História da IEAB
CONFELÍDER 24-28 de julho de 2002
A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
Seja em nossa paróquia, seja em nossa família, seja na sociedade, a vida nos desafia a embarcar numa fascinante jornada de descobrimentos, que é o estudo da história. Quais são os principais acontecimentos que influenciaram nossa caminhada? Quem são as pessoas que trilharam o caminho antes de nós? Qual a importância que isso tinha para eles? Como isso influenciou a história que vivemos hoje? No estudo destas questões, começamos a perceber que a história não é um objeto finito para ser perpetuado em monumentos ou guardado e esquecido em poeirentas prateleiras. Estudar história é uma forma de procurar compreender aquilo que nunca termina. Novas informações, mudanças de perspectivas e o acúmulo de fatos significam que o panorama histórico está sempre em constante transformação. É uma matéria viva e como tal capaz de nos alimentar em nossa presente jornada.
A história da igreja e das paróquias geralmente focaliza as realizações de seus líderes e as ações de sua organização e estrutura. A maior parte dos membros da igreja ou de uma comunidade paroquial tem pouca relação com os bispos, sínodos ou reuniões oficiais. Essas pessoas simplesmente vivem sua fé na comunidade que freqüentam. Seja como for, nossa experiência como membros da Igreja acontece primeiro na comunidade local. Por isso, é importante escrever a história da paróquia, porque ela nos ajuda a perceber quem somos, como nos vemos e como somos vistos pelos outros. Saber de onde viemos nos ajuda a perceber onde estamos hoje e para onde desejamos ir no futuro.
Escrever a história da igreja e de uma paróquia local ajuda a descobrir e conhecer suas raízes, os diferentes eventos e as pessoas que formaram a vida daquela comunidade ao longo dos anos. Sem dúvida, será uma história de realizações e lutas, de celebrações e desafios. Ao registrar os eventos do passado,
- Somos lembrados das semelhanças e diferenças entre a história da paróquia local e a história da comunidade maior do povo de Deus.
- Começamos a descobrir os vínculos entre as nossas experiências e as experiências daqueles que vieram antes de nós.
- Fazemos parte da história viva da igreja.
- Recolhemos a memória coletiva da comunidade paroquial.
- Registramos as ações, os episódios e os eventos que formaram o padrão distintivo da vida da comunidade.
- Examinamos as relações da paróquia com a sociedade a que pertencemos e com o mundo, as diferentes atitudes, opiniões, crenças, realizações e convicções que a paróquia abraçou ao longo dos diferentes períodos de sua história.
- Descobrimos nesse processo um passado de grande complexidade e diversidade, mas também um passado do qual podemos aprender muito sobre quem somos e como conseguimos chegar até aqui. (“Escrevendo a História de Nossas Paróquias”, Projeto Memória, 2001, pp.10-11).
HISTÓRIA E MISSÃO
“O ato de contar histórias e organizar nossa memória em forma descritiva é, por definição, um ato sagrado. Contamos histórias porque elas preenchem o silêncio imposto pela morte. Contamos histórias porque elas nos salvam” (James Caroll),
Notas preparadas pelo Rev. Oswaldo Kickhofel, Executor do Projeto Memória, para o seminário sobre Missão e História, na VI Conferência de Lideranças (CONFELÍDER), realizada de 24 a 28 de julho de 2002, no Recanto Betânia, em Embu Guaçú, São Paulo, SP.
I. MISSÃO
Jesus enviou os doze apóstolos a pregar o reino dos céus. Depois designou outros 70, enviando-os dois a dois a todas as cidades e lugares. Ao despedir dos discípulos, conclamou-os novamente para o trabalho missionário: “Ide e fazei discípulos". Mas a aparente derrota cruz e os dias que se seguiram ao domingo da Páscoa haviam produzido incertezas e temores. O Pentecostes, porém, foi o poder transformador dos apóstolos, passando a experimentar um novo vigor: "Todos os dias acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo convertidos”.
Mas a história mostra que o início não foi fácil. Estevão foi o primeiro mártir. As perseguições se sucedem, mas os seguidores de Jesus não abjuram. Ao contrário, por onde passaram deixaram a semente do evangelho. Não só na Judéia e Samaria, mas também na Ásia Menor, organizam as primeiras comunidades, sem esquecer a estrada de Damasco, em que Saulo perseguidor se transformou em Paulo defensor. É dessa época o início do Cristianismo em Roma, onde Paulo encontrou uma comunidade que, 300 anos depois, vai influenciar o império romano. Na história da missões mundiais, ninguém sobrepujou Paulo, sendo ele, de fato, o apóstolo dos gentios. Suas viagens missionárias são ricas em lances de heroísmo e de fé. Onde quer que pregava deixava organizada uma igreja. Já no segundo século, tinham sido organizadas mais de 90 comunidades. Data também dessa época a implantação da fé cristã na Inglaterra. O cristianismo se espalha no Ocidente.
314 - Concílio de Arles, no sul da França 596 - Santo Agostinho, em Cantuária 1534 - Henrique VIII 1607 - Robert Hunt celebra a primeira comunhão na América 1620 - Chegam os peregrinos no Mayflower ; fundam um novo estado 1776 - Independência dos Estados Unidos. A igreja se organiza 1784 - Sagração de Samuel Seabury 1823 - Criado o Seminário de Virginia
II. HISTÓRIA
1. Primórdios
PERÍODO COLONIAL
1500 - Descobrimento por Pedro Álvares Cabral. 1530 - Portugal decide tomar posse da terra, nomeando Martin Afonso de Souza como primeiro governador geral. 1534 - O Brasil é dividido em capitanias hereditárias. 1555 - Primeira presença protestante no Brasil: huguenotes franceses no Rio de Janeiro com a malograda expedição do vice-almirante Nicolau Durant de Villegaigon. 1624 - Primeira investida holandesa na costa brasileira, permanecendo na Bahia durante um ano, sendo expulsos pelos portugueses. 1630 - Calvinistas holandeses tomam Recife e Olinda. Ficam lá por 24 anos sob o governo de Maurício de Nassau. 1805 - Henry Martin. Um contato. Foi o primeiro anglicano a pisar o solo brasileiro. Em viagem para a Índia, seu navio aportou durante 15 dias em Salvador, Bahia, onde manteve contato com padres, falando em francês e latim. Encantado com as belezas naturais do país, escreveu em seu diário: “Quem será o ditoso missionário que irá trazer o nome de Cristo a esta região ocidental? Quando será este país libertado da idolatria e do Cristianismo espúrio? Cruzes há em abundância, mas quando será aqui anunciada a doutrina da Cruz?"
PERÍODO IMPERIAL
1808 - Chega ao Brasil Dom João VI e toda a corte real portuguesa. 1810 - Tratado comercial entre Portugal e Inglaterra concede liberdade religiosa aos ingleses residentes no Brasil. Início das capelanias inglesas. 1819 - Os ingleses constróem a primeira capelania, a Christ Church, no Rio. 1822 - Independência do Brasil. 1824 - Chegam ao Brasil os primeiros imigrantes alemães. 1853 - William Cooper. Primeira tentativa. Primeiro missionário enviado pela igreja americana. Um episcopaliano residente no Rio de Janeiro, provavelmente membro da colônia americana, pediu que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos enviasse um missionário para o Brasil. O pedido foi atendido pela Sociedade Missionária da Igreja Episcopal, que enviou em 1853 o rev. William Cooper, que foi o primeiro missionário oficialmente enviado ao Brasil. Tendo naufragado o navio em que viajava no mar das Caraíbas, Cooper desistiu da missão e voltou para os Estados Unidos. Pouco se sabe sobre sua vida e ministério. 1855 - Chega o missionário inglês Robert Kalley, funda a primeira igreja protestante no Brasil, no Rio de Janeiro, não obstante a forte oposição da hierarquia romana local. 1859 - Os presbiterianos inauguram sua primeira missão, mas só três décadas depois conseguem organizar a igreja em definitivo. Os batistas tentam se estabelecer no Rio de Janeiro, mas sem sucesso. 1860 - Richard Holden em Belém do Pará. 1862 - Richard Holden em Salvador, Bahia. Seamen Mission em Santos. 1864 - Richard Holden no Rio de Janeiro. Torna-se darbista. Chegou aqui em 1860 e permaneceu até 1872. Trabalhou em Belém no Pará, em Salvador na Bahia e no Rio de Janeiro. Foi a menos fracassada das missões. Entretanto, seu temperamento forte e polêmico e o contexto de oposição que encontrou no Brasil inviabilizaram sua pretensão de estabelecer a Igreja Episcopal no Brasil. Iniciou seu trabalho em Belém do Pará. Era escocês, de pais anglicanos, mas só se converteu aos 21 anos, quando uma experiência mística e enfermidade o trouxeram de volta à igreja. Estudou teologia e português nos Estados Unidos. Traduziu o LOC para a nossa língua. Foi enviado ao Brasil pelo Departamento de Missão da Igreja Episcopal e pela Sociedade Bíblica Americana.
Dois razões levaram Holden a escolher Belém do Pará. A primeira era que havia um posto de distribuição de Bíblias na cidade, que pertencia a um capitão de navio americano, chamado Robert Nesbitt. Era um importante ponto de contato para iniciar seu trabalho. A segunda era que havia uma expectativa de que o Rio Amazonas fosse aberto à navegação internacional.
Holden encontrou em Belém intensa hostilidade para pregar o evangelho. Tentou criar uma comunidade permanente, mas não teve sucesso. Usou a imprensa para difundir suas idéias, escrevendo artigos polêmicos que provocavam a ira romana, especialmente do bispo de Belém, Dom Antônio de Macedo Costa. Viajava pelos afluentes do Rio Amazonas, vendendo bíblias e panfletos evangélicos nas vilas e cidades ribeirinhas.
Em 1862, mudou-se para Salvador, Bahia, onde também usou a imprensa para polemizar. Essa liberdade durou pouco, porque a oposição, como ele mesmo escreveu, “estava tentando de qualquer maneira arranjar uma acusação pela qual eu pudesse ser posto na cadeia”. Escapou de três tentativas de morte. Devido a sua forte personalidade de pregador polêmico, aos poucos começou a encontrar dificuldades no próprio Departamento de Missão da Igreja Episcopal, que havia patrocinada sua vinda ao Brasil. Em 1864, aceitou um convite do Dr. Robert Kalley para trabalhar no Rio de Janeiro como pastor da Igreja Congregacional Fluminense, por quatro anos. Como poeta, escreveu mais de uma dezena de hinos. Dois deles (164 e 165) constam em nosso hinário de 1962. Mais tarde tornou-se darbista *. Faleceu em Lisboa, em 1886. Tinha 58 anos. Com ele encerram-se duas mal sucedidas tentativas de implantar a igreja anglicana no Brasil. O sucesso só vai chegar duas décadas e meia depois, em 1890, com a chegada de James Watson Morris e Lucien Lee Kinsolving.
1876 - Chegam os metodistas americanos. 1882 - Os batistas se estabelecem definitivamente na Bahia.
- Darbismo – movimento religioso fundado em 1830, na Inglaterra, por John Nelson Darby, em oposição a fraca espiritualidade da Igreja Estabelecida. Darby e seus seguidores acreditavam que todos os crentes são sacerdotes, não havendo necessidade do ministério ordenado. Rejeitavam qualquer tipo de denominação eclesiástica. O único vínculo entre os crentes era a fé, o amor cristão e o Espírito Santo. Eram também conhecidos como "Os Irmãos Livres” ou “Os Irmãos de Plymouth", onde o movimento havia começado. No Brasil, as atividades desse movimento começaram em 1878, no Rio de Janeiro, sob a liderança de Richard Holden. Os darbista chamavam os seus templos de Casas de Oração. Segundo a revista Ultimato (setembro-outubro de 2000, n° 266, p. 10) o movimento darbista conta atualmente com 700 casas de oração e 200 missionários no país.
PERÍODO REPUBLICANO
1889 - Proclamação da República. Termina o período imperial e com ele desaparece também o sistema do padroado * e a doutrina do regalismo **. Separado da Igreja, o Estado proporciona ampla liberdade religiosa. Essa nova situação foi providencial para o início do trabalho dos missionários. O início da história da Igreja Episcopal sinalizava a presença divina que, embora invisível, de algum modo interferiu no curso de sua história, ajudando a concretizar sonhos e esperanças. O Brasil passava por um processo revolucionário civil tão profundo que resultou em mudanças igualmente profundas na vida política, social e religiosa do país. A passagem do regime imperial para o regime republicano foi um fato político que teve decisiva importância para o estabelecimento de nossa igreja no Brasil. Durante o império, a Igreja Católica Romana detinha o monopólio da vida religiosa no país. Não era permitido realizar cultos não católicos romanos e, quando isso era possível, havia severas restrições, como foi o caso das capelanias inglesas. Somente os casamentos realizados pela Igreja de Roma eram reconhecidos. Era tão grande o domínio romano que um dos principais fatores que contribuiu para a eclosão da revolução republicana foi o desejo de separar a Igreja do Estado. Não estaria Deus preparando o caminho para os missionários? Seja como for, esta pergunta nos induz a fazer outras perguntas:
Por que os missionários vieram? Que visão teológica eles tinham? Qual era o núcleo central da mensagem que traziam? Por que vieram fazer missão em terras papistas?
O Brasil era um país católico romano. Os brasileiros já possuíam uma forma de Cristianismo. Haveria necessidade de fazer missão num país já cristianizadas? Para os missionários a resposta era afirmativa, porque a igreja dominante não havia conseguido cristianizar o Brasil durante 400 anos de dominação religiosa. As classes letradas estavam tomadas pelo ceticismo e pela indiferença. As massas populares, iletradas e subalternas, estavam absorvidas num sistema de supersticiosa idolatria, aproximando-as mais do antigo paganismo do que da verdadeira religião de Jesus Cristo. Havia também uma razão teologia: o progresso material não era elemento indicativo seguro da presença do reino de Deus. A sociedade e o mundo são maus, porque os indivíduos não são bons. Os indivíduos sãos pecadores. Sendo assim, era preciso regenerar os indivíduos, para que a sociedade fosse transformada. Essa teologia era bastante
- Padroado – direito de proteção adquirido por quem fundou ou doou uma igreja; direito de conferir benefícios eclesiásticos; direito de criar e prover cargos eclesiásticos. O padroado favorecia amplamente o governo no sentido de influenciar os membros do clero. Havia evidente diminuição da autoridade da Igreja: ministros de Estado davam ordens a bispos; bispos eram impedidos de se afastarem de suas dioceses sem autorização; livros de teologia eram submetidos a exame; emendas de estatutos dos cabidos religiosos, regulamentos da jurisdições dos vigários capitulares, autorizações ou proibições de noviciados e outras questões eclesiásticas só adquiriam validade depois de submetidas ao beneplácito do poder civil. ** Regalismo - doutrina segundo a qual era lícito ao Estado interferir em assuntos religiosos (Constituição de 1824). Essa relação gerou sério conflito entre os dois poderes, que ficou conhecido como A Questão Religiosa. Ao considerar oficial a religião católica romana e manter pecuniariamente o clero, o Estado se atribuiu o direito do padroado, colocando a Igreja em posição de dependência e fortalecendo a doutrina do regalismo.
influenciada pelo individualismo protestante, fruto dos famosos reavivamentos espirituais americanos. As formas sociais e políticas que o povo americano havia descoberto e implantado em seu próprio país eram produtos do puritanismo inglês e americano. Era a teologia do progresso material. As instituições americanas refletiam os ideais puritanos de “povo escolhido de Deus”. E esse modelo devia ser compartilhado com outros povos, para que o reino de Deus se estabelecesse no mundo todo. As vias escolhidas para essa gigantesca tarefa era a pregação do puro evangelho e a educação do povo. Daí a razão por que as igrejas evangélicas fundaram tantas escolas no país. Em resumo, o núcleo central da mensagem dos missionários pode ser resumido em cinco grandes temas: o amor de Deus, o pecado universal, a expiação universal, o livre arbítrio e a possibilidade infinita do perfeicionismo humano.
2. Período não episcopal
1890 - Morris e Kinsolving realizam o primeiro culto em Porto Alegre. Casa da Missão. Capelas da Trindade e Bom Pastor. 1891- James Watson Morris e Vicente Brande iniciam o trabalho em Rio Grande e São José do Norte. Pequena congregação presbiteriana. James Watson Morris inicia o trabalho em Santa Rita. Chegam os missionários William Cabell Brown, John Gaw Meem e Mary Packard. 1892 - John Gaw Meem e Antônio Machado Fraga iniciam o trabalho em Pelotas. Brande inicia o trabalho em São José do Norte. Primeira convocação não autorizada, sem leigos. Data: 23 a 26 de maio de 1892 Local: Casa da Missão, em Porto Alegre. Presentes: reverendos Morris, Brown, Meem e Kinsolving, e catequistas Boaventura, Brande e Cabral. Presidida por Kinsolving e secretariada por Cabral. Assuntos: Brande relata sobre o trabalho em Rio Grande, Ilha dos Marinheiros e São José do Norte. Boaventura relata sobre o trabalho em Santa Rita. Cabral faz um relatório sobre suas viagens. Em todos os lugares, havia boa aceitação do evangelho. A convocação fez designações: Boaventura em Santa Rita, Morris e Cabral em Porto Alegre, Kinsolving e Brande em Rio Grande. 1893 - Primeira visita episcopal: George William Peterkin. Morris e Brown fundam o Estandarte Cristão. 1894 - Primeira convocação autorizada, ainda sem leigos. Data: 3 a 8 de março de 1894 Local: Capela do Salvador, Rio Grande. Presentes todos os presbíteros e diáconos que formavam o clero, menos Brown, que estava nos Estados Unidos. Assuntos discutidos: a relação com a igreja alemã em São Leopoldo, a contribuição para os diáconos e a instrução do clero. 1895 - Segunda convocação. Data 22 a 27 de abril, em Porto Alegre. Presentes: todos os presbíteros e diáconos, inclusive Brown. Foi a primeira que teve representação leiga. Participaram cinco leigos: Joaquim Alberto Fróes (Pelotas), Ernesto Gomes Pereira Bastos (Santa Rita), Bruno Mareco (Trindade, POA) e José Pereira Santos Norte (Bom Pastor, POA). Assuntos tratados: a primeira constituição, os primeiros cânones e a eleição de um bispo. Américo Vespúcio Cabral inicia o trabalho em Viamão. 1896 - Terceira convocação. Data: 15 a 18 de janeiro. Local: Capela do Redentor, em Pelotas. Assuntos: discutiu novamente a questão da instrução do clero, a necessidade de nova visita episcopal e os limites paroquiais. Construção do primeiro templo: Igreja do Calvário, em Santa Rita do Rio dos Sinos (hoje Nova Santa Rita). Convocação extraordinária. Data: 11 e 12 de junho, Local: Porto Alegre. Assuntos: aprovar a tradução do LOC realizada por Brown e Cabral. Concluído o exame do texto, ainda incompleto, porque não continha todo o conteúdo do livro original. A convocação delegou poderes para uma comissão, formada por Brown, Meem e Cabral, para terminar o trabalho de revisão. Impressa nos Estados Unidos, esta primeira tradução foi usada até 1930. 1897 - Segunda visita episcopal: Waite Hockin Stirling. Ordenação dos três primeiros presbíteros: Cabral, Brande e Fraga. Quarta convocação. Data: 20 a 25 de janeiro Local: Porto Alegre Assuntos: supervisão episcopal, seminário teológico, reconhecimento da igreja em Viamão, aprovação dos estatutos da Biblioteca Estrela do Sul, regularização dos registros das propriedades da igreja, publicação quinzenal do Estandarte Cristão e a supressão da palavra sul na denominação oficial da igreja. 1898 - Vicente Brande é designado para iniciar o trabalho em Jaguarão. Fusão das Capelas da Trindade em Bom Pastor. Quinta convocação. Data 22 a 29 de janeiro, em Rio Grande. Assuntos: criação da Sociedade Missionária (educar e sustentar pregadores nacionais. Razão de ser: uma igreja que se sustenta a si mesma é uma igreja que se propaga a si mesma), proposta por Cabral, a eleição de um bispo e a criação de um seminário teológico. Peterkin autorizou a eleição de um bispo. Convocação extraordinária foi logo convocada. Data: 31 de maio Assunto: eleição de Kinsolving. A eleição dos brasileiros era apenas um indicação. Kinsolving foi oficialmente eleito pela igreja americana. Embora a igreja americana tivesse que revalidar a eleição da convocação brasileira, a iniciativa partiu da ainda frágil e pequena igreja brasileira. E esse foi o seu grande mérito.
3. Período Kinsolving (1899-1925)
1899 - Sagração de Lucien Lee Kinsolving. 1900 - Morris inicia o trabalho em Santa Maria. 1902 - Recebida a Comunidade Evangélica da Florida. 1903 - Fundação do Seminário Teológico, em Rio Grande. Início do trabalho em Bagé pelo rev. Antônio José Lopes Guimarães. 1904 - Inicio do trabalho em São Leopoldo, por Antônio Machado Fraga. 1905 - A Sociedade Missionária da ECUSA transfere a missão brasileira para o Board of Missions (Departamento de Missão). Organizada a Federação das Sociedades Auxiliadoras. Brown profere uma série de conferências públicas em Rio Grande, onde era pároco, sobre a história da Igreja cristã no mundo. O Cristianismo era a força que modificava a vida das pessoas. A escolha de temas históricos tinha propósitos bem definidos: instruir o povo na história do Cristianismo e mostrar que a igreja que o conferencista representava não era uma seita qualquer, mas parte integrante da igreja universal fundada por Jesus Cristo. 1906 - Início do trabalho em São Gabriel e Santa Helena. 1907 - Início do trabalho em Dom Pedrito. Início da Capela da Mediação em Santa Maria. O Departamento de Missão cria o distrito missionário vinculado a Convenção Geral. A missão no Brasil começou com os estudantes de teologia do Seminário de Virginia, apoiada pela Diocese de Virginia, passando depois à direção da Sociedade Missionária da Igreja Americana que, em 1905, transferiu a missão brasileira para a Departamento de Missão. Essa mudança foi vantajosa financeiramente para a missão no Brasil, mas sua situação eclesiástica ou canônica continuava indefinida. Havia a necessidade de trazer a missão brasileira para o seio da igreja americana. Isso foi feito por um pedido, enviado em 1907, pela igreja brasileira, por decisão de um concílio realizado em Bagé. Foi redigido um memorial nos seguintes termos:
“Nós, abaixo assinados, clérigos e leigos da Igreja Episcopal Brasileira, reunidos em concílio anual, na cidade de Bagé, Estado do Rio Grande do Sul, Estados Unidos do Brasil, crendo que os interesses e o desenvolvimento da dita igreja podiam ser mais adiantados por aceitarmos o status de missão da Igreja Episcopal Protestante dos Estados Unidos da América, vimos por este fazer uma petição à Convenção Geral, a reunir-se em outubro próximo, na cidade de Richmond, Virginia, Estados Unidos da América, que o status acima mencionado seja concedido à Igreja Episcopal Brasileira, contanto que as prerrogativas atualmente gozadas pela mesma sejam ressalvadas e guardadas".
1908 - Brown inicia o trabalho no Rio de Janeiro (Redentor). Fechado o Seminário Teológico em Rio Grande. 1909 - Início do trabalho em Montenegro, por Antônio Machado Fraga. 1910 - Início do trabalho em Livramento e da Capela Trindade no Meyer, Rio, um bairro então com 500 mil habitantes. Kinsolving desejava fazer do Rio a sede nacional da igreja, mas para isso precisava de 40 mil dólares para construir uma catedral. 1912 - Thomas funda o Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, e João Mozart de Mello funda o Colégio Kinsolving, em Livramento. Desde o início, a igreja procurou atuar no campo educacional. Na área religiosa, se utilizou da escola dominical e na área secular das escolas paroquiais. As razões:
- educar os filhos dos membros da igreja. A experiência havia mostrado que, quando os filhos freqüentavam outras escolas, recebiam influências que os afastavam dos princípios da religião cristã. A igreja acreditava que tinha o dever de oferecer aos seus membros em idade escolar uma educação baseada na religião cristã, para que no futuro se tornassem consagrados membros da igreja.
- preparar os jovens para o trabalho da igreja: os meninos para o ministério ordenado e as meninas para o ensino. Esse era o principal motivo porque a igreja queria escolas e professores próprios, para preparar a futura liderança da igreja.
- preocupação pela tarefa da evangelização. A igreja estava convencida de que tinha algo a mais a dar do que simplesmente cultura. A relação que a igreja estabelecia com um grande número de jovens por meio da escola era uma excelente oportunidade para evangelizar a sociedade.
- formar personalidades capazes para refletir o espírito de Cristo em suas vidas profissionais. Havia a necessidade de um programa educacional para toda a igreja. Por exemplo, os alunos da escola dominical eram constrangidos a freqüentar colégios de padres e freiras ou escolas públicas, nem sempre isentas de pressões ou influências sectárias. O plano era fundar escolas diárias nos grandes centros urbanos, como Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Bagé. Assim, os objetivos da igreja no campo educacional incluíam três importantes imperativos: o profissional, o pastoral e o missionário.
Kinsolving sonhava com uma escola de internato para meninos e meninas, onde pudessem ficar confinados durante a sua formação, longe das influências mundanas que rondavam os jovens. Depois seriam devolvidos à sociedade, imbuídos dos valores cristãos, que jamais conseguiriam, se ficassem sob as influências das frivolidades da vida mundana e sem aprimoramento moral e intelectual. Esses mesmos valores e princípios estavam presentes na fundação do Colégio Santa Margarida em Pelotas em 1934 e do Colégio Luso Brasileiro (depois Independência) em Bagé em 1933 e em outros que foram fundados depois. 1913 - Início do trabalho em Rosário do Sul e São Sebastião do Caí, RS 1916 - Capela da Páscoa, em Colônia Ramos, Pelotas; e Ascensão em P. Alegre. 1917 - Primeira paróquia emancipada: Catedral do Mediador, Santa Maria. Início do Trabalho em Cangussú e Santo Antônio, Pelotas; Colônia Uruguai e São Paulo Apóstolo, RJ. 1920 - A volta de Brande, que organiza da Paróquia do Redentor. 1921 - Início do trabalho na Baixada Santista por José Orthon. Volta de Morris e reabertura o Seminário Teológico em Porto Alegre. 1923 - Início do trabalho entre os japoneses com João Yasoji Ito. 1924 - George Upton Krischke inicia o trabalho em São Paulo. 1925 - Thomas é eleito e sagrado bispo sufragâneo. 1926 - Kinsolving volta em definitivo para os Estados Unidos.
Kinsolving foi bispo durante 25 anos. A melhor maneira de compreender o desenvolvimento da igreja durante esse período é comparar a situação da igreja em 1925 com a época em que o bispo foi sagrado.
| Especificação | 1899 | 1925 |
|---|---|---|
| Bispos | 1 | 2 |
| Clérigos | 7 | 28 |
| Comungantes | 443 | 2.762 |
| Membros batizados | 500 | 13.535 |
| Membros confirmados | 448 | 4.997 |
| Alunos da escola dominical | 378 | 2.537 |
| Escolas dominicais | 7 | 46 |
| Escolas primárias | 3 | 6 |
| Professores da escola dominical | 27 | 200 |
| Templos e capelas | 9 | 25 |
| Paróquias emancipadas | 3 | 4 |
4. Período Thomas (1926-1949)
1925 - Sagração de William Mathew Merrick Thomas 1926 - Kinsolving volta aos Estados Unidos 1929 - Fundação da Imprensa Episcopal. A extensão da missão no Brasil exigia uma aproximação mais estreita entre as várias unidades da igreja. Nesse sentido, uma decisão importante foi tomada em1929, fundando a Imprensa Episcopal em Pelotas, que ficou sob a direção do rev. José Severo da Silva, seu principal incentivador. Além do Estandarte Cristão, muitos panfletos e livros foram publicados. Sem conhecimento da fé, os novos convertidos ficavam abandonados. Precisavam alimentar seus corações e espíritos com os ensinamentos do puro evangelho. Isso exigia uma imprensa nova. Por meio do jornal, a igreja estabeleceu um meio efetivo de fortalecer a fé, instruir os fiéis e estreitar o senso de unidade entre as paróquias e missões. Duas vezes por mês o jornal vinha quebrar a tranqüilidade da vida paroquial com notícias e artigos de fundo, e lembrar ao pároco que o seu trabalho só era significativo no conjunto da obra toda. Os concílios e as visitas anuais do bispo tinham o mesmo sentido. 1930 - Revisão do Livro de Oração Comum, a mais importante de todas. Thomas: “Governamo-nos pelo Livro de Oração Comum". Todas a paróquias e missões deviam usar o LOC, que era desejado por muitas igrejas evangélicas e invejado pelos católicos romanos, que ainda celebravam a missa em latim. Ninguém devia ser confirmado pelo bispo sem conhecer e possuir um exemplar do livro. Nenhuma nova missão ou congregação devia ser reconhecida pelo concílio, se o seu responsável não garantisse que os oficios ali realizados estavam em estrita observância da liturgia e rubricas do precioso livro. Thomas: “Se existe hoje tanto desrespeito à lei e o caos moral, não é porque as pessoas são ruins, mas porque se deixam guiar apenas por sistemas de conduta que lhes impõem as circunstâncias, faltando-lhes o sentido da responsabilidade moral” (Atas do 32º Concílio, 1930, p. 35). Mas a maior ameaça não veio de fora, mas de dentro da própria igreja, quando em 1926, Salomão Ferraz começou a celebrar a santa comunhão todos os domingos na Capela do Salvador, em São Paulo, prática que nas outras paróquias e missões só acontecia, quando muito, uma vez por mês. Ferraz também começou a usar textos litúrgicos não autorizados, provocando uma crise que culminou na sua destituição em 1936. 1931 - Orlando Batista e Jessé Krebs Appel estudam no Seminário de Virginia. 1933 - Tentativas de renovação: Salomão Ferraz, Raymond Eugene Fuessle e Martin Samuel Firth. “Injetar modernismo na igreja do Brasil, que aos poucos estava morrendo de inanição”. Fecha o Seminário por falta de alunos. Fundação do Colégio Independência), em Bagé, por A. T. Pithan. 1934 - Fundação do Colégio Santa Margarida pelo bispo Thomas 1935 - Reabertura do Seminário Teológico em Porto Alegre. 1936 - Controvérsia cerimonialista: Salomão Ferraz. Em 1932, publica A Fé Nacional, sua obra maior, em que expõe suas principais idéias: a) a supremacia da fé tradicional expressa nos concílios ecumênicos e na Tradição; b) a defesa da hierarquia de valores. Uma coisa é errada não porque o seja em si, mas por se achar deslocada de sua verdadeira posição. A fé tem precedência sobre o dogma ou a política da Igreja; c) a importância do indivíduo. O ser humano não deve ser aniquilado pela máquina, seja industrial, política ou eclesiástica. A organização do corpo coletivo deve garantir ao indivíduo o seu progresso normal; d) o caráter sagrado da pessoa humana. A supremacia da consciência é a medida da dignidade e responsabilidade do indivíduo; e) a função dos homens que ocupam o poder civil é ser dispenseiros de Deus revelado em Jesus Cristo; f) a reabilitação das Santas Escrituras na adoração comunitária; g) a atitude fraterna entre as igrejas. A fé é comum a todos os cristãos. Nossa fraternidade não está na atitude para com a sé romana ou qualquer outra denominação, mas para com Cristo e uns para os outros. 1940 - Primeiro bispo brasileiro: Athalício Theodoro Pithan. Inauguração do prédio do Seminário Teológico em Porto Alegre. Ano do Jubileu. 1941 - Orlando Batista funda o Instituto Livramento. 1948 - Chega ao Brasil o bispo Louis Chester Melcher. 1949 - Thomas volta aos Estados Unidos. A Convenção Geral aprova a divisão do distrito missionário em três dioceses.
5. Divisão em três dioceses
1950 - Criação do Conselho Nacional e vários departamentos 1951 - Emancipação financeira. Os bispos brasileiros receberam instruções da igreja americana, apelando para que “os distritos missionários fizessem ingentes esforços visando sua emancipação financeira, em vista da grave e incerta situação internacional”. A carta era assinada pelo bispo John Bentley, diretor do Departamento de Missões Estrangeiras e vice-presidente da Conselho Nacional da Igreja Episcopal do Estados Unidos. 1952 - Primeiro Sínodo. Herman Affonso Di Brandi 1955 - Assinado acordo entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Episcopal dos Estados Unidos sobre as capelanias inglesas no Brasil.