Temas de Anglicanismo – Volume 1

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Temas de Anglicanismo – Volume 1

Rafael Vilaça Epifani Costa2024

Temas de Anglicanismo – Volume 1

Apresentação

Esta obra é fruto de uma coletânea de estudos sobre o Anglicanismo no Brasil, que desenvolvi ao longo das minhas pesquisas do Doutorado na Universidade Católica de Pernambuco, e que pude, concluir, graças a estudos posteriores. Busco apresentar três grandes eixos: histórico, teológico e litúrgico.

A história do Anglicanismo no Brasil é mais rica e complexa do que a historiografia tradicional costuma apresentar. Uma das descobertas mais intrigantes que já fiz durante minhas leituras foram os indícios de que já havia uma forte presença inglesa e o desenvolvimento de uma fé anglicana, em pleno Brasil Holandês do século XVII. Essa revisão historiográfica questiona a visão de que o Anglicanismo teria chegado ao país apenas com os imigrantes britânicos no século XIX, apontando para raízes mais profundas e indiretas da influência anglófona em solo brasileiro.

Da mesma forma, a construção da Diocese Anglicana do Recife representou um marco importante no Anglicanismo nacional, mas também foi o início de um dos períodos mais críticos na história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – a Província da Comunhão Anglicana em nosso país. A disputa entre as lideranças locais evidenciou a fragilidade teológica e eclesial, especialmente sobre temas como sexualidade, autoridade episcopal e interpretação bíblica, e segue tendo impactos significativos até hoje.

Como parte de minhas pesquisas e trabalho teológico, também busco apresentar outras faces desconhecidas do Anglicanismo brasileiro. Um dos personagens mais emblemáticos para mim é Salomão Ferraz, cuja trajetória singular no Cristianismo – ordenado pastor presbiteriano, militou por muitos anos nas fileiras anglicanas, até ser ordenado bispo e ingressar no catolicismo romano. Sua vida é símbolo das tensões religiosas de sua época, antecipando em muitos aspectos os debates que o ecumenismo vivenciaria no país.

Nesse contexto, também apresento o trabalho desenvolvido pela Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana (CONAC), criada para aprofundar o diálogo entre a IEAB e a Igreja Católica no Brasil. Inspirada nos acordos internacionais da ARCIC, essa comissão tem promovido iniciativas litúrgicas, teológicas e sociais conjuntas.

Outro tema que está sempre presente nos debates anglicanos é a ordenação de mulheres ao sacerdócio, e de modo especial, ao episcopado. A história das primeiras bispas anglicanas no Brasil representa uma mudança de paradigma no Anglicanismo nacional, mas também na conjuntura atual de uma Comunhão Anglicana ainda dividida sobre a questão da ordenação feminina, a qual, tem implicações teológicas, pastorais e litúrgicas.

A Liturgia Anglicana também tem sido central na identidade da IEAB nos últimos anos. O novo Livro de Oração Comum (de 2015) foi um marco na busca por uma liturgia que fosse ao mesmo tempo fiel à tradição e sensível às demandas contemporâneas. Ele incorpora linguagem inclusiva, opções ecumênicas e abertura à diversidade de expressões espirituais. No campo do uso da arte nos espaços sagrados, temos o exemplo do “hiperícone” da Paróquia Cristo Rei, na Cidade de Deus (Rio de Janeiro), que se tornou um objeto de estudo nesta obra, apontando características de um estilo que propõe uma iconografia anglicana brasileira, ao mesmo tempo tradicional, contextual e urbana.

Durante a Pandemia da Covid-19, o mundo enfrentou o desafio de manter a vida comunitária em um contexto de isolamento. Neste tempo, a Diocese Anglicana do Recife realizou o primeiro Concílio online da Comunhão Anglicana, através do uso de plataformas digitais para cultos, reuniões e formações, abrindo um precedente para outras formas de partilhas, planejamentos e também de devoções. O momento trouxe à tona desigualdades e a necessidade de uma pastoral mais sólida, fazendo a Igreja crescer, mesmo em tempos de crise.

E, para fechar esta coletânea, trago a história do local que foi a minha escola pastoral e litúrgica, a Paróquia Anglicana da Ascensão, em Recife. Trata-se de uma comunidade que foi construída do zero, a partir de uma forte identidade anglo-católica, enraizada na periferia da capital pernambucana. Mesclando a solenidade da liturgia católica, devoções populares e uma raiz missionária, creio que conseguimos mostrar (e também ensinar) como podemos cultivar a unidade na diversidade, mas, sobretudo, reconstruir a Igreja de Cristo a partir do próprio povo, suas linguagens, vivendo o jeito de ser anglicano para viver a comunidade. Espero que esse mergulho em diferentes temas do Anglicanismo faça você crescer ainda mais no conhecimento e na fé cristã.

Rev. Dr. Rafael Vilaça Epifani Costa


Introdução

O Anglicanismo é uma tradição cristã oriunda da Inglaterra, que surgiu no contexto da Reforma Protestante, no século XVI, com a separação da Igreja da Inglaterra (Church of England) da Igreja Católica pelo rei Henrique VIII, e sua posterior estruturação pela sua filha, a rainha Elizabeth I.

Antes falarmos sobre o processo de formação do Anglicanismo no Brasil, e de sua principal denominação no país, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, é preciso situar o leitor e aqueles que estão ingressando no universo desta rica tradição cristã. A implantação das Igrejas Anglicanas e Episcopais na América Latina ocorreu de diferentes formas. Primeiro, é preciso que consideremos que não existe apenas uma Igreja Anglicana, como é o caso da Igreja Católica Romana. A palavra Episcopal é sinônimo de Anglicano. A diferença é que Igrejas intituladas Anglicanas foram implantadas mediante o processo de colonização pela Coroa Britânica em suas respectivas colônias, através do sistema de capelanias. Já as Igrejas intituladas Episcopais, foram fruto da missão da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, a partir do final do século XIX e início do século XX.

Em segundo lugar, devemos lembrar que, do ponto de vista missionário, já existiam diferentes perspectivas de trabalhos a serem desenvolvidos em países latino-americanos já cristianizados séculos antes pelo Catolicismo romano. As regiões em questão possuíam características culturais, políticas e sociais totalmente diferentes. No mundo de língua hispânica, o Anglicanismo chegou por duas frentes, uma inglesa e outra norte-americana.

No Brasil, o cenário foi diferente, uma vez que, o fato da missão episcopal ter se estabelecido em um país lusófono, repercutiu de uma maneira peculiar na maneira como o Anglicanismo se consolidou nesta região da América Latina. Por conta das condições financeiras e processos históricos e políticos, algumas Igrejas se tornaram autônomas, como a IEAB. Porém, até hoje, outras dioceses ainda estão sob a jurisdição da Igreja da Inglaterra ou da Igreja Episcopal dos EUA.

No final do século XIX e início do século XX, a missão foi um tema que causou divisão entre as próprias agências missionárias da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, porque os Anglo-Católicos entendiam que não era necessário realizar missão em locais já atendidos pela Igreja Católica Romana, enquanto os grupos Anglo-Evangélicos entendiam que deveriam levar o Evangelho como um elemento civilizatório e progressista às regiões colonizadas. Assim, as missões dentro dos Estados Unidos, eram todas realizadas por agências Anglo Católicas, enquanto que, as missões organizadas em países estrangeiros eram coordenadas por agências missionárias Anglo-Evangélicas, estas, por sua vez, alinhadas com a Doutrina do Destino Manifesto. Do ponto de vista destas agências missionárias, em 1910 aconteceu o Congresso do Panamá que discutiu o tema da missão na América Latina, o qual iria definir o perfil das missões nesta região entre as Igrejas de orientação protestante.

Na América Latina, o Anglicanismo se estabeleceu ora através das capelanias inglesas, ora através das missões episcopais norte americanas. Em outros lugares não foi a atividade missionária, mas os processos históricos que deram origem às Igrejas, que por sua vez acabaram por aderir à doutrina, à disciplina e aos padrões de culto do Anglicanismo. A Igreja Anglicana do México é um desses exemplos, pois, não se formou através de uma capelania inglesa ou uma missão episcopal, mas devido às reformas religiosas que ocorreram naquele país em 1857, estabelecendo a liberdade religiosa e o Estado Laico, com a separação da Igreja Católica Romana do governo mexicano. Em 1º de janeiro de 1995, a Igreja mexicana tornou-se uma província da Comunhão Anglicana, também sendo eleito o seu primeiro Primaz.

Em 1997, após a autonomia da Igreja Anglicana do México, foi criada uma nova Província no Caribe, a partir da união de cinco dioceses que hoje formam a Igreja Anglicana da Região Central da América (IARCA), sendo por países como Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Nicarágua e Panamá. Também existem igrejas, estabelecidas mediante a colonização inglesa, como a Igreja na Província das Índias Ocidentais, que se tornou uma província autônoma em 1883. Esta é composta por duas dioceses continentais e seis dioceses insulares, incluindo Barbados, Belize, Guiana, Jamaica, Bahamas, o Nordeste do Caribe e Aruba, Trindade e Tobago e as Ilhas de Barlavento.

Já na América do Sul, as sociedades missionárias inglesas fundaram capelanias, que por sua vez originaram as primeiras dioceses. Em 1981, foi organizada a Província do Cone Sul da América (em 2014, renomeada Igreja Anglicana da América do Sul), com sede na cidade de Buenos Aires, e que agrega seis dioceses – na Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai –, e em alguns lugares do Caribe poucas Igrejas ainda continuam diretamente ligadas à Igreja da Inglaterra. Em outros países da região, existem nove dioceses que estão ligadas à região da Província IX da Igreja Episcopal dos Estados Unidos (Equador Central, Equador Litoral, Colômbia, República Dominicana, Honduras, Porto Rico e Venezuela).

De acordo com a historiografia oficial, o Anglicanismo chegou ao Brasil em 1810, com o estabelecimento de capelanias voltadas para atender cidadãos britânicos, que realizavam apenas celebrações em língua inglesa, sendo, portanto, a primeira Igreja não católica a ser estabelecida em solo brasileiro. Durante o período Colonial, e, durante o Império, missionários oriundos de Igrejas Históricas (anglicanos, luteranos, batistas, presbiterianos e congregacionais) passaram a dar suporte espiritual às comunidades formadas por imigrantes ou residentes estrangeiros no país.

Os alemães implantaram a Igreja Luterana, em 1824; imigrantes norte-americanos a Igreja Batista, em 1871, a Igreja Metodista e a Igreja Adventista, em 1890. Por fim, os missionários Robert Kalley e Ashbel Green Simonton estabeleceram a Igreja Congregacional, em 1855, e a Igreja Presbiteriana, em 1859. Diferente das demais denominações, voltadas para as comunidades de estrangeiros, os congregacionais e presbiterianos organizaram as primeiras Igrejas Protestantes voltadas para o público brasileiro, realizando cultos em português.

Já o marco de fundação da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é o ano de 1890, quando os missionários episcopais Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris realizaram as primeiras celebrações na língua portuguesa e organizaram as primeiras comunidades, voltadas para o público brasileiro. Tempos depois, desenvolveu-se um robusto trabalho missionário entre os imigrantes japoneses nos estados do Paraná e São Paulo, através do reverendo João Yasoji Ito.

Por esta razão, pode-se afirmar que, o processo de formação da IEAB se ocorreu através da confluência de três frentes, formadas pelas capelanias inglesas, a missão da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, e o trabalho pastoral junto à comunidade japonesa. Na década de 50, com a divisão do distrito missionário episcopal em três dioceses, não tardou para se concretizar o sonho de uma Igreja Nacional, e em 1965, a IEAB tornou-se a 19ª Província da Comunhão Anglicana.

Institucionalmente, a IEAB organizou-se seguindo os moldes da sua Igreja-Mãe norte-americana, sendo a sua expansão patrocinada pelas sociedades missionárias. Os ingleses presentes no país passaram a integrar comunidades brasileiras a partir de um acordo assinado em 1955 entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Entretanto, estes nunca conseguiram se integrar totalmente, formando um corpo estranho dentro de uma Igreja de língua portuguesa. Nas cidades em que as capelanias britânicas encerraram suas atividades, os templos históricos foram incorporados ao patrimônio da nova Província, e em outros lugares, em que a comunidade inglesa ainda era atendida em sua língua, permaneceram como um ente exótico.

Quando analisamos o processo histórico e missionário, que culminou na formação da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como uma Igreja autônoma e independente dentro da Comunhão Anglicana, podemos apontar as influências das demais Igrejas como sendo as antepassadas da Província brasileira. Dessa forma, como os próprios episcopais anglicanos brasileiros apontam, em termos coloquiais, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos pode ser considerada a sua “Igreja-Mãe”, a Igreja Episcopal Escocesa a “Igreja-Avó” e a Igreja da Inglaterra a “Igreja-Bisavó”.

Embora a “matriarca” da Comunhão Anglicana, seja a mais distante de todas estas acima citadas, nas relações institucionais com IEAB, Igreja da Inglaterra foi a primeira que enviou sacerdotes para atender aos cidadãos de língua inglesa presentes no estrangeiro, ora desenvolvendo uma Igreja Colonial (aos moldes do que aconteceu nos Estados Unidos, no Canadá, na África do Sul, ou na Austrália), ou instalando capelanias locais, para atender aos súditos da Coroa que se encontravam nestes países. Todavia, ao contrário do que os livros de história ensinam, existe um dado histórico que passa despercebido e que, de modo especial neste e em outro livro deve ser considerado: O Anglicanismo chegou primeiro ao Brasil, durante a ocupação holandesa, na cidade do Recife, no século XVII.


Anglicanos no Brasil Holandês

Uma revisão da historiografia tradicional


Introdução

Os livros de História do Brasil e as obras de história eclesiástica registram que, a chegada do Anglicanismo no Brasil, ocorreu no início do século XIX, por meio do estabelecimento de capelanias para atender aos súditos do Império Britânico que se encontravam em terras brasileiras. A assinatura do Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra permitiu não apenas uma expansão das relações comerciais e diplomáticas entre as duas nações amigas, mas também criou um ambiente que permitiu a chegada do culto anglicano em terras brasileiras.

Assim, a chegada do Anglicanismo poderia ser dividida em dois momentos dois momentos: Primeiramente, no início do século XIX, através do estabelecimento de capelanias exclusivamente voltadas para atender aos cidadãos ingleses que estavam em viagem ou passaram a residir no Brasil. O segundo momento seria marcado por uma ação missionária, iniciando em 1890, quando chegaram à região Sul do país dois missionários oriundos da Igreja Episcopal dos Estados Unidos (The Episcopal Church), Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris.

Kinsolving e Morris estabeleceram a primeira comunidade anglicana para brasileiros na cidade de Porto Alegre. E em pouco tempo a missão norte-americana se expandiu. A então chamada Igreja Episcopal Brasileira foi elevada ao status de distrito missionário da TEC. Em 1949 este distrito foi dividido em três dioceses, fato este que alimentou os desejos dos membros de transformar a missão em uma Igreja independente. Com o crescimento e expansão pelo país, em 1965 a Igreja brasileira deixou de fazer parte da jurisdição da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, obtendo sua independência financeira e administrativa, tornando-se, a partir de então, conhecida como Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), integrando a Comunhão Anglicana como sua 19ª Província.

Porém, a partir dos anos 2000, a IEAB começou a sofrer uma série de cismas que levaram à criação de inúmeras Igrejas, Dioceses e grupos independentes que hoje compõem o Anglicanismo brasileiro. E o ponto de partida para esta crise se dá a partir de problemas surgidos na Diocese Anglicana do Recife. É uma ironia da história que a divisão (ou a fragmentação do Anglicanismo no Brasil) tenha começado na cidade em que, dois séculos antes de ser permitida a abertura dos portos à Inglaterra, por parte do governo português de Dom João VI, tenha sido, sob o governo de Maurício de Nassau, que os primeiros navios ingleses chegaram ao Brasil.

Esta afirmação cria um novo marco na historiografia, anterior ao que é registrado, por autores geralmente do Sul e Sudeste do Brasil, em narrativas que muitas vezes se confundem com a rigidez do texto litúrgico, que não pode ser alterado. Quase como uma oração que é repetida, essa informação foi sendo passada de geração em geração – de aulas da Escola Dominical até as aulas do Seminário. E, com o tempo, o dado histórico de que os anglicanos se estabeleceram no Brasil após o Tratado de 1810, tornou-se quase que um “dogma” entre os anglicanos.


Recife: Uma Cidade Sonhada por Nassau

O período em que João Maurício de Nassau liderou a colônia holandesa no Brasil – entre 1637 e 1644 – é um marco notável na história do Brasil e da região Nordeste, não apenas pelo domínio militar e político, mas também pela tolerância religiosa que se estabeleceu sob o seu governo, algo raro para a época, diante das guerras religiosas.

João Maurício de Nassau, um príncipe da Casa de Orange, foi nomeado para o cargo de governador-geral das possessões neerlandesas no Brasil, e sua administração foi marcada por uma postura mais liberal em relação às questões religiosas em comparação com governantes portugueses ou espanhóis da época. Dentre os governantes holandeses, Nassau era considerado como um dos mais visionários, por caracterizar a sua província com o estabelecimento da tolerância religiosa entre protestantes, católicos e judeus. Em vez de impor uma única fé oficial, como era comum em muitas outras partes do mundo, ele permitiu a prática de diferentes religiões, o que foi uma característica distintiva do seu governo.

A liberdade religiosa em Pernambuco, durante o período de Nassau, teve um impacto importante na vida social e religiosa da época. O governador holandês, com a intenção de garantir a paz social e a estabilidade no território, implementou políticas que favoreciam a coexistência pacífica de diferentes grupos religiosos. Os protestantes reformados neerlandeses, que eram os principais responsáveis pelo domínio, podiam praticar sua fé sem restrições. No entanto, Nassau também permitiu que os católicos, tanto portugueses quanto os nativos, continuassem a praticar sua religião. Além disso, judeus e muçulmanos que fugiam da perseguição nas partes da Europa também encontraram um ambiente relativamente mais tolerante no Brasil holandês, especialmente em Recife, que se tornou um importante centro de comércio e cultura.

Os judeus tiveram um papel significativo durante o período de Nassau, com a primeira sinagoga das Américas, a Sinagoga Kahal Zur Israel, sendo fundada em Recife, em 1641. Este evento histórico é um reflexo claro da abertura religiosa proporcionada pelo governo de Nassau, pois os judeus podiam praticar sua fé livremente, o que não acontecia em muitas partes da Europa naquela época, onde eram perseguidos e forçados a se converter ao cristianismo. Esse grau de liberdade religiosa também refletiu uma mentalidade mais pragmática de Nassau, que reconhecia a importância da tolerância para atrair comerciantes e produtores de diferentes origens.

No entanto, essa liberdade religiosa tinha uma motivação estratégica. Nassau sabia que a diversidade religiosa poderia fortalecer a economia e a administração do Brasil holandês, principalmente pela presença de comunidades judaicas ativas no comércio e no setor financeiro. Ele também estava ciente de que, ao permitir a liberdade de culto, poderia gerar menos resistência das populações locais, tanto os portugueses católicos quanto outros grupos religiosos.

Ainda assim, a liberdade religiosa, apesar de ser uma característica do governo de Nassau, não era absoluta e sem restrições. As autoridades eclesiásticas católicas estavam, muitas vezes, em desacordo com a política de Nassau, especialmente quando se tratava da influência da Igreja Católica sobre os colonos. Embora os católicos portugueses tivessem liberdade para praticar sua fé, a presença de comunidades protestantes e a construção de igrejas protestantes em Recife eram uma afronta à hegemonia católica na colônia.

Outro aspecto importante é que a liberdade religiosa sob Nassau foi possível devido à relação de poder entre os colonos holandeses e a metrópole portuguesa, que na época estava em guerra com os holandeses, e a conciliação política foi uma estratégia para manter a ordem social e evitar conflitos. A proibição da Inquisição e a tolerância com práticas religiosas não católicas eram uma forma de criar um clima de estabilidade, evitando a repressão religiosa que se observava em outros países da época.

Contudo, essa liberdade religiosa foi curta. Em 1654, após a derrota dos neerlandeses e a retomada do Brasil pelos portugueses, a liberdade religiosa foi severamente restringida. A Inquisição foi restabelecida e a prática do protestantismo foi proibida. Os judeus e outros grupos não católicos enfrentaram perseguições e repressões, e as sinagogas foram fechadas. Assim, a abertura religiosa de Nassau durou apenas o período de sua administração, mas teve um impacto duradouro na história da religião no Brasil, especialmente no que diz respeito à presença judaica e à tolerância religiosa nas futuras gerações.

A liberdade religiosa nos tempos de Nassau foi um episódio único na história do Brasil colonial, pois possibilitou a convivência pacífica de diferentes credos em um período de intensa religiosidade e conflitos entre as principais potências europeias. Embora motivada por interesses políticos e econômicos, essa liberdade representou um avanço significativo na tolerância religiosa, algo que não seria visto novamente em muitas regiões do mundo até séculos depois. A administração de Nassau, portanto, destaca-se como um exemplo de pluralismo religioso no Brasil colonial, especialmente considerando o contexto de intolerância religiosa da época.


O Clérigo Anglicano da Cidade Maurícia

A invasão holandesa no Nordeste do Brasil é marcado por vários episódios. Após a vitória em 1630, um Culto em Ação de Graças foi realizado na Casa da Câmara de Olinda, improvisada como capela. Em 14 de março, o primeiro Culto Solene ocorreu na posse dos Conselheiros da Companhia das Índias Ocidentais. Na Páscoa, por ordem dos Conselheiros, a Igreja do Salvador foi preparada para a celebração, onde o ministro pregou sermões especiais.

Estabelecidos em Pernambuco, os holandeses trouxeram pastores da Igreja Reformada. Além do trabalho nos cultos, os pastores exerciam a sua função sendo assistidos por outras lideranças como exortadores e consoladores de enfermos, que auxiliavam nas atividades religiosas, embora não participassem oficialmente das assembleias.

Durante o período de dominação, igrejas católicas do Recife foram adaptadas ao culto evangélico, como a do Corpo Santo, à qual os holandeses adicionaram uma torre e um relógio. Os sinos, antes de alcance limitado, passaram a marcar as horas para todo o bairro. O cemitério dessa igreja tornou-se local de sepultamento de figuras importantes da época, como João Ernesto, irmão de Maurício de Nassau. Originalmente construída em 1548, a igreja somente voltou ao culto católico em 1655, porém manteve-se como matriz até ser demolida em 1800 e substituída por uma nova construção, que foi posteriormente desapropriada e demolida em 1913. Seu local hoje está coberto pela Avenida Marquês de Olinda.

Com o novo fluxo vindo da Europa, templos foram construídos ou igrejas católicas adaptadas ao culto protestante. A Igreja Francesa teve templo próprio construído em 1642. Após a expulsão dos holandeses, o templo foi convertido na Igreja do Espírito Santo, sendo reformada pelos jesuítas. Uma situação inversa ocorreu com a Igreja do Convento de Santo Antônio, cujo templo da Ordem Franciscana, hoje localizado na Rua do Imperador, serviu à congregação inglesa, onde eram celebrados os ofícios religiosos aos domingos pela manhã, pelo reverendo anglicano Samuel Batselaer (ou Bachiler, em outras grafias).

Na obra Tempos dos Flamengos, o historiador José Antônio Gonsalves de Mello registra que, durante o governo de Nassau, os ingleses no Recife eram assistidos por um capelão conhecido como Ecclesiastes Anglicanus Mauritstadii, que dirigia uma congregação onde hoje se encontra o Convento de Santo Antônio, na capital pernambucana. Esse “clérigo inglês [ou anglicano] da cidade Maurícia” era Batsealer. Alguns dados nos dão uma dimensão da presença inglesa em Recife: “E não se pense que era pequeno o número de ingleses no Brasil Holandês. Há referências a uma companhia de soldados – 150 a 180 homens – composta por ingleses, sob o comando de John Godlad” (Mello, 1987, p. 116). Do mesmo modo, no livro Música Sacra Evangélica no Brasil, é destacado o nome do Reverendo Batsealer, como o ministro da igreja do convento franciscano do Recife.

A Igreja Inglesa funcionava na igrejinha do Convento de São Francisco, para esse fim adaptada. Aí se realizavam serviços religiosos aos domingos pela manhã oficiados pelo ministro anglicano Rev. Samuel Batselaer (Braga, 1961, p. 55).

Outros pesquisadores da temática também atestam estes dados. A tese de Maria Eduarda Castro Magalhães Marques, pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura pela PUC-Rio, aborda a Ordem Terceira de São Francisco no Recife, durante o período holandês. Ela também aponta a presença do Ecclesiastes Anglicanus Mauritstadii liderando a congregação inglesa: “Na igreja do convento franciscano, também pregou o reverendo anglicano Samuel Batselaer, pois havia no Recife Holandês um bom contingente de soldados ingleses” (Marques, 2010, p. 60).

Anderson Fernando Rodrigues Mendes, em seu Mestrado Profissional em História, pela Universidade Católica de Pernambuco, reitera a afirmação sobre a presença do culto anglicano no convento: “Aos da França permitiu Nassau erigir a igreja dos Franceses, na Cidade Maurícia, bem como cedeu aos anglicanos ingleses a posse da Igreja do Convento de São Francisco, na mesma localidade” (2021, p. 41).

Da mesma forma, Franz Leornad Schalkwijk reforça as informações sobre o local de culto entre os ingleses durante a ocupação holandesa: “A capela do convento franciscano de Santo Antônio na ilha de Antônio Vaz foi reformada e ampliada para o culto em língua inglesa” (Schalkwijk, 1986, p. 110-111).

A partir dos dados apresentados, esta pesquisa parte da tese de que, a presença inglesa no Brasil, e como consequência, o culto anglicano em solo brasileiro, se estabeleceu primeiramente em terras pernambucanas durante a ocupação holandesa do século XVII, através da atividade comercial entre ingleses e os administradores da Companhia das Índias Ocidentais no Recife.

É importante notar que, pode haver um equívoco quando se fala em ecclesiastes anglicanus, ou clérigo inglês, pois ao abordar a fé praticada pelos holandeses no território ocupado, este ministro estaria ligado ao culto reformado ligado à congregação da Igreja do Convento de Santo Antônio.

Porém, Schalkwijk, ao contrário de outros autores, discorda que Batsealer tenha sido um clérigo anglicano, apresentando algumas afirmações sobre sua pertença eclesiástica, ligando-o ao presbitério e, comparando-o ao pastor da Igreja Francesa, o Rev. Soler.

As igrejas inglesa e francesa não eram denominações distintas: apenas formavam congregações distintas, devido ao problema linguístico. [...] Trabalhava, como

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