Ethos Anglicano e Movimento Carismático: um estudo etnográfico de suas relações
Ethos Anglicano e Movimento Carismático: um estudo etnográfico de suas relações
por Cristiany Morais de Queiroz
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA
Ethos Anglicano e Movimento Carismático: um estudo etnográfico de suas relações
Cristiany Morais de Queiroz
Dissertação de Mestrado Orientadora: Profª. Drª Roberta Bivar Carneiro Campos
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco para obtenção do grau de mestre em Antropologia.
Recife – 2004
Ethos Anglicano e Movimento Carismático: um estudo etnográfico de suas relações
Cristiany Morais de Queiroz
Dissertação aprovada pela Banca Examinadora composta pelos professores:
_________________________________ Profa. Dra. Roberta Bivar Carneiro Campos (Orientadora)
Profa. Dra. Maria Aparecida Lopes Nogueira (Membro Titular Interno)
Prof. Dr. Paulo Donizéti Siepierski (Membro Titular Externo)
Recife, 29 de abril de 2004.
À minha mãe, sempre presente e amiga nos momentos mais importantes da minha vida. Eu te amo!
AGRADECIMENTOS
A Deus, primeiramente, por ter permitido a concretização desta vitória.
À minha família: meu pai Demócrito Albuquerque, minha mãe Gilda Morais, meu irmão Gustavo Morais e Bob Luís Júnior (o nosso mascote). Todos esses compartilharam comigo momentos de ansiedade, dúvida e felicidade. Eles significam o sentido da minha vida.
Às minhas queridas avós: vovó Gilda e vovó Maria (in memoriam), pelo amor e dedicação que sempre tiveram comigo.
À querida Supervisora Clínica e amiga Sônia Duarte, por ter sido psicanalista e antropóloga.
À minha Professora Orientadora Roberta Campos, pelo seu compromisso e dedicação como professora, pois ela sempre esteve muito presente na elaboração da minha pesquisa.
À Professora Cida Nogueira, pela sua amizade, paciência e sabedoria na teoria sobre memória.
À querida Professora Marjo De Theije, pelo seu incentivo e carinho em ter me acompanhado nos primeiros passos da pesquisa de campo.
Ao Professor Roberto Motta, por ter me transmitido algumas dicas importantes para o meu trabalho.
Ao Professor Bartolomeu Tito, pelo seu carinho e pela sua indicação em algumas leituras.
A todas as funcionárias do Departamento de Antropologia (Ana, Ademildes e Mirian); dedico também um agradecimento especial à minha amiga Regina, que sempre me deu muita força, atenção e carinho. Você é muito especial, Regina!
A todos os colegas e professores do mestrado, especialmente a Isabela e Homero, pois compartilhamos bons momentos.
À minha querida analista Ana Beatriz Zuanella Cordeiro, pela sua capacidade de me dar força, estímulo e inspiração para crescer.
Ao casal amigo Marcela (a Maga de sempre) e Benes Sales. Vocês são muito importantes na minha vida!
À amiga Mônica Lamb, uma querida amiga que sempre está perto de mim, me incentivando a crescer;
Às amigas dona Luíza, Léia, Angélica e Heleniza, que torcem pelo meu sucesso.
Aos pastores amigos que contribuíram para a minha pesquisa: Sérgio Andrade, Edmar Pimentel, Frede, Fábio, Miguel Uchôa e ao bispo Dom Robinson Cavalcanti.
À família Paterson (dona Kathleen, Anthea e Marion) por ter me fornecidas valiosas informações sobre a Igreja Anglicana.
Ao Dr. Paulo Roberto Medeiros, pela sua atenção em contribuir com alguns dados para o meu estudo.
A Ana Lima, professora e coordenadora do Curso de Letras da UFPE, que me tratou com muito carinho no momento da entrevista.
Ao colega Eduardo Vieira, pelas suas críticas construtivas na correção e formatação deste trabalho.
Às amigas Edi Guaraná e Kátia Vasconcelos, pelas informações e carinho que sempre dedicam a mim.
Ao casal de amigos que amo muito, Jairo e Mafalda Calife, que sempre me acolheram com bastante carinho.
A todos os meus interlocutores, anglicanos e carismáticos, que se dispuseram a me ajudar nesta caminhada.
À CAPES, por ter financiado esta pesquisa.
ÍNDICE
RESUMO_____________________________________________________________ 11 ABSTRACT __________________________________________________________ 12 INTRODUÇÃO _______________________________________________________ 13 Metodologia ......................................................................................................................22 O Campo............................................................................................................................24 Métodos e Técnicas ..........................................................................................................25 Dificuldades e Estratégias ...............................................................................................27 Análise dos Dados ............................................................................................................30
CAPÍTULO 01 – PANORAMA DO ANGLICANISMO ______________________ 31
1.1 A Era Elizabetana e a Via Média .............................................................................32
CAPÍTULO 02 – AS MUDANÇAS OCORRIDAS NA IGREJA EPISCOPAL
ANGLICANA: UMA RECONSTRUÇÃO _________________________________ 44 2.1 Uma Conversa com a Família Paterson ..................................................................46 2.2 Encontro com o Dr. Paulo Roberto Medeiros .........................................................64
CAPÍTULO 03 – O DOM DE SER CARISMÁTICO ________________________ 82
CAPÍTULO 04 – FOGO, ESPÍRITO SANTO, UNÇÃO CURA E EMOÇÃO: DE
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA À IGREJA EPISCOPAL CARISMÁTICA ______________________________________________________ 109 4.1 Minhas primeiras impressões etnográficas e o Catch the Fire ..............................110 4.2 Como os anglicanos entram em contato com o Espírito Santo ..............................125 4.3 Sobre o “descansar ou repousar no Espírito” e a “gargalhada santa”..................135 4.4 Quem são os Episcopais Anglicanos..........................................................................140 4.5 Quem são os Episcopais Carismáticos......................................................................169
CONSIDERAÇÕES FINAIS_____________________________________________ 185 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA _______________________________________ 193 ANEXOS ____________________________________________________________ 199
LISTA DE FOTOGRAFIAS
Foto 1 – “Combatentes Anglicanos da II Guerra Mundial” ........................................52 Foto 2 – “Anthea nos braços de sua mãe” .....................................................................53 Foto 3 – “Cerimônia das Bandeiras” ..............................................................................58 Foto 4 – “Primeira Igreja Anglicana do Recife”............................................................60 Foto 5 – “Paulo Garcia no Grupo Familiar” .................................................................86 Foto 6 – “Casamento de Pelé” .........................................................................................88 Foto 7 – “Atual Paróquia do Bom Samaritano”............................................................92 Foto 8 – “165 anos do Anglicanismo no Brasil”.............................................................96 Foto 9 – “Ex-Catedral Anglicana disputada na Justiça”..............................................102 Foto 10 – “Sinalização da Igreja Carismática”..............................................................104 Foto 11 – “Convite para a Sagração de Bispo”..............................................................105 Foto 12 – “Dom Paulo Garcia”........................................................................................106 Foto 13 – “Os Anglicanos clamam pelo Espírito Santo”...............................121 Foto 14 - “Descansar ou Repousar no Espírito Santo” ................................................122 Foto 15 – “Jovens Anglicanos repousam no Espírito Santo” .......................................123 Foto 16 – “Oração pelo Espírito Santo” .........................................................................128 Foto 17 – “Membro da Igreja Anglicana no CVC”.......................................................153 Foto 18 – “Aos 76 anos, dona Naíse foi alfabetizada” ...................................................154 Foto 19 – “Campanha pela Paz” .....................................................................................155 Foto 20 – “Combate à AIDS” ..........................................................................................156 Foto 21 - “Pr. Sérgio (camisa branca e jeans) a caminho de uma obra social em Umburetama (PE)”...........................................................................................................157 Foto 22 – “Os Anglicanos lavam a ‘Nova Igreja”..........................................................159 Foto 23 – “A Limpeza dos Banheiros”............................................................................160 Foto 24 – “O Cuidado com o Jardim” ............................................................................161 Foto 25 – “Camiseta: Prefira o que é Certo, não o que é Oportuno” ..........................162 Foto 26 – “Dom Robinson na Catedral Anglicana do Espinheiro” .............................163 Foto 27 – “Os jovens ajudam no Ofertório” ..................................................................163 Foto 28 – “Carismáticas no Brechó”...............................................................................177
Foto 29 – “O Grupo Carismático numa reunião do ‘grupo familiar’” .......................178 Foto 30 – “A Feira de Oportunidades”...........................................................................179 Foto 31 – “Apresentação Teatral” ..................................................................................179
RESUMO
Esta pesquisa constou de um estudo etnográfico sobre o cisma da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, que ocorreu em setembro de 2002. Abordei as características do anglicanismo e a reconstrução da sua memória, além das mudanças ocorridas após a chegada do Pr. Paulo Garcia. Apontei para os sinais de uma religiosidade popular: unção, manifestação de cura, efervescência emocional e contato com o Espírito Santo. Nesse caso, a Igreja Anglicana mudou seu ethos tradicional atraindo um maior número de fiéis, o que a colocou na atual arena de um mercado religioso. Com a divisão do anglicanismo, a Igreja foi dividida em dois grupos: os que se mantiveram na liturgia anglicana e os que aderiram à resolução do líder religioso Garcia. Ambos os grupos apresentaram perfis peculiares, os anglicanos como os mais “racionais” na maneira de cultuar a Deus e os carismáticos como sendo os mais “avivados”, com mais testemunhos de cura em suas vidas.
ABSTRACT
This work is an ethnographic study about the division of the Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, which happened in September of 2002. I analyze the characteristics of the Anglicanism, the reconstruct its memory and the alterations that occurred after the Pr. Paulo Garcia arrived. According to the research, there are indications of a popular religiosity: unction, cure manifestations, emotional effervescence and contact with Holy Spirit. In such case, the Anglican Church modified its traditional ethos, attracted more followers and became part of the actual religious market. After the division, the Anglican Church was divided in two groups: the group that stayed in the Anglican liturgy and the group that followed the religious leader Garcia. Both groups have different profiles: the Anglicans are more “rational” when they worship God and the Charismatics are more “vivified”, with more cure testimonies in their lives.
INTRODUÇÃO
Ao lançarmos um olhar para o atual campo religioso brasileiro, dois fatos nos chamam a atenção de imediato: 1) a transformação introduzida nele pelo fim da hegemonia — quase que monopólio — católica; e 2) a diversidade de igrejas, num cenário que é possível afirmarmos sobre a existência de “Igrejas para todos os gostos”.
À medida que os anos vão passando, as pesquisas a respeito do crescente número de evangélicos aumentam e as estatísticas se dispõem na direção de uma significativa redução da hegemonia Católica Romana, ou seja, na direção de um processo de descatolização (Motta, 1993). Aparentemente, parece-nos uma situação de irreversível declínio: em 1980, cerca de 88% da população nacional se declara “católica”; em 1991, 80%; e em 1994, 74,9%. Certas particularidades regionais seriam mais impressionantes ainda. Citemos, por exemplo, o Rio de Janeiro, a cidade “menos católica” do Brasil, onde não mais de 59,3 % se declaram católicos. Em situação parecida, encontram-se também os estados de Minas Gerais e Ceará (Sanchis, 1999).
Em qualquer passeio que realizarmos pelas ruas das grandes cidades brasileiras, especialmente pelas favelas e periferias, ficaremos impressionados com a quantidade de igrejas evangélicas. São templos, pontos missionários, galpões, prédios antigos, estádios de futebol, cinemas desativados e até portinhas de cubículos, que não há quem diga que ali funciona uma igreja.¹ O importante mesmo para esse povo é exercer a sua fé, ter um local
¹ Não se trata de uma crítica pejorativa da minha parte. São apenas comentários que enfatizam a diversidade religiosa no Brasil, colocando tais Igrejas numa concorrência por fíéis.
para compartilhar com os irmãos os obstáculos e as dificuldades, mas também como Deus tem agido para modificar as suas vidas. O interessante nisso tudo é que os 26 milhões de evangélicos brasileiros têm à disposição um vasto programa de escolhas para se filiar. Em muitas dessas igrejas, é possível observar um discurso corrente: “Você está achando que a sua vida não tem jeito, que já teve de tudo e não tem mais nada? É com você que Deus está falando.” Atraídas por esse discurso, multidões congregam-se nos mais diferentes espaços.
Os fiéis parecem não mais se fixar em antigas e tradicionais religiões; eles procuram algo que lhes desperte emoção e, ao mesmo tempo, pragmatismo com relação aos problemas do cotidiano: desemprego, alcoolismo, saúde etc. Em outras palavras, a promessa de felicidade deve ser imediata, pois o que importa é estar bem aqui e agora. Com a expansão do neopentecostalismo, a velha “mensagem da cruz” — discurso teológico que pregava o sofrimento terreno do cristão — caiu por terra e, sem qualquer compadecimento, foi sumariamente soterrada (Mariano, 1999).
Qual seria o “diagnóstico social” dessa realidade multireligiosa? Como afirma Brandão (1994), podemos falar de uma crise das instituições tradicionais produtoras de sentido. As Igrejas Protestantes Históricas e a Igreja Católica têm se manifestado no sentido de aderir a uma nova forma de cultuar a Deus, que é através do misticismo, de um “retorno do sagrado”: com manifestações de cura, louvores emocionantes, testemunhos chocantes etc. O misticismo passa a ser retomado para evitar a evasão de fiéis. Todo esse comportamento voltado para uma religiosidade “mágica” é utilizado como proposta das igrejas diante de um mercado de bens e serviços religiosos. Alguns autores entendem que a lógica passa a ser a mesma de uma empresa secular: seduzir o fiel com um produto atraente
e oferecer um bom serviço. Como afirma Ari Pedro Oro (1999), “os depoimentos de fiéis na TV e no rádio são o apelo de marketing para demonstrar a eficiência dos serviços”.
Um dos primeiros autores a mencionar na literatura sociológica sobre a lógica de um mercado religioso foi Peter Berger. Para ele, a causa desta lógica mercadológica está relacionada ao pluralismo religioso:
“A característica-chave de todas as situações pluralistas, quaisquer que sejam os detalhes de seu pano de fundo histórico, é que os ex- monopólios religiosos não podem mais contar com a submissão de suas populações. A submissão é voluntária e assim, por definição, não é segura. Resulta daí que a tradição religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada no mercado. Ela tem que ser ‘vendida’ para uma clientela que não é mais obrigada a ‘comprar’. A situação pluralista é, acima de tudo, uma situação de mercado. Nela, as instituições religiosas tornam-se agências de mercado e as tradições religiosas tornam-se comodidades de consumo. E, de qualquer forma, grande parte da atividade religiosa nessa situação vem a ser denominada pela lógica da economia de mercado.” (Berger, 1985: 149)
Para Guerra (2000), há uma transformação do campo religioso em mercado religioso:
“Os níveis de consciência entre organizações religiosas implicam, inclusive, na adoração de práticas semelhantes às utilizadas por empresas seculares para disponibilizar seus produtos para o consumo no mercado e o crescente poder da demanda dos consumidores na determinação da dinâmica dos discursos religiosos e das práticas a eles relacionadas.” (Guerra, 2000: 01)
Campos (1997), ao realizar sua pesquisa na IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), demonstrou que no empreendimento religioso-organizacional reúne-se “templo”,
“teatro” e “mercadoria” simultaneamente, e que, por isso mesmo, é fundamental o investimento nos serviços de marketing.
A partir do momento em que os símbolos religiosos passam a ser encarados como mercadorias, percebemos um afastamento do ethos tradicional a favor de novas posturas religiosas, mas que, pelo menos, garantirão a sobrevivência de determinada linhagem de crença. É preciso aderir a novas estratégias de cultuar o divino, visto que a erudição, o racionalismo, a fixação nas velhas e “inquestionáveis” tradições e a fidelidade ao padre ou ao pastor protestante não mais respondem aos anseios dos novos devotos brasileiros. Assim comenta Mendonça (1994):
“Com as mudanças sociais que temos presenciado, não somente no Brasil mas também nos Estados Unidos, sociedades em grande efervescência, com mudanças sociais através de migrações internas e externas, é muito difícil uma instituição conseguir manter dogmaticamente os seus sistemas de sentido. É especialmente difícil porque, enquanto os teólogos começam a tomar conhecimento das coisas, a repensar as questões, a escrever, a fazer com que isto chegue aos Concílios para ser aprovado e comunicado, a coisa já mudou de novo. No mundo acadêmico, dizemos que, para acompanhar as coisas, temos que ler os periódicos e, para perdê-las de vista, lemos livros... Assim, ocorre que as pessoas que estão sujeitas a essas mudanças tremendas e rápidas destroem o sistema de sentido que elas gradativamente vão conseguindo formar. É necessário um sistema religioso que seja, em primeiro lugar, claro e, em segundo lugar, assimilável e mutável rapidamente.” (Mendonça, 1994: 48)
Percebo como se cada fiel brasileiro representasse um verdadeiro “laboratório” social e um protótipo das transformações que vêm acontecendo no nosso campo religioso. Transformações que coincidem com o processo de autonomização dos indivíduos em relação às instituições religiosas. Esta realidade se expressa através dos conceitos de
desinstitucionalização ou desregulação religiosa propostas por Hervieu-Lérger (1993). Neste sentido, haveria uma prioridade da experiência subjetiva sobre a organização religiosa. Ao questionarmos algumas pessoas, é comum encontrarmos um passado religioso bem diversificado, com uma busca incessante por religiões capazes de atender aos mais diversos anseios. Neste sentido, cito Brandão (1994):
“O religioso alternativo brasileiro é também um andarilho. Faz parte de sua agenda um deslocamento permanente entre formas de trabalhar a espiritualidade, em nome de uma busca sempre renovada de experiências místicas. Nada mais coerente, portanto, que a inconstância e a volubilidade. A devoção a crenças e rituais se dá, geralmente, sob o signo da experimentação. Itinerário indefinido, montado na travessia, o errante da nova era caminha solitário, raramente se une a procissões e, mais raramente ainda, identifica a sua viagem a uma cruzada. Em certo sentido, deseja o repouso de uma adesão definitiva, de vínculos estáveis. Mas tende a reconhecer, na própria busca, a essência de sua utopia e a natureza de sua devoção. O pêndulo da religiosidade, grosseiramente homogeneizada sob o rótulo precário ‘alternativa’, oscila entre movimento e repouso; solidão e comunhão; experiências fragmentárias e idealização da unidade e do pertencimento.” (Brandão, 1999: 30)
Segundo Prandi (2003), a partir da oferta de serviços que a religião é capaz de oferecer aos consumidores religiosos, através de determinadas estratégias, faz com que as religiões mais tradicionais revejam seus antigos valores. Porém, não significa que essas religiões estejam preparadas para a nova realidade imposta, pois em algumas instituições religiosas só algumas facções é que renovam seus comportamentos, como é o caso da Renovação Carismática Católica.
O comportamento do fiel brasileiro deixou de ser fixo, rígido e leal, na medida em que a filiação a uma determinada igreja escapa dos moldes tradicionais, pois já não se tem a
preocupação em se manter uma postura imóvel dentro de uma determinada tradição familiar, mas os fiéis passam a optar livremente pela “linha religiosa” que melhor se insere na sua demanda, no seu perfil, ou seja, na sua subjetividade. Como ressaltou Birman (2002):
“... A inclusão social pela via religiosa deixou de ser dada e passou, conseqüentemente, a ser objeto de construções e de estratégias variadas.” (Birman, 2002: 63)
Para Hervieu-Lérger (1993) as antigas e tradicionais instituições religiosas não mais se apresentam como eficientes para responder aos anseios dos novos fiéis. A memória é utilizada como um recurso que vai ativar uma “linha crente” ligando um passado mítico ao presente, ou seja, é como se a memória fosse um instrumento de “retorno às origens”. Mas, o conceito de tradição não é estático, imóvel e “acabado”; ele é dinâmico, ele acompanha a mobilidade sócio-cultural (Borheim, 1997). A religião que não se apresentar de acordo com esta dinâmica está fadada a morrer.
Sendo assim, realizei uma contextualização da Igreja Episcopal Anglicana neste ambiente macro-religoso da sociedade brasileira, haja vista a minha percepção, a partir de uma experiência etnográfica. Parece que este recrutamento (para a solução de qualquer ordem de problemas) dos fiéis não é privilégio, apenas, das Igrejas Neopentecostais, na medida em que pude identificá-lo numa denominação de tradição histórica e com adeptos da classe média e alta. Percebi uma aproximação do comportamento religioso anglicano com a religiosidade popular, com uma ênfase maior nos aspectos “mágicos” e emocionais. O que, conseqüentemente, acarretou na quebra de uma “uniformidade” e na formação de
dois grupos religiosos (anglicanos e carismáticos), expressando a atual demanda dos fiéis, que é de religiões mais “avivadas”. Este trabalho apresentou, essencialmente, uma transformação no jeito de ser dos fiéis anglicanos, demonstrando o caráter dinâmico da cultura e seu enraizamento no contexto sócio-histórico.
Portanto, de acordo com tais observações, apresentei um estudo sobre o Movimento Carismático na Igreja Anglicana. Parti das seguintes questões: Quais os fatores que fizeram o Pr. Paulo Garcia (da Igreja Anglicana) se vincular a uma Igreja Episcopal Carismática? A que devem essas transformações? Antes de haver a ruptura (setembro de 2002) do líder Garcia, eu percebia uma polifonia no espaço da Catedral Anglicana, convivendo lado a lado: os mais “fervorosos” e os mais racionais na maneira de se portar na crença religiosa. Porém, com o cisma, mais questões fomentaram o meu problema: Quem são os fiéis que preferiram aderir aos posicionamentos de Paulo Garcia? Quem é o grupo que fez a escolha de permanecer no Anglicanismo? Qual a postura de ambos os grupos em relação à divisão da comunidade? E quanto aos líderes religiosos de ambos os grupos, o Pr. Paulo Garcia e o bispo anglicano Dom Robinson Cavalcanti, como seus discursos se manifestam, em termos de uma liturgia carismática e anglicana, respectivamente?
Para responder a tais questões, dividi este trabalho em 4 capítulos. No primeiro capítulo, contemplei, de maneira geral, as características mais importantes da Igreja Episcopal Anglicana: a Via Média e a Compreensividade. Observei que estas foram muito relevantes na mudança de seu ethos, visto que, ao mesmo tempo em que dialoga de maneira ecumênica com outras religiões, também proporciona a introjeção de comportamentos mais “avivados” e, conseqüentemente, a vinculação do Pr. Paulo Garcia à Igreja Episcopal Carismática.
No segundo capítulo, com a finalidade de abordar o tema da memória e apresentar as transformações da Igreja Anglicana após a chegada de Paulo Garcia, realizei uma entrevista com a família Paterson e outra com o atual psicanalista Paulo Medeiros. Ambos os testemunhos me apoiaram na reconstrução do anglicanismo no Recife. Como enfoque teórico, utilizei algumas discussões de Halbwachs (memória coletiva) e Bergson (a importância da imagem-lembrança) e, em Hervieu-Lérger, pontuei que a crise da tradição religiosa na modernidade é a crise de sua transmissão e do passado como referência para explicar o presente.
O objetivo do terceiro capítulo é apresentar, de maneira geral, alguns dados da vida do Pr. Paulo Garcia. Uma de suas principais características é o dom de congregar, de reunir uma grande quantidade de fiéis na igreja.Tal perfil coincide com o de vários líderes carismáticos que conseguem expandir o número de evangélicos no país. O carisma do líder Garcia se mostrou revelador para o crescimento do Anglicanismo no Nordeste.
Finalizo esta pesquisa com o quarto capítulo, onde relatei as minhas primeiras impressões etnográficas a partir do Catch the Fire e suas repercussões na vida dos membros anglicanos.Também abordei o cisma da Catedral Anglicana e a divisão desta em dois grupos: os anglicanos e os carismáticos. Ambos os grupos se mostraram semelhantes quanto ao perfil sócio-religioso, ao perfil sócio-econômico e à trajetória de afiliação. Contudo, o que os diferenciou foi à maneira como eles se posicionaram em relação ao cisma e, devido às suas experiências de vida, alguns se vincularam à Igreja Carismática, pois esta se mostrou mais “eficiente” para atender às suas demandas de avivamento, cura, unção e fervor emocional.
Metodologia
É importante ressaltar que, neste trabalho, não há um capítulo que aborde apenas as questões teóricas, visto que ela está diluída ao longo do trabalho. Os dados etnográficos foram inspirados e pontuados teoricamente dentro de cada capítulo. A partir da exposição geral da divisão deste trabalho, aprofundarei sobre os temas da memória, do poder dos líderes carismáticos, da polifonia entre os anglicanos e os carismáticos e da experiência de êxtase ao entrar em contato com o Espírito Santo.
Diante dos temas abordados nestes capítulos, compreendo que a Igreja Anglicana faz parte desta realidade competitiva. Não se trata de um plano elaborado pelos líderes religiosos para se manterem no poder e para impedirem que suas igrejas “morram”, mas acredito que se trate de uma atmosfera natural, de um movimento social que vem, de certa maneira, desestabilizando as antigas e tradicionais instituições religiosas, não só entre os anglicanos, mas também entre os batistas, os presbiterianos, os católicos romanos etc.
A minha primeira experiência etnográfica se realizou no Grupo de Oração Magnificat, na Paróquia de Santa Cruz na Boa Vista, sob a coordenação da professora Marjo De Theije. Essa pesquisa fazia parte de um projeto maior, cujo nome era A Caminhada do Louvor. A minha participação se deu durante o segundo semestre do ano de 2001. Este estudo tinha por finalidade avaliar o alcance e a audiência da mídia católica, comparando-as com o sucesso do movimento carismático católico. A participação nesta pesquisa me deu um importante suporte teórico e metodológico para realizar o meu estudo na Igreja Episcopal Anglicana. O contato com os jovens deste grupo carismático, suas
trajetórias de afiliação, a maneira como se relacionavam, o momento da conversão e o contato com o Espírito Santo me ajudaram a formular algumas questões sobre o “movimento carismático no Anglicanismo.”
Sendo assim, além de haver realizado leituras etnográficas de diversos autores da área, fui a campo com bastante entusiasmo e desejo de ser antropóloga. Mas isso não significava o sucesso na pesquisa, pois o campo, muitas vezes, se mostra como uma “caixa de surpresas” e é preciso ficar atento aos imprevistos. Fui aprendendo que a intuição e a sensibilidade para analisar os fatos não dependiam apenas do arsenal técnico. Ao tomar conhecimento da obra de Malinowski (Os Argonautas do Pacífico Ocidental), eu queria observar os nativos com o mesmo olhar e eficácia da época, mas logo o campo foi me apresentando uma realidade bem diferente da que se colocava nos estudos etnográficos clássicos. A criatividade e a sensibilidade são requisitos básicos para quem se propõe a conhecer sobre o “outro”. Para Silva (2000) a magia de ser antropólogo é construída no próprio campo de pesquisa entre nativos e pesquisador, quando cada realidade se olha mutuamente e vai sendo possível construir as alianças, os acordos, as trocas e as compreensões.
Oliveira (2000) nos chama atenção para refletirmos em cima das principais “faculdades do entendimento”, ou seja, dos atos do ser humano: o olhar, o ouvir e o escrever. Ele acredita que tais atos são inerentes ao modo de conhecer das ciências sociais. É com esses atos que logramos construir o nosso saber. Assim, o autor procura indicar que, enquanto no olhar e no ouvir “disciplinados” (a saber, disciplinados pela teoria), realiza-se nossa percepção, será no escrever que o nosso pensamento será exercitado de forma mais cabal, como produtor de um discurso que seja tão criativo como próprio das ciências
voltadas à construção da teoria social. O trabalho do antropólogo se coloca nesta direção, pois ele é essencialmente dividido em dois momentos: 1) a coleta dos dados que envolvem o contato com os nativos, a observação dos seus modos de vida e a escrita no diário de campo e 2) este é o momento de analisar os dados e realizar as conexões com os outros estudos. É um momento de organização das informações que foram colhidas e de dialogar com as teorias que melhor se aproximam do nosso campo.
Geertz (1998) também nos oferece uma valiosa contribuição nessa perspectiva. Ele parte da idéia de separar e avaliar duas etapas bem distintas na investigação empírica: na primeira, ele procura qualificar a posição do antropólogo “estando lá” (being there), isto é, vivendo a situação de estar no campo; e na segunda, está em foco a experiência de viver, melhor dizendo, trabalhar “estando aqui” (being here), bem instalado no seu gabinete urbano. Nesses termos, o olhar e o ouvir seriam parte da primeira etapa, enquanto o escrever seria parte da segunda.
Baseando-se na compreensão das idéias de tais autores, apresento as minhas impressões no campo, levando sempre em consideração a relação dialógica entre pesquisador e pesquisado.
O Campo
A escolha da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade se deu a partir de dois motivos principais: 1) esta Igreja sempre se mostrou como mais representativa em termos do número de fiéis ou de características mais relevantes, como rápido crescimento, popularidade, um líder bastante conhecido e os seus movimentos “avivados”; e 2) o fato de
fazer parte desta comunidade como membro, o que me possibilitou também ser aceita como pesquisadora (retomarei este item mais adiante).
Em literatura sobre a Igreja Anglicana, Aquino (2000) apresenta esta como uma das igrejas que mais cresce na América Latina: a quantidade de movimentos religiosos, o amor dos membros pela sua comunidade e a alta rotatividade de fiéis. Esses foram motivos marcantes que me chamaram atenção para um “olhar antropológico.” Como referiu um dos meus interlocutores:
“Se você for estudar mesmo aquela Igreja, ela já dá uma tese mesmo. Por quê? Porque ela se renova a cada ano, com alta rotatividade.”
Antes de acontecer o cisma (setembro de 2002), o meu campo se limitava ao Templo da Rua Carneiro Vilela; mas, após a ruptura do Pr. Paulo Garcia, com a divisão da comunidade anglicana, o meu campo também foi dividido em duas partes: na Carneiro Vilela (rua da Igreja Anglicana), eu convivi com os carismáticos; e, durante algum tempo, os anglicanos foram abordados na Paróquia do Bom Samaritano, em Boa Viagem, mudando-se só depois para a Rua Alfredo de Medeiros no Espinheiro.
Métodos e Técnicas
Com o objetivo de realizar os meus primeiros contatos com o campo de pesquisa, realizei, inicialmente, observações assistemáticas. Essas aconteceram na época do Catch the Fire e durante os cultos carismáticos, nos meses de setembro e outubro de 2001. Numa