O Estandarte Cristão - 01/2017

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O Estandarte Cristão - 01/2017

2017

O ESTANDARTE CRISTÃO

Uma publicação oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, desde 1893. Número 1821 - Janeiro 2017


Índice

  • Palavra do primaz: 04
  • Mensagem da secretaria geral: 06
  • Editorial: 07
  • Noticiário: 08
    • Breve retrospectiva dos últimos cinco anos sem Estandarte Cristão
  • Opinião: 11
    • Um salto (e abraço) de fé
  • Pastoral: 14
    • As surpresas da fé
  • Teologia: 16
    • Discipulado de iguais: iguais, mas diferentes
  • Vida: 21
    • Relato de diversidade
  • Memória: 22
    • Há (quase) 121 anos...

Palavra do Primaz

É com imensa alegria que apresento a vocês, irmãos e irmãs, um instrumento de comunicação de nossa Igreja que estava interrompido desde 2011, e que nos causava um vazio enorme. Está de volta o nosso Estandarte Cristão, agora em nova versão e que atende tanto às pessoas que costumavam tê-lo impresso como àquelas que passarão a acessá-lo de maneira virtual.

Este é o presente que o Primaz e a equipe de comunicação da Secretaria Geral preparou para a Igreja no final de 2016. Foi um trabalho feito na surdina exatamente para não cair no erro de causar ainda mais frustração depois de iniciativas semelhantes, durante estes cinco anos, que acabaram não se concretizando.

Agora sim, temos o nosso Estandarte Cristão de volta! Esta edição especial de retorno apresenta um balanço do que aconteceu na IEAB desde 2011 até o final de 2016. Foram selecionadas matérias de destaque relatando os feitos principais que marcaram a vida da Província. A Igreja, nesse período, teve dois primazes diferentes, dois sínodos, sagrou quatro novos bispos e recebeu visitas do Arcebispo de Cantuária, da então Bispa Presidente da TEC e do Bispo Primaz do Canadá.

Em cada lugar de nossa Província, vimos a expansão do serviço diaconal da Igreja. Processos de formação aconteceram em nível provincial, de áreas e também nas dioceses, mediante a realização de partilhas ministeriais, capacitação de lideranças leigas, indabas e os encontros sobre sexualidades e direitos.

Tivemos, em 2015, o maior evento provincial de reunião de juventudes de diversas partes do Brasil. Como decorrência desse evento, que mobilizou a Igreja inteira, temos hoje uma juventude ativa e comprometida, na maioria das comunidades anglicanas espalhadas pela IEAB.

Há muitas outras ações que poderíamos destacar, mas faltaria espaço nesta apresentação. O mais importante é que ela é o recomeço de um trabalho que deverá ser assumido por toda a Igreja, com carinho e dedicação. Espero em Deus que esta série que se reinicia seja aperfeiçoada, divulgada e se transforme numa importante ferramenta para a própria IEAB e também seja instrumento de divulgação de nossa Província para a Comunhão Anglicana e para os companheiros e companheiras do mundo ecuménico.

Este é um presente que oferecemos à IEAB com muito carinho e dedicação de pessoas que trabalham voluntariamente para a expansão de nossa Igreja. E, para que estas pessoas se sintam ainda mais motivadas para prosseguir neste caminho de comunicação, é preciso valorizar o seu trabalho. Como? Divulgando, partilhando, imprimindo e entregando para uma pessoa querida que não tem acesso à mídia virtual.

Vamos valorizar o nosso novo Estandarte Cristão! E ajudemo-nos a aperfeiçoá-lo ainda mais!


Mensagem da Secretaria Geral

É com imensa alegria que apresento a vocês, irmãos e irmãs, um instrumento de comunicação de nossa Igreja que estava interrompido desde 2011, e que nos causava um vazio enorme. Está de volta o nosso Estandarte Cristão, agora em nova versão e que atende tanto às pessoas que costumavam tê-lo impresso como àquelas que passarão a acessá-lo de maneira virtual.

Este é o presente que o Primaz e a equipe de comunicação da Secretaria Geral preparou para a Igreja no final de 2016. Foi um trabalho feito na surdina exatamente para não cair no erro de causar ainda mais frustração depois de iniciativas semelhantes, durante estes cinco anos, que acabaram não se concretizando.

Agora sim, temos o nosso Estandarte Cristão de volta! Esta edição especial de retorno apresenta um balanço do que aconteceu na IEAB desde 2011 até o final de 2016. Foram selecionadas matérias de destaque relatando os feitos principais que marcaram a vida da Província. A Igreja, nesse período, teve dois primazes diferentes, dois sínodos, sagrou quatro novos bispos e recebeu visitas do Arcebispo de Cantuária, da então Bispa Presidente da TEC e do Bispo Primaz do Canadá.

Em cada lugar de nossa Província, vimos a expansão do serviço diaconal da Igreja. Processos de formação aconteceram em nível provincial, de áreas e também nas dioceses, mediante a realização de partilhas ministeriais, capacitação de lideranças leigas, indabas e os encontros sobre sexualidades e direitos.

Tivemos, em 2015, o maior evento provincial de reunião de juventudes de diversas partes do Brasil. Como decorrência desse evento, que mobilizou a Igreja inteira, temos hoje uma juventude ativa e comprometida, na maioria das comunidades anglicanas espalhadas pela IEAB.

Há muitas outras ações que poderíamos destacar, mas faltaria espaço nesta apresentação. O mais importante é que ela é o recomeço de um trabalho que deverá ser assumido por toda a Igreja, com carinho e dedicação. Espero em Deus que esta série que se reinicia seja aperfeiçoada, divulgada e se transforme numa importante ferramenta para a própria IEAB e também seja instrumento de divulgação de nossa Província para a Comunhão Anglicana e para os companheiros e companheiras do mundo ecuménico.

Este é um presente que oferecemos à IEAB com muito carinho e dedicação de pessoas que trabalham voluntariamente para a expansão de nossa Igreja. E, para que estas pessoas se sintam ainda mais motivadas para prosseguir neste caminho de comunicação, é preciso valorizar o seu trabalho. Como? Divulgando, partilhando, imprimindo e entregando para uma pessoa querida que não tem acesso à mídia virtual.

Vamos valorizar o nosso novo Estandarte Cristão! E ajudemo-nos a aperfeiçoá-lo ainda mais!


Editorial

Há alguns anos, em minha primeira encarnação como membro do Grupo de Trabalho de Comunicação da IEAB, tive a oportunidade de dar suporte a uma das iniciativas mais frutíferas de preservação de nossa história: o projeto Memória Digital. Contava com a profícua orientação do Rev. Oswaldo Kickhöfel, e com a coordenação executiva da então estudante de Análise de Sistemas Kelen Bernardi. O projeto permitiu às nossas comunidades, e a pesquisadores em geral, obter acesso a uma biblioteca impressionante de edições do Estandarte Cristão, digitalizadas e organizadas.

À época, eu já tinha uma relação de amor com o Estandarte. O cupido dessa relação foi a Sra. Jorgina Barbosa, membro fiel da Catedral do Redentor, no Rio de Janeiro, e revendedora voluntária das publicações da IEAB. Ao ver aquele jovem, curioso em saber o que eram aquelas revistas que ela carregava, deu-me um exemplar. Li, guardei e gostei. O ano era 2005, e daí em diante, tornei-me assinante e leitor fiel.

Contudo, somente após a intervenção do projeto Memória Digital, foi possível para mim ter uma real noção da importância cabal que o Estandarte Cristão tem na vida de nossa igreja. Suas páginas, ao longo de mais de um século, apresentam um retrato sincero de conquistas, revezes, acontecimentos diversos, orientações espirituais e muitas notícias que trazem aromas e sabores à igreja que a gente vive com paixão.

Entretanto, as vicissitudes da era digital tornaram o Estandarte menos popular. Gradualmente, a publicação havia se tornado mais um noticiário que um informativo. E era quase impossível competir com a rapidez cibernética do Serviço de Notícias da IEAB. Muitas assinaturas foram canceladas, e a revista deixou de ser editada há cerca de cinco anos.

Mas o estandarte não pode ser guardado! Em Isaías 62.10, ouvimos o mandamento divino: "Aplanem a estrada, tirem todas as pedras e levantem um estandarte como sinal para que todos os povos saibam o que está acontecendo." Esse foi o lema original de 1893, que inspirou esta publicação e nos compele a continuar nossa obra cristã de anunciar a salvação que vem do Alto, não por armas ou métodos estapafúrdios, mas sim pela emenda de vida, pela vocação e pela evangelização diária. O estandarte dá testemunho de nosso ministério a todas as pessoas!

Fez-se então necessário repensar o Estandarte, e a fonte inspiradora foi justamente sua vocação inicial. A partir desta edição, a publicação volta a apresentar uma componente temática, com seções adaptadas às demandas teológicas, pastorais e espirituais do dia a dia da igreja. Nesta edição, o tema escolhido pela Secretaria Geral foi "Igreja, gêneros e sexualidades", no fiel entendimento de que nossa identidade anglicana nos capacita a sermos uma igreja aberta à discussão ampla sobre todo e qualquer tema. O noticiário permanece, mas com menor ênfase. A apresentação gráfica da revista segue uma linguagem moderna, mas busca restaurar alguns elementos históricos, como a tipografia do cabeçalho original.

Por fim, experimentalmente, este ano de 2017 contará apenas com publicações eletrônicas do Estandarte Cristão, embora haja a opção de impressão em casa, ou sob demanda. Havendo fôlego e planejamento, será possível recomeçar uma tiragem impressa, mas, por agora, é preciso trabalhar para divulgar, promover e partilhar este instrumento de comunicação e evangelização, a ser erguido por nossa igreja a todos os povos. Levantemos o estandarte!


Noticiário

Bispos reafirmam unidade da IEAB

Ao longo dos últimos cinco anos, uma marca tem sido fundamental no diálogo da Câmara dos Bispos: a unidade da Igreja ante antigas e novas tendências de divisão. Em 2013, a Diocese do Recife pôde, finalmente, contemplar a devolução de cinco templos, com todos os seus pertences, que haviam sido ocupados por grupo cismático conduzido pelo então bispo diocesano, Robinson Cavalcanti. A devolução de tais propriedades tem sido lenta e gradual, permitindo, contudo, o desenvolvimento de novos ministérios e a reabertura de frentes de evangelização no Nordeste.

Além disso, a postura unânime e inequívoca da Câmara Episcopal tem sido, sempre, reafirmar o ordenamento canônico aprovado no último Sínodo, o qual expressa que qualquer movimento interno da IEAB, organizado deliberadamente sem o consentimento episcopal, constitui uma desobediência ao voto de ordenação e que a manifestação de ameaças de cisma relativas a qualquer decisão tomada ou em discussão dentro da IEAB, constitui uma atitude explicitamente mencionada nos novos cânones é passível de medidas disciplinares. Isso não impede o diálogo e a diversidade de opiniões. Pelo contrário, reafirma a postura democrática de respeito ao amplo debate teológico, pastoral e ideológico que sempre foi marca de nossa identidade anglicana. Esse debate se traduz em decisões conciliares e sinodais, as quais só são tomadas se obtiverem o consentimento de ampla maioria de delegados e delegadas leigos(as) e clericais.

Democracia e engajamento político

A luta por direitos humanos e a proclamação do Evangelho através do engajamento e diálogo com a sociedade se fizeram presentes na vida da Igreja, que contou com diversos de seus membros ativamente dedicados à luta por uma nação mais justa e solidária. Além disso, ante o agravamento da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, diversas instâncias da IEAB mantiveram posição inabalável em defesa da democracia, sem perder a postura crítica aos diversos governos nos níveis federal, estadual e municipal. A Câmara Episcopal manifestou-se diversas vezes sem receio algum, à Luz do Evangelho do Senhor Jesus Cristo, visando ao bem maior da nação brasileira, acima de interesses mesquinhos, atitudes excludentes e manobras golpistas.

Em prol das mulheres

As mulheres, em seus diversos ministérios, têm ajudado a Igreja a fazer ricas releituras da Bíblia, da Teologia e da Liturgia. Dentro desse mote, nos últimos anos, a IEAB buscou reafirmar, de forma positiva, o papel das mulheres nos diferentes ministérios clericais e leigos. Em 2015, comemorou-se o aniversário de 30 anos da ordenação da Revda. Carmen Etel Gomes (primeira ordenação feminina em nossa província). O evento, que coincidiu com o aniversário de 125 anos da IEAB e com o lançamento do novo Livro de Oração Comum, foi presidido pela então Bispa Presidente da Igreja Episcopal, a Revma. Katharine Jefferts-Schori. Em nível local, fomentou-se a discussão sobre violência doméstica (que atinge de forma cruel as mulheres e meninas), havendo sido promovidos eventos de formação paroquial e diocesana, bem como diálogo com diversas instâncias da sociedade civil. Em 2015, a União de Mulheres Episcopais Anglicanas do Brasil (UMEAB) promoveu encontro nacional e frutífero. A Conferência das Nações Unidas sobre o Status da Mulher contou, nos últimos anos, com a presença de mulheres leigas e clérigas representando nossa Igreja, como Christina Winnischofer, Ana Lucia Machado, Sandra Bueno, Revda. Inamar Correa, Ilcélia Soares, Sandra Andrade, Revda. Tati Ribeiro e Nathália Feldens Maiztegui. O testemunho dessas, e de outras mulheres, tem gerado frutos e vida para nossa Igreja.

Juventude ativa

Como expressão de um sonho que se tornou realidade, a juventude da IEAB reuniu-se nos dias 4 a 7 de setembro, em Brasília, para a realização do Encontro Nacional da União da Juventude Anglicana - ENUJAB 2015. Contando com a participação de 250 jovens de todas as Dioceses e do Distrito Missionário, os quatro dias de encontro permitiram com que cada participante pudesse se encontrar com Deus e assumir o compromisso de, juntos, fortalecer o trabalho da juventude a nível provincial.

O Grupo de Trabalho (GT) da Juventude, composto por Revda. Tatiana Ribeiro (DAB), Revdo. Jordan Santos (DSO), Dominique Lima (DAR), Débora Del Nero (DASP) e Pedro Andrade (DAP), foi responsável por pensar a realização do encontro e buscar maneiras de transformar o sonho da juventude reunida em realidade. Contando com o apoio institucional da IEAB, além da colaboração de todos os jovens das dioceses, ENUJAB 2015 finalmente se concretizou. O encontro foi finalizado com uma emocionante celebração de envio, com a apresentação do Credo Contemporâneo da Juventude Anglicana elaborado pelos próprios jovens ao longo do encontro.

Visitas primaciais e da Comunhão

Recentemente, a IEAB recebeu importantes visitas de membros de igrejas-irmãs da Comunhão Anglicana. Destacam-se a visita da Sociedade da Rosa dos Ventos (Compass Rose Society), ocorrida em abril de 2011, as reuniões da Comissão Bilateral Igreja Episcopal-IEAB, na mesma época, e o II Encontro de Dioceses Lusófonas da Comunhão Anglicana, em 2015. Reveste-se de importância a visita oficial do Arcebispo de Cantuária, Primaz da Inglaterra e primus inter pares da Comunhão Anglicana, Revmo. Justin Welby. Tal visita ocorreu em São Paulo, e contou com reuniões e celebrações com representações clericais e leigas de todo o país.

Já a então Bispa Presidente da Igreja Episcopal, Revma. Katharine Jefferts-Schori, visitou-nos em maio de 2015, na celebração de 125 anos de IEAB, 30 anos de ordenação feminina e lançamento do Livro de Oração Comum de 2015. E o Primaz do Canadá, Arcebispo Fred Hiltz, esteve acompanhado de comitiva em novembro do mesmo ano, visitando as dioceses de Brasília e Amazónia.

Ecumenismo

A IEAB continua firme no propósito de arejar o cenário cristão brasileiro com os ventos da unidade e as boas novas do serviço ecumênico. Sua participação se dá, diretamente, através do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), bem como outros órgãos nacionais e regionais.

Além disso, é importante mencionar que a Comissão Internacional Anglicana/Católico Romana (ARCIC), órgão oficial de diálogo teológico das duas comunhões, realizou reunião no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, de 29 de abril a 7 de maio de 2013. Foi a primeira vez em sua história de quarenta anos que a ARCIC se reuniu na América Latina. Outras comissões internacionais de diálogo ecumênico também têm contado com membros da IEAB.

Com esse espírito em mente, em agosto de 2014, por iniciativa do Conselho Executivo da Província, Secretaria Geral, Bispo Primaz e Comissão de Relações Ecumênicas, ocorreu reunião frutífera entre todas as pessoas que representam a IEAB ecumenicamente, de modo a traçar diretrizes e iniciativas comuns, as quais têm sido implementadas, na medida do possível.

Diaconia e desenvolvimento

Em 2008, o Conselho Executivo do Sínodo da IEAB criou o Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD), como instância operacional da Diaconia da IEAB. Ele está vinculado à Secretaria Geral e é acompanhado pelo organismo sinodal, a Comissão Nacional de Diaconia. O SADD é constituído por uma coordenadora e pelos Contatos Diocesanos, pessoas de referência em cada Diocese e Distrito. O SADD, nos seus oito anos de existência, investiu no fortalecimento da consciência de Diaconia e envolvimento com as Políticas Públicas e Direitos Humanos na IEAB, ampliando o compromisso da Missão anglicana com a sociedade brasileira.

Neste processo, a criação da Comissão Nacional de Diaconia (CND), como uma comissão sinodal formada por clérigas e leigas de distintas dioceses, tem a missão de refletir, produzir e estabelecer as linhas de ação em relação à diaconia da IEAB, em conjunto com os seus órgãos de decisão e demais comissões nacionais. A CND acompanha e contribui na articulação do trabalho do SADD que é quem operacionaliza a diaconia. Ajuda no seu diálogo com os parceiros internacionais e tem proposto temas (metas do milênio, políticas públicas, cartilhas sobre violência de gênero e sexualidades) e assessorado metodologicamente eventos.

Novos bispos para a IEAB

Em março de 2011, foi sagrado o Revmo. Francisco de Assis da Silva, eleito bispo para a Diocese Sul-Ocidental, cuja sé é Santa Maria/RS. Anteriormente, ocupava a função de Secretário-Geral da IEAB. Em dezembro de 2012, foi sagrado o Revmo. Humberto Maiztegui Gonçalves, para bispo coadjutor na Diocese Meridional, com sé em Porto Alegre. Antes da eleição, era reitor da Paróquia de São Lucas, em Canoas, e professor do Seminário Teológico Egmont Machado Krischke. Já em 2013, foi sagrado o Revmo. Flávio Irala como bispo de São Paulo, em meio a momentos de crise. O conflito ganhou proporções quando um grupo de clérigos, liderados pela Catedral Anglicana de São Paulo, questionou a primeira eleição episcopal. O impasse durou cerca de 11 meses depois e requereu a realização de outro concílio. No XXXII Sínodo Geral, foi eleito o Revmo. João Cancio Peixoto bispo coadjutor do Recife, sendo sagrado em dezembro de 2013. Finalmente, em novembro de 2016, foi eleito bispo coadjutor para a Diocese do Rio de Janeiro o Rev. Eduardo Grillo, cuja sagração deverá ocorrer no ano de 2017.

O primado de Dom Francisco

Após dois anos de ministério episcopal no interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, coube ao XXXII Sínodo Geral eleger o Revmo. Francisco de Assis da Silva Bispo Primaz da IEAB. A eleição ocorreu no dia 16 de novembro de 2013 e a instalação aconteceu no dia seguinte, no Encerramento do Sínodo, na Catedral Anglicana do Redentor (situada no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro). Despediu-se de sua função primacial o Revmo. Maurício Andrade, que permanece Bispo de Brasília.

O primado de Dom Francisco tem sido caracterizado pelo notável engajamento ecumênico e social, bem como com a abordagem cuidadosa no tocante a diversos assuntos polêmicos da atualidade. Como pastor desta comunidade de anglicanos espalhados pelo Brasil, tem buscado a reconciliação e a solidariedade, o diálogo e a acolhida.

Transições na Secretaria Geral

Após a nomeação do Rev. Arthur Cavalcante como Secretário Geral da IEAB, o escritório da Secretaria Geral foi realocado de Porto Alegre para São Paulo, como experiência a fim de responder às demandas da missão da Igreja. O processo de transição foi corroborado pelas principais instâncias provinciais, e ocorreu em 2011.

Toda a parte administrativa da Secretaria Geral passou a funcionar nas dependências da Paróquia da Santíssima Trindade, em São Paulo. Por decisão do Conselho Executivo, a Livraria também foi transferida para São Paulo. O Arquivo Nacional, Museu e Biblioteca permaneceram em Porto Alegre, no Edifício Watson Morris. Por fim, após decisão tomada pelo Sínodo Extraordinário em junho de 2016, iniciou-se o processo cartorial para mudança da sede administrativa da IEAB de Porto Alegre para a cidade de São Paulo, o qual deverá ser concretizado no decorrer de 2017.

Novo Livro de Oração Comum

Em maio de 2015, a Comissão Nacional de Liturgia apresentou à IEAB sua nova liturgia oficial, com linguagem inclusiva, contemporânea e a inclusão de diversos ritos adicionais, atendendo a uma demanda histórica do anglicanismo brasileiro. O LOC 2015 tem sido amplamente utilizado nas comunidades ao redor do país.

Sínodos e mudanças canônicas

O XXXII Sínodo Geral, realizado no Rio de Janeiro, em 2013, não somente contribuiu para a eleição de um novo Primaz, ratificação do atual Secretário Geral e eleição de novos cargos. Também convocou a realização de um Sinodo Extraordinário Constituinte, o qual foi realizado entre os dias 16 e 19 de junho de 2016, na Cidade de Vargem Grande Paulista/SP para aprovar um projeto de nova Constituição e Cânones, fruto de um trabalho de mais de dez anos de estudos.

Os novos documentos não apenas proveem um novo arcabouço legal, mas principalmente a clareza e funcionalidade das estruturas da Igreja para o alcance de nosso maior objetivo que é: proclamar as boas novas do reino de Deus a todas as pessoas, independentemente de sua condição social, econômica, de gênero e raça. As mudanças propostas no projeto revelam a fidelidade da IEAB ao caminho do movimento de Jesus.

Uma igreja solidária

Buscando ser uma voz profética num mundo cada vez mais quebrantado, a IEAB fez-se presente como testemunha solidária em diversos eventos que deixaram nossas comunidades mobilizadas em prol do auxílio ao próximo. A Diocese Sul-Ocidental, por exemplo, continua em memória e solidariedade pelas vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. No Estado do Rio de Janeiro, a IEAB foi polo de recolhimento de doações para as vítimas de terríveis enchentes na Região Serrana, em 2011. O Bispo Primaz posicionou-se de forma crítica e incisiva contra o descaso no trágico acidente ecológico em Mariana/MG e no vale do Rio Doce. Mais recentemente, a IEAB se mobilizou em protesto contra a violência homofóbica e contra a exclusão de etnias, como imigrantes haitianos e povos indígenas. O testemunho profético tem que continuar!


Opinião

Um salto (e abraço) de fé

Nasci em uma família predominantemente cristã. A maioria, incluindo meus pais, eram católicos, alguns tios e primos presbiterianos, outros parentes eram judeus, messiânicos e até agnósticos. Cursei boa parte da educação básica em escolas católicas, frequentei a Igreja e dela participei ativamente da adolescência à fase adulta. Foram longos anos de dedicação à atividade pastoral, à catequese e ao exercício dos ministérios da palavra e do canto. Sim, era conhecido em minha paróquia e na Renovação Carismática Católica (RCC) do Rio de Janeiro como pregador e cantor. Participei da catequese de adultos e de pessoas surdas, escrevi para o informativo paroquial e cheguei a integrar o Conselho da minha comunidade. De toda atividade pastoral, destaco com alegria o fato de ter fundado o Coral Jubileu na basilica do Imaculado Coração de Maria, as Noites de Avivamento, ambos no Méier, e o Grupo de Oração do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação (IBMR), em Botafogo. Por fim, galguei uma especialização superior em Ensino Religioso.

Toda caminhada tem um ponto de partida e o meu deveu-se à experiência do sagrado obtida por meio do Grupo de Oração Água Viva (GOAV), na mesma Basilica primeiro grupo de oração da RCC no Rio de Janeiro. No GOAV, compreendi o valor da oração e aprendi que a fé não se estrutura sem estudo. Aos poucos, fui criando coragem e perdendo a timidez. O canto era uma grande motivação e um facilitador. Em pouco tempo, era uma liderança jovem de bastante destaque. E, por isso, fui convidado a integrar níveis de coordenação local, regional e, por fim, estadual. Ministrei a palavra, dentro e fora da cidade do Rio. Foram diversos os cursos e retiros de cura e experiência de oração.

Uma bela caminhada, alguém poderia dizer. Todavia uma caminhada marcada por uma grande angústia, recolhida no silêncio do meu coração e diálogo das minhas orações. Ao leitor, revelo que hoje tenho orgulho de dizer que sou homossexual. Porém, naquela época, essa condição era uma perspectiva que me torturava diariamente.

Desde muito pequeno notava que era "diferente" dos padrões apresentados a mim. Na infância percebi que não tinha interesse em meninas. Elas eram, no máximo, grandes amigas e boas companhias de brincadeiras. Os meninos, no entanto, eram bonitos e, de certa forma, atraentes.

Eu pensava que aquilo era errado, um grande pecado. Afinal, exaustivamente eu havia ouvido isso na escola e na igreja. Haviam me dito que o pecado dos pederastas, dos gays, dos homossexuais era abominável aos olhos de Deus e que aqueles que se entregavam a tais práticas vilipendiavam o nome de Jesus e não mereceriam a vida eterna.

Na adolescência, posso dizer que sentia medo do futuro e muito mais medo de que alguém "descobrisse" o meu segredo, quanto mais os meus pais. Eu me calei e aprendi a disfarçar meus interesses, gestos e comportamentos. Mas eu cresci e os hormônios chegaram. Os "trejeitos" incontidos eram motivo de escárnio e deboche. O fato de não conseguir me adaptar, me esconder ou disfarçar era desesperador. Tenho poucas lembranças dessa época, confesso. Acho que, de forma inconsciente, bloqueei as memórias. Guardo somente a nítida sensação de viver em constante agonia.

Das poucas memórias, resgato uma. Talvez a mais forte. Recordo-me que minha mãe, com raiva e aos prantos, certa vez me disse "Eu não tive filha mulher, eu só tive filhos homens... Comporte-se!". Não me recordo o que fiz, mas sei que saí daquele momento com a certeza de que tinha um compromisso com meus pais e precisava cumpri-lo para o bem e felicidade deles, mesmo que isso custasse a minha.

Busquei refúgio na igreja, eu me lembro. Lá as pessoas pareciam mais acolhedoras e não me criticavam abertamente como em outros ambientes sociais. Mal sabia que minha ingenuidade não me permitira perceber que nelas residia a hipocrisia que Cristo outrora denunciava. Bem ou mal, algo ali dentro era mais forte e o leitor saberá, por certo, do que falo – não permitiu que a hipocrisia me paralisasse. Essa força maior me envolvia com ânimo e entusiasmo, me estimulava a prosseguir.

Recordo-me também que desenvolvi um preconceito irracional sobre o mundo e as pessoas LGBTI, sobre tudo que não fosse cristão em essência e católico, por excelência. Acreditava que tais pessoas estavam fadadas a desenvolver relacionamentos doentios, obescuros e passageiros. Por outro lado, tinha a certeza que, tal como meus pais e avôs, queria constituir família e ser feliz no exercício da paternidade. Acreditava que o catolicismo me auxiliaria nessa empreitada.

O radicalismo e o conservadorismo carismático revelaram ser combustíveis para a batalha que vivia internamente. Estava certo de que precisava de cura, quiçá exorcismo. Estava disposto e busquei todas as oportunidades que apareceram.

Nessa altura, era um jovem que começava a traçar os planos para a vida. Mas, como conseguiria ser um bom profissional, um bom pai de família, se não pelo envolvimento com mulheres? Por não vislumbrar outra possibilidade de realizar meus sonhos, me obriguei a buscar namoradas. Os relacionamentos vieram. Eram estáveis e duradouros aos moldes cristãos. Condição conveniente que dispensava o excesso de desculpas pela falta de libido. Percebi também que o fato de andar ao lado delas me favorecia por inibir alguns comentários maldosos. Tudo parecia estar equacionado e eu bem interpretava no palco da vida.

O curso superior chegava ao fim e eu me dava conta de que a vida pastoral havia esgotado boa parte da minha vida e do meu tempo. Os amigos eram na grande maioria os da igreja. A vida profissional rizível, pois meus compromissos pastorais não me permitiram frequentar bons estágios, congressos e atividades acadêmicas. No campo sentimental, o problema era mais grave. Eu me sentia um fracasso, um homem sexualmente mal resolvido que impedia a companheira, então noiva, de ser feliz envolvendo-a num relacionamento de fachada.

Nesse ponto, retorno meu relato aos primeiros parágrafos! Aquele era o Saulo no início dos anos 2000. Um rapaz de vinte e poucos anos, recém saído da universidade que, pela primeira vez na vida, reunia coragem para colocar as bases de sua fé em cheque e, principalmente, que percebia que seus esforços, estudos e luta pouco haviam lhe trazido em resposta. O desejo de ser feliz, completo, autêntico e sincero não mais podia ser guardado "no armário".

Tomei coragem e rompi o noivado. Pensei que deveria resolver ao menos a questão sexual e poderia prosseguir com o mesmo ritmo nas outras áreas. Poucos meses depois encontrava meu primeiro namorado, Renan, que chegava para reavivar novos horizontes. Aos poucos, eu o integrei à minha vida e, com ele, permaneci na atividade pastoral. Eu o apresentei como um amigo, mas era inevitável que nos reconhecessem como um casal. Nosso Pároco nos acolheu, devo fazer justiça, mas a comunidade, infelizmente, não.

O preconceito era velado e as portas se fechavam com sorrisos, mas sem pudor. Os convites para palestras desapareceram. Alguns amigos misteriosamente esqueceram os meus contatos e se afastaram. Novamente sofri, e muito. Por algum tempo insisti em retornar, busquei reinserção, me disponibilizei. Não havia mais inclusão. As janelas também estavam fechadas.

Agora dispunha da força da maturidade e do apoio do meu namorado. A ninguém poderia culpar, pois eu sabia que corria esse risco. A saída foi me reencontrar em outros lugares e espaços. Tive a ajuda de alguns poucos amigos que ao meu lado permaneceram. Tive também apoio de minha família que, com amor, aprendeu a lidar com a verdade e conseguiu superar a dor das expectativas desfeitas.

Sim, eu vi a luz, mas tal como Saulo de Tarso, caí e decidi de me retirar para o exílio, em um completo deserto de práticas religiosas. Foram longos oito anos sem insistir ou cogitar a participação ativa. Mas creia, leitor, não perdi a fé e jamais deixei de orar.

Precisei mudar e o fiz da forma mais radical possível. Mudei de profissão, de local de trabalho, de casa e de bairro. O exílio foi profícuo e me permitiu perceber que nada havia feito em vão. Toda minha história, cada noite escura, cada lágrima de agonia tinha um significado. Todo conhecimento acumulado e a experiência da fé no sagrado eram marcas indeléveis em mim.

Com alegria, preciso the contar algumas alegrias, meu amigo leitor. Nesses oito anos, realizei sonhos impensáveis. Reatei laços com quase toda a minha família e reforcei os que já tinha com meus amados pais. Em 2013, casei com Renan de "papel passado" como sempre quis. Com muita honra, fiz da família dele a minha também, em espírito e verdade. Por fim, com dez anos de projeto de vida em comum, demos entrada no processo de adoção e aguardamos a qualquer instante a chegada de nossos filhos.

Outro motivo de alegria surgiu há quatro anos. Conheci Maria José, que desde os primeiros dias em minha casa chamou atenção pelo comportamento isento de preconceito quanto à nossa orientação sexual. Para minha surpresa, certa vez confessou-me ser Budista, da linha Nichiren Daishonin. Por suas mãos, recebi um convite e, aos poucos, me percebi retomando os passos e a caminhada. Para minha alegria, meu marido me acompanhava e incentivava.

Por meio de uma prima presbiteriana que se preocupava com meu distanciamento do cristianismo conheci, Luiz Coelho, sacerdote da IEAB no Rio de Janeiro. De imediato, encontrei não somente um sacerdote com quem poderia conversar abertamente, mas um amigo que me acolhia sem hipocrisia, se dispunha a me ouvir sem reservas e não se importava com minha recente conversão ao Budismo.

Luiz me convidou para um evento em sua paróquia que reunia diversas lideranças cristãs para discutir estratégias de acolhimento e inclusão nas igrejas. Saí encantado! Feliz por perceber que o mundo cristão evoluíra e dava sinais de avivamento. Para minha surpresa, a Igreja Anglicana era mais inclusiva do que eu imaginava.

Há um ano, começava a participar de grupos de apoio à adoção e, por meio deles, conhecia a Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas (ABRAFH). Nela ingressei e me envolvi ativamente, com paixão por seus ideais e propósitos. O entusiasmo dos tempos da juventude retornou ao meu coração e, então, direcionei minhas forças à milit

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