Apontamentos de História da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
CENTRO DE ESTUDOS ANGLICANOS – CEA
Apontamentos de História da
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Oswaldo Kickhofel*
"O ato de contar historias e organizar nossa memória em forma descritiva é, por definição, um ato sagrado. Contamos histórias porque elas preenchem o silêncio imposto pela morte. Contamos histórias porque elas nos salvam” (James Caroll),
*Presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e Executor do Projeto Memória.
IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
Seja na família, seja na sociedade, a vida nos desafia a embarcar numa fascinante jornada de descobrimentos: o estudo da história. Quais são os principais acontecimentos que influenciaram nossa caminhada? Quem são os personagens que trilharam o caminho antes de nós? Qual é a importância que isso tinha para eles? Como isso influenciou a história que vivemos hoje? No estudo destas questões, começamos a perceber que a história não é um objeto finito para ser perpetuado em monumentos ou esquecido em poeirentas prateleiras. Estudar história é uma forma de procurar compreender aquilo que nunca termina. Novas informações, novos acontecimentos, mudanças de perspectiva e o acúmulo de fatos significam que o panorama histórico está sempre em constante transformação. É uma matéria viva e capaz de nos alimentar em nossa presente jornada.
Escrever a história da Igreja ajuda a descobrir e conhecer suas raízes, os diferentes eventos e as pessoas que formaram a vida da comunidade ao longo dos anos. Sem dúvida, será uma história de realizações e lutas, de celebrações e desafios. Ao registrar os eventos do passado, somos lembrados das semelhanças e diferenças entre a história da comunidade local e a história da comunidade maior do povo de Deus. Começamos a descobrir os vínculos entre as nossas experiências e as experiências daqueles que vieram antes de nós. Examinamos nossas relações com a sociedade a que pertencemos e com o mundo, as diferentes atitudes, opiniões, crenças, realizações e convicções que experimentamos ao longo dos diferentes períodos da história. E, finalmente, descobrimos nesse processo um passado de grande complexidade e diversidade, mas também um passado do qual podemos aprender muito sobre quem somos e como conseguimos chegar até aqui.
HISTÓRIA E MISSÃO
Como membros da Igreja Cristã, fazemos parte daquilo que os teólogos chamaram de História da Salvação, a Heilsgeschichte, como dizem os alemães.
Como essa história começou e como ela chegou até nós? Começou primeiro com Abraão. Passou depois pelo povo de Israel, descrita no Antigo Testamento, e recomeçou com Jesus, contada no Novo Testamento. Jesus enviou os apóstolos para pregarem o reino de Deus. Depois designou outros 70, enviando-os dois a dois às cidades e lugares então conhecidos. Ao se despedir dos discípulos, Jesus conclamou novamente os discípulos para o trabalho de evangelização: “Ide e fazei discípulos por todo mundo”. Mas a tarefa não era fácil. A aparente derrota da Cruz e os dias que se seguiram ao domingo da Páscoa haviam produzido incertezas e temores. O Pentecostes, porém, foi o poder incentivador dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs, que passaram a experimentar novo vigor. Diz o livro dos Atos dos Apóstolos que “todos os dias acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo convertidos".
Mas a história também mostra que havia problemas. Estevão foi o primeiro mártir. As perseguições se sucederam, mas os seguidores de Jesus não abjuraram. Ao contrário, por onde passavam deixavam preparada a sementeira do evangelho. E assim, as primeiras comunidades foram organizadas na Judéia, na Samaria e na Ásia Menor. E aqui não podemos também esquecer o episódio da estrada de Damasco, a viagem que transformou o raivoso perseguidor Saulo no destemido defensor Paulo. É dessa época o início do Cristianismo em Roma, onde Paulo encontrou uma comunidade já organizada que, 300 anos depois, vai influenciar o Império Romano. Na história das missões mundiais, ninguém sobrepujou a Paulo. Ele foi, de fato, o apóstolo dos gentios na plenitude da expressão.
Estado proporciona ampla liberdade religiosa. Essa nova situação foi providencial para o início do trabalho dos missionários. O início da história da Igreja Episcopal sinalizava a presença divina que, embora invisível, de algum modo interferiu no curso de sua história, ajudando a concretizar sonhos e esperanças. O Brasil passava por um processo revolucionário civil tão profundo que resultou em mudanças igualmente profundas na vida política, social e religiosa do país. A passagem do regime imperial para o regime republicano foi um fato político que teve decisiva importância para o estabelecimento de nossa igreja no Brasil. Durante o império, a Igreja Católica Romana detinha o monopólio da vida religiosa no país. Não era permitido realizar cultos não católicos romanos e, quando isso era possível, havia severas restrições, como foi o caso das capelanias inglesas. Somente os casamentos realizados pela Igreja de Roma eram reconhecidos. Era tão grande o domínio romano que um dos principais fatores que contribuiu para a eclosão da revolução republicana foi o desejo de separar a Igreja do Estado. Não estaria Deus preparando o caminho para os missionários? Seja como for, esta pergunta nos induz a fazer outras perguntas:
Por que os missionários vieram? Que visão teológica eles tinham? Qual era o núcleo central da mensagem que traziam? Por que vieram fazer missão em terras papistas?
O Brasil era um país católico romano. Os brasileiros já possuíam uma forma de Cristianismo. Haveria necessidade de fazer missão num país já cristianizado? Para os missionários a resposta era afirmativa, porque a igreja dominante não havia conseguido cristianizar o Brasil durante 400 anos de hegemonia religiosa. As classes letradas estavam tomadas pelo ceticismo e pela indiferença. As massas populares, iletradas e subalternas, estavam absorvidas num sistema de supersticiosa idolatria, aproximando-as mais do antigo paganismo do que da verdadeira religião de Jesus Cristo.
Havia também uma razão teologia: o progresso material não era elemento indicativo seguro da presença do reino de Deus. A sociedade e o mundo são maus, porque os indivíduos não são bons. Os indivíduos sãos pecadores. Sendo assim, era preciso regenerar os indivíduos, para que a sociedade fosse transformada. Essa teologia era bastante influenciada pelo individualismo protestante, fruto dos famosos reavivamentos espiritualistas americanos. Os sistemas sociais e políticos que o povo americano havia descoberto e implantado em seu país eram produtos do puritanismo inglês e americano. Era a teologia do progresso material. As instituições americanas refletiam os ideais puritanos de "povo escolhido de Deus". E esse modelo devia ser compartilhado com outros povos, para que o reino de Deus se estabelecesse no mundo todo. Os meios escolhidos para essa
1822 - Independência do Brasil. 1824 - Chegam ao Brasil os primeiros imigrantes alemães. 1853 - William Cooper. Primeira tentativa. Primeiro missionário enviado pela igreja americana. Um episcopaliano residente no Rio de Janeiro, provavelmente membro da colônia americana, pediu que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos enviasse um missionário para o Brasil. O pedido foi atendido pela Sociedade Missionária da Igreja Episcopal, que enviou o rev. William Cooper, que foi o primeiro missionário oficialmente enviado ao Brasil. Tendo naufragado o navio em que viajava no mar das Caraíbas, Cooper desistiu da missão e voltou para os Estados Unidos. Pouco se sabe sobre sua vida e ministério. 1855 - Chega o missionário inglês Robert Kalley, funda a primeira igreja protestante no Brasil, no Rio de Janeiro, não obstante a forte oposição da hierarquia romana local. 1859 - Os presbiterianos inauguram sua primeira missão, mas só três décadas depois conseguem organizar a igreja em definitivo. Os batistas tentam se estabelecer no Rio de Janeiro, mas sem sucesso. 1860 - Richard Holden em Belém do Pará. 1862 - Richard Holden em Salvador, Bahia. 1864 Richard Holden no Rio de Janeiro. Permaneceu no Brasil até 1872. Trabalhou em Belém no Pará, em Salvador na Bahia e no Rio de Janeiro. Foi a menos fracassada das missões. Entretanto, seu temperamento forte e polêmico e o contexto de oposição que encontrou no Brasil inviabilizaram sua pretensão de estabelecer a Igreja Episcopal no Brasil. Iniciou seu trabalho em Belém do Pará. Era escocês, de pais anglicanos, mas só se converteu aos 21 anos, quando uma experiência mística e enfermidade o trouxeram de volta à Igreja. Estudou teologia e português nos Estados Unidos. Traduziu o Livro de Oração Comum para a nossa língua. Foi enviado ao Brasil pelo Departamento de Missão da Igreja Episcopal e pela Sociedade Bíblica Americana.
Duas razões levaram Holden a escolher Belém do Pará. A primeira era que havia um posto de distribuição de Bíblias na cidade, que pertencia a um capitão de navio americano, chamado Robert Nesbitt. Era um importante ponto de contato para iniciar seu trabalho. A segunda era que havia uma expectativa de que o Rio Amazonas fosse aberto à navegação internacional.
Holden encontrou em Belém intensa hostilidade para pregar o evangelho. Tentou criar uma comunidade permanente, mas não teve sucesso. Usou a imprensa para difundir suas idéias, escrevendo artigos polêmicos que provocavam a ira romana, especialmente do bispo de Belém, Dom Antônio de Macedo Costa. Viajava pelos afluentes do Rio Amazonas, vendendo bíblias e panfletos evangélicos nas vilas e cidades ribeirinhas.
Em 1862, mudou-se para Salvador, Bahia, onde também usou a imprensa para polemizar. Essa liberdade durou pouco, porque a oposição, como ele mesmo escreveu, “estava tentando de qualquer maneira arranjar uma acusação pela qual eu pudesse ser posto na cadeia". Escapou de três tentativas de morte. Devido a sua forte personalidade de pregador polêmico, aos poucos começou a encontrar dificuldades no próprio Departamento de Missão da Igreja Episcopal, que havia patrocinada sua vinda ao Brasil.
Em 1864, aceitou um convite do Dr. Robert Kalley para trabalhar no Rio de Janeiro como pastor da Igreja Congregacional Fluminense, por quatro anos. Era também poeta e escreveu mais de uma dezena de
1891- James Watson Morris e Vicente Brande iniciam o trabalho em Santa Rita, São José do Norte e Rio Grande. Chegam os missionários William Cabell Brown, John Gaw Meem e Mary Packard. 1892 - John Gaw Meem e Antônio Machado Fraga iniciam o trabalho em Pelotas. Primeira convocação não autorizada, sem leigos. Data: 23 a 26 de maio de 1892
- Local: Casa da Missão, em Porto Alegre. Presentes: reverendos Morris, Brown, Meem e Kinsolving, e catequistas Boaventura, Brande e Cabral. Presidida por Kinsolving e secretariada por Cabral. Assuntos: avaliação dos trabalhos. Em todos os lugares, havia boa aceitação do evangelho. A convocação fez designações: Boaventura em Santa Rita, Morris e Cabral em Porto Alegre, Kinsolving e Brande em Rio Grande. 1893 - Primeira visita episcopal: George William Peterkin. Morris e Brown fundam o Estandarte Cristão. Esta visita foi importante em função dos atos praticados pelo bispo George William Peterkin, que foram os seguintes: Nomeações Comissão Permanente Comissão sobre Missão Comissão sobre Publicações Comissão sobre Instrução Religiosa Comissão para indicar tesoureiro Comissão para indicar época e local da convocação Capelães Examinadores Registrador Designações Trindade e Calvário: James Watson Morris e Boaventura de Souza Oliveira Salvador e Ressurreição: Lucien Lee Kinsolving e Vicente Brande Bom Pastor: William Cabell Brown e Américo Vespúcio Cabral Redentor: John Gaw Meem e Antônio Machado Fraga Tradução da OM e OV, Litania e SC por Brown e Cabral. Confirmação de 142 pessoas
Ordenação de quatro diáconos: Vicente Brande, Américo Vespúcio Cabral, Antônio Machado Fraga e Boaventura de Souza Oliveira. Adotada uma Declaração de Princípios No final de seu relatório de viagem, o bispo Peterkin registrou que
Local: Capela do Redentor, em Pelotas. Assuntos: discutiu novamente a questão da instrução do clero, a necessidade de nova visita episcopal e os limites paroquiais. Construção do primeiro templo: Igreja do Calvário, em Santa Rita do Rio dos Sinos (hoje Nova Santa Rita). Convocação extraordinária. Data: 11 e 12 de junho, Local: Porto Alegre. Assuntos: aprovar a tradução do LOC realizada por Brown e Cabral. Concluído o exame do texto, ainda incompleto, porque não continha todo o conteúdo do livro original. A convocação delegou poderes para uma comissão, formada por Brown, Meem e Cabral, para terminar o trabalho de revisão. Impressa nos Estados Unidos, esta primeira tradução foi usada até 1930. 1897 - Segunda visita episcopal: Waite Hockin Stirling. O trabalho de organização da igreja continuou com a segunda visita episcopal em 1897, quando foram ordenados os três primeiros presbíteros nacionais e confirmados mais 159 novos membros. O processo se completou em 1899 com a sagração de Kinsolving ao episcopado. Ordenação dos três primeiros presbíteros: Cabral, Brande e Fraga. Quarta convocação. Data: 20 a 25 de janeiro Local: Porto Alegre Assuntos: supervisão episcopal, seminário teológico, reconhecimento da igreja em Viamão, aprovação dos estatutos da Biblioteca Estrela do Sul, regularização dos registros das propriedades da igreja, publicação quinzenal do Estandarte Cristão e a supressão da palavra sul na denominação oficial da igreja. 1898 - Vicente Brande inicia o trabalho em Jaguarão. Fusão das Capelas da Trindade e Bom Pastor de Porto Alegre. Quinta convocação. Data 22 a 29 de janeiro, em Rio Grande. Assuntos: criação da Sociedade Missionária (educar e sustentar pregadores nacionais. Razão de ser: uma igreja que se sustenta a si mesma é uma igreja que se propaga a si mesma), proposta por Cabral, a eleição de um bispo e a criação de um seminário teológico. Peterkin autoriza a eleição de um bispo. Convocação extraordinária. Data: 31 de maio
11 Assunto: eleição de Kinsolving. A eleição dos brasileiros era apenas um indicação. Kinsolving foi oficialmente eleito pela igreja americana. Embora a igreja americana tivesse que revalidar a eleição da convocação brasileira, a iniciativa partiu da ainda frágil e pequena igreja brasileira. E esse foi o seu grande mérito.
Período Kinsolving (1899-1925)
1899 - Sagração de Lucien Lee Kinsolving. 1900 - Morris inicia o trabalho em Santa Maria. 1903 - Recebida a Comunidade Evangélica da Florida. Fundação do Seminário Teológico, em Rio Grande. Início do trabalho em Bagé pelo rev. Antônio José Lopes Guimarães. 1904 - Inicio do trabalho em São Leopoldo, por Antônio Machado Fraga. 1905 - A Sociedade Missionária da ECUSA transfere a missão brasileira para o Board of Missions (Departamento de Missão). Organizada a Federação das Sociedades Auxiliadoras. Brown profere uma série de conferências públicas em Rio Grande, onde era pároco, sobre a história da Igreja cristã no mundo. O Cristianismo era a força que modificava a vida das pessoas. A escolha de temas históricos tinha propósitos bem definidos: instruir o povo na história do Cristianismo e mostrar que a igreja que o conferencista representava não era uma seita qualquer, mas parte integrante da igreja universal fundada por Jesus Cristo. 1906 - Início do trabalho em São Gabriel e Santa Helena. 1907 - Início do trabalho em Dom Pedrito. Início da Capela da Mediação em Santa Maria. O Departamento de Missão cria o distrito missionário vinculado a Convenção Geral. A missão no Brasil começou com os estudantes de teologia do Seminário de Virginia, apoiada pela Diocese de Virginia, passando depois à direção da Sociedade Missionária da Igreja Americana que, em 1905, transferiu a missão brasileira para a Departamento de Missão. Essa mudança foi vantajosa financeiramente para a missão no Brasil, mas sua situação eclesiástica ou canônica continuava indefinida. Havia a necessidade de trazer a missão brasileira para o seio da igreja americana. Isso foi feito por um pedido, enviado em 1907, pela igreja brasileira, por decisão de um concílio realizado em Bagé. Foi redigido um memorial nos seguintes termos:
Nós, abaixo assinados, clérigos e leigos da Igreja Episcopal Brasileira, reunidos em concílio anual, na cidade de Bagé, Estado do Rio Grande do Sul, Estados Unidos do Brasil, crendo que os interesses e o desenvolvimento da dita igreja podiam ser mais adiantados por aceitarmos o status de missão da Igreja Episcopal Protestante dos Estados Unidos da América, vimos por este fazer uma petição à Convenção Geral, a reunir-se em outubro próximo, na cidade de Richmond, Virginia, Estados Unidos da América, que o status acima mencionado seja concedido à Igreja Episcopal Brasileira, contanto que as prerrogativas atualmente gozadas pela mesma sejam ressalvadas e guardadas”.
1908 - Brown inicia o trabalho no Rio de Janeiro (Redentor). Fechado o Seminário Teológico em Rio Grande. 1909 - Início do trabalho em Montenegro, por Antônio Machado Fraga. 1910 - Início do trabalho em Livramento e da Capela Trindade no Meyer, Rio, um bairro então com 500 mil habitantes. Kinsolving desejava fazer do Rio a sede nacional da igreja, mas para isso precisava de 40 mil dólares para construir uma catedral. 1912 - Thomas funda o Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, e João Mozart de Mello funda o Colégio Kinsolving, em Livramento. Desde o início, a igreja procurou atuar no campo educacional. Na área religiosa, se utilizou da escola dominical e na área secular das escolas paroquiais. As razões:
- educar os filhos dos membros da igreja. A experiência havia mostrado que, quando os filhos freqüentavam outras escolas, recebiam influências que os afastavam dos princípios da religião cristã. A igreja acreditava que tinha o dever de oferecer aos seus membros em idade escolar uma educação baseada na religião cristã, para que no futuro se tornassem consagrados membros da igreja.
- preparar os jovens para o trabalho da igreja: os meninos para o ministério ordenado e as meninas para o ensino. Esse era o principal motivo porque a igreja queria escolas e professores próprios, para preparar a futura liderança da igreja.
- preocupação pela tarefa da evangelização. A igreja estava convencida de que tinha algo a mais a dar do que simplesmente cultura. A relação que a igreja estabelecia com um grande número de jovens por meio da escola era uma excelente oportunidade para evangelizar a sociedade.
- formar personalidades capazes para refletir o espírito de Cristo em suas vidas profissionais. Havia a necessidade de um programa educacional para toda a igreja. Por exemplo, os alunos da escola dominical eram constrangidos a freqüentar colégios de padres e
1925 - Sagração de William Mathew Merrick Thomas 1926 - Kinsolving volta aos Estados Unidos 1929 - Fundação da Imprensa Episcopal. A extensão da missão no Brasil exigia uma aproximação mais estreita entre as várias unidades da igreja. Nesse sentido, uma decisão importante foi tomada em 1929, fundando a Imprensa Episcopal em Pelotas, que ficou sob a direção do rev. José Severo da Silva, seu principal incentivador. Além do Estandarte Cristão, muitos panfletos e livros foram publicados. Sem conhecimento da fé, os novos convertidos ficavam abandonados. Precisavam alimentar seus corações e espíritos com os ensinamentos do puro evangelho. Isso exigia uma imprensa nova. Por meio do jornal, a igreja estabeleceu um meio efetivo de fortalecer a fé, instruir os fiéis e estreitar o senso de unidade entre as paróquias e missões. Duas vezes por mês o jornal vinha quebrar a tranqüilidade da vida paroquial com notícias e artigos de fundo, e lembrar ao pároco que o seu trabalho só era significativo no conjunto da obra toda. Os concílios e as visitas anuais do bispo tinham o mesmo sentido. 1930 - Revisão do Livro de Oração Comum, a mais importante de todas. Thomas: “Governamo-nos pelo Livro de Oração Comum”. Todas a paróquias e missões deviam usar o LOC, que era desejado por muitas igrejas evangélicas e invejado pelos católicos romanos, que ainda celebravam a missa em latim. Ninguém devia ser confirmado pelo bispo sem conhecer e possuir um exemplar do livro. Nenhuma nova missão ou congregação devia ser reconhecida pelo concílio, se o seu responsável não garantisse que os ofícios ali realizados estavam em estrita observância da liturgia e rubricas do precioso livro. Thomas: “Se existe hoje tanto desrespeito à lei e o caos moral, não é porque as pessoas são ruins, mas porque se deixam guiar apenas por sistemas de conduta que Thes impõem as circunstâncias, faltando-lhes 0 sentido da responsabilidade moral” (Atas do 32° Concílio, 1930, p. 35). Mas a maior ameaça não veio de fora, mas de dentro da própria igreja, quando em 1926, Salomão Ferraz começou a celebrar a santa comunhão todos os domingos na Capela do Salvador, em São Paulo, prática que nas outras paróquias e missões só acontecia, quando muito, uma vez por mês. Ferraz também começou a usar textos litúrgicos não autorizados, provocando uma crise que culminou na sua destituição em 1936. 1931 Orlando Batista e Jessé Krebs Appel estudam no Seminário de Virginia.
1933 Tentativas de renovação: Salomão Ferraz, Raymond Eugene Fuessle e Martin Samuel Firth. “Injetar modernismo na igreja do Brasil, que aos poucos estava morrendo de inanição”. Fecha o Seminário por falta de alunos. Fundação do Colégio Independência), em Bagé, por A. T. Pithan. 1934 - Fundação do Colégio Santa Margarida pelo bispo Thomas 1935 - Reabertura do Seminário Teológico em Porto Alegre. 1936 - Controvérsia cerimonialista: Salomão Ferraz. Em 1932, publica A Fé Nacional, sua obra maior, em que expõe suas principais idéias:
- A supremacia da fé tradicional expressa nos concílios ecumênicos e na Tradição;
- A defesa da hierarquia de valores. Uma coisa é errada não porque o seja em si, mas por se achar deslocada de sua verdadeira posição. A fé tem precedência sobre o dogma ou a política da Igreja;
- A importância do indivíduo. O ser humano não deve ser aniquilado pela máquina, seja industrial, política ou eclesiástica. A organização do corpo coletivo deve garantir ao indivíduo o seu progresso normal;
- O caráter sagrado da pessoa humana. A supremacia da consciência é a medida da dignidade e responsabilidade do indivíduo;
- A função dos homens que ocupam o poder civil é ser despenseiros de Deus revelado em Jesus Cristo;
- A reabilitação das Santas Escrituras na adoração comunitária;
- A atitude fraterna entre as igrejas. A fé é comum a todos os cristãos. Nossa fraternidade não está na atitude para com a sé romana ou qualquer outra denominação, mas para com Cristo e uns para os outros. 1940 Primeiro bispo brasileiro: Athalício Theodoro Pithan. Ano do Jubileu. 1941 - Orlando Batista funda o Instituto Livramento. 1948 - Chega ao Brasil o bispo Louis Chester Melcher. 1949 - Thomas volta aos Estados Unidos. A Convenção Geral aprova a divisão do distrito missionário em três dioceses.
1950 Divisão em dioceses. Criação do Conselho Nacional e vários departamentos 1951 Emancipação financeira. Os bispos brasileiros receberam instruções da igreja americana para que “os distritos missionários fizessem ingentes esforços visando sua emancipação financeira, em vista da grave e incerta situação internacional”. A carta era assinada pelo bispo John Bentley, diretor do Departamento de Missões Estrangeiras e vice-presidente da Conselho Nacional da Igreja Episcopal do Estados Unidos. 1952 Primeiro Sínodo. Herman Affonso Di Brandi 1955 - Assinado acordo entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Episcopal dos Estados Unidos sobre as capelanias inglesas no Brasil. 1960 - Primeiro congresso nacional. O início da igreja em Brasília 1961 - Criada a Casa de Santa Hilda em São Paulo. 1963 - Casa do Estudante Universitário 1964 Seminário Teológico em São Paulo. Início do regime militar. Evangelho pessoal cede lugar ao evangelho social. Autonomia 1965 - 19a Província da Comunhão Anglicana 1965 Bispo primaz: Egmont Machado Krischke. A igreja tem autonomia para elaborar seus próprios formulários litúrgicos. Criação do Fundo de Aposentadoria e Pensões. 1966 - Filiação ao Conselho Mundial de Igrejas 1967 - Enviado primeiro missionário para Portugal: Lauro Borba da Silva 1969 - Criação da Diocese Sul Central, São Paulo 1971 - Clóvis Rodrigues e Hanz Krolow em Moçambique 1972 - Plano Decenal. Ministérios: integral, auxiliar e livre. Comunhão a não confirmados. Fecha 0 Seminário. Educação teológica descentralizada.
1974 Primeira visita de um Arcebispo de Cantuária: Arthur Michael Ramsey 1976 - Criação da Diocese Setentrional, Recife 1982 - Criação da Diocese de Brasília.
Muitas pessoas ficaram do lado de fora, sem poder entrar para ver o que acontecia lá dentro. No segundo culto, realizado no domingo seguinte, Morris e Kinsolving tinham colocado mais 20 cadeiras. Novamente uma multidão. Mal dava para ficar de pé e pregar. Muitos tiveram de ficar na porta e outros tantos não conseguiram entrar (The Southern Churchman, 7 August 1890, p. 2).
Em Santa Maria, onde o trabalho começou em 1900, cerca de 250 a 300 pessoas costumavam freqüentar os cultos dominicais na pequena sala, que Morris havia alugado na estreita rua do Comércio 34, e preparado para receber apenas 130. Era uma congregação grande demais, que chegava a criar alguma confusão e desordem, que Morris atribuía à novidade dos cultos e às circunstâncias em que a igreja se encontrava.
Em Rio Grande, a freqüência média aos cultos era de 200 pessoas. Em Pelotas 120, mas em ocasiões especiais chegava a 300 pessoas. Em Bagé, no primeiro culto público realizado em 1903, havia 1.500 pessoas, representando 10% da população da cidade, que era de 15 mil habitantes. Nos lugares onde a igreja se reunia, a liturgia em português era uma novidade. O povo acompanhava os hinos e participava. De mero espectador passou a ser um ativo participante, pois entendia o que estava sendo dito pelo oficiante. A música despertava sempre grande interesse por sua novidade. As capelas eram conhecidas como “o lugar onde eles cantam” (The Spirit of Missions, May 1900, p. 294).
Contexto religioso
Outro aspecto que chama a atenção era o contexto religioso. Mesmo numa atmosfera de franca oposição, a igreja pouco a pouco ia aumentando sua influência e popularidade, porque mostrava as puras doutrinas bíblicas, inoculando na população os salutares princípios do evangelho que, atuando como fermento, operava a regeneração das massas populares. A isso os missionários davam o nome de “religião na vida prática". O insucesso da Igreja de Roma, que reivindicava para si a primazia religiosa no Brasil, não residia na falta de realidade, mas na improficuidade dos meios empregados. A idéia de localizar a Deus num determinado lugar, como por exemplo, as quatro paredes de um templo ou o cubículo de um confessionário, tinha transformado a religião numa prática mecânica e egoísta, algo que só era usado em certas ocasiões ou em determinados lugares. Este conceito de religião teórica não produzia conseqüências práticas. A essa religiosidade desengajada e formal, os missionários antepunham um novo conceito de vida cristã, baseado em Mateus 7:21: “Nem todo o que me chama Senhor, Senhor, entrará no reino do céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai que está no céu”. O mero fato de fazer promessas por palavras não produzia nenhum valor religioso, quando não havia coerência na vida prática. Era um novo estilo de vivência cristã. Um exemplo dessa necessidade de coerência foi a destituição do diácono Boaventura de Souza Oliveira, em janeiro de 1895, a menos de dois anos de sua ordenação. Ele mesmo havia confessado pessoalmente que não era mais digno de ser ministro da Igreja, por ter sucumbido à tentação da fornicação. Embora os verdadeiros motivos nunca tenham sido totalmente esclarecidos, um ponto pelo menos ficou bem evidente no episódio: a igreja não admitia que seus ministros pregassem uma coisa e praticassem outra.
William Cabell Brown classificou a população brasileira, no início do século XX, em três categorias:
- Os que acreditavam nos ensinos e dogmas da Igreja Católica Romana sem restrições;
- Os que, incapazes de acreditar, optavam por uma aberta hostilidade;
- Os que, mesmo reconhecendo a necessidade de reformas e rejeitando alguns ensinos, apoiavam a igreja, por ter sido a religião de seus pais.
A Igreja Romana era uma máquina eclesiástica poderosa. Dominava a vida religiosa do país. Inflamava o fanatismo e a superstição da primeira classe, mas se mostrava hostil à segunda classe, expulsando-a de seu rebanho. E com o seu poder obrigava a terceira classe a entrar em desespero pela impossibilidade de qualquer reforma. Era fácil imaginar o universo e a natureza das dificuldades que os primeiros missionários tiveram de enfrentar. Era muito difícil ser bem sucedido na missão de evangelizar num contexto preconceituoso de 300 anos de dominação religiosa. Os missionários contavam com o tempo e com a instrução para dissipar a ignorância da primeira classe. Quem poderia antepor limites à pregação da Palavra de Deus? Os missionários tinham certeza de que, ao longo do tempo, a educação e a pregação iriam dissipar os arraigados preconceitos religiosos da população, evitando os ataques desnecessários contra as crenças daqueles que procuravam influenciar.
Para a segunda classe, os missionários mostravam que existiam igrejas que não eram católicas romanas que não exigiam renúncia de sua razão e senso comum. Sabiam que os adeptos desse grupo, embora não lessem corretamente as grandes lições da história, aprendiam por meio de penosas experiências que uma nação só adquire grandeza nacional, quando seus cidadãos praticam a vontade de Deus.
Para a terceira classe, os missionários mostravam que as reformas que desejavam não eram apenas possíveis, mas fatos já consumados, e que o abandono da Igreja de Roma não significava necessariamente o abandono da religião cristã. Demonstravam isso por meio da pregação, do estudo e leitura da Bíblia e do LOC, cuja liturgia continha numa linguagem simples aquilo que o povo buscava em termos de adoração pública. Apresentavam a herança e os ensinos tradicionais da Igreja cristã. Mas para conseguir esse objetivo, era necessário que o povo participasse dos cultos. E aqui surgiu um problema que preocupou muito os missionários: a necessidade de construir templos apropriados. As pequenas capelas alugadas não eram convidativas.
Necessidade de templos.
Assim, logo no início, os missionários sentiram a necessidade de construir templos próprios, não só para acomodar melhor as congregações, que aumentavam em todos os lugares, mas também para preservar a dignidade e a beleza dos cultos. Um templo próprio ajudaria muito o trabalho missionário. Nos primeiros anos, a igreja se reunia em casas ou salas alugadas, que eram adaptadas para servir de templo. Claro que todo o início de um trabalho missionário passa por uma fase provisória ou transitória para ver se tem futuro. Seria arriscado logo no início construir templos em lugares que não tivessem sido testados primeiro pelas capelas alugadas. Alguns lugares, como