Cultura : Catuboré do povo...

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Cultura : Catuboré do povo...

Fábio Vasconcelos2001

Cultura: Catuboré do povo...

Recife, 16 de novembro de 2001.

Conta uma fábula indígena, que havia um jovem de uma tribo Tupi que tocava maravilhosamente uma flauta. Logo todos o apelidaram de Catuboré, que significa em tupi-guarani: “a flauta mágica". Não era bonito nem tinha charme algum, mas o som da sua flauta era esplendoroso.

Aconteceu, que depois de uma tragédia lírica vivida por ele, transformou-se num pequeno pássaro da floresta, o conhecido Irapuru. Hoje, o Irapuru, assim como o Catuboré, não tem especial beleza, mas canta como ninguém, num som semelhante a uma flauta. Flauta essa, inconfundível a todos.

O Irapuru, um dos menores pássaros da floresta amazônica, é, sem sombra de dúvidas, um pássaro peculiar. Sem qualquer cor que chame a atenção, quando comparado com o esplendor de outros pássaros, ele até pode ser considerado feio e pequeno, mas com o seu canto é incomparável e singular. Ele muda a vida da mata por alguns instantes quando seu mágico som que passeia no ar. Canta apenas quinze dias no ano, e quando seu cantar ecoa na floresta todos os outros pássaros se calam, completamente respeitosos e atentos. Naquele momento só se escuta ao canto do Irapuru em toda a floresta. Entoando seu gorjeio ele, somente ele, é ouvido junto ao silêncio que rasga a Amazônia...É a "flauta mágica".

Sem beleza, não chama a nossa atenção, e até mesmo sendo considerada feia, é também a nossa valorização cultural. Cultura essa, que tem sido dominada pela falta de identidade, de identificação, reflexo de uma cultura dominante (os outros pássaros sempre são mais bonitos que o Irapuru); a falta de uma visão de que a nossa cultura tem uma ação propulsora potencialmente libertadora e transformadora da sociedade.

Essa é nossa cultura, que muitas vezes tem sido dominada pela "falta". A cultura da falta de desejos humanos. Mas ela ainda resiste, porque é corporal, carnal, espiritual e sai de dentro de nós.

Temos desejos de vida, de liberdade, de educação, de identidade, de canto,de dança,de fala, de produção... Produção de desejos humanos...Direitos humanos.

Somos, na verdade, enganados por uma espécie de “imagem distorcida" que nos mostra culturalmente quietos e mórbidos. Mas quando “cantamos” nos libertamos! E todos param para nos ouvir, atentos e livres. Isso é respeito. Isso é auto-valorização. Isso é auto-estima!

Auto-estima que anda ofuscada em nossos dias. A cada dia o homem se torna mais oprimido por uma cultura consumista e verdadeiramente selvagem. As análises prevêem a depressão como sendo o mal deste novo século. Homem moderno e depressivo...vencido, preso. Que ironia!

Como resgatar essa liberdade? Como resgatar essa auto-estima? Vamos nos libertar! Desejar!

Temos desejos e direitos de sermos livres dessa cultura destruidora e cruel. Nosso canto encanta e é muito lindo como o do Irapuru. Densa cultura a nossa...livre para o desejo de cantar sempre. Libertar sempre...

Devemos partir para a concretização de uma Cidadania Cultural e de uma Saúde Cultural mais objetiva e de pé no chão.

Indígena, negro, mestiço, cores, homens, mulheres, ritmos, cantos de um povo que sabe ser e tem que ser. Tem desejo de ser. Tem direito de ser.

Essa diversidade tem que ser reconhecida e fortalecida dentro de nós, para ser aplicada e absorvida. Popularizar, Socializar, Democratizar e Descentralizar os meios de comunicação e a produção cultural, para que a população tenha acesso e usufrua de cultura.

Nosso desejo dentre os “desejos humanos", é que nossa cultura, a flauta mágica do povo, o Catuboré popular, seja linda dentro de nós e não apenas cante alguns dias no ano como o Irapuru, mas cante sempre e livre. Que todos os nossos males e maldades calem-se e respeitem nossa vontade de ser e estar, viver em liberdade de expressão. Produzir e desejar...

A cultura livre liberta e ensina a libertar nosso canto, que hoje é lindo mas ainda não é incansável... porém tem o direito de ser desejo SEMPRE DENTRO DE NÓS.

Você já ouviu o canto do Irapuru? A flauta do Catuboré?

Já, Claro que já... Como diria o teólogo anglicano John Stott : “Ouça o Espírito, ouça o mundo".

Fábio Vasconcelos M.L. da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Secretaria de Direitos Humanos

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