Bíblia e Anglicanismo

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Bíblia e Anglicanismo

Humberto MaizteguiData desconhecida

BÍBLIA E ANGLICANISMO

O Anglicanismo tem dado importantes contribuições ao estudo científico da Bíblia. Na Inglaterra, formou-se uma escola de cientistas bíblicos que pregaram o estudo crítico das Escrituras, desde o fim do século passado, como atesta a "Encyclopaedia Biblica", do Rev. T. K. Cheyne, publicada em 1914. Nos Estados Unidos da América do Norte, vários seminários fizeram estudos aprofundados da Bíblia, provocando o avanço teológico do sentido dos textos bíblicos, como prova o texto traduzido por nós, que faz parte de uma coleção chamada "The Church Teaching Series, publicada em 1979, pela ECUSA (Ipiscopal Church of USA).

Na América Latina, anglicanos e anglicanas têm acompanhado ecumenicamente o avanço da pesquisa bíblica. Nesta região experimentamos grandes produções com novas visões respeitando o que é Bíblia hoje, porém, ainda, como anglicanos e anglicanas, não temos dado uma contribuição específica. Qual é a visão bíblica do anglicanismo latino- americano? O fato é que, na América Latina, a Igreja Anglicana lê a Bíblia de diferentes formas: fundamentalista, científica, tradicional, etc. mas em termos de releitura bíblica latino-americana, que é o novo, estamos apenas começando.

A contribuição anglicana não será diferente à que foi dada em outros lugares, em termos de "ethos" ou forma de ser, da nossa Igreja, somos uma Igreja litúrgica por natureza e a Bíblia nos oferece uma história feita na caminhada de um povo que adora e luta. Por isso poderá haver uma grande identificação entre o anglicanismo e o povo hebreu e com as comunidades do cristianismo primitivo. É desta identificação que poderá surgir a contribuição anglicana à releitura bíblica latino-americana.

Somos uma Igreja aberta às diferenças e, por isso, profundamente ecumênica. A releitura latino-americana parte de um ecumenismo amplo, que une todas as pessoas que amam a vida e buscam a libertação. A Bíblia tem sido o principal fator de união entre as comunidades, as igrejas institucionais e as teólogas e teólogos latino-americanos. Ler a Bíblia na esperança da vida, e poder fazer isto com total liberdade, é outra forma como o anglicanismo pode contribuir à releitura bíblica latino-americana. Seguramente haverá outras formas de acrescentar nossa personalidade anglicana à revelação da vontade de Deus para o povo desta região empobrecida, mas rica em gente e natureza.

Também a releitura bíblica tem muito a contribuir para tornar o anglicanismo mais brasileiro e latino-americano. Todas as reformas, todas as transformações positivas da Igreja Universal ou Católica, vieram de releituras bíblicas. O anglicanismo que há tempo faz parte da América Latina ainda não se encontrou plenamente com a cultura e a realidade deste lugar. Este não é um problema só do anglicanismo, mas é uma necessidade inegável. A Bíblia, lida a partir da realidade latino-americana por anglicanos e anglicanas que vivem a sua Igreja, vai gerar cada vez mais um anglicanismo latino-americano comprometido e militante, somando-se às outras pessoas no esforço transformador e libertador de Deus.

Ser leitoras e leitores de Bíblia, no contexto em que vivemos, significa assumir uma missão integral que exige assumir a Palavra de Deus como Palavra da Vida. É uma Palavra que não poderá voltar à Deus vazia, sem ter cumprido a Sua Vontade e ter realizado a Sua Missão (Is 55,11). É uma Palavra Urgente, pois muitas pessoas morrem como flores que murcham e capim que seca, sem ter sido seu chão regado com a Vida que vem de Deus. Com parte da Tradição Anglicana, devemos nos envolver nesta ação de Deus, mas só poderemos fazê-lo como portadores e portadoras da Palavra Viva.

No material que segue encontramos análises de diferentes usos da Bíblia na vida da Igreja hoje. No entanto, mais do que a utilidade ou não da Bíblia para a Igreja, pode-se constatar a necessidade da Palavra como impulsionadora das comunidades de fé. A palavra está em tudo dentro da Igreja, pois a Igreja deve ser uma amplificadora desta Palavra para que ela possa chegar "a toda criatura" (Mc 16,15). É por causa disto que devemos revisar o que estamos fazendo com a Palavra, se ela está sendo bem ouvida e refletida dentro das nossas comunidades, se nossa vida particular está sendo atingida pela Palavra, se nossa teologia está contaminada por ela, se nossa ação ética e moral espelha a ação da Palavra Libertadora, Salvadora e Redentora da Humanidade.

A tradução do capítulo 11 do Livro "The Bible for Today's Church", que transcrevemos a seguir, foi feita com total liberdade tentando ser fiel sem necessariamente ser exata, por isso para quem lê em inglês recomenda-se o uso do original.


O USO LITÚRGICO DA BÍBLIA

A leitura e interpretação de passagens bíblicas faz parte da adoração pública cristã desde os seus primórdios. Esta construção da adoração ao redor das Escrituras é uma incorporação cristã da prática nas sinagogas judaicas, nas quais a liturgia consistia em leituras da "Torah" e dos profetas e seu comentário. Jesus foi visto participando na adoração nas sinagogas em Lucas 4:16,17 e Paulo também é retratado nestas circunstâncias em Atos 13:15-16. Pessoas familiarizadas com os ritos da Oração Matutina e Vespertina do Livro de Oração Comum (LOC) podem facilmente ver que são essencialmente versões cristãs do oficio da sinagoga. Com uma percepção um pouco maior, alguém pode reconhecer que o mesmo é verdade para a primeira metade da Santa Eucaristia, a parte chamada de "Oficio da Palavra", do Livro de Oração Comum.

A maior alteração cristã do rito da sinagoga era acrescentar diferencialmente as Escrituras cristã, o Novo Testamento, além do uso das Escrituras Judaicas, o Antigo Testamento. Esta mudança foi acontecendo a partir da metade do segundo século do Cristianismo, o que é possível perceber na descrição da celebração eucarística de um escritor desse período, Justino Mártir: "Em um dia chamado Domingo acontece uma reunião no lugar onde vivem nas cidades ou no campo, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos longamente conforme o tempo permite. Quando o leitor termina, o presidente, em um discurso, apela e nos invita para imitarmos essas nobres coisas "(1ª Apologia, pág. 67).

Judeus e cristãos tem seus alicerces na leitura bíblica, e pregam conforme ela, como o centro da sua adoração e desta forma tem sua experiência de Deus e vem entender a vida, o mundo, e a vontade de Deus para o seu povo. Tal experiência da presença de Deus e entendimento da Sua vontade, às vezes, não é um resultado natural da leitura.


  • TORAH é a palavra hebraica para lei. Na Bíblia, a TORAH é o título dos primeiros cinco livros (PENTATEUCO) da Bíblia, como muitos leitores destes livros podem testificar.

O que segue então é uma série de sugestões práticas de formas, a que denominamos caminho, mais concreta a expectativa que tem de ouvir deus falar para você, quando a Bíblia é lida na adoração pública.

O primeiro caminho no qual pode fazer a Bíblia voltar para a vida é procurar nela a força da mensagem para hoje, e não simplesmente como a palavra fora da realidade, que pertence ao passado e era para o passado. Nós devemos reconhecer a Bíblia para aquilo que os primeiros cristãos a resgataram, a palavra de Deus para o presente. O tempo no qual os livros foram escritos originalmente, com as situações do seu próprio tempo e mentalidade, continuam para sempre a nos servir com um espelho no qual a fé procura a imagem do seu Senhor vivo e do povo de Deus Israel com a finalidade de entender quem é esse povo e o que ele deve ser. As histórias da tradição patriarcal, como a dos dois filhos de Abraão, voltam a falar várias vezes para ajudar Israel e a Igreja primitiva a atender novas situações na sua história. Da mesma maneira as passagens bíblicas que nós ouvimos hoje podem nos ajudar a entender o sentido de nossa situação.

Além de pensar na Bíblia como a Palavra de Deus para nós hoje devemos também pensar nela como sua palavra para nós, coletivamente e como indivíduos. A Bíblia é o registro dos encontros de um povo com seu Deus mais do que uma peregrinação espiritual de indivíduos solitários. Logo a finalidade da leitura bíblica na liturgia é chamar, todos nós, a olhar as implicações na comunidade e ao mesmo tempo suas implicações individuais, que vai além do que surge quando uma pessoa lê na sua devoção particular.

A palavra grega da qual se deriva "Liturgia" significa "o trabalho do povo". Isto nos dá um enfoque comunitário. A Bíblia foi escrita, preservada e transmitida por uma comunidade de fé e também é dedicada à comunidade. O lugar natural para ouví-la e discutí-la é a comunidade, reunida para a adoração.

O segundo caminho para dar uma ênfase litúrgica ao caráter coletivo da Bíblia é envolver o povo leigo assim como o clero na sua leitura nos oficios.

O terceiro caminho para que a Bíblia seja Palavra viva para nós quando a lemos na Igreja é sermos conscientes de colocar o texto bíblico dentro do momento do ano litúrgico. Podemos nos perguntar o motivo pelo qual essa seleção de textos é apropriada para a festa ou estação litúrgica que estamos celebrando nesse momento. Os trechos da Bíblia que são lidos na celebração, em cada dia do ano e para ocasiões especiais, estão listadas no LOC na seção chamada lecionário. Esse lecionário seleciona leituras para o ciclo da vida da Igreja seguindo uma seqüência anual, segundo a história da vida de Jesus, nas quadras que vão do Advento até a Páscoa e com o longo período de Pentecostes que abrange o resto do ano. Grandes pessoas na história da Igreja são lembradas nos dias santos e se prevê outras ocasiões especiais da vida da congregação e ordenações. As passagens bíblicas são escolhidas por serem apropriadas para as diferentes ocasiões em que são lidas. Associando-as com a ocasião para as quais foram selecionadas, podemos ter um significado adicional para nós.

O novo LOC não reproduziu o texto das epístolas e Evangelhos para cada domingo e dia santo como o fez o LOC de 1982. A razão principal para isto, é que, juntamente aos Católico-Romanos, Luteranos e outras denominações, os Anglicanos liam as mesmas lições para cada dia na Igreja ano após ano, sem alterar as leituras no ciclo de três anos**. Isto triplicou a quantidade de textos no lecionário e fez com que a reprodução integral dos mesmos fosse inviável, impossível. Há outras vantagens no fato de não serem transcritos os textos no LOC. Por outro lado, se faz necessário que eles sejam lidos da Bíblia, que também é um livro usado no oficio, sendo uma lembrança de como é importante considerarmos a Bíblia como livro litúrgico.

** Ciclo A, B, C.

não estamos mais confinados a uma única tradução da Bíblia, mas podemos usar uma variedade delas. Desde que muitos lecionários denominacionais são quase idênticos, quem lê ganha o sentido coletivo da natureza da Bíblia, ao perceber que outros cristãos estão ouvindo o mesmo texto, naquele mesmo dia.

O quarto caminho para assegurar que a Bíblia receberá toda a atenção quando é lida liturgicamente é acentuar as leituras com hinos modernos e também antigos que tenham os mesmos temas. Em diferentes momentos da liturgia em que são usados, os Salmos tem sido usados como: a) Intróito- Antecede as leituras bíblicas, tem como função preparar o povo para ouvir as leituras; b) Gradual- Hino, Salmo ou Canto que antecede a leitura do Evangelho. Chama-se assim porque era usado no momento de subir os degraus para fazer a leitura no púlpito; c) Ofertório- Como auxilio ao significado das "ofertas do povo" e como preparação para a Santa Eucaristia. (Ao mesmo tempo em que é preparada a mesa para a Comunhão.

*Os Salmos graduais, hinos do hinário ou os novos cantos podem ser usados com o mesmo propósito, reforçando o que é lido e ajudando suas próprias possibilidades de interpretação. A criatividade pode ser usada na música moderna com temas bíblicos e com orientação bíblica, tais como os "spirituals" ou "gospel songs" da tradição da Igreja dos negros ou alguma música de uso popular dos jovens de hoje. Tudo isto nos faz mais conscientes sobre o significado do que está sendo lido.

Existem muitas técnicas pelas quais membros da congregação podem participar tanto ativamente como passivamente na leitura pública da Bíblia. Elas podem, eventualmente, lendo antes, em casa, as passagens bíblicas selecionadas para o dia, antecipando assim o que será lido na Igreja. Em algumas paróquias, as leituras das lições biblicas são precedidas da leitura de uma ou duas frases sumárias sobre o que será lido e assim o povo conhece, antecipadamente a temática das leituras. Alguns resumos podem também relatar parte do texto do mesmo livro que foi lido da Bíblia, na semana anterior, dando assim uma noção de continuidade. Grupos de discussões sobre os textos depois da leitura ajudam também a esclarecer o significado. Ou então o lecionário pode ser a base para a continuidade de um estudo bíblico dentro do programa paroquial de educação cristã.

A partir destas sugestões poderá perceber-se que a leitura da Bíblia não é mais um mero apêndice da liturgia. A leitura, a escuta e proclamação das Escrituras no meio do povo de Deus e sua própria Liturgia. A Liturgia da Palavra e a Liturgia dos Sacramentos são indispensáveis uma para a outra. As lições lidas da Bíblia nos dizem porque temos que ir juntos a adoração e afirmar-nos diante das implicações de nossa adoração para nossa vida cotidiana. A proclamação da Palavra de Deus nos prepara para uma experiência de nosso Senhor ressuscitado no partir do pão, como foram preparados os discípulos no caminho de Emaús. Tendo seus olhos abertos no compartilhar da refeição após a ressurreição, os discípulos lembraram que tinham caminhado ao longo da estrada com o seu Senhor desconhecido que explicou a eles o significado da Bíblia. Então dizem um ao outro:

"Não ardiam nossos corações dentro do peito quando ele nos falava na estrada, quando ele abriu para nós as Escrituras?" (Lc 24,32)


PREGAÇÃO BÍBLICA

Uma parte da pregação é dedicada a persuadir aqueles que ainda não aceitaram Cristo a fazê-lo. O restante é dirigido diretamente aos que já são cristãos, num esforço de incentivá-los a colocar sua conduta dentro da fé que confessam. Toda pregação cristã serve então a estes dois propósitos, dedicado ao evangelismo ou a exortação. Realmente, durante o período no qual a pregação não foi incorporada nos escritos dos Evangelhos, foi passada adiante oralmente, de duas maneiras: como uma história individual ou como uma unidade de transmissão. As histórias ou discursos foram usadas como pontos de partida para muitos sermões ou para o ensino da fé. No entanto, nenhuma atividade tem sido mais característica da Igreja Crista que o começo na pregação oral com a qual cresceu a pregação do Novo Testamento.

Estes dois propósitos (evangelístico e exortação) são ainda os que acontecem na pregação, às vezes através de formas que podem parecer o contrário. Depois que o método crítico se transformou na base da formação nos seminários, freqüentemente, muitos clérigos o tem como impecilho para a pregação a partir da Bíblia. As tentativas os deixam confortáveis, já que não vêem mais a Bíblia como uma verdade histórica literal. Por outro lado, isto não lhes mostrou que poderiam, e deveriam, pregar a partir da Bíblia. Assim, ironicamente, a ferramenta que foi criada para ajudar o clero a entender a proclamação bíblica mais profundamente, tem freqüentemente o impedido de basear na Bíblia toda a sua pregação.

Grande parte da culpa disto deve atribuir-se aos professores dos seminários que, por um lado, tem esquecido freqüentemente o propósito do seu ensino, que não é a erudição em si mesma, mas fazer o significado da Bíblia claro para o povo cristão. Por outro lado, têm negligenciado ensinar seus estudantes como a crítica bíblica pode ser utilizada como um recurso na pregação. O desenvolvimento da pesquisa crítica, de qualquer forma, tem provado ser uma grande correção para o fundamentalismo bíblico, desde que se leve em consideração uma das duas questões primárias: "Que proclamação quer fazer o escritor bíblico neste texto?" Os pregadores podem começar a pregação do seu sermão com esta pergunta. Quando os pregadores procuram quais as passagens das Escrituras que serão lidas no dia em que irão pregar, começam fazendo uma exegese com a crítica textual e continuam procurando a origem, forma sujeitos e objetos, e redação ou tradição crítica. Em tudo eles acabam sem dúvida consultando comentários, orientações exegéticas para pregadores. Eles poderiam começar fazendo seu próprio estudo para descobrir o que os escritores bíblicos tentaram comunicar aos leitores originais destas passagens. Quando esta resposta é estabelecida satisfatoriamente e testada em livros de referência apropriados, o pregador então sabe sobre o que vai pregar e que proclamação fazer no sermão sob esta consideração.

O próximo passo da pregação de um sermão é descobrir que situação na congregação é análoga à situação no texto bíblico que será usado na pregação. Sintonizando isto, falta uma interpretação da congregação e da sociedade em que ela vive e com isso passar por dentro da interpretação feita do texto bíblico. O pregador que quer mostrar aos paroquianos como suas vidas são iluminadas pela Bíblia deve ter familiaridade com as suas vidas e com a Bíblia. Há muitas formas de adquirir essa familiaridade: atividades paroquiais, ouvir confissões, aconselhamento, todos os contatos pastorais que são feitos por um clérigo. Uma vez que o pregador participe da mesma cultura que a congregação, nenhum esforço pessoal é necessário para conhecer o que está acontecendo na cultura. Jornais, revistas, televisão, cinema, livros, e todas as outras formas de mídia servem como informação sobre os assuntos comuns e proporcionam o entendimento do que temos chamado de indústria do conhecimento". Muitas vezes o pregador encontra dificuldade para adquirir alguma perspectiva sobre uma visão transcendental da sociedade para si mesmo e seus assuntos. Em relação a perceber o que realmente está acontecendo dentro da cultura, que é vista a partir de uma perspectiva cristă, o pregador necessita adquirir uma pregação teológica que o psiquiatra Theidore Reik chamou de "terceiro olho".

pelo uso da livre associação, o pregador descobre que a situação na congregação é análoga à situação do texto bíblico. Quando isto acompanha a construção do sermão, ele pode começar ao contrário, se a preparação dos sermão começa com a exegese dos textos bíblicos que serão lidos no sermão, este em si mesmo pode não começar com o texto, podendo começar onde o povo está. A primeira tarefa do sermão é descrever sua situação de forma tal que o povo a reconheça como a sua própria. Logo após, o sermão pode mostrar que há muito em comum entre o que acontece na vida da paróquia e o que é relatado na passagem bíblica que será lida no oficio. A tarefa final do sermão é aplicar o juízo, oferecido pela situação bíblica, na situação da comunidade. Em geral, tradicionalmente, os sermões têm começado pela Bíblia e só depois, colocada a relação com a vida contemporânea. O pregador pode às vezes, contar uma apaixonante curiosidade para os seus ouvintes sobre parte das Escrituras. A atenção pode ser levada rapidamente para sermões que começam: "Meu texto está baseado em...", o povo fica muito mais à vontade para acompanhar o sermão até o fim quando este mostra que assuntos realmente relevantes para eles serão discutidos.

Este método de pregação bíblica está fundamentado na percepção de que, a despeito de todas as mudanças nas circunstâncias materiais da vida humana, depois que o ultimo livro da Bíblia foi escrito, as circunstâncias básicas da vida humana não mudaram. Desta forma, na perspectiva de Deus, encontram modelo de conduta que permanece constante.

Procurar fora da Bíblia sua atitude como um modelo, se revelou como sendo do passado. Verdadeiramente essa percepção erra primeiramente em ver a Bíblia como um interesse de curiosidade antiga. A importância da crítica bíblica é fazer com que as diferenças culturais não nos confundam sobre qual foi a situação no passado e qual foi a perspectiva divina naquela situação. É uma segurança, contam os entendidos. Por isso isto faz parte muito importante da preparação para a pregação. Ela pode dar aos pregadores a confiança de que seus sermões podem penetrar no coração e na vida do povo porque eles são elaborados a partir do coração da Palavra de Deus.


BÍBLIA E EDUCAÇÃO CRISTÃ

Nos primeiros' tempos, este não era um assunto fácil de se tratar porque o currículo da escola dominical tradicional poderia ser avaliado como qualquer pessoa quisesse e nada mais seria necessário. Agora, no entanto, existe uma grande disputa sobre o que é Educação Cristã, e poucos concordam sobre o que ela deveria conter. Isto seria impossível de descrever num curto espaço considerando as várias opiniões. Um ponto de vista será destacado de forma resumida. Leitores que concordarem com outros pontos de vista poderão, sem dúvida, saber onde olhar para se guiar em como usar a Bíblia nos programas de Educação Cristã, segundo seus pressupostos.

Os escritores entendem que não é suficiente para os seus estudantes de escola dominical (Church School), ou melhor, os membros mais jovens das suas congregações, aprender sobre sua religião. A questão crucial para eles é adquirir a fé cristă. Isto já foi apontado por John Westerhoff (em seu livro "Terão fé nossas crianças?", de onde foram extraídas muitas destas idéias) considerando que existem quatro etapas no desenvolvimento da fé. Uma criança na pré-escola e nos primeiros anos da escola adquire "experiência” de fé através da experiência de ser membro de uma família cristã e pertencer à Igreja. Durante os últimos anos da infância e nos primeiros anos da adolescência se adquire a fé "afiliativa" no processo de auto-identificar-se com a instituição da Igreja no aprendizado do seu saber e ser aceito dentro dela. Durante o fim da adolescência, a fé freqüentemente caminha para a pesquisa, isto é, só o teste intelectual que for adequado pode ser descoberto. Se estes testes se processam com sucesso, jovens adultos estão prontos para se mover dentro da sua própria fé, na qual eles aceitam a fé da Igreja por si mesmos e começam a desenvolver estilos de vida de acordo com sua confissão cristã.

A estratégia de educação cristã baseada na intenção de facilitar o processo de sucesso através das quatro etapas de fé poderia, por um lado, promover o entendimento da Igreja sobre o andamento da vida da sua Igreja no dia-a-dia e poderia, por outro lado, obter uma quantidade especial de membros da congregação que estão preparados para se movimentar de uma etapa da fé para outra, para funcionamento do programa de Westerhoff, sugere-se o uso da hora anterior à liturgia de domingo:

"Porque a congregação - todas as idades juntas - estaria reunida antes da liturgia da manhã? Em primeiro lugar eles poderiam dar as boas-vindas a novas pessoas, estreitar a amizade entre si, aprender a ministrar ajuda para os necessitados - todos os que tem meios de se engajar na vida da comunidade. Em segundo lugar, o povo poderia se preparar para o ritual matutino aprendendo hinos, antífonas e outros aspectos da liturgia, fazendo assim sua participação mais cheia de significado. Em terceiro lugar, a liturgia pode ser engajada se o lecionário (lições das Escrituras que serão lidas e refletidas na pregação) é usado para prover conteúdos para a diversidade de experiências educacionais entre as gerações e discussões sobre todas as formas de adoração - crianças, jovens e adultos" (Terão nossas crianças fé?, págs. 57, 58).

A participação em cursos especiais de estudos podem ser oferecidos para aqueles que estão prontos para fazer a transição para uma nova etapa da fé. Para a Educação Cristă de adultos, Westerhoff recomenda, acrescentando às experiências entre gerações mencionadas antes, cursos curtos que podem ser freqüentados por grupos homogêneos; versando sobre assuntos que lhes interessam; estes grupos podem depois resultar num programa de ação.

Em seu livro "Exploring thr Bible With Children", um sistema foi descoberto por Dorothy Furnish para quem o tipo de conceito intergeracional defendido por Westerhoff é um dos métodos de ensino recomendados. Verdadeiramente, suas idéias sobre o tipo de pesquisa que poderiam se atingir, são muito compatíveis com os pressupostos de Westerhoff para possibilitar, que nossas crianças tenham fé. Contrapondo-se a alguns motivos inadequados que afastam as crianças dos Estudos Bíblicos, a teoria que o Estudo Bíblico constrói o caráter, a crença que os dados bíblicos acumulados na infância serão importantes para um uso posterior, ou a assimilação de que a "mensagem" da Bíblia pode ser ensinada às crianças, Dorothy Furnish afirma: "Nós queremos para nossas crianças o que queremos para nós mesmos. Queremos que as crianças comecem a desenvolver o senso de serem pessoas especiais dentro de sua tradição especial. Queremos que elas comecem a encontrar heróis e heroínas na tradição judaico-cristã assim como na história secular. Queremos que abram a Bíblia para que Deus possa usá-la para dar significado as suas vidas em todos os níveis e em todos os caminhos possíveis. Queremos que as crianças conheçam a Bíblia e assim poderão ser desafiadas por ela. Queremos que a Bíblia ocupe uma parte importante do "novo" mundo das crianças. E queremos que tudo isto suceda em seu presente, não em seu futuro" (pág. 96).

Em contraste, teóricos americanos afirmam que as crianças não estão aptas para o pensamento religioso e, consequentemente, não estão preparadas para a Bíblia até os últimos anos da escola primária. Fornecer pontos fora de todos aqueles que poderiam ser ensinados sobre nossa religião é pensar em conceitos. A maior parte do conteúdo da Bíblia são histórias isto deve ser planejado para um atraente aprendizado para crianças relativamente jovens se forem usados os métodos apropriados. Esses métodos deveriam inicialmente contar histórias, envolver trabalho artístico em relação às histórias, músicas sobre as histórias, dramatizações sobre as histórias. O conteúdo não deve ser analisado através de perguntas sobre os fatos narrados, pensando que o professor não poderia colocar uma moral (geralmente pouco convincente) como o significado das histórias.

As crianças podem perceber o significado das histórias no seu próprio nível. O professor pode começar perguntando o que a história significa para eles, reconhecendo que não haverá significados errados ao responder a pergunta. O professor pode também estar disposto a dizer o que essa história significou. A partir da pluralidade dos significados o professor pode perguntar: "o que tu pensas que esta história significou para as primeiras pessoas que a ouviram?" Depois destas perguntas serem utilizadas, as crianças estarão capacitadas para considerar o que essa história pode significar para a Igreja hoje, assim como dentro do seu próprio contexto referencial.

As crianças estarão também capacitadas para absorver uma grande bagagem bíblica inconscientemente se isto é colocado para elas de forma correta. Muitos destes detalhes podem salientar a caminhada para dentro da narração da história. Informações sobre o tema da Bíblia, os costumes dos tempos bíblicos, algumas formas literárias da Bíblia, e também como se formou a Bíblia, podem ser colocadas nesta forma de trabalho. Durante os anos básicos, as crianças podem também adquirir algumas habilidades com a Bíblia como aprender a procurar passagens na Bíblia ou como usar uma simples concordância bíblica ou um dicionário bíblico.

Essas experiências em Estudo Bíblico são importantes não somente para que as crianças conheçam textos sagrados da sua religião, mas os farão sentirem-se parte da comunidade de fé que tem seus primórdios históricos registrados na Bíblia e que continua a existir hoje em sua própria Igreja.


ESTUDO PESSOAL DA BÍBLIA

ADQUIRINDO AS FERRAMENTAS

Existem muitas razões porque o pensamento cristão procura estudar a Bíblia: alguns podem estudar com o propósito de ensinar outros, ou o estudo pode ser uma disciplina pessoal dentro de um período específico do Ano Cristão como Advento ou Quaresma, ou poderia ser um esforço próprio para se tornar melhor informado como cristão, ou ainda ter outras excelentes razões. O centro de estudo da Bíblia é ouvir mais claramente o que Deus revelou aos escritores sagrados e o que eles revelaram através das suas palavras para nós. Os autores bíblicos queriam que seus ouvintes originais ouvissem- nos focalizarmos a palavra bíblica dentro do seu contexto histórico e cultural. O estudo pessoal consiste em elucidar o significado histórico ou literal das palavras e das histórias da Bíblia. Só depois de nós elucidarmos o que significam as palavras dentro do seu contexto original, poderemos começar a examinar o que poderiam significar para nós aqui e agora.

Três ferramentas principais são necessárias para o sucesso deste assunto: a) a Bíblia em si mesma, se possível em duas ou três traduções; b) apoio em literatura secundária como dicionários bíblicos, comentários e outros livros sobre o momento histórico e interpretação teológica; c) nossa inteligência própria e original e nosso prejudicado senso comum com o qual poderemos formular as perguntas corretas ao texto biblico e confiança nas respostas recebidas para obter o pleno significado do texto. É necessário selecionar entre as muitas traduções disponíveis hoje. Especialmente podem ajudar algumas edições que apresentam artigos explicativos e notas de rodapé (...). essas diferentes traduções são necessárias para quem não esteja familiarizado com as linguas bíblicas originais, porque nem todas as traduções da Bíblia contém todas as variações do original. Ter o mesmo versículo de muitas formas diferentes nos assegura que poderemos abordar o ponto certo independentemente do que pode sugerir algum "acidente" da língua portuguesa. A literatura secundária é justamente isto: secundária em relação ao texto primário, que é a Bíblia em si mesma. Um bom dicionário da Bíblia é inestimável para Identificar pessoas, lugares objeto e conceitos.

Os comentários dão versículo-a-versículo interpretações de livros bíblicos. Além da análise versículo-a-versículo, em geral têm resumos introdutórios de cada livro bíblico assim como artigos de arqueologia bíblica, geografia, história, lei, etc. os resumos introdutórios podem ser lidos antes que alguém comece a estudar um livro bíblico com o propósito de obter uma visão panorâmica do mesmo, assim como aprender o momento histórico e teológico. Os comentários também incluem bibliografias que guiam o leitor para uma mais profunda e detalhada leitura sobre os assuntos em consideração.

A ferramenta mais importante depois do texto da escrita em si mesmo é nossa própria inteligência e senso comum. Isto significa que nos aproximamos do texto com uma mente aberta mas não vazia. Nós conseguiremos o pleno significado do texto se não impusermos ao texto o que pensamos que deveria significar. Isto significa que devemos deixar de lado nossos preconceitos para poder ouvir o que o escritor bíblico está tentando dizer. Isto não significa que possamos nos aproximar da Bíblia sem fé, mas, que podemos nos aproximar dela com uma mente aberta para o que realmente foi dito, independentemente de nossas expectativas, que venham confirmar nossas opiniões.


CONVERSAS COM A BÍBLIA

A melhor forma de estudar a Bíblia é agir como se estivesse dialogando com ela. Melhor ainda, pode imaginar você mesmo dirigindo uma entrevista. Você está procurando manter uma conversa com o texto, colocando perguntas para ele e escutando as respostas. O mistério do estudo da Bíblia e o de se engajar nele é que nós estamos dentro de um diálogo não só com as palavras do texto, mas também com o encontro divino-humano, através do qual as palavras trazem esperanças. Mesmo tendo começado como o interrogador, rapidamente veremos que somos chamados para dentro da pergunta. Freqüentemente nossos pressupostos são desafiados. Antes que sejamos amedrontados por isso nós podemos aceitá-lo como um sinal de que começamos a: ensinar e ser ensinados pela palavra divina. Entrevistando, os repórteres provavelmente perguntam cinco questões: quem, que, quando, onde e por que. O estudante da Bíblia deve também perguntar cinco questões básicas. A primeira é: quais são as palavras autênticas da passagem? Isto é para perguntar qual é o texto original, que foi que o autor escreveu realmente! Procurar isto é um alto processo técnico, conhecido como crítica textual. O estudante amador da Bíblia pode tomar alguma decisão vendo o que vários leitores anotaram nas notas de pé de página de várias traduções e nos comentários.

A segunda questão é: o que são os marcos literários que fazem desta passagem uma unidade distinta, ou perícope, usando o termo técnico. Em outras palavras, como foi que esta passagem chegou ao interior do livro. Como um osso que só pode ser entendido como parte do esqueleto, a passagem deve ser vista como parte do argumento de todo o livro

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