Breve História da Liturgia Anglicana (de 1549 a 1995)
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Breve História da Liturgia Anglicana
(de 1549 a 1995)
Dom Sumio Takatsu *
Há algumas considerações preliminares que não devem ser ignoradas antes de tratarmos da história da liturgia anglicana: a consideração da liturgia anglicana é a consideração de nós mesmos. Trata-se de quem somos numa dimensão mais ampla no espaço e no tempo.
A primeira resposta é que somos um segmento do povo de Deus. Não nos consideramos “o” povo único de Deus. Deus revelado em Jesus Cristo no poder do Espírito Santo tem o seu povo e somos um segmento desse povo espalhado pelo mundo de Deus. Esse povo que somos se identifica pela sua história, pela sua mensagem, fé, esperança e organização em relação ao mundo.
Na dimensão histórica, somos segmento daquele povo que surgiu como o povo da nova Criação e novo Israel, em continuidade com o povo do Antigo Testamento, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo. Este povo, a Igreja, foi às ilhas britânicas. Na época da Reforma, adotou seus princípios básicos, sem abandonar o senso da continuidade. Tanto assim que a Comunhão que se denomina de anglicana tem afirmado que ela é católica reformada e reformada católica.
No que tange à sua mensagem e liturgia, ela tem se referido ao Livro de Oração Comum. Com efeito, é no Livro de Oração Comum que se encontra o padrão de ensino, de mensagem, de culto, de organização e disciplina. A liturgia abarca todas essas dimensões da Igreja. A própria palavra liturgia indica a presença desses elementos, pois “liturgia” significa a ação do povo. Na verdade, na liturgia o povo se reúne para a ação, a qual consistem na celebração dos atos de Deus para a salvação da humanidade. O nascimento da Igreja está estreitamente ligado com essa salvação. E a liturgia compreende a mensagem básica: o Evangelho. Ela é uma maneira anglicana de ler e expor as Escrituras. Também ela compreende o ensino e a organização da Igreja e sua disciplina. Quanto ao ensino, podem-se enumerar os Credos e catecismo. O
- Bispo da IEAB e membro da equipe de assessores teológicos do CEA. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 1
ensino da Igreja inspirado nas Escrituras sobre o batismo, matrimônio, morte, doença, etc., estão nos Ritos.
É claro que o Livro de Oração Comum não contém uma história da Igreja, nem as disciplinas específicas. Mas o LOC compreende a história do anglicanismo, resumidamente no prefácio. As rubricas falam da organização da Igreja. A leitura das Escrituras em relação ao contexto em que a igreja vive, convida à reflexão crítica. Do mesmo modo, a interpretação do Evangelho e as intercessões pelo mundo levam a Igreja a refletir sobre sua mensagem, seu relacionamento com Deus e com o mundo.
No século XVI, a Igreja da Inglaterra passou por uma reforma e essa reforma nos legou o Livro de Oração Comum de 1549. A reforma da Liturgia foi a reforma da Igreja. Os reformadores da igreja da Inglaterra adotaram o princípio de que a Igreja é o povo de Deus com três ordens de pessoas chamadas e ordenadas para servir à Igreja e ao mundo: bispos, presbíteros e diáconos. Por isso, eles visaram a participação de todos - clérigos e leigos - na atividade básica da Igreja por meio da reforma da Liturgia. Esse povo deve viver do ensino inspirado pelas Escrituras e livres de deturpações religiosas. Que fizeram, então, para que a Igreja toda viesse a ser participante na liturgia?
Havia muitos empecilhos na prática da Igreja. Por isso, conforme o prefácio do primeiro Livro de Oração Comum, da autoria de Thomas Cranmer, era preciso orientar a reforma da Igreja com três princípios básicos. Estes eram: a) supressão das coisas consideradas modificações viciadas e excessos medievais das tradições litúrgicas antigas; b) promoção da leitura das Escrituras sagradas no vernáculo; c) Colocar nas mãos do povo, de modo acessível, todos os ritos da Igreja num só livro.
Havia muitos livros feitos em função dos que lideravam o culto. O povo que assistia às celebrações litúrgicas não tinha acesso a tais livros. Aqui um breve panorama do desenvolvimento litúrgico nos mostra a necessidade de reforma que os reformadores enfrentaram. E o surgimento de um livro único e comunitário nos mostra o tipo de reforma adotada. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 2
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Na Igreja Primitiva havia um só livro, a Bíblia. As orações eram livremente elaboradas em nível local, embora houvesse um padrão de pensamento e aspirações e esse padrão estivesse presente nas orações.
Não havia, também, um hinário oficial, senão o Saltério. No início do século III começaram a aparecer manuais breves conhecidos como “Ofícios da Igreja", que proporcionaram orientações e formas sugeridas de orações para as assembléias litúrgicas. O exemplo mais notável desses manuais é a Tradição Apostólica de Hipólito (cerca de 200 A.D). A partir do século IV, com o fim da perseguição e oficialização da Igreja, os textos litúrgicos em uso nas grandes sés vieram a ser gradualmente oficializados. Essas formas litúrgicas tornaram-se fixas em sua estrutura essencial por volta do século VI. Na Idade Média foram acrescentadas modificações nos seus pormenores. Com tantos acréscimos e orientações pormenorizadas, foi preciso reunir num só livro chamado “Sacramentário", tudo que um celebrante (presbítero ou bispo) deveria orar. Já os cantores tinham de ser munidos com antifonários, responsórios, graduais, saltérios e hinos. Os leitores, por sua vez, tinham á sua disposição os lecionários, epistolários e evangeliários. Para o bom andamento das cerimônias era preciso ter ordinário ou diretório.
Também, por volta do século IX, os párocos sem assistentes e os monges viajantes sentiram a necessidade de agrupar tudo isso. Assim, tudo que era necessário para a celebração da eucaristia foi agrupado num Missal e os ofícios diários (as Horas) em Breviários em três ou quatro volumes. Outros ofícios ocasionais foram agrupados num Ritual, e os ofícios reservados aos bispos num Pontifical.
Diante dessa situação, Thomas Cranmer e outros viam-se numa situação em que a reforma litúrgica era necessária. Coube a Cranmer a tarefa da elaboração de um Livro Comum. ele simplificou as liturgias e ofícios existentes e os reuniu num só livro em inglês e não mais em latim. Para tanto, seguiu o princípio da Reforma protestante e procurou o modelo da Igreja Primitiva disponível no seu tempo. O Arcebispo colocou nas mãos de todo o povo da Igreja, clérigos e leigos, o mesmo e um só livro. É isso que é traduzido pela palavra Comum, ou comunitária, do Livro de Oração Comum. A oração é de todos. Isto não significa que todos na igreja exerçam as mesmas funções. Há autorizações para assumir funções oficiais.
Por outro lado, a Igreja da Inglaterra não desejou voltar à época em que, na Igreja, havia um só livro, a Bíblia do Antigo Testamento. Ela aceitou certo desenvolvimento da história da Igreja e de sua liturgia. Para tanto, olhou para Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 3
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a Igreja dos primeiros séculos conforme os recursos disponíveis em sua época e não deixou de acolher as experiência da reforma no continente europeu.
A reforma teve seus passos. Alguns eventos políticos e culturais favoreceram a sua aceleração. Por exemplo, a busca de documentos originais, a aplicação de princípios críticos, especialmente a filologia na leitura dos documentos, incentivou a nova tradução da Bíblia. A tradução do Novo Testamento por William Tyndale em 1524 teve papel importante, porém não sem risco de vida. Quando essa versão foi impressa na Alemanha, o rei Henrique VIII e o Cardeal Wolsey tentaram tirar-lhe a vida. Tyndale se refugiu na Europa continental, mas em 1536 foi executado. Porém, após um ano de sua morte, a versão em inglês traduzida por esse mártir apareceu nas leituras das Epístolas e Evangelho na diocese de York, na Inglaterra.
Antes de Tyndale, John Wycliff também havia empreendido uma tradução da Bíblia para o inglês. Pela primeira vez, este precursor da reforma trouxe ao mundo inglês a Bíblia completa (1832). Até então, havia apenas a tradução do Saltério e do Decálogo feita pelo bispo Egberto, a pedido do Rei Alfredo (848-901) e dos Evangelhos (feita pelo Venerável Beda, em 735).
Como todos esses homens, Tyndale começou sua tradução com o propósito de educar o povo da Igreja e iniciar alguma reforma na Igreja. Ele foi capelão de uma família e ali percebeu a necessidade da versão da Bíblia na língua do povo. O latim não era a língua do povo. Para fazer sua tradução, ele recorreu ao método de comparação das versões disponíveis. Conhecia sete língua e sua tradução foi excelente, tanto que oitenta por cento de sua obra está na versão do Rei Tiago (King James Version, de 1611). Este pequeno esboço histórico nos mostra o desejo por parte de alguns segmentos da Igreja no período da pré-reforma, de colocar as partes mais usadas da liturgia na linguagem do povo.
Entre Wycliff, Tyndale e a King James Version, surgiu um instrumento poderoso na difusão das traduções: a imprensa.
Além desses fatores, o espírito renascentista estava soprando não só no continente europeu, mas também na Inglaterra. A restauração da antigüidade greco-romana, a busca dos documentos originais e os estudos filológicos estavam em voga nos grandes centros culturais da época.
O espírito de independência nacional também favoreceu o movimento da reforma na Igreja. O nacionalismo de então era uma tentativa de se libertar do Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 4
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poder papal que fazia nomeações a partir do Vaticano e interferia nos Estados e nas políticas nacionais.
Entre a publicação da Bíblia de Tyndale (1535) até a publicação do 1o. Livro de Oração Comum, houve pequenos acontecimentos que abriram o caminho para o uso do vernáculo na liturgia. Em 1538, Thomas Cromwell, vice-gerente do rei, favoreceu a leitura das Epístolas e dos Evangelhos em inglês sem alarde. No ano seguinte, a coroa publicou a Grande Bíblia baseada na versão de Tyndale e de Miles Coverdale. Mas a coroa não sabia que essa versão se baseava em grande parte no trabalho de Tyndale. É uma das ironias históricas.
Em 1544, o imperador Carlos V fez a intermediação entre a Inglaterra e a França para chegar ao fim das hostilidades. Isso levou Henrique VIII a fazer a grande procissão com litania. As epístolas e os evangelhos em inglês, somados à litania no vernáculo, vieram fortalecer o uso do inglês na liturgia. Esse mesmo incidente político abriu as portas para que muitos ilustres teólogos protestantes buscassem refúgio na Inglaterra.
O Livro de Oração Comum de 1549
O título completo é O Livro de Oração Comum e ministração dos Sacramentos, outros ritos e Cerimônias da Igreja conforme o uso da Igreja da Inglaterra. O contexto histórico em que se aprovou o 1º LOC foi a morte do rei Henrique VIII e ascensão de Eduardo VI em 1547. Por isso esse livro é conhecido também como “Livro eduardiano".
A liturgia da Oração Matutina e Vespertina começava com a Oração Dominical (Pai Nosso) e versículos. A primeira leitura na Oração Matutina era seguida por Te Deum ou Benedictus Omnia opera. Este cântico é composto de muitas partes da Bíblia, principalmente dos Salmos. A segunda leitura era seguida por Benedictus. Mas na Oração Vespertina, o Magnificat e o Nunc Dimittis substituíam os dois cânticos acima mencionados. O Credo apostólico constava apenas na rubrica. O Credo Atanasiano era recitado no Natal, Epifania, Páscoa, Ascensão, Pentecostes e Trindade.
Essas duas orações foram extraídas dos Breviários medievais e compactadas. Os Breviários continham as sete horas canônicas. Essas horas têm, em parte, inspiração bíblica e a influência romana da divisão do tempo: prima, tertia, sexta e nona (diurno) e quatro vigílias noturnas. A liturgia das Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 5
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horas consistia basicamente na leitura dos Salmos e de trechos bíblicos. O que Thomas Cranmer e sua comissão fizeram consistiu em estender a leitura da Bíblia como um todo para todo o povo. E fizeram essa reforma com base nos Pais da Igreja.
Nas leituras das orações diárias, Cranmer adotou um lecionário baseado no ano civil. A cada quatro meses era lido todo o Novo Testamento, com exceção do Apocalipse. Durante todo o ano o Antigo Testamento era lido, com determinadas exceções.
O título da Eucaristia era A Ceia do Senhor ou Santa Comunhão, habitualmente denominada de Missa. Na época os títulos eram longos. A expressão “Ceia do Senhor” aponta para uma das fontes que inspiraram o Livro de Oração Comum de 1549: a Ordem da Eucaristia, do Arcebispo luterano de Colônia, Hermann. Por outro lado, Cranmer também fez uso do Rito de Salisbury (Sarum). Para o lecionário da Eucaristia foram designados os próprios para os domingos, as Festas de Nosso Senhor Jesus Cristo, as festas dos evangelistas e apóstolos, Santo Estevão, Santos Inocentes, Santa Maria Madalena, São Miguel e todos os anjos e Todos os Santos. A ordem (ritual) constava dos seguintes itens:
Oração Dominical (Pai Nosso) Coleta pela Pureza Intróito - Salmo Kyrie Eleison Gloria in Excelsis Coleta do dia Orações pelo Rei Epístola Evangelho Credo Niceno Sermão ou exortação Ofertório Sursum Corda (“Elevai os corações... ao Senhor os elevamos") Sanctus Cânon (começava com a oração por toda a Igreja de Cristo, terminando com Pai Nosso) Saudação da Paz Convite (“Vós que verdadeiramente...) Confissão Geral Absolvição Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 6
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Comunhão Pós-Comunhão Paz de Deus
A invocação do Espírito Santo (epíclese), que não existia no Cânon Medieval, foi incluída na Oração Eucarística. Foi acrescentada à epíclese a expressão “com teu Espírito Santo e com tua Palavra”. Na Idade Média, no Ocidente, as palavras do Senhor “este é o meu Corpo...” foram ressaltadas. No Oriente, a invocação do Espírito Santo recebeu destaque. Cranmer e seus colegas fizeram uma tentativa de sintetizar as tradições orientais e ocidentais de "dispersar” os momentos de consagração. A piedade eucarística centrada na elevação da hóstia, que começou no século XIII foi deslocada para a piedade da recepção da comunhão. O conceito de sacrifício foi reformado no sentido de ressaltar o “uma vez para sempre, um inteiro, perfeito e suficiente sacrifício, oblação e satisfação pelos pecados do mundo” e “nos mandou continuar a perpétua memória de sua preciosa morte e sacrifício até a sua segunda vinda"... "aqui oferecemos e apresentamos a ti, ó Senhor, nossos corpos e almas em sacrifício racional, vivo e santo...", “... recebamos dignamente o preciosíssimo corpo e sangue de Cristo”, “...feitos um só corpo com Ele, para que Ele habite em nós e nós nele”. Aqui está a teologia eucarística anglicana clássica. Nas rubricas, a orientação era de ministrar a comunhão nas duas espécies. Ainda no que se refere à epíclese, é interessante observar que o Rito de Sarum começava com o Veni Creator Spiritus. Só que essa invocação constava na preparação do celebrante e não de todo o povo.
Quanto ao Batismo, a ênfase do aspecto público e comunitário foi destacada no prefácio do Rito Batismal. Em parte, o rito foi influenciado pela Igreja alemã. O uso do sinal da Cruz no Batismo advogado por São Tomás de Aquino foi incluído.. A ênfase do batismo infantil veio da Alemanha. A exortação (uma espécie de introdução) baseava-se em João 3 (batismo e novo nascimento como dons do Espírito Santo pelo qual somos feitos herdeiros do Reino de Deus e incorporados no corpo místico de Cristo.
A Confirmação seguiu o padrão dos Irmãos Boêmios, da Igreja alemã e suíça, relacionando a catequese com a confirmação dos votos batismais. A cerimônia da unção passou para a imposição das mãos. Em relação ao rito medieval e continental, a confirmação ficou centrada muito mais no bispo. Hoje, em muitos lugares do mundo anglicano, o contato de cada eclesiano (a) com seu bispo se dá quase que exclusivamente na Confirmação. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 7
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O Rito de Casamento teve como suas fontes os ritos de York, Sarum e do Arcebispo Hermann. Foi elaborado para ser realizado na Eucaristia pública.
A visita dos enfermos, Unção e Comunhão dos enfermos avançou em relação ao Rito de Sarum. O foco foi deslocado dos moribundos para os enfermos, visando a saúde. Foi permitida a reserva do sacramento para a comunhão dos enfermos.
Há muitos outros aspectos desse Livro, mas esses que apontamos bastam para o momento. É importante salientar que esse Livro não teve recepção total. Foi rejeitado pelos tradicionalistas e também por alguns reformadores mais ligados ao continente europeu.
2º Livro de Oração Comum (1552)
O segundo LOC surgiu para satisfazer os mais conservadores de linha medieval e os mais avançados no movimento da reforma. No que tange à inclinação medieval, destaca-se a leitura da Epístola por um presbítero ea posição ajoelhada para a recepção da comunhão. Houve também a inclusão de Dias Santos (em negrito, não em vermelho).
Foi incluída a resposta ao Decálogo (“Senhor, tem misericórdia de nós e inclina os nossos corações a guardar esta lei”) e excluído o Qui Venit (“Bendito Aquele que vem em nome do Senhor”). Na Oração Eucarística, a oblação e epíclese foram excluídas. Assim, logo após a narrativa da Instituição foi colocada a Oração de Humilde Acesso (“Não ousamos vir à tua mesa, ó boníssimo Senhor, confiados em nossa própria retidão...)
No Ofício de Visita aos Enfermos foi omitido o dispositivo para unção e comunhão com os elementos reservados. No Ofício de Sepultamento, a oração por aqueles que partiram foi reduzida. Não houve prescrição para a celebração da Eucaristia no sepultamento.
O Gloria in Excelsis foi deslocado para o fim do ofício e a teologia eucarística tendeu mais para o lado de Zwínglio, reduzindo a Eucaristia à memória.
Esse livro esteve em uso por pouco tempo, menos de um ano. Com a morte de Eduardo VI, Maria se tornou a rainha e restaurou o Rito de Sarum. Porém, em 1559, Elizabeth I restaurou o Livro de 1552 com algumas revisões. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 8
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Nesse período, o LOC deu ênfase à edificação da Igreja no saber e na estética e procurou caminhar entre dois extremos: o conservadorismo medieval e a renovação puritana; entre os papistas e os protestantes de Genebra.
A música foi incentivada. Thomas Tallis compôs muitos hinos litúrgicos. Foram introduzidas Antífonas entre as leituras. O Credo, o Decálogo e a Oração Dominical substituíram alguns ícones. Foi a época de Shakespeare na literatura inglesa e de Richard Hooker na Igreja.
Após a morte de Elizabeth I em 1603 houve outra revisão (1604). Esse livro manteve a Rubrica sobre a ornamentação, isto é, a prescrição das vestes e ornamentos litúrgicos e recebeu ataque dos puritanos devido ao uso da sobrepeliz. A polêmica girou não apenas em torno dos ornamentos, mas também dos gestos litúrgicos (genuflexões, curvaturas e o sinal da cruz no batismo).
Uma revisão foi feita na Escócia em 1637. Foi um excelente livro. Muito do primeiro livro foi restaurado. na Santa Comunhão, a epíclese foi restaurada após o memorial e a oblação, seguindo a posição oriental antioquena. Mas sua recepção também não foi fácil. Na verdade, não houve participação da Igreja na sua elaboração. Porém, o significado da contribuição desse livro veio à Comunhão Anglicana por meio da revisão americana, que representou seu primeiro livro, em 1789.
O Livro de Oração Comum revisado em 1662
De 1643 a 1660 houve a guerra civil e abolição da monarquia e do episcopado na Inglaterra. Foi a época do Parlamento dominado por Oliver Cromwel e o puritanismo. A ditadura de Cromwell levou posteriormente à restauração da monarquia e do episcopado. A partir daí houve a reintrodução do Livro de Oração Comum e a sexta revisão (1662), uma espécie de “via-média", em que se frustraram as expectativas da Igreja Alta e do presbiterianismo.
Entre várias alterações e adendos, alguns merecem destaque. Na litania, a súplica pelos “bispos, pastores e ministros" foi substituída por “bispos, presbíteros e diáconos”. A absolvição é pronunciada por um “presbítero” e não por um “ministro”. A substituição da litania por uma oração só e longa, que era o desejo dos puritanos, foi rejeitada. Esses também não aprovaram o responso nas litanias. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 9
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Na Eucaristia, à “Oração pela Igreja Militante” foi acrescentada a comemoração dos fiéis que partiram. A rubrica, no LOC de 1552, que explicava o sentido de não se ajoelhar na recepção da comunhão para assegurar que não se adora a presença corporal do corpo natural de carne e sangue de Cristo permaneceu, para excluir a doutrina da transubstanciação. Isto não impedia ninguém de ajoelhar-se, pois o objetivo da rubrica era apenas combater essa doutrina.
O termo “congregação” foi substituído por “Igreja”. Tudo isso nos mostra a restauração e uma Igreja que foi banida sob o poder de Oliver Cromwell e dos puritanos. Foi em 1662 que a lei canônica foi estabelecida no sentido de que nenhum ministro poderia celebrar na Igreja da Inglaterra sem a ordenação episcopal. Até então, os ministros ordenados presbiteralmente no continente europeu podiam celebrar sem uma reordenação. Em conseqüência dessa lei, 1760 ministros e 149 clérigos da Igreja que não se conformaram com ela perderam seus postos. Esses ministros tinham liderança sobre um considerável número de pessoas.
Na avaliação de Jaspers¹, essa lei de 1662 foi uma opção mais pela uniformidade do que pela inclusividade. Até 1689, quando foi promulgada a Carta de Tolerância, os dissidentes não puderam organizar suas igrejas. Entre eles havia muitos eruditos e sua saída foi uma perda para a Igreja da Inglaterra.
Por outro lado, alguns bispos trabalharam pela inclusão dos dissidentes. Cumpriram a lei com a reordenação, mas tentaram não ofender a consciência deles. Um levantamento sobre esse período mostra também, que a situação dos dissidentes foi melhor do que a dos dissidentes sob o poder dos puritanos.
Houve também, dissidências não por questões doutrinárias no sentido estrito, mas por questões da interpretação do Direito Divino dos Reis. Quando o rei Tiago II foi destronado e William e Mary foram coroados após a assinatura da Tolerância o Arcebispo Sancroft de Cantuária, e outros não puderam por razões de consciência, jurar fidelidade a outro monarca enquanto vivesse aquele a quem juraram fidelidade anteriormente. Eles formaram o grupo que se denominou de “non-jurors” ou “jacobitas” (por sua fidelidade a Tiago II). Um deles, bispo de Manchester, trabalhou como relojoeiro e cuidou de uma pequena paróquia de trinta membros. Eles tiveram ligação com o episcopado escocês. Entre eles havia muitos eruditos em liturgia e sua JASPER, R.C.D. The Development of the Anglican Liturgy 1662-1980. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 10
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contribuição não pode ser ignorada. Os “non-jurors” voltaram suas atenções para a liturgia oriental, especialmente da família antioquena. A estrutura atual da Oração Eucarística (louvor - ação de graças que culmina na narrativa da instituição seguida de memorial, oblação e epíclese) se deve a eles. Esse padrão chegou a nós no Brasil por meio da Igreja dos Estados Unidos.
No âmbito da Igreja da Inglaterra, no século XVIII, a influência da liturgia dos “non-jurors” se fez sentir em John Wesley. Conta que ele recebeu influência desse grupo e de teólogos como Jeremy Taylor e Lancelot Andrews, por parte do pai, da mãe e dos puritanos.
A revisão americana de 1789
A independência dos Estados Unidos em 4 de julho de 1776 levou a igreja americana a proceder a revisão do seu livro, pois, entre outras coisas, não podiam mais orar pelo rei, visto que adotaram o sistema presidencial. A Igreja também teve de adotar outro nome, que a distinguisse da Igreja Católica Romana mas que, ao mesmo tempo, afirmasse o sistema episcopal de governo. Assim, surgiu a primeira Província fora das Ilhas britânicas, com o nome de Igreja Episcopal Protestante.
A revisão de 1789 passou por um processo conciliatório de treze anos. Primeiro, a diocese de Connecticut elegeu o bispo Samuel Seabury e o enviou à Inglaterra para sua sagração. Por questões da relação Igreja-Estado, Seabury não foi sagrado lá. Sua sagração foi feita pelos bispos “non-jurors" da Escócia, e Seabury voltou à América com o LOC escocês. Enquanto isso, as dioceses do sul de Connecticut elaboraram um livro baseado na versão de 1662, porém adaptado à situação americana. Houve quem não aceitasse o livro porque não foi aprovado por um sínodo.
Na Convenção Geral de 1789, se reuniram como representante paroquiais, gente de posições diferentes na Revolução, como o primeiro presidente do Congresso, John Jay, e o líder da revolução, John Page. Do outro lado, o próprio Seabury, que era partidário do rei, juntamente com outros da mesma opinião. Após muitos debates, os estudiosos da época mostraram aos sinodais a importância da linha escocesa-oriental na Oração Eucarística. Assim, a revisão do Livro foi feita de acordo com esse padrão litúrgico. Foi esse o primeiro livro usado aqui na Igreja Episcopal do Brasil, até 1928. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 11
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Alguns traços da revisão de 1928
Conta que a Convenção Geral de 1892 estava convicta de que o Livro de Oração Comum daquela época duraria por muitos séculos. Porém, em 1903, começou-se a ensaiar uma nova era de mobilidade com a indústria automobilística e aeronáutica. Assim, em 1913, houve a proposta da diocese da Califórnia para se estabelecer uma comissão que estudasse a revisão do Livro. Com a mudança do cenário mundial, a eclosão de conflitos entre as nações e a primeira Guerra Mundial, a atenção do povo norte-americano e da igreja foi transferida da Igreja para o cenário político. Isso atrasou o trabalho da comissão. Houve até considerável esforço de alguns para adiar a revisão. Mas também houve movimentos no sentido de ampliar o escopo da revisão, incluindo as questões sociais e políticas, até então não consideradas no Livro de Oração Comum. A revisão foi demorada, pois a comissão teve que levar em consideração as preocupações de várias tendências na Igreja e o contexto em que a Igreja vivia. A revisão foi concluída em 1928.
Houve mudanças no lecionário. Nas Orações diárias (Matutina e Vespertina) entrou uma nova rubrica, tornando opcional a Confissão e Absolvição. Uma revisão mais adequada foi feita na oração pelo Presidente da República, no sentido de ressaltar sua responsabilidade num mundo em transição. Essa oração também passou a ser opcional.
As orações após a terceira coleta (do dia, pela paz e pela graça) perderam sua verbosidade e ganharam uma dimensão mais ampla em tópicos. Quanto às Coletas, Epístolas e Evangelho, houve aditamento de próprios para o Casamento e Sepultamento, Dia de um Santo e Dia da Independência.
Na Santa Comunhão, os Dez Mandamentos deviam ser lidos uma vez por mês. A Intercessão pela Igreja Militante, foi alterada por “Toda a Igreja", e incluída uma cláusula sobre o contínuo crescimento daqueles que já partiram. A "Mesa” foi alterada para “Santa Mesa”. A Oração Dominical foi acrescentada à Oração Eucarística.
No que diz respeito ao Batismo, os três ritos de 1662 foram substituídos por um só rito, dando maior ênfase na ressurreição e suas implicações e menor ênfase no pecado original. Leituras alternativas do Evangelho e bênção alternativa também foram acrescentadas. Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 12
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No Santo Matrimônio, a igualdade entre o homem e a mulher foi estabelecida no sentido de excluir dos votos matrimonias por parte da noiva, a promessa de “obedecer ao marido”. Foi acrescentada a bênção das alianças ea oração pela descendência do casal, se for do agrado de Deus, e pela educação dos filhos. Na bênção nupcial foi incluída uma cláusula "que se amem, honrem e cuidem mutuamente".
Foi elaborado um novo Rito de visita aos enfermos, com a opção de usar o óleo e a imposição das mãos. Também foi acrescentada a oração por aqueles que estavam prestes a expirar.
A Conferência de Lambeth de 1920 havia estabelecido (Resoluções 36 e 37) que, para a unidade da Comunhão Anglicana, não é necessária a uniformidade litúrgica e que cada bispo diocesano tem o jus liturgicum, respeitadas as autoridades superiores do Sínodo Geral de cada Província. A Igreja da Inglaterra levou ao Sínodo Geral uma proposta de revisão em 1928, que foi aprovada, mas derrubada pelo Parlamento.
Além disso, às vésperas da Conferência de Lambeth de 1920, estavam ocorrendo reformas litúrgicas no terceiro mundo, principalmente na Índia e África do Sul. Um dos signatários do “Apelo à Unidade Cristã”, manifesto do ecumenismo de Lambeth-1920 foi, também um dos elaboradores da nova liturgia na Índia e um dos organizadores da Igreja do Sul da Índia, bispo Palmer, de Bombaim.
A revisão de 1976
Entre 1928 e 1976, o mundo passou por muitas mudanças. No mundo externo, a chegado do homem à lua e a comunicação via-satélite vieram a ser marcos dessas alterações. Internamente, nas Igrejas, os movimentos litúrgico, bíblico e ecumênico alargaram os horizontes em relação ao passado, em termos de pesquisa, e para o futuro, em termos de missão. Em conseqüência disso, aumentou a participação leiga na Igreja.
Em 1964, a Convenção Geral constituiu uma Comissão de Revisão, atendendo a crescente desejo da Igreja de revisar seu Livro de Oração Comum. Em 1967, o relatório da Comissão ressaltou pontos que não podemos ignorar: “O Livro vigente não atende às necessidades pastorais e espirituais da atual geração... as rubricas do Livro de 1928 são inconsistentes e necessitam reformas... o desejo crescente de recorrer ás novas traduções da Bíblia... os Revista Inclusividade 6 (Ano II – Novembro 2003) pp. 35-57 13
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estudos nas áreas da Bíblia e da Liturgia em muitas igrejas, alargaram e aprofundaram o conhecimento sobre os princípios e o significado da adoração”.
O mesmo relatório salientou que a revisão do Livro de Oração Comum é um processo difícil e delicado, exige profundidade espiritual, equilíbrio teológico, beleza literária e praticabilidade pastoral, e requer o melhor conhecimento, talento e experiência disponíveis na Igreja.
Foram nomeados cerca de 300 assessores para auxiliar a Comissão permanente, e diversas sub-comissões para as tarefas específicas. Para essa reforma litúrgica foram levados em consideração as pesquisas de Gregore Dix (The Shape of the Liturgy, 1945), ο Relatório de Lambeth 1958 e as obras de liturgistas da época. Conforme Dix, o ordo, o padrão da Liturgia Eucarística consistia de Ofertório, Ação de Graças, Fração do Pão e Comunhão. Assim, a Fração voltou a ser parte da ação e oração eucarística. Não se parte o pão quando se diz “Jesus partiu o