II FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: O RESSURGIMENTO DE UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA GLOBAL

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II FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: O RESSURGIMENTO DE UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA GLOBAL

Rev. Joabe G. Cavalcanti2002

II FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: O RESSURGIMENTO DE UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA GLOBAL

Rev. Joabe G. Cavalcanti

No ano passado após os incidentes de 11 de setembro, apesar de triste e chocado com os atentados, eu fiquei preocupado com os movimentos de resistência ao capitalismo global. Eu pensei então que finalmente os arquitetos e mantenedores da ordem econômica mundial haviam encontrado uma razão “legítima" para sufocar de uma vez o clamor daqueles que se manifestavam contra o predatório regime de acumulação capitalista.

É bom lembrar que um movimento de proporções mundiais vinha se firmando contra as políticas econômicas neoliberais que vêm sendo impostas via processo de globalização. As disparidades e as desigualdades geradas e ampliadas pela globalização capitalista faziam com que as pessoas de diferentes partes do mundo chegassem a conclusão de que esse estado de coisas não poderia continuar. Em novembro de 1999, o mundo viu em Seattle algo que não se via nos Estados Unidos desde a década de 1960. Diferentes grupos da sociedade civil juntaram-se para protestar diante de uma reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio, e o protesto foi tamanho que a reunião de cúpula não pôde continuar. Essa manifestação tornou-se um marco de referência do movimento anticapitalista pela força e organização então demonstradas. A partir daí, outras manifestações de grande impacto foram acontecendo como um efeito positivo gerado em Seattle.

Assim vieram os protestos em Davos em Janeiro de 2000, Washington D.C. em abril de 2000, Praga em setembro de 2000, Quebec em abril de 2001, Gênova em julho de 2001. A partir dessas manifestações as instituições financeiras internacionais como o FMI e o Banco Mundial passaram a falar em transparência, prestação de contas à sociedade, e em como atender a algumas das reivindicações desse movimentos sociais. Eles reconheciam que já não se podia ignorar as manifestações de rua.

Porém, com os atentados terroristas de 11 de setembro, a rota que o mundo parecia começar a seguir mudou novamente. Enquanto os ultraconservadores tornavam-se ainda mais explícitos em relacionar as manifestações contra o capitalismo global com atos de terrorismo, alguns da esquerda passaram a ficar nervosos e cuidadosos quanto ao que falava e fazia. Vale mencionar o que aconteceu em Gênova, em julho do ano passado, onde não apenas um manifestante foi morto, mas muitos manifestantes pacíficos foram covardemente atacados pela polícia dentro da escola em que eles estavam hospedados. Esses incidentes impuseram um recuo nos movimentos de resistência ao capitalismo globalizante.

Na verdade, na Europa e nos Estados Unidos a mídia desempenhou um papel muito importante em fazer os manifestantes conscientes da imagem que eles e elas poderiam estar comunicando com as manifestações. Portanto, o que antes era visto como uma forma legitima de ação política, poderia então ser vista como ações de fanáticos que ameaçavam a democracia. Qualquer discurso contra o imperialismo norte-americano e a exploração capitalista poderia ser interpretado como atos semelhantes aos dos terroristas. Esse não foi um período fácil para ninguém, mas certamente os conservadores de direita passaram a tirar vantagem da situação.

Foi nesse contexto que o II Fórum Social Mundial foi preparado, e uma outra preocupação que eu tinha era que por causa dos ataques globais aos direitos civis, sob a indumentária da “guerra contra o terrorismo“ patrocinado pelos Estados Unidos e com o apoio de países aliados, o Fórum Social Mundial se desviasse da discussão política e econômica para dar atenção a temas como terrorismo, militarismo e liberdades civis. Havia um sentimento de que uma vez mais a atenção daqueles que protestam em nível mundial seria dirigida para o debate sobre as consequências do terrorismo e não às suas causas. Então, o que o movimento anticapitalista conquistou, de Seattle a Gênova, em fazer com que o clamor dos povos fosse ouvido e colocando pressão sobre as grandes corporações e governos, parecia que seria sufocado.

Com esse clima de apreensão muitas pessoas contemplavam a realização do II Fórum Social Mundial com certa descrença e quase não podiam imaginar que o Fórum repetisse o sucesso do primeiro ano. Elas não poderiam estar mais equivocados, pois o Fórum superou todas as expectativas alcançando um número de pessoas participantes três vezes superior ao evento anterior. A estimativa é de que mais de 80.000 pessoas vieram a Porto Alegre para participar do Fórum. O número de pessoas oficialmente registradas foi de 51.300, nos quais 15.230 delegadas de 4.909 organizações representando 131 países. A juventude se fez representar com 15.000 jovens de 52 nações. No Fórum podiam ser encontradas pessoas de diferentes segmentos da sociedade: intelectuais, ambientalistas, sindicalistas, religiosos, movimentos indígenas, políticos, todos afirmando que um outro mundo é possível fora da trilha capitalista.

Se "um outro mundo é possível" foi um lema do Fórum, o evento provou que isso é realmente possível através das diversas conferências, oficinas e seminários que ocorreram lá. O principal foco de discussão não foi o tema terrorismo ou liberdades civis, mas a economia mundial e a forma pela qual a economia mundial é organizada de modo a beneficiar os interesses de uma minoria em detrimento da maioria da população mundial. E mais, o Fórum não apenas demonstrou preocupação em apontar os malefícios do capitalismo, mas também mostrou que uma outra maneira de organizar a economia mundial, onde as pessoas sejam vistas como mais importantes do que o lucro, é urgente necessária e possível. Isso foi o que tem sido considerado como um salto qualitativo de uma mera perspectiva crítica para uma que é indicativa de como seria um mundo diferente desse que nós conhecemos no presente e que é marcado pela exploração.

Desde o primeiro dia do Fórum, que começou com uma marcha, havia um sensação muito forte de unidade na luta contra a globalização da miséria. Pessoas de diferentes raças, sexos, idades e segmentos sociais experimentavam a aclamação de uma outra ordem mundial. Havia um sentimento contagiante de esperança em um futuro melhor. Nos auditórios e salas de reuniões onde conferências e seminários aconteciam a atmosfera estava impregnada por um tipo de energia que nos faz sonhar com um mundo mais justo. Foi realmente encorajador e estimulante ver pessoas de diversas partes do mundo, pertencentes a diferentes organizações, e tendo diferentes visões, unidas pelo mesmo propósito de construir um mundo novo.

Para nós religiosos, um evento como esse nos puxa das nuvens da contemplação em que vivemos e nos traz de volta à terra. Nos faz perceber a importância e a necessidade de nos engajarmos com a sociedade na construção do futuro. Também nos alerta para o fato de que nos não podemos nos dar ao luxo de vivermos a parte da sociedade e do drama em que o mundo vive. Somos todos cidadãos e cidadãs com direitos e deveres para com nossas irmãs e irmãos e com o mundo da natureza. São eventos como o Fórum Social Mundial que nos reanima e nos leva a somar esforços para a transformação das estruturas injustas da sociedade.

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