O Estandarte Cristão - 04/2018

Versão Integral em Texto

O Estandarte Cristão - 04/2018

Revmo. Francisco de Assis da SilvaRev. Arthur CavalcanteRev. Luiz Carlos Teixeira Coelho Filho2018

O ESTANDARTE CRISTÃO

Uma publicação oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, desde 1893.

O ESTANDARTE CRISTÃO

Tradições

e Transformações


(Foto: domínio público)


Pastoral

Companheirismo entre as igrejas brasileira e japonesa: um trabalho frutífero feito em amor.

Opinião

Lei sem justiça: uma reflexão relevante sobre a realidade política do Brasil

Teologia

A sagração da Bispa Marinez Bassotto, à luz da construção teológica coletiva de mulheres ordenadas

Vida

O FAPIEB continua, e persiste como fundo de apoio e seguridade para clérigos(as) e pessoas leigas da IEAB

Número 1824 - Abril 2018


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

Índice

palavra do primaz

04

mensagem da secretaria geral

06

editorial

07

noticiário

08

opinião

11 Sobre o momento que vive o país: lei sem justiça Joanildo Burity

teologia

14 Quebrou-se o telhado de vidro! Reflexão teológica conjunta

vida

16 Seguridade a serviço da Igreja Jolanda Ramos Noble

pastoral

18 Companheirismo em missão Sachiko Tamaki

memória

22 O plano IEABPrev


O ESTANDARTE CRISTÃO Uma publicação oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, desde 1893. Número 1824 - Abril 2018

Produzido pela: Secretaria Geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil Praça Olavo Bilac, 63 - Santa Cecília - São Paulo - SP CEP 01201-050 - Telefone: (11) 3667-8161 www.ieab.org.br | estandartecristao@ieab.org.br

Bispo Primaz da IEAB Revmo. Francisco de Assis da Silva fassis@ieab.org.br

Secretário Geral da IEAB Rev. Arthur Pereira Cavalcante acavalcante@ieab.org.br

Editor Rev. Luiz Carlos Teixeira Coelho Filho lcoelho@ieab.org.br

Redação Vagner Ernani Mendes Junior

Fundadores: Rev. James Watson Morris Rev. William Cabell Brown

Ex-Editores: Rev. Américo Vespúcio Cabral Rev. William Cabell Brown Rev. João Mozart de Melo Rev. João Baptista Barcellos Cunha Rev. José Severo da Silva Revmo. Athalicio Theodoro Pithan Rev. Henrique Todt Jr. Revmo. Artur Rodolpho Kratz Rev. Oswaldo Kickhöfel Revmo. Flávio Augusto Borges Irala Revmo. Renato da Cruz Raatz Sr. Cláudio Simões de Oliveira Rev. Josué Scares Flores

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

Com a sagração da Bispa Marinez Bassotto, abre-se um novo ciclo no cenário da ordenação feminina na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Na foto, pode-se ver todas as mulheres ordenadas (das três ordens) presentes na sagração. Em destaque, as bispas Linda Nichols (de Huron, Canadá) e Griselda del Cappio (de Cuba)


palavra do primaz

REVMO. FRANCISCO DE ASSIS DA SILVA Bispo Primaz da IEAB

E stamos vivendo dias de graça em nos- sa Igreja! Com estas palavras quero ex- pressar a minha alegria porque acaba- mos de viver a grande festa que estava programada desde que a primeira mulher episco- pal anglicana do Brasil recebeu a sagrada ordem de Diácona, em 1985, na cidade de Santana do Li- vramento. Carmen Etel Alves Gomes iniciou esta história e, por trinta e três anos, Belém, do outro lado do país foi o lugar onde aconteceu a histó- rica sagração de nossa primeira bispa: Marinez Bassotto.

Eu me recordo que, quando indagado pela mídia a respeito da eleição da bispa Marinez, afirmei com absoluta clareza que a última barreira de gêne- ro dentro da Igreja relativa ao acesso às ordens sagradas fora transposta. De agora em diante, esperamos que nossa Igreja possa caminhar na direção da equidade de gênero em todas as esfe- ras da vida eclesial. E neste caminho temos muito ainda a avançar.

Neste número de nosso EC também nos defronta- mos com a crise política pela qual passa o Brasil. É indubitável a crise ética em nossa instituições e a criação de um ambiente de banalização da desi- gualdade, da violência e da insegurança jurídica. O professor Joanildo Burity nos oferece uma aná- lise acurada dos desafios que a sociedade brasi- leira enfrenta nestes tempos de ruptura da ordem democrática, do esgotamento da confiança nas instituições e na necessidade urgente de reorga- nização da sociedade civil.

No front internacional de nossa Comunhão An- glicana, temos animadoras noticias de como a Igreja está desenvolvendo estratégias para am- pliar o sentimento de que nossas comunidades se transformem em autênticos santuários para as pessoas que sofrido violência simbólica, verbal e física. O conceito de Igreja segura está sendo discutido e iniciativas de criação de uma articu- lada ação entre provincias está em curso. A IEAB se faz representar neste Grupo de Trabalho Inter- nacional pelo irmão Marcel Cesar, da diocese An- glicana de Curitiba, o qual tem buscado motivar as lideranças da Igreja a tomar consciência da necessidade de construir uma pastoral que leve nossas comunidades locais a se transformarem em verdadeiros espaços seguros.

Finalmente, com a aproximação de nosso Sínodo, apresentemos a Deus nossas intercessões para que seja um momento de avaliação pastoral de nossa caminhada provincial e que a Confelider (Conferencia de Lideranças) nos ofereça a oportu- nidade de construirmos uma plataforma de ação missionária, pastoral e diaconal para o próximo quadriênio e nos encontraremos em Brasília! ()


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

A ordenação da Rev. Carmen Etel Alves Gomes, em 1985, marcou o início do ministério feminino ordenado na IEAB, o qual culminou este ano, com a sagração da primeira bispa, Revma. Marinez Rosa dos Santos Bassotto. (Foto: acervo do Estandarte Cristão)

"De agora em diante, espera- mos que nossa Igreja possa caminhar na direção da equidade de gênero em todas as esferas da vida eclesial.


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

mensagem da secretaria geral

REV. ARTHUR CAVALCANTE Secretário Geral da IEAB

N osso Estandarte Cristão chega a mais uma edição em sua proposta digital. Seu lançamento data o ano de 1893, isto é, aproximadamente 125 anos de registrando os princi- pais acontecimentos da Igreja Episcopal em terra brasilis. Suas edições contemplaram os fatos que mereceram destaques em nossas comunidades. Lá estão registrados os "avanços" (ou quem sabe com nosso olhar mais crítico de hoje os "retrocessos") das pessoas pioneiras levando as Boas Novas na perspectiva da tradição do cristianismo episcopal em lugares novos, em cultura e língua nova, em realidade social diferente da europeia e da norte- -americana. Enfim precisamos tirar um bom aprendizado de tudo o que nossos antepassados fizeram ou até mesmos nós que esta- mos fazendo a história dessa Igreja.

Como qualquer órgão de imprensa talvez muitos fatos foram dei- xados de lado, mas nem por isso deixaram de existir nessas comu- nidades, nem por isso deixaram de ser importantes, ou "oficiais". Hoje diferentemente do passado, as novas mídias e a democrati- zação da comunicação onde qualquer pessoa com um smartphone nas mãos pode gerar notícias sem necessariamente passar pelos órgãos reconhecidos. A Igreja Episcopal precisa estar atenta a esse movimento da comunicação que tende a crescer mais e mais.

O texto estampado na capa de nosso EC, "Tradições e Transforma- ções", tenta sintetizar o momento o qual a IEAB vivencia nesses últimos anos: mudanças da sede da Província para atendar deman- das missionárias e estruturais (2011), uma nova edição do Livro de Oração Comum (2015), novos Cânones e Constituição (2016), o fechamento do ciclo da Ordenação Feminina com a Sagração de uma Bispa (2018) e por fim, a discursão sobre o Cânon do Casa- mento Igualitário. Todo esse caminhar de nosso Povo e Clero nos aproxima dos desafios que a sociedade brasileira vem atravessan- do! Parece que a IEAB toma não só um caminho diferente de outras Províncias, como também de outras Igrejas Irmãs com as quais dialogamos ecumenicamente. Esse caminhar gera naturalmente conflitos, mas devemos nos permitir enfrentá-los tal como fizeram as pessoas pioneiras do passado. Aliás o termo "pioneira" na maio- ria das vezes não é cunhado oficialmente no presente, mas quase sempre no futuro...depois de tudo...apesar de tudo... Para isso de- vemos buscar no Evangelho nossa inspiração nesses tempos de mudanças.

Ao ver as palavras "Tradições" e "Transformações" me veio ime- diatamente o texto do evangelho de Marcos sobre o conflito gera- do entre os discípulos de Jesus (novo) com o sistema religioso (o estabelecido). Este grupo questionava o porque dos discípulos de Jesus Cristo não purificavam suas partes antes das refeições. Na verdade, os discípulos não lavavam seus braços como era o costu- me. Jesus não estava querendo provocar seus inimigos incentivan- do a quebra das tradições. Os discípulos vivem uma outra realidade diferente de Jerusalém. Estavam afastados dos rigores da religio- sidade do grande centro urbano e os costumes no meio rural era bem diferente. Assim como no tempo de Jesus Cristo, tentamos en- quadrar as pessoas em nossos modelos pré-fabricados. Queremos que elas se encaixem em nossos esquemas e isso muitas vezes atrapalha nossa razão de existir que é fazer MISSÃO.

Olhemos para a história da Igreja Cristă pelos séculos. Esquecemos quando levamos as Boas Novas do Evangelho de Cristo, levamos não apenas sua mensagem mais nossos valores culturais e de clas- se social. E muitas vezes eles estão tão arraigados na mensagem do Evangelho que achamos que é próprio Evangelho. A palavra TRADIÇÃO pode ser encarada por nós de duas formas pelo menos: a primeira é o tradicionalismo que é "[...] adesão servil e tola às explicações doutrinárias e morais pertencentes ao passado" (Alister McGrath- Uma introdução a Teologia Cristă pág. 227). A outra é a chamada tradição viva, tal como descreve o teólogo da Igreja Orto- doxa, John Meyendorff, na qual para ele "[...] a tradição não deve ser entendida como conjunto de verdades que foram sendo acumuladas ao longo do tempo e que simplesmente repetem as impressões do passado: A tradição genuína é sempre uma tradição viva. Ela muda e ao mesmo tempo permanece sempre a mesma. Altera-se porque enfrenta situações diferentes e não porque sua essência seja modifi- cada. Essa essência não equivale a uma proposição abstrata; antes é o próprio Cristo vivo, que diz: Eu sou a verdade". Para sermos a Igreja da Tradição, precisamos nos desapegar da Igreja do tradicio- nalismo, se quisermos ser Igreja do Movimento de Jesus. Diante das transformações, desejadas ou não, somos desafiadas a buscar a unidade na diversidade, mas sendo uma Igreja relevante ao nosso contexto. [] Referência: Marcos 7:1-8, 14-15, 21-23 (Lecionário Ano B)


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

editorial

REV. LUIZ COELHO Editor do Estandarte Cristão

A Comunhão Anglicana vive numa sadia tensão entre tradição e modernidade. A ordenação feminina, bem como a inclusão plena de pessoas LGBTI na vida da Igreja são dois singulares exemplos dessa tensão. Nossos detratores muitas vezes nos acusam de iconoclastas, ou destruidores da Tradição da Igreja. Eu, particularmente, prefiro en- tender que estamos a reinterpretar a Tradição mediante o olhar de Cristo.

E é nessa nova visão das coisas que nos são tradicionais que enten- demos o chamado das mulheres às três sagradas ordens. Por sé- culos e séculos, mulheres têm sido força fundamental e importante na vida das comunidades de fé. Entretanto, graças a uma interpreta- ção enviesada das Escrituras, condicionada a um sexismo cultural e transmitida pela Tradição, negamos às mulheres a possibilidade de exercerem ministérios de ensino e autoridade na vida da Igreja.

A IEAB, ao eleger e sagrar uma bispa, enfatiza que conseguimos, ao menos nesta instância, passar à outra margem com coragem e determinação. Não abolimos as ordens sagradas, não abolimos a tradicional divisão em dioceses. Contudo, entendemos que uma mulher também pode ser pastora do povo e clero de uma diocese. Não abandonamos a Tradição. Apenas estamos relendo essa Tra- dição à luz do projeto de Jesus Cristo, onde todas as pessoas têm lugar.

E é nesse espírito que apresentamos à IEAB este Estandarte Cris- tão. Nesta publicação, lembramos de algumas instituições muito tradicionais na vida da Igreja, como o FAPIEB, bem como de com- panheirismos antigos presentes entre nossas igrejas e missioná- rios(as) do Japão. Por outro lado, lembramos que essas tradições necessitam de renovação, e por isso apresentamos transformações das mesmas, releituras e atualizações, à luz do amor de Cristo e em respeito à diversidade de nossa sociedade. Uma excelente leitura a todas as pessoas!

Sagração da Bispa Marinez (Foto: Paulo Bassotto)


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noticiário

Membros da Comissão para uma Igreja Segura

01

Comissão começa trabalhos para desenvolver procedimentos globais de proteção para crianças, mulheres e pessoas vulneráveis nas igrejas da Comunhão Anglicana

Os membros da Comissão para uma Igreja Segura se encontraram em outubro no escritório da Comunhão Anglicana em Londres para sua primeira reunião presencial. Buscando tornar as igrejas da Comunhão Anglicana um lugar seguro para crianças, jovens e adultos vulne- ráveis, foi estabelecida uma comissão internacional que teve seu primeiro encontro presencial no fim de outubro deste ano. A Comissão para um Igreja Segura da Comunhão Anglicana foi criada pelo Conselho Consultivo Anglicano (ACC) em sua reunião do ano passado em Lusaka; em uma das quatro resoluções sobre o tema.

A comissão foi uma recomendação da Rede para uma Igreja Segura da Comunhão Anglicana - grupo global de clérigos e leigos que emer- giu em resposta a preocupação da igreja em diversas províncias da comunhão em que falhas de conduta de clérigos e trabalhadores da igreja tiveram consequências trágicas para aqueles que foram vitimas de abuso, suas familias e comunidades. A rede, que foi reconhecida pelo ACC em sua reunião de 2012, em Auckland, é um grupo internacional de pessoas comprometidas com o bem-estar físico e emocional e espiritual de todas as pessoas envolvidas em igrejas em toda a Comunhão Anglicana.

A comissão é composta [6] pelo Revd Sereima Divulavou Lomaloma de Fiji; Marcel Cesar Pereira do Brasil; Bispo Cleophas Lunga do Zim- babwe; Rev. Immaculée Nyiransengimana do Ruanda; Bispo Brian Marajh da África do Sul; Bispo Festus Yeboah-Asuamah de Gana; Mary Wells do Canadá; Robin Hammeal-Urban dos EUA; Caroline Venables da Inglaterra, o Arquidiácono Christopher Smith do País de Gales; Rev. Clare Yoon Sook Ham da Coreia; e o CanonAndrew Khoo, co-presidente do comité de direitos humanos da Ordem dos Advogados da Malásia. A comissão teve como facilitadora Marilyn Redlich, membro da Comissão para um Ministério Seguro da Austrália.

02

Câmara Episcopal repudia violência policial dirigida às universidades

Em dezembro do ano passado, a Câmara Episcopal emitiu nota de repúdio à sistemática construção de um desmonte orçamen- tário que compromete indubitavelmente a execução orçamentária de programas de pesquisa e, inclusive a manutenção de serviços básicos nas instituições de ensino superior.

Além disso, tem sido visível a remoção por critérios políticos de quadros dirigentes que se opõem a este desmonte, em um pro- cesso que só encontra similaridade com idênticos processos utili- zados no período da ditadura militar.

O protesto da Câmara foi pautado pela defesa dos princípios da racionalidade, impessoalidade, ampla defesa e estrita obediência à garantia da integridade física e psicológica de todas as pessoas, inclusive aquelas que sejam alvos de investigação sem que a for- mação da culpa esteja materialmente e legalmente concluída.

O Estado de Direito pressupõe instituições sólidas, livres e onde a justiça seja praticada e aplicada com o predomínio da objetivi- dade, clareza e materialidade. Quando a justiça depender mais de performance midiática de seus agentes estamos toda a sociedade em sério risco.

Assinaram a carta os bispos diocesanos Francisco de Assis da Sil- va, Diocese Sul Ocidental e Primaz da IEAB; Naudal Alves Gomes, Diocese de Curitiba; Mauricio Andrade, Diocese de Brasília; João Câncio Peixoto, Diocese do Recife; Eduardo Grillo, Diocese do Rio de Janeiro e os seguintes eméritos: Clovis Erly Rodrigues, Almir dos Santos, Celso Franco de Oliveira, Jubal Pereira Neves, Orlando Santos de Oliveira, Filadelfo Oliveira Neto e Saulo Barros


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

平和の使者・SHALOM ブラジル聖公会 サンパウロ教区 Ano 1-1 2018年2月1日 よ、あらためますя вычекловはごろも わたしはまいます + 皆さん、新年あけましておめでとうございます。この2018年が皆様 にとって祝福に満ちた希望の年でありますように。 年8月 ハネ伊藤八十二の生活を記念する事に、日本聖公会よ 9、上原沖縄をお迎えし、サン・パウロ、パラナ 上述していただきました。同行いたしました私が感じたことは、当時から早や90 年経ち、数多くあった少し、日本語人口も減少している事でした。アラジ

03

Boletim para a comunidade de língua japonesa

Denominado inicialmente como Projeto Shalom, o boletim informativo tem por objetivo ser um alimento espiritual para unir e manter contato com anglicanos de origem japonesa que estão espalhados pela Diocese Anglicana de São Paulo e também pela Diocese Anglicana do Pa- raná por meio da circulação de notícias, mensagens e informações úteis tanto em japonês como também, eventualmente, em português.

O público-alvo são as pessoas de ascen- dência japonesa em sua grande maioria idosas que não costumam obter notícias e informações da Igreja por meio digital e também aquelas que, por algum motivo, não estão frequentando a Igreja mas gos- tariam de receber o boletim com a Palavra de Deus.

A distribuição será feita pelas Paróquias e também enviado pelo correio para algu- mas pessoas que não têm condições de saúde para comparecerem todos os do- mingos à Igreja.

As Paróquias participantes do projeto: Paróquias de São João, Santa Cruz e Res- surreição, em São Paulo (SP); Cristo Rei, em Registro (SP); Santo André, em Pereira Barreto (SP); Ascensão, em Guaimbê (SP); São Tiago, em Curitiba (PR) e Santo Agos- tinho, em Foz do Iguaçu (PR).

A equipe responsável é formada pela Re- verenda Carmen Kawano, da DASP, Sra. Sa- chiko Tamaki, da Paróquia de Santo André (Pereira Barreto, SP) e Sr. Ricardo Ito, da Paróquia de São João (São Paulo, SP). As Paróquias não relacionadas acima e/ ou pessoas que estiverem interessadas no Boletim poderão dirigir-se a qualquer um dos membros da equipe para mais informações sobre o projeto pelo e-mail psj.dasp@gmail.com.[[] Texto por Kangoro Mori

04

Mulheres ordenadas, e postulantes em unidade e profe- cia junto à IEAB

Nos dias 11 e 12 de dezembro de 2017, di- versas mulheres ordenadas e postulantes às Sagradas Ordens estiveram em oração e discernimento mútuo no Seminário Eg- mont Machado Krischke (SETEK), em Por- to Alegre. O encontro foi uma possibilida- de de partilha e troca de ideias entre elas. Juntas, recomendaram à Igreja diversas medidas de modo a garantir igualdade de gênero, como equidade de gênero nas co- missões e representações provinciais, for- mação e educação para a diversidade de gênero, maior participação de lideranças femininas, maior apoio às mulheres orde- nadas na dimensão da saúde emocional e física, enfrentamento à misoginia e à vio- lência contra a mulher, além de maior aten- ção às pautas do movimento feminista.

Assinaram a carta 18 mulheres ordenadas, duas postulantes e uma teóloga leiga. Já no início deste mês de abril, trinta mu- lheres ordenadas se organizaram em car- ta aberta em repúdio à grave perseguição política imposta contra Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil. As mulheres desta igreja sentem-se inspiradas pela Ruah Divina e imitadoras do Cristo da fé, o qual fez história por assumir o compro- misso com a dignidade humana, a justiça e a paz. Alegam que não vão perder a es- perança. [

Clérigas e postulantes em 12/2017

Bispo Glauco em visita à Sentissime Trindade, em São Paulo

05

Em memória do Bispo Glauco Soares de Lima

Faleceu em dezembro de 2017 o Bispo Glauco Soares de Lima, emérito de São Paulo. O Bispo Glauco teve uma trajetória das mais respeitáveis dentro da IEAB. Du- rante muitos anos destacou-se como Clé- rigo, como membro da Comissão Nacio- nal de Canones, como Bispo da DASP. Já como Bispo Primaz, foi reconduzido para três mandatos.

Durante seus três mandatos a IEAB viveu um momento de destaque e visibilida- de dentro da Comunhão Anglicana, bem como no movimento Ecuménico.

Ressalta o Primaz, Bispo Francisco de Assis da Silva que o gosto pela dimensão de um Anglicanismo reflexivo, que valori- zava a razão, o diálogo com a ciência, o diálogo com a ética, e o diálogo com a po- lítica, sempre o fez uma pessoa aberta à discussão teológica; e não poucas vezes, defendeu na sua vida Ministerial, teses que eram novas e desafiadoras dentro da vida da Igreja.

A IEAB sente-se profundamente grata pelo seu Ministério. Não temos em todo o tempo em que viveu seu Ministério como membro da IEAB algo que o desqualifique, ao contrario, temos o orgulho de ter tido um grande e fiel irmão.[]


Abril 2018 | O ESTANDARTE CRISTÃO

Encontro infantil da Paróquia São Paulo, em Cachoeirinha, com a então Revda. Marinez (Foto: Paulo Bassotto)

06

Eleição da primeira bispa da IEAB

O dia 20 de janeiro de 2018 ficou para sempre marcado na história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como o dia da Eleição da Primei- ra Bispa. O fato ocorreu na Segunda Sessão do Concilio da Diocese Anglicana da Amazônia (DAA), o qual elegeu no primeiro escrutinio a Reverenda Cônega Marinez Rosa dos Santos Bassotto. O processo de eleição na Igreja Episcopal ocorre com participação de delegações paroquiais do laicato e também do clero residente, possibilitando a escolha de pessoas cujo perfil venha agradar às pessoas que serão pastoreada pela bispa(o).

O Bispo João Câncio Peixoto fez o pronunciamento após a confirmação dos votos entre as duas pessoas candidatas: Reverenda Cônega Marinez (Diocese Meridional) e o Reverendíssimo Deão Silvio Freitas (Diocese Sul Ocidental).

A Bispa Marinez Bassotto é gaúcha, casada com o Sr. Paulo Bassotto e mãe de duas filhas: Luisa e Laura. No ato de sua eleição, era pároca da Paróquia São Paulo, em Cachoeirinha (Diocese Meridional) e Custódia do Livro de Oração Comum, membro da Comissão Nacional de Diaconia (CND) e Coordenadora do Grupo Executivo para CONFELIDER 2018. A Reverenda Marinez foi deā por vários mandatos da Catedral Nacional da Santíssima Trindade, em Porto Alegre/RS.

A Diocese Anglicana da Amazônia é uma unidade eclesiástica da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil que abrange os estados do Pará, Amapá, Roraima, Amazonas e Acre. Sua sé episcopal está na Catedral Anglicana de Santa Maria, localizada na Av. Serzedelo Corrêa, 514, Batista Campos, na cidade de Belém, no estado do Pará. Foi criada em 29 de julho de 2006, no 30° Sínodo-Geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, realizado no período de 26 a 30 de julho de 2006, em Curitiba. No dia 15 de outubro de 2006, a Diocese Anglicana da Amazônia foi instalada solenemente, com a consagração da Catedral de Santa Maria e com a investidura e instalação de seu primeiro bispo Dom Saulo Maurício de Barros. Em 2017, Dom Saulo Barros anunciou sua resignação e que abriu o processo eleitoral para a escolha de um(a) novo(a) pastor(a).

A eleição de uma mulher para o episcopado ocorre mais de três décadas após a primeira ordenação feminina realizada em 1985. Desde então, a IEAB tem acolhido diversos eventos para marcar e reforçar a importância do papel da mulher nos espaços de lideranças (saiba mais sobre os 20 Anos, 25 anos e os 30 Anos de Ordenação Feminina).[


opinião

JOANILDO BURITY Doutor em Ciência Política, ex-representante da IEAB junto ao Conselho Consultivo Anglicano e membro leigo da Diocese Anglicana do Recife

Sobre o momento que vive o

país: lei sem justiça

D evo falar de um momento. Momento que se arrasta por algum tempo, por alguns anos. E mesmo assim chama- mos de momento. E com razão, pois é o nosso momen- to. Como brasileiros, como anglicanos. Se desenrola aos nossos olhos, com ou sem nosso envolvimento, com ou sem nossa resposta ativa, audível. Este momento tem muito a ver com algo que cala profundo nas narrativas de nossa fé. Porque neste momento, nos confrontam as questões da lei e da justiça. E ao que parece, muitos cristãos, neste país, perdem de vista precisamente tanto a conexão quanto a tensão entre lei e justiça. Confundem a lei e a justiça; aferram-se à lei e ignoram a justiça; afirmam a letra da lei contra a justiça. Falam da lei como se esta sempre garan- tisse, por sua existência, a justiça. Quem não leu, ou não ouviu, sobre a dura crítica da lei como arma da injusti-ça, como álibi dos poderosos, como falsa segurança dos opressores? Na Biblia. E por que perdem de vista que a relação entre lei e justiça nunca está ga- rantida? Por que aferram-se à lei como se bastasse sua recitação ou pior, o ouvir-dizer, sem ler e sem saber, o que está na lei, o que ela autoriza, demanda ou proibe - para haver justiça?

A lei, que tomamos como originária, como autoridade fundante, como pilar da vida social, é sempre ato segundo a uma luta em torno da justiça, para afirmá-la ou reprimi-la. A Bíblia está repleta desta ambivalência quanto à relação entre lei e justiça. Faraó não deixa o povo ir e ainda endurece as condições de trabalho dos escravos hebreus; mais adiante decreta sua perseguição e morte (Ex 5.2-9; 14.5-9). Moisés (supostamente) proclama no Egito e no Sinai um conjunto de princípios, normas e leis que deveriam pro- duzir a unidade de um grupo heterogêneo de pessoas, ansiosas pela liberdade, mas despreparadas para o custo da sua conquista, para o incerto da ca-minhada, para as resistências e reações dos outros. A primeira menção explícita a um conteúdo como "lei", no livro do Êxodo, fala da celebração da Páscoa, do fim da escravidão, da liberdade, em que já está em questão - e em aberto quem faz parte do povo e pode ser parte da celebra-ção: o estrangeiro resi- dente, o (i)migrante temporário, o natural da terra. Mas, se afirma com clareza que só haverá uma lei para qualquer desses, que a lei não poderá discriminar entre os nativos e os imigrantes, os livres e os subordinados (Ex 12.43-49; v.tb. Lv 24.22; Nm 15.16, 29).

A próxima vez que outra lei é explicitamente enunciada (Ex 21.1), refere-se à libertação dos escravos hebreus! O povo que havia sido libertado, reproduziu as mesmas relações sociais das quais se liv- rara. A lei não assegurara a liberdade nem a justiça para todos. Por isso, aqui, a lei se preocupa em fazer justiça ou garantir a justiça. E antecipando um motivo frequentemente encon-trado a partir daí, o capítulo 23 é aberto com duas graves advertências: "Ninguém faça declara-ções falsas e não seja cúmplice do ímpio, sendo-lhe testemunha mal-intencionada. Não acompa-nhe a maioria para fazer o mal. Ao testemunhar num processo, não perverta a justiça para apoiar a maioria, nem para favorecer o pobre num processo". E logo em seguida: "Não perverta o direito dos pobres em seus pro- cessos. Não se envolva em falsas acusações nem condene à morte o ino-cente e o justo, porque não absolverei o culpado" (Ex 23.1-3, 6-7). Antes mesmo de ocupar-se da não-observância da lei, do seu descumprimento, a Bíblia parece preocupar-se com seu mau uso, sua deturpação, para favorecer alguns em detrimento de outros (o pobre, o inocente, o justo). Alerta contra o conluio para, a pretexto da lei, interpretando-a ou aplicando-a de forma manipula-tória, con- denar o inocente. Alerta para a responsabilidade de deixar-se levar

pelas armações dos injustos, tornando-se massa de manobra em suas mãos. Ser inocente útil em matéria de injusti-ça, clamando pelo cumprimento da "lei" é ser responsável pela condenação do inocente, pela opressão do pobre.

E certamente a lei, na experiência deste povo, ao lon- go do tempo, tornou-se uma ferramenta de opressão e de injustiça. Quer a lei proclamada pelo próprio Deus libertador, quer a imposta pelas elites israelitas ou pelas potências que repetidamente as fizeram de vassalas. A fala profé-tica invariavelmente reclama da oposição entre lei e justiça da lei como paró- dia da justiça, da lei como instrumento deliberado de promoção e justificativa da injustiça, da lei ignorada em favor dos poderosos, mas exigida dos pequenos. O diagnóstico profético era o de que as pessoas em posição de autoridade (inclusive os juízes!) desorien- tavam o povo e de que este se deixava deso-rientar (Is 9.16); que leis injustas e opressoras eram escritas para retirar direitos dos grupos vul-neráveis na socie- dade (Is 10.1-2; Am 5.7; Mq 3.1-2); que a lei era usada como arma contra adver-sários (Am 5.10; Mq 3.5); que na politica e na lei, o suborno se praticava para perverter a justiça (Am 5.11-15; Mq 3.11).

A lei, Jesus a conhecia muito bem. Tanto a de base religiosa, local, cotidiana, seja a romana, imperial, in- stitucional: opressiva (Mt 20.25; Lc 20.46), "farisaica"

aplicando a lei aos outros, não a si, aferrando-se

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