O Ministério do Diaconato

Versão Integral em Texto

O Ministério do Diaconato

Centro de Estudos Anglicanos (CEA)Rev. Francisco de Assis da SilvaRev. Eduardo GrilloD. Sumio TakatsuRev. Jaci MaraschinRevda. Maylanne Maybee1998

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

Centro de Estudos Anglicanos

Partilha Teológica nº 07

O Ministério do Diaconato

Seminário Provincial realizado pelo Centro de Estudos Anglicanos - CEA, de 06 a 09 de maio de 1998 A.D., na Casa de Retiros Assunção, Brasília - DF


O MINISTÉRIO DO DIACONATO

APRESENTAÇÃO

O CEA (Centro de Estudos Anglicanos) expressa a sua satisfação em colocar nas mãos das lideranças de nossa IEAB a presente Partilha Teológica. Ela é fruto do Seminário: O Ministério do Diaconato, realizado em Brasília, de 07 a 09 de maio deste ano. Este evento foi uma resposta ao apelo da Igreja (através da CONFELÍDER 97 e SÍNODO) para que se refletisse seriamente sobre a natureza da ordem do DIACONATO e sua inserção no conjunto dos ministérios desenvolvidos pelo povo de Deus na IEAB.

Participaram do Seminário representantes de todas as dioceses e de praticamente todas as ordens, tanto clérigos como leigos. Contamos com a assessoria de D. Sumio Takatsu, do Rev. Jaci Maraschin e da Revda. Maylanne Maybee (representando a Igreja Anglicana do Canadá).

Esta Partilha é a completa memória do Seminário, incluindo os textos de referência teórica do encontro, as conclusões dos grupos de discussão e as recomendações dirigidas à IEAB pelos participantes. Esperamos que estas recomendações sejam apreciadas pelas instâncias da Igreja, no sentido de aperfeiçoar a formação e o ministério de todos os diáconos e diáconas, especialmente daquelas pessoas que optarem pelo Diaconato Permanente, uma das recomendações que, esperamos, a nossa IEAB acolha.

Outro aspecto a destacar nessa Partilha é a mudança de lay-out e sua tiragem. Isso faz parte do esforço do CEA em melhorar a qualidade de seu trabalho e o alcance dele para um número cada vez maior de anglicanos em nosso país. Isso permitirá uma maior circulação das idéias pelas dioceses, na busca de uma melhor socialização do conhecimento e uma mais eficiente busca de consenso entre nosso querido povo de Deus.

Em Cristo Jesus, Senhor Nosso

Rev. Francisco de Assis da Silva Coordenador


PROGRAMA

DATA HORÁRIO ATIVIDADE
06/05/98 Tarde/Noite Recepção e chegada dos participantes
07/05/98 07:30 Santa Eucaristia
08:15 Café da manhã
09:00 Boas vindas/apresentação/explicação/Seminário
09:30 Divisão em grupos para discussão sobre perguntas
10:30 Cafezinho
10:45 Plenário com relatório dos grupos
11:15 Sintese do texto Diaconia: ênfase bíblico teológica - Rev. Eduardo Grillo, OST
11:45 Intervalo
12:00 Almoço
14:00 Diaconato na Escritura - Diaconato na História - Diaconato no Ordinal - Diaconato na reflexão ecumênica - D. Sumio Takatsu
16:00 Cafezinho
16:15 Divisão em grupos para reação à Palestra do Assessor
17:00 Relatórios dos Grupos
17:30 Réplica do Assessor às reações dos grupos
18:30 Intervalo
19:00 Jantar
20:30 Noite Artística
08/05/98 07:30 Santa Eucaristia
08:15 Café da manhã
09:00 O Diaconato na Liturgia e no Mundo - Rev. Jaci Maruschin
10:00 Cafezinho
10:15 Divisão em grupos para reação à palestra do Assessor
11:15 Relatório dos grupos
11:45 Intervalo
12:00 Almoço
14:00 Réplica do Assessor às reações dos grupos
15:00 Uma experiência de Reestruturação do Diaconato (Igreja Anglicana do Canadá) – Revda. Maylanne Maybee
16:00 Cafezinho
16:15 Divisão de grupos
17:15 Relatório dos grupos
17:45 Reações da Assessora
18:45 Intervalo
19:00 Jantar
20:30 Noite Livre
09/05/98 08:00 Café da Manhã
08:45 Plenária com os três assessores (perguntas livres sobre o tema)
10:00 Cafezinho
10:15 Encaminhamentos e recomendações
11:45 Intervalo
12:00 Almoço
14:00 Encaminhamentos, recomendações e avaliação do Seminário
16:00 Cafezinho e intervalo
17:00 Celebração Eucarística de Encerramento
18:30 Jantar de Encerramento

ORDEM PARA A ORDENAÇÃO AO DIACONATO

(Extraído do Ordinal Anglicano)

Apresentação

Apresentadores - Dom N., Bispo na Igreja de Deus, em nome do clero e do povo da Diocese N. apresentamos N. para ser ordenado Diácono da Santa Igreja Católica de Cristo.

Bispo - Foi ele(a) aprovado(a) de acordo com os Cânones desta Igreja? E credes que seu modo de viver, seu preparo e dedicação o(a) torna qualificado(a) para exercer este ministério para a honra e a glória de Deus e para a edificação de sua Igreja?

Apresentadores - Temos certeza de que ele(a) satisfaz o que os Cânones exigem e cremos que está qualificado(a) para receber a Ordem de Diácono(a).

Bispo - N., serás leal à Doutrina, ao Culto e a Disciplina desta Igreja, conforme a vontade de Jesus Cristo? Obedecerás, de acordo com os Cânones, ao teu Bispo e outros ministros que tenham autoridade sobre ti e teu trabalho?

Ordinando(a) - Assim o farei, ajudando-me o Senhor. "Declaro que as Santas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos são a Palavra de Deus e contém todas as coisas necessárias à salvação e prometo, solenemente, conformar-me à Doutrina, ao Culto e à Disciplina da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil". (nota) ordinandola) assinará a declaração à vista dos presentes.) levantando-se todos, o Bispo dirá:)

Bispo - Prezados irmãos em Cristo, sabeis da importância deste ministério e compreendeis o peso da vossa responsabilidade ao apresentar N. à ordenação à Sagrada Ordem dos Diáconos. Portanto, se alguém de vós souber de qualquer impedimento ou crime, mediante o qual não devamos prosseguir, queira apresentar-se e declará-lo publicamente. (não havendo objeção, o Bispo prosseguirà)

Bispo - É vosso desejo que N. seja ordenado(a) Diácono(a)?

Povo - Assim desejamos.

Bispo - Estais prontos a ampará-lo(a) neste ministério?

Povo - Sim, nós o(a) apoiaremos e oraremos por ele(a). (então o Bispo convidará o povo a orar.)

Bispo - Em paz, oremos ao Senhor. (segue-se a Litania para Ordenações)


Exame Canônico para a Ordenação ao Diaconato

(Todos, clero e congregação, com exceção do(a) ordinando(a), sentar-se-ão neste momento.)

(O(a) ordinando(a) permanecerá de pé, diante do Bispo)

Bispo - N., todo cristão/cristã é chamado(a) a seguir a Jesus Cristo, servindo a Deus, o Pai, mediante o poder do Espírito Santo. Deus agora te chama para um ministério especial de serviço, sob a orientação do teu Bispo. Em nome de Jesus, deves servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários. Como Diácono(a) na Igreja, deves estudar as Santas Escrituras, buscando nelas inspiração e orientação para a tua vida. Deves tornar conhecido o amor redentor de Cristo, por tua palavra e exemplo, entre aqueles com quem convives, trabalhas e adoras. Deves interpretar à Igreja as necessidades, preocupações e esperanças do mundo. Hás de colaborar com o Bispo e os Presbíteros na adoração pública e na ministração da Palavra de Deus e dos sacramentos e exercerás outras funções a ti atribuídas, de tempos em tempos. Constantemente tua vida e ensino demonstrarão ao povo de Cristo que, em servindo aos desamparados, estás servindo ao próprio Cristo.

N., crês que estás sendo verdadeiramente chamado por Deus e sua Igreja a viver a vida e a obra de um Diácono?

Ordinando(a) - Nesta persuasão estou.

Bispo - Agora, na presença da Igreja, te comprometes a cumprir com este dever e responsabilidade?

Ordinando(a) - Sim, eu me comprometo.

Bispo - Respeitarás e serás guiado pela orientação pastoral e liderança de teu Bispo?

Ordinando(a) - Assim o farei, ajudando-me o Senhor.

Bispo - Serás assíduo na oração, na leitura e no estudo das Sagradas Escrituras?

Ordinando(a) - Assim o farei, ajudando-me o Senhor.

Bispo - Procurarás sentir a presença de Cristo nos outros, dispondo-te a ajudar e servir aos necessitados?

Ordinando(a) - Assim o farei, com a ajuda de Deus.

Bispo - Procurarás, da melhor forma possível, moldar a tua vida e a de tua família de acordo com os ensinamentos de Cristo, de modo que sejas um exemplo salutar para o povo de Deus?

Ordinando(a) - Assim procurarei, ajudando-me o Senhor.

Bispo - Procurarás, em tudo, não a tua glória, mas a glória do Senhor Jesus Cristo?

Ordinando(a) - Assim o farei, com o auxílio de Deus.

Bispo - Que o Senhor, pela sua Graça, te sustente no serviço que Ele te confia.

Ordinando(a) - Amém.


Ordenação do(a) Diácono(a)

(Estando o(a) ordinando(a) ajoelhado(a) à sua frente, o Bispo fará a seguinte oração:)

Bispo - Ó misericordiosíssimo Deus e Pai, louvamos- te por que enviaste teu Filho Jesus Cristo, que tomou sobre si a forma de servo e se humilhou, tornando-se obediente até a morte de cruz. Louvamos-te porque o exaltaste e o fizeste Senhor de todas as coisas e, através Dele, nos ensinaste que o maior entre todos é aquele que serve. Louvamos-te pelos diversos ministérios em tua Igreja e por teres chamado N. para a Ordem dos Diáconos.

(O Bispo imporá suas mãos sobre a cabeça do(a) ordinando(a) e dirá:)

Bispo - Portanto, ó Pai, por Jesus Cristo, teu Filho, concede o Espírito Santo a(o) N. Enche-o(a) de graça e poder e faze-o(a) Diácono(a) na tua Igreja.

(O Bispo acrescentará ainda)

Bispo - Faze-o, ó Senhor, modesto, humilde, constante e forte para praticar a disciplina de Cristo. Permite que sua vida e ensino sejam reflexos de seus mandamentos, para que, por ele, muitos venham a te conhecer e te amar. Assim como teu Filho não veio para ser servido, mas para servir, possa este Diácono compartilhar do serviço de Cristo e venha a usufruir da sempiterna glória daquele, que contigo e o Espírito Santo vive e reina um só Deus, por todos os séculos. Amém.


Entrega dos Símbolos de Ministério

(neste momento o(a) novo(a) Diácono(a) será devidamente paramentado(a), de acordo com a sua Ordem Sagrada.) (a seguir, o Bispo entregará a Bíblia ao/à novo(a) Diácono(a) e dira:)

Bispo - N., recebe esta Bíblia como sinal de tua autoridade para proclamar a Palavra de Deus e ajudar na ministração de seus santos Sacramentos.


Pós-Comunhão

(após todos terem comungado, o Bispo convidará o povo a orar com as seguintes palavras:)

Bispo - Oremos:

Todos - Pai todo poderoso, damos-te graças porque nos tens nutrido com o santo alimento do Corpo e Sangue de teu Filho Jesus Cristo, e nos unes por meio dele, na comunhão do teu Santo Espírito. Nós te agradecemos porque fazes surgir dentre nós servos fiéis para o ministério de tua Palavra e Sacramentos. Suplicamos-te que N. seja para nós exemplo eficaz em palavras e ações, em amor e paciência, e em santidade de vida. Concede que, junto a ele/ela, te sirvamos agora e que sempre nos alegremos na tua glória. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina, contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, pelos séculos sem fim. Amém.


DETERMINAÇÕES CANÔNICAS

SOBRE O DIACONATO NA IEAB

CAPÍTULO III

Dos Ministérios

CÂNON 11

Dos Diáconos e Seus Deveres

Art. 1º - São deveres do diácono: a) pregar a palavra de Deus; b) servir ao presbítero a quem responde; c) cuidar dos pobres e doentes e todos aqueles que enfrentam problemas; d) batizar quando for requerido.

Art. 2º - O diácono está sujeito à direção imediata do bispo diocesano e, após a ordenação, é nomeado por este para servir como coadjutor em uma paróquia ou missão, exceto no caso em que, à discrição do bispo, tal não seja possível ou conveniente.

§ único - No exercício de duas funções de coadjutor, o diácono agirá de acordo com as prescrições do reitor ou pároco.

Art. 3º - Nenhum diácono pode exercer as funções de reitor ou pároco. (Extraído dos Cânones Gerais da IEAB)


CONSULTA ANGLICANA-LUTERANA

SOBRE O DIACONATO

Centro Emmaus, West Wickham, Kent, Inglaterra 24 a 30 de abril de 1995

COMISSÃO INTERNACIONAL

ANGLICANA-LUTERANA Hannover- Alemanha 5 a 11 de outubro de 1995

PREFÁCIO

Os luteranos e anglicanos como cristãos de muitas outras tradições têm-se engajado nas recentes décadas em muitos debates sobre a natureza do ministério - tanto do ministério de todo o povo de Deus quanto dos ministros ordenados.

Esse debate foi intensificado pela publicação em 1982 do documento de Lima, Batismo, Eucaristia e Ministério (BEM), que intencionalmente levantou muitas questões fundamentais de eclesiologia, ministério e ordenação.

Uma nova abordagem pioneira foi realizada pela Comissão Internacional Anglicana-Luterana (ALIC) no Relatório de Niágara (1987), que manejou a questão da episcopé, supervisão pastoral, a partir da perspectiva da missão da Igreja. Esse relatório produziu uma brecha na compreensão anglicana- luterana, que já produziu fruto na Concordata proposta nos Estados Unidos e Declaração Comum de Porvoo (1992) entre as Igrejas anglicanas britânicas, irlandesas e as luteranas nórdicas e bálticas.

A ALIC acreditou que o próximo passo lógico consistiria em empreender um novo estudo conjunto sobre o diaconato, especialmente porque ordenamento tríplice do ministério ordenado têm sido uma questão central no diálogo anglicano-luterano. A atmosfera de abertura e confiança mútua crescente nos tem dado a confiança para o trabalho conjunto sobre esta questão onde perplexidades e diferenças reais são evidentes, contudo sem ser uma questão que nos divide. O nosso desejo tem sido o de aprender um e do outro qualquer coisa que seja útil para a missão comum que compartilhamos e evitar a duplicação de esforço desnecessária.

Desde o começo deste projeto estivemos conscientes de que a nossa reflexão teológica precisa ser enraizada na experiência e nas preocupações que, realmente, exercem vários ministérios diaconais. Registramos com gratidão aos consultores nomeados no apêndice 1. às cujas evidências e a cujas convicções demos atenção séria.

Estivemos igualmente conscientes de que algumas Igrejas não têm um ministério ordenado distinto do presbítero/pastor. Não obstante, o tema deste relatório é diretamente relevante onde, em resposta às necessidades específicas, formas de ministério têm surgido, as quais poderiam ser melhor reconhecidas e utilizadas, se percebidas no contexto do ministério diaconal. Não só aqueles que estão engajados em tal trabalho, mas também aqueles, às quais servem e com os quais cooperam, podem ser auxiliados a valorizar esse ministério diaconal com maior apreciação.

O nosso objetivo é oferecer um raciocínio teológico que segue uma linha clara de argumento: de Cristo e do Espírito Santo, por meio do ministério de todo o povo de Deus (inclusive o ministério ordenado) para uma compreensão do diaconato. A parte posterior deste estudo focaliza a função do diácono ordenado em particular, distintamente da compreensão mais ampla da diakonia.

Desejamos conhecer muito mais do que descobrimos até aqui acerca da extensão impressionante dos ministérios diaconais. Lamentamos que os nossos recursos limitados não nos permitiram fazer um levantamento mais amplo de fatos. Alegramo-nos com a descoberta de que um bom número de grupos de trabalho e projetos de pesquisas sobre o presente já estão em processo em várias Igreja pelo mundo inteiro. Isso reforça a nossa convicção de que oportunidade ecumênica reside desenvolvimento do diaconato e indicamos no apêndice 3 os pontos principais fatuais, sobre os quais acolhemos informação dos líderes e presidentes das associações e comunidades diaconais.

Recomendamos este Relatório de Hanover aos nossos organismo eclesiais: Conselho Consultivo Anglicano, Federação Mundial Luterana e, por intermédio deles, às suas Igrejas membros em todo o mundo. Esperamos que este relatório sirva de catalisador tanto para o estudo conjunto quanto para a ação conjunta. Também ousamos em acreditar que este pode ter significado para além de nossas duas Comunhões mundiais e solicitamos aos nossos parceiros ecumênicos a estudá-lo no contexto da busca por uma unidade visível mais estreita e de serviço comum ao mundo de Deus.

Por consentimento comum os membros da ALIC dedicam este relatório à memória do falecido Diácono Tom Dorris, da Igreja Evangélica Luterana na América. Tom exerceu, por muitos anos, um ministério competente na Unidade de Comunicações do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra. relatando e interpretando os afazeres das Igrejas à midia. Ele foi advogado sutil de um diaconato restaurado e cuidadosamente conferiu as respostas de todas as Igrejas aos parágrafos do documento de Lima no


I. INTRODUÇÃO

  1. O Diaconato, instituição de grande importância na Igreja primitiva, está outra vez chegando à vida da Igreja como um ministério e oficio estreitamente relacionados com os aspectos centrais da identidade da Igreja: serviço, expansão, humildade e preocupação com as necessidades humanas. Este revigoramento do diaconato tem muitas raízes: reavivamento litúrgico, senso mais vivo da missão da Igreja no mundo e percepção renovada da legítima diversidade dos ministérios da Igreja. Essas fontes moldaram conjuntamente muitas formas de diaconato e ministério diaconal em prática hoje ou sob considerações em nossas Igrejas.

  2. Não tem surgido ainda consenso ecumênico sobre a natureza e formas do diaconato e do ministério diaconal. Não só as diferentes Igrejas tomaram decisões diferentes acerca do diaconato, mas os debates continuam dentro das Igrejas a respeito de tais questões fundamentais quanto a se o diaconato é propriamente um ministério ordenado ou um ministério leigo e se os candidatos que procuram ser ordenados presbíteros ou pastores devem ser, primeiro, ordenados ao diaconato (assim chamado o "diaconato transitório"). O diaconato e os ministérios diaconais encontram-se ainda em estado fluído em muitas Igrejas. Novas formas de diaconato foram introduzidas em algumas Igrejas, com variados graus de aceitação, e estão sendo estudadas em outras Igrejas. Embora não seja o diaconato uma questão central da fé, a restauração e revigoramento do diaconato têm efeito sobre toda a estrutura de todo o ministério da Igreja. Não só remodela a missão, mas toca diretamente as vidas vocacionadas de pessoas comprometidas com o ministério. O debate sobre o diaconato tem, por conseguinte, implicações altamente práticas.

  3. A transição e fluidez do diaconato tem sido acelerado pelo trabalho exegético recente sobre o significado do termo diakonia no Novo Testamento e na Igreja primitiva. Os trabalhos no passado argumentavam que o serviço na mesa o serviço humilde representavam o sentido paradigmático do termo. A diakonia como um termo do ministério cristão foi tomada, por conseguinte, para se referir especialmente ao caráter humilde que deve ser típico de todo o ministério em nome de Cristo.

  4. O trabalho de exegese mais recente, especialmente, de John Collins em sua Diakonia: reinterpretação das fontes antigas. (Oxford 1990) pôs em dúvida o consenso anterior. No mundo em que a Igreja primitiva viveu, a diakonia parece ter referido ao serviço de "alguém que fica na posição intermediária" (go-between), de agente que executa as atividade para os outros. Nas cartas de Paulo, parece, também. que o termo diakonia é empregado para descrever Paulo e seus parceiros como alguém que ficava na posição intermediária, que levava o Evangelho de Deus ou de Cristo para os que estão para ouvir a mensagem da salvação. Diakonia parece referir-se mais ao apostolado do que à compreensão atual do diaconato. Embora continuem os estudiosos debatendo, suas descobertas e conclusões não podem ser ignoradas

  5. Mudança institucional e conceitual em relação ao diaconato e ministério diaconal deve ser abraçada como oportunidade para explorar novas formas de missão. Este estudo tem-se preocupado, especialmente, com o estudo do diaconato e ministério diaconal como oportunidade ecumênica, oportunidade para a missão comum entre as Igrejas. O progresso ecumênico não se deve restringir aos debates teológicos ou aos acordos formais, mas carece alcançar a vida e missão comuns e por estas ser alimentadas. Ao se pôr em movimento do seu estudo anterior sobre episcopé (Relatório da Consulta Anglicana-Luterana sobre o Episcopado, Niagara, 1987) para o presente estudo sobre o diaconato, Comissão Internacional Anglicana- Luterana não se deslocou das questões principais de importância ecumênica, mas antes tem caminhado para o coração da missão da Igreja. Além disso,


embora fosse conduzido este estudo por uma comissão bilateral, observadores de outras tradições eclesiais participaram no trabalho preliminar desta Comissão e CIAL - Comissão Internacional Anglicana-Luterana espera que os resultados deste estudo sejam relevantes para além de nossas duas tradições.

  1. Nas Comunhões Anglicana e Luterana, a natureza do diaconato e as possibilidades de sua renovação têm sido muito discutidas nos recentes anos. Um estudo em nível internacional foi solicitado pela Conferência de Lambeth 1988 e pela Consulta da Federação Mundial Luterana sobre o ministério realizada em Cartigny, Suíça, em 1992. Em respostas a estas solicitações, este estudo foi proposto pela CIAL em sua reunião realizada em Joanesburgo em 1993 e aprovado pelo Conselho Executivo do Conselho Consultivo Anglicano e do Encontro dos Primazes em março de 1994 e pelo Conselho Executivo da Federação Mundial Luterana em junho de 1994. Trabalhos básicos foram feitos numa consulta preparatória, em West Wickham, Kent, Inglaterra em abril de 1995. Essa consulta produziu o contorno de uma declaração sobre o diaconato. Com base nos trabalhos e o contorno produzidos nessa consulta e com a participação dos consultores, CIAL desenvolveu o presente texto em seu encontro em Kloster Wennigsen, próximo a Hannover, na Alemanha, em outubro de 1995. Os trabalhos feitos em West Wickham estão à disposição dos interessados no escritório do Conselho Consultivo Anglicano, em Londres.

  2. Assim como o Relatório de Niágara trabalhou com o episcopé, este estudo procura colocar o diaconato no contexto de uma visão mais inclusiva da missão de Deus no mundo. Por conseguinte, este trabalho começa com a consideração sobre o Cristo e o Espírito Santo como os agentes que conduzem sempre o ministério da Igreja. Então, passa-se a discutir a Igreja como o sinal e instrumento da obra de Cristo e do Espírito. A Missão e Ministério da Igreja formam, então, o contexto para a discussão do diaconato e ministério diaconal no resto do trabalho.


II. FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DO

DIACONATO E DO MINISTÉRIO DIACONAL

A. Cristo, Reino e Espírito

  1. A Igreja e seus membros têm exercido com fidelidade o ministério diaconal e continuam exercê- lo sob uma grande variedade de circunstâncias e formas. Neste documento a Comissão Internacional Anglicana-Luterana recorre a um modelo teológico que ela acredita ser adequada especialmente para localizar o ministério diaconal dentro da missão e ministério da Igreja como um todo. A Igreja tem tanto sua base histórica quanto teológica na ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição de Jesus é o evento escatológico (1Co 10.11) que revela o Crucificado como "Senhor e Messias" (At 2.36), identificando-o como Aquele que determina o destino último do universo (1Co 15.24-28) e colocando sob seus pés todas as coisas como a cabeça da Igreja (Ef 1.22). Ele é o Senhor escatológico porque a "morte jamais tem domínio sobre ele" (Rm 6.9). Todos os poderes da "velha era" são dominados pela morte e são caracterizados como impulsos implacáveis para auto- preservação a qualquer preço, em detrimento de outrem. Se Jesus Cristo tem palavra final, então, Ele confere a liberdade de auto-oferenda em favor do mundo, na convicção de que há mais para fazer pela do que a preservar, (Mt 16.24-26 e paralelos. Cf. Relatório de Niágara, parágrafos 22-23).

  2. A ressurreição de Jesus Cristo é a lente pela qual a Igreja percebe a missão e o ministério de Jesus e reconta a sua estória. A missão histórica de Jesus consistia em anunciar as Boas Novas do reinado de Deus na proclamação, parábolas, para incorporar o reinado de Deus em sinais e ações e ser a realização histórica da vitória final prometida do reinado de Deus por meio de sua morte e ressurreição (Mc 1.14-15; Lc 17.21-22; Mt 11.2-6; Lc 11.20). Numa morte de escravo (Fp 2.6-8) na Cruz, Ele sofreu as conseqüência de seu próprio ministério diaconal. Pois Jesus foi crucificado por causa de sua missão messiânica, a qual Deus abraçou todo o Israel e toda a humanidade. Na Cruz, Jesus foi obediente ao envio e à missão do Pai (Mc 14.32-37) no poder do Espírito Santo (Mc 1.9-11). Jesus foi enviado pelo Pai para reconciliar toda a Criação com Deus (2.5.17-19).

  3. Em Cristo, já começou a vitória do reinado de Deus sobre os poderes da morte e do pecado. O ministério de liderança de Cristo não é, portanto, como liderança no mundo da morte e do pecado (Mc 10.41- 45). Este tem um caráter e qualidade de terminados pelo modo de Cristo viver no mundo e pelo mundo, a serviço de seu Pai. O Cristo é determinante para o ministério e ministérios da Igreja. Ele é a base da leitourgia (liturgia) e adoração da Igreja, pois Ele oferece e dá a si mesmo em obediência livre (Hb 9.14; GI 2.20; 1Co 11.23-26; Jo 12.20-33, etc.) Ele é a base da martyria (testemunho) da Igreja, pois Ele é o testemunho fundante do amor eterno do Deus Triuno (1Jo 3.16; Ro 15.8). Como a Palavra feita carne


enviada pelo Pai, Jesus é o fundamento da diakonia da Igreja, a liberdade de anunciar e trazer a salvação escatológica (Ro 15.8). Cristo é diakonos, o servo, e como agente e imagem Daquele que o enviou age e perdoa os pecados com o próprio poder de seu Pai, faz a mediação da vontade do Pai para o mundo. Ser diácono não significa que os papéis do líder e do servo sejam invertidos ou abolidos, mas antes os papéis dos que lideram e governam são os de servos, isto é, como agentes da salvação de Cristo (Lc 22.27).

  1. O derramamento do Espírito Santo é o sinal prometido por Cristo de que o reinado escatológico de Deus chegou. Em cada circunstância, a presença e o poder do Espírito Santo dão testemunho de que o ato final da história já aconteceu em Jesus Cristo. O Espírito Santo veio sobre a Maria na concepção de Jesus (Mt 2.18-20; Lc 1.35). O Espírito Santo desceu sobre Jesus na sua comissão batismal (Mc 1.10 e paralelos). O Espírito Santo foi prometido como o dom escatológico de Cristo para seus discípulos (At 1.8; Jo 14.15-17), etc.)

  2. Por conseguinte, o resultado da missão e ministério de Cristo é nada menos que uma nova Criação. O universo como um todo é rodeado pelo amor, cuidado, compromisso redentor e salvação criativa da Santíssima Trindade.

B. Igreja

  1. A Igreja é chamada e designada para ser sinal eficaz e instrumento do reinado de Deus. O reinado escatológico de Deus inaugurado por Jesus Cristo e dele inseparável é o objetivo e promessa de Deus na história. O reinado de Deus é servido onde quer que as instituições, comunidades, movimentos, indivíduos contribuam para a paz com justiça, para a compaixão pelos sofredores, para a preservação e cuidado da criação, para a admoestação e conversão dos pecadores.

  2. A Igreja é chamada e admoestada para refletir no seu ser, na sua adoração, na sua vida e ministério o que Deus tem feito e está fazendo (Ef 4.1-6: Rm 12; Cl 3.1-4,1; Relatório de Niágara, 24). O padrão do escrito apostólico na Carta aos Efésios, por exemplo, consiste em que a Igreja é admoestada e exortada sob a base do que Deus tem feito. Em Cristo, o reinado de Deus já chegou. Isto significa que, entre outras coisas, Deus derrubou as muralhas de hostilidade entre judeus e gentios, homem e mulher, escravo e livre (Gl 3.28; Ef2.11-22).

  3. A Igreja

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