Escritura na Visão Anglicana

Versão Integral em Texto

Escritura na Visão Anglicana

Reginald H. FullerData desconhecida

ESCRITURA NA VISÃO ANGLICANA

Reginald H. Fuller

I. A BÍBLIA COMO A PALAVRA DE DEUS

Nas recentes liturgias anglicanas os leitores do Antigo Testamento e do Novo Testamento são instruídos a concluir a sua leitura dizendo Palavra de Deus, (em nosso, Palavra do Senhor). Pareça isto, talvez, sugerir para muitos que se trata de um retrocesso ao fundamentalismo e que os anglicanos acreditam na Bíblia como oráculos diretos de Deus. Para essa gente não seria surpreendente o discurso eloqüente do Deão Burgon, no século passado:

A Bíblia é a voz daquele que está assentado no Trono. Cada livro, cada palavra, cada sílaba, cada letra da Bíblia é a fala do Altíssimo. A Bíblia não é outra coisa senão a Palavra de Deus, não apenas uma parte da Palavra, mas toda a Palavra Daquele que está sentado no Trono, palavra sem falha, palavra sem erro, palavra suprema.¹

Em seus dias, Deão Burgon foi um fino apologista do anglicanismo clássico, mas sobre o tópico das Escrituras já não podemos mais seguí-lo. Há muitas razões para tanto. Primeiro, nunca a Igreja da Inglaterra advogou a vindicação da inerrância ou infalibilidade da Escritura, mesmo no período da Reforma, quando se dava ênfase à Bíblia como a Palavra de Deus. O artigo VII dos Trinta e Nove artigos da Religião assinalou que o conhecimento da obra salvadora de Jesus Cristo como o ponto central das Escrituras: tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento a vida eterna é oferecida à humanidade em Cristo. No artigo II o Filho de Deus é denominado de Palavra do Pai, encorajando-nos a perceber a Palavra, principalmente, na pessoa ao invés de um livro.

Há, ainda, razões mais contemporâneas para se pensar que as Igrejas da Comunhão Anglicana não exigem que se defenda a Bíblia como a Palavra de Deus no sentido literal. Isto resulta da aplicação do método crítico-histórico às Escrituras.² Este método tem demonstrado que, por mais que a Bíblia contenha a palavra de Deus no sentido de que ela fala em Jesus Cristo, é, não obstante, produção muito humana, também, uma coleção de obras de muitos autores humanos ao logo de período de mil anos ou mais e todas elas condicionadas pelas visões culturais do seu tempo. Além disso, a crítica bíblica tem mostrado que a Bíblia é um trabalho altamente pluralista, contendo pontos de vista pessoais de muitos diferentes autores, visões que foram moldadas pela situação particular, em que foram escritas. Em síntese, a Palavra de Deus nos é comunicada por meio de palavras humanas.

Isto é alguma coisa que devemos abraçar com alegria, pois é inteiramente análogo à doutrina da Encarnação. A Palavra eterna do Pai encarnou-se como um judeu do século I, com suas limitações. É, também, análogo aos sacramentos. Deus faz uso dos elementos frágeis da água, do pão e do vinho como meios de comunicar-nos a presença e ação redentoras de sua Palavra. É, também, análogo à Igreja, que, de semelhante modo, é uma instituição humana, em constante necessidade de reformas. Com a Bíblia e com outros meios Deus usa para a nossa salvação o mesmo princípio em ação: em sua maravilhosa condescendência Ele se inclina para fazer o uso dos meios humanos e terrenos para realizar seu propósito salvífico.

Como a Palavra Encarnada é o sacramento de Deus, como o pão e o vinho são sacramentos do corpo e sangue de Cristo, como a Igreja é o sacramento da presença de Deus no mundo, a Bíblia é, também, o sacramento da palavra de Deus, sua oferta de salvação por meio do seu eterno Filho e Palavra. Quando dizemos de toda a Bíblia ou um simples perícope a palavra de Deus, estamos falando sacramentalmente, quando dizemos dos elementos consagrados como o corpo e sangue de Cristo. Na linguagem de Hooker, são instrumentos que comunicam o que eles significam, e pode se dizer, portanto, que é o que se comunica, como uma nota do real ou dólar.


II. INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS

A Igreja Cristã herdou do judaísmo a crença de que as Escrituras são inspiradas por Deus. Isto foi interpretado de diversas maneiras. Para alguns isso significou que Deus orientou a caneta dos autores humanos ou que ditou Suas palavras às mentes humanas. Mais indiretamente, sustentava-se que Deus é a causa em última instância, atrás das Escrituras, mas não imediata. Esta visão indireta parece ser a posição que Thomas Cranmer manteve na Coleta tradicional do segundo domingo do Advento: Bendito, Senhor, que fizeste com que a tua Palavra se escrevesse para nossa instrução...Os seres humanos escreveram as Escrituras, mas Deus foi a causa primária do escrito.

Alguns teólogos anglicanos contemporâneos sustentam que a doutrina da inspiração deve ser abandonada. Isto deve ao fato de que a inspiração é associada freqüentemente com o conceito da infalibilidade. Mas ela deve ser mantida pelas seguintes razões. Primeiro, é uma doutrina que se encontra em nossos princípios doutrinários. Por exemplo, no Catecismo, que diz que as Escrituras do Antigo Testamento e do Novo Testamento foram escritas sob a inspiração do Espírito Santo. Segundo, o seu abandono teria sérias implicações para diálogos ecumênicas com as Igrejas Católica romana, Luterana e Ortodoxa. Pois todas elas afirmam a inspiração das Escrituras. Terceiro, a inspiração das Escrituras não implica em infalibilidade das Escrituras. A obra principal do Espírito Santo não consiste em garantir a inerrância, mas em produzir um testemunho autêntico do evento da salvação em Jesus Cristo. A compreensão sacramental da Bíblia como a Palavra de Deus exigiria uma doutrina da inspiração não no sentido de que as palavras humanas viessem diretamente de Deus, portanto, infalíveis, mas no sentido de que as palavras humanas proclamam o evento de Cristo com o poder de evocar a fé. A proclamação da fé é precisamente a obra do Espírito Santo.

A asserção da inspiração abarca tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento, conforme o catecismo do Livro de Oração Comum americano (também, brasileiro) e, também, segundo o Artigo VII dos 39 Artigos de Religião. Nos dois Testamentos temos a oferta da salvação por meio de Cristo. A crítica histórica da Bíblia parece ter minado essa afirmação no que toca ao Antigo Testamento. Os profetas do Antigo Testamento, nos dizem os críticos, falavam nos eventos de seus dias. Isaias 40 se refere ao retorno do exílio babilônico e não a vinda de Cristo. Isto é verdade. Todavia, após o retorno, ficou evidente que o retorno não foi evento salvífico pleno e final que os profetas esperavam. As profecias ainda aguardavam a sua plena realização. Assim, Lucas 3.4-6 retoma Isaias 40.3-5 e faz aplicações desses textos para a vinda de Cristo.

Os textos do Antigo Testamento viveram na comunidade da fé e, eventualmente, foram percebidos como tendo um sentido mais pleno do que originalmente foi intencionado pelos seus autores. O todo do Antigo Testamento apontou para um evento salvífico futuro e veio repousar em Cristo. Por isso, a afirmação do Artigo VII permanece a despeito da crítica bíblica.

A inspiração da Escritura não deve ser entendida como se fosse um evento uma vez para sempre realizado. Quando se lê a Escritura na Igreja, o Espírito Santo faz uso da Bíblia de novo para proclamar a palavra viva da salvação. Esta proclamação exige a resposta da fé, a qual, por sua vez, é a obra do Espírito Santo. A coleta sobre a Bíblia acima citada continua a orar:

Permite que a possamos de tal modo ouvir, ler, ponderar, aprender e assimilar interiormente que, pela paciência e consolação das Santas Escrituras, mantenhamos inabalável bem-aventurada esperança da vida eterna...

A obra do Espírito Santo não está confinada ao escrito original, que produziu testemunho com peso de autoridade. Esse testemunho deve ser constantemente animado e iluminado na comunidade da fé,


III. SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS

O Artigo VI dos Trinta e Nove Artigos de Religião intitulado de “da suficiência da Escritura para a salvação". O corpo do artigo continua a definir a suficiência para dizer que

A Sagrada Escritura contem tudo que é necessário para a salvação de modo que tudo que nela não se encontra, nem se prova por ela não é exigido de ninguém, como artigo de fé ou necessária para salvação.

No Ordinal o candidato à ordenação a qualquer das três ordens declara sua conformidade: creio que as Santas Escrituras do Antigo Testamento e do Novo Testamento são Palavra de Deus e contêm todas as coisas necessárias para a salvação. Só a Bíblia (neste sentido as Igrejas da Comunhão Anglicana aceitam o princípio da Reforma, sola scriptura) contem o testemunho principal de autoridade dos atos poderosos de Deus na história da salvação. Nenhum outro livro por mais que seja primitivo ou inspirador pode aditar qualquer coisa ao testemunho desses atos de Deus, por mais que contribua para a nossa compreensão dos atos de Deus. Isto deve ao fato de que os atos salvíficos se realizaram uma vez para sempre e com os eventos há, também, testemunho com autoridade uma vez para sempre. Este testemunho é a obra ou dos que testemunharam diretamente os eventos (testemunhas oculares ou ministros da palavra, Lc 1-2), ou daqueles que estavam em contato imediato com essas testemunhas, as quais, no dizer de Hoskyns, foram “tão completamente criadas pelo testemunho apostólico e formadas pela obediência apostólica que, verdadeiramente, foram trazidas para dentro da companhia dos discípulos originais de Jesus e investidas com autoridade de sua missão.” É verdade que há algumas áreas vagas, obscuras: alguns textos sub-apostólicos como I Clemente não foram adotados no Cânon, enquanto que outros que, de acordo com a crítica moderna, se encontram em maior distância das testemunhas originais tais como II Pedro. Todavia, existe um núcleo central de escritos apostólicos.

Podemos ser gratos porque os formulários anglicanos nunca defendem que tudo que há nas Escrituras é necessário para a salvação. Há na Bíblia muito de genealogia, mitos primitivos, lendas, sagas, conceitos religiosos primitivos (Yahweh como divindade vingativa) que dificilmente podemos aceitar como artigos para serem cridos Mais uma vez, estamos interessados apenas com as coisas que proclamam a salvação em Jesus Cristo.

Demos muita ênfase à interpretação cristológica do Antigo Testamento. Mas essa não é a única razão para o uso do Antigo Testamento. O Evangelho faz a asserção de que Deus estava agindo em Jesus Cristo. Os primeiros discípulos não se encontraram com Deus em Jesus, pela primeira vez. Antes, eles reconheceram Deus em Jesus em conseqüência de sua formação na tradição judaica vetero-testamentária. Portanto, o Antigo Testamento deve ser lido por si mesmo bem como por sua significação cristológica. Deus revelado em Jesus Cristo é o Deus que criou os céus e a terra, chamou as nações à existência e o Israel do Egito e lhe deu a Lei. Portanto, a autoridade do Antigo Testamento se estende para além da prefiguração do evento de Cristo.


IV. PRIMAZIA DAS ESCRITURAS

A primazia da Escritura significa que ela é a norma da fé e a norma pela qual outras normas (credos, tradição, confissões de fé) são julgadas. No passado, a Bíblia foi freqüentemente usada como textos de comprovação de sistemas doutrinários. Comentários sobre os Artigos consistiam, com freqüência, em textos que dão sustentação a cada proposição dos Artigos. Isso era a dieta da educação teológica para os candidatos par a ordenação. Hoje questionamos a validade desse procedimento por várias razões. Primeiro, a fé é principalmente a aceitação do Evangelho como Boas Novas dos atos poderosos de Deus para a nossa salvação e não de séries de proposições. As proposições teológicas têm apenas significação secundária. Elas são tentativas da fé entender a si mesma - fides quarens intellectum - Há tentativas na própria Bíblia de entender a fé como nos escritos de S.Paulo, particularmente, na Carta aos Romanos. Paulo começa com o dado primário, o querigma ou mensagem apostólica e tira suas implicações para os pontos controversos de interpretação, como em 1Co 15, onde ele trata da ressurreição dos mortos. As conclusões doutrinárias de Paulo são inevitavelmente coloridas e limitadas pela visão do mundo da época. A Bíblia como norma jamais pode ser pensada como se prescrevesse para nós uma teologia já acabada para os nossos dias. O que a bíblia nos oferece por meio de norma é um modelo de procedimento, pelo qual nós, em nosso tempo, em nosso lugar, procedamos da mensagem fundamental ou querigma aos nossos problemas e questionamentos. A função normativa da Bíblia em matérias de doutrina não é, portanto, rigidamente prescritiva, mas é muito mais uma série de orientações com as quais possamos proceder na formulação da doutrina. Se há qualquer caráter prescritivo, este só negativamente, eliminando certas conclusões doutrinárias que são claramente incompatíveis com as Escrituras. Assim, por exemplo, qualquer teologia que afirma que Jesus Cristo foi a revelação de Deus só para os ocidentais e não para o mundo todo (uma visão teológica proposta por alguns teólogos cristãos hoje) deve ser eliminada como contrária à norma das Escrituras.

A Bíblia é norma, também, para a conduta ética. Os anglicanos contemporâneos não consideram a Bíblia como um livro de código moral. Antes, os mandamentos éticos da Bíblia são ilustrações da espécie de conduta que Deus exige em específicas circunstâncias. São derivados do que Deus fez em seus atos salvíficos. Enfrentamos muitas situações, hoje, que não são cobertas pelas exigências específicas da Escritura, portanto, temos de ir para além dos limites do Cânon. Porém temos de perguntar sempre que espécie de imperativo implica o indicativo do Evangelho.

O Antigo Testamento tem sido recurso característico para os anglicanos em matéria de ética. Por século, tem sido lido o Antigo Testamento na Oração Matutina, que fazia parte do culto dominical. Dessa leitura os anglicanos têm tido a percepção de que a política e o estado são arenas especiais em que os cristãos devem trabalhar a sua obediência a Deus. No século XVI, isso foi expresso pela lealdade à monarquia. Mas, na medida em que o anglicanismo se estendeu para além da Inglaterra e após a revolução americana, os anglicanos tiveram que elaborar uma ética política sob outras formas de governo. Por um lado, os anglicanos respeitam o estado como servo de Deus (Ro 13.4,6) com função dada por Deus para a promoção do bem da sociedade. Por outro lado, a tradição anglicana, consciente de que o estado pode sempre se esquecer de que está a serviço de Deus e se torna instrumento de injustiça e tirania, pode exigir que a Igreja adote crítica profética do estado. (Exemplo., Hensley Henson como Cônego de Westminster denunciou a atrocidade de Putumaio em 1912 e os arcebispos da Cidade de Cabo têm sucessivamente lutado contra o apartheid.) Não há um mandamento explícito na Bíblia que proíbe a apartheid como tal, mas o indicativo do Evangelho nos leva a essa espécie de imperativo. O ensino dos profetas tal como o de Amos e Isaias tem tido papel preponderante entre os anglicanos bem como em outras Igrejas. A preocupação com a fome no mundo é, por exemplo, um outro problema que os anglicanos têm debatido. Podemos afirmar com certeza que esses exemplos de preocupações são biblicamente fundados.


V. CÂNON

Em estreita conexão com a noção da Escritura como norma está a idéia do Cânon, a lista dos livros reconhecidos como pertencentes aos escritos normativos.

O Cânon do Novo Testamento não foi questão de controvérsia na época da reforma. O artigo VI simplesmente declara que “todos os livros do Novo Testamento comumente recebidos nós os recebemos e consideramos canônicos.” Com respeito ao Antigo Testamento, a situação era mais complicada. Como a reforma em geral, a Igreja da Inglaterra reconheceu a canonicidade daqueles livros que constavam na Bíblia Hebraica. Relegou "outros livros” ( Artigo VI), i.e., itens adicionais na Bíblia Grega, que denominamos de Apócrifa, a um apêndice de livros “lidos para o exemplo de vida e para a instrução de conduta". Todavia, o artigo continuou: a Igreja não os aplica para estabelecer qualquer doutrina". Os anglicanos têm feito sempre certo uso litúrgico dos livros apócrifos e os lecionários do século XX estenderam esse uso. A erudição contemporânea quebrou a divisão clara entre o Antigo Testamento e o Apócrifo. Seria muito bom, se os anglicanos adotassem a designação católica-romana do apócrifo como “deutero-canônico". Lemos esses livros e os valorizamos, mas eles têm posição secundária, para reforçar as doutrinas dos livros proto-canônicos.

A forma do cânon do Novo Testamento não é, muitas vezes, matéria de reflexão por parte dos anglicanos, mas ela merece atenção porque ela tem moldado, embora inconscientemente, todas as teologias cristãs, inclusive as nossas. O Cânon do Novo Testamento apresenta esta estrutura: quatro Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse. O fato de que os quatro evangelhos aparecem em primeiro lugar significa que a Encarnação juntamente com a Trindade é para o anglicanismo fundamental para a fé (e isto envolve, naturalmente, a fé em Deus do Antigo Testamento, que precede ao Novo Testamento no Cânon). A estrutura dos Trinta e Nove Artigos reflete esse padrão, pois os Artigos começam com a Trindade e Encarnação (I-V).

O corpo Paulino, enquanto presume a alta cristologia, emprega essa cristologia como base da soteriologia (doutrina da salvação). Os escritos paulinos proclamam a doutrina da redenção sob diversas figuras, das quais as mais importantes são justificação e reconciliação. Algumas linhas da teologia anglicana têm sido, por vezes, tentadas a ressaltar demasiadamente a doutrina da encarnação e tratá-la como se a encarnação fosse em si salvífica. Isto não tem sanção da Escritura nem dos Trinta e Nove Artigos, onde os artigos IX-XVII desenvolvem a doutrina da salvação por Cristo.

O corpo Paulino contém não só Gálatas e Romanos, mas as deutero-paulinas: Colossences e Efésios. Estas cartas colocam a doutrina da salvação numa perspectiva eclesial. A doutrina, em Colossences e Efésios, da Igreja como o Corpo de Cristo, cuja cabeça é o Cristo é de significação especial para os anglicanos.

Na periferia do corpo Paulino está a Carta assim chamada aos Hebreus. Este livro tem desempenhado papel importante e duradouro na teologia anglicana, particularmente, da Eucaristia. Foi a insistência da Carta aos Hebreus sobre o uma vez para sempre do sacrifício de Cristo que deu a Cranmer a garantia de seu prefácio à Oração de Consagração na Liturgia da Santa Comunhão de 1549-1552 ..."fez ali (por sua única oblação de si mesmo uma vez feita) um inteiro, perfeito e suficiente sacrifício, oblação e satisfação pelos pecados de todo o mundo. O artigo XXI repete essa ênfase, colocando-o no contexto do século XVI, em polêmica contra a doutrina romana do sacrifício da missa. O anglicanismo clássico no século XVII e o movimento de Oxford, no século XIX, procuraram recuperar uma doutrina mais positiva do sacrifício eucarístico ao longo das linhas patrísticas, mas trabalharam sempre com os parâmetros estabelecidos pela realização plena do sacrifício de Cristo na Carta aos Hebreus. O mesmo pode-se dizer sobre as tentativas anglicanas de formular o ministério sacerdotal. Tal doutrina não deve comprometer a finalidade do sacerdócio supremo de Cristo. Essas doutrinas baseadas na Carta aos Hebreus receberam formulação anglicana perto de ser oficial na réplica do Arcebispo de Cantuária à Bula papal de 1896 condenando as ordens anglicanas.

A Igreja tem, também, a missão histórica como é indicada no Livro dos Atos dos Apóstolos, que forma uma ponte entre duas partes principais do Cânon do Novo Testamento, os Evangelhos e o corpo Paulino. Isto coloca desafio à teologia anglicana contemporânea. Não deve ser apenas à teologia da Igreja da Inglaterra, mas também da teologia da Comunhão Anglicana, em que a América do Sul, África, índia, Oceania bem como as Ilhas Britânicas têm sua contribuição.

Está ficando cada vez mais claro aos estudiosos do Novo Testamento que há um terceiro estrato principal no Novo Testamento. A teologia anglicana pre-crítica não foi capaz de traçar conscientemente a


VI. ESCRITURA E TRADIÇÃO

O tópico da tradição será tratado melhor por H.Chadwik neste volume, mas vários pontos da tradição, em relação com a Escritura, exigem certas considerações. Já temos indicado que o anglicanismo aceita a sola scriptura da Reforma com nuanças de que só na Escritura encontramos o testemunho de Cristo com autoridade. Também, observamos que a Escritura tem seu centro nesse testemunho, mas que há, também, aplicações contingentes desse testemunho às situações em processo no período do Novo Testamento. Isto resultou em desenvolvimentos na compreensão do testemunho original, e, conseqüentemente, em desenvolvimento e trajetórias doutrinais.¹⁴ Um exemplo mais notável disso está na área das cristologias. As cristologias mais antigas eram funcionais ou de agente. Elas descrevem o papel desempenhado por Jesus na história da salvação e o que Deus tem feito por Ele.¹⁵ Na época em que o Prólogo de João (Jo 1.1-18) foi composto, a cristologia estava ficando mais preocupada com a pessoa de Jesus em relação com a realidade de Deus.¹⁶ Agora Jesus é visto como a encarnação do logos preexistente, o qual foi agente da criação, da revelação geral, e da relação especial com o Israel. Foi esta cristologia joanina (associada com a concepção virginal de Jesus em Mateus-Lucas) que formou a base da cristologia de Nicéia e de Calcedônia. A esta cristologia desenvolvida o anglicanismo tem feito sua adesão. Todavia, recentemente, alguns teólogos e exegetas anglicanos, especialmente, na Inglaterra têm advogado o retorno aos tipos de cristologia do agente, deixando de lado a Nicéia e Calcedônia.¹⁷ Também, outros teólogos não têm deixado de protestar contra essa tendência, sustentando que tal retorno implicaria na perda da identidade anglicana.¹⁸ Hoje, o anglicanismo não pode justificar sua adesão à doutrina da Trindade e da Encarnação, a não ser que esteja preparada a concordar com a autoridade da Igreja como “testemunha e guardiã da Santa Escritura” (Artigo XX). É sob a autoridade da Igreja dos primeiros séculos e não só da Bíblia que o anglicanismo pode sustentar essas doutrinas.¹⁹

Semelhantes considerações podem ser aplicadas ao ministério ordenado. O anglicanismo apelava, antigamente, direto ao Novo Testamento em favor do episcopado.²⁰ Sustenta-se, hoje, pelos eruditos críticos que as Cartas Pastorais são deutero-paulinas, por isso, não podem ser usadas como evidência do ministério no tempo do apóstolo S.Paulo. Antes, nas Igrejas paulinas o ministério era, em grande parte, carismático (1Co 12.4-31; Ro 12.6-8). Já na época das Pastorais o ministério de bispo-presbíteros e diáconos está em desenvolvimento. Inácio de Antioquia (110-115) é a testemunha mais antiga do mono-episcopado, um único bispo em cada comunidade, presidindo um grupo de presbíteros. Hoje, o anglicanismo pode justificar sua adesão ao episcopado só com o apelo ao desenvolvimento pós-neotestamentário. É digno de observação que já em 1930 a Conferência de Lambeth procurou legitimar o episcopado em termos de desenvolvimento:

O episcopado ocupa posição que, no que toca ao desenvolvimento histórico, é análoga a do Cânon das Escrituras e dos Credos. Nos primeiros dias, não havia Cânon da Escritura do Novo Testamento, pois os livros pertencentes ao Cânon ainda estavam sendo escritos. Do mesmo modo, o Credo apostólico é resultado de um processo em crescimento, que, em grande parte, podemos traçar. Se o episcopado como o encontramos universalmente estabelecido por volta do século II, foi resultado de semelhante processo...que não haveria evidência de que lhe faltou autoridade divina.²¹

Temos, mais uma vez, aqui uma trajetória do Novo Testamento à era patrística.

No anglicanismo atual há mais abertura - como, na verdade, o anglicanismo do Século XVII estava teoricamente aberta - à trajetória petrina, que justificaria uma “primazia de honra” ao Bispo de Roma.²² Ao mesmo tempo, o anglicanismo rejeitaria a alegação papal de sua jurisdição universal e infalibilidade


CONCLUSÃO

O anglicanismo entendeu a si mesma, desde a Reforma, em termos de catolicismo reformado ou escriturístico. O modus operandi desse apelo às Escrituras tem passado pela mudança desde a aceitação do método crítico-histórico. Todavia, podemos alegar com justiça que os resultados desta mudança são largamente consistentes com os nossos formulários históricos, Livro de Oração Comum, Artigos de Religião e Catecismo bem como nosso padrão de teologia desde a Reforma até os nossos dias.

Extraído de BOOTY, J. & SYKES, S.W. (EDS.) The Study of Anglicanism, SPCK, 1988 Tradução de +Sumio Takatsu 14//07/96 Prof. Reginald H. Fuller estudou na Universidade de Cambridge, em Tubingen, na Alemanha, lecionou em Peter House, da universidade de Cambridge, no St.David's College, no Pais de Gales, no Seminário Seabury-Western, no Union Theological Seminary em Nova York, e no Seminário de Virgínia. É autor de diversas obras, entre as quais se destacam os Fundamentos da Cristologia no Novo Testamento, a formação das narrativas da Ressurreição e vários artigos na área do Novo Testamento. Traduziu com sua esposa austríaca algumas das obras de D.Bonhoeffer para o inglês. Foi ele um dos responsáveis pela fundamentação bíblica para a ordenação feminina na Igreja Episcopal nos Estados Unidos. Na área ecumênica ele participou no diálogo anglicano-luterano.

Projeto Cantuária • Biblioteca Digital Anglicana