dia" no primeiro capitulo de Genesis Ha certos leitores da Biblia que têm ficado muitas vezes perturbados no seu es- pirito sobre a palavra «dia» no primeiro capitulo de Genesis. Elles julgam que essa palavra quer di- zer um dia de 24 horas e ficam confusos por causa das declarações que talvez leiam nos jornaes e livros scientificos, ou que ou- çam proferidas em conversas; as quaes de- clarações dizem que a creação do mundo levou não 6 dias, mas sim immensos pe- riodos de tempo constando de milhares e milhares de annos. Inquietos por causa da duvida elles po- dem chegar a uma de duas conclusões, ca- ual ou mais perniciosa: Ou accreditam que a sciencia geologica não é verdadeira e essa conclusão prejudica muito o pro- gresso intellectual; ou chegam a crer que a Biblia talvez fizesse um erro, o que mi- lita muito contra o progresso espiritual. Mas felizmente a palavra citada não go- verna um dia de 24 horas, e espera- mos provar isto pelas regras mais simples de interpretação biblica. Ha muitas palavras na Biblia que são usadas em sentido figurativo, ou symbolico, como por exemplo, em S. João 10:9, «Eu sou a Porta. Aqui a palavra «porta» é usada em sentido figurativo, ou em outras palavras é um symbolo do facto que podemos entrar no dos céus somente por meio de Christo. No lugar em 2 Cor. 6:2, acha-se a pas- sagem Eis aqui agora o dia da salvação. E' evidente que não podemos tomar a pa- lavra «dia» aqui no sentido litteral porque n'este caso o unico dia da salvação teria sido aquelle em que essas palavras foram escriptas. O verdadeiro sentido é figura- tivo e applica-se a todos os tempos e quer dizer que para cada pessoa o <dia» da salvação é o tempo presente. N'este exem- plo pois, e em muitos outros da Biblia, a palavra «dia» é synonymo de um periodo de tempo por maior ou menor que seja, ram pelo menos um doente, e talvez mais outros, Cada vez somos mais admirados de que No psalmo 89: 4 (Figdo.) declara-se que <mil annos aos teus olhos são como o dia que hontem, e no texto em 2. Pedro 3:8 é expressamente dito que um dia diante do Senhor é como mil annos, e mil annos como um dia.>> Lembrando-vos de todos esses exemplos voltemos agora para o capitulo I de Ge- nesis. Emquanto os successos do tremendo e sublime drama estavam desenrolando-se diante dos olhos em visão, elle podia no- tar certos distinctos periodos, ou divisões, de tempo, cuja duração ignorava, cada um sendo marcado por characteristicos espe- ciaes. Véde sobre isso Sofonias 1:15; Isaias 67:2; Rom. 2:5; Eph. 6:13, e muitos outros. Mas talvez alguem pergunte: Porque então usou Moysés das palavras <a tarde e a manhã eram do dia primeiro», (v. 5, e vêde v.v. 8, 13, 19, 23 е 31.) Notae, porém, que a expressão é «a tar- de e a manhã, e não «a manhã manhã e a tar- de» como podiamos ter esperado. Exami- nando a passagem em Levitico 23:32 ve- mos que o dia judaico começava com a tarde; «de uma tarde até a outra é a expressão. D'isto vemos que a tarde e a manhã é simplesmente synonymo com o principio e o fim do dito «dia». Talvez haja quem pense que toda esta argumentação detrahe do poder de Deus qual manifestado na creação, mas um pou- co de reflexão mostrar-lhe-ha que esse re- ceio não tem fundamento. Não se mani- festa menos poder em fazer um mundo em 6 millenios do que em 6 dias. Nenhum crente verdadeiro duvida que Deus Todo- poderoso podia crear um mundo não so em 6 dias, mas até n'um momento se quizesse. Mas assim não foi do Seu agrado. E' o mesmo em cousas pequenas. Elle podia fazer uma laranja, por exemplo, em um instante, mas isso não seria mais admira- vel do que o poder que Elle manifesta aquelle diariamente incluindo n'uma pequena se- mente o poder de produzir uma laranjeira da qual sahe a mimosa e aromatica flor seguida pela laranja perfeita. E' o mesmo com o mundo! Quando se falla em omnipotencia, a creação do globo terrestre não é menos sublime por ter levado milhares de annos em logar de dias, visto que o Eterno Deus não é limitado pelo tempo, Devemos notar tambem a passagem em Exodo 20:11, a qual é uma parte do Quarto Mandamento. A passagem é citada de uma outra em Gen. 2: 2,3. Talvez alguem julgue que o racicínio usado n'este artigo destrua toda o autoridade do quarto mandamento, mas aqui tambem um pouco de reflexão mos- trará que a obrigação de guardar o domin- go não é menos agora do que antes. O verdadeiro principio envolvido no manda- mento é que uma setima parte de nosso tempo pertence especialmente a Deus. Se- ria o mesmo para nós se a creação levára 6 dias (litteraes), ou 6 annos, on 6 mille- nios, visto que Deus <descançou no dia setimo de toda a obra que fizera» (Gen. 2:2). Os apostolos mostraram o verdadeiro es- pirito do mandamento quando mudaram o dia sagrado do setimo para o primeiro dia da semana, obedecendo ainda a lei divina de guardar-se santo um dia em sete, mas ao mesmo tempo commemorando para sem- pre a resurreição do Filho de Deus. Terminamos com a esperança que temos que a palavra «dia», no capitulo I de Genesis, quer di- zer um periodo indefinido de tempo. Visto que a sciencia da Geologia prova a mesma cousa vemos aqui que não ha conflicto nenhum entre a Biblia e a sciencia da Geologia. O poder de fazer isto milhares de an- nos antes que a Geologia fosse conhecida, mostra que Moysés foi verdadeiramente in- spirado por Deus. Pelotas. J. G. Meem.


Impressões (a F. G. S.) Escrever impressões não é escreverhisto- ria: é alguma cousa mais do que a fria narração dos factos, é alguma cousa menos do que a exposição coordenada dos acon- tecimentos. O que foi a minha missão ao Rio Grande e Pelotas, não posso dizer, justamente por- que tive a vista turbada pelo fumo da guerra; algum frio expectador que o faça. Quanto a mim, limitar-me-hei a extrahir do registro intimo da memoria alguma cousa que sirva de singela inscripção no marco do passado, assignalando o lugar onde se combateu rijamente e onde se con- fabulou fraternalmente. Foi no dia 23 de Agosto ao meio dia mais ou menos que deixamos Porto Alegre. O Mercedes levava a seu bordo muita gente, como de costume. Viagem magnifica, apesar do tempo denunciar-se transtornado, após os bellos dias do meado de Julho. Cahiu a nonte, ou para dizer como Victor Hugo, subiu a tréva, porque a es- curidão vác da terra e a luz vem do Céo. Como muitos outros, eu só podéra obter uma passagem á ré, porém sem commodos. Era alta noute quando os passageiros de camarote, abandonaram a camara, unico lugar onde nos era dado o resguardar-nos do frio e o conciliar o o somno! Quem disse isso?! Imaginem que dous impagaveis cacetes, cacetes na exten- são da palavra e em toda a extensão da lingua, degladiavam-se bravamente, a um canto da camara e passavam uma revista encyclopedica sobre as novidades dos ulti- mos vinte annos, não omittindo auto-bio- graphias e alheias chronicas. O relogio marcára meia noute, uma hora, duas horas, e no entanto, sempre após bréve somnéca que conseguiamos tirar, ouvia-se aquelle bater de linguas infatigavel, tre- mente, intenso, inextinguivel, tal qual prin- cipiára na vespera, dez minutos depois do Mercedes zarpar de Porto Alegre. Havia na extremidade opposta áquelle Maelstron de conversa, alguem que dormia. Aquillo inquietava-nos, a nós que mal podiamos cochilar. Um socio de vigilia, o Sr. D., foi o que deu o signal de alar- ma: começámos a falar em vóz alta par chamarmos este alguem ao mundo dos acor- dados, em supplicio. De repente, d'aquelle lado dos que dormiam, do lado da paz, do lado que os cacetes não haviam pertur- bado, surgiu uma cabeça que lembrou Pestalozzi e as montanhas da Suissa. Mas o dono da cabeça não era nem montanha, nem pedagogo, era um digno relojocira da Rua dos Andradas, calmo como um Englishman e paciente como um russo, pois afinal de contas nós não estávamos fazendo boa cousa em tornal-o participante das nossas miserias nocturnas. Mas, teria elle, quem sabe, tambem os seus motivos para encaixar-se na palestra. O futuro mostrou que o louro artista não tinha menos habilidade para encaixar peças na conversação do que para encaixal-as n'um relogio. Approximando-se manso e manso, foi tomando posição no torneio de ance- dotas que já principiára em nossa roda, e quando menos esperávamos, pespegu- nos a seguinte, que vai lá por conta de maior quantia: «Um francez chegára da Europa a Monte- video, pela primeira vez. Desconhecia ab- solutamente, na qualidade de atrazado, o uso da cuia, da bomba, da herva, da agua quente, do etc., de tudo enfim que consti- tue o mate. No mesmo dia em que chega a Montevideo, o dono da casa, francez como é, fez-lhe um veloria e conduziu naturalmente com o patricio para a casa mortuaria. Lá Atiravam os doentes ao chão, espesinha- vam, esmurravam-nos a valer, atira- vam-n'os pelas escadas abaixo. Muitas ve- zes ficavam assim de braços e pernas que- brados. A alimentação era miseravel e insufficiente. A camisola de força e os anjinhos eram de uso constante. Para como um dia.>> Cada vez somos mais admirados de que No psalmo 89: 4 (Figdo.) declara-se que <mil annos aos teus olhos são como o dia que hontem, e no texto em 2. Pedro 3:8 é expressamente dito que um dia diante do Senhor é como mil annos, e mil annos como um dia.>> Lembrando-vos de todos esses exemplos voltemos agora para o capitulo I de Ge- nesis. Emquanto os successos do tremendo e sublime drama estavam desenrolando-se diante dos olhos em visão, elle podia no- tar certos distinctos periodos, ou divisões, de tempo, cuja duração ignorava, cada um sendo marcado por characteristicos espe- ciaes. Véde sobre isso Sofonias 1:15; Isaias 67:2; Rom. 2:5; Eph. 6:13, e muitos outros. Mas talvez alguem pergunte: Porque então usou Moysés das palavras <a tarde e a manhã eram do dia primeiro», (v. 5, e vêde v.v. 8, 13, 19, 23 е 31.) Notae, porém, que a expressão é «a tar- de e a manhã, e não «a manhã manhã e a tar- de» como podiamos ter esperado. Exami- nando a passagem em Levitico 23:32 ve- mos que o dia judaico começava com a tarde; «de uma tarde até a outra é a expressão. D'isto vemos que a tarde e a manhã é simplesmente synonymo com o principio e o fim do dito «dia». Talvez haja quem pense que toda esta argumentação detrahe do poder de Deus qual manifestado na creação, mas um pou- co de reflexão mostrar-lhe-ha que esse re- ceio não tem fundamento. Não se mani- festa menos poder em fazer um mundo em 6 millenios do que em 6 dias. Nenhum crente verdadeiro duvida que Deus Todo- poderoso podia crear um mundo não so em 6 dias, mas até n'um momento se quizesse. Mas assim não foi do Seu agrado. E' o mesmo em cousas pequenas. Elle podia fazer uma laranja, por exemplo, em um instante, mas isso não seria mais admira- vel do que o poder que Elle manifesta aquelle diariamente incluindo n'uma pequena se- mente o poder de produzir uma laranjeira da qual sahe a mimosa e aromatica flor seguida pela laranja perfeita. E' o mesmo com o mundo! Quando se falla em omnipotencia, a creação do globo terrestre não é menos sublime por ter levado milhares de annos em logar de dias, visto que o Eterno Deus não é limitado pelo tempo, Devemos notar tambem a passagem em Exodo 20:11, a qual é uma parte do Quarto Mandamento. A passagem é citada de uma outra em Gen. 2: 2,3. Talvez alguem julgue que o racicínio usado n'este artigo destrua toda o autoridade do quarto mandamento, mas aqui tambem um pouco de reflexão mos- trará que a obrigação de guardar o domin- go não é menos agora do que antes. O verdadeiro principio envolvido no manda- mento é que uma setima parte de nosso tempo pertence especialmente a Deus. Se- ria o mesmo para nós se a creação levára 6 dias (litteraes), ou 6 annos, on 6 mille- nios, visto que Deus <descançou no dia setimo de toda a obra que fizera» (Gen. 2:2). Os apostolos mostraram o verdadeiro es- pirito do

Projeto Cantuária • Biblioteca Digital Anglicana