O Estandarte Cristão - 10/2017
O ESTANDARTE CRISTÃO
Uma publicação oficial da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, desde 1893.
O ESTANDARTE CRISTÃO
Índice
- palavra do primaz
- 04
- mensagem da secretaria geral
- 06
- editorial
- 07
- noticiário
- 08
- opinião
- 11
- pastoral
- 14
- teologia
- 18
- vida
- 20
- memória
- 22
Palavra do Primaz
Ninguém poderia imaginar que Martinho Lutero provocaria, com seu gesto, tamanha mudança no cenário religioso e político da Europa e, por decorrência, no mundo.
A transição do período medieval para a modernidade veio carregada de transformações sociais e culturais, acompanhada pela revolução da imprensa. E esta foi a grande responsável por propagar com uma velocidade inimaginável as idéias do movimento de reforma. A tradução da Bíblia para o vernáculo e a inversão do vetor de poder para o laicato foi fundamental para espalhar as idéias dos reformadores.
Neste sentido, o próprio anglicanismo recebeu forte influência do movimento reformado, especialmente na liturgia, na apropriação da Bíblia pelo povo, na valorização da razão como instrumento legítimo para a interpretação das escrituras e na construção de uma política eclesiástica livre de um monolitismo autocrata.
Hoje, 500 anos depois de Lutero, vivemos tempos de diálogo, interação e de busca da unidade da família cristã desejada por Cristo. Isto é sinal de conversão de nossas distintas tradições cristãs. Nossas particularidades teológicas e eclesiais não desconhecem o quanto estamos próximos de viver com amor e de forma partilhada em torno das questões que nos unem que são muito mais ricas do que das nossas diferentes visões ao viver a nossa fé.
O diálogo acontece hoje de parte a parte. No nível mundial, temos vivido um enorme avanço na busca da comunhão, inclusive com a inter-comunhão entre igrejas influenciadas pela reforma protestante, a exemplo das chamadas igrejas unidas e também nos Estados Unidos e Canadá. Temos orado juntos, celebrado juntos e dado um testemunho conjunto ao lado de outras igrejas - no campo da incidência pública, do cuidado com a Criação e na busca por uma sociedade mais justa e inclusiva.
No Brasil, estamos juntos nas instâncias ecumênicas e nas ações de defesa da dignidade humana em diversas frentes. Manifestamos nosso sincero desejo de continuar e aprofundar o diálogo entre nossas famílias na busca de uma cada vez maior comunhão de corações e mentes. O sonho de uma inter-comunhão e de partilha no caminho da missão permanece como alvo que deve nutrir nosso diálogo.
Parabenizo nossos irmãos e irmãs pelas celebrações dos 500 da Reforma de Lutero e oramos para que a graça mais que suficiente de Deus nos anime, fortaleça e gere os frutos de amor, justiça e misericórdia!
Mensagem da Secretaria Geral
Há alguns dias fui surpreendido por uma reporte de uma grande rede de comunicação nacional desejando saber como a Igreja Anglicana iria comemorar os 500 Anos da Reforma Protestante. Muito me estranhou depois de tanto tempo, um canal de comunicação elaborando uma matéria específica sobre o surgimento do Protestantismo. Talvez não seria mesmo de estranhar já que a religião tem sido um elemento no debate nacional, inclusive nos meios políticos e nas artes. Enfim, aquela profissional queria saber se teríamos um grande culto, tal como, estavam sendo anunciadas pelas Igrejas Reformadas.
Como tudo é muito rápido ao se tratar de uma entrevista, tive que dizer objetivamente que as comemorações da IEAB seriam simples, e que aqui e ali, em suas catedrais, paróquias e pequenas congregações iriam mencionar a importância do Dia da Reforma Protestante, através de liturgias temáticas, ou cantando o tradicional hino de Martinho Lutero, Castelo Forte, ou ainda, dando algum destaque nas homilias. Mas a pergunta daquela profissional me fez ir um pouco mais além do que ela deseja saber para construir sua matéria. A Reforma Protestante não é o único elemento fundante do Anglicanismo mas é mais um dos movimentos que deixaram marcas profundas no jeito de ser da nossa Igreja. Acredito que nós pessoas anglicanas não estamos interessadas apenas em comemorar 500 Anos de Reforma mas naquilo que pudemos aprender com a história e com o testemunho dos pais e mães reformadores/reformadoras. Aprender com seus erros e acertos, no desejo de serem pessoas fiéis ao espírito do livre exame das Escrituras Sagradas, agregando o que é mais saudável da tradição cristã, e se permitindo usar a razão, o bom senso e o amor acima de tudo na prática de sua espiritualidade.
A Reforma Protestante traz consigo o início da Modernidade para o mundo e a Modernidade o desafio de viver na pluralidade, onde ninguém ou nenhuma instituição é senhora da verdade. Aqui lança-se o desafio a nossa querida IEAB, através de suas lideranças e comunidades, de ser uma igreja que está a caminho, uma igreja reformada sempre reformando, respondendo por ela mesma aos desafios de um mundo plural.
Editorial
A escritora Phyllis Tickle, episcopaliana norteamericana de grata memória, desenvolveu uma tese que ainda ressoa na minha mente. Em livros e artigos, ela propunha que o Cristianismo era feito a partir de grandes transições que ocorriam a cada 500 anos. Ecoando a voz do Bispo Mark Dyer, Tickle explicava que, a cada metade de milênio, as estruturas do Cristianismo institucional se tornavam como que uma carapaça rígida, a ser despedaçada de modo a permitir renovação e crescimento. O movimento de Jesus foi o elemento de fundação desses ciclos. Cinco séculos depois, o fortalecimento do monasticismo revolucionou um cristianismo cambaleante e rendido às estruturas estatais que o haviam abraçado. Após um milênio, a Igreja rachou em dois grandes ramos. Movimentos monásticos novos surgiram no Ocidente, buscando reformar o cristianismo ocidental por dentro, e dando a ele um novo sopro de vida. Mesmo assim, as distorções da Igreja institucional persistiram, e cinco séculos depois, os ecos de reforma voltaram a ressoar, desta vez amparados pelo advento da imprensa, que permitiu aos reformadores divulgar amplamente a justificação pela fé, a suficiência da Graça divina, a liberdade de exame e interpretação das Escrituras Sagradas e o sacerdócio universal dos fiéis. Além disso, a reforma protestante abriu as portas da modernidade, mudou a forma segundo a qual estados nacionais lidavam com a religião e introduziu o pluralismo de ideias e confissões religiosas num mesmo país, ou região.
Sem dúvida, como pessoas anglicanas, esses princípios nos são familiares. Nossa igreja apresenta-se como católica reformada. Não surgiu durante a reforma do século XVI. Herdou séculos de tradição da Igreja indivisa. Mas, sem dúvida, foi influenciada pela reforma protestante. Entretanto, os princípios advogados pelos reformadores eram tão radicais que não somente nas nossas igrejas, mas também em comunidades irmãs, demoraram muito tempo para serem plenamente absorvidos. O clericalismo, a leitura centralizada da Bíblia e a extrema hierarquização continuaram a assombrar as igrejas, independente de denominação ou confissão.
Contudo, se fizermos as contas de Tickle corretamente, chegaremos à conclusão de que estamos vivendo uma nova revolução no seio da Igreja: uma nova reforma. Segundo ela, toda a variedade de evoluções e involuções que ocorreram no contexto da Igreja durante o século XX contribuem para que um novo jeito de ser cristão surja entre nós. Trata-se de uma Igreja menos hierarquizada, menos dogmática, menos formal, preocupada com a justiça social e ativa no mundo à nossa volta. As diferenças denominacionais não são mais tão grandes. A grande maioria das pessoas fiéis se comporta de forma ecumênica, ao menos dentro de um espectro razoável de igrejas. Cada vez mais, as igrejas contribuem mutuamente em termos de liturgia, evangelização, missão e diaconia. O que nos separa não parece mais um abismo tão grande como era para nossos ancestrais.
Mas ainda nos é apresentado o desafio de termos uma Igreja mais horizontal e participativa. Nesse sentido, esta edição do Estandarte Cristão traz uma coincidência que vem a calhar: três, dentre quatro colunistas, são mulheres. As lideranças femininas em nossas igrejas são uma das inúmeras faces da revolução em curso, conforme apresentada por Tickle. Ao celebrarmos 500 anos de uma reforma que abalou as estruturas da Igreja e do mundo, tenhamos em mente que nós também temos a comissão de continuarmos em reforma, como bem enunciou Karl Barth. O objetivo final? Que possamos revolucionar a Igreja, de modo a libertá-la da carapaça institucional e libertá-la rumo ao projeto original de Jesus Cristo.
Noticiário
01 Diocese Anglicana de Pelotas amplia sua presença na Internet com novo site e noticiário
A Diocese Anglicana de Pelotas tem ampliado bastante sua presença na Internet através de um website novo e completamente reformulado. Periodicamente, também têm publicado uma série de informativos intitulados "Boas notícias".
No site www.dapsul.com.br, o usuário também pode acessar boletins paroquiais, descobrir informações sobre horários e eventos de paróquias e missões e também acessar as mídias sociais da diocese.
A Diocese Anglicana de Pelotas situa-se no extremo Sul do Brasil, na faixa Sudeste do estado do Rio Grande do Sul. Nasceu do desmembramento de área da Diocese Meridional em 1988. Está no momento com seu terceiro Bispo, eleito em maio 2007, Revmo. Bispo Renato da Cruz Raatz.
02 Paróquia de São João (DASP) comemora aniversário de consagração de seu templo na presença do Bispo da Diocese de Okinawa
A Paróquia de São João, da Diocese Anglicana de São Paulo, comemorou no dia 13 de agosto último, o décimo quinto aniversário de consagração do seu novo templo. O evento, conduzido pelo reitor da São João, reverendo Francisco Cezar, foi oficiado pelo Bispo Diocesano Dom Flávio Irala e contou com as presenças do Bispo da Diocese de Okinawa, Dom David Eisho Uehara e esposa Sra. Momoko Uehara, do Bispo Primaz da IEAB Dom Francisco de Assis da Silva e do reverendo Hirotaka Tokuhiro, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, como convidados.
Na sua homilia, baseado no texto do Evangelho de Mateus 14:22-33, Dom Uehara destacou o trabalho desenvolvido pelo missionário reverendo João Yasoji Ito, fundador da Paróquia de São João, entre os imigrantes japoneses no início do século passado, levando o Evangelho a locais mais distantes e inóspitas, a pé, a cavalo, na boleia de caminhão, de trem, sempre com o propósito de ajudar aquelas pessoas, famílias a conhecerem a Jesus Cristo. O Bispo da Diocese de Okinawa comparou a missão do reverendo Ito como a mão estendida por Jesus em direção a Pedro quando este fraquejou, ajudando os imigrantes japoneses como um pai em todos os sentidos. O sermão do Bispo Uehara teve a tradução simultânea para o português pela reverenda Carmen Kawano.
Ao final da cerimônia, o Bispo Flávio agradeceu em nome da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e mais especificamente, pela DASP, a presença do Bispo Uehara que veio em nome do Bispo Primaz do Japão, Dom Nathanael Makoto Uematsu, participar do culto especial em memória do Reverendo João Yasoji Ito e tratar da possibilidade de estabelecer intercâmbio entre a DASP e a Nippon Sei Ko Kai (Igreja Anglicana do Japão).
Fazendo uso da palavra, o Bispo Primaz da IEAB, Dom Francisco de Assis da Silva, também manifestou sua satisfação pela presença de um enviado do Bispo Primaz da Nippon Sei Ko Kai, e ao entregar um exemplar do Livro de Oração Comum, agradeceu ao Bispo dom Uehara em japonês. Matéria por Kangoro Mori
03 Divulgado material sobre o discipulado intencional
A IEAB distribuiu, no mês de setembro, o material sobre discipulado intencional e formação de discípulos(as) produzido pelo Departamento de Missão da Comunhão Anglicana. Esse material deverá, se possível, ser partilhado por todas as instâncias diocesanas e provinciais para que possam usufruir de sua proposta de evangelização. Segundo o Bispo Primaz D. Francisco de Assis da Silva, a IEAB é chamada a assumir o compromisso de desenvolver uma estratégia que venha dinamizar a compreensão, o aprofundamento e a prática de um discipulado que transforme vidas e igualmente a sociedade em que estamos inseridos, com tantos desafios que temos enfrentado.
A Revda. Tatiana Ribeiro, que compôs o grupo encarregado da produção desse material, entende ser necessário um GT provincial para trabalhar o "discipulado intencional" e que cada Diocese e Distrito tenha um GT local para o tema, desenvolvendo uma "Temporada do Discipulado". Isso levaria a um tempo de crescimento e fortalecimento do sentimento de pertença a uma Igreja diocesana, provincial e mundial. Outro desafio, segundo ela, seria focar na catequese de crianças, jovens e adultos e continuar tendo a juventude como uma prioridade na vida da Igreja.
04 Diocese do Rio realiza concílio sob a direção de D. Eduardo Grillo
Nos dias 12, 13 e 14 de outubro, a Diocese Anglicana do Rio de Janeiro realizou seu concílio diocesano nas dependências da Catedral do Redentor, na Tijuca. É o primeiro sob a direção de D. Eduardo Grillo, que foi instituído Bispo Diocesano no dia 29 de julho de 2017.
O concílio foi projetado como uma oportunidade de estudo, partilha e leitura comunitária da Bíblia. Contou com a assessoria do biblista Paulo Couto Teixeira (Pulika) e do Rev. Júlio Ambrósio, que apresentaram ao povo o cenário das cartas aos Tessalonicenses.
Foi também o primeiro concílio em que novas missões tiveram voz e voto. Destacam-se as seguintes: Missão do Bom Pastor, em Vitória (ES), Missão de São Miguel e Todos os Anjos, em Petrópolis (RJ) e as missões da Sagrada Familia e Nossa Senhora de Walsingham, ambas localizadas no sul de Minas Gerais. A presença de muitos membros de regiões distantes da cidade do Rio de Janeiro foi possível devido a um sistema de inscrições solidárias, no qual as igrejas localizadas na região metropolitana da cidade do Rio foram desafiadas a cobrir 90% dos custos de inscrição dos irmãos e irmãs de fora.
05 Concílio na Amazônia chega a impasse
Na manhã dia 21 de outubro de 2017, no templo da Catedral de Santa Maria, em Belém do Pará, aconteceu o Concílio Extraordinário da Diocese Anglicana da Amazônia. Os delegados clericais e laicos estiveram reunidos com a finalidade de realizar a eleição do bispo coadjutor ou bispa coadjutora da diocese.
O Concílio foi presidido por Dom Maurício Araújo de Andrade, bispo da Diocese Anglicana de Brasília, convidado pelo bispo diocesano Dom Saulo Maurício de Barros. O bispo diocesano presidiu a celebração eucarística e o bispo convidado foi o pregador.
Foram, então, realizados quatro escrutínios, nos quais nenhuma das pessoas candidatas, Revda. Marinez Bassotto e Revdo. Silvio de Freitas, conseguiram maioria nas duas ordens, tendo a Revda. Marinez alcançado maioria no laicato e Revdo. Sílvio entre o clero. A assembleia aprovou, então, a suspensão do Concílio Extraordinário. Delegados clericais se manifestaram sobre a possibilidade do atual bispo permanecer mais tempo à frente da diocese. Essa proposta contou imediatamente com a adesão de alguns representantes do laicato. Dom Saulo afirmou que, diante do apelo, se coloca disponível para conversar com a família, com a Câmara Episcopal e com o povo da diocese em futura Assembleia do Povo de Deus, objetivando prorrogar sua permanência como liderança episcopal da DAA.
Reunião dos Primazes reitera: "caminharemos juntos"
Representou a IEAB no Encontro dos Primazes D. Francisco de Assis da Silva. Segundo ele, os primazes escolheram o caminho de ouvir o chamado de Deus para o serviço do mundo mais do que para discutir doutrina ou disciplina. Para além disso, os Primazes não caíram na tentação de desperdiçar tempo com o que não tem sido possível consensuar. O desejo de caminhar juntos foi reafirmado de forma veemente contra quem, talvez, apostasse numa divisão irreversível da Comunhão.
Havia muitos rumores de que a ação sinodal da Igreja Episcopal Escocesa, que aprovou ritos matrimoniais para casais do mesmo gênero, gerasse um racha na Comunhão. Contudo, a atitude da Igreja da Escócia de se dispor a aceitar as consequências de sua decisão ajudou em muito na aceitação de que a diferença é parte da nossa Comunhão. O tempo gasto com o tema da decisão escocesa foi curto e a agenda dos Primazes pode finalmente caminhar para outros campos.
Dom Francisco enfatiza o papel de uma igreja que ora, e que emerge do Encontro dos Primazes. Pois todas as atividades foram entremeadas por oração. Todos os dias, de manhã e à tarde, os Primazes tiveram o privilégio de celebrar ofícios devocionais e Eucaristia junto com a comunidade da Catedral de Cantuária. O Encontro começou com um retiro e se encerrou com Eucaristia e Lavapés (como sinal de mútuo serviço em Cristo). Cada dia, um Primaz, nos desafiava a um estudo bíblico que chamava-nos a atenção para o anúncio do Evangelho de Cristo em contextos de sofrimento, injustiça e descuido com a Criação.
A partir da recomendação do Conselho Consultivo Anglicano e, diante de contextos cada vez conflitivos em várias partes do mundo, os Primazes apoiaram a criação da Comissão Internacional Anglicana de Diálogo Inter-religioso. Caberá a ela construir caminhos de compreensão dos contextos de conflitos, de diálogo e de cooperação entre as religiões.
O sentimento geral dos Primazes é de que este foi um dos melhores encontros que já foram realizados. Os Primazes assumiram o compromisso de continuarem liderando suas Províncias no enfrentamento das mudanças climáticas, a importância do protagonismo das mulheres e também a solidariedade com movimentos de refugiados, que já somam cerca de 65 milhões em todo mundo, além de cerca de 20 milhões de pessoas deslocadas devido a desastres naturais. Face a tais desafios, buscaram reiterar entre si o compromisso do que pode ser feito conjuntamente, enquanto Igreja de Cristo, ao invés de enfatizar diferenças doutrinárias e teológicas que não são centrais ao entendimento do papel salvífico do Evangelho de nosso Senhor em meio a um mundo duro, frágil e quebrantado. O segredo talvez tenha sido a capacidade de ouvir atentamente uns aos outros e se perceberem como uma família chamada a ser testemunha da Boa Nova de Jesus Cristo.
Opinião
A liberdade da Graça contrapõe a lógica da mercadorização: celebrando os 500 anos da Reforma
A celebração dos 500 anos da Reforma Protestante oferece uma oportunidade inigualável para que as Igrejas de tradição reformadas (e não reformadas) revisitem e atualizem os pressupostos fundamentais do movimento que teve em Martinho Lutero, uma das suas grandes expressões.
Como professor de interpretação bíblica da Universidade de Wittenberg, na Alemanha, desde 1512, Lutero lutava para libertar o fazer teológico da "ditadura" de Aristóteles (384-322 a.C.) sobre cujo pensamento a teologia medieval (também conhecida como escolástica) foi construída. Para Lutero, a teologia estava "acorrentada no cativeiro da escolástica, impossibilitada de articular adequadamente a questão essencial da fé cristã, ou seja, graça e justificação, Deus em seu relacionamento com o ser humano e vice-versa". Na concepção de Lutero, as questões da fé não poderiam ser conhecidas na sua profundidade por meio da aplicação das regras da lógica filosófica. Deste modo, um método teológico alternativo foi desenvolvido baseado no paradoxo, ou seja, "afirmações que a lógica tradicional considerava paradoxais passaram a ser usadas para expressar adequadamente as verdades cristãs. Lutero tornou-se o líder deste novo modo de fazer teologia.
Justificação pela fé e graça
Lutero debatia-se à procura de um Deus justo. Não lhe cabia na cabeça um Deus que castiga seus filhos e filhas condenando-lhes por seus pecados tanto nesta vida quanto na vindoura. Lutero se indispôs contra Deus "blasfemando em silêncio e resmungando violentamente contra ele" pelo fato de Deus arrogar para si a condição de justo e punir pecadores e injustos, não só por meio da lei, mas também por meio do Evangelho. Diz Lutero: "como se não bastasse que os miseros pecadores, perdidos para toda a eternidade por causa do pecado original, estivessem oprimidos por toda sorte de infelicidade através da lei do decálogo deveria Deus ainda amontoar aflição sobre aflição através do evangelho e ameaça-los, com sua justiça e sua ira, através do evangelho? Assim eu estava furioso e de consciência confusa. Não obstante teimava impernitentemente bater à porta dessa passagem - Deus teve pena de mim". O texto bíblico ao qual Lutero se refere é Romanos 1:17 que diz: "visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: O justo viverá pela fé".
A libertação de Lutero foi experimentada de modo completo ao deparar-se com este texto bíblico e entender que a justiça de Deus revelada no evangelho, é passiva, ou seja, através dela o Deus misericordioso justifica a pessoa pecadora, por meio da fé. Ao contrário da justiça ativa, que pune quem peca, a justiça passiva justifica por meio da fé. No que diz respeito às pessoas, o único critério necessário para que elas obtenham perdão e sejam justificadas diante de Deus, é a fé. No que diz respeito a Deus, perdão, justificação e salvação advêm da graça. Como diz Efésios 2:8: "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus, não vem das obras para que ninguém se glorie".
Ninguém pode obter salvação ou perdão a não ser através da graça de Deus, que é dom gratuito.
Em seu processo de busca por um Deus justo, Lutero identificou na venda das indulgências uma distorção a ser combatida. As indulgências surgiram no século XI e diziam respeito, no início, "aos castigos temporais impostos pela Igrejas. Mais tarde, passaram a referir-se "aos castigos temporais que deveriam ser purgados no purgatórios. Finalmente, passaram a dizer respeito também "aos pecados de parentes já falecidos que estavam no purgatório. A venda das indulgências era uma fonte de renda relevante para a Cúria e para o Estado papal. O perdão dos pecados, a justificação e a salvação postas à venda era uma prática inaceitável para aquele monge agostiniano. Assim, em 31 de outubro de 1517, ele expôs na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, as suas 95 teses. Embora alguns historiadores afirmem que não foi Lutero que fixou as teses à porta da igreja do castelo, o conteúdo delas e o processo iniciado por sua escritura, foi abrangente.
A Reforma Protestante, mais do que uma reforma da Igreja, constituiu-se numa revolução de conceitos, idéias, visões de mundo, de sociedade, de humanidade e de Deus. Para além das relações sociais, a Reforma teve impacto na cultura, na educação, na política, na linguística. Ao traduzir o Antigo e o Novo Testamento para a língua alemã, Lutero a escreveu pela primeira vez. O povo teve acesso à bíblia e pôde lê-la e interpretá-la sem a intermediação dos sacerdotes. O sacerdócio universal de todas as pessoas crentes, tornou-se um dos conceitos fundamentais do movimento reformista. Nas liturgias, passaram-se a cantar as canções das ruas e das tavernas; reescritas, tornaram-se o canto da Igreja. As catequeses dominicais foram as primeiras escolas para a população não pertencente à nobreza. De fato, a Reforma Protestante abalou os fundamentos medievais e mudou o curso da história moderna do mundo ocidental.
Livres pela Graça: a salvação não está à venda, a criação não está à venda, os seres humanos não estão à venda
A Federação Luterana Mundial escolheu o tema acima para as celebrações dos 500 anos da Reforma. Com este tema, a Federação atualiza os princípios reformadores ao colocar no centro das reflexões e dos debates, a realidade de um mundo dominado pelo mercado financeiro e econômico; um mundo no qual tudo é transformado em mercadoria. A terra, a água, os alimentos, são vendáveis. A vida humana está configurada dentro de parâmetros mercadológicos. As pessoas valem por aquilo que conseguem produzir ou possuir. Mesmo as nossas subjetividades encontram satisfação em produtos criados para a nossa "felicidade".
A lógica da mercadorização vem acompanhada da lógica da acumulação. A acumulação é injusta e exclui grande parte da população. Para que poucas pessoas tenham muito, muitas pessoas precisam ter pouco. E para que pouquíssimas pessoas acumulem milhões ou bilhões, milhões de pessoas precisam ser pobres ou miseráveis. Assim como acontece no Brasil, onde seis homens possuem o mesmo que cem milhões de pessoas.
A vontade de acumular não tem limites. A crise financeira de 2008 iniciada nos Estados Unidos e que afetou a economia global, resultou numa estratégia de acumulação ainda maior e mais agressiva por parte de quem já era muito rico.
A agressividade do sistema neoliberal tem sido tamanha que guerras são confeccionadas, governos são derrubados e populações inteiras são submetidas a condições abjetas de vida a fim de saciar a sede de acúmulo desenfreado das empresas transnacionais e dos países hegemônicos em termos da geopolítica mundial. O que está acontecendo no Brasil desde 2013 é parte de um plano de desmonte do país para entregá-lo nas mãos de quem paga mais no mercado nacional e internacional. O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e as medidas tomadas pelo governo de Michel Temer de retirada de direitos dos trabalhadores, de congelamento dos investimentos por 20 anos na área de educação, saúde, agricultura, etc, de "reforma da Previdência" (que não está deficitária), de privatização das empresas nacionais que são fundamentais para o desenvolvimento do país, dentre tantos outros retrocessos, respondem aos interesses de um sistema construído para transformar tudo em mercadoria, custe o que custar. Mesmo que o custo seja o emprego das pessoas, sua dignidade, sua vida. É um sistema que não se importa de matar e fazer morrer, principalmente os mais empobrecidos.
A fim de analisar a violência dos eventos que estão sucedendo no Brasil e no mundo, o cientista político Juarez Guimarães trabalha com o conceito de contrarrevolução neoliberal implementado por uma classe capitalista transnacional que, a partir de 2008, redesenha globalmente o sistema de funcionamento político-econômico-jurídico em consonância com uma vontade política classista que se organiza para além dos Estados nacionais. O redesenho possui proporções tão extremadas que Guimarães fala de um abalo sísmico civilizacional, pois aquilo que caracterizou as sociedades democráticas do pós-guerra, o Estado Democrático de Direito, e valores fundamentais como a paz, a liberdade, os direitos humanos, o pluralismo e a tolerância, tornam-se dispensáveis.
A lógica da mercadorização e da acumulação cria sentidos para a experiência humana que se distanciam daqueles desejados por Deus para as suas filhas e os seus filhos. Gratuidade é a lógica de Deus. E é nessa lógica que nós somos chamadas e chamados a viver enquanto celebramos os 500 anos da Reforma. Afinal, somos livres pela Graça! E afirmamos que a salvação não está à venda, a criação não está à venda, os seres humanos não estão à venda.
[1] Martinho Lutero. Obras selecionadas, 1987:13. [2] Id.Ibid. [3] Martinho Lutero. Pelo Evangelho de Cristo, 1987:30 [4] Id.Ibid. [5] Martinho Lutero. Obras selecionadas, 1987:21. [6] Id.Ibid. [7] Id.Ibid. [8]https://economia.uol.com.br/noticias/reda- cao/2017/01/17/6-homens-tem-a-mesma-riqueza-que- -100-milhoes-de-brasileiros-juntos-diz-ong.htm Ordem de riqueza: Jorge Paulo Lemann, sócio da Ambev (dona das marcas Skol, Brahma e Antarctica) e dono de mar- cas como Budweiser, Burger King e Heinz, Joseph Safra, dono do banco Safra; Marcel Herrmann Telles, sócio da Ambev e dono de marcas como Budweiser, Burger King e Heinz; Carlos Alberto Sicupira, sócio da Ambev e dono de marcas como Budweiser, Burger King e Heinz; Eduar- do Saverign, cofundador do Facebook, João Roberto Ma- rinho, herdeiro do grupo Globo. [9]http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/10/ 1929445-relatorio-final-da-cpi-da-previden- cia-afirma-que-deficit-nao-existe.shtml [10]http://www.sul21.com.br/jornal/nao-ha-nada-mais- -desmobilizador-hoje-do-que-2018-entre-nos-e-2018-ha- -um-abismo/e. Acesso em 17/07/2017.
Pastoral
Que venham outros 500!
Celebrar os 500 anos da reforma Protestante nos remete à importância histórica de um movimento que Martinho Lutero foi voz profética em 1517, quando elaborou e pregou na porta da igreja em Wittenberg as 95 teses que gostaria de discutir com o clero da igreja.
As 95 teses tiveram repercussão imediata, sendo lidas, comentadas e divulgadas pelas pessoas da cidade. Elas expressavam o descontentamento e insatisfação do povo, que se sentia manipulado e explorado pelo clero, que, entre outras práticas, vendia indulgências como uma forma de arrecadar dinheiro para a manutenção da igreja, com seus projetos monumentais, e do clero, que vivia com pompa e circunstância. O grito dos reformadores foi para que a Igreja retornasse à essência do Evangelho de Jesus Cristo.
O movimento da reforma se alastrou pela Europa como um rastilho de pólvora e foi um divisor de águas na história da Igreja. Somos herdeiros do legado proposto inicialmente por Lutero, e que foi abraçado por outros reformadores e reformadoras, como João Calvino, Ulrico Zwinglio, John Knox, Catarina Von Bora, Argula de Stauff, Catarina Zell, entre outros.
Destacamos o que consideramos ser a espinha dorsal da Reforma, e que devem ser os pilares que sustentam nossas igrejas hoje:
- Sola Fide (Somente pela Fé): "Pois o evangelho mostra como é que Deus nos aceita: é por meio da fé, do começo ao fim. Como dizem as Escrituras sagradas: 'Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus." (Romanos 1:17); "É pela fé que entendemos que o universo foi criado pela palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi feito daquilo que não se vê." (Hebreus 11:3). A Fé é a mola mestra que impulsiona nossa vida cristã, motiva nossa vida devocional, nos dá esperança de um mundo melhor e mais justo.
- Sola Gratia (Somente pela Graça): "Pois pela graça de Deus vocês são salvos, por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto ninguém pode se orgulhar de tê-la." (Efésios 2:8-9); "Essa escolha se baseia na graça de Deus e não no que eles fizeram. Porque se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça." (Romanos 11:6)
- Solus Christus (Somente Cristo): "Jesus respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém pode chegar até o Pai a não ser por mim." (João 14:6). "A lei foi dada por meio de Moisés, mas o amor e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo." (João 1:17)
- Sola Scriptura (Somente as Escrituras): "Pois toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar a verdade, condenar o erro, corrigir as falhas e ensinar a maneira certa de viver." (II Timóteo 3:16) A descoberta e o livre acesso às Escrituras, que Lutero traduziu para o alemão, foi a chave que abriu a porta da Reforma, tornando-as acessíveis e compreensíveis a toda pessoa que tivesse interesse em descobrir as belezas e as verdades nelas contidas.
- Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus): "Por meio de Jesus Cristo, o nosso Senhor, louvemos o único Deus, o nosso Salvador, a quem pertencem a glória, a grandeza, o poder e a autoridade, desde todos os tempos, agora e para sempre! Amém!" (Judas vers. 25); "Que todos louvem a Deus, o Senhor, porque ele é superior a todos os outros deuses! A sua glória está acima da terra e do céu." (Salmo 148:13)
Assumir os pilares da Reforma hoje, quinhentos anos depois, é o grande desafio para as igrejas hoje. Nossas agendas cheias, novas tecnologias e novas teologias tendem a nos desviar do cerne do cristianismo. Quando a fé, a graça, o Cristo, as escrituras e o louvor somente a Deus deixam de ser prioridade em nossas comunidades, abrimos espaço para cultos e celebrações que mais parecem entretenimento ou show, com louvores alienantes, com pastores e pastoras que falam o que queremos, e não o que precisamos ouvir, promovendo mercantilismo de produtos e a teologia da prosperidade.
Devemos ser "Igreja Reformada, sempre se Reformando", valorizando o sacerdócio universal de homens e mulheres em nossas comunidades, em todos os ministérios; devemos ser "Igreja Reformada sempre se Reformando", promovendo a Unidade em meio à Diversidade, diversidade essa tão presente em nossa sociedade, e que