Doutrina Anglicana

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Doutrina Anglicana

Robinson Cavalcanti2006

Doutrina Anglicana I

OS BISPOS SEGUNDO LAMBETH: RESUMO PANORÂMICO

A Conferência de Lambeth é a máxima Assembléia da Comunhão Anglicana, reunindo os bispos de todo o mundo, a cada dez anos, para intercâmbio, estudos e recomendações, que, por seu consenso e autoridade moral, assumem o status de posição oficial do Anglicanismo, seja em se tratando se Sexualidade Humana, seja em se tratando de Episcopado ou de qualquer outro tema teológico ou ético.

O Episcopado não tem sido muito discutido, porque os bispos ali presentes já sabem o que são e para que servem, e, por outro lado, teologicamente, há aí um alto consenso eclesiológico entre as várias correntes do Anglicanismo, já que, com a Reforma do Século XVI os não-episcopais (presbiterianos, batistas e congregacionais) nos deixaram.

O tema foi tratado na Lambeth 1968, em um dos seus relatórios sobre o ministério. Ali o Bispo é visto tanto como um “representante de Cristo” quanto como um “representante da Igreja Universal”, como "símbolo de unidade”, que através do Rito Sacramental da Ordem, é canal da Graça de Deus, compartilhando do “ministério apostólico” .

O Bispo tem um ministério: a) docente; b) de defesa da Sã Doutrina, como guardião da fé; c) o cuidado pastoral; d) o equipar a Igreja, pela supervisão e desenvolvimento dos dons dentre o povo; e) a dimensão litúrgica, pois, para aquela Conferência, “a vida litúrgica e sacramental, em sua celebração da Eucaristia, na Ordenação e na Confirmação” são centrais.

O Bispo deve modelar sua vida na vida de Cristo, ser exemplo e servo.

Compartilhando dos ofícios de Cristo, de quem recebe a sua autoridade, o Bispo possui ofício sacerdotal, profético e real. O Bispo é o cabeça da Diocese, e deve exercer o seu ministério, dentro de um espírito de colegialidade, com os demais bispos da Igreja de Cristo, em uma dimensão ecumênica. O Episcopado Anglicano não é monárquico, mas convive e se complementa pelos princípios da colegialidade ou sinodalidade, com os Presbíteros, Diáconos e todo o povo.

Ao contrário dos governos: presbiteriano e congregacional, a conciliaridade ou sinodalidade anglicana não prescinde do episcopado, tido como “parte essencial da herança católica” como “extensão do ofício apostólico” .

Na Conferência de 1988, na Secção sobre Missão e Ministério, aprendemos que “o Bispo deve então se tornar mais e mais um líder da missão”, ou seja, ao lado da ênfase pastoral, a ênfase missionária, quando deve, particularmente, “ouvir o que os jovens estão dizendo”. O Bispo deve supervisionar a formação do clero e o exercício do ministério ordenado. Estes, Presbíteros e Diáconos, “devem de boa vontade estar sob a autoridade do Bispo e da Igreja”, porque o Bispo “abaixo de Deus lidera a igreja local e sua missão no mundo”, lembrando que em todos os documentos de Lambeth a expressão “igreja local” se refere a Diocese, formada por Paróquias ou Missões, também denominadas de “comunidades locais”. Na Eclesiologia Anglicana os Presbíteros e Diáconos não existem isoladamente, ou desconectados do Bispo, como “pastores” (congregacionais).

Para essa Conferência, o Bispo é: "Símbolo da unidade da Igreja em sua Missão ; mestre e defensor da fé, pastor dos pastores e do laicato; capacitador da pregação da Palavra e da ministração dos sacramentos; líder na missão e iniciador da mesma no mundo em que a Igreja se encontra; médico a quem os feridos da sociedade são trazidos; voz da consciência da sociedade em que a Igreja local se situa; profeta que proclama a justiça de Deus no contexto do Evangelho da redenção; o cabeça da família como um todo, em sua miséria e alegria" .

A Conferência de Lambeth mais recente, de 1998, enfatiza o ministério “pastoral, missionário, educacional, profético e colegial”, lembrando, por um lado, que “a autoridade do bispo é sempre exercida dentro de uma estrutura sinodal do governo da igreja”, e, por outro lado, que o ministério do Bispo é distinto do ministério dos Presbíteros ou dos Diáconos, por ser alguém “a quem a autoridade apostólica é dada" O Bispo deve ser o missionário de uma igreja missionária, testificando, no contexto da Eucaristia, da ressurreição e da esperança em Cristo para os que nunca ouviram o Evangelho, ao mesmo tempo em que é “o guardião da fé recebida das gerações primitivas”, e responsável por sua transmissão intacta às gerações vindouras.

Dentre os tópicos tratados sobre o Episcopado pelas Conferências de Lambeth, destacamos:

  • O Episcopado e a Missão;
  • O Episcopado e a Formação;
  • O Episcopado e o Mundo que nos Cerca;
  • O Episcopado e a Superintendência;
  • O Episcopado e as Comunidades (Ordens) Religiosas;
  • O Episcopado e sua relação com os Ministros Leigos;
  • O Episcopado e sua relação com o Clero;
  • O Bispo e sua relação Consigo Mesmo e com os Demais Bispos.

Vale recordar que o “Quadrilátero de Lambeth” é fruto, há mais de um século, da Conferência de Lambeth: Escritura, Credos, Sacramentos e.... Episcopado Histórico, como marcas centrais do Anglicanismo.


Doutrina Anglicana II

OS ANGLICANOS E AS ESCRITURAS SAGRADAS

O núcleo doutrinário da Comunhão Anglicana foi definido pela Conferência de Lambeth de 1888 em quatro princípios, denominados, desde então, de “Quadrilátero de Lambeth”: as Sagradas Escrituras, os Credos: Apostólico e Niceno, os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia, e o Episcopado Histórico.

O primeiro princípio confessa: “As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, como contendo todas as coisas necessárias para a salvação, e como sendo a regra e o padrão último de fé".

Esse princípio é consentâneo com a Reforma Protestante Inglesa do século XVI, e com o nosso primeiro e mais importante documento doutrinário de então, os “XXXIX Artigos de Religião”, que, em seu artigo VI afirma: “A Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação. Pelo nome de Escritura Sagrada entendemos os Livros canônicos do Velho e Novo Testamentos, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja”. Referindo-se aos Deuterocanônicos, adotados pela Bíblia da Igreja de Roma, declara: “E os outros Livros (como diz Jerônimo) a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma...”.

Um documento mais recente, como a Declaração de Montreal “Essência do Anglicanismo”, de 1994, mantém os mesmos princípios. Em seu item número 5: “A Autoridade da Bíblia”, afirma: “As Escrituras canônicas do Antigo e Novo Testamento são “a Palavra de Deus escrita”, inspirada e autorizada, verdadeira e confiável, coerente e suficiente para a salvação. “A Palavra de Deus escrita” tem vida e é poderosa como guia divino tanto para a conduta, quanto para a fé cristã... Em cada época, o Espírito Santo conduz o povo de Deus, a Igreja, à submissão às Sagradas Escrituras como seu guia... A Igreja não pode se constituir juiz das Escrituras, descartando e selecionando ensinos. As Escrituras mesmas, sob a autoridade de Cristo, julgam a Igreja no que tange à sua fidelidade à verdade por Ele revelada”.

Em sua alocução de abertura da Conferência de Lambeth de 1998, ο Arcebispo de Cantuária de então, Sua Graça Revmo. George Carey, afirmou: “Os anglicanos afirmam a autoridade soberana das Sagradas Escrituras como o meio através do qual Deus, pelo Espírito Santo, comunica sua palavra à Igreja, e, conseqüentemente, capacita as pessoas a responder com compreensão e fé. As Escrituras são testemunho singularmente inspirado da revelação divina... (e) norma fundamental de fé e vida cristã”.

Aquela mesma Conferência de Lambeth, pela Resolução III, 5.b, deliberou reafirmar que: “As Escrituras Sagradas contêm todas as coisas necessárias para a salvação, e que elas são para nós a regra e o modelo último de fé e prática”.

Todos os diáconos, presbíteros e bispos da Comunhão Anglicana devem confessar e subscrever publicamente juramento com esse conteúdo no momento de sua Ordenação ou Sagração.

Para a teologia anglicana, a Bíblia contém o necessário para a salvação, alimenta espiritualmente os fiéis, contem o conteúdo da Missão e é fonte normativa última de doutrina e de ética.

Devemos, contudo, ressaltar as dificuldades, em razão das limitações da mente humana, para as tarefas de compreensão e aplicação do conteúdo das Sagradas Escrituras (exegese e hermenêutica). Sabemos que não há leitura neutra, direta e literal, como defendem os fundamentalistas, não podemos submeter a Bíblia, de modo absoluto, aos métodos racional-científicos, como defendem os liberais modernos, ou à experiência individual-subjetiva, como defendem os liberais Pós-Modernos. Teólogos Anglicanos, em sua tarefa individual, têm lançado mão do mais conservador Método Histórico-Gramatical (valorizando as contribuições da História, Geografia, Arqueologia e Lingüística), do mais liberal Método Histórico-Crítico (valorizando, ao extremo, a contribuição de todos os ramos da Ciência, no processo de “desmitificação”) ou do moderadamente conservador Método da Equivalência Dinâmica (contexto cultural dos escritores vs. contexto cultural dos leitores na História vs. contexto cultural dos leitores atuais). Nenhum método foi adotado pela Comunhão Anglicana, e é certo que devemos nos acercar da leitura bíblica com sinceridade e dela sair com humildade.

A Comunhão Anglicana tem de próprio, ou peculiar, a afirmação da importância da Tradição e da Razão para a leitura e compreensão da Bíblia. Por Tradição entendemos a opinião consensual dos fiéis de todo mundo ao longo da História da Igreja, também denominada de “consenso dos fiéis” ou “mente da Igreja”; por razão entendemos a capacidade de raciocínio dos fiéis, que refletem sua cultura, mas que devem buscar a iluminação do Espírito Santo.

Devemos estudar a Bíblia com diligência e fé (e não com superstição, tipo fechar os olhos e por o dedo aleatoriamente em textos = “horóscopo bíblico”), adotá-la em nossa vida devocional pessoal, familiar e comunitária, em nossa Liturgia e em nosso ensino doutrinário e ético.


OS ANGLICANOS E OS CREDOS

O segundo princípio adotado pelo “Quadrilátero de Lambeth”, que, entre nossas doutrinas centrais estão: “O Credo dos Apóstolos como Símbolo Batismal; e o Credo Niceno, como a declaração suficiente da Fé Cristã"

A palavra Credo, no seu original no Latim, significa “Eu Creio”. Diante das heresias, concepções falsas e inadequadas quanto ao seu conteúdo doutrinário, a Igreja, desde os seus primórdios, tem procurado definir suas crenças essenciais. A mente humana não pode entender e explicitar a totalidade da verdade, mas pode fazê-lo quanto ao necessário.

O mais antigo dos Credos é o denominado “Credo Apostólico”, que não foi redigido diretamente pelos apóstolos, mas pelos Pais Apostólicos (os discípulos dos apóstolos), procurando ser fiéis ao que aprenderam e estavam transmitindo. O seu uso, como profissão de fé dos batizandos, já era comum ao final do segundo século. Esse Credo afirma a doutrina da Trindade, a morte vicária e a ressurreição de Cristo, o Juízo Final e a Ressurreição, a Igreja e a Comunhão dos Santos:

"1. Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra; 2. Em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao Hades, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao Céu, e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos; 3. Creio no Espírito Santo; 4. Na Santa Igreja Católica; 5. Na Comunhão dos Santos; 6. Na Remissão dos Pecados; 7. Na Ressurreição do corpo; 8. E na Vida Eterna. Amém".

Vale ressaltar que (vencendo desinformações e preconceitos), a expressão “Igreja Católica” não se refere à Igreja Romana, mas à Igreja Histórica, Universal, Una, Santa e Apostólica de Cristo (integrada, posteriormente, por diversos ramos, com suas divisões). O texto do Credo não poderia estar se referindo à Igreja Católica Apostólica Romana, porque, àquela época, ela sequer existia. Catolicidade, como universalidade, é apenas um contraste com particularidade, ou sectarismo (das heresias).

Quanto à expressão “Comunhão dos Santos” não se refere aos “santos” dos altares da Igreja de Roma ou outra, mas aos remidos, os salvos. Comunhão dos Santos é sinônimo de Corpo Místico, a união-mistério de todos os salvos em todas as épocas e lugares: a Igreja Triunfante (que já está na glória) + a Igreja Militante (ainda na terra).

O segundo Credo referido é o “Credo Niceno”, elaborado pelo Concílio de Nicéia, e consolidado pelo Concílio de Calcedônia, no ano 451 (V século), em uma época de intensas controvérsias sobre a Santíssima Trindade e a natureza de Cristo, e o enfrentamento a diversas e fortes heresias. Enquanto o Credo dos Apóstolos era recitado individualmente por cada batizando, “Eu Creio”, o Credo Niceno é uma reafirmação de fé de toda a comunidade, “Cremos”; e deve ser usado nas Ordenações, Sagrações, Concílios e outros momentos importantes. O Credo Niceno é uma ampliação e aprofundamento do Credo Apostólico. E o que nele afirmamos?

"1.Cremos em um Deus, Pai, Onipotente, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; 2. E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Seu Pai antes de todos os mundos, Deus de Deus, Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado, não feito, Consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do Céu e encarnou por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e foi feito homem, foi também crucificado por nós, sob o poder de Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras, e subiu ao céu, e está sentado a direita do Pai, e virá outra vez, com glória, a julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim; 3. E cremos no Espírito Santo, Senhor, Doador da Vida, procedente do Pai (e do Filho), o qual com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas; 4. E cremos na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica; 5. Reconhecemos um só Batismo para a remissão dos pecados; 6. E esperamos a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo vindouro. Amém”.

O Credo Niceno, mais abrangente, é uma forte afirmação trinitária, e, particularmente, desenvolve uma sólida Cristologia. Posteriormente uma de suas afirmações veio a ser um dos motivos de divisão entre as Igrejas do Oriente e as Igrejas do Ocidente: se o Espírito Santo é somente procedente do Pai (redação oriental), ou do Pai e do Filho (redação ocidental). À semelhança do Credo Apostólico, o Credo Niceno (com uma ou outra versão) é adotado por todas as Igrejas Históricas.

Um terceiro Credo, adotado por muitas Igrejas Históricas – inclusive Reformadas e por algumas de nossas Províncias, é o Credo Atanasiano, atribuído ao Bispo Atanásio, grande apologeta e combatente contra as heresias, com sua redação final em torno do ano 500. É um Credo mais longo, e tem como premissa que quem abraça a fé católica da Igreja deve confessá-lo, e quem não crê firmemente nessas doutrinas não poderá se salvar. Esse Credo tem um grande valor didático em nossa compreensão da natureza de Deus. Vale a pena transcrevê-lo:

"Todo aquele que quer ser salvo, antes de tudo é necessário que abrace a fé católica. O que não guardar esta fé íntegra e pura, sem dúvida perecerá para sempre. E a fé católica é esta:

Que adoramos um só Deus em Trindade, e a Trindade em Unidade, sem confundir as pessoas nem dividir as substâncias, porque é uma a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo, mas a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma, igual a glória e co-eterna a majestade. Assim como é o Pai, assim é o Filho, assim o Espírito Santo. Incriado é o Pai, incriado o Filho e incriado o Espírito Santo. Incompreensível é o Pai, incompreensível é o Filho, incompreensível o Espírito Santo. Eterno é o Pai, eterno o Filho, eterno o Espírito Santo. E, no entanto, não são três eternos, mas um só eterno; como também não são três incompreensíveis, nem três incriados, mas um só incriado e um só incompreensível. Assim, onipotente é o Pai, onipotente é o Filho, onipotente é o Espírito Santo, e, no entanto, não são três onipotentes, mas um só onipotente. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E, no entanto, não são três deuses, mas um só Deus. Assim também, o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, o Espírito Santo é Senhor. E, no entanto, não são três Senhores, mas um só Senhor; porque assim como a verdade cristã nos obriga a reconhecer que cada uma das pessoas de per si é Deus e Senhor, assim a religião católica nos proíbe dizer que há três deuses ou três Senhores. O Pai de nada é feito, nem criado, nem engendrado. O Filho é só do Pai, não feito, nem criado, nem engendrado. O Espírito Santo é do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem engendrado. Há, pois, um Pai, não três Pais; um Filho, não três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nessa Trindade ninguém é primeiro nem posterior, ninguém é maior nem menor; mas todas as três pessoas são coeternas juntamente e coiguais. De maneira que em tudo, como foi dito, devemos adorar a unidade na trindade, e a trindade na unidade. Portanto, o que quiser se salvar deve pensar assim na trindade.

Além do mais, é necessário para a salvação eterna que também creia corretamente na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. Porque a fé verdadeira que cremos e confessamos, é que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus é Deus e Homem; Deus da substância do Pai, gerado antes de todos os séculos; e Homem, da substância de sua mãe, nascido no mundo; Perfeito Deus e Perfeito Homem, subsistente de alma racional e de carne humana; igual ao Pai em sua divindade; inferior ao Pai segundo a sua humanidade. Que, embora seja Deus e Homem, contudo não são dois, mas um só Cristo; Um, não pela conversão da divindade em carne, mas pela assunção da Humanidade em Deus; Um totalmente, não por confusão de Substância, mas por unidade de Pessoa. Pois como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e Homem é um só Cristo.

O que padeceu por nossa salvação, desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia dentre os mortos. Subiu aos céus, está sentado à destra do Pai, Deus Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Em cuja vinda todos os homens ressuscitarão com seus corpos e darão conta de suas próprias obras. E os que tiverem feito o bem irão para a vida eterna; e os que tiverem feito o mal, ao fogo eterno."

Esta é a Fé Católica, e quem nela não crê firmemente, não poderá se salvar".

Durante a Reforma Protestante do Século XVI, Luteranos, Calvinistas, Anabatistas e Anglicanos (XXXI Artigos de Religião), com suas semelhanças e diferenças, elaboraram suas Confissões de Fé baseadas nos Credos, porém com uma ênfase particular na salvação pela Graça mediante a Fé, e na autoridade das Sagradas Escrituras. Na Idade Contemporânea tivemos novos documentos doutrinários, à base dos Credos e das Confissões da Reforma, sendo o mais importante o Pacto de Lausanne, de 1974.

Diante de ateus, agnósticos, politeístas, animistas e unitaristas, em nossos tempos, é importante estudarmos os Credos e reafirmarmos as suas doutrinas centrais. Os Anglicanos não “rezam" o Credo Apostólico ou o Credo Niceno, mas o recitam e confessam, segundo o preceito do apóstolo Pedro de “saber dar a razão da fé que há em nós”; o Anglicanismo é uma expressão histórica e confessante da Igreja de Cristo, e, como tal, comprometido com a verdade da Sã Doutrina, com o legado apostólico.

Confessemos, pois, com convicção a nossa fé!


OS ANGLICANOS E OS SACRAMENTOS

O terceiro item do Quadrilátero de Lambeth, dentre as crenças doutrinárias centrais para os Anglicanos, se encontra: "Os dois Sacramentos ordenados por Cristo mesmo - Batismo e Ceia do Senhor - ministrados com o uso das inexoráveis palavras de Cristo na instituição e dos elementos ordenados por Ele" .

Um Sacramento já foi definido como: “Um sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual, que se nos concede, instituído pelo próprio Cristo, como meio de recebermos essa graça, e como penhor que nos assegura dela” .

O Sacramento deve ter sido instituído pelo próprio Cristo – conforme relato dos Evangelhos – cujas palavras são repetidas pelos celebrantes, deve conter elementos externos, visíveis, da natureza (água, pão, vinho), e deve concorrer para alimentar os fiéis, que os recebem pela fé, com a graça de Deus. No Catecismo de um dos Livros de Oração Comum (LOC) de uma de nossas Províncias Anglicanas, Graça é entendida como "o favor de Deus para conosco” .

Em nosso Documento Doutrinário Anglicano da época da Reforma Protestante, do século XVI, os “XXXIX Artigos de Religião”, em seu artigo XXV – Dos Sacramentos, lemos a seguinte afirmativa: "Os Sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos Cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco, pelos quais Ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas, também, fortalece e confirma a nossa fé Nele. São dois os Sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho, isto é, o Batismo e a Ceia do Senhor"

Aquele importante documento nega o status de "sacramento" a outros ritos não instituídos por Cristo, mas sim pela Igreja, ao longo dos séculos, por mais benéficos que sejam: Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio e Unção dos Enfermos. Faltar-lhe-ia os elementos essenciais para tanto. Posteriormente, passaram a ser denominados no Anglicanismo de “Ritos Sacramentais”, ou de “Sacramentos Menores"

Enquanto os Sacramentos estão na economia da salvação, os ritos sacramentais estariam na economia da santificação.

O Artigo XXVII Do Batismo, do Documento acima citado, nos ensina que: “O Batismo não é um sinal de profissão e marca de diferença, com que se distinguem os Cristãos dos que o não são, mas também um sinal de regeneração ou Nascimento novo, pelo qual, como por instrumentos, os que recebem o Batismo devidamente, são enxertados na Igreja; as promessas da remissão dos pecados, e da nossa adoção como filhos de Deus pelo Espírito Santo, são visivelmente marcadas e seladas, a fé é confirmada, e a graça aumentada por virtude da oração de Deus. O Batismo das crianças deve conservar-se de qualquer modo na Igreja como sumamente como à instituição de Cristo" .

O Batismo tem sido entendido como “o ato de imergir, infundir ou aspergir, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sobre o convertido ou criança “filha da promessa”, ou seja, de pais e/ou avós já crentes "

Ambos os batismos, seguindo, na Nova Aliança, a tradição da Primeira Aliança (circuncisão e batismo de prosélitos) na Igreja Primitiva, segundo farta e confiável documentação do período dos Pais Apostólicos (segundo século). O convertido professa a sua fé, e os filhos da promessa (“para tu e os de tua descendência”) recebem a semente do Evangelho, que uma vez devidamente regada pela família da carne e pela família da fé, haverá de germinar, como tão bem nos ensina Calvino.

Como a quantidade de água, além de não-essencial, foi diversa nos primórdios do Cristianismo, os Anglicanos não somente batizam adultos e crianças, mas também o fazem por imersão (em água corrente ou não) e por infusão ou aspersão na pia batismal, com o uso das palavras da instituição por nosso Senhor Jesus Cristo. Em todos os casos deve-se preparar as pessoas e chamar a atenção para a importância desse rito de iniciação cristã.

O segundo Sacramento é tratado no Artigo XXVIII – Da Ceia do Senhor: “A Ceia do Senhor não é só um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o pão que partimos é a participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o Cálice de bênção é uma participação do Sangue de Cristo" Nossa posição rejeita a doutrina da Transubstanciação da Igreja Romana e da Consubstanciação da Igreja Luterana, bem como o do mero memorial defendido pelos Anabatistas. Afirma esse Artigo: "O Corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na Ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo qual o Corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a Fé”. Daí os Anglicanos afirmarem, mas não definirem racionalmente (pois sacramento é mistério, apreendido pela fé) o sentido da “Presença Real” de Cristo, que é espiritual e não material, estando presente não nos elementos, isoladamente, mas no Sacramento: rito, palavras solenes, elementos, cristãos com fé.

Os Artigos de Religião afirmam a necessidade de, em obediência ao que está prescrito pelas Escrituras, celebrarmos a Ceia com ambos os elementos: o pão e o vinho, nem só o pão (Igreja de Roma), nem pão e suco de uva (prática que apareceu na Igreja Metodista dos EUA no século XIX), são condenados os que participam indignamente ou sem fé, e afirma-se que a fé e o caráter do celebrante não afetam o Sacramento devidamente administrado e devidamente recebido.

Como afirmação do Corpo Místico de Cristo, e de que nós, os Anglicanos, somos uma parcela provisória e reformada desse Corpo, praticamos a chamada “Ceia Aberta" (a Mesa é do Senhor e não da Igreja Anglicana) a todas as pessoas batizadas, que confessem Cristo como Senhor e Salvador e estejam em paz com Deus e em comunhão com as suas igrejas.

A Ceia do Senhor, ou Eucaristia (“Ação de Graças”) era celebrada dominicalmente pela Igreja dos primeiros séculos, como afirmação da redenção e da ressurreição. Fórmulas e ritos foram sendo elaborados, sendo a mais antiga (adotada pela Igreja Ortodoxa Siriana) atribuída a Tiago, irmão do Senhor. As tradições da Igreja Celta e da Igreja Romana foram profundamente afetadas pela Reforma Luterana na adoção dos Ritos pelo Livro de Oração Comum, da Igreja da Inglaterra. Hoje, variações que não afetem o essencial, são adotadas nos LOC's de cada uma das 38 Províncias Anglicanas, e em Ritos Alternativos ou Opcionais, devidamente autorizados pelo Bispo de cada Diocese, único detentor do “jus liturgicum” (autoridade para adotar liturgias).

Os Sacramentos têm como fundamento a própria Encarnação de Cristo, que dignifica a Natureza, e o uso dos seus componentes para o bem estar material e espiritual. Para os Anglicanos as Escrituras e os Sacramentos alimentam a fé e proclamam a fé. Deve-se, contudo, evitar o formalismo, a banalização ou a superstição (magicismo) no tocante aos Sacramentos, que devem ser celebrados “com ordem e decência” com solenidade e docência, segundo a Liturgia Oficial da Igreja (como prescrevem os Cânones).

Ao convidarmos parentes, amigos e vizinhos para as celebrações do Batismo e da Ceia, emprestamos aos Sacramentos uma dimensão missionária, evangelizadora, como anúncios solenes das Boas Novas. Pregamos, assim, não pela verborragia, mas pela Liturgia, usada, poderosamente, pelo Espírito Santo.

Não podemos negar a História da Igreja e a herança apostólica, negando os Sacramentos. O equilíbrio entre Pregação e Sacramento como explicitações da Palavra de Deus para o Povo de Deus é uma das mais profundas marcas do Anglicanismo.

Vivamos essa Verdade!


OS ANGLICANOS E O EPISCOPADO

O quarto, e último item do Quadrilátero de Lambeth quanto às doutrinas centrais da Comunhão Anglicana, afirma: “O Episcopado Histórico, localmente adotado nos métodos da sua administração, para as variadas necessidades das nações e dos povos chamados por Deus para a unidade da Igreja”.

A Prefação do Ordinal (Ritos de Ordenação de Ministros) do Livro de Oração Comum original já defendia que “desde os tempos dos apóstolos, com seus bispos, presbíteros e diáconos”, e “...quão necessária é essa ordem na Igreja de Cristo”.

Por Episcopado, entenda-se a forma de governo da Igreja liderada por um Bispo (episkopos = superintendente). Ο Episcopado é a mais antiga das formas de administração eclesiástica, estabelecida no segundo século, após a morte dos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos (seus discípulos), para manter a coesão e a ordem nas comunidades, coordenar e supervisionar as suas ações, preservar a doutrina original e combater as heresias, manter, em colegialidade, a unidade entre as várias comunidades locais, empreender esforços missionários, preparar e ordenar presbíteros e diáconos para os seus ministérios. O Episcopado consolidou-se e expandiu-se como a única forma conhecida de governo da Igreja de Cristo, tanto no Oriente (Bizantinos, Pré-Calcedônios e Nestorianos), quanto no Ocidente (Igreja de Roma) até o Século XVI e a Reforma Protestante. A Primeira Reforma (Anglicanos e Luteranos), bem como outros grupos reformados mantiveram o Episcopado. Hoje, entre Romanos, Ortodoxos e Protestantes, 90% da Cristandade é episcopal.

Por Episcopado Histórico, entenda-se o Episcopado quem tem sido mantido por ordenações sucessivas por quem já possuía essa ordenação, através dos séculos (o Bispo da DAR tem comprovada essa sucessão, retroativamente, até o século VIII). Algumas Igrejas, como a Luterana da Alemanha e dos EUA, e setores da Metodista, possuem o Episcopado Não-Histórico, os seus bispos possuem a autoridade, mas não a tradição da Ordenação com sucessão, e outras mantêm o sistema episcopal de governo, dando, porém, aos seus dirigentes, outros títulos (pastor presidente: Assembléia de Deus; pastor-sinodal ou pastor-distrital, Igreja Luterana (IECLB, IELB); superintendente: Igreja do Nazareno etc.).

Entre as correntes internas do Anglicanismo, há, entre setores anglo-católicos, quem defenda que o Episcopado é do “esse” (essência) da Igreja, e que sem bispo não há verdadeiramente uma Igreja, mas uma comunidade eclesiástica (posição da Igreja Romana e das Igrejas Orientais); enquanto setores anglo-evangélicos se dividem entre os que consideram o Episcopado um “bene esse” (benefício) para a Igreja, uma marca que a torna melhor. Setores dos anglo-católicos e dos anglo-evangélicos consideram o Episcopado uma “plena esse” (plenitude), as igrejas não-episcopais surgidas apenas com setores da Reforma Protestante do Século XVI (governo presbiterial e governo congregacional) são Igrejas, mas são limitadas em sua plenitude pela ausência do Bispo, embora todas elas tenham autoridades que desempenham “de fato” tarefas típicas de um Bispo. Embora as igrejas de governo presbiterial e congregacional (presbiterianos, batistas etc.) sejam apenas 10% da Cristandade, são responsáveis por 90% dos cismas e fragmentações institucionais ocorridas nos últimos 500 anos, que é um dado a se considerar.

Na Idade Antiga e na Idade Média encontramos os bispos-missionários, que lideravam, apostolicamente, equipes de presbíteros, diáconos e leigos para implantar o Evangelho em novas regiões ainda não cristianizadas, e os bispos-diocesanos, titulares de uma região eclesiástica dada. Nas igrejas episcopais o termo Diocese, algumas vezes, é substituído por região eclesiástica, área, distrito, ou outro, mas com o mesmo significado de uma região com um conjunto de congregações e seus dirigentes, sob a autoridade de um Bispo.

Para a Doutrina Anglicana o termo “igreja local” é usado para Diocese, e “comunidades locais” para as Paróquias, Missões e Pontos Missionários. Os

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