Liturgia: História do LOC Americano
LITURGIA I: HISTÓRIA DO LOC AMERICANO
LIVRO DE ORAÇÃO COMUM AMERICANO DE 1789
Com a independência das Colônias inglesas da América (1776) dos domínios do Império Britânico era lógico que se fazia necessário também, uma ruptura com a Igreja da Inglaterra. Isso é evidente, sendo o chefe da Igreja da Inglaterra o próprio Rei, não se poderia admitir num país independente ter dentro de si uma instituição nacional administrada por um soberano de outro país. Logo ocorreram movimentos de preparar uma adaptação/revisão do LOC inglês de 1662 para o novo momento político mas que os clérigos da nova nação americana dessem continuidade as atividades eclesiásticas/pastorais da Igreja inglesa. O quadro era bastante desafiador para as mudanças necessárias como descreve o Reverendo Jorge Aquino: "Boa parte, contudo, líderes da revolução eram membros da Igreja, o que fez com que ela finalmente apoiasse a luta pela independência. Após a guerra, a Igreja procurou se reorganizar e para isso precisava de um bispo". Sem bispo não poderia haver a sustentação de uma Igreja Episcopal dentro dos Estados Unidos. Há uma mobilização dos clérigos de eleger um candidato a bispo que pudesse receber o reconhecimento de um colégio episcopal. Ocorre a indicação do então Reverendo Samuel Seabury que não foi aceito pelos bispos ingleses para a sagração por razões claras. Apela-se, diante da negativa, para os bispos escoceses com os quais a proposta americana teve êxito, assim Samuel é sagrado bispo no ano de 1784. Daí por diante, a Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América começa a se estruturar.
Na Convenção Geral de 1789, na Filadélfia, declara-se "... ordenado um Livro de Oração Comum, e Administração dos Sacramentos, e outros ritos e cerimônias da Igreja, estabelece por este meio o referido Livro e declara-o a Liturgia desta Igreja e requer seja como tal recebido por todos os membros dela. E este Livro será usado desde o dia primeiro de outubro de 1790". O próprio prefácio destaca que essa "nova igreja nascente " "... não tenciona afastar-se da Igreja da Inglaterra nos pontos essenciais de doutrina, disciplina, ou culto e se o fizer não será mais do que o requerido pelas circunstâncias locais".
A Oração de consagração da Santa Eucaristia foi adotada do LOC escocês de 1764. Esse recebia a influência das liturgias do Oriente e do LOC inglês de 1549. As orações em favor do Rei da Inglaterra foram retiradas por razões claras de política.
REVISÕES DO LOC AMERICANO
1892
- Trabalho de revisão para contemplar a vida e a cultura americana;
- Novos textos litúrgicos de fontes antigas e recentes foram incluídos
1928
O Jorge Aquino declara que o Reverendo Francisco de Assis descrevendo o livro de 1928 nos diz que neste livro, a ênfase na ressurreição do rito batismal foi ampliado, estabeleceu-se leitura alternativa do Evangelho e bênção alternativa foi acrescentada'. No rito do matrimônio, a paridade entre os votos do homem e da mulher foi acrescentada, além da bênção das alianças e da oração pela descendência do casal. O Catecismo e os Artigos de Religião foram publicados como apêndice" (pg.139).
1979
- Continuaram a usar o binômio TRADIÇÃO e CONTEMPORÂNEO;
- Preocupações com o social e pastoral;
- Surge pela primeira vez: o Ofício de Completas, Ofício para o meio dia e Ordem de culto para a noite;
- Uso do Lecionário para o ano eclesiástico;
- Criou outras opções para as coletas, cânticos, sentenças de abertura e para as antífonas;
- Restauração das leituras do Antigo Testamento e dos Salmos;
- Diminui a importância da Confissão;
- A Liturgia da Palavra passa a ser chamada de "A Palavra de Deus". Aqui vemos uma volta para o antigo modelo de liturgia do sexto século: Saudação, Coleta pela pureza, Resumo da Lei ou o Decálogo, Kyrie ou Trisagion, Gloria in excelsis, Coleta do dia, duas ou três leituras bíblicas, Sermão, Credo de Niceno, Orações do povo, Confissão opcional e a Paz;
- Na Santa Eucaristia introduziram três novos ritos:
- O primeiro com uma linguagem elisabetana com duas opções de oração eucarística, *
- o segundo com um linguagem de hoje com quatro opções e o *terceiro com duas orações.
LITURGIA I
História de suas raízes
Capelanias britânicas se estabeleceram, no Brasil, após o tratado de 1810 pelo Lorde Strangford e assim, os cultos anglicanos iam sendo celebrados em locais reservados para tais, para o público de ingleses. Obviamente o uso era do antigo LOC inglês de 1662.
Após a vinda do capelão inglês Reverendo Robert Crane (1816) é que se dará a fundação da primeiro templo anglicano -Christ Church- e isto incluo protestante, em 1819 na cidade do Rio de Janeiro. Logo após, teremos capelanias em São Paulo, Recife, Santos, Niterói e São João Del Rey.
A primeira tradução do LOC para o português se dará através do Reverendo escocês Richard Holden em 1863. O LOC usado para tradução foi o Livro americano de 1789. Segundo o Reverendo Francisco de Assis (60), “usou-se, no começo, apenas um livrete com os ofícios diários, Litania, e porções de Salmos".
Após a Proclamação da República (1889), através de missões episcopais foram enviados missionários (Reverendos Lucien Kinsolving e James Morris) vindos dos Estados Unidos, especificamente de Virgínia que procuram aprender a língua/cultura levando a fundação da Igreja (1890) com um culto celebrado em português. As confirmações e ordenações de convertidos, como dependiam de um bispo, George Peterkin da Virgínia realiza os primeiros atos episcopais (1893) em terras tupiniquins.O Reverendo Francisco de Assis (60) afirma que “em 1893, através do trabalho de dois pioneiros, Reverendos Brown e Cabral, realizou-se uma tradução mais completa do LOC americano, impressa nos Estados Unidos". Foi determinado que, devido ao próprio crescimento da Igreja e a distância local, ficaria um bispo residente em terras brasileiras, sendo sagrado, o então Reverendo Kinsolving (1899).
Apenas em 1930 é que será feita uma tradução completa do LOC americano para o português e que se torna padrão dentro da Igreja brasileira através da colaboração do Bispo William Thomaz. O teólogo anglicano Jaci Maraschin (15), observa que o Reverendo Salomão Ferraz "... desejou renovar a liturgia, não aceitando a mera tradução acrítica, trazendo-a, segundo entendia, mais para perto da alma do brasileiro, foi violentamente repreendido pelo bispo missionário norte-americano. O bispo sentia-se defensor da tradição e, portanto, inimigo da renovação” (pág. 50).
Outras edições vieram após esta, ainda sobre a guarda fiel do LOC americano, por razões claras de sua ligação institucional a Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos. Somente a partir de 1964 é que se dará a separação paulatina da tutela da Igreja Americana. Em um longo processo de tomada de consciência, às vezes voluntária outras involuntária, por parte dos leigos e clérigos brasileiros ou de estrangeiros episcopais residentes no Brasil, a Igreja Episcopal do Brasil vai sendo impulsionada para criação de um LOC “mais brasileiro". Como o presidente da Comissão de Liturgia do Sínodo, D.Agostinho Sória, afirmou, esse LOC tenta apresentar um "... equilíbrio harmonioso entre a nossa preciosa herança anglicana e as necessidades do presente momento...". Contudo estava sendo entregue, em 1984, a 19° Província da Comunhão Anglicana um LOC de edição abreviada e atualizada, sendo retirada conteúdos preciosos, novas produções mas ainda, muito preso ao LOC americano. Gostaria de citar um texto do Reverendo Jaci Maraschin (15) que nos fornece uma preciosa lição: “Nossas igrejas latino-americanas poderiam representar esse mesmo papel, agora, não traduzindo os livros das igrejas do Primeiro Mundo, como ainda estamos fazendo, mas incentivando nossas congregações a criar novas formas de expressão e novas práticas de adoração mais intimamente comprometidas com o nosso povo. Na verdade, a renovação litúrgica não se faz em escritórios ou em salas de reunião, sob a direção de especialistas. A renovação litúrgica só pode vir do povo reunido em adoração, na busca de sua própria expressão e identidade, para o louvor autêntico e para o testemunho evangélico comprometido com as lutas de nossa gente" (pág.54).
ORAÇÃO MATUTINA OU VESPERTINA DO LOC DE 1662
- (Hino)
- Sentença da Escritura: Exortação
- Confissão de pecados e Absolvição :Oração Dominical
- Salmos do Dia, cada um deles seguido por Gloria Patri
- Leitura do Antigo Testamento
- Cântico (p. ex.: Te Deum para as Matinas, Magnificat para as Vésperas)
- Leitura do Novo Testamento
- Cântico (p. ex.: Benedictus para as Matinas, Nunc Dimitis para as Vésperas)
- Kyries; Oração Dominical; Sufrágios; Coletas
- Antema
- Oração de Agradecimento; Oração Pedindo Graça
- (Hino)
- (Sermão, seguido por Atribuição de louvor)
- (Coleta)
- (Hino)
- (Bênção)
| LOC de 1552 | LOC de 1559 | LOC de 1604 | LOC de 1662 |
|---|---|---|---|
| * Forte influência Reformada * Ordinal é introduzido * A Comunhão no Rito de Sepultura foi retirada * Retirou-se as referências às velas e as vestes * O altar é chamado agora de Santa Mesa * Retirou-se a palavra Missa * 0 Agnus Dei, Benedictus, ea Paz foram excluídos * Epiclese foi suprimida * O Gloria in excelsis Deo foi deslocado para o fim do culto * Intróito, Gradual, Cântico Ofertório e Cântico Congregacional passam para Salmos em versões métricas e mais tarde para Hinos * Morre Eduardo VI (1553) e assume Maria Tudor | * Rainha Elizabete (1558) assume o trono e resgata o LOC de 1552 * Posição entre Genebra e Roma | * Morre Elizabete(1603) * Assume James I * Pressões dos puritanos: contra algumas rubricas e cerimônias * Concessões : retirou-se as lições dos Livros Apócrifos, aumento do Catecismo * Direitos do Rei versus Interesses do Parlamento * Carlos I sobe ao poder em 1625 * Tentativa de impor o uso do LOC na Escócia em 1637 (unificar o culto) * Oliver Cromwell com os puritanos assumem o poder. * Assembléia de Westminster (1643), direção do Parlamento * Diretório de Culto de Westminster (1645) * Carlos I é executado (1649) e Oliver dissolve o Parlamento para implantar sua ditadura | * Carlos II assume o trono em 1660 * Restaura a Monarquia e o LOC de 1552 |
LITURGIA I
REFORMA LITÚRGICA NA INGLATERRA
Antecedentes de Reforma inglesa:
- Forte influência do poder Papal dentro da Igreja da Inglaterra e no governo da Monarquia inglesa;
- A Igreja da Inglaterra na sua história sempre demonstrou uma certa independência de Roma;
- Influência de movimentos de pré-reforma, dentre eles de Wyclif e os irmãos lolardos;
- Influência das idéias de Reforma de Lutero na Alemanha e por fim,
- A declaração da nulidade do casamento do Rei Henrique VIII com Catarina de Aragão, tia do Imperador Carlos V do Sacro Império Romano Germânico.
Conseqüências:
- Por causa do estreito relacionamento do Papa com o Imperador ocorre a excomunhão do Rei Henrique, Ana Bolena (sua segunda esposa) e o Arcebispo Cranmer (autoridade eclesiástica que anulou o casamento) pela Santa Sé (1533);
- Em reação, o Rei Henrique VIII faz uma manobra política e decreta o Ato de Supremacia que promove a separação da Igreja Romana, estabelece uma Igreja nacional e torna o Rei o Chefe Supremo da Igreja inglesa.
O teólogo anglicano Reverendo Jorge Aquino, faz uma análise do quadro religioso daquele período da Igreja: " A postura de Henrique era no mínimo contraditória. Pois enquanto aceitava as sugestões de Cranmer para se aproximar do luteranismo ( o que levou a aceitar uma confissão de fé- Os Dez Artigos - marcadamente protestante ) impunha, sob pena de morte, a aceitação dos Seis Artigos: a transubstanciação; a comunhão sob uma só espécie o pão); o celibato eclesiástico; a validade dos votos monásticos; as missas privadas e a confissão auricular. Sua morte em 1547 aconteceu em meio a um sentimento de indefinição religiosa por parte do povo inglês".
Somente com a subida ao trono de seu filho Eduardo VI é que a influência protestante se fará sentir na prática dentro da Igreja. Diz o Reverendo Jorge que "... este período será marcado por uma grande influência protestante principalmente em questões litúrgicas. Os Seis Artigos foram abolidos e a comunhão passou a ser recebida nas duas espécies; o celibato clerical foi revogado; as imagens foram retiradas e da missa foi eliminado seu caráter sacrificial através da aprovação pelo Parlamento do Livro de Oração Comum (1549) redigido por Cranmer ".
Para implementar a Reforma dentro da liturgia, Arcebispo Cranmer (1533-1556) e sua equipe de teólogos/liturgistas buscaram alguns objetivos:
- Unificar todos os ritos existentes;
- Condensar os livros e os textos litúrgicos em apenas um;
- Entregar nas mãos do povo os ritos;
- Todo material deverá ser traduzido para língua do povo
- Fazer uma revisão profunda no material para não deixar as heresias expostas ao público.
Massey Shepherd ao fazer uma análise das reformas realizadas naquela época afirma com propriedade que "... os reformadores ingleses não seguiram o princípio calvinista de que o culto da Igreja incluiria apenas aquilo que estivesse especificamente contido na Escritura. Seguiram, antes, a visão mais larga de Lutero de que todas as coisas edificantes das velhas formas e modalidades de culto seriam conservadas, exceto o que fosse definitivamente contrário à Escritura" (pg.104).
Assim, as principais fontes nas quais o primeiro Livro de Oração Comum (1549) vai buscar será:
- Rito de Sarum: ele é atribuído ao bispo Osmund (1085) tendo surgido na Catedral de Salisbury. É composto pelo Breviário(ofícios diários), Missal ( rito eucarístico, coletas, epístolas e evangelhos), Manual (rito batismal e ofícios ocasionais) e o Pontifical (confirmação e ordenação);
- Breviário reformado pelo Cardeal Francisco Quiñones (1535);
- Consultatio de tendências luteranas, de 1543, do Arcebispo de Colônia Hermann von Wied (imensas frases ou petições foram incorporadas );
- Liturgias da Igreja Oriental de São João Crisóstomo e São Basílio;
- Velhas liturgias gaulesas e
- Reformas liturgias luteranas.