Celebrando o Jubileu

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Celebrando o Jubileu

Rev. Marcos Barros2003

Celebrando o Jubileu

A Diocese Anglicana do Recife celebra seu Jubileu nos próximos dias deste mês de maio e se o Senhor permitir teremos vários festejos.

É bom lembrarmos que no dicionário as palavras “festejar" e "celebrar“ têm o mesmo sentido apenas quando se referem a "fazer festa", mas enquanto "festejar" está sempre ligada a festa, "celebrar" tem mais ligação com "comemorar", "fazer memória”, “trazer solenemente a memória (do latim celebrare). Mas em que esse jogo de palavras nos interessa? Lembra-nos que temos grandes motivos para festejar, e que nossa fé nos convida a comemorarmos (trazermos a memória).

Tenho visto algumas cartas de irmãos sobre esse tema que nos convida a isso e gostaria de tentar dar a minha pequena contribuição à discussão. Penso que há dois pontos importantes para “rememorarmos“. O primeiro é sobre "humildade", pois a vejo como muito importante para nossa espiritualidade, pois sem “humildade” não há conversão. Vejo também com alegria que nos cultos em nossa diocese é bastante valorizado o momento da confissão e, conseqüentemente, a humildade. Porém, parece que às vezes vemos a humildade como um dom. E talvez seja mesmo. Mas também é (e necessitamos valorizar) um exercício de espiritualidade, como também os são algumas técnicas, como silêncio, auto-exame de consciência (em vez do "julgar" o erro do outro), colocar-se no lugar do outro, etc..

Como disse nosso bispo diocesano, Dom Robinson Cavalcanti, na Quinta-feira Santa, dia 12 de abril, ao introduzir-nos na liturgia da Santa Ceia: "precisamos ser mais humildes!" Penso também dessa forma. Para celebrarmos o Jubileu numa perspectiva pascal, devemos nos converter (sempre), dispostos a fazer, ensinar, melhorar, consertar, levar o EVANGELHO (Boas Novas, Palavra de Deus). E quase nunca estamos dispostos a ajudar, aprender, rever (auto-exame), buscar o EVANGELHO, etc.

Tenho que ser franco: às vezes nossos ritos de perdão são “plásticos", reverentes, bonitos, mas não profundos (volto a afirmar que é impressão). Se nós como clero não conseguimos fazer o auto-exame, como poderemos passar para o povo o sentido de pedir perdão? Como clérigos/as devemos ter a coragem da humildade para revermos nossas falhas como pessoas e como pastores/as. Como aceitar que “membros com mais de anos de participação" em comunidades nossas, desconheçam regras básicas do anglicanismo? Será que os cultos de nossas comunidades são o que espera a nossa Igreja, ou passam a identidade batista, romana, presbiteriana, etc.? Seria possível encarar isso sem a desculpa de que o “povo não está preparado"? Isto nos leva ao segundo ponto: A "espiritualidade" e o “ethos" anglicano.

Desde que entrei no S.A.E.T., nosso seminário, tenho percebido em muitas pessoas a busca do modo de ser anglicano e da espiritualidade própria. E dou graças a Deus por isso! Dom Robinson tem tratado desse assunto em vários sermões. Penso que talvez essa maneira de ser seja viver a "busca" (como nossa vida é uma busca permanente de Deus). Pois para vivermos em nossa diocese a "LINHA MÉDIA" entre o catolicismo e o evangelicalismo, será necessário em todos os tempos e momentos que nós anglicanos/as estejamos “abertos/as" e buscando não nos desviarmos disso.

Nós até poderemos passar mais vinte e cinco anos sem conseguirmos viver realmente essa “LINHA MÉDIA", mas não poderemos deixar de tentar fazê-lo. Nossos votos a Deus e a Igreja nos cobram isso.

Não tenho a pretensão de querer mostrar como, mas sim de ajudar na discussão. Será que não seria ainda melhor para nós como clérigos/as aceitarmos realmente de coração que nossa igreja é Evangélica e Católica? Evangélica não só pelos laços com a Reforma Protestante em nossa história, isso certamente; mas também por opção de identidade com uma linha teológica do cristianismo que teve e tem muito de bom para nos dar, mas acima de tudo por nos guiarmos pelo Evangelho, que nos cobra sermos “protestantes contra todos os erros humanos". Católica não só no sentido da palavra que é universal, isso certamente; mas também por não abrirmos mão de uma história, de um passado que nos mancha de vergonha, sangue e pecado, mas também nos cobre de glória, heroísmo e santidade, que tem uma liturgia rica em plástica, cores, símbolos, ritos e gestos que ajudam o povo a viver e reviver sua ligação com o seu Deus (Criador e Libertador), e, acima de tudo, por nos guiarmos pelo Evangelho que nos cobra sermos uma igreja "Católica para toda a verdade de Deus".

Nossa igreja tem ainda em seu ethos, seus cânones e o episcopado histórico, que para alguns é um peso nos ombros. Os Cânones são leis, e como tal são necessários à vida em sociedade. Não vou aqui me estender, apenas gostaria de lembrar “que as leis foram feitas para as pessoas", não o contrário. E a igreja deve viver a difícil realidade da vida respeitando os Cânones, mas nunca deixando de ser pastoral. O episcopado é símbolo da unidade da Igreja (como os pais são na família). E temos algumas formas de relacionamento entre clérigos/as e bispo e vice-versa. Também poderia me estender, mas apenas quero dizer o que penso a esse respeito: o bispo é para a Igreja o Pastor, Pai na fé. E o pai é pai e pronto!

E olhem meus irmãos e minhas irmãs, se é difícil aceitar isso e por outro lado não se quer sair da igreja, ótimo! Passo à você um conselho de D. Hélder Câmara para uma pessoa que não agüentava mais viver com outra: "tire-a das suas costas e a coloque no coração”. O episcopado não é temporal. Pense nisso. E que Deus nos ajude a podermos dizer com convicção e até certo orgulho “que nossa igreja é Episcopal e que somos Católicos e Evangélicos!".

Sempre Irmão, Marcos Barros

O Rev. Marcos Barros é coadjutor na Missão Anglicana da Liberdade, Jaboatão dos Guararapes - PE

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