Estandarte Cristão - 12/1952

Versão Integral em Texto

Estandarte Cristão - 12/1952

Athalicio PithanSilvano Rocha FilhoJ. Timóteo da SilvaJ. Mozart de MelloAfonso Schmidt1952

ESTANDARTE CRISTÃO

PERIÓDICO DA IGREJA EPISCOPAL BRASILEIRA ANO LIX Pôrto Alegre - NATAL - dezembro de 1952 Número 1325

SINOS DE NATAL

Voz do bronze, de encanto e de mistério Que abala a terra e o próprio céu alcança, Desperta dentro dalma o sonho etéreo De fraternal amor e de esperança.

Cedo, tem a doçura de um saltério, Glorificando a Deus, tranqüila e mansa. E, ao fim do dia, é almo refrigério, Trazendo aos corações paz e confiança.

Mas essa voz dos sinos tem um dia Em que entusiasma e alegra e acaricia, Qual se fosse um afago divinal :

É na manhã feliz, de amor profundo, Em que se escutam, nos desvãos do mundo, Sinos cantando a glória do Natal !

Athalicio Pithan


PRECE DE NATAL

SENHOR! Tu que vês as injustiças humanas, os ódios e as vio- lências; as lágrimas que vertem os olhos feridos pela dôr e pela guerra;

Tu que ouves o chôro da criança faminta, os gemidos dos miseráveis, que não têm como saciar seus corpos sofre- dores;

Tu que sabes que os homens se matam nos campos de batalha e que não poupam velhos e crianças! mas que a todos destróem sem piedade

Faze ao menos, Senhor, que, hoje, quando relembra- mos o nascimento do Salvador do mundo — o Príncipe da Paz, da boa vontade e do amor — tôda a amargura da terra seja consumida por Tua misericórdia sem par!

Que os Teus filhos sejam melhores filhos; que os transviados retornem ao Teu aconchêgo e nêle permaneçam para sempre!

Que em todos os lares reinem o amor e a alegria pura do Natal...

Permite, ainda, Senhor, que a lição sublime da encar- nação de Teu dileto Filho venha desarraigar o império da soberba e do pecado, aquí na terra, para dar lugar ao reinado das bem-aventuranças do Evangelho...

Tudo isto Te suplicamos pela mediação d'Aquele que por nós se fez carne — Teu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém.

SILVANO ROCHA FILHO


ESTANDARTE CRISTÃO

PERIÓDICO DA IGREJA EPISCOPAL BRASILEIRA ARVORAI O ESTANDARTE AOS POVOS. ISAIAS 62:10

ANO LIX Pôrto Alegre - NATAL - dezembro de 1952 Número 1325

DEUS conosco

Entre os fatos de mais amplo sentido espiritual na história da humanidade e que alcançaram imprimir-lhe novos rumos, a vinda de Cristo, fora de qualquer dúvida, coloca-se em lugar proeminente.

Os sagrados Registros que nos dizem de como decorreu a for- mação religiosa do povo de Deus e que descrevem os meios de que Ele se serviu para manter viva na alma humana a chama da espi- ritualidade e da fé, acentuam acontecimentos que permanecem como prova de que a providência divina foi sempre tão pródiga em asse- gurar proteção à alma, quanto em oferecer elementos de segurança à vida física do homem.

Deus sempre esteve presente no mundo. E esta realidade se apresenta em traços de colorido intenso, ora mais ora menos impres- sivos, mas sempre claros e fortes.

Da sarça que não se consome ao ígneo elemento faz-se ouvir a voz de Deus. Do Sinai a mesma voz dita ao gênial guieiro os Dez Mandamentos que diriam pelos séculos como cumpria ao homem proceder nas suas relações com o Criador e com o próximo. Na ca- minhada da gente eleita, através do deserto inhóspito, rumo à terra da promessa, o povo tem Deus a sua frente, de dia na nuvem, à noite na coluna de luz. A Sua presença faz-se real a cada instante e de espaço a espaço a Sua voz é ouvida por homens que o mundo mal compreendia: "Quem enviarei eu e quem irá por nós?"

E houve sempre almas de sensibilidade capaz de ouvir a Deus e segui-lo, sem levar em conta a incompreensão e a dureza do coração humano. "Deus falou nos tempos antigos pelos seus santos profetas". Foram tempos de incertezas em que por vezes se afigurava tudo perdido.

Clamar inútil. Silenciaram os profetas. Mas uma ou outra alma permanecia na espectativa. E Deus planejava servir-se de re- curso extremo.

Mais um profeta? Já enviara tantos!

Cumprem-se os tempos. E Deus faz nascer no mundo o divino Redentor. Era a dádiva suprema e suficiente. Deus faz-se igual aos homens, exceto no pecado. E se a mundo que Ele veio salvar, sendo máu, não alcança compreender o milagre da encarnação do Unigênito do Pai, os céus tomam a si festejar a vinda do Salvador à terra. Assim foi naquele dia. Enquanto a terra permanecia muda e só umas poucas de almas fiéis sentem-se tomadas de júbilo, as alturas enchem-se de música sublime. Era o hino da redenção da humanidade, "Paz na terra entre os homens a quem Ele quer bem".

Desde então Deus vem falando aos homens por seu próprio Filho. E esta é a maior bênção já concedida à raça humana. Deus por seu Filho vem falando ao mundo. E a Sua mensagem de amor e perdão alcança, cada dia que passa, convencer cada vez mais a consciência humana de que a paz entre os homens só será possível quando êstes fizerem dos ensinamentos do Filho de Deus a sua regra de proceder nas relações com o Pai celestial e de nação com nação e indiví- duo com indivíduo.

J. TIMÓTEO DA SILVA


EDITORIAIS

★ Saüdação ★

Irradiando alegria é que o "Estandarte Cristão" chega hoje às mãos de seus milhares de leitores.

Ao folhearem suas páginas, desejamos que todos sintam nosso amplexo de simpatia e de boa-vontade.

Passamos todo um ano de intensa atividade jor- nalística, ora selecionando artigos, ora colhendo infor- mações ou redigindo notas, outras vezes buscando di- retrizes, mas nunca pensando em nós mesmos e nun- ca esquecendo aqueles que nos lêem.

Acostumamo-nos, assim, a íntimo convívio com nossos inúmeros leitores.

E' compreensível, portanto, que não sejamos in- diferentes ao Natal de cada um.

Sinceros são os votos, pois, de feliz Natal, que fazemos ao Reverendo Clero, a nossos prestimosos agentes, colaboradores e noticiaristas, e também a todos os que nos lêem.

E, neste alto de coluna, fazemos, mais uma vez, o que julgamos função precípua de nosso quinzená- rio: unir num só e vigoroso amplexo a grande famí- lia da Igreja Episcopal Brasileira !

Comentando

Reproduzimos noutro local de nosso quinzenário sugestiva nota distribuída pelo Serviço Noticioso Atlas, e que aparece sob 0 título de "Indústria e Religião".

Refere-se o despacho a bre- ve hora devocional, adotada por importante indústria cerâ- mica, em benefício de seus em- pregados.

Deve de ser realmente ins- pirador e reconfortante para os operários de uma fábrica aban- donar por minutos seus afaze- res, e, mais perto de Deus, sentirem a própria alma.

Uma série de leis sociais ga- rante hoje o direito daqueles que trabalham. E' o repouso remunerado, são os refeitórios coletivos, são as residências a preços acessíveis.

Campeões da indústria e do comércio, dotados de alto espí- rito progressista, vão, não raro, além dos preceitos legais, e proporcionam a seus servidores maiores benefícios.

Sabem que o trabalhador produz mais e melhor, quando o faz com satisfação.

Seja a título de recompensa, seja para estímulo, generalizou- se no país, em boa hora, o as- sim chamado bônus de Natal.

Dentro da classe patronal, os

Expediente

Número avulso Cr$ 2,00 " atrasado Cr$ 2,50 ASSINATURAS Entrega feita na Igreja: Anual Cr$ 30,00 Semestral 20,00 Trimestral 10,00 Pelo Correio Simples: Anual 35,00 Semestral 22,00 Trimestral 12,00 Sob Registo Postal: Anual 50,00 Semestral 25,00 Trimestral 15,00 Estrangeiro Assinatura sòmente anual 40,00 Correio Simples 60,00 Sob Registo 170,00 Via Aérea As assinaturas iniciam em qualquer tempo, concluindo sempre em DEZEM- BRO. O pagamento é feito adiantada- mente. Os valores devem ser remetidos pelo Banco ou Vale Postal no GERENTE.

empregadores cristãos, instruí- dos no bem e na justiça, sen- tem prazer em beneficiar quan- tos têm contribuído, de qual- quer maneira, para a maior prosperidade de seus negócios, desejando tenham êles um agra- dável Natal.

Mas, por que, não ir mais longe ?

Por que não programar, tam- bém, semanalmente, para o novo ano, prestes a raiar, um momento devocional dedicado a seus servidores, ato que, fa- zendo-lhes bem às almas, há de refletir, ainda, sôbre seus corpos e mentes, e, como con- seqüência, sôbre a própria pro- dução?

Industrialistas e comercian- tes cristãos, abertos a tôda idéia progressista, hão, por certo, de querer viver esta experiência, que dará novo rumo a suas atividades.


DEZEMBRO de 1952 5 ESTANDARTE CRISTÃO

NASCEU JESUS!

J. MOZART DE MELLO

Uma humilde cabana, uma luz radiosa se espalha pelo mundo civili- zado, dulcificando os corações aflitos e acalmando as mentes inquietas, ante prognósticos sinistros de guerra. A Humanidade esquece, por momentos, as suas dores, as suas torturas, para se achegar, sorridente, de uma manjedou- ra, no fundo da qual jaz o Desejado das Nações, a Esperança dos povos.

Como nos tempos de Augusto, o mundo de hoje está em relativa paz. Na- queles tempos, já se ouviam do outro lado das fronteiras do Império Ro- mano os passos pesados e ameaçadores dos bárbaros, que se aprestavam para iniciar a maior invasão de povos que a História regista. Hoje já se ou- vem também guerras e rumores de guerras. As mães estarrecidas esperam o pior que jamais surgiu das entranhas do Inferno.

Ora, tudo isso seria evitado, se os homens acatassem a voz do Na- zareno, o Príncipe da Paz. Jesus renasce todos os anos, para gôzo e gáudio das crianças cristãs, que serão os homens de amanhã. Se os homens também renascessem todos os anos para a Vida, então o leão viveria ao lado do cordeiro, e o tigre ao lado da gazela; os Céus começariam aqui mesmo na Terra! Senhor! faze com que Jesus renasça todos os anos nos corações dos homens!

Aconteceu em Belém

Não há lugar algum na hospedaria Ao viajor humilde que procura Abrigo, não p'ra si, senão à pura Virgem Santa de Deus que foi Maria.

Resta, apenas, das reses o curral.... Em Belém não há pouso p'ra mais gente, Por virtude do censo imperial! Quem decreta é Deus Onipotente:

Cumpra-se da Escritura, com rigor, A antiga palavra do profeta: "Sairá de ti, Belém, um condutor"

A terra de Judá, assás, dileta, Tremeu à voz dos anjos em redor: Nasceu Jesus! Haja paz! Paz completa!

Silvano Rocha Filho

NATAL

AFONSO SCHIMIDT

Bendita seja aquela noite, aquela Formosa noite constelada e fria De um firmamento vago de aquarela, De um silêncio ressoante de harmonia!

A noite de Natal foi a singela Semente azul de que brotou o dia... Na infância, quanta vez sonhei com ela E, sonhando, estou certo que sorria!

Anos depois, no turbilhão da vida, Fitando a longa estrada percorrida, Ora servo do Bem, ora servo do Mal, Ergui a fronte para os céus e disse: "Senhor! Dá-me também para a velhice, Uma formosa noite de Natal!"


DEZEMBRO de 1952 6 ESTANDARTE CRISTÃO

EM MEMÓRIA do Rev. Orlando Ramos de Oliveira

A 22 de fevereiro de 1933, "ao badalar dos sinos do meio dia", Orlando Ramos de Oli- veira rendia sua alma a Deus. Jovem ainda, havia recebido ordens sacras fazia poucos me- ses.

Faleceu antes mesmo de ini- ciar seu ministério ativo. Entusiasta, dedicado, palavra fácil, era bem uma esperança para a Igreja.

Como seminarista, consagrou muito de seu entusiasmo à Mis- são do Mediador, em Navegan- tes, nesta Capital, hoje parte da Igreja da Santa Cruz do Media- dor.

Agora, parentes, colegas e amigos do Rev. Orlando Ramos de Oliveira ofereceram àquela paróquia artístico púlpito em sua memória.

A dedicação do fino móvel foi feita pelo Revmo. Bispo D. Athalício T. Pithan, por oca- sião de sua última visita ofi- cial àquela paróquia, a 30 de novembro último, ato a que compareceu vultosa congrega- ção.

Necrológio

D. CONCEIÇÃO MÜLLER

Após longa e penosa enfer- midade, entrou no bom repouso do Senhor, Dna. Conceição Mül- ler.

Fomos conhecê-la já enfêr- ma, desenganada de seus médi- cos, quando servíamos, como ministro adido, na Catedral da SS. Trindado.

Então, visitamô-la com fre- qüência, e, repetidas vêzes, le- vamos-lhe o confôrto da Sta. Eucaristia, de comêço, em sua sala de jantar, e, depois, junto a seu leito.

Tinha sempre o mesmo tim- bre de voz, suave e bom, a dei- xar transparecer profunda re- signação.

Nunca lhe ouvimos palavra de desespêro, nem sequer de de- sânimo.

Sempre que a visitávamos, tinha ela a preocupação de nos obsequiar com alguma coisa, e gostava de nos dar também di- nheiro, e que devíamos usar, se- gundo determinava ela, em nos- sas despesas de condução, quando em visitas pastorais.

Essas pequenas importân- cias, tantas vêzes recebidas, en- cerravam um quê de muito ex- pressivo, falavam de seu aprêço às visitas de seus ministros e de seu desejo de vê-los visitan- do igualmente outros.

Era um gesto muito seu, úni- co em nosso pastorado, digno de imitação, e que desejamos fique registado nesta nota, co- mo nossa homenagem à sau- dosa irmã, gesto que foi estí- mulo ao nosso trabalho de vi- sitação.

Desligado de nossa Catedral, prêso a outras atividades, sem- pre guardamos agradável lem- brança de seu espírito resigna- do e forte e de seu dom inato de agradar.

Assistindo às cerimônias fú- nebres daquela nossa irmã, em que oficiou o Rev. Jessé K. Ap- pel, deão da Catedral da SS. Trindade, notamos o grande nú- mero de pessoas presentes ao ato, e que bem falava do quan- to soube ela fazer-se aprecia- da.

Ficam a lhe prantear a au- sência o espôso e filhos, entre os quais D. Sueli Müler Neves, espôsa do Rev. Dr. Virgínio Pereira Neves, arcediago mis- sionário da Diocese do Brasil Sul-Ocidental.

À nossa irmã falecida, o Se- nhor dará contínuo crescimen- to em seu reino de Luz!

H. T. Jr.

D. Frida G. Guimarães

D. Frida Gruber Guimarães veio a falecer aos 73 anos, no dia 21 de novembro p/p., em conseqüência de uma súbita in- tervenção cirúrgica.

A verdade, porém, é esta: nossa irmã foi chamada por seu Deus e Pai, para reunir-se à milícia dos santos, àquela mul- tidão celestial de que nos fala o livro de Apocalipse.

"...Estes são os que vêm da grande tribulação, lavaram as suas vestiduras e as embran- queceram no sangue do cordei- ro. Por isso estão diante do trono de Deus"...

D. Frida, como todos a cha- mavam, fôra sempre uma ecle- siana modelar: piedosa e con- sagrada à Causa do Evangelho. Era uma dessas pessoas que irradiava simpatia e veneração!

Se sua falta foi bastante sen- tida entre seus dedicados pa- rentes também o foi no seio da Paróquia da Ascensão, onde grangeou um vasto círculo de amizade, graças à bondade de seu coração e à grandeza de sua alma.

O ritual de entêrro foi feito pelo Pároco e pelo Rev. Hen- rique Todt Junior, Secretário Geral da Diocese.

As palavras do Apóstolo Pau- lo cabiam bem nos lábios da veneranda irmã: "Tenho pele- jado a boa peleja, tenho aca- bado a carreira, tenho guarda- do a fé..."

Agradecemos a Deus pela vida abençoada e modelar des- sa valorosa irmã que partiu no Senhor, deixando-nos um imor- redor exemplo de consagração a Cristo e a Sua Igreja.


DEZEMBRO de 1952 7 ESTANDARTE CRISTÃO

Natal

R. Cunha de Mello

dia de Natal, para a Igreja, uma data litúrgica, em que se comemora, festiva- mente, o nascimento de nosso Salvador. No aconchego e recesso dos lares cristãos, entre- tanto, a comemoração dêsse evento deixou de ser, ém parte, eclesiástica, evolucionando para uma feição mais ampla, de molde social, es- sencialmente familiar.

Como a natividade de Nosso Senhor, ex- cluindo-se a concepção messiânica de que Ele era a "expectativa das nações", prende-se tam- bém à idéia do Deus-menino e a correspondente relação com todas as criancinhas, sua difusão nos lares foi tão intensa no decorrer dos sécu- los que a Epifania, a festa dos Reis Magos, por um fenômeno de associação todo especial, no que tange ao salutar costume de ofertar dádivas aos recém-nascidos, foi sendo feste- jada implicitamente com o magno acnotecimen- to de Belém de Judá.

Hoje o Natal é considerado a maior festa de toda a Cristandade.

E' o dia dos brindes, das gárrulas e estrí- dulas alegria da petizada, de doce confraterni- zação das pessoas adultas, de oração e medita- ção dos velhos e de paz para o mundo! Ε'ο Natal de nossos dias, o Natal que conhecemos e amamos no que concerne à sua origem histó- rica e divina e no significado de sua exteriori- zação pagā, mas que, em si, não é o vero Na- tal!

O verdadeiro Natal é aquêle que habita nos corações dos desamparados de tudo e de todos; é o que reside de bom no íntimo dos pecadores; é o que mora no âmago dos sofre- dores e o que vive, dia a dia, noite após noite, no pensamento dos miseráveis em sua inópia.

Para êsses não existe Papá Noel nem lumino- sas árvores lantejouladas de ouropéis e orna- mentadas de prendas. O que existe é a supre- ma consolação de que Jesus, o remidor de to- dos os pecadores e o mitigador de todos os ma- les, veio ao mundo únicamente para salvar os aflitos, dando-lhes o vivificante bálsamo de um coração perpètuamente em festa.

Almas em Prece

GEMIAM OS TUBOS COMPRIDOS E AS NOTAS GRAVES E AGUDAS SUBIAM COMO O INCENSO POR DENTRO DO ANTIGO TEMPLO. EU VIA COMO OS ACORDES AOS SANTOS ENTRISTECIAM. A LUZ FORRADA DE NEVE JUNTAVA TODAS AS PRECES AOS GEMIDOS DOS TUBOS COMPRIDOS. TIRADOS POR BRANCAS MÃOS. O PINHEIRO ORNAMENTADO A LEMBRANÇA DE COISAS DA GUERRA O SUSSURRO DOS LÁBIOS DE JOELHOS TRAZIAM AS TRISTES ALMAS ALMAS DOS POBRES HOMENS OS ROGOS DOS MORTOS TODOS: "PAZ NA TERRA"!

Flávio B. Pithan

MOVIMENTO LEIGO NO CANADÁ

O trabalho de ho- mens nas igrejas do Canadá Ocidental a- tingiu o ponto cul- minante quando 300 homens participaram da primeira conven- ção nacional de lei- gos, em Winnipeg, Canadá. Começando em Vancouver há 25 anos, o movimento de leigos no Canadá tem-se expandido para o leste; exis- tem agora muitas associações nas pro- víncias das planícies

e em algumas partes do Canadá Oriental. São objetivos prin- cipais da organiza- ção: promover ser- viço dentro da igre- ja local e para ela, e encorajar a prática do Cristianismo na vida cotidiana. «О fortalecimento do trabalho dos leigos pode fazer muito em prol da unidade na- cional», disse Ralph Young, de Toronto, secretário da «Uni- ted Church Men».


DEZEMBRO de 1952 8 ESTANDARTE CRISTÃO

Acharam o menino

P. D. Barcelos

Quando os Magos do Oriente, guiados por uma estrēla, encontraram a casa onde estava o recém-nascido Menino Jesus, diz-nos o texto sagrado que éles se ajoelha- ram e O adoraram, fazendo-lhe ofer. tas do que mais precioso tinham: curo, incenso e mirra.

Embora fosse hábito, já naqueles tempos, as festas natali- cias, todavia, não temos referências de que a data do Senhor tenha sido festejada depois, durante a sua es- tada no mundo, fato que não se pо- de, contudo, duvidar. Uma coisa, deduz-se certamente: é que o Sal- vador não veio a éste mundo ape- nas para estabelecer uma festa anual, que tanto podia ser a do seu Nascimento, como a da sua Morte, da Sua Ressureição ou da Ascensão.

Veio para salvar os ho- mens e importava que, desde então, fosse procurado através dos tem- pos, com o interesse dos Magos, e que, igualmente, fosse achado e ado- rado pelos homens, não apenas no seu dia natalício, mas, em todos os dias, em todos os lugares e em tô- das as horas.

Assim como a alegria dos Magos pôde misturar-se com o olhar meigo do Redentor-criança na- quela manhã gloriosa, cremos, mesma cena apoteótica continua a repetir-se hoje, tôda vez que uma alma cai de joêlhos diante do Sal- vador para adorá-lo em espírito e verdade, condição por Ele mesmo estabelecida, mais tarde, para ser seguida por sua Igreja, na terra.

Que o mundo tenha trans- formado aquêle instante histórico nos natais hodiernos, que os Hero- des o mandem procurar, simulando desejo de adorá-lo, que os mercená- rios vendeiros explorem o evento, mas que, em meio a isso tudo, al- mas sinceras procurem o REDEN- TOR, não talvez nos salões engri- naldados, mas na humildade da con- sagração a Deus, e, ali ajoelhados, O adorem como o Filho de Deus e Salvador, dando-lhe, a exemplo dos Magos, a generosidade de suas ofertas preciosas para a manuten- ção de sua Igreja, conjuntamente com o preito sincero da consagra- ção pessoal.

Assim, e só assim, o Na- tal será comemorado hoje à seme- lhança do berço de Belém, uma vez achado para jamais ser esquecido.

Firma-se a Igreja em Araranguá

Nova e florescente missão da Dio- cese do Brasil Meridional é a que se desenvolve em Araranguá, bela ci- dade do sul do Estado de Sta. Cata- rina.

Por determinação episcopal, nela fixou residência, em abril p. passa- do, o Rev. Artur R. Kratz, e que pô- de contar desde o começo, coma a mais decidida cooperação de um bravo pugilo de irmãos e simpati- zantes.

Alugado amplo e bem situado sa- lão, nele foi estabelecida a Capela de Cristo Redentor.

Dia 23 de novembro último, às 10 horas, com a presença de S. Excia. D. Athalicio Teodoro Pithan, Bispo da Diocese, foi inaugurada a nova capela, perante seleto e vultoso au- ditório.

Num gesto inequivoco de fraterni- dade cristã, luzida comitiva de ir- mãos da Capela da Páscoa, em Praia Grande, a cuja frente esta- ya, o Rev. Oliveiros Muniz dos Reis, "comparece u à expressiva cerimô- nia religiosa, tendo viajado, para tal fim, em ônibus especial.

No presbitério, além do Revmo. Bispo e do Rev. Artur R. Kratz, es- tavam o Rev. Oliveiros Muniz dos Reis e o Pastor Aquias Mendes, da Igreja Presbiteriana, em Cresciúma, e que, antes de encerrada a sole- nidade, proferiu eloqüentes palavras de saudação, evidenciando, mais uma vez, a sadia fraternidade que une o Evangelismo nacional.

Ao ato compareceu ainda um gru- po de membros da Assembléia de Deus, gesto que foi muito aprecia- do.

O sermão, que a todos empolgou, foi pregado pelo Revmo. Bispo, e que teve por texto as palavras re- gistadas em S. Lucas 17:5 «Disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé!»

Sábado, à noite, dia 23, a S. A. S. ofereceu na residência pastoral fino jantar ao Revmo. Bispo, extensivo ao Conselho Paroquial.

Pela vitória que acaba de alcançar, com a inauguração da Capela de Cristo Redentor, estão de parabens o Rev. Artur R. Kratz, seus coope- radores e a família evangélica de Araranguá.

O QUE SE DIZ DE UM MINISTRO

Como realmente deve êle proceder?

Se é muito vivo, dizem que é nervoso; se é calmo de- mais e reservado, apontam- no como fraco.

Se o seu cabelo fôr branco, êle é velho; mas se é moço, não tem experiência.

Quer êle introduzir novos métodos, logo é revolucio- nário; mas se conserva as tradições antigas, tem falta de iniciativa.

Se usa esboço durante a pregação, é seco e formalis- ta; se não o usa é orgulho- so e não sente responsabili- dade.

Se recorre a gestos ao pre- gar, é artista; mas se fica imóvel, parece ser um "са- valete de pau".

Variando êle a voz em dife- rentes alturas, dizem que es- tá gritando. Mas, se não varia a voz, é monótono.

Ficando êle em casa, traba- lhando, alega-se que devia visitar os membros da Igre- ja. Se, porém, alguém o en- contrar na rua, logo diz que seria melhor se ficasse em casa preparando suas prega- ções.

Quando êle visita os mem- bros, que não vêm à igre- ja, dizem os outros que é diplomata. Se êle visitar os pobres, é acusado de agitar os sentimentos. E, se vi- sitar os ricos, é aristocrata ou quem sabe até capitalis- ta...

Como deve, realmente, com- portar-se um ministro do Evangelho?


DEZEMBRO de 1952 9 ESTANDARTE CRISTÃO

Renovação

LUÍS ALVES ROLIM.

FESTA DO NATAL é sempre uma manifestação de vida, de alegria, de vibração das almas, de música celestial, de cânticos an- gélicos, de harmonia, de fé, de misticismo e espiritualismo cristão.

Na vida planetária, nas escuridades da existência tumultuária dos povos e das criaturas, o dia de Natal é um ponto luminoso de esperança e uma alvorada de luz que banha os corações num ocea- no de ternura, de beleza e de santidade. A comemoração do Nasci- mento de Jesus, o Mestre, no momento histórico de um mundo cheio de temores e apreensões, representa uma eloqüente afirmativa de re- novação espiritual do Cristianismo.

O Cristianismo representa o maior movimento renovador do mundo porque estabeleceu novos rumos religiosos, sociais e espiri- tuais à humanidade.

As grandes religiões são contemplativas, estáticas; sòmente a religião de Jesus tem o dinamis- mo construtivo e acompanha a evolução da sociedade. E' que Je- sus legislou para os séculos e pa- ra a eternidade. A religião de Je- sus trouxe à terra o fermento da felicidade humana.

O evangelho do Mestre excel- so consubstancía o compêndio ma- ravilhoso de uma cultura superior e de uma civilização elevada que enobrece a humanidade.

Quando tudo parece que vai perecer na voragem das convul- sões sociais, surge a figura do Re- dentor, soberana, e aplaca a tem- pestade, serenando o mar revôlto das paixões. De ressurreições fe- cundas, de renovações continuadas, de florescências benéficas tem si- do a marcha da civilização cristă.

A Igreja de Jesus nasceu, des- ceu e se implantou no coração dos homens, triunfando das trevas pa- ra o dia luminoso do esplendor de uma nova civilização.

A religião do Cristo eterno vem, através dos séculos, estabele- cendo novas concepções igualitárias, humanizando a vida moral e social da personalidade da criatura divina.

A história do Cristianismo é a história da renovação do mundo para a felicidade da família de Deus.

A Renascença, a Reforma, os Direitos do Homem — são con- quistas renovadoras do espírito cristão. O banimento da escravi- dão e dos preconceitos raciais constituem influências renovadoras do Cristianismo. Somente o espírito do Evangelho tem a fôrça in- tegral da renovação moral e espiritual do mundo. A ordem do Mestre: "Ide e pregai o Evangelho", repercute em cada século im- plantando a cruz salvadora no coração das selvas e no centro das metrópoles. O mundo moderno com o acervo de uma civilização cheia de esplendores não pode prescindir de Jesus. Tôda a ciência, tôda a filosofia do século, todo o pensamento elevado e renovador do mundo tem a grande inspiração do Evangelho. Os reformado- res sociais, os economistas, sociólogos, todos se inspiram e se ilu- minam na fonte cristalina do Cristianismo.

E o Natal constit

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