Carta Pastoral – Sínodo 2006

Versão Integral em Texto

Carta Pastoral – Sínodo 2006

Dom Orlando Santos de Oliveira – PrimazDom Jubal Pereira NevesDom Celso Franco de OliveiraDom Hiroshi ItoDom Filadelfo de Oliveira NetoDom Maurício José de Araújo AndradeDom Sebastião Armando Gameleira SoaresDom Naudal Alves GomesDom Edmund Knox SherrillDom Clovis Erly RodriguesDom Luiz Osório Pires PradoDom Almir dos SantosDom Glauco Soares de Lima2006

CARTA PASTORAL – SINODO 2006

Ao Reverendo Clero e a todo o Povo da Igreja

“O que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos também a vós, para que partilheis nossa vida, como nós partilhamos com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo" (1Jo 1, 3).

Assim, a Primeira Epístola atribuída a São João saúda as Igrejas destinatárias da mensagem. Sim, porque o processo de comunicação nas comunidades cristãs tem seu ponto de origem no testemunho de uma experiência: “O que ouvimos, o que vimos com nossos próprios olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam a Palavra da Vida porque a Vida se manifestou: nós a vimos e vos anunciamos a Vida que estava junto do Pai e se manifestou a nós" (1Jo 1, 1-2).

NOSSA EXPERIÊNCIA

Neste Sínodo Geral, desejamos dirigir-nos a vocês a partir da experiência que temos vivido em nossa Igreja. Já se passaram mais de cem anos desde que aqui chegaram os primeiros missionários da Igreja-mãe, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América do Norte. A eles e elas devemos a existência entre nós deste jeito de ser do Corpo de Cristo, com o qual com alegria e gratidão nos identificamos. Nossa Igreja no Brasil nasceu da Missão, isto é, do élan missionário de um punhado de pessoas que se sentiam enviadas, apaixonadas pelo Evangelho de Jesus, inflamadas pela chama do Espírito Santo que as convencia da urgência de propor ao país a mensagem da conversão e da liberdade em Cristo. De seu testemunho novas comunidades surgiriam, novas pessoas iriam abraçar, inclusive com grandes sacrifícios, a fé e o ministério do Evangelho da Salvação. Que imensa responsabilidade a nossa, ter sido gerados pelo amor de corações indelevelmente marcados pelo fogo abrasador do que se chama o "espírito missionário"! O compromisso com a Missão de Deus em Cristo, por ser a seiva de nossas raízes, tem de ser o estandarte a guiar-nos na caminhada.

Há quarenta anos temos vivido na condição de Província emancipada. De um lado, amadurecemos como Igreja nacional autônoma. De outro lado, temos agüentado, e não tem sido fácil, “a dor do crescimento”. Nossa tradição de origem nos impõe, de maneira toda particular, o dever da Missão. Nossa autonomia nos tem convocado à responsabilidade de manter, de expandir e de projetar a Igreja para o futuro.

SINAIS DE CONTRADIÇÃO: RENOVAÇÃO E CRISE

Quando lançamos um olhar para nossa realidade atual, com alegria, percebemos sinais que nos revelam estarmos vivendo um tempo de renovação. Entramos neste período do Terceiro Milênio sob o mote "Adoração, Serviço, Compromisso". Nossa vocação é celebrar a glória de Deus. Segundo as Escrituras, Deus é glorificado, primariamente, não pelo louvor de nossos lábios, mas pelo esplendor maravilhoso de suas criaturas. Santo Irineu, no século segundo, o expressou de forma lapidar: “A glória de Deus é o ser humano pleno de vida". Dom Oscar Romero, o Arcebispo Mártir de El Salvador, traduziu-o em nossa realidade de América Afro-latíndia: "A glória de Deus é o pobre libertado" (cf. Sl 8; 19). Assim, celebrar o Deus vivo é assumir "em Sua graça transformar o mundo". E o único método adequado para isso é servir, pois foi justamente esse o caminho que nos abriu Jesus. Eis aí uma verdadeira síntese da espiritualidade que nos deve caracterizar.

Em nosso meio, temos percebido uma sede de renovação e de aprofundamento teológico. Nas congregações, cada vez mais pessoas buscam reunir-se para conhecer a Bíblia e compartilhar sua experiência de vida na fé. Em cada Diocese, multiplicam-se os programas de treinamento pastoral e de educação teológica. Há muitas pessoas envolvidas em processos de formação, vocacionadas para diversos tipos de ministério. Vários irmãos e irmãs, especialmente do clero, têm buscado renovar-se e prosseguir nos estudos, inclusive buscando cursos de mestrado e doutorado em Teologia. Nossas instituições de educação teológica têm-se mostrado instrumentos úteis para responder a essas expectativas.

Temos percebido também, com grande alegria, uma crescente abertura da Igreja aos problemas da sociedade. Isto claramente está a indicar crescimento na visão do Reino de Deus a serviço do qual tem de estar a Igreja. Significa também crescimento na caridade a revelar-se por maior sensibilidade aos sofrimentos de tantos irmãos e irmãs mais pobres e até excluídos. Manifesta ainda que os membros da Igreja estão mais bem informados sobre os perversos mecanismos do sistema social opressor e mais dispostos a participar das lutas sociais e políticas pela transformação da sociedade. Os programas de Ação Social nas dioceses são um testemunho eloqüente disso e uma maneira de retomar os gestos de Jesus que sempre evangelizava começando por tocar os corpos e as emoções das pessoas necessitadas de toda ordem. É importante ainda repetir que, se de um lado, nossos projetos sociais favorecem as pessoas necessitadas; doutra parte, aproximar-se dos pobres é essencial para chamar a Igreja continuamente a converter-se ao Evangelho.

Ao lado de tantos sinais positivos e encorajadores, devemos reconhecer com honestidade e lealdade que temos vivido um período de graves crises. A Comunhão Anglicana mundial parece à beira de dilacerar-se por conflitos aparentemente insuperáveis entre correntes antagônicas. Já há até quem defenda "redesenhar" a Comunhão em base a "afinidades teológicas". Ora, das "afinidades teológicas" às afinidades ideológicas o passo é quase inevitável. "Teologia” já não é a simples escuta da Palavra de Deus, são necessariamente construções humanas, sempre eivadas de visões ideológicas e, até inconscientemente, dirigidas por inconfessados interesses. O que reúne a Igreja em Comunhão é a escuta da Palavra e a Ceia do Senhor. Em nossa própria Província, temos sofrido recentemente cismas e dissensões, para escândalo do povo e desperdício das energias da Igreja.

RENOVAÇÃO ESPIRITUAL: NOVO ESTILO DE VIDA

Sentimos, sem dúvida, a necessidade de uma intensa e profunda renovação espiritual. Quem sabe, estamos numa situação na qual é preciso dizer que, em grande medida, ainda se faz necessário escutar o apelo de Jesus: "Convertei-vos e ponde no anúncio da Boa-Nova o firme fundamento de vossas vidas!" (Mc 1, 15) Precisamos renovar, com decisão firme, nossa opção por Jesus Cristo e assumir Seu caminho como o princípio que dá sentido último e total a nossas vidas. É urgente a necessidade de sentir a vida em comunidade como o ambiente natural para realizar o compromisso de seguir a Jesus. Para isso temos de ter o convencimento de que a vida comunitária nos faz pessoas mais humanas e felizes. Naturalmente, isso envolve o sério compromisso de colaborar e contribuir para que a Igreja local exista e seja efetivamente uma comunidade de irmãos e irmãs que testemunhem a possibilidade real de sermos “novas criaturas”. Finalmente, é só mediante o serviço, à imitação do Servo de Deus (cf. Fl 2, 1-11), que poderemos dedicar-nos, com fidelidade, a concretizar na sociedade humana os sonhos divinos para o mundo.

Em nosso programa de vida, a raiz de tudo tem de ser a radical opção pelo Cristo, Revelador de Deus, a qual se manifesta na vida quotidiana pelo empenho em seguir, com paixão e entusiasmo, o caminho de Jesus de Nazaré, testemunhado na Bíblia.

Como nos diz o Evangelho, o chamado é para conviver com Ele e para que nos envie a anunciar a Palavra e realizar as mesmas obras que Ele faz (cf. Mc 3, 14-15). Trata-se de assumir, com determinação e disciplina, pessoal e comunitária, o discipulado de Jesus. Precisamos aprender da oração de Jesus a buscar identificar nossa vontade com a vontade de Deus, fonte última da vida, como Pai ou Mãe de cada qual de nós. Como saberemos por onde caminhar, senão mediante a meditação da Palavra, escutada constantemente na vida e iluminada pelo testemunho bíblico da longa caminhada de nossos pais e mães na fé? Como ter a energia do Espírito de Cristo para seguí-Lo, se não nos damos de corpo e alma a edificar a vida comunitária, pela convivência fraterna, pela adoração, pelo exercício dos ministérios? A atitude de serviço deve caracterizar o método de toda a nossa ação, quer no interior da vida eclesial, quer em nossa relação para fora com a sociedade. A consagração de nosso coração e de nossos corpos (cf. Rm. 12, 1-2) tem de se manifestar, de maneira muito concreta e inequívoca, através da dedicação de nosso Tempo, de nossos Talentos e de nosso Tesouro. "Onde estiver nosso tesouro, aí estará nosso coração” (Mt 6, 21).

Nosso estilo de vida é a efetiva resposta que damos ao chamado de Deus. Por isso, a tarefa de viver é, antes de tudo, responsabilidade, ou seja, capacidade de responder, de assumir a vida, com generosidade, na moldura de um projeto que seja conforme aos propósitos divinos. Isso deve acontecer em todos os níveis: pessoal, inter-pessoal, comunitário, sócio-político e cósmico. Evidentemente, só seremos coerentes com as perspectivas abertas pelo Evangelho, se nosso estilo de vida estiver claramente em contradição com o sistema de vida promovido pelo sistema do "mundo".


MENSAGEM DE ESPERANÇA

"Daqui para onde?" De um lado, estamos atravessando tempos de grande turbulência e crise. A Igreja tem sido constantemente agredida por divisões e cismas. Os padrões de convivência humana estão sob impacto de incerteza e a própria sobrevivência do planeta está ameaçada. Doutro lado, temos percebido no mundo inteiro e também entre nós fermentos de renovação que, por entre densas sombras, já anunciam um novo tempo. A luz do Evangelho que nos anuncia o raiar da madrugada de Ressurreição resplandece em nossas pequenas vidas e nos reanima sempre a retomar a Missão de Deus cada dia.

Como nos ensinam as Escrituras, essa não pode ser obra de um só, nem de muitos individualismos somados. A obra do Deus Trino é essencialmente comunitária. Se queremos prosseguir rumo ao futuro, nossa ação tem de ser à imagem do que aqui estamos a fazer: SÍNODO quer dizer “caminhar em conjunto”, sob a inspiração de nosso lema: "Responsabilidade Cristã: Fortalecer a Igreja para o serviço no mundo de Deus". Que Deus nos abençoe e guie!

Curitiba, 26 de julho de 2006.

Assinam Vossos Pais em Cristo,

Dom Orlando Santos de Oliveira – Primaz Dom Jubal Pereira Neves Dom Celso Franco de Oliveira Dom Hiroshi Ito Dom Filadelfo de Oliveira Neto Dom Maurício José de Araújo Andrade Dom Sebastião Armando Gameleira Soares Dom Naudal Alves Gomes Dom Edmund Knox Sherrill Dom Clóvis Erly Rodrigues Dom Luiz Osório Pires Prado Dom Almir dos Santos Dom Glauco Soares de Lima

Projeto Cantuária • Biblioteca Digital Anglicana