Apontamentos sobre Bíblia, Liturgia e Anglicanismo

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Apontamentos sobre Bíblia, Liturgia e Anglicanismo

Rev. Humberto Maiztegui GonçalvesData desconhecida

Apontamentos sobre Bíblia, Liturgia e Anglicanismo

Inclusividade

N° 6

Rev. Humberto Maiztegui Gonçalves*

  • Professor do SETEK, Reitor da Paróquia da Graça Divina (Viamão, RS) e membro do grupo de assessores do CEA.

O desafio de expor de forma sucinta a relação entre Bíblia, Liturgia e Anglicanismo é enorme. A Bíblia é, em boa parte, produto da vida litúrgica familiar, comunitária e sacerdotal. Quer dizer que existem tradições litúrgicas na própria Bíblia que marcam a origem e fonte da liturgia cristã em geral e da anglicana em particular. O Novo Testamento foi especialmente compilado e preservado através do seu uso litúrgico. O Anglicanismo por sua vez não pretende ter uma relação exclusivista com a Bíblia ou com a Liturgia. O que sempre foi buscado pelo Anglicanismo foi a construção de uma liturgia próxima à revelação veterotestamentária (como Povo de Deus na História da Humanidade) e que permitisse a relação fraternal com o restante da Igreja de Cristo no Mundo da qual o anglicanismo sente-se parte¹. Deve também considerar o fato de que a Igreja Anglicana é diversa no seu interior tencionada entre as suas diferentes teologias e eclesiologias que se matizam e se combinam diferentemente em cada local e em cada cultura.

Os prefácios do Livro de Oração Comum publicados no Brasil oferecem boas pistas de qual foi a relação entre Bíblia e Liturgia, em pouco mais de um século de anglicanismo brasileiro. No prefácio da primeira edição de 1930 se afirmava que "Desse precioso legado, esta Igreja herda e seleciona o seu ritual, escoimada a velha liturgia de tudo aquilo que possa colidir com a Palavra de Deus (...) os sacramentos administrados pela forma prescrita nas Santas Escrituras (...) tomando sempre a Bíblia ou Palavra de Deus como ponto de referência..."². Esta declaração coloca claramente a Bíblia

  1. Departamento de Educação Religiosa do Conselho Nacional - Liturgia, p.71: "É de se notar que tanto os Sacramentos como os 'outros Ritos e Cerimônias' são 'da Igreja', isto é, não pertencem a uma determinada parte da Igreja, como a Comunhão Anglicana, por exemplo, mas são o patrimônio 'da Igreja toda', definida pelos Credos Apostólico e Niceno, fundada por Nosso Senhor".
  2. Igreja Episcopal Anglicana do Brasil - Livro de Oração Comum (1984). p.9. Este prefácio brasileiro parece até mais duro do ponto de vista doutrinário do que o do primeiro LOC da Igreja norte-americana editado em 1789 onde apenas se diz: "E ainda que, nessa liturgia - isto é, a liturgia da igreja da Inglaterra nada haja em contrário à Palavra de Deus" (cf. LOC, edição de 1950). Não havia portanto na primeira edição norte-americana a pretensão de "escoimar" a "velha liturgia".

(identificada autoritativamente como Palavra de Deus) acima de qualquer outra tradição, costume, prática ou ritual.

No prefácio da edição brasileira do LOC de 1984³ se afirma que: "De maneira dinâmica a doutrina bíblica encontra-se expressa nos ritos, devoções e cerimônias da sua liturgia" harmonizando a tradição bíblica com a tradição litúrgica. A doutrina bíblia poderá aparecer na liturgia, tanto como inspiração (implicitamente), quanto como citação (explicitamente). Essa abertura para o diálogo entre Bíblia e Liturgia pode ser muito promissora se estimular uma revisitação crítica das tradições bíblicas e as possibilidades e desafios que elas oferecem para a diversificação e aprofundamento dos recursos litúrgicos dentro das diferentes realidades presentes nesta comunhão e na Igreja de Cristo em geral. É neste caminho que o presente artigo quer contribuir.

A relação entre Bíblia e Liturgia na Igreja Anglicana (mesmo tratando apenas do anglicanismo brasileiro) obedece a critérios diacrônicos (o entendimento que se possa ter do valor e do desenvolvimento das tradições cultuais na Bíblia e na História da Igreja) e sincrônicos (como as tradições são vivenciadas dentro da diversidade teológica, litúrgica e pastoral anglicanas).

O Templo e a Sinagoga como fontes da liturgia no AT

O anglicanismo buscará, como sua primeira fonte traditiva, as raízes da liturgia nas formas rituais e cultuais presentes no Antigo Testamento.

Nos textos anglicanos sobre liturgia se aponta para o Templo e para a Sinagoga como fontes principais de boa parte da linguagem, dos símbolos e dos rituais presentes na liturgia. O culto do Templo estava centralizado no elemento sacrificial, como se pode se ver nas cerimônias da sua dedicação (cf. 2Cr6-7)⁵. A liturgia anglicana relaciona-se criticamente ou racionalmente com o sentido da prática sacrificial no Antigo Testamento e seus reflexos no Novo Testamento. O sacrifício, visto a partir da fé cristã, representa a grande distância existente entre o povo e seu Deus. Neste sentido, a prática interminável de sacrifícios não conseguia diminuir a distância, buscando apenas evitar a ira de um Deus severo e distante. O sacrifício prestou-se também à manipulação monárquica e sacerdotal que foi criticada pelos profetas. O profeta Amós declara a completa ineficácia da liturgia sacrificial:

Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjarés, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados (Am 5:21-22).

No entanto, a prática sacrificial também se apresenta como "parte de um todo", como acontece na festa dos primeiros frutos. Os frutos da terra simbolizavam tudo o que vem de Deus. Ao serem oferecidos a Deus, o povo reconhecia sua soberania sobre toda a vida. No LOC de 1930, reeditado em 1950, se incluía, entre as sentenças do ofertório 1 Cr29:14: "Tudo vem de ti Senhor e, do que é teu, to damos", versículo este que, apesar de ter sido inexplicavelmente retirado do LOC de 1984⁹, expressa bem o sentido do sacrifício (neste caso em forma de oferenda), como relação com a totalidade da presença de Deus no meio do seu povo. Desta forma o sacrifício é feito como ato de obediência por parte das pessoas que adoram a Deus. O mesmo sentido foi dado no Novo Testamento quando as pessoas oferecem-se a si mesmas como: "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rm 12:1)¹⁰.

Para o profeta Miquéias o sacrifício só é perfeito, isto é, completo, quando se dá como sinal de obediência a vontade de Deus como um todo e não apenas como "pagamento"¹¹:

Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o

  1. O referido prefácio esta datado em 1984 sendo que a primeira publicação do livro foi em 1988 e a reimpressão em 1999.
  2. Idem, p.7.
  3. Departamento de Educação Religiosa do Conselho Nacional Liturgia, p.66.
  4. Charles P. Price e L. Weil Liturgy for living. p. 39-40.
  5. Para simplificar todas as citações são retiradas da versão Almeida Revista e Atualizada.
  6. LOC (1950), p. 73.
  7. LOC (1984), p. 97-98.
  8. Idem p. 40.
  9. Em hebraico "asham".

fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus (Miquéias 6:7-8).

O aspecto sacrificial da liturgia (que nasce na experiência veterotestamentária do Templo) aponta para a expressão máxima e definitiva do seu sentido dado pelo sacrifício vicário de Jesus Cristo¹². No entanto, a tradição sacrificial do Templo aponta apenas simbolicamente para Cristo. Do ponto de vista das tradições judaicas, a crucificação de Jesus Cristo como sacrifício é algo completamente inusitado pois "era a vítima errada, o lugar errado, o tempo errado, os oficiantes errados"¹³. Todas as rubricas do sacrifício judaico foram ignoradas para se conseguir a suprema comunhão entre Deus e seu povo.

Desta forma o anglicanismo se alimenta das experiências litúrgicas do Templo como sendo o "ponto de partida" para a "adoração" de Deus em Cristo¹⁴. As primeiras comunidades cristãs, assim como o próprio apóstolo Paulo não entenderam a fé cristã como oposta à adoração no Templo de Jerusalém (cf. At 2: 46; 21:26). A continuidade da adoração não pode esconder a novidade da revelação de Jesus Cristo, para a qual as tradições apenas podem apontar mas nunca podem esgotar (cf. Jo 2:18-21).

A Sinagoga como fruto do judaísmo no exílio babilônico após a destruição do primeiro Templo (587 a.C.), é uma fonte riquíssima para a liturgia cristã¹⁵. Historicamente, o cristianismo nasce muito mais dentro da sinagoga do que dentro do Templo. É nesta experiência comunitária (não sacrificial) que as Escrituras são por primeira vez divididas em dois grupos: a lei e os profetas ("torah" e "nabiim") e assim são citadas na maior parte das vezes nos Evangelhos (cf. Mt 22:40). Os Salmos marcam a ponte entre o Templo e a Sinagoga, mas levou mais tempo para serem considerados algo mais do que um cancioneiro e passar a fazer parte integral dos textos sagrados. Em Lc 24:44 encontra-se o primeiro indicativo da visão tripartite das escrituras: "A seguir Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos" (Almeida).

O culto da Sinagoga reunia os seguintes elementos:

  • Recitação do Decálogo
  • Shema (Credo de Israel, cf. Dt 6:4-9; 11:13-21 e Nm 15:37-41)
  • Shemone e Ereh (uma série de bênçãos que hoje são dezenove, mas que, originalmente, seriam cinco ou seis)
  • Leitura do Pentateuco (em hebraico, aramaico e grego)
  • Salmos (pode ser entre as leituras, onde é cantado um versículo pelo oficiante e a congregação, com um refrão ou antífona)
  • Sermão (ocasionalmente)¹⁶

A descrição do culto sinagogal mostra de por si sua grande proximidade com o que hoje chamamos de "liturgia da Palavra" ou das nossas orações matutinas e vespertinas. Como comenta Bergesen esta "era uma liturgia leiga" onde "diferentes membros tomavam parte no culto segundo o convite dos archesinagogos" (presidente da sinagoga). Havia na sinagoga outros oficiais como o "hazzan", que cumpria funções de diácono ou guardião¹⁷.

No entanto, o culto da Sinagoga teve um desenvolvimento lento na história da religião israelita. Mesmo surgindo por necessidade, no exílio babilônico às margens do Rio Quebar (Ez 1:1-3), voltou a ficar num segundo plano quando

  1. Livro de Oração Comum da IEAB. p.63. Uma das Orações Eucarística indica o caráter vicário do sacrifício de Cristo conforme é entendido pela Igreja Anglicana: "...Ele, pela oblação única de si mesmo, realizou um sacrifício perfeito, completo e suficiente pelo pecado de todo o mundo".
  2. Charles P. Price e L. Weil - Liturgy for living, p.40-41.
  3. Idem; p. 14-15 Segundo estes autores a adoração a Deus é o caminho de relacionamento com o "absoluto". A adoração é o que dá sentido à religião como celebração do dom do absoluto e do valor deste absoluto. Partindo de que a iniciativa sempre é divina (isto é, do absoluto) e nunca humana, a adoração pode também ser entendida como a mais primária resposta humana às iniciativas de Deus.
  4. Clifford W. Atkinson The Daily Office, p.5 - 6.
  5. David E. Bergesen - Manual de Liturgia, p.8. A mesma descrição aparece na publicação do Departamento de Educação Religiosa, p.67.
  6. David E. Bergesen Manual de Liturgia, p.9.

o Templo foi reconstruído em 515 a.C. mantendo sua vitalidade apenas entre os judeus da diáspora. Parece que durante o período grego (entre 330 e 60 a. C. aproximadamente), aumentou o interesse da população não judaica pela sinagoga. O judaísmo helenista, que acabou editando a Septuaginta (tradução de textos hebraicos e sistematização de textos gregos usados nas sinagogas), teve seu berço e seu desenvolvimento dentro das sinagogas. Uma das mais antigas e famosas foi a Sinagoga de Elefantina que era presidida por uma mulher (archesinagoge). A Sinagoga, à diferença do Templo, não era identificada com um prédio, mas com um conjunto de pessoas que se reuniam para cultuar a Deus e principalmente aprender sobre as escrituras. A própria palavra Sinagoga vem do verbo grego "sunagw" que significa "reunir". Na Septuaginta, os judeus helenistas usaram o termo "sinagoga" para traduzir a palavra hebraica "quehal", isto é, "assembléia" ou "congregação" (cf. Êx 12:6) sendo que em outros textos a mesma palavra hebraica é traduzida como "h`evkklhsia" ou "a igreja" (cf. 1 Sm 17:47). Todo leva a acreditar que o modelo eclesial primitivo e sua liturgia surge na sinagoga judaico-helenista onde a Igreja não era vista como um templo mas uma reunião de pessoas (At 14:27; 1 Pe 2: 4-5)¹⁸.

Enquanto o Templo de Jerusalém foi definitivamente destruído ficando apenas como testemunha do passado a sinagoga continuou viva na religiosidade judaica. Por isso é um desafio importante buscar e aprofundar ainda mais os laços entre a igreja e a sinagoga. O convívio ecumênico judaico-cristão tem neste e noutros pontos muito a nos enriquecer.

Fontes litúrgicas no AT menos exploradas pela liturgia anglicana

Segundo propõe Bergesen, citando Henton Davies, deve ser considerada também "a idéia do lugar sagrado, seja a montanha, templo móvel como arca ou a tenda, ou um santuário provincial como em Siquém ou Silo... "¹⁹. Também o culto doméstico no AT deve ser melhor considerado como fonte da liturgia por ser "o lugar mais sagrado no que tange ao seu papel no culto dos judeus sua centralidade para à festa principal, a Páscoa..."²⁰.

A tradição das montanhas sagradas é encabeçada no AT pelo Sinai/Horeb (Êx 3:1 e 19:1-2), passa por Siquém (Js 24) e tem uma das suas mais belas narrativas no sonho de Jacó em Betel (Gn 28:10-22). Jesus freqüentemente retira-se para orar em montes (Mc 6:46), prega de cima de montes (Mt 5:1; 15:29-30), num monte acontece a transfiguração (Mt 17:1), num monte, segundo Marcos, são escolhidos os doze apóstolos (Mc 3:13) e no monte das Oliveiras acontecem os últimos momentos de louvor e oração antes da Cruz (Mt 26:30 e 28:16). No entanto temos grande facilidade em identificar um monte ou uma montanha como lugar sagrado como fazem as tradições indígenas na América Latina e a tradição celta presente no berço do anglicanismo.

Novas pesquisas colocam junto as montanhas outra referência litúrgica natural que são as árvores sagradas. Diversos textos relatam o encontro com Deus debaixo de árvores como Gn 18:1-15 e Jz 6:11s onde as liturgias ligadas a Abraão e Gideão mostram uma semelhança surpreendente. Josué coloca a pedra memorial debaixo de uma árvore simbolizando a aliança das tribos com Javé (Js 24:26). O mais próximo que chega-se hoje a algo semelhante é com a árvore de Natal cujo significado não tem merecido a devida atenção de biblistas e liturgistas. Já no Novo Testamento as árvores aparecem como símbolos do Reino de Deus (Mc 4:31-32 e sinópticos).

A religiosidade doméstica familiar é outro elemento que aparece fortemente nas sagas das famílias de pastores e pastoras seminômades em Gn 12-50. Neste culto todas as pessoas da família participam. Deus caminha junto com a família e faz parte do seu cotidiano²¹. A Igreja doméstica foi a célula mater da Igreja Cristã (Rm 16:4-5; 1 C 16:19; Fm 1:2; C14:15, entre outros). Dentro desta liturgia também pode ser incluída a adoração em pequenos grupos como

  1. C. F. D. Moule - Worship in the New Testament, p. 10-17.
  2. David E. Bergesen Manual de Liturgia, p. 4, citando: G. Henton Davies, Worship in the OT, Interpreter's Dictionary of the Bible IV, p. 880.
  3. David E. Bergesen Manual de Liturgia, p. 4.
  4. Milton Schwantes História de Israel: local e origens, p. 101-105.

aconteceu com os discípulos diretos de Jesus e que Hultstrand chama de grupos de "companheiros"²². A liturgia doméstica teve forte expressão na vida das famílias anglicanas no Brasil nos primeiros 50 ou 60 anos da IEAB (lugar onde se originaram muitas missões e paróquias) mas hoje esta praticamente esquecida e devia ser mas considerada na produção teológica, litúrgica e missionária.

Liturgia e Novo Testamento

Nos primeiros tempos da Igreja Cristã parece não ter havido uma grande diferenciação entre sua vida cultual e o culto judeu (cf. At 2:46 e 21:26). Mesmo o "partir do pão" com o qual Jesus se identifica diretamente (Lc 24:30-31) era uma prática comum entre os judeus. Entre os judeus existia, e continua a existir, a prática da ceia com "berakah" que é uma benção ou ação de graças a Deus sobre o pão²³.

Mas o culto cristão parece ter se afastado do culto judaico na medida que se inculturava usando a língua conhecida pelo povo (cf. 1 Co 14:1-24). Surge assim o que alguns chamam do "uso coríntio" (1 Co 11: 21-22, 33-34). A necessidade de organizar o culto e adaptá-lo às novas manifestações que lhe iam sendo acrescidas em cada comunidade levou a produzir as primeiras orientações ou rubricas (1 Co 14:26-40) introduzido também o sentido solidário da oferta solidária (1 Co 16:12 e especialmente Gl 2:10).

A liturgia anglicana busca no Novo Testamento não só a forma mas o sentido da adoração. Conforme é apresentado no manual de liturgia de 1953, editado pelo Departamento de Educação Religiosa da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, o sentido da liturgia pode ser resumido da seguinte forma: "Nosso culto é amizade e companhia com o Divino (...) Nosso culto é vida (...) Nosso culto é Fé no Unigênito Filho de Deus(...) Nosso Culto é ordem"²⁴.

No Novo Testamento a adoração nasce da iniciativa divina e nunca da iniciativa humana. Pedro propõe a construção do santuário no monte da transfiguração após observar a glória de Deus em Cristo e na comunhão entre o Senhor, Moisés e Elias simbolizando assim a lei e os profetas. A primeira voz a anunciar Jesus Cristo é do próprio Deus no batismo de João (Mc9:7). Assim a liturgia é sempre uma resposta humana as iniciativas divinas²⁵. É especialmente esclarecedora neste sentido a discussão entre Jesus e a mulher samaritana sobre a verdadeira adoração que antepõe às tradições samaritanas e judaicas o espírito e a verdade que vêm do próprio Deus (Jo 4:19-20).

Então se "nosso culto é amizade e companhia com o divino" ele é resposta da revelação de Jesus Cristo como amigo e companheiro (Lc 24: 13-35 e Jo 15:13-15). Ao dizer que "nosso culto é vida" responde-se diretamente a Jo 10:10. Quando definimos o culto como "fé no Unigênito Filho de Deus" estamos respondendo à revelação batismal de Jesus no Jordão (Mc 1:9-10 e paralelos).

A afirmação que "nosso culto é ordem" parece apontar mais para os problemas do apóstolo Paulo em Corinto (1 Co 14:33,40) do que para a figura evangélica de Jesus. A palavra grega para "ordem" é "taxin" e só aparece aplicada à liturgia neste texto. No entanto o apóstolo Paulo vincula a ordem à edificação da Igreja (1 Co 14:12). Jesus fala de uma nova edificação diferente à do Templo (Mc 13:1-2 e Mt 24:1). Para João, mais tardiamente, ficou claro que a nova edificação era o próprio Cristo Ressuscitado (Jo 2:20-22). Essa é a construção que se alcança colocando em prática as palavras do Ressuscitado (cf. Mt 7:24-27 e Lc 6:47-49). Então se poderia dizer que a ordem no culto é uma resposta à revelação de Jesus Cristo como pedra fundamental do Reino, aqui e agora e escatologicamente (Mt 21:41-42).

  1. Donald M. Hultstrand - The Praying Church, p. 8. O autor chama o pequeno grupo que seguia e adorava com Jesus de "haborim", isto é, "companheiros".
  2. David E. Bergesen - Manual de Liturgia, p. 10.
  3. Departamento de Educação Religiosa do Conselho Nacional Liturgia. p.71-72.
  4. Charles P. Price e L. Weil Liturgy for living. p.17.

A percepção litúrgica das Escrituras como Palavra Viva de Deus derruba de tal forma a fronteira entre palavra e sacramento que chega a se afirmar que a Palavra torna-se em si mesma Sacramento da presença de Deus. Dom Sumio Takatsu dá um bom exemplo a partir da leitura do Evangelho: "Por isso, nessa perspectiva, um trecho pequenino do Evangelho na seqüência das celebrações é um sacramento de todo Evangelho"³⁹.

Para a "Teologia da Palavra-Sacramento" a letra das Escrituras é para a Palavra Viva de Deus em Cristo como são o pão e o vinho para o Santo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Sem a letra da Escritura não é possível alcançar a percepção da Palavra Viva. No entanto não é possível dizer que a Palavra Viva seja o mesmo que a letra da Escritura⁴⁰. O apóstolo Paulo, profundo conhecedor das Escrituras, num dos textos mais antigos do Novo Testamento, define a relação sacramental entre a palavra humana e a palavra divina⁴¹:

"Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes" (1 Ts 2:3).

O uso da Bíblia na liturgia busca que, através da mesma ação inspiradora do Espírito Santo de Deus, possam ser inspirados/as poetas, artistas e pregadores/as a criar elementos simbólicos e um linguagem litúrgica que aponta para Cristo revelando-se continuamente na vida da comunidade⁴². Hoje poderia se ampliar ainda mais este entendimento incluindo dentro da inspiração divina todo o povo da Igreja. Não é suficiente que a Bíblia seja inspirada, que as pessoas que elaboram a liturgia e sua linguagem sejam inspiradas, mas é igual-

  1. Raymond Johanny A Eucaristia, caminho de ressurreição, p. 207-208. Sobre Lc 24:30-31 diz o autor: "Tudo converge e encontra sentido no reconhecimento do Ressuscitado pelos discípulos, no momento da fração do pão (...) Sem dúvida, a expressão "partir do pão" ou "fração do pão" designa o rito específico da comunidade cristã, ela é o epíteto para caracterizar a eucaristia...". Departamento de Educação Religiosa do Conselho Nacional Liturgia, p. 106.
  2. Livro de Oração Comum (1988), p. 68,80,85,91.
  3. Donald M. Hutlstrand - The Praying Church, p.32: sugere Filipenses 2:5 como exemplo de como o ouvir litúrgico das Escrituras tem um poder transformador.
  4. Sumio Takatsu - "Livro de Oração Comum no Anglicanismo" in Liturgia Anglicana, p. 24
  5. Charles Price e Louis Weil - Liturgy for Living. p. 141. Segundo estes autores a Igreja Episcopal nunca se fechou numa única doutrina de inspiração dando liberdade aos seus membros para se aproximarem da Bíblia a partir de qualquer uma delas. No entanto apenas a leitura da Bíblia não é suficiente para perceber seu sentido inspirado o Espírito Santo deve inspirar também sua leitura (cf. Rm 8:16).
  6. Emst Kaesemann - Perspectivas Paulinas, p. 181. Faz uma extensa análise do assunto letra e espírito na hermenêutica paulina chegando à conclusão de que: "Ele não rejeitou nem a Escritura nem a tradição, reconhecendo ambas como 'palavra que fala', como documentos dados pelo Espírito. Mas, ao mesmo tempo fez a obrigatoriedade da Escritura e da tradição depender da comunidade cristã, do fato de serem interpretadas a partir do Espírito e de se prestarem a serem assim interpretadas". Diante do qual podemos perguntar. Onde encontraríamos melhor representadas a comunidade cristã e o Espírito Divino senão na Liturgia?
  7. p.140.

mente necessário que todo o povo seja inspirado igualmente para que a Cristo seja, no meio do seu povo, Palavra de Deus em sua plenitude⁴³.

Bíblia e liturgia como desafio permanente

A Bíblia está inseparavelmente unida à liturgia anglicana desde seus primórdios. Como afirmou John Wesley: "não nenhuma liturgia no mundo, seja em linguagem antiga ou moderna, que respire uma sólida e racional piedade bíblica do que o Livro de Oração Comum da Igreja da Inglaterra"⁴⁴. A Bíblia é o alicerce sobre o qual foi historicamente construída a liturgia anglicana pela razão elementar de aspirar a ser uma liturgia da unidade cristã. Foi na Bíblia onde o anglicanismo buscou os critérios básicos da unidade na diversidade expressos e transmitidos na adoração.

Mas até que ponto a teologia bíblico-litúrgica continua hoje a transmitir o princípio da unidade na diversidade? Bernardo Merino, num desafiador artigo sobre liturgia e mudanças no mundo, entende que os novos tempos clamam por uma nova hermenêutica da liturgia na sua expressão tipicamente anglicana que é Livro de Oração Comum: "...É válido questionar até onde nosso manual litúrgico pode ser algo assim como um conjunto de documentos intocáveis, ou melhor algo sujeito à revisão que exige as mudanças do tempo". Para fazer essa necessária e permanente revisão o autor propõe voltar às fontes nas Sagradas Escrituras e a toda a tradição da Igreja Cristã. Entre as exigências do novo tempo o autor cita: o caráter comunitário e democrático (coletivo e não elitizado da liturgia) e o caráter cotidiano (onde a liturgia invade a vida e a vida invade a liturgia) ⁴⁵.

Quer dizer que os novos tempos nos impelam, sem deixar de olhar para o Templo e para a Sinagoga, olhar para a grande oikoumene (ou casa comum). Olhar a natureza comum Templo, a Igreja como um Povo e Mundo como uma grande mesa eucarística. Não há, portanto, uma forma melhor de entender a liturgia e sua relação com a revelação bíblica do que vivenciar a adoração no meio dos desafios sempre novos da presença de Cristo na história.

  1. Charles Price e Louis Weil - Liturgy for Lving. p.140.
  2. Orlando S. de Oliveira - "Espiritualidade do Livro de Oração Comum" in Liturgia Anglicana, p.38, citando: A History of the Methodist Churches in Great Britain, Vol 1, p.26.
  3. Bernardo Merino - "Liturgia de la Iglesia ante um mundo cambiante", Anglicanos No 46, p.12.

Bibliografia consultada

  • ATKINSON, Clifford W. - The Daily Office. Connecticut: Morehouse-Barlow, 1977.
  • BERGESEN, David E. - Manual de Liturgia. Quito: Diocesis Central de la Iglesia Episcopal del Ecuador, 1988.
  • CEA - Liturgia: evolução, diversidade e espiritualidade (Reflexões 6). Departamento de Publicações, 1999.
  • DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA DO CONSELHO NACIONAL - Liturgia. Porto Alegre: Metrópole, 1953.
  • HULTSTRAND, Donald M. - The Praying Church. New York: Seabury Press, 1977.
  • IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL - Livro de Oração Comum. Porto Alegre: Metrópole, 1999.
  • IGREJA EPISCOPAL DO BRASIL - Livro de Oração Comum. Porto Alegre: Departamento de Publicações, 1950.
  • JOHANNY, Raymond - A Eucaristia, caminho de ressurreição. São Paulo: Paulinas, 1977.
  • KAESEMAN, Ernst - Perspectivas Paulinas. São Paulo: Paulinas, 1980.
  • MERINO, Bernardo - "Liturgia de la Iglesia ante um mundo cambian-te", Revista Anglicanos 46 (Enero-Abril). New York: Episcopal Church Center, 2000.
  • MOULE, C. F. D. - Worship in the New Testament. Virginia: John Knox Press, 1961.
  • PRICE, Charles P e WEIL, L. - Liturgy for living. New York: Seabury Press, 1979.
  • SCHWANTES, Milton - História de Israel: local e origens. São Leopoldo: EST, 1984.
  • SHEPHERD, Massey H. Jr. - Adoração e Vida. Porto Alegre: Metrópole, 1957.

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