Carta Pastoral do Bispo Primaz - Tempos Difíceis

Versão Integral em Texto

Carta Pastoral do Bispo Primaz - Tempos Difíceis

Dom Orlando Santos de Oliveira2003

Carta Pastoral do Bispo Primaz - Tempos Difíceis

Tempos Difíceis

Vivemos um momento muito delicado na Comunhão Anglicana. Todos tomamos conhecimento, infelizmente em muitos casos de forma distorcida e maldosa, através dos meios de comunicação, da decisão da Convenção-Geral da Igreja dos Estados Unidos, de confirmar a eleição feita pela diocese de New Hampshire, do Rev. Gene Robinson, homossexual não celibatário, como seu bispo coadjutor.

Diante deste fato fala-se muito em Autonomia, aqui no Brasil e noutras partes da Igreja. Mas como bem disse o Arcebispo George Carey, "Autonomia significa igrejas separadas". Como Comunhão Anglicana somos interdependentes. E cada vez mais nos parece que ainda não atingimos a plenitude do que significa ser uma comunhão. Províncias que reconhecem umas às outras como parte da Igreja Una de Cristo. Isto nos leva a refletir que qualquer decisão que irá afetar todo o corpo, conforme recomendou Lambeth, seja considerada e partilhada para avaliação das conseqüências. Isto jamais significou um convite à uniformidade, mas sim ao fortalecimento da unidade, mesmo respeitando o direito de cada província tomar as suas decisões em resposta ao seu contexto cultural, social, político e também desafios, sejam doutrinais, normativos, éticos e pastorais.

O que nos preocupa, mesmo compreendendo o abalo da decisão sobre a Igreja, é que o debate de ambos os lados tem usado a Bíblia, em alguns casos, sem levar em conta a Razão, a Tradição e a Experiência, que são marcas de nossa visão da Escritura. Não esqueçamos que no passado, a Igreja cristã, justificou, usando a Bíblia, a escravidão, a queima de "hereges" durante a Inquisição, o racismo, a não ordenação feminina. Não deixemos que esta questão, tão séria e tão delicada que nos atinge, nos faça usar de forma tão questionável a Palavra de Deus.

Como Província do Brasil não nos cabe aprovar ou desaprovar a decisão da Igreja dos Estados Unidos, mas mesmo concordando ou discordando, respeitar as manifestações sérias e dignas, favoráveis ou desfavoráveis, porque elas certamente concorrerão para aprofundamento do tema. O que não podemos aceitar na IEAB são as manifestações que visam alimentar o espírito de divisão, de separatismo, de quebra da comunhão e de confusão. A Câmara dos Bispos em 1997, em sua carta pastoral afirmou: "que a sexualidade é um Dom de Deus e que as relações sexuais, exercidas no contexto do amor e do respeito mútuo, não só devem ser aceitas, mas também consideradas como coisas boas que Deus criou. Por outro lado, a promiscuidade sexual entre pessoas do mesmo gênero ou gêneros diferentes deve ser combatida, por ser contrária ao ensino das Escrituras.... Entretanto a Igreja deve receber com amor pessoas de qualquer raça, cultura, classe social e orientação sexual.... A Bíblia em alguns textos condena explicitamente o relacionamento homossexual, embora em sua maioria, seus textos condenem a promiscuidade, a orgia ou o deboche. Entretanto, devemos entender a Bíblia não como um ditado de Deus, mas sim a Revelação de Deus carregada pela interpretação de seus autores que trazem nela influências de sua cultura e época (viviam eles numa sociedade patriarcal e machista)".

Conclamamos a IEAB, neste tempo de dificuldade, a estar em oração, meditação, reflexão séria e madura sobre o tema e sobre o significado desta decisão em nossa vida pessoal e comunitária. E que toda a manifestação pública, em meio às discordâncias, sempre levem em consideração a "necessidade da cortesia, da tolerância, respeito mútuo e oração uns pelos outros". Que a Igreja não exclua de seu acolhimento e cuidado pastoral, aquelas pessoas que a sociedade rejeita e aborta. Que não abriguemos dentro de nossa comunidades e de nossas idéias uma posição que afirme "eu não preciso de você" ( 1 Cor 12. 21). Que o Espírito Santo de Deus nos conceda uma compreensão justa de todos as coisas, e de que precisamos uns dos outros, em todas as situações.

Do vosso Primaz,

  • Dom Orlando Santos de Oliveira

Publicado na Edição 1779 (Julho-Agosto de 2003) do Estandarte Cristão Departamento de Comunicação da Igreja Epíscopal Anglicana do Brasil Caixa Postal 11.510 - Teresópolis - 90870-970 - PORTO ALEGRE - RS FONE/FAX: (51) 3318.6200 - e-mail: comunicacao@ieab.org.br www.ieab.org.br

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