Eclesiologia
ECLESIOLOGIA
A DOUTRINA DA IGREJA
VERSÃO DIGITAL POR DOUGLAS ARAUJO
DOM ROBINSON CAVALCANTI
IGREJA ANGLICANA NO BRASIL GAFCON GLOBAL ANGLICANS
DISCLAIMER
Essa versão digital do livro foi compilada por Douglas Araujo para uso pessoal e compartilhamento com a comunidade local.
Nenhum texto foi alterado ou modificado de nenhuma forma, no intuito de preservar o escrito do nosso queri- do Dom Robinson Cavalcante.
O livreto a seguir é um compilado recuperado com mui- to trabalho de 15 artigos publicados por Dom Robinson Cavalcanti no site dar.org.br (que não mais existe desde o fim de 2009)
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Contato: eu@dodopok.dev Douglas Araujo - Vitória/ES Janeiro de 2022
A Igreja é portadora de doutrinas, ou seja, de verda- des reveladas sistematizadas, que formam parte da sua identidade e da sua missão. As doutrinas, emanadas das Sagradas Escrituras e compreendidas pela Tradição Apos- tólica, devem ser entendidas e ensinadas interna e exter- namente. Há uma diversidade de campos doutrinários, e um deles – de suma importância – é a doutrina sobre a própria Igreja (a Eclesiologia). E é aí que reside uma das fragilidades atuais da Igreja: estuda e ensina sobre tudo, menos sobre ela própria, ou, quando o faz, é de modo su- perficial ou deficiente. Essa é uma constatação crescente.
Do coração do Senhor nos chega duas preocupa- ções centrais com a sua Igreja: a preocupação com a uni- dade, "para que todos sejam um", e a preocupação com a verdade, "o Espírito conduz a toda a verdade". Esses dois desejos do Senhor não estão sendo cumpridos. As here- sias e ensinos exóticos se multiplicam nos extremos do espectro, desde a "verdade pluriforme" ou inatingível do liberalismo pós-moderno, às “revelações” particulares e pretensamente complementares de círculos ultra-pente- costais. Por outro lado, estamos atingindo o ponto mais baixo da degradação divisionista: a túnica inconsútil está rasgada, o Corpo dilacerado. Um debate estéril é o que se trava para se saber o que é “menos ruim": se um Cor- po dividido que ensina a Verdade, ou se um Corpo unido às custas da Verdade. A divisão do Corpo, em si, já atenta
contra a verdade, e a unidade sem verdade é uma falsa unidade. A Igreja, pois, vive em pecado, e em grave peca- do, não demonstrando consciência disso, não se arrepen- dendo e não tomando medidas de correção. Uma Igreja dividida e herética perde a autoridade missionária e per- de a autoridade disciplinar interna.
O Jardim do Éden não precisava de Igreja, porque todo o povo era Povo de Deus. A Nova Jerusalém não pre- cisará de Igreja, porque a noiva já casada verá, outra vez, todo o povo como Povo de Deus. Entre o Pecado Original, com a expulsão do Paraíso, e o Juízo Final – a História – es- tamos sob a Providência salvífica de Deus, com seus Pac- tos (Adão, Noé, Abraão, Moisés), a Primeira Aliança com o Povo de Israel: espaço para a religião correta (monoteís- mo), para a ética pessoal correta (mandamentos), para a ética social correta (ano sabático e ano do jubileu), para a Lei, para os Profetas e para a vinda do Messias. Deus não enviou anjos, mas trabalhou na História, concretamente, com seres humanos. Com o advento do Messias, cessou o papel de Israel (que nada tem a ver com o Estado de Israel atual), e nenhuma nação terrena pode pretender hoje o status de "povo escolhido".
A Igreja é a Segunda Aliança, divinamente instituí- da e humanamente constituída. De todas as nações para todas as nações, nos ensina o apóstolo Pedro, ela é a her- deira universal dos títulos anteriormente atribuídos a Is-
rael: como "casa espiritual”, “sacerdócio santo”, “sacerdócio real", "geração santa”, “nação santa", "povo adquirido" (I Pe 2:5-10). Para o reformador protestante Martinho Lutero, se Israel quiser se salvar hoje deve ser re-enxertado no Novo Israel, a Igreja. Mistério e Sacramento, espaço da Graça, ensaio da Nova Humanidade, vanguarda do Reino de Deus. Saímos da dispensação da Lei para a dispensa- ção da Graça.
Pensar a Igreja é pensar sobre um organismo vivo e sobre uma organização. Ou seja, a Eclesiologia deve in- cluir sempre o pensar sobre a natureza da Igreja, sobre a vida da Igreja, sobre a doutrina da Igreja, sobre a missão da Igreja e sobre a organização da Igreja (“church order”). A ausência de qualquer um desses itens resulta no dano de uma mutilação.
Quanto à sua natureza não podemos somente afir- mar que é divinamente instituída (dimensão espiritual), ou que é humanamente constituída (dimensão social, histórica, cultural), mas sempre ambas as coisas. Importa dizer que uma organização sem um organismo vivo se re- duz a uma mera instituição humana, mas um organismo vivo sem organização humana é algo descarnado ou algo anárquico.
A vida interna da Igreja, tendo como paradigma a Igreja primitiva, deveria incluir os vínculos de afeição (o amor), o estar juntos, a oração, o estudo da Palavra,
a adoração e o louvor, a ministração mútua dos dons, a hospitalidade, a partilha dos bens, a celebração dos sa- cramentos (Atos 2:37-41, 4:32-35). Não se pode hipertro- fiar ou atrofiar qualquer uma dessas dimensões, sem que acarrete em dano para o Corpo.
A Igreja veio para uma tarefa, uma missão, e ou é missionária, ou não é Igreja. Quem realiza a missão é a Igreja, e a Igreja só tem sentido realizando a missão. São faces da mesma moeda, indissociáveis. Ser orientado para a Igreja é ser orientado para a missão, e ser orientado para a missão é ser orientado para a Igreja. Ao longo dos sé- culos, e particularmente na Idade Contemporânea, con- trovérsias teológicas têm resultado em parcializações da missão. O que denominamos de Missão Integral da Igreja é apenas a recuperação da totalidade do ensino bíblico a respeito (a Grande Comissão e o exemplo de Jesus): evan- gelismo, ensino, comunhão, serviço e profetismo.
A organização da Igreja, a partir das Escrituras e das respostas do Espírito Santo às necessidades humanas, foi construída na reflexão teológica e na práxis – ao longo dos séculos, em um surpreendente “consenso dos fiéis", ou "mente da Igreja", pelas experiências Bizantina, Assíria, Pré-Calcedônica (Siriana, Copta, Etíope, Armênia, India- na), Celta e Romana. A Reforma Protestante, ao priorizar o tema da autoridade da fonte de revelação (as Escrituras canônicas do Antigo e do Novo Testamentos) e a Sote-
riologia (salvação pela Graça mediante a fé) teve o seu ponto débil justamente na Eclesiologia. As ênfases sote- riológicas e missiológicas do Evangelicalismo, e Pneuma- tológica do Pentecostalismo incorreram na mesma lacu- na. O Arcebispo de Cantuária, Robert Runcie, falando ao 1° NEAC (Congresso Nacional Evangélico, na Inglaterra), reconhecendo o valor do Evangelicalismo, fez um apelo para que este reconhecesse a sua fragilidade nessa área, procurando corrigi-la, para o bem da Igreja.
A escandalosa fragmentação denominacionalista (com suas "denominações”, “sub-denominações”, “pós-de- nominações”, “ministérios” e “jurisdições”), fruto da carne (com as congratulações do inferno), e as consciências anestesiadas diante dessa tragédia, indicam a seriedade do momento em que vivemos, da necessidade do "saco" e da "cinza", para que o crescimento da Igreja não resulte em mera inchação. Afinal “denominação” não é um termo teológico, mas sociológico, inventado pelos norte-ameri- canos no século XVIII, não está na Bíblia, nem nos Pais da Igreja ou nos Reformadores.
No primeiro texto, ressaltamos a Igreja como um Povo Universal da Nova Aliança, a dispensação da Graça, com sua natureza, sua vivência interna, sua doutrina, sua missão e sua organização. Ressaltamos o momento atual de falta de verdade e falta de unidade. Por outro lado, o denominacionalismo surgido nos Estados Unidos no
século XVIII e a “anabatistização” do protestantismo lati- no-americano (Samuel Escobar) concorrem para a fuga racionalizante de que “o que importa é a igreja invisível", ou "a unidade espiritual" (platonismo), e para uma visão localista das "igrejas", com a perda da prioridade da Igreja.
No Credo Apostólico afirmamos: “Creio... Na Santa Igreja Católica”.
No Credo Niceno afirmamos: "E cremos na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica".
A Confissão de Augsburgo, luterana, de 1530, em seu Artigo 8°, nos ensina que: “...a igreja cristã, propria- mente falando, outra coisa não é, senão a congregação de todos os crentes e santos....
A Confissão Helvética, reformada, de 1562, em seu Artigo 17, elabora o tema:
"A Igreja é a assembléia de todos os santos, isto é, dos que verdadeiramente conhecem, adoram correta- mente e servem o verdadeiro Deus em Cristo, o Salva- dor, pela palavra e pelo Espírito Santo, e que, finalmente, participam, pela fé, de todos os benefícios gratuitamente oferecidos mediante Cristo"... Segue-se, necessariamente que existe uma só Igreja. A Igreja Católica. Por isso cha- mamos de "católica" a essa Igreja, porque é universal... Mi- litante e Triunfante. Uma é declarada a Igreja Militante e a outra a Igreja Triunfante. A primeira ainda milita na terra...
A outra já deu baixa e triunfa no céu... Entretanto, essas duas Igrejas têm comunhão e união uma com a outra. A Igreja Militante na terra tem tido, sempre, muitas igrejas particulares. Contudo, todas estas devem se referir à uni- dade da Igreja Católica".
A Confissão Helvética se refere à unidade espiritual, mística, entre a Igreja Militante e a Igreja Triunfante, a "co- munhão dos santos” e não à unidade no interior da Igreja Militante, que deve ser visível, visto que é composta de pessoas vivas, inserida no tempo e espaço, na cultura e na conjuntura. O termo “igreja particular" se refere, por séculos, aos ramos históricos em sua expressão nacional ou regional.
Uma Igreja sadia começa pela consciência de per- tença à Igreja Católica, Militante, e, em seguida, às igrejas particulares, nacionais ou regionais.
A Igreja é Apostólica porque foi dirigida pelos após- tolos após a Ascensão de Jesus, até quase o final do pri- meiro século, e porque se fundamenta em seus ensinos e em suas práticas. Os apóstolos foram chamados e co- missionados, pelo próprio Cristo, como portadores de au- toridade para ligar e desligar (o que a teologia luterana chama de "Ofício das Chaves").
Comentando sobre esse período, Emil Brunner, em O Equívoco sobre a Igreja (pp.31,32), escreve:
"...o que eles receberam deve ser passado para o mundo. E o que eles receberam tem o pleno peso da autoridade divina final. Sem os após- tolos não haveria cristianismo, ou, mais preci- samente, sem a autoridade divina dos após- tolos não haveria Ecclesia. A comunidade de Jesus só é concebível, somente eficaz, como uma comunidade apostólica...na Ecclesia do período do Novo Testamento, a posição de autoridade completamente não democrática e hierárquica ocupada pelos apóstolos, está baseada no fato de que somente eles são as primeiras testemunhas da história da salva- ção, que todos os outros devem receber a pa- lavra da salvação somente deles, e somente deles ela pode ser recebida. Discordar neste ponto é discordar não de fundamentos cató- licos, mas cristãos. A contingência da revela- ção na história condiciona a contingência da preeminência atribuída aos apóstolos".
O que Brunner está claramente negando é a lenda da "democracia direta", defendida pelos congregacionais, ou da "democracia indireta" defendida pelos presbiteria- nos em sua equivocada releitura, de frente para trás, da História da Igreja, na verdade elaborações de teóricos quando da substituição da aristocracia pela burguesia
como classe hegemônica no Ocidente, quando este vai substituindo a servidão pelo capitalismo, como modo de produção.
Os apóstolos trataram do governo da Igreja, seja no episódio da substituição de Judas por Matias (At 1:15-26), na designação dos diáconos (At 6:1-7), na resolução das primeiras controvérsias (At 15). Descolando-se do Templo de Jerusalém e das sinagogas, de uma seita judaica para uma fé universal, a igreja nascente vai sendo organizada não democraticamente, mas teocraticamente (Deus – o Filho de Deus – os Apóstolos – os indicados pelos apósto- los – os sucessores dos apóstolos). O carisma não existia solto da autoridade constituída.
A Igreja de Jerusalém, presidida pelo apóstolo Tiago, o irmão do Senhor, foi a primeira “igreja local" e a primeira "mega-igreja" (mais de cinco mil membros), em um mo- delo auto-centrado, que não cumpria a Grande Comissão. Foi preciso que o Senhor, em sua Providência, levantasse uma perseguição que destruiria aquela comunidade e o seu modelo eclesiástico, e daria um impulso no empreen- dimento missionário. “Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Ju- déia e de Samaria... Os que haviam sido dispersos prega- vam a palavra por onde quer que fossem" (At 8: 1b, 4).
A Igreja desloca o seu centro para Antioquia, e daí
para Alexandria, Éfeso, Corinto, Colossos, Filipos, por toda a Ásia Menor, sul da Europa e norte da África, com cida- des-pólos com suas igrejas-sedes regionais (Sés) com seus bispos, presbíteros e diáconos. Se, em um primeiro momento os termos episkopos (bispos) e presbyteroi se confundem, logo haverá uma diferenciação, uma presi- dência, uma supervisão regional, tomando como modelo a administração greco-romana. “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos que estão em Filipos, com os bispos e diáconos" (Fp 1:1).
Já no segundo século há uma clareza sobre o gover- no apostólico da Igreja no pensamento dos Pais Apostóli- cos, em particular em Inácio, Bispo de Antioquia.
"Na Igreja de Uganda, o Anglicanismo tem sido construído sobre três pilares: os márti- res, o reavivamento e o Episcopado histórico. E cada um deles se refere à Palavra de Deus, a base sobre a qual nos edificamos". (Henry Orombi, Arcebispo Primaz).
No Período Apostólico (33-90 A.D.) tivemos o fecha- mento do Cânon do Novo Testamento, e nele podemos encontrar a natureza da Igreja, sua vida comunitária e sua missão. O governo da Igreja, com o processo de expan- são e de institucionalização, e a sistematização doutriná- ria contra as heresias, vão se dar no período seguinte, o dos Pais Apostólicos, a geração que conviveu e foi disci-
pulada pelos Apóstolos, e destes recebeu a autoridade e a tarefa para preservar sua herança, e dar respostas, em dependência do Espírito Santo, às novas necessidades e desafios.
A Igreja, nos finais do primeiro século e início do segundo século, havia deslocado o seu centro irradiador de Jerusalém para Antioquia, e é um dos seus primeiros bispos, sucessor dos apóstolos, Inácio, que será o grande pioneiro na reflexão eclesiológica daquele período. Titu- lar de um profícuo Episcopado, Inácio seria martirizado (entre os anos 107 e 110 A.D.). Antes, porém, escreveu uma série de sete cartas: a Policarpo de Esmirna, aos Efé- sios, aos Magnesianos, aos Tralianos, aos Romanos, aos Filadelfienses, aos Esmirniotas, onde exorta as Igrejas a perseverarem na doutrina apostólica, condenando as he- resias nascentes, e que esse compromisso com a verdade deveria se dar em unidade: unidade para com Deus em Jesus Cristo, unidade entre si como comunidade de fé, e unidade com os seus dirigentes – os Bispos, os Presbíteros e os Diáconos. Em seus textos já há um reconhecimento explícito das três ordens.
Ensina Inácio de Antioquia:
"...convém caminhar de acordo com o pensa- mento de vosso bispo, como já o fazeis. Vos- so presbitério, de boa reputação e digno de Deus, está unido ao bispo" (aos Efésios, 4.1);
"...eu vos felicito por estardes unidos a ele, as- sim como a Igreja está unida em Jesus Cristo, e Jesus Cristo com o Pai" (ibid., 5.1);
"...devemos olhar ao bispo como ao próprio Senhor" (ibid., 3.1);
"...por isso vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos que são muito caro para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo" (ibid., 6.1);
"...uma voz de Deus: permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos" (aos Fila- delfienses, 7.1).
E, ainda, escreve:
"...foi o Espírito que me anunciou dizendo: "não façais nada sem o bispo, guardai vossos corpos como templos de Deus, amai a união, fugi das divisões, sede imitadores de Jesus Cristo, como ele também o é do seu Pai" (ibid., 2.2);
"...sem o bispo ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja" (aos Esmirnionitas, 8.1);
"...é bom reconhecer a Deus e ao bispo. Quem
respeita o bispo é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo" (ibid., 9.1).
Inácio de Antioquia põe particular ênfase na Euca- ristia como celebração da unidade, e é o primeiro escritor cristão a usar a expressão "Igreja Católica":"...onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica" (ibid., 8.2). Ele é, também, enfático em afirmar que o modelo de governo episcopal não é algo peculiar a Antioquia, ou de algumas Igrejas, mas que era algo já estabelecido por toda a Igreja "até os confins da terra" (ao Efésios, 3.2).
Da geração seguinte, ainda no primeiro século, destaca-se a figura de Irineu, Bispo de Lyon, discípulo do mártir Policarpo, que, reafirmando o legado doutrinário dos Apóstolos, elaborou notável trabalho apologético contra as heresias dos Gnósticos e dos Montanistas, com uma mensagem cristocêntrica (com as duas naturezas) e o caráter canônico dos quatro evangelhos. Suas obras principais foram: “Contra os Hereges" e "Demonstração da Pregação Apostólica".
Irineu elabora a compreensão da Tradição Apostó- lica:
"...poderíamos enumerar aqui os bispos, que foram estabelecidos nas igrejas pelos apósto- los, e os seus sucessores até nós, e eles nunca
ensinaram, nem conheceram nada, que se pa- recesse com o que essa gente vai delirando... com efeito, queriam que os seus sucessores, aos quais transmitiam a missão de ensinar..." ( Adversus Haereses, III, 3.1);
"...Os bem aventurados apóstolos que fun- daram e edificaram a igreja, transmitiram o governo episcopal a Lino (...) Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episco- pado a Clemente, que tinha visto os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pre- gação deles e diante dos olhos a tradição (...) A este Clemente sucedeu Evaristo, a Evaris- to, Alexandre; em seguida, sexto depois dos apóstolos, foi Sisto; depois dele, Telésforo, que fechou a vida com glorioso martírio; em seguida Higino, depois Pio, depois dele, Ani- cleto. A Anicleto sucedeu Sóter, e, presente- mente, Eleutério, em décimo segundo lugar na sucessão apostólica... com esta ordem e sucessão chegou até nós, na Igreja, a tradição apostólica e a pregação da verdade. Esta é uma demonstração mais plena de que é uma e idêntica a fé vivificante que, fielmente, foi
conservada e transmitida, na Igreja desde os apóstolos" (ibid., III, 3.3).
Irineu enfatiza a ligação entre sucessão apostólica nos bispos e a sucessão da doutrina dos apóstolos, e a im- portância das Sés Episcopais (igrejas-mães, onde o bispo tem assento, cátedra = catedrais).
Por desconhecimento, ou preconceito, há quem pense que o Episcopado foi uma construção muito poste- rior, medieval, e não algo estabelecido no final do primei- ro século e início do segundo século, na transição entre os Apóstolos e os Pais Apostólicos; ou que o Episcopado era uma das formas de governo encontradas naquela época, e não a única forma, como podemos ver, pois não há nenhum trabalho, de nenhum pensador, defendendo outra forma; ou que o Episcopado era algo localizado, e não algo universalmente aceito, adotado e ensinado.
O terceiro grande sistematizador da eclesiologia episcopal foi Cipriano de Cartago, em meados do século terceiro (como veremos no próximo texto). A partir daí o assunto não era nem discutido, tal o seu consenso, por dezesseis séculos, até a Reforma Protestante.
"Nossa Eclesiologia é, sem dúvida, cipriânica: Um território, com um povo e o clero em tor- no do seu bispo".(Michael Nazir-Ali, Bispo de Rochester).
Cipriano (Thascius Caecilius Cyprianus), convertido do paganismo com paixão pelo Senhor e por Sua Palavra, em apenas dois anos após o seu batismo, era eleito Bispo de Cartago, a potência do norte da África que rivalizava com Roma, e de que seria, posteriormente, derrotada nas "Guerras Púnicas". Foi ele quem convocou dois impor- tantes Concílios de Bispos daquela região. Escreveu 81 epístolas e 11 monografias, destacando-se "A Unidade da Igreja Católica" (De Catholicae Ecclesiae Unitate), em que defende a unidade, a verdade e a santidade como marcas da Igreja. Foi martirizado (degolado), em 14.09.248, du- rante a perseguição do Imperador Valeriano.
A Igreja de Cristo, a Igreja Católica, para Cipriano, deve ser uma e é uma, pois procede de Cristo e de um só núcleo, confessando a ortodoxia herdada dos apóstolos, e sob a autoridade da sua liderança: os Bispos. O Episco- pado seria uma providência divina para preservar a uni- dade da Igreja. Os apóstolos foram escolhidos por Cristo, e os Bispos estão no lugar dos apóstolos, como seus su- cessores, e ocupam esse cargo por decisão de Deus:
"...ao largo dos tempos, vai-se continuando a sucessão dos Bispos e a administração da Igreja, de sorte que a Igreja sempre esteve estabelecida sobre os bispos, e todo ato da Igreja era dirigido por estes propósitos" (De Unitate, 23.4).
Os Bispos presidem as suas Dioceses e se mantêm em comunhão com os outros Bispos, como uma só Or- dem, preservando a unidade. Sendo o Bispo símbolo de unidade e guardião da fé, requer-se, do Clero e dos fiéis, submissão à sua autoridade. São dele as conhecidas fra- ses: "Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja como mãe”, e "Ninguém se salva fora da Igreja".
Ele não somente reafirma a existência de três or- dens de ministros na Igreja: os Diáconos, os Presbíteros e os Bispos, mas compreende essas ordens como cumula- tivas. Identifica os Bispos com os apóstolos (apóstolos, it est episcopos), e se preocupou com a seriedade, inclusive do processo de sagração episcopal:
"...com toda diligência, é preciso guardar a tra- dição divina e as práticas apostólicas, e é pre- ciso atentar para o que se faz entre nós, que é o que se faz em quase todas as províncias do mundo, a saber, que para haver uma or- denação bem feita, os bispos mais próximos da mesma província se reúnam com o povo a frente de estar o bispo ordenado" (Epístola, 67.5).
A referência ao termo Igreja é sempre em seu sen- tido geral: a Igreja Católica. Os conceitos de "Igreja par- ticular" ou "província”, para suas expressões regionais, e de "Diocese", para suas expressões locais, já eram de uso
corrente.
Estávamos, então, no terceiro século de existência da Igreja, e a compreensão e a prática do governo episco- pal estava estabelecida e consolidada em todo o mundo. Não seria mais uma preocupação, nem dos Concílios, nem da terceira geração, os Pais da Igreja, nem das gerações anteriores. Estávamos diante de uma clara percepção da "mente da Igreja", do "consenso dos fiéis, percebida como uma resposta iluminada pelo Espírito Santo, a velha fór- mula "pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a nós". Esse sistema estava mencionado no mais antigo texto de ins- trução para a Igreja (do primeiro século): o Didaké, e re- gistrado nos mais antigos dos seus historiadores, como Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica), e tomado por sentado pelos Pais da Igreja.
Concluído o Cânon neo-testamentário (e de toda a Bíblia), que decisões principais foram tomadas pelo con- senso da Igreja:
- O estabelecimento do próprio Cânon (que livros deveriam ou não integrar a Bíblia);
- O estabelecimento da Doutrina, o que deveria ou não ser crido, e isso foi feito com a redação dos Credos: Apostólico e Niceno;
- O estabelecimento de uma forma de governo para a Igreja, o que foi feito com o Episcopado.
Vale a pena chamar a atenção para o fato de que tivemos controvérsias posteriores sobre o Cânon (com o acréscimo dos deuterocanônicos pela Igreja de Roma, oficializado pelo Concílio de Trento), e sobre os Credos (com o acréscimo da cláusula “filioque” (procedente do Pai e do Filho), pela Igreja Ocidental, rejeitado pelas Igre- jas Orientais). Mas, nenhuma controvérsia se deu sobre o Episcopado entre o século I e o século XVI (Reforma Pro- testante).
Unidade, Santidade, Catolicidade e Apostolicida- de foram percebidas como as marcas centrais da Igreja. Durante os séculos seguintes, o final da Idade Antiga e a Idade Média, questões regionais, culturais, políticas e de aspectos tópicos da doutrina iriam resultar na divisão ins- titucional da Igreja em apenas quatro ramos (a malfadada expressão "denominação” ainda não havia sido cunhada), três no Oriente (A Igreja Assíria (nestorianos), as Igrejas Pré-Calcedônicas (Siriana, Armênia, Copta, Etíope e Ma- labar/Índia) e as Igrejas Bizantinas), majoritárias, e em comunhão com o Patriarcado Ecumênico de Constanti- nopla, e uma no Ocidente (a Igreja Romana ). E só, por dezesseis séculos. Espalhadas por todo o mundo, e, sem exceção, todas Episcopais.
Até a Reforma Protestante, pelo critério de antigui- dade, de universalidade, de consenso e de funcionalida- de, não havia dúvidas, de quaisquer naturezas, de que a
Igreja deveria ser dirigida pela tríplice ordem de minis- tros, sob a liderança dos bispos, e que esse sistema, oriun- do dos apóstolos, era uma provisão que teria como fonte o Espírito Santo.
E aí chegamos à ambigüidade (como tudo no hu- mano) em que se constituiu a Reforma Protestante do Século XVI: por um lado combateu os erros, desvios e su- perstições absorvidas, principalmente pela Igreja do Oci- dente, durante a Idade Média, afirmou a centralidade das Escrituras Canônicas do Antigo e do Novo Testamento como a fonte primária de Revelação (Sola Scriptura), e a centralidade da salvação apenas em Jesus Cristo, apenas por uma resposta de Fé à sua oferta de Graça (Sola Gra- tia, Sola Fide ). Nesses aspectos, de fonte de Revelação e de Doutrina de Salvação (soteriologia), afirmei, em minha juventude, que o 31 de outubro de 1517 foi "o dia mais importante para a Igreja depois do Dia do Pentecostes"; mas, por outro lado, o seu descaso ou construções equivo- cadas quando a Eclesiologia, foi a gênese desse processo incessante e pecaminoso de fragmentação institucional do Corpo de Cristo. A busca da verdade se fez à custa da unidade, e o sacrifício da autoridade como mantenedo- ra da verdade daria lugar, posteriormente, também, com o Liberalismo e as revelações particulares, provocando, igualmente, a perda da Verdade.
"Os Apóstolos designaram bispos e diáconos
em cada lugar, e foram eles que deram a di- reção de como o ministério deveria se perpe- tuar", (Clemente, terceiro Bispo de Roma).
"Em meados do segundo século, todos os centros de liderança do Cristianismo, apare- ciam com seus próprios bispos, e, desde en- tão, até a Reforma, o Cristianismo em toda a parte estava organizado sob uma base epis- copal" (The Oxford Dictionary of the Christian Church).
Em um período histórico muito curto, os Apóstolos e os Pais Apostólicos, em pleno processo de expansão missionária, estabelecimento de comunidades em uma diversidade de contextos e culturas, escolha do Cânon bí- blico e explicitação doutrinária, foram capazes de elabo- rar uma forma de governo para a Igreja universalmente aceito e implantado.
É verdade que foi um processo complexo e assimé-