Dom Salomão Ferraz e o Ecumenismo

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Dom Salomão Ferraz e o Ecumenismo

Dom Raimundo Augusto de OliveiraHermes Ferraz1995

DOM SALOMÃO FERRAZ E O ECUMENISMO


Pesquisa e coordenação: Dom Raimundo Augusto de Oliveira Bispo da Igreja Católica Apostólica Independente de Tradição Salomoniana de Feira de Santana Bahia (domaugustoabade@yahoo.com.br)

Digitação: Ingrid Nunes Coutinho

Revisão: Missionária Andrea Ferreira (ICAI-TS)Feira de Santana-Ba


APRESENTAÇÃO

A biografia de Dom Salomão Ferraz, apresentada neste trabalho, foi o fruto de uma atividade de pesquisa em inúmeras fontes: cartas do biografado, escritas principalmente a seu progenitor, nos tempos de estudante e no início de seu pastorado; livros de atas das Igrejas nas quais exerceu suas atividades; cartas recebidas e escritas a pessoas de suas relações; atas dos Concílios da Igreja Episcopal Brasileira, notícias e artigos publicados nos jornais evangélicos e seculares; depoimentos de pessoas com as quais o biografado privava; nossas observações pessoais e, finalmente, os dados contidos na parte que restou de seu diário, no qual registrava, todos os dias, suas atividades e seus pensamentos: Através desta pesquisa foi possível recompor seu itinerário ao longo de um sacerdócio de 68 anos, embora com omissão de alguns detalhes.

Não nos foi possível contar com as informações contidas em mais de uma centena de cadernos de seu diário, pois, com a transferência de Dom Salomão para a Igreja Católica Romana, foram, segundo consta, incinerados para "apagar o passado e iniciar uma vida nova", no entender dos clérigos desta Igreja.

Iniciamos a elaboração do trabalho com a intenção de colher subsídios para a comemoração do primeiro centenário de seu nascimento, a 18 de fevereiro de 1980. Comemorado este evento por muitas Igrejas, sobretudo as Episcopais, Metodistas e da Ordem de Santo André, imaginávamos que sua biografia não despertaria maior interesse da parte do público, mesmo nos meios religiosos.

Em um encontro na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com o Rev. Dr. Robinson Cavalcanti, antes de uma conferência a ser proferida por este, recebemos a informação de que “o nome de Dom Salomão Ferraz é citado em todos os seminários evangélicos" na disciplina de História da Igreja, e acrescentou: “Infelizmente temos conhecimentos muito escassos a respeito de sua personalidade". Nosso filho Elói nos transmitiu a declaração de um padre de que nos

seminários da Igreja Romana, o nome de Dom Salomão é citado na mesma disciplina.

Estas informações nos animaram a completar o trabalho iniciado. Também nos trouxe um salutar estímulo a disposição dos clérigos da ordem de Santo André, liderados por seu 3° Bispo Geral, Dom Ulysses Moreira de Araujo, de levar avante a obra ecumênica do fundador da Ordem, seguindo-lhe os passos. Sentimos também a falta de informações sobre Dom Salomão, da parte do clero em geral, por ocasião das solenidades comemorativas do 60° aniversário da ordem de Santo André, ao observarmos que os oradores convidados pouco falaram sobre seu fundador.

O mundo contemporâneo está necessitando de uma Igreja - ou religião – cujas atividades estejam voltadas para a formação moral do indivíduo, desenvolvendo nele seus poderes espirituais. As relações sociais entre os homens, hoje em dia, se fazem, em grande parte, através dos instrumentos tecnológicos, à distância; nem são mais face a face; mas deverão ser também, e principalmente, espírito a espírito, coração a coração.

Os homens, no mundo inteiro, estão muito unidos entre si por meio dos instrumentos eletrônicos de comunicação, o que lhes outorga uma característica toda especial à personalidade como homens modernos: de serem indivíduos bem informados, porém, não cultos. Por outro lado, o poder cada vez maior da tecnologia significa um poder maior do homem sobre o outro. Nem por isso os homens têm melhorado suas relações mútuas. É que esses meios tecnológicos de união e de poder não estão unindo as mentes e os corações, mas sim, transmitindo mensagens negativas, contrárias à elevação moral da humanidade. A missão da Igreja é inverter este processo, incutindo no espírito de cada pessoa as mensagens de paz, de amor, de respeito e de cooperação.

Hermes Ferraz


NA IGREJA PRESBITERIANA

Um lar evangélico

A 2 de novembro de 1857, nasceu em Rio Claro, Estado de São Paulo, Belarmino Augusto Ferraz, filho do casal Antônio Ferraz de Camargo e Maria do Carmo Figueiredo, fazendeiros nesse município. Aí viveu até a idade de 18 anos, quando, em 1875, o missionário presbiteriano, Rev. Dagama, abriu o trabalho evangélico naquela cidade, ao qual Belarmino, uma vez convertido, resolveu dedicar-se com toda a alma e entusiasmo. Esta atitude provocou sérias desavenças com sua família, de índole profundamente católico- romana, e, na impossibilidade de um acordo, o moço convertido precisou abandonar a casa paterna e lutar pela vida por sua própria conta. Trabalhava nas fazendas e estudava na cidade, para o quê fazia longas viagens a cavalo. De posse de alguma instrução, dedicou-se ao magistério, alternando suas atividades como professor ambulante e como colportor. Em 1877, Belarmino Ferraz transferiu suas atividades para Jaú e aí, em uma das fazendas em que lecionava – Fazenda Jacutinga – veio a conhecer Maria Santana Barbosa, com quem casou- se em 20 de outubro de 1877, quando ele não havia completado ainda 20 anos.

Depois de residir em várias cidades, Belarmino voltou à Fazenda da Jacutinga, onde, a 18 de fevereiro de 1880, nasceu seu primogênito, a quem deu o nome de Salomão, revelando, assim, seu grande amor pelo saber que desejava possuir, em homenagem ao rei sábio da Bíblia. Era desejo do casal Belarmino-Maria que todos os seus filhos fossem instruídos devidamente; e trabalhou com afinco para realizar este objetivo. Belarmino desejava ser pastor evangélico, mas os compromissos com o sustento da família o impediam de freqüentar o curso regular no seminário. Não obstante, dedicava-se à pregação do evangelho como leigo. Foi presbítero da igreja Presbiteriana de Jaú por longos anos. Através de seus esforços, seis de seus sete filhos receberam diploma: os varões, de pastor evangélico – o mais novo, de nome Seth, acumulando a profissão de médico – e as

três filhas mulheres, de professora. Belarmino Ferraz guiava-se na vida por uma filosofia: “O fácil é dos outros, o difícil é meu", fundamento inabalável de toda uma vida consagrada a uma atividade sem par pela causa do Evangelho. Dele, escreveu seu filho Rev. Orlando Ferraz: "Ele nunca estigmatizou a rotina e as tradições, mas seu espírito esteve sempre aberto a novas idéias, novos métodos e novos planos, sempre visando a fins práticos e úteis, e o fazia inflamado de elevado e sadio otimismo" (O estandarte, 15/04/1958).


Salomão Ferraz, seminarista

Salomão Ferraz herdou estas qualidades do pai. De sua infância pouco se sabe, a não ser que foi educado naquele lar evangélico dotado de grande piedade e entusiasmo pela causa, e do qual recebeu os primeiros ensinamentos e influências religiosas da Igreja reformada; fez seus primeiros estudos na escola primária em Jaú, onde estudou órgão e violino. Aos 14 anos estudou em São Paulo – no Colégio Camargo, durante o ano de 1894, ocasião em que fez sua profissão de fé, a 1 de setembro, na Igreja Presbiteriana da rua 24 de Maio. Em 1895 foi eleito secretário da Escola Dominical, juntamente com a eleição de Matatias Gomes dos Santos como presidente, seu colega de quarto, selando uma amizade profunda, que os uniria por toda a vida. Em agosto desse mesmo ano, vem a figurar como sócio fundador da Associação Cristã de Moços (LESSA, 1938, pp. 481 e 491). Foi pensionista do presbítero Veríssimo de Paiva. Em 1895 deixou o Colégio Camargo e ingressou no Ginásio do Estado, no qual concluiu o curso preparatório, em 1896.

Em 1897, com a idade de 17 anos, ingressou no Seminário da Igreja Presbiteriana, em São Paulo, juntamente com Ernesto de Oliveira e Otoniel Mota (LESSA, 1938, p. 534) e colaborou no jornal do seminário O Combate, de maio desse ano, juntamente com outros seminaristas. A 7 de julho de 1898 foi recebido como candidato ao ministério evangélico pelo Presbitério de São Paulo.

No seminário não foi um aluno brilhante; suas classificações situavam-se, em geral, no grau "plenamente". Nas férias ocupava-se em ajudar as Igrejas carentes de pregadores, como em Ubatuba, onde o pastor titular, Rev. José de Azevedo Granja, se achava doente havia três anos. Nas horas de lazer dedicava-se ao estudo de outros temas relacionados com a religião, complementando, assim, a cultura formal transmitida por seus professores. Não se limitava a estudar apenas, meditava também. Apreciava a filosofia e a utilizava em suas constantes contemplações, caracterizadas pela presença de uma profunda lógica. Dominava a língua inglesa, o que lhe permitiu assimilar o pensamento dos teólogos anglicanos e tomá-lo como base de suas próprias idéias, no dizer de muitos, “avançados”.

Terminou seus estudos no seminário em junho de 1901, juntamente com Henrique Louro de Carvalho, João Francisco da Cruz, Matatias Gomes dos Santos, Baldomero Garcia, Anders Jensen e Constâncio Omegna, sob a reitoria do Rev. Samuel R. Gammon. Prestados os respectivos exames, sua licenciatura foi aprovada na sessão presbiterial de 19 de junho de 1901 e, a 23 seguinte, foi oficialmente licenciado para pregar o Evangelho, em reunião soleníssima no culto público do meio dia, na igreja da alameda dos bambus, hoje avenida Rio branco. Ao ato compareceram, tomando assento no presbitério, o Rev. Dr. J. R. Smith e João Francisco da Cruz.


Salomão Ferraz, pastor

O campo de trabalho escolhido foi a cidade de Faxina, hoje Itapeva, no sul do Estado de São Paulo; lá chegou a 19 de setembro de 1901, levado pelo pastor em exercício, Ver. Franklin do Nascimento, que lhe entregou o campo, retirando-se logo após. Salomão Ferraz gostou da cidade, gostou dos crentes, cuja acolhida muito o animou.

Ainda solteiro, passou a morar na casa do presbítero José de Carvalho, que lhe preparou um quarto especial.

Mas, segundo registrou em documentos posteriores, o novo pastor ficou sobressaltado por sérias dúvidas. São suas palavras textuais, extraídas do opúsculo A União das Igrejas (1962, p.13): “Em uma experiência marcante (...), mas que dissipou de uma vez para sempre a escuridão de nossa mente. Escuridão de dúvidas sinistras. Raiou, então, para nós, depois de uma crise de grande angústia, a luz que nos fez ver um mundo novo; (...) solitário, à espera da plena investidura, sentíamos que algo de essencial faltava em nosso íntimo; (...) faltava-nos a certeza, a convicção, a segurança, e o senso profundo da realidade. Como pregar e ministrar a outros, quando nos faltava exatamente o essencial? O céu parecia de chumbo, fechado, hostil, e a terra um ermo insuportável. Agir como simples comediante, para efeito meramente externo? Não era nosso feitio. Conselhos? Onde os iria receber, quem lia corretamente o Novo Testamento grego (...) e havia devorado quantas obras apologéticas lhe vinha às mãos (...)?. Ajoelhou-se e orou: “Ó Deus. Nem sei se existes; a fé me foge, a escuridão me envolve". Levantou-se, abriu, ao acaso, a Bíblia, e seus olhos pousaram sobre o versículo "Justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus cristo, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação” (Rom. 3; 24-25).

E o novo pastor, sem fé, sem esperança, viu tudo agora diferente: "Cristo como a base suprema da fé e da vida! A luz que o trouxe até o ponto em que chegou foi a luz que derrama seus clarões desde o cimo do Calvário, desde a Cruz; a luz que emana do sangue precioso de Cristo, a base suprema da redenção da verdadeira unidade da Igreja, penhor da paz entre as nações”.

Estas dúvidas Salomão Ferraz lembrou algumas vezes, ao rememorar o início de sua carreira. Quais seriam as razões, se fora educado em um lar cristão, no qual lhe ensinaram tantas coisas a respeito da religião e fez o curso em um seminário, onde, certamente, as coisas de Deus ocupam o primeiro plano? Talvez nem mesmo ele soubesse. Fruto do ambiente? É bem possível, porque o ambiente, na

verdade, molda o caráter dos indivíduos, forma personalidades. E o ambiente religioso, nessa época, não era inteiramente favorável à formação de personalidades firmes na fé, mesmo entre os que se preparavam para os deveres do Santo Ministério, sobretudo para uma alma ávida de conhecimentos. Reinava naquela época duas espécies de lutas eclesiásticas envolvendo a religião, o que significa, envolvendo a própria fé: uma luta externa, entre católicos e protestantes, e uma luta interna, na qual se digladiavam os próprios ministros, dentro da Igreja Presbiteriana. Descreveremos, em traços rápidos, ambas as contendas que, além de perturbar a paz e acirrar os ânimos, aumentaram ainda mais as dissensões já existentes e criaram outras entre os seguidores de Cristo, abalando a fé e desencorajando muitas vocações para o sacerdócio.

Sem dúvida, estas lutas impressionaram Salomão Ferraz, pois, em um de seus escritos posteriores, declarou: "Era ainda no tempo de estudante, época risonha e florida para muitos, porém, turva e dolorosa para nós. Em consonância com os vendavais de paixões que lá fora rugiam, em atmosfera aclesiástica asfixiante, letal, cá dentro da alma nos gritavam outras tempestades, incomparavelmente mais atrozes, mais sinistras, mais acabrunhantes: era a tormenta das dúvidas, das perplexidades e o desespero de um espírito inquiridor, sedento de verdade e paz. Em um desses dias, no sótão do seminário em São Paulo, à rua Maranhão, veio-nos às mãos um dos vigorosos artigos do professor Bruce, da Escócia, onde deparamos com um conceito que nos sacudiu até o mais profundo da natureza moral, e gravou-se indelevelmente em nosso espírito: O teu supremo dever, ó jovem, é ter abertos os olhos, aberto o coração e abertos os lábios`. Estas palavras do distinto pensador cristão não se apartaram jamais do nosso espírito, mas passaram, por assim dizer, a fazer parte da contextura da nossa alma” (FERRAZ, 1915, p. 6).

Abramos, então, um parêntese para retroceder na história com o fim exclusivo de retratar o ambiente religioso em que Salomão Ferraz se preparou para o Ministério.


Contendas entre católicos e protestantes

Na expedição de Tomé de Souza, em 1549, aportaram ao Brasil os jesuítas Manoel da Nóbrega, Aspicuelta Navares, Manoel de Paiva, e Leonardo Nunes. Com a expedição de Duarte da Costa, em 1553, novos jesuítas vieram reforçar o trabalho de catequese dos índios – dentre eles, José de Anchieta, ainda seminarista – que se espalharam de norte a sul do país, ensinando e catequizando, a pé, ao sol e à chuva, de canoa, varando matas espessas, enfrentando os maiores perigos em travessias de rios caudalosos, doenças, fome e expostos ainda às setas envenenadas dos índios. E entre os muitos jesuítas chegados posteriormente estava o Padre Antonio Vieira, missionário, político e moralista. Tudo isso, faziam incentivados pela paixão que dominava a alma do missionário: a conversão do índio a fé cristã.

Na Europa, a perseguição religiosa obrigava os protestantes a fugirem para outros continentes; por isso, aportou em terras brasileiras, em 1555, uma expedição francesa comandada por Nicolau de Villegaignon, localizando-se no Rio de janeiro. Foi essa expedição expulsa em 1567 com o auxílio dos índios. Daí para frente, nenhum vestígio da presença de protestantes foi constatado, até meados do século XIX. Nesse período, os jesuítas trabalharam sossegadamente no mister de educar, instruir e catequizar os índios, dos quais cativaram a amizade, por serem eles, jesuítas, contrários à escravidão destes. Para isso, os catequizadores abriram escolas e construíram igrejas. Longe das lutas religiosas da Europa, os missionários do Brasil, sem concorrentes, exerciam seu apostolado comodamente, o que levou muitos sacerdotes a fazê-lo de forma um tanto displicente, ao se deixarem arrastar pela influência dos convertidos, negros e índios que, não conseguindo libertar-se inteiramente de suas crenças de origem, infiltraram na prática religiosa católico-romana algumas de suas superstições.

Este estado de coisas perdurou até 1810, quando o Brasil, então sob o reinado D. João VI, celebrou um tratado comercial com a Inglaterra, cuja religião dominante era a protestante anglicana. Desejava esta nação amiga, além de comerciar, introduzir suas crenças religiosas, ao que se opuseram os católicos romanos em ação no Brasil. O problema foi, então, contornado, admitindo-se o credo protestante, mas os locais de culto não deveriam ter aparência de igrejas, razão por que seus templos eram destituídos de torres, sinos e cruzes. Uma vez proclamada a República e instituída a liberdade religiosa na Constituição brasileira, aquelas exigências foram revogadas. Esta é a razão pela qual grande parte dos protestantes tradicionais repudiam a própria cruz, símbolo do cristianismo, em virtude de relacioná-la com a Igreja Romana.

Em meados do século XIX chegaram ao Brasil vos primeiros missionários protestantes presbiterianos e, imediatamente, entregaram-se ao trabalho catequizador para o culto protestante, não o pagão, índio ou africano, mas o próprio cristão católico-romano, criando, assim, para a Igreja Romana, o problema do esvaziamento de seu clero, resultado do aliciamento de seus fiéis. Travou-se, então, uma luta religiosa que antes não existia: os protestantes, além de pregarem as bem-aventuranças do reino de Cristo, pregavam também os erros da Igreja Romana, sobretudo os ex-padres convertidos. A reação inevitável não se fez esperar: os sacerdotes da Igreja Romana passaram a alertar seus fiéis contra os protestantes e o fogo cruzado tornou-se cada vez mais intenso, com injúrias recíprocas. Cada facção apresentava a adversária como obra do Diabo e, por isso, passaram a proscrever mutuamente os sacramentos ministrados pelos sacerdotes antagonistas. Era, pois, a mesma luta entre os cristãos que se deslocou da Europa para o Brasil com o objetivo de propagar a verdadeira fé, mas que se transformou numa luta entre irmãos, pondo em risco a própria fé.


Contendas entre protestantes

Além destas discórdias entre católicos e protestantes, havia naquela época (1898-1901) acentuada antagonismo entre as diversas denominações protestantes, embora de menores efeitos, mas que, de certa forma, comprometia o bom nome do Evangelho. Desde 1891, reinava alguma divergência entre duas instituições da Igreja Presbiteriana, o Seminário e o Mackenzie, chamado popularmente de Colégio protestante. Passemos em revista suas causas e seu desenrolar de forma sucinta.

O Mackenzie era mantido pela "Missão" (Board de Nova York) e esta desejava fundar um seminário para melhor difundir o Evangelho no Brasil. Não há dúvida de que havia, contra esta política do Board de nova York, uma forte oposição por parte do Comitê do Sul (dos Estados Unidos) e a divergência residia na localização do Seminário. Diante disto, os patrocinadores americanos resolveram que a questão fosse decidida pelo Sínodo da Igreja Presbiteriana no Brasil. No entanto, esta resolução ficará apenas no papel. A "Brazilian Missions" era então governada por duas cabeças, com profundos reflexos no espírito dos respectivos missionários em ação no Brasil, cada qual procurando seguir a orientação de sua entidade mantenedora. Como se isso não bastasse, a política educacional protestante brasileira, representada pelo Sínodo, entrou em choque com a política educativa americana, criando sérios problemas e antagonismos entre os missionários e educadores brasileiros, o que, infelizmente, descambou para o campo pessoal, com verberações ofensivas mútuas. Os americanos eram acusados de pouca espiritualidade e, por questões de somenos, eram disciplinados pela Igreja, como o Dr. Lane, acusado de andar de bonde aos domingos e de não freqüentar os cultos. O Dr. Waddel caíra na antipatia dos pastores nacionais por ter feito sindicâncias sigilosas contra um humilde colega destes e teve a infelicidade de externar uma opinião precipitada, sem os devidos fundamentos, mas da qual retratou-se publicamente logo após. Porém a mágoa ficou e serviu de pretexto para reforçar os antagonismos entre os pastores nacionais e os

missionários americanos. O Dr. Vanorden caíra também em desgraça, por motivos não publicados.

As dificuldades não pararam aí: ambos, Lane e Waddel, eram diretores do Colégio Mackenzie, e os ânimos inflamados se dirigiram contra essa instituição de ensino, mas de forma velada. Os pastores nacionais, chefiados pelo Rev. Eduardo Carlos Pereira, alegavam que o Mackenzie não preparava os jovens para os cursos do Seminário; seus alunos seguiam outras profissões seculares e nenhum deles abraçava a carreira sacerdotal. Estas dissensões levaram a uma outra, que pode ser sintetizada no aparecimento de duas correntes: uma, entendendo que a evangelização no Brasil devia ser levada a efeito através da pregação direta ao povo, pelos missionários e pastores, e a outra corrente pretendia evangelizar através de colégios evangélicos, nos quais seriam ministrados ensinamentos, tanto religiosos quanto seculares. A primeira corrente era adotada pelo Sínodo, representando o pensamento do clero presbiteriano nacional, e por boa parte dos missionários americanos não comprometidos com a educação; e a segunda corrente era formada por aqueles que, direta ou indiretamente, estavam comprometidos com OS interesses educacionais, sobretudo os missionários diretores do Mackenzie, aliás, baseados na necessidade de cumprir uma das cláusulas da doação do Dr. Alexander Mackenzie, da obrigatoriedade do ensino religioso nessa instituição secular.

Os adeptos da primeira corrente entendiam que as verbas recebidas das missões americanas destinadas ao Mackenzie deveriam reverter em benefício dos pregadores missionários. Por seu lado, os adeptos da segunda corrente apoiavam o plano da criação do Seminário, porém, como prolongamento dos cursos de Mackenzie, pois esta instituição, com seus internatos e organização educativa, poderia preparar os jovens para os cursos superiores teológicos; a isto se opunham os da primeira, baseados na experiência de muitos anos, sob a alegação de que os cursos do Mackenzie não se adaptavam a essa preparação. Por outro lado, as duas organizações americanas

mantenedoras alegavam que, se havia o Mackenzie, não se justificava a criação de mais um colégio.

O seminário foi, enfim, fundado após muitas discussões sobre sua localização. Por motivos menos relevantes, fora inicialmente instalado em Friburgo, Estado do Rio de janeiro. Em 14 de fevereiro de 1895 foi transferido para São Paulo, utilizando as dependências da 1ª Igreja Presbiteriana, na rua 24 de Maio. Porém, seu rápido crescimento estava a exigir a ampliação de suas instalações. Foi aí que os dirigentes do Mackenzie entraram na discussão por entenderem que esta instituição - o Mackenzie – já possuía as instalações suficientes; o "Board" e o "Comitee” americanos não se opunham à construção de um prédio para o Seminário, e mesmo para um colégio preparatório, desde que a Igreja Presbiteriana do Brasil realizasse as obras por sua própria conta, isto é, com recursos nacionais. É que a Igreja Presbiteriana do Brasil ainda não se achava em condições financeiras para arcar com tal encargo; mas o Rev. Eduardo Carlos Pereira, lançando-se em campanha, nos púlpitos e na imprensa evangélica, conseguiu angariar fundos para a aquisição de um terreno na rua Maranhão, nas proximidades do Mackenzie, e erguer o prédio do Seminário, conforme se lê em J. A. Ferreira (1959, v. 1, p. 305): "Tendo sido inaceitáveis as condições exigidas pelo Rev. Gammon, representante de Nashville, disse o Rev. Eduardo Carlos Pereira, em uma das seções que, se Nashville ou Nova York não nos davam o necessário edifício para o desenvolvimento do Seminário, a Igreja Nacional no-lo daria". A campanha financeira obteve pleno êxito, em virtude da grandiosidade do objetivo e de sua perfeita organização: despertou energias adormecidas entre os crentes e fez, assim, a Igreja nacional sentir sua responsabilidade perante o problema.

A 17 de julho 1898 foi lançada a pedra fundamental do edifício do Seminário, em cerimônia solene; terminadas as obras, para ele foram transferidas as aulas, possivelmente a 7 de setembro de 1899 "Sem solenidade, apenas com o culto regular que se fazia. Para isso concorreram as circunstâncias daqueles tempos. As lutas e desgostos conseqüentes. Foi um erro, contudo. Para o lançamento da pedra

houve um grande aparato. Discursos e poesias. Variada apresentação. Agora apenas uma cena doméstica” (FERREIRA, 1959, v. 2, pp. 34- 5).

O Rev. Erasmo Braga assumira a direção do Seminário na ausência do Rev. Gammon; acumulando essas funções com a de Capelão do Mackenzie, passou também a cuidar dos candidatos ao Ministério Presbiteriano, ainda na fase dos estudos secundários. “O Mackenzie oferecia pensão e estudos gratuitos a vários aspirantes, bem como a alguns candidatos que não podiam ser mantidos pelo Seminário" (Idem, p. 36). Como se vê, as dificuldades entre o Mackenzie e o Seminário terminaram bem, com a cooperação mútua entre ambas as instituições. É de se lamentar que essa grande conquista da Igreja Presbiteriana tivesse deixado no ânimo dos protagonistas profundas mágoas. Os ideais eram reconhecidamente nobres, mas os meios utilizados eram, deploravelmente, pouco cristãos.

Estas mágoas lavraram o terreno para a semeadura de uma outra disputa, de conseqüências bem mais funestas: a questão maçônica, iniciada em fins de 1898. Vários ministros, oficiais, presbíteros e membros das Igrejas estavam filiados à ordem maçônica, contra a qual insurgiu-se o pastor da 1ª Igreja Presbiteriana, Rev. Eduardo Carlos Pereira. Dez membros da Igreja, possivelmente maçons, em abaixo-assinado pediram a organização de uma nova Igreja, cujos termos foram considerados ofensivos ao pastor, em sua integridade moral. Os membros não maçons da Igreja também se sentiram ofendidos em solidariedade a seu pastor. Iniciaram-se as represálias com acirradas discussões pelos jornais evangélicos e seculares, o que fez o movimento alastrar-se pelas demais Igrejas Presbiterianas do país. A questão maçônica fora inicialmente levantada pelo Dr. Couto Esher, justamente no momento em que havia grande entusiasmo pela causa maçônica em vários meios evangélicos (FERREIRA, 1959, v. 1, p. 317). Os debates nos jornais dividiram ideologicamente a Igreja Presbiteriana, e em 1901 atingiram seu ponto culminante. As ofensas cruzaram-se, lado a lado, alastrando-se pela

imprensa secular. “Depois de uma carta anônima de um crente maçom ao pastor de São Paulo [Rev. Eduardo Carlos Pereira] prometendo desmoralizá-lo pelas colunas de O Estado de São Paulo, caso viesse a encarar a questão pelo O Estandarte, carta confirmada dois dias depois pelo mesmo anônimo, que divulgava agora o seu nome” (Idem, p. 319). Estava declarada a guerra. O Rev. Eduardo Carlos Pereira defendia-se pelas colunas de O Estandarte – que até então conservara- se neutro – das imputações feitas através do grande jornal paulista. Carlos Pereira debatia-se contra a Maçonaria. A luta foi recrudescendo até ser levada ao Sínodo de 1903, em São Paulo, e a 31 de julho foi votada a decisão: “Não convir a este concílio legislar sobre a questão maçônica, sendo que, resolvendo a questão deste modo, o Sínodo não feriu nem violentou a consciência de ninguém, porquanto o Sínodo apenas deixou de se pronunciar sobre a compatibilidade ou incompatibilidade da maçonaria com o Evangelho, sem fazer violência, quer a um, quer a outro lado" (REVISTA DAS MISSÕES NACIONAIS, 05/09/1903). Esta proposição, francamente conciliatória, baseada na liberdade de pensamento; foi aprovada por 53 votos favoráveis contra 17 votos dos antimaçônicos. Os vencidos não se conformaram: para eles, a questão maçônica era um artigo de fé, e solenemente declararam-se desligados do Sínodo, retirando-se do recinto, nesse mesmo dia, (31 de julho de 1903), por volta das 22 horas. Estava cindida a Igreja Presbiteriana: a minoria vencida resolveu constituir-se em Igreja presbiteriana Independente.

Fechado o parêntese, voltemos agora para o biografado. Foi exatamente neste clima sinistramente tempestuoso, dentro de sua própria Igreja, que o seminarista Salomão Ferraz se preparou para o Ministério Evangélico, foi licenciado e iniciou sua longa carreira sacerdotal.


Dúvidas

Para um novel sacerdote comum não haveria nenhuma dificuldade para iniciar sua carreira pastoral: era apenas uma questão de tomar versículos da Bíblia e desenvolvê-los nos sermões, visitar os crentes, orar com eles; nos cultos da igreja, pregar o Evangelho aos rebanhos da Igreja Romana, viajar pelos sertões convertendo as almas para formar novos núcleos de pregação do Evangelho, fazendo este progredir triunfantemente. E com tal programa no espírito, romper o caminho. Para Salomão Ferraz, entretanto, isto não era suficiente: seu preparo formal, reforçado pelo conhecimento adquirido informalmente, abriram-lhe oportunidades mais vastas, fizeram-no descortinar horizontes mais amplos. No entanto, ao olhar ao redor, só via lutas, desavenças, pouco amor cristão entre os cristãos, sobretudo entre aqueles que, enfaticamente, pregavam “Amai-vos uns aos outros". Seria esta, talvez, uma de suas grandes dúvidas, a principal: como poderia existir um Deus, todo-poderoso, mas incapaz de fazer seus sacerdotes “viverem" de acordo com Sua vontade? Sentindo ser outra sua missão, ou seja, a busca intencional da verdade, e não apenas a de se manter como um simples pregador do Evangelho, pediu àquele mesmo Deus para o qual se preparou par servir mas cuja existência tinha agora suas dúvidas –, que lhe mostrasse o verdadeiro rumo. E o versículo, apanhado ao acaso, fê-lo vencer o estado de frustração e idealizar um novo papel para si e para o sacerdócio que iniciava, trilhando caminhos ainda não percorridos, águas ainda não navegadas: unir os cristãos, inspirado numa síntese feliz do aludido versículo. Preparou-se, então, para a execução de ambas as tarefas: pregar o Evangelho, como era de seu dever hierárquico e, ao mesmo tempo, pregar a

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