De tal forma Deus amou o Mundo: Criadas/os segundo a imagem de Deus - O dom divino e chamado à humanidade
De tal forma Deus amou o Mundo
Criadas/os segundo a imagem de Deus: O dom divino e chamado à humanidade
Uma Antropologia Teológica Anglicana
Documento Unidade, Fé & Ordem n° 3
Criou Deus a humanidade [n.t.: NVI: “o homem"] à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.¹
Gn 1.27
Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.
Sl 139.13-14a
Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.
Gl 3.28
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!
Filipenses 2.5-8
Seu divino poder nos deu todas as coisas de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. Por intermédio destas ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça.
2Pedro 1.3-4
A glória de Deus é a pessoa humana viva, e a vida da criatura humana é a visão de Deus.
Gloria enim Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei Irineu de Lião, Contra Heresias, IV.34.7
Introdução
A Escritura ensina que toda pessoa humana é feita segundo a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-28). Cada pessoa, por ser única e insubstituível, é de infinito valor; toda e cada pessoa, como feita segundo a imagem de Deus, tem dignidade intrínseca. Além disto, São Paulo ensina que somos um em Cristo (Gl 3.28), uma vez que Cristo veio para todas as pessoas (Rm 5.18-19; 1Co 15.22; 2Co 5.14). Esta é a grande percepção original do cristianismo sobre e para o mundo: Deus, em quem “vivemos e nos movemos e temos o fundamento de nosso ser" (At 17.28), se encarnou em Jesus Cristo por todo o mundo, tomando a forma de uma pessoa escravizada (Fl 2.5-8). Deus em Cristo redimiu e santificou toda a humanidade para que possa participar na vida divina¹.
Este é o profundo mistério do ser humano: somos pessoas criadas por Deus de forma que, em Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, possamos compartilhar na natureza divina (2Pd 1.4). Toda pessoa humana, sem exceção e a despeito de sua condição ou importância social, é chamada por Deus para uma participação na plenitude da vida e amor de Deus. Como respondemos a este chamado, e como encorajamos outros a responderem, é uma questão humana fundamental. Ainda assim no mistério e complexidade da condição humana, Deus deseja nos elevar para participarmos a vida gloriosa de Deus. O salmista escreve:
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é a humanidade [n.t.: NVI “o homem"], para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Sl 8.3-5
O chamado de Deus à humanidade em sua Palavra encarnada, Jesus Cristo, é, portanto, universal. Desde seu princípio no ajuntamento de discípulas e discípulos de Cristo e o Dom do Espírito Santo, a Igreja tem testemunhado a universalidade de seu divino chamado em sua missão católica. O Evangelho Cristão, que é boa-nova para todo o mundo, foi rapidamente levado a atravessar fronteiras regionais, intelectuais, raciais e culturais. Esta diversidade é refletida hoje na amplitude de experiências humanas contidas na Comunhão Anglicana. Esta rica experiência é uma grande bênção no discernimento do cumprimento do deleite divino em todo seu povo e os modos infinitamente diversos pelos quais podemos participar na vida de Deus. Ao mesmo tempo, diferenças de cultura, história e experiências podem se tornar uma causa para mal-entendidos e confusão mútuos. Diante de tal diversidade, este estudo guiado procura nos relembrar sobre nossa natureza criada comum segundo a imagem de Deus, a intrínseca dignidade de toda pessoa humana e o chamado à humanidade para a vida plena em Jesus Cristo.
O chamado de Deus à humanidade em nosso contexto global contemporâneo força nossa reflexão para além das preocupa- ções intra-anglicanas sobre o que significa sermos uma comu- nhão de igrejas na direção de questões mais profundas sobre o que significa ser humano e humana em essência. Em um nível mais fundamental, o contexto presente necessita de uma exploração de uma antropologia teológica como uma rota para o compromisso de nossas relações por todas as divisões globais de riqueza e cultura. Nossa compreensão sobre a humanidade precisa ser informada pelo nosso compromisso com o tesouro da fé, mas também com a experiência daqueles que a sociedade marginaliza. Jesus não era um observador de suas irmãs/ãos sofredoras/es, mas estava entre estas pessoas para servir e trans- formar, de modo que todas as pessoas pudessem ter vida em plenitude (Mc 10.45; Lc 4.18; Jo 10.10).
O guia de estudo procura estabelecer uma ambientação teo- lógica para uma reflexão sobre a natureza da pessoa humana. No contexto amplo do ensinamento da Escritura de que a humanidade é criada segundo a imagem e semelhança de Deus, os temas de "chamado” e “dom” são centrais. Primeiro, há um chamado para a existência no dom da criação. Toda criatura e toda pessoa humana é primeiro e sobretudo um dom de Deus. Segundo, há um chamado à humanidade em Jesus Cristo para uma participação na natureza divina. Este é o segundo dom da graça no qual a imagem divina é manifestada na criatura humana, e nossa humanidade tornada completa e inteira. Deus chama as pessoas humanas para compartilharem, de fato parti- ciparem na vida divina.
Ao mesmo tempo, a imagem divina na pessoa humana é macu- lada pelo pecado. Isto acontece em nível tanto pessoal quanto corporativo, caracterizado por uma natureza humana cisalhada da qual todos participamos. O dano à natureza humana causado pelo pecado dá oportunidade aos desafios políticos e éticos mais difíceis de nosso tempo, por exemplo o desafio da espolia- ção ambiental e injustiça econômica. Este estudo guiado con- siderará estas questões a partir da perspectiva da Antropologia Teológica, não como as únicas incidências da injustiça humana, mas como exemplos de como podemos refletir juntos sobre o chamado de Deus para a cura e reconciliação de nossa humani- dade comum.
Criação e a Pessoa Humana
- A compreensão cristã da natureza da pessoa humana inicia-se com a criação. A escritura e tradição cristãs ensinam que Deus cria todas as coisas a partir do nada (ex nihilo) em um ato de infinita liberalidade (Rm 11.36; 1Co 8.6; Ap 4.11)². Deus con- cede à criação a sua própria existência. A criação não adiciona nada a Deus, já que Deus é eternamente pleno; é, portanto, um ato de amor divino gratuito. A carta de Tiago ensina que:
Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, des- cendo do Pai das luzes, que não mudam como sombras inconstantes. Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade, para que sejamos como os primeiros frutos de tudo o que ele criou. Tg 1.17-18
O ato criacional de Deus na doação do ser criado é uma expres- são do amor divino eterno das Pessoas da Trindade. Deus declara que a criação é muito boa (Gn 1.31), e sua condição primordial é de paz (Gn 2.23-25).
Na ordem criada, o ensinamento da escritura de que a humani- dade é criada segundo a imagem de Deus (imago Dei) é central para a compreensão cristã da pessoa humana. Enquanto toda a criação remete à glória do criador (S1 19.1) a humanidade é única dentre as criaturas porque mulheres e homens são feitas e feitos segundo a imagem e semelhança de Deus.
Então disse Deus: “Façamos a humanidade [n.t.: NVI “o homem"] à nossa imagem, conforme a nossa seme- lhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão". Criou Deus a humanidade [n.t.: NVI “o homem"] à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Domi- nem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra". Gn 1.26-28
- A referência a "homem e mulher" em Gênesis sinaliza o escopo todo abrangente da imagem divina: toda pessoa humana, a despeito de sua posição social ou condição, porta a imagem divina. O Novo Testamento explora este mistério, pois a ima- gem perfeita e eterna do Pai é encontrada no Filho por quem e para quem todas as coisas foram criadas (Cl 1.15-16). Jesus Cristo, como encarnação de tal imagem eterna, é totalmente divino e totalmente humano. Cristo é, portanto, a comple- tude e medida da humanidade, já que em Cristo o chamado à humanidade para compartilhar na vida de Deus é tanto feito quanto cumprido.
A Pessoa Humana como Imagem de Deus
Ao refletir sobre a natureza da pessoa humana como tornada imagem de Deus, devemos localizar tal imagem em uma qua- lidade particular ou capacidade que distingue a humanidade de todas as outras coisas criadas. Porque a escritura ensina que somente seres humanos são criados segundo a imagem e semelhança de Deus, e nenhum dos demais animais, deve- mos procurar pela imagem divina em uma capacidade que seja unicamente humana. Uma faculdade distintivamente humana que é algumas vezes associadas com a imagem divina é a racionalidade. A habilidade de raciocinar, em seu bom uso, nos possibilita discernir a beleza, verdade e bondade no coração da criação. Podemos raciocinar por meio de encadeamentos filo- sóficos, artísticos ou científicos. Nossa capacidade intelectual, evidente em uma miríade de formas nas comunidades huma- nas, abre-nos novos horizontes, novas possibilidades e novos questionamentos. Isto nos capacita a começarmos a perceber a criação como um todo e assim participarmos na razão divina de quem a criou.
No pensamento cristão antigo e medieval, e em muitas cul- turas contemporâneas ao redor do globo, a racionalidade tem um amplo e rico escopo que compreende o esforço criativo humano de maneira bastante ampla. Por exemplo, pense- mos na imagem da Escritura do conhecimento de um pas- tor sobre as ovelhas (Jo 10.14). Também podemos pensar em outras formas íntimas de conhecimento racional. Por exem- plo, o conhecimento de uma musicista sobre seu instrumento, um artesão de seu ofício, a mãe de uma criança e uma/um amante sobre sua/seu amada/o podem ser compreendidos como modos de usar a razão, e brotam de profunda inti- midade, compromisso, desejo e amor. Na tradição cristã, tal conhecimento é frequentemente compreendido como sendo o resultado da capacidade intelectual humana que é a imagem do conhecimento amoroso e íntimo de Deus sobre sua cria- ção. Esta capacidade humana para o conhecimento íntimo ou intuitivo é certamente um aspecto do raciocínio e do intelecto, que associamos muito prontamente com o pensamento abs- trato ou a investigação científica. Conforme a racionalidade foi compreendida segundo termos cada vez mais restritivos em face do crescimento do “racionalismo” ocidental moderno, a associação da imagem de Deus com a razão e o intelecto se tornou muito exclusivista e menos atraente. Parece associar a imagem de Deus com mera agudeza de pensamento e proeza técnica. A identificação da imagem de Deus com uma com- preensão mais estreita de racionalidade e intelecto poderia excluir amplas faixas da comunidade humana.
Há outras maneiras de compreender a imagem de Deus na pessoa humana. Uma percepção original importante é encontrada no primeiro capítulo de Gênesis, nomeadamente o mandamento de Deus para os primeiros humanos, “sejam férteis e multipliquem-se!", "encham e subjuguem a terra!" e exerçam domínio sobre outras criaturas. No contexto da crise ambiental em curso, este é um ensinamento desafiador que será explorado mais detalhadamente a seguir. Alguns comentaristas veem as raízes da exploração ambiental no ensinamento humano centrado de tradições religiosas e, em particular, no mandamento do Gênesis para que as pessoas dominem sobre a criação.
Acaso isto sanciona nosso tratamento à natureza como se fosse apenas um almoxarifado de recursos para nosso uso e explora- ção? Bem o contrário disto. No mundo antigo, um importante aspecto de ser um ícone do divino era a representação divina na terra. No contexto de Gênesis, isto significa compartilhar no cuidado da criação por Deus. Ao receberem domínio sobre a terra, os seres humanos devem participar no cuidado pro- videncial de Deus da criação, garantindo sua fecundidade e protegendo sua beleza. Como uma imagem de Deus, a huma- nidade deve cultivar a terra (Gn 2.15) e ordenar e nomear a criação (Gn 2.19-20). Isso implica que a humanidade, como um ícone do criador na criação, carrega a responsabilidade moral do cuidado e do cultivo da boa terra de Deus. A criação é um dom que deve ser conhecido, gozado e nutrido, não um recurso a ser explorado e sofrer abuso. O exercício da capaci- dade intelectual humana, construída em amplos e ricos termos como uma imagem da razão divina no coração da criação, é um importante aspecto desta vocação.
Além de identificar a imagem de Deus pela distinção da humanidade das outras criaturas, teólogos da Igreja primitiva também identificavam a imagem de Deus pela distinção seres humanos de outros tipos de imagens como estátuas. O mundo antigo está cheio de “imagens divinas" na forma de estátuas dos deuses e deusas. Imagens de soberanos e soberanas também eram uma maneira muito prevalente de sinalizar sua presença onipresente, por exemplo, em moedas. O Antigo Testamento, entretanto, apresenta um bom número de mandamentos para que não se façam ou cultuem tais imagens porque elas podem se tornar ídolos. Tal é particularmente familiar no segundo dos Dez Mandamentos:
Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra ou nas águas debaixo da terra. Dt 5.8
- Ainda assim Deus faz uma imagem de si mesmo na forma de pessoas humanas. Uma maneira pela qual podemos distinguir uma estátua ou ídolo como uma “imagem divina” da imagem de Deus nas pessoas humanas é pela vida; as pessoas são uma imagem viva de Deus, não uma estátua de pedra inanimada. A criação da pessoa humana no segundo relato da criação em Gênesis sugere que a humanidade recebe o sopro de vida dire- tamente de Deus:
Então o Senhor Deus formou o gênero humano [n.t.: NVI “o homem"] do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o ser humano [n.t.: NVI “o homem"] se tornou um ser vivente. Gn 2.7
Deus toma o pó da terra e sopra para dentro da mesma o fôlego da vida, direta e intimamente. Não é que a pessoa humana possua a imagem divina como uma espécie de "adi- cional” ou “ornamento”; na verdade, já que Deus sopra a vida no pó da terra, a pessoa humana em sua totalidade é formada como imagem de Deus por sua natureza. Ao invés dos ídolos de pedra que se alinhavam nas avenidas das cidades antigas ao longo do Oriente Próximo e Mediterrâneo na Antiguidade, a pessoa humana é viva e incorpora a imagem de Deus, é capaz de responder ao chamado divino e dar voz aos pedidos e lou- vores da criação. Em nosso culto vivo a Deus, expresso em alma e corpo, participamos na vida de Deus e refletimos a gló- ria de Deus. Assim a imagem de Deus não é estática; no afeto do toque de uma cuidadora, no abraço entre amantes e nos braços abertos do louvor divino, vemos a imagem do amor de Deus fluindo na pessoa humana viva.
A identificação de uma característica essencial e comum com- partilhada por todas as pessoas humanas na qual poderíamos localizar a imagem divina se demonstrou, no entanto, elusiva. O bispo e teólogo do século IV, São Gregório de Nissa, ensina que devemos olhar não somente os indivíduos, mas toda a humanidade para discernirmos o mistério da imagem divina³. Similarmente, a declaração da Comissão Internacional para o Diálogo Teológico Anglicano-Ortodoxo deixa claro que:
Toda pessoa, feita segundo a imagem de Deus, é ines- gotável em seu significado: nenhuma delineação de nos- sas características humanas pode descrever totalmente as profundezas de nossa personalidade. Cada pessoa dentre nós é um mistério para nós mesmos e uns para os outros. Nos aproximamos deste mistério da pessoalidade com um senso de admiração e temor. "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser." (1Jo 3.2).4
- Isto significa que cada uma e toda pessoa é um profundo e único mistério de inestimável valor e dignidade. Todas as vezes em que nos pomos face a face, vemos um reflexo do infinito amor e glória de Deus. O brilho divino em toda face humana. Como o arcebispo [de Cantuária] emérito Rowan Willians escreve:
Isto significa que todas as vezes que me ponho diante de uma outra pessoa humana, estou diante de um mistério. Há um nível de sua vida, sua existência, na qual não posso chegar e que não posso controlar, porque existe na relação com Deus somente – uma palavra secreta que ele diz a cada um, quer ouçam ou se recusem a ouvir... a reverência que devo a cada pessoa está conectada com a reverência que devo a Deus, que as traz à existência e as mantêm existindo.5
- Toda pessoa humana, por ser única, insubstituível e misterio- samente criada segundo a imagem de Deus, é merecedora de cuidado e atenção extravagantes. A compreensão cristã sobre o valor da pessoa humana não prioriza a produtividade, sucesso, capacidade mental, juventude, saúde ou conformidade a nor- mas culturais. Seguidores e seguidoras de Cristo vêm em cada pessoa o amor de Deus que deposita a imago Dei em todas as pessoas e graciosamente traz esta imagem ao enfoque para refletir mais perfeitamente a glória de Deus:
E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem, estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito. 2 Cor 3.18
A Pessoa Humana como Dom
- Ao invés de localizar a imagem divina somente em alguma qualidade ou característica humana essencial, podemos olhar primeiro para Deus e o chamado divino à humanidade como um todo. Tal chamado é ouvido primeiro na Palavra criativa de Deus (Gn 1.3 e Jo 1.3-4) na qual a criação é chamada à existência. A principal verdade de cada criatura é que ela recebe sua existência como um dom, já que nenhuma cria- tura tem em si o fundamento de sua própria existência. Toda criatura, inclusive toda pessoa humana, é em primeiro lugar e principalmente um dom para si mesma. Como o teólogo Reformado João Calvino escreve no início de seu Institutas da Religião Cristã (1559):
Ninguém pode olhar para si mesmo sem imediatamente voltar seus pensamentos para a contemplação de Deus em quem ele "vive e se move". Já que muito claramente os altíssimos dons com os quais somos dotados são dificil- mente para nós mesmos; de fato, nossa mera existência não é nada senão subsistência no Deus Uno.6
Qual é a importância de compreender a pessoa humana como um dom? As Escrituras refletem profundamente sobre o significado de dom. Paulo escreve: "Pois, quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?" (1Cor 4.7). Ο Espírito Santo, frequen- temente conhecido na tradição cristã como “o dom"", é a fonte dos dons que formam a Igreja como o corpo de Cristo (1Cor 12). As relações humanas são expressas através de dons, sejam eles tempo, talento, habilidades, atenção, cuidado ou dinheiro. Esses são dons de amor que formam e expressam uma relação e, portanto, carregam significado e significância, não simplesmente utilidade. Na entrega de um dom, o que é dado carrega algo do doador ao destinatário. A partilha mútua de dons forma laços familiares e comunidade.
Em comum com toda a criação, a humanidade recebe a si mesma como um dom de Deus. O dom de nossa humanidade traz algo do doador, Deus, ao destinatário, a pessoa humana. Embora a humanidade receba tudo de Deus, tal é chamada em retorno a doar a si mesma a Deus em ação de graças. A humanidade é chamada ao intercâmbio amoroso, ou comu- nhão, com Deus e dá voz ao dom da criação de louvor e ação de graças. O intercâmbio recíproco de dons com Deus é refle- tido no hino de louvor do Rei David quando da oferta para a construção do primeiro Templo em Jerusalém. Esta prece é utilizada costumeiramente no ofertório na liturgia eucarística.
Teus, ó Senhor, são a grandeza, o poder, a glória, a majes- tade e o esplendor, pois tudo o que há nos céus e na terra é teu. Teu, ó Senhor, é o reino; tu estás acima de tudo. A riqueza e a honra vêm de ti; tu dominas sobre todas as coisas. Nas tuas mãos estão a força e o poder para exaltar e dar força a todos. Agora, nosso Deus, damos-te graças, e louvamos o teu glorioso nome. "Mas quem sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos contribuir tão generosamente como fizemos? Tudo vem de ti, e nós ape- nas te demos o que vem das tuas mãos. 1Cr 29.11-14
A humanidade é, portanto, não simplesmente o recipiente dos dons de Deus, mas é chamada a oferecer a si mesma como um dom a Deus - um "sacrifício vivo" oferecido em agradeci- mento e louvor (Rm 12.1). A humanidade é chamada a uma relação recíproca de comunhão com Deus na forma de inter- câmbio de dons8.
Enquanto a humanidade recebe o primeiro dom de Deus no chamado à existência e vida, ela recebe um segundo dom de graça no chamado à vida eterna por Jesus Cristo no Espírito Santo. Esta é a vida que recebemos em nosso segundo nas- cimento quando do batismo. Assim a imagem de Deus na pessoa humana pode não somente ser encontrada em uma capacidade ou característica humana comum, mas no cha- mado gracioso de Deus à comunhão pela partilha da comple- tude de sua vida e refletindo sua eterna glória em, por e para além do mundo. O dom e chamado a participar na natureza divina são feitos a cada pessoa humana, sem distinção de posi- ção social ou condição. Tal sugere que a imagem de Deus na humanidade pertence não somente a nosso início como cria- turas partilhando a imagem divina, mas também nosso fim no eschaton, pois "quando ele for revelado, nós seremos como ele, e o veremos como ele é" (1Jo 3.2). O drama da salvação é, portanto, a cura e cumprimento pleno da imagem divina dada primeiro na criação da humanidade, na qual nós participamos na transfiguração de Cristo para brilhar com toda a glória de Deus.
E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor segundo a sua imagem, estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito. 2Co 3.18
Cristo, a Imagem Eterna
- O Novo Testamento aprofunda nossa compreensão sobre a pessoa humana como uma imagem de Deus com referência a Cristo. Na carta de Paulo aos Colossenses, lemos que:
Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou sobe- ranias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram cria- das por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. Pois foi do agrado de Deus que nele habi- tasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse con- sigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz. Cl 1.15-20
Paulo ensina que Cristo é a imagem eterna do Pai, pois “foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude" (Cl 1.19). Cristo é da mesma substância do Pai e, portanto, é sua imagem idêntica; ele ensina que “O Pai e eu somos um" (Jo 10.30). Como a encarnação do eterno Filho de Deus, a Palavra feita carne, Cristo também é plenamente humano. Na pessoa de Cristo, portanto, encontramos a imagem perfeita de Deus em forma humana. Cristo é a imagem eterna que tam- bém é “Emmanuel", Deus conosco (Mt 1.23).
Isso retira da pessoa humana a imagem de Deus? Não, por- que a pessoa humana é uma imagem de Deus em e por meio de Cristo. Paulo ensina que todas as coisas no céu e na terra foram criadas por meio de Cristo e para Cristo e "nele tudo subsiste" (Cl 1.17). A Palavra eterna e sabedoria de Deus está, portanto, inscrita em toda criatura. Na pessoa humana, a ima- gem e semelhança divinas estão inscritas de modo especial, e tal é confirmado e plenificado na tomada da carne humana por Deus em Jesus Cristo. Complementarmente, o Novo Testamento fala abundantemente da incorporação da pessoa humana em Cristo. Essas são imagens profundamente íntimas nas quais a força vital de Cristo se torna nossa própria força vital. Ao ser enxertada em Cristo, que é a imagem eterna e perfeita de Deus que partilha a mesma natureza do Pai, nossa humanidade é trazida à sua plenitude como a imagem criada de Deus. As palavras de Jesus tornam clara a intimidade de sua relação com a humanidade:
“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não per- manecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim.” Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Jo 15.1-5
Nós, portanto, temos um retrato vívido da humanidade como imagem divina que começa na criação e anseia a perfeição da imagem divina no fim dos tempos. A pessoa humana é criada como portadora da imagem do divino e, como tal, esta ima- gem divina é nossa por natureza. Ela pertence a todas as pes- soas. Cristo é aquele em quem, por quem, e para quem todas as coisas foram feitas, assim Cristo é o início ou Alfa de nossa humanidade. Ao mesmo tempo, a pessoa humana é criada para partilhar de forma particular na vida eterna de Deus. Ser a imagem de Deus pela partilha na vida eterna de Deus não é algo realizado por qualquer capacidade ou função natural humana. Não podemos aperfeiçoar a nós mesmos como íco- nes divinos por nossa própria capacidade. Em vez disto, nossas capacidades naturais e vocação são aperfeiçoadas pela graça de Deus que vem por meio de Cristo, em cujo corpo somos incorporados pelo batismo e eucaristia. A imagem divina é trazida à tona à medida que somos incorporados em Cristo, a eterna e perfeita imagem de Deus Pai. Assim como é nosso início ou Alfa, Cristo também é nosso objetivo ou Ômega, já que ele é a Palavra eterna tornada carne que nos arrasta à vida de Deus por meio de sua morte e ressurreição (Ap 1.8, 21.6, 22.12). A pessoa humana é aperfeiçoada como imagem de Deus precisamente ao ser incorporada na vida da eterna e perfeita imagem que é Cristo nosso Senhor.
Isso significa que Cristo baliza a vida de toda pessoa humana, já que ele é nosso começo e fim. Somos criadas/os por natu- reza para portarmos a imagem de Deus na e pela eterna e per- feita imagem da Palavra que se tornou encarnada em Cristo. Enquanto toda pessoa humana partilha um início natural como criatura à imagem de Deus, também compartilhamos um desejo por um fim sobrenatural – compartilhar na vida eterna de Deus. Tornamo-nos cada vez mais imagens vívidas de Deus pela incorporação na vida de Cristo pelo gracioso dom do Espírito Santo. Encontramo-nos numa miríade de locais e condições entre nosso início comum e o fim ou obje- tivo para o qual Deus nos chama, enquanto Cristo caminha com cada pessoa humana para mostrar a glória à qual a huma- nidade é vocacionada. Isto aloca a imagem de Deus não prin- cipalmente na capacidade ou função humana; mas primeiro e acima de tudo na pessoa humana de Cristo, imagem eterna feita carne. A pessoa humana como uma imagem de Deus compartilha em Cristo a imagem eterna na criação e redenção.
A Pessoa Humana e a Imagem do Amor
À medida que a pessoa humana é incorporada em Cristo, a imagem de Deus é aperfeiçoada pela graça. A vida para a qual Cristo nos conduz é ao mesmo tempo a sua própria e também toda a vida de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. A fé cristã professa que Deus é amor. O amor é relacional. Deus é a eterna relação de amor cujo nome é Pai, Filho e Espírito Santo, o único em quem “vivemos, nos movemos e existimos" (At 17.28). Este amor eterno é revelado na história, e a encarnação do Filho de Deus que nos mostra o Pai e dá o Espírito Santo (Jo 14.8-14, 20.22).
A revelação de Deus que é amor, segundo cuja imagem somos criadas/os, é o assunto da meditação de João em sua primeira carta no Novo Testamento.
Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudés- semos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está perfeiçoado em nós. 1Jo 4.7-12
- O amor não é somente um mandamento, mas é em primeiro lugar um dom. Ele começa com o dom amoroso de Deus na criação, que é revelado mais completamente no dom do próprio ser de Deus na encarnação do Filho de Deus. João escreve sobre Deus enviando seu Filho "para que vivamos por meio dele" (1Jo 4.9). Deste modo Deus exerce seu amor: pela autodoação, mesmo até a morte. Como somos conduzidas/os a este amor? Pelo dom não somente do Filho, mas também do Espírito Santo.
Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito. E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo. Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. 1Jo 4.13-16
A carta de João, portanto, nos ensina que vivemos em Deus por meio dos dons do Espírito Santo, que nos torna capazes de ver e testemunhar que o Pai enviou o Filho como o Salvador do mundo. Quando vivemos no amor eterno revelado em Cristo pelo Espírito, vivemos em Deus, e Deus em nós.
Há, portanto, um elemento crucial no ensinamento de João que é de importância ímpar. O ardente amor que Deus der- rama na criação, e mais ainda nos seres humanos como criatu- ras portadoras da imagem e semelhança de Deus, derrama-se por toda a extensão das vidas humanas:
Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 1Jo 4.11
- O amor humano em toda sua riqueza e glória, particularmente nosso amor umas/uns pelas/os outras/os, pousa