O Estandarte Cristão - 04/2017
O ESTANDARTE CRISTÃO
UNIDADE NA DIVERSIDADE
UNIDADE NA ADVERSIDADE
Pastoral Encarar a unidade na diversidade como um desafio profético, e não como uma realidade existente
Teologia Peregrinação em busca de identidades e encontros de salvação à luz da Carta aos Hebreus
Opinião Processos de eleição episcopal podem levar a distensões, mas as mesmas não podem gerar rupturas
Vida Uma perspectiva de esperança para o futuro do Anglicanismo, com base em seu ethos missionário
Visita do Arcebispo de Cantuária à IEAB Paróquia da SS Trindade, São Paulo (Foto: Silvia Fernandes)
Uma publicação oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, desde 1893.
O ESTANDARTE CRISTÃO
REVMO. FRANCISCO DE ASSIS DA SILVA Bispo Primaz da IEAB
palavra do primaz
Nesta sua nova fase, nosso Estan- darte Cristão, alcança sua segunda publicação. Estamos felizes porque a primeira edição foi muito bem re- cebida por nossa Igreja. Opiniões e sugestões de aperfeiçoamento foram feitas e continuamos no caminho de oferecer o melhor instrumento de co- municação que alcance nossos leitores nos dife- rentes lugares de nossas dioceses.
Nesta edição, que tem como tema a questão da Unidade na Diversidade, nos debruçamos sobre a necessidade de enfrentarmos o desafio dos conflitos dentro de nossa Província. Ainda esta- mos impactados pelo recente cisma ocorrido na Diocese Anglicana do Recife (o terceiro de uma série que começou na década passada). Uma vez mais, um grupo de clérigos e clérigas se uniram a pessoas leigas e decidiram quebrar a comunhão com a IEAB. Esta questão levanta para cada um de nós uma séria questão: que mecanismos ne- cessitamos ter para evitar que a divergência por razões teológicas acabe sempre redundando em uma ruptura dolorosa de comunhão?
Este é um caminho que precisa ser trilhado e nos- sa Província não é a única a sofrer com conflitos e divisões. Que o Espírito Santo nos ajude a encon- trar o caminho da mediação eficaz de conflitos.
Mas temos tido também a alegria de ver a Igre- ja celebrando novos momentos, especialmente o novo ministério episcopal do bispo Eduardo Grillo, coadjutor da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, sagrado ao final das reuniões nacionais, na Cate- dral Diocesana. Novo ministério sempre carrega consigo novas esperanças.
Estamos nestes dias também como Nação as- sistindo o desenrolar de um desmonte de di- reitos e garantias das pessoas que trabalham e daquelas que dependem da previdência social. A nossa Igreja tem assumido a firme posição de desaprovar medidas que representem perdas de direitos que foram conquistados com tanto esfor- ço no exercício da cidadania. Que Deus ilumine os poderosos de nosso país a governarem para o povo. Nessa direção, e obedecendo os ditames do Evangelho, a Câmara dos Bispos emitiu uma carta dirigida à toda a Igreja denunciando as fal- sas justificativas para esse desmonte.
Desejo ao nosso público leitor uma ótima e edi- ficante leitura, sempre considerando e agrade- cendo o trabalho voluntário das pessoas que dedicam seu tempo para oferecer informação e formação para a nossa Província. Lembrando que sempre é possível aperfeiçoar o trabalho de co- municação em nossa querida IEAB.
Catedral do Bom Samaritano, a nova catedral do Recife (Foto: Diocese do Recife)
Abril 2017 | O ESTANDARTE CRISTÃO
"Que o Espírito Santo nos ajude a encontrar o caminho da mediação eficaz de conflitos."
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REV. ARTHUR CAVALCANTE Secretário Geral da IEAB
mensagem da secretaria geral
Tivemos muitos trabalhos e atividades como IEAB que fi- cam até difíceis de agrupá-los em uma Edição do Estan- darte Cristão, porque envolvem pessoas que semearam preciosas sementes em cada lugar deste imenso país. O importante, neste momento, é sabermos da importância de cada ação nossa desenvolvida em nome de Jesus Cristo e que ninguém poderá apagar ou esquecer.
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil prossegue com mudanças e com novos desafios. A IEAB é uma Igreja a Caminho! Não pode- mos nos acomodar e descansar em nosso glorioso passado. Há grandes desafios atuais e futuros, mas acredito na ação do Espírito Santo e na criatividade de nossa Igreja em responder à altura, tal como fizeram nossos pais e mães no passado, tal como tem sido feito através de irmãos e irmãs do presente. Herdamos do berço do anglicanismo brasileiro a intrepidez de anunciar as Boas Novas, com o cuidado de preservar e de fazer tradição, buscando sempre o bem de toda a Igreja, contudo não deixando de desempenhar seu papel missionário e profético na sociedade. Devemos ter sensibili- dade em distinguir entre o essencial do temporário para deixar fluir a simplicidade e o poder da mensagem de Jesus Cristo.
Estamos nos aproximando da Confelider/Sinodo Geral (Brasília 2018), momento importante para avaliarmos a caminhada e pro- jetar nossos sonhos para IEAB. Temos que, contudo, com os pés no chão, abrir nossos olhos para enxergar que o perfil das pessoas fiéis está em um processo de mudança acelerado nas religiões, inclusive há pesquisas sérias que tratam sobre esse assunto. Já não temos membros fiéis exclusivos da IEAB, mas que estão numa posição de constante contato com outros espaços e até de ideias não tão anglicanas. O poder que as lideranças religiosas exerciam na regulação da vida de seus fiéis, tem diminuído e é cada vez mais frágil. Contudo devemos ser generosos na acolhida, largos e pa- cientes no caminhar, crendo na força do ensino no meio do Povo. Devemos ter confiança na força do poder do Evangelho e nosso jeito muito diverso de ser Igreja.
As estruturas administrativas, as Comissões Nacionais e os Grupos de Trabalhos (GTs) da Província estão para servir o Povo e o Clero onde quer que se encontrem, buscando o máximo de integração. O êxito de cada Diocese/Distrito, de cada Paróquia e de cada núcleo episcopal anglicano é também o éxito da IEAB.
Que o Deus conhecedor de nossas potencialidades e limitações nos ajude a avançar e a crescer, trazendo uma significativa relevân- cia pública da Igreja em cada região do Brasil!
Instituto Israel Pinheiro, local do Sinodo 2018 (Foto: Silvia Fernandes)
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REV. LUIZ COELHO Editor do Estandarte Cristão
editorial
Páscoa é tempo de renovação, não apenas porque a Ressur- reição de Cristo nos compele a buscar enxergar nova vida onde quer que esteja, mas também porque nossas vidas castigadas sempre merecem uma dose de esperança para seguir adiante. E qual esperança consegue ser melhor que aquela que vem do Alto?
Esperança parece ser a palavra chave, não só para esta quadra litúr- gica que vivemos, mas também para o período que atravessamos enquanto nação. Pois o enfraquecimento das instituições democrá- ticas neste país parece avançar a passos largos, sobretudo quando levamos em conta a precarização de direitos, o desemprego e a es- calada de violência que ameaçam os cidadãos e cidadās do Brasil.
A Igreja, também, atravessa uma crise de desesperança, o que leva, infelizmente, às muitas querelas, desunião e cismas. Praticamen- te toda semana, somos bombardeados com 'guerras e rumores de guerras no campo da política eclesiástica, acarretando na separa- ção onde deveria haver união, no desamor onde deveria haver soli- dariedade e na desunião entre pessoas que, teoricamente, pregam e vivem a mesma fé.
A tradição anglicana sinaliza para a tolerância e respeito às dife- renças. Um marco fundamental é o chamado acordo elizabetano, o qual buscou prover um meio termo entre diferentes práticas reli- giosas na Inglaterra do século XVI. Muito da tradição e prática ca- tólicas foram preservadas, mas sem submissão à autoridade papal. Também foi permitida uma amplitude de posicionamentos indivi- duais ou coletivos, com a uniformidade de adoração explicitada pe- los ritos do Livro de Oração Comum. Assim, muito embora palavras dos ritos fossem comunitárias, era possível interpretá-las de forma diferente, permitindo diversidade teológica, e adaptar o cerimonial à realidade de cada comunidade, permitindo diversidade litúrgica.
Mais adiante, já no século XIX, coube ao Rev. William Reed Huntington articular quatro pontos fundamentais, adotados pela Conferência de Lambeth de 1888 como um sumário de nossa iden- tidade e diálogo ecumênico: o Quadrilátero de Chicago-Lambeth. O quadrilátero, centrado nas Escrituras como "contendo tudo aquilo que é necessário à salvação, nos credos, nos sacramentos do Batis- mo e Eucaristia e o episcopado histórico, aliado ao Livro de Oração Comum, deveriam ser nossos pontos de unidade. Nada mais.
Contudo, as recentes questões e discussões eclesiais relacionadas à inclusão de gêneros e sexualidades têm carregado um potencial divisivo nunca antes visto. Nas últimas três décadas, temos visto mais divisões dentro de nossa própria comunhão que em todos os séculos anteriores. Em virtude disso, o Estandarte Cristão vem, neste tempo pascal, proclamar a esperança de que a divisão não imperará sobre a Igreja de Cristo, mas ao mesmo tempo, buscar entender o que há por detrás do verniz dos assuntos polêmicos, e tentando identificar os pontos fracos de nossa unidade, que nos passam desapercebidos. Uma boa leitura e que Deus nos abençoe!
Cristo Rei na Cidade de Deus, por Rev. Luiz Coelho Paróquia Cristo Rei, Rio de Janeiro (Óleo sobre tela, 2012, 7 x 1,8m)
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O ESTANDARTE CRISTÃO | Abril 2017
noticiário
Bispo João Peixoto acompanhado de membros do clero diocesano
01 Reconstrução no
Recife, apesar de cisma
Infelizmente, o ano de 2017 começou com movimentações negativas na Diocese do Recife. A expedição de comunicado por parte das lideranças clericais propondo a criação de uma "Aliança de Comunidades Anglicanas", obrigou o bispo diocesano, D. João Peixoto a emitir requisição para que os mesmos se conformassem à doutrina da IEAB e que se manifestassem em apoio às decisões sinodais que a mesma venha a tomar.
Entretanto, alguns desses clérigos, sobre- tudo aqueles que se relacionavam ao staff da catedral diocesana, decidiram partir e romper a comunhão com nossa Igreja, ale- gando que não poderiam permanecer em comunhão caso o sínodo de 2018 aprove ritos matrimoniais para casais do mesmo sexo. e que a maioria dos membros iriam sair, não tendo como sustentar a igreja. Isso levou a um racha na então catedral diocesana, a Catedral da Santíssima Trin- dade. Contudo, o remanescente fiel à IEAB reconstituiu-se como Comunidade da San- tíssima Trindade, reunindo-se toda manhã de domingo no templo da atual Catedral do Bom Samaritano, na Boa Viagem. Mesmo em meio à dor, encontramos alegrias, e a comunidade renasce entre as cinzas.
02 Representante
brasileira em progra- ma internacional de discipulado
Durante a última reunião do Conselho Consultivo Anglicano, realizada em Lusa- ka, Zambia, foi aprovada uma resolução criando um Programa denominado de Dis- cipulado Intencional para ser adotado na Comunhão Anglicana. O Objetivo deste programa é capacitar o povo anglicano a assumir de forma mais profunda o espíri- to do seguimento a Jesus, assumindo um seguimento radical da Boa Nova e com- partilhando esta Boa Nova com todas as pessoas.
É um chamado à renovação do compro- misso com o anúncio do Evangelho de Je- sus e que tem como elemento motivador um documento base de 150 páginas, apre- sentado perante o ACC.
Nossa Província foi agraciada pelo convite à Revda. Tatiana Ribeiro para fazer parte desse grupo que começou suas reuniões no mês de abril, em Londres, para iniciar este importante trabalho. O convite foi acordado entre o Diretor de Missão da Comunhão Anglicana, o Bispo Primaz e o Bispo de Brasilia. A Revda. Tatiana, ou sim- plesmente Tati, tem exercido o cargo de coordenadora do GT Juventude da Provin- cia há anos e tem demonstrado competên- cia e capacidade nessa função.
Revda. Tati e demais participantes
Reunião ONU Mulheres 2017
03 IEAB solidária ao
Dia Internacional da Mulher
Nossa igreja tem sido voz ativa pelos di- reitos das mulheres, especialmente neste momento, em que vemos um acirramento de movimentos conservadores e machis- tas e propostas governamentais que res- tringem direitos adquiridos pelas mulheres após muitos anos de luta.
As mulheres da IEAB se engajaram em di- versas lutas. Na Conferencia das Nações Unidas sobre o status da Mulher, esteve presente a leiga Odete Liber, da Comuni- dade do Bom Pastor, em Vitória/ES. Ali, mulheres de todo mundo trataram de pos- sibilidades de empoderamento econômi- co das mulheres, uma vez que a maioria das mulheres ainda dedica-se a atividades econômicas informais, necessitando de planos de benefícios e direitos para não serem exploradas.
No Brasil, várias mulheres anglicanas clérigas e leigas participaram da Marcha pelas Mulheres, que trouxe visibilidade às causas femininas e colocou-as no prota- gonismo de suas lutas. Aos homens - diz nosso primaz D. Francisco de Assis da Sil- va cabe "apoiar as mulheres e seguir com elas aonde for necessário na igreja e no mundo erguendo a voz e as bandeiras da justiça e da igualdade".
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Abril 2017 | O ESTANDARTE CRISTÃO
04 Câmara Episcopal, Secretaria
Geral e Conselho Executivo tra- balhando rumo ao Sínodo 2018
O Conselho Executivo do Sinodo (CEXEC), anunciou a escolha do local para a realização do 34° Sinodo Geral e Confelider 2018: Cen- tro de Convenções Instituto Israel Pinheiro. Trata-se de um espaço de verde e tranquilidade, à beira do Lago Paranoá, localizado a 20 minutos do aeroporto, a 15 minutos do centro de Brasília e à altura da QL 32 do Lago Sul. A visita ao local contou com a presença do Secretário Geral, Rev. Arthur Cavalcante e da Tesoureira Provincial, Sra. Sílvia Fernandes. Acompanhou-os o Bispo Maurício Andrade, de Brasília.
Esse encontro ocorrerá entre os dias 30 de maio à 03 de junho de 2018, em Brasília/DF. É prevista a presença de 114 pessoas (Bispos, Clérigos e Leigos). Também irão pessoas convidadas de outras províncias anglicanas, parceiras de organizações internac- ionais de diaconia/serviço e ecumênicas. Será o primeiro sínodo na Área 3 da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
A União da Juventude Anglicana do Brasil solicitou que as dele- gações provinciais contenham representantes jovens (até 35 anos de idade), de modo a prover maior diversidade ao próximo sínodo. Nos dias 04 a 07 de abril, no Rio de Janeiro, houve uma reunião conjunta entre a Câmara Episcopal e o Conselho Executivo, que tratou dessas e de outras questões. Essa reunião culminou com uma celebração de sagração do novo Bispo Coadjutor do Rio de Janeiro, D. Eduardo Coelho Grillo, na Catedral do Redentor, reali- zada na manhã do dia 08 de abril.
Alguns dos membros da Câmara Episcopal, reunidos no Rio de Janeiro
05 Câmara Episcopal soma-se a vozes proféticas contra a precarização das relações
trabalhistas e previdenciárias
Por meio de carta pastoral de cunho profético, a Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, manifestou-se de forma contrária ao Projeto de Reforma da Previdência (PEC 287/2016), ao Projeto de Reforma Trabalhista, e à recentemente aprovada Lei da Terceirização.
A Câmara Episcopal somou sua voz ao Conselho Nacional de Igrejas Cristās (CONIC), que solicitou às igrejas-membro avaliar uma série de documentos que demonstram claramente impropriedades nessas medidas do atual governo.
Os bispos concordaram que o impacto de reformas desta índole são desumanos, cruéis e devastadores, com consequências que levarão para a miséria extrema a milhões de pessoas, e forçarão outros tantos milhões a trabalharem até sua morte, desamparando suas familias. O Brasil, que já destaca pela injusta distribuição da riqueza entre pessoas ricas e pobres verá aumentada esta desigualdade.
A motivação para a elaboração dessa carta vem do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, que declara bem-aventuradas, as pessoas que tem "fome e sede de justiça" por que é elas serão fartas! (Mateus 5.9), e da Carta de Tiago, que nos lembra que "o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz." (3.18). Assinaram a carta os bispos Francisco de Assis da Silva (Primaz e Sul Ocidental), Naudal Gomes (Curitiba), Filadelfo Oliveira (Rio de Janeiro), Maurício Andrade (Brasília), Saulo Barros (Amazônia), Renato Raatz (Pelotas), Flávio Irala (São Paulo), Humberto Maiztegui (Meridional), João Peixoto (Recife), Eduardo Grillo (Coadjutor do Rio de Janeiro), Clóvis Ro- drigues, Almir dos Santos e Celso Franco (eméritos).
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Abril 2017 | O ESTANDARTE CRISTÃO
JULIO REIS SIMÕES Doutor em Diálogo Inter-religioso e Ministro-Leigo da Capela do Bom Samaritano (Juiz de Fora/MG)
opinião
Uma história de histórias
Em 08 de Abril de 2017, na Catedral do Redentor Diocese Anglicana do Rio de Janeiro (DARJ), foi ordenado bispo da Igreja Eduardo Coelho Grillo, na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Uma notícia tão rápida, posta de maneira tão sucinta, aparente- mente tão corriqueira; e ao mesmo tempo o desfecho de uma his- tória de histórias.
Na ordenação de Eduardo estiveram presentes, junto com quase 100% dos presbíteros da Diocese, os reverendos presbíteros Cae- tano, Abimael e a reverenda presbítera Meriglei. Os três também foram candidatos ao cargo de bispo, para exercerem o ministério episcopal. Não foram eleitos. Perderam?
Qualquer processo democrático não conhece perdedores.
A democracia é o tipo de governo segundo o qual determinado grupo de cidadãos tem o direito de expressarem seu apreço por projetos de poder específicos. Na Atenas antiga, eram os homens livres. No Brasil, maiores de 16 anos com pleno gozo de direitos ci- vis e políticos. Na Igreja Anglicana do Rio de Janeiro, membros em plena comunhão indicados pelas comunidades e clérigos. Ilude-se quem pensa que o direito ao voto é universal. Ele nunca o é, em de- mocracias de direito. No caso de assembleias conciliares da DARJ, têm direito a voto pessoas devidamente inscritas pela paróquias e seus suplentes em caso de ausência dos primeiros. No caso da maior parte dos países, tem direito pessoas com um certo grau de maturidade, geralmente delimitado pelo número de aniversários que já se fez. Maiores de 16, de 18, de 21 anos. Em alguns outros modelos, como a eleição papal na Igreja Católica Apostólica Ro- mana, tem direito a voto cardeais, que assim o são por indicação de papa(s) anterior(es), resultando na curiosa situação de cardeais votando em cardeais para nomearem como porta-voz de si mes- mos um papa que nomeará futuros cardeais. E, para ser bispo de Roma, só sendo-se cardeal. A idéia deste sistema romano é que o "chefe", o "supervisor" dos cardeais seja um dos cardeais. Ou seja, o primeiro entre eles é um igual a eles.
De forma semelhante o Concílio da Diocese, ao eleger um presbí- tero como epíscopo (e a palavra "epíscopo" significa "supervisor", "o que vê por cima") o escolhe dentre os membros com direito a voto: se em qualquer reunião conciliar leigos inscritos e clérigos inscritos têm direito a voto, ao admitir como candidato um pres- bítero inscrito a DARJ escolhe um dentre os muitos semelhantes como seu supervisor.
Ou seja: sim, é um processo democrático. E, como qualquer pro- cesso democrático, existem limites que estabelecem quem pode votar e em quem se pode votar.
Some-se a isto o previsto pelos cânones da DARJ, que estabelece que é eleita bispo a pessoa que obtiver dois terços dos votos em cada uma das urnas, uma de leigos e outra de clérigos, e podemos divisar um outro aspecto da dimensão do episcopado segundo uma lógica de Eclesiologia anglicana: é eleito um dos presbiteros para agir como supervisor dos mesmos. Mas também é eleito um dos ministros do povo para supervisionar a ministração para o povo.
Cuidando-se de que todas as regras sejam respeitadas, o que re- sulta é que alguma pessoa é eleita. E essa pessoa eleita repre- senta, dentro dos limites estabelecidos pelas regras que regem a DARJ, a vontade dos membros da DARJ, sejam clérigos ou leigos. Em assim sendo, quem ganha é a DARJ, e não o/a eleito/a.
O Clérigo faz parte do povo
É comum, no discurso quotidiando, observarmos o interessante fenômeno de o "povo" ser "os outros". Quando eu mesmo, que sou professor, falo de "povo" na sala de aula, os alunos tendem a enten- der que este tal "povo" é alguma coisa amorfa e mal definida que, com certeza, começa nos limites das janelas e porta para fora. Esta é um concepção terrível. O "povo" é todo mundo, inclusive quem está dentro da sala.
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Sagração do Bispo Eduardo Grillo (Foto: Marcelo Queiroz)
Da mesma maneira, quando se elege alguém como ministro/a clerical para o povo, o/a mesmo/a ministro/a sempre precisa não perder de vista que ele/a é parte do povo para o qual ministra ou ministrará. Talvez a pessoa que assume sobre si esta responsabi- lidade queira exercer poder. Tudo bem que assim o seja. Mas em processos democráticos, o poder emana da totalidade das pes- soas envolvidas nas tomadas de decisão e quem é eleito ou eleita usa de um poder que não é seu. Portanto, ela não é a portadora da voz da maioria e ponto final. Ela é a escolhida pela maioria para ser a porta-voz de todos e todas.
Um bom clérigo é capaz de presidir a celebração de algum sacra- mento envolvendo as pessoas, liderando-as na adoração. A boa clériga demonstra na realidade que percebe que o poder que exer- ce não é seu na medida em que incentiva as outras pessoas não clérigas a tomarem parte nos conselhos paroquiais, comunitários, diocesanos. O ministro ou a ministra que percebe-se como parte do povo é capaz de ouvir opositores, de crescer com a crítica, de ter auto crítica. Mas isto não significa que exerce seu poder ten- tando agradar todo mundo. Ela ou ele exerce o poder que não é seu buscando criar espaços de satisfação pessoal e comunitária a todas as pessoas, sejam elas a maioria ou uma infima minoria.
Como ensina Ciro Gomes, político brasileiro, quando um candidato que representa uma minoria violenta recebe 15% dos votos válidos, a sociedade brasileira engole a representação da violência e cospe o caroço da derrota destes violentos, ao passo que o/a governan- te/a eleito/a deverá se esforçar para permitir que estes violentos se expressem, desde que a expressão dos mesmos seja de fato a violência contra qualquer grupo. É uma equação complicada.
O que importa é pensar e perceber que o clérigo, desde que foi recomendado por sua comunidade e origem à Comissão de Or- dens e Ministérios e a clériga, desde que foi considerada apta a ser diácona pelos organismos de sua diocese sempre dependeu de outros e outras. Portanto, não faz sentido que quem se vir eleito/a para algum cargo clerical e seja ordenado/a para tal queira depois favorecer uma parcela da diocese, seja de clérigos ou de leigos. O bispo ou bispa eleito ou eleita é clérigo ou clériga. Mas só o é porque um dia foi leigo. Ninguém nasce ordenado.
E, aliás, se for verdade que o bispo representa a vontade soberana do Concilio Diocesano, ele ordena, isto é, ele manda que se faça assim ou assado como porta voz do povo que o elegeu. Assim, todo sujeito ordenado cumpre ordens não de algum bispo, mas do povo que elegeu este bispo. Ele recebeu ordens. E as ordens ema- nam, sempre, do povo, que é o lugar onde nascem as vocações, o lugar onde as vocações são exercidas e o destinatário das ações destes sujeitos vocacionados.
Vocacionar: chamar pelo nome. Eles e elas são chamados e cha- madas pelos seus nomes para receberem ordens e cumprirem es- tas ordens... que são do povo! São de todos.
Ai, portanto, do clérigo ou clériga que acredita que é ele ou ela que manda: não entendeu nada. Quem manda é o povo, e o povo o/a inclui. Se, no entanto, ele ou ela se ausenta do povo, este povo que é quem manda provoca a sua saída na medida em que se demons- tra pouco ou nada colaborativo com projetos que não sejam seus.
O bispo ou a bispa deve ser esta pessoa hábil e apta politicamente para perceber que faz o que lhe mandaram fazer, e não o contrário.
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Toda eleição é um processo
Eduardo não foi eleito em um único escru- tínio, nem numa única sessão. Foram ne- cessárias duas sessões e quatro escrutí- nios para que os votantes o chancelassem como bispo eleito pelo Concílio Diocesano.
Neste processo, primeiro Rev. Caetano abriu mão de sua candidatura. Ficando como candidatos os Revedendos Eduar- do e Abimael, delineou-se o fenômeno segundo o qual Abimael era vitorioso na Urna dos Clérigos, enquanto Eduardo era vitorioso na Urna dos Leigos. Houve quem sugerisse que os leigos devessem seguir os clérigos porque o bispo é o "patrão" dos clérigos, numa clara distorção da eclesiologia anglicana. E houve quem dis- sesse que uma ou outra câmara (leigos ou clérigos) deveria mudar o voto, numa incompreensão de que os votos fossem pessoais, e não desta ou daquela câmara.
Sagração do Bispo Eduardo Grillo (Foto: Marcelo Queiroz)
Houve dois modos de se terminar com uma tensão. Um é a ruptura. Outro é o afrouxa- mento do elemento tensionado. Pensando em um arco entesado, libera-se a tensão sobre a corda quando ou se dispara a fle- cha, ou se arrebenta o arco ou se desiste de disparar, afrouxando a corda.
Eu e muitos outros sabemos que desistiu- -se de disparar. Se havia de um "lado" ou "outro" pessoas prontas para soltar fle- chas, porque amava demais a Eduardo ou a Meriglei, o resultado eleitoral minou a ne- cessidade de embates no canto de Glória que se seguiu.
Toda a assembleia se levantou e, de pé, en- toamos Glória a Deus, segundo a tradição que se estabeleceu na igreja do Brasil em sua vertente anglicana.
Um novo começo
Tão logo o processo eleitoral findou-se, nosso Conselho Diocesano se reuniu e al- guns membros do mesmo se desligaram. Também pessoas que exerciam cargos na diocese pediram seu desligamento, e foram atendidos e atendidas. Há (sempre há pessimistas...) quem tenha visto nestes desligamentos uma reação de ruptura com o novo bispado que estava por vir.
Eu, no entanto, estive nas reuniões nas quais ocorreram os desligamentos, e li a íntegra das cartas de pedido de licen- ça. As pessoas que optaram por sair estavam cansadas. Pediram para sair para poderem reorganizar as suas vi- das pessoais, familiares, profissionais.
Finda a primeira sessão, durante o inter- regno entre as mesmas rev Abimael re- tirou sua candidatura, o que foi acolhido pelo Concilio reunido na segunda sessão. Na abertura da mesma sessão, tendo sido aprovada pela assembleia resolução se- gundo a qual poder-se-iam candidatar ou- tros presbíteros e presbíteras, rev Meriglei se candidatou.
Houve de tudo um pouco na segunda ses- são. Houve riso, escárnio, irritação, ofen- sas pessoais, choro, acusações, defesas de acusações etc. Um espetáculo digno de ser esquecido...
Houve também um grande alívio quando, findo o quarto escrutínio e primeiro da se- gunda sessão, Eduardo foi eleito. E o alívio não se deu porque fosse o melhor ou pior candidato, ou candidato deste ou daquele. O alívio ocorreu porque a tensão terminou.
Ficou claro, assim, que enquanto houver no coração das pessoas de nossa Diocese a percepção de que o Bispo ou Bispa ou seja lá o que for que seja escolhido em as- sembleia é de todos, não existe a necessi- dade de posse. Não é necessário possuir o que já se tem. O que é de todos é também de cada um!
Além disto, quem preferiu votar em Caeta- no ou Abimael ou Meriglei, ao ver Eduardo eleito não ficou sentado. Levantou-se e cantou Glória. Porque o maior ensinamen- to que a democracia nos dá não é saber "ganhar" e nem saber "perder". É a percep- ção de que é melhor abrir mão de exigên- cias pessoais em nome de poder sempre verbalizar estas exigências. Foi o que se seguiu.
Que bom que assim fizeram. E que exem- plo para quem às vezes se sente herói ouυ heroína demais e quer fazer tudo sem ne- nhuma gota de descanso ou equilíbrio. É necessário encontrar este equilíbrio.
Outras pessoas assumiram os cargos que ficaram vacantes. Não foram ou são todos/as "partidários" de Eduardo. Em conversas de corredor, por sinal, temos levantado nomes para apresentar na pró- xima reunião conciliar de pessoas que são "opositoras" de Eduardo para comporem o Conselho Diocesano no lugar de quem precisou sair. Porque não existe oposi- ção ao sistema. Porque o sistema preci- sa do dito e do contra-dito para alcançar a verdade. Porque um modo de governo diocesano ou municipal ou doméstico
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no qual apenas quem pensa de um jeito se veja representado provavelmente é um tiro no pé, e começará em pouco tempo a criar uma elite e esquecer os contraditórios. Porque qualquer representante de qual- quer modelo democrático precisa de saber ouvir mais do que falar.
Estamos confiantes que continuaremos a trabalhar com nosso Bispo Diocesano Fi- ladelfo Oliveira Neto, agora com a ajuda de Eduardo Grillo, com a mesma amizade e com o mesmo respeito mútuo. E tomamos a saída de algumas pessoas dos cargos que ocupavam com muito respeito, e que- remos colocar pessoas tão boas quanto elas nos lugares que vagaram, para que possamos crescer juntos.
Ele é, agora, bispo, supervisor, servidor, de todas as pessoas que acreditam em Je- sus. Todos nós podemos olhar pra ele e agradecer a Deus por ele ter "topado" fazer uma coisa tão difícil politicamente e espi- ritualmente.
Muito mais difícil espiritualmente que poli- ticamente, por sinal!
Como é que se discerne que tal ou tal atitu- de na condução da comunidade é mais ou