Estrutura da Comunhão Anglicana
ESTRUTURA DA COMUNHÃO ANGLICANA
Pertencemos à Comunhão de trinta e sete Igreja autônomas, todavia interdependentes, em mais de 160 países e, praticamente, em todos os continentes.¹ O propósito desta série de quatro encontros consiste em descrever esse rela - cionamento das Igrejas em Comunhão, que se denomina de Anglicana. A estrutura é, conforme Aurélio,
- Disposição e ordem das partes de um todo.
- Disposição e ordem de uma obra literária; composição.
- O conjunto das partes de uma construção que se destinam a resistir a cargas; armação, esqueleto, arcabouço.
Então, a estrutura sugere mais a articulação do esqueleto da Comunhão do que sua vida e missão e da comunhão propriamente dita. Por isso, é bom que tratemos do que os anglicanos entendem sobre si mesmos como uma comu - nhão de Igrejas.
O fenômeno global da Comunhão Anglicana surgiu, pela primeira vez, na 1ª Conferência de todos os bispos angli - canos diocesanos em Lambeth, residência oficial do Arcebispo de Cantuária em 1867. Porém consta que a tomada da consciência da existência da Comunhão e o uso do termo da Comunhão Anglicana remontam a 1850 e 1851 quando houve a celebração do centésimo qüinquagésimo aniversário da sociedade missionária SPG (que, posterior- mente, com a fusão de uma outra sociedade denominada de United, veio a se denominar de USPG) com a presença dos bispos americanos. Desde essa época, a Comunhão de Igrejas regionais autônomas, porém unidas por um laço comum de afeição, de história, de padrão de liturgia, de doutrina, de politia é conhecida interna e externamente co- mo a Comunhão Anglicana. Praticamente, em cada uma das reuniões da Conferência, e do Conselho Consultivo Anglicano, desde a década de setenta houve certa reflexão sobre a comunhão. O último documento que tratou da questão da comunhão mais sistematicamente foi o Relatório da Comissão Inter-Anglicana de Doutrina e Teologia reunida no Seminário de Virgínia e publicada recentemente.
Conforme esse documento, o poder inspirador, motivador da Comunhão para a Missão, em meio à diversidade que a caracteriza e as tensões internas e externas que suas Igrejas enfrentam é o dom gracioso da comunhão do Deus Triuno. A Comissão crê que esse dom nasce da própria natureza do Deus Triuno como comunhão e relação pessoal, que permite a Igreja viver a unidade que favorece a diversidade. Essa comunhão se encontra na base da relação en - tre as Igrejas e se expressa em vínculo de afeição para a missão. E o documento reitera que esse dom que se reverte em missão e ministério é confiado a todo o povo de Deus pelo Batismo.
Então, a comunhão é, por um lado, experiência de vida, de relação e de atividade das Igrejas e, por outro, uma ex- periência mediada, por meio de liturgia, de ensino, de serviço e de ministério, e, por fim, padrão de relacionamento das Igrejas. Todas essas mediações e estruturas têm sua dimensão histórica, cultural e social. No entanto, são medi - ações indispensáveis para nós e apontam para o futuro e se tornam eficaz na medida em que nos apoiamos no poder do Espírito Santo. Como já foi insinuado anteriormente, o modo como as Igrejas da Comunhão Anglicana se relaci - onam veio à visibilidade por volta da 1ª Conferência de Lambeth (1867). Esse padrão de estrutura de relacionamen- to, segundo os anglicanos, remonta à experiência da Igreja Primitiva e ao desenvolvimento da Igreja nas Ilhas Bri- tânicas passando pela Reforma do século XVI. Com efeito, os século XVI e XVII têm sido considerado período formativo do anglicanismo atual. Tanto assim que uma coletânea de estudos publicada em 1968 sob o título de Es- tudo do Anglicanismo começa com a História do Anglicanismo, da Reforma ao Século XVIII e do século XVIII a 1968. Então, é a Comunhão Anglicana uma Igreja que surgiu da Reforma? O penúltimo capítulo da autoria de J.Ro- bert Wright nos mostra que a entidade Igreja inglesa (anglicana) existiu canonicamente desde século VII. É claro que Robert Wright está se referindo à existência da Igreja em nível canônico. De fato, como ele faz indicações, as descobertas arqueológicas têm recuperado os restos de mosaicos e batistério e autorizam a afirmar que o início do cristianismo britânico remonta a II, III e IV séculos. Essa é a dimensão histórica, porém, em nível de doutrina e
1 1978 24 Províncias 396 dioceses 48 milhões de batizados 1988 27 Províncias 444 dioceses 1996 37 Províncias 70 milhões
2 "Anglicanism, Ecclesia Anglicana, and Anglican: An Essay on Terminoly” IN: SYKES,S. & BOOTY,j.(ED) The Study of Angli- canism, pp.424-29. Sobre o cristianismo nas Ilhas britânicas ver MOORMAN, John R.H. A History of the Church in England, Part. I, Período romano e saxônico. Tertuliano (208) refere-se à parte da Inglaterra inacessível aos romanos e ainda não conquistada por Cristo. Em 238, Orígenes fala na existência dos cristãos na Inglaterra. No Concílio de Arles estiveram presentes três bispos ingle- ses: de York, Londres e Caerleon. Em Nicéia (325) nenhum inglês esteve presente, porém Atanásio afirma que a Igreja inglesa es- tava de acordo com a decisão de Nicéia. O primeiro mártir reconhecido é Albano, italiano residente na Inglaterra, onde hoje está a Igreja de Santo Albano, e deu asilo a um presbítero perseguido pelos soldados romanos. Trocando as vestes, Albano foi morto no lugar do perseguido. Calcula-se que o martírio aconteceu por volta de 304.
prática, todos os autores da coletânea e, também, os documentos, digamos, "oficiais” estão de acordo que o anglica - nismo remonta ao tempo dos apóstolos. Por isso, várias Conferências de Lambeth têm dito que a Igreja anglicana é católica reformada e reformada católica.
O cristianismo na Inglaterra anterior ao envio de Agostinho por parte do Gregório Magno em 597 se caracteri - zou como a Igreja sob perseguição. Com a retirada dos romanos, outros povos europeus invadiram sucessivamente e com eles vinham o paganismo professado por eles. O cristianismo teve de se refugiar nas regiões montanhosas de Gales. Nesse período desenvolveu-se o cristianismo céltico, cujas figuras destacadas foram S.Patrício, S.Columba e o centro missionário era a abadia na Ilha de Iona (Escócia). Era um tipo de cristianismo que se diferia do cristianis mo romano. Com a chegada de S.Agostinho a Cantuária o cristianismo céltico foi marginalizado, e viveu situações tensas, mas a Igreja da Inglaterra começou a aprender a conviver com diferença. Na homilia de G.Carey a experiên - cia anglicana da unidade na diversidade remonta a essa história e ao Novo Testamento.
Essas experiências anteriores à Reforma do século XVI contribuíram para o que se denominou de Reforma in- glesa e a formação do anglicanismo contemporâneo. É claro que o anglicanismo pós-Lambeth 1867 não pode ser compreendido sem referência ao desenvolvimento das Províncias ou das Igrejas Regionais fora da Inglaterra, a par - tir da Igreja nos Estados Unidos e outras que vieram a se formar em trinta e sete Igrejas autônomas, porém interde - pendentes da Comunhão Anglicana.
Como essas Igrejas em mais de 160 países estão relacionadas umas com outras? Como compartilhamos a ex- periência da comunhão do Deus Triuno em tão diferentes situações sem que as divergências não separem uma das outras?
Há um padrão de mediações compartilhado por essas trinta e sete Igrejas. De modo sintético os anglicanos po- dem apontar para esse padrão por meio do que se denomina de Quadrilátero de Chicago-Lambeth. A comunhão com o Deus Triuno e conseqüente comunhão uns com os outros vêm, se expressam, e se articulam por meio do tes - temunho da experiência da comunhão nas Escrituras, do testemunho sintetizado dos Credos, celebrado nos Sacra- mentos da Iniciação cristã e da Eucaristia, do testemunho e exercício do Ministério histórico (Episcopado históri - co). Se se desejar sintetizar mais esses quatro pontos, pode-se dizer o padrão do Livro de Oração Comum. Ai estão simbolizados o Quadrilátero, ou Escrituras, Tradição e Razão, Doutrina, Culto e Disciplina. Todos eles são agrupa- mentos de um modo ou de outro das “mediações” da comunhão do Deus Triuno proclamado no Evangelho, aceito e afirmado (resposta) com ação de graças nos Credos e na Eucaristia voltada para o serviço. É preciso dizer, tam bém, que essas mediações, embora enraizadas no dom da comunhão do Deus Triuno, não caíram do céu, mas toma- ram a sua forma, sua carne como o próprio Verbo feito carne, em contextos históricos e culturais.
Acrescentem-se a estas mediações e vínculos o Cíclo Anglicano de Orações, e Companheirismo de Missão e encontros ocasionais entre as dioceses e Províncias.
Quem, que organismo supervisiona as trinta e sete Igrejas da Comunhão Anglicana?
Na Conferência de 1930 os bispos disseram: há dois tipos de organização eclesiástica predominantes hoje, o de go- verno centralizado e do de autonomia regional. Nós pertencemos ao segundo tipo juntamente com as Igrejas Orto- doxas do Oriente. Assim, não existe uma pessoa nem um organismo centralizado. Existe a figura pessoal do Arce- bispo de Cantuária como símbolo pessoal de unidade, porém sem qualquer poder de jurisdição fora da Igreja da In - glaterra. Ele é Primaz de honra, o primeiro entre os iguais. Existe o colegiado episcopal, que é a Conferência de Lambeth, mas sem nenhum poder sobre as Igrejas. Há um Conselho Consultivo Anglicano, mas sem nenhum poder sobre as Igrejas. Mais recentemente, após 1978, foi criado um outro organismo: Encontro dos Primazes. Mas este, também, não tem nenhum poder sobre as Igrejas. Todos esses organismos anglicanos internacionais são de natureza consultiva.
O que se pode dizer nesta altura é que as trinta e sete Igrejas se mantém relacionadas em plena comunhão por meio de consulta sobre o padrão de mediações.
INSTRUMENTOS DE UNIDADE
- Arcebispo de Cantuária
- Conferência de Lambeth
- Conselho Consultivo anglicano
- Reunião dos Primazes
Comissões, Grupos de Trabalho, Redes (Networks) inter-anglicanas (Consultas)
- Doutrina e Teologia
- Missão
- Liturgia
- Relações Ecumênicas
- Inter-religioso
- Mulheres
- Família
- Justiça e Paz
- Refugiados e Migrantes
- Juventude
Todos eles fazem relatórios ao Conselho Consultivo Anglicano.
ESTRUTURAS DA COMUNHÃO ANGLICANA II
As trinta e sete Igrejas se mantém em relação de interdependência umas com outras por meio de instrumentos de unidade não legislativos e mais consultivos. Instrumentos sugerem alguma coisa mecânica, mas são recursos pa- ra alcançar o amadurecimento, e aprofundamento da comunhão em diversidade sem criar divisões. Esses recursos foram enumerados:
- Arcebispo de Cantuária
- Conferência de Lambeth
- Conselho Consultivo anglicano
- Reunião dos Primazes
Com a finalidade de qualificar a posição do Arcebispo de Cantuária podemos iniciar com a Conferência de Lambeth, porque esta Conferência reconheceu a posição “senior" da Sé de Cantuária e vem afirmando a posição de honra, de ser o “primeiro entre os pares".
A Conferência de Lambeth desde a sua primeira reunião em 1867 tem sido o encontro dos bispos de todos os diocesanos para a consulta cuja agenda e cujos temas são previamente elaborados pelos representantes bispos das regiões com os assessores. Apenas alguns sufragâneos e assessores são convidados. O nome Lambeth vem do nome da residência do Arcebispo de Cantuária localizada em Londres. Cantuária é a cidade onde se localiza a Catedral do Arcebispo. Essa consulta ocorre a cada dez anos.
O crescimento das Igrejas nacionais e dioceses e polêmicas doutrinárias da época e, em particular, em torno da deposição do Bispo Colenso de Natal como herege estavam exigindo que os bispos das Igrejas originárias da Igreja da Inglaterra se reunissem em algum tipo de encontro. Os bispos da Igreja canadense solicitaram ao Arcebis - po de Cantuária que ele convocasse um sínodo. Houve consulta entre vários bispos por meio de correspondência. O Arcebispo de Cantuária aconselhou-se com a Câmara dos Bispo e dos Presbíteros da Inglaterra. Houve oposição a tal idéia. Mas, por fim, foi convocada uma conferência de caráter consultivo e não legislativo de todos os bispos di- ocesanos.
Por isso foi dito:
Nunca foi contemplado que devêssemos assumir as funções de Sínodo Geral de todas as Igreja em plena comunhão com a Igreja da Inglaterra e tomar sobre nós o direito de decretar cânones que obrigassem os representados. Propomo- nos simplesmente discutir as matérias de interesse pratico e pronunciar sobre o que julgamos ser convenientes nas re - soluções que sirvam como orientações seguras.³
Esse caráter consultivo foi reiterado nas sucessivas conferências, mas ressaltado na conferência de 1920. Con- forme a Encíclica da Conferência:
3 Lambeth Conference 1867-1930, SPCK 1948 citado pelo Relatório de Virginia
A Conferência de Lambeth não vindica para si o exercício de quaisquer poderes de controle. Ela representa muito mais o princípio espiritual e cristão de lealdade para com a comunhão. As Igrejas nela representada são inde - pendentes, mas independentes com a liberdade cristã que reconhece a limitação que a verdade e o amor impõem sobre as partes. As Igrejas não são livres para ignorar a comunidade (fellowship) entre elas... A conferência é comunhão (fellowship) no Espírito Santo.⁴
A comunhão implica em mente comum para viver e conviver com diferenças. A Conferência de Lambeth en- tende que a forma, o processo e recursos para corresponder à comunhão do Deus Triuno encontram-se na consulta em torno de temas de natureza teológica, pastoral, missionária, humana e social, que preocupam as Igrejas.⁵
A mensagem dirigida a toda a Igreja pela Conferência de 68, por exemplo, situa a renovação da Igreja na teo - logia, na missão, ministério e unidade (ecumenismo) no contexto em que a divisão do mundo entre os privilegiados e miséria, a validade das instituições, e formas tradicionais de pensamento são cada vez mais questionadas.
Nesse contexto, foram tratadas temas como se segue.
A) Linguagem da Fé RENOVAÇÃO NA FÉ
- Natureza da linguagem teológica
- Debate sobre Deus
- Finalidade Cristo
- Diálogo com outros credos (religiões e credos)
- Variedades de Descrença
- Confessar a fé hoje
B) Experiência da Fé
- Psicologia da fé
- Fé e Sociedade
- Espiritualidade e Fé
- Fé e Cultura
C) Fé e Sociedade Secular
- Apreciação da Sociedade Secular
- Moralidade Internacional hoje
- Sociedade Tecnológica
- Urbanização e Metrópoles
RENOVAÇÃO DA IGREJA EM SEU MINISTÉRIO
O relatório começa com um preâmbulo dizendo que “este mundo em que vivemos é o mundo de Deus. Todo o po- vo de Deus existe como Igreja para, para o mundo e não para ela mesma. Esta é a essência do ministério da Igreja". E continua com a exposição do modelo do ministério nasce do auto-esvaziamento daquele que veio para servir e não para ser servido. E falando no lugar da liderança na Igreja, que consiste em "equipar toda a Igreja para o minis - tério, para que toda a Igreja, por todos os seus membros leigos que servem no mundo em sua vida diária, seja um sinal eficaz e instrumento do propósito de Deus para renovar toda a criação”. E o relatório inicia com o Ministério do Laicato, porque os participantes da Conferência acreditam que, no laicato, está o maior recurso espiritual e hu- mano de toda a Igreja. Daí prosseguiremos para as considerações sobre o ministério ordenado, que se ocupa da edi - ficação de toda a Igreja para o Ministério".
Ai se pode notar em operação aquele "slogan" que veio do início da década de sessenta, do Congresso Anglicano: a Igreja que vive para si morre por si mesma. E os bispos conferiram uns com os outros a importância da ênfase da missão do laicato voltada para o mundo. E isso requeria a renovação da Igreja e de suas estruturas. E aqui podemos salientar alguns pontos.
Em função da visão do papel do laicato na vida da Igreja é preciso pensar na Igreja como uma comunidade que sus - tente homens e mulheres ( na época ainda usava o termo genérico, homens) em sua fé e missão. “A congregação lo - cal (paróquia ou missão) Deve examinar-se criticamente para descobrir se é capaz de ir ao encontro das exigências do século XX".
Para tanto, a "Eucaristia deve ser vivenciada focalizando o trabalho do laicato no mundo em ação de graças, oferen - da e reconciliação". A Igreja deve orar na sua liturgia por todos os que trabalham, especialmente, por aqueles que se encontram em áreas de tensão e de tomada de decisão". Como e como indivíduos, a Igreja local deve cuidar de sua vizinhança, das necessidades da comunidade e dos indivíduos e devem atuar como agentes de Deus em com
4 p.14 5 Ver trabalho xerocado 1ª Conferência de Lambeth. Ai foram esboçados os temas discutidos nas Conferência até 1958.
partilhar o Evangelho reconciliador de Cristo com todos os que venham se relacionar”. Por isso, a Igreja local deve ser um lugar onde os leigos possam refletir com outros os problemas semelhantes e fortalecer a fé e compreensão. E o relatório prossegue dizendo que a Conferência está consciente de que a função vital do laicato que procurou descrever “não está plenamente refletida nas estruturas de nossa Igreja" E ai reconhece que o relatório carece de percepções que os leigos poderiam ter dado se estivessem com eles. E “ainda há muitos lugares, em níveis paroqui - ais, diocesanos e provinciais, onde, na escolha do pároco e do bispo, os leigos não tomam parte nas decisões”. Dai a recomendação da resolução 24 que diz: a Conferência recomenda que nenhuma questão principal na vida da Igreja seja decidida sem a plena participação do laicato na discussão e na decisão. E isso desembocou na criação do Con - selho Consultivo Anglicano composto de bispos, presbíteros e leigos. É nessa Conferência que também separou a admissão à comunhão da Confirmação, isto é, a ligação Batismo - Eucaristia e Confirmação como renovação dos votos batismais com a imposição das mãos.
A) Ministério do Laicato
- Leigos em Missão
- Leigos na Sociedade
- Leigos em Ministério
B) Formas de Ministério Ordenado
- Presbiterado
- Voluntários e Ministérios de tempo parcial
- Diaconato
- Mulheres e Presbiterado
C) Episcopado
- Natureza do Episcopado Anglicano
- Supervisão e Disciplina
RENOVAÇÃO DA IGREJA NA UNIDADE
A) Padrão da Unidade
- Unidade Cristã e Unidade Humana
- Princípios de União
- Intercomunhão numa Igreja Dividida
B) Revisão de Esquemas
- Esquemas Atuais
- Relação da a Igreja Católica romana
- Episcopado, Colegialidade e Papado
- Relação com a Igreja Ortodoxa Oriental
6 "O princípio subjacente na colegialidade é que a vocação, responsabilidade e autoridade apostólicas são dadas a todo o corpo ou colégio dos bispos. Cada bispo tem, portanto, uma responsabilidade tanto como membro desse e quanto pastor principal na sua dio- cese. Como pastor principal exerce a supervisão direta sobre o povo entregue ao seu cuidado. E como membro do colégio comparti- lha com seus irmãos bispos pelo mundo todo o cuidado pelo bem estar de toda a Igreja. É evidente que, dentro do colégio, haja um presidente. Esta função é exercida por quem ocupa a cadeira da Sé de Cantuária."... O senso renovado de colegialidade do episco- pado é especialmente importante quando a maioria dos esquemas de unidade estão sendo desenvolvidos em nível nacional, porque a colegialidade do episcopado ajuda a ressaltar o caráter mundial e universal da Igreja". Como resultado da ênfase colocada sobre a colegialidade no Vaticano II o status dos bispos na Igreja Católica Romana foi, em grande medida, enaltecido, ainda o ensino do Vaticano I sobre a infalibilidade, jurisdição imediata e universal do Papa permaneça impossível. Não podemos aceitar esse ensino comumente entendido hoje. Todavia, ainda está sendo esclarecida e sujeita ao desenvolvimento a relação entre o colegiado episco- pal e o Papa."
C) Comunhão Episcopal Mundial 7
- Papel da Comunhão Anglicana nas Famílias da Cristandade
Fazendo um breve resumo, pode-se dizer que, após reiterar os itens do Quadrilátero, descreve a Comunhão Angli- cana como uma
Família de Igrejas autônomas, diversificada e flexível, ligada pelos laços de história e de tradição e em comunhão vi- va com a Sé de Cantuária, o ponto focal de nossa comunhão.
Em face à majestade e amor de Deus, sentimo-nos freqüentemente chamados prosseguir a via média não como con- cessão, como uma percepção positiva da verdade multifacetada. Chegamos a valorizar a razão e tolerância e ser inclu- sivos mesmo com prejuízo da lógica estrita. Estamos preparados a viver tanto em companheirismo quanto em tensão com aqueles que, em alguns pontos, se diferem de nós.
A organização das Igrejas Anglicanas em Províncias nos ajudam a compreender a nossa inclusividade e a ter uma vi- são mais ampla das riquezas de nossa comunhão.⁸
Nesse relatório, percebem-se duas tendências: a fusão com outras Igrejas em Igrejas Unidas, e a manutenção da co- munhão com a Sé de Cantuária como marca permanente do anglicanismo. Hoje o ideal do anglicanismo desapare- cer como tal e dar lugar a uma Igreja Unida já é algo do passado. No Conselho Consultivo Anglicano reunido em Panamá esse ideal foi contestado no discurso do Secretário Geral e houve uma boa repercussão.
- Estruturas Inter-Anglicanas
Algumas organizações foram surgindo durante o interregno das Conferências, por exemplo, Conselho Consulti- vo sobre a Estratégia Missionária, designação de um Secretário Geral da Comunhão Anglicana, Responsabilidade Mútua e Interdependência no Corpo de Cristo, Ciclo de Oração para o Uso Anglicano. Tudo isso desembocou no Conselho Consultivo Anglicano.
- Idéia Positiva de uma Comunhão Episcopal
A Conferência de 1978 concentrou-se mais nas questões em torno da vida, missão da Igreja, sem deixar de tratar da estrutura da Comunhão Anglicana. Por isso, a Conferência foi dividida em três grandes seções:
Adoração e Missão A Igreja como sinal para o mundo PARA QUE A IGREJA? Alguns problemas específicos sobre a Igreja e Sociedade Família Diversidade de Culturas e Questionamento das Culturas Ética no mundo em mudança Sexualidade: masculina e feminina Homossexualidade Tecnologia e vida humana Cristianismo e Política Direitos Humanos e Dignidade do homem e da mulher O Espírito Santo e a Igreja hoje
- Bispos A.Autoridade e governo sinodal Autoridade das Escrituras e da tradição Autoridade moral Autoridade do ofício POVO DE DEUS E SEU MINISTÉRIO Autoridade dos conselhos dos eruditos e expertos Lei da Igreja B. Função do Bispo na Igreja C. Treinamento dos bispos
7 Houve, em 1964, a convite do Arcebispo de Cantuária, a reunião dos Primazes e outros bispos das Igrejas da Finlândia, Igreja Re - formada Episcopal da Espanha, Igreja Lusitana de Portugal, Igreja Síria Mar Toma, Igrejas Vetero Católicas, Igreja Católica Inde - pendente de Filipinas, Igreja Católica Nacional Polonesa da América, Igreja do Sul da India e Igreja da Suécia. 8 Pp. 141-42
- Ministério Ordenado
- Crescimento e compreensão dos ministérios auto-sustentados
- Ordenação das Mulheres ao Presbiterado
- Ministério dos Leigos
- Ministério Urbano e Rural
- Formação Ministerial
- Ministério no contexto de outros credos e religiões
A Comunhão Anglicana em relação com a Igreja mundial
- Natureza e organização da Comunhão Anglicana
- A base da unidade anglicana
Diante da questão há uma base doutrinal distintamente anglicana? A Conferência responde que o que é distinta- mente anglicana é o modo de desenhar, delinear elementos doutrinais compartilhados com outras Igrejas. E diga-se de passagem que o bispo teólogo de Ely (Cambridge, na Inglaterra) tem escrito sobre ser Anglicano sem embaraço, e ali ele fala na teologia distintamente anglicana. Na verdade o que ele afirma é a existência da eclesiologia angli - cana propriamente dita.
A Conferência afirmou que as declarações doutrinais estão, primeiramente, nos Livros de Oração Comum, nas Constituições das Igrejas e nos documentos da Conferência de Lambeth. A comparação mostra a semelhança que se descreve como a dos membros de uma família. A semelhança implica não na uniformidade, mas nos laços sufi- cientemente fortes para mantê-las unidas em meio às pressões e tensões. Reitera os pontos expostos no Quadriláte- ro.
B. Companheiros em Missão C. Evangelho e Mordomia D. Estruturas da Comunhão Anglicana
- A Comunhão Anglicana na Oikoumene Conselho Mundial de Igrejas Diálogos Bilaterais
CONFERÊNCIA DE LAMBETH DE 1988
A Conferência de 88 organizou o temário em torno de quatro pontos
- Missão e Ministério
- Preocupações teológicas e pastorais
- Relações Ecumênicas
- Cristianismo e Ordem Social
O temário foi mais claramente organizado em relação às conferências passadas, mas todas elas trataram temas e preocupações que se enquadrariam nesses quatro pontos. A prática das Igrejas da Comunhão Anglicana hoje co - mo na área da elaboração da liturgia (1958), da participação na Eucaristia (admissão das crianças à comunhão, a re - lação direta do Batismo com a Eucaristia), do incentivo do ministério leigo, do experimento de ministério ordenado de tempo parcial, da ordenação feminina (a conversa iniciou em 68 e acentuada em 88) foi conversada, conferida, consultada. Em outras palavras, as Igrejas da Comunhão Anglicana por meio do seu episcopado fizeram consultas sobre as possibilidades e limites da proclamação, interpretação e tradução do Evangelho em devidos contextos cul - turais e sociais e conseqüente restruturação da vida e missão da Igreja. A ordenação feminina, por exemplo, foi en- tendida como parte da interpretação do Evangelho em face às novas percepções do que ocorre no mundo. Não se pensou na "conquista dos direitos”, mas na aceitação dos dons do ministério que o próprio Cristo ressurrecto confe - re à sua Igreja. É verdade que a consulta e a prática passaram por momentos de tensão e risco de racha na Comu- nhão Anglicana, mas foi, sem dúvida, consulta e prática da diversidade sem quebra de unidade. E essa prática tem boa recepção e está na fase de avanço. Tanto assim que, na próxima Conferência de 98, haverá a presença e partici - pação de episcopisas mesmo que sejam poucas. Uma delas participa do Grupo preparatório dos temas.
Como já foi dito várias vezes a Conferência não tem poder legislativo. Mesmo as resoluções não são obrigató- rias. E pode-se duvidar da circulação eficiente de todos os resultados das Conferências. No entanto, o comporta mento das Igrejas não está longe do que foi conversado, acordado nas Conferências e, posteriormente, divulgado. É claro que o Conselho Consultivo Anglicano que se reúne a cada três anos discute, examina e amplia os temas da Conferência dando sugestões para serem discutidas na próxima Conferência ou nas reuniões dos Primazes. Diga-se de passagem que esses três organismos são, também, autônomos, porém interdependentes. Não há relação de subor- dinação. Como já foi dito todos eles são de caráter consultivo. Todos eles são presididos pelo Arcebispo de Cantuá -
ria. Como quadro de referência a Conferência de Lambeth tem tido maior peso. Ai está a expressão anglicana do Episcopado em colegialidade.
A estruturação desses organismos nos mostra o que o anglicanismo tem dito sobre sua identidade em nível in - ternacional como uma organização eclesial decentralizada. Em poucas palavras, não há nenhum pronunciamento do presidente da Conferência ou da Reunião dos Primazes, ou do Conselho Consultivo Anglicano, do qual não se pos- sa discordar. Também, há plena liberdade de acatar o pronunciamento como uma orientação de uma Província as- sim o desejar. Tudo isso parece projetar uma imagem de Igreja fraca, sem rumo definido, sem uma liderança forte como muita gente quer ver. Mas se examinarmos a figura da imagem serva na Bíblia e comunidade inclusiva (ver a nota 6 acima) a forma eclesial decentralizada corresponde à identidade "professada” pelo anglicanismo. É verdade que, em meio à diversidade, há quem advogue a forma mais centralizada e não faltam vozes nesse sentido, mas su- as vozes não foram ouvida pela maioria.
ESTRUTURA DA COMUNHÃO ANGLICANA III
ARCEBISPO DE CANTUÁRIA
O arcebispo de Cantuária é o foco de unidade anglicana em pessoa. Por isso, ele é um dos instrumentos de unidade. Uma das ocasiões em que esse instrumento se torna visível é a presidência dele da Conferência de Lambe- th, do Conselho Consultivo Anglicano, do Encontro dos Primazes. Essa função tem sua pequena história. E, 1867 ο Arcebispo e Cantuária fez a convocação da Conferência à pedido da Comunhão Anglicana em formação. E até em 1897 houve a convocação por parte dele a pedido da Comunhão. Na Conferência de 1897 ficou decidido na resolu - ção 2, a pedido da Conferência que ela fosse convocada a cada dez anos.
Faz parte da compreensão da identidade anglicana estar em comunhão com a Sé de Cantuária, con - forme o Relatório da Comissão Doutrinal e Teológica (Relatório de Virginia)
Que significa estar em comunhão com a Sé de Cantuária? Não há uma resposta simples. Na observação de su - as funções descritas em várias ocasiões (Conferência, Conselho Consultivo) é possível delinear os contornos dessa “comunhão" Por exemplo, a Conferência de 68 descreveu a função do Arcebispo de Cantuária desta forma:
Dentro do Colégio dos Bispos é evidente que deva haver um presidente. Na Comunhão Anglicana essa po- sição é mantida, atualmente, pelo ocupante da Sé histórica de Cantuária, o qual goza da primazia de honra e não de jurisdição. Essa primazia se descobre em seu envolvimento, de modo particular, no cuidado de to- das as Igrejas, o qual é compartilhado com todos os bispos.
Na Conferência de 78 foi dito o que se segue com relação à base da unidade anglicana:
Sua unidade é fundada pessoalmente na relação de lealdade de cada uma das Igrejas com o Arcebispo de Cantuária, o qual é reconhecido livremente como foco de Unidade.
O Relatório de Virginia comenta que estar em comunhão com a Sé de Cantuária é um sinal visível de que os bispos e suas Igrejas fazem parte da Comunhão Anglicana. A parte que cabe ao Arcebispo é aquela função acima referida, o cuidado de todas as Igreja compartilhado por todos e ressalta que a sua tarefa “não consiste em comandar, mas em reunir a Comunhão. É isso que se entender por servir a Comunhão.
Essa função é salientada nas recomendações que a Comissão Inter-Anglicana sobre a Ordenação Feminina fez. Na época em que o Relatório dessa Comissão apareceu sob o título de Relatório Eames, a Igreja da Inglaterra não ha- via decidido pela Ordenação Feminina, e a primeira episcopisa foi eleita nos Estados Unidos. É claro que a ECUSA enviou o convite às Igrejas. Porém houve bispos das Igreja que ainda não haviam resolvido a ordenar as mulheres desejosos de participar na sagração e houve a participação de alguns deles.
Convém fazer citação um tanto longa desse relatório, porque é relevante para a compreensão do papel do Arcebispo de Cantuária.
O ARCEBISPO DE CANTUÁRIA
(73) O que disse nas diretrizes sobre todos os bispos aplica-se, também, ao Arcebispo de Cantuária. Em vista do seu papel como o foco de unidade da Comunhão Anglicana, o Arcebispo de Cantuária tem de ser sensível às posições de todas as Províncias, ao determinar sua resposta às situações particulares.
(74) 1. É reconhecido que o Arcebispo