Introdução à Liturgia

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Introdução à Liturgia

Rev. Saulo Maurício de BarrosData desconhecida

Curso de Férias – IEAB/Distrito Missionário da Amazônia 1

Introdução à Liturgia

Rev. Saulo Maurício de Barros

1. Significado da Palavra Liturgia.

A palavra liturgia vem do grego leiturguia formada por leiton - érgon que significa ação para o povo. Era usada para designar toda ação gratuita feita em benefício do povo em geral. Quando um cidadão da Antiga Atenas custeava uma obra publica dizia-se que ele havia realizado uma liturgia¹. Assim, o teatro, os jogos públicos e o próprio serviço sacerdotal entre os pagãos eram denominados liturgia².

Os rabinos que viviam no mundo de cultura helenista atribuíam o termo liturgia ao culto oficial no templo de Jerusalém. Na versão grega do Antigo Testamento³ seu uso mais freqüente é justamente para “descrever as funções desempenhadas pelos sacerdotes e levitas no templo⁴".

Logo no início os cristãos compreenderam a obra da salvação – a ação de Cristo em favor da humanidade – como uma liturgia; a Comunidade de Fé reunida, em nome de Cristo, no culto de louvor rememora essa ação e rende ação de graças por ela. A reunião da comunidade para o louvor passou a ser chamada de liturgia. Portanto, entre os cristãos, liturgia é conceito associado ao culto comunitário, em especial a Eucaristia. O serviço realizado por Zacarias, pai de João Batista, no santuário antes da revelação do ministério do seu filho, foi chamado de liturgia (Lc 9;13). São Paulo considerou a si próprio como “o liturgista de Jesus Cristo aos gentios, ministrando o Evangelho de Deus” (Romanos 15:16). No Livro de Atos encontramos que os profetas e mestres de Antioquia celebravam a liturgia ao Senhor, o culto público da Igreja (Atos 13:2).

Todavia, a palavra liturgia só foi incorporada ao vocabulário da Igreja Ocidental recentemente, quando no final do século XIX teve inicio uma reflexão mais profunda sobre o significado do culto nas Igrejas do Ocidente. “Já na Igreja do Oriente o termo Sagrada Liturgia é sempre atribuído ao culto comunitário, em especial a Eucaristia".⁶

¹ SHEPHERD, Massey H. Liturgia e Vida (Porto Alegre: Metrópole, 1957), pg. 63. ² TEIXEIRA, Luiz Caetano Grecco. Introdução Básica à Liturgia Cristã (I). Cadernos do CANT (CANT: Brasília, 1996), pg. 1. ³ Septuaginta (setenta) versão do hebraico para o grego do Antigo Testamento, provavelmente feita na cidade de Alexandria numa época não anterior ao ano de 250 a.C. O nome vem da lenda que a tradução teria sido feita por 72 homens (6 para cada tribo de Israel) que teriam sido colocados em 72 celas separadas na ilha de Faros, onde cada um completou a tradução inteira em 72 dias e se constatou que eram idênticas (MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. Paulinas: São Paulo, 1984, pg. 874). ⁴ SHEPHERD, obra citada, pg. 63. ⁵ TEIXEIRA, obra citada, pg. 1. ⁶ Idem pg. 1.


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Para nós, anglicanos, liturgia é compreendida como uma ação conjunta do povo de Deus reunido. “Também se pode dizer que a liturgia é a Igreja reunida em ação". Essa ação é uma resposta a ação convocadora de Deus. Somos convocados para celebrar a ação de Deus na história, “centrada na encarnação, vida, morte, ressurreição de Jesus Cristo e derramamento do Espírito Santo”.

A motivação última desta convocação para a liturgia “é o amor e alegria em Deus – o que os Salmos chamam delícia no Senhorº”. Todo ser humano é um ser religioso e, deixando de lado os casos patológicos, sente prazer na presença daquele que é o princípio e o fim de todas as coisas. Santo Agostinho afirmava: “Fizeste-nos para ti, e o nosso coração vive inquieto até que repouse em ti¹⁰”.

2. Liturgia e Encantamento.

Toda a Igreja possui sua liturgia, a ação conjunta do seu povo celebrando a ação salvífica de Deus. A liturgia “expressa o que a Igreja é 11", constitui numa espécie de espelho da comunidade, nela vemos refletida sua maneira de pensar sobre Deus e o mundo. Por isso se afirma que sem uma comunidade viva não há celebração viva.

Por outro lado, acreditamos que a liturgia pode ser usada como instrumento de renovação da vida de uma congregação – uma celebração agradável traz benefícios para todos. Na verdade toda liturgia deveria produzir algum tipo de prazer. O Rev. Maraschin escreve que liturgia é a “reunião do divino com o humano na plenitude da beleza 12”. Deus é Beleza última, como dizia Santo Agostinho no seu lamento: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei!13”. Liturgia para ser expressão da beleza de Deus deve ser alicerçada no amor, pois a beleza de Deus reside no amor (I João 4:7).

O encontro com a Beleza produz alumbramento e êxtase: o espírito de Deus se apossou de Saul e ele entrou em transe junto com os profetas de Guibeá (I Samuel 10), o profeta Isaías viu o Senhor assentado num sublime trono e suas vestes enchendo o templo (Isaías 6), os discípulos reunidos no dia de Pentecostes ouviram um violento vendaval e viram algo parecido com línguas de fogo (Atos 2), São Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, onde ouvi palavras inexpressíveis (II Coríntios 12), Santo Agostinho e sua mãe atingiram a “região de inesgotável abundância 14”

Isso lembra a estória sobre o surgimento da Igreja Ortodoxa na Rússia. Conta-se que no décimo século o príncipe Vladimir de Kiev enviou representantes para percorrer o mundo e descobrir a verdadeira religião. Quando eles chegaram

⁷ TAKATSU, Sumio. Liturgia numa Perspectiva Anglicana. ⁸ Liturgia: Ação Conjunta do Povo de Deus - Roteiro para Estudo de Certos Aspectos da Liturgia. Confeclero da Diocese Sul-Ocidental (Santa Maria, 1994). ⁹ SHEPHERD, obra citada, pg. 35. ¹⁰ Santo Agostinho. Confissões. ¹¹ TAKATSU, Sumio, obra citada. ¹² MARASCHIN, Jaci. A Beleza da Santidade - Ensaios de Liturgia (São Paulo: ASTE, 1996), pg. 10. ¹³ Santo Agostinho. Confissões. ¹⁴ Idem.


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na Igreja Ortodoxa de Hagia Sophia, em Constantinopla, ficaram tão deslumbrados com o que viram que relataram ao príncipe: “Nós não sabíamos se estávamos no céu ou na terra... Não conseguimos descrever essa experiência; apenas sabemos que lá Deus habita entre os homens e que a celebração deles ultrapassa a adoração de todos os outros lugares 15”.

3. Povo de Deus e Liturgia.

Liturgia não é atividade de um grupo de privilegiados ou de uma trupe de especialistas. Liturgia é ação conjunta do povo de Deus reunido em seu Nome. Por isso, desde a Reforma, os ofícios anglicanos foram desenvolvidos de modo a permitir uma maior participação de todos. Afinal, como nos ensina São Pedro, através de Cristo somos feitos “raça eleita, sacerdócio real, povo de propriedade exclusiva de Deus” (I Pedro 2:9).

Assim como os cristãos estão envolvidos com a missão da Igreja desde o nosso batismo, todos devem participar da liturgia, a palavra bíblica é “batei palmas, todos os povos; celebrai a Deus com vozes de júbilo” (Salmo 47:1).

Entretanto é importante lembrar que na Igreja, como em qualquer instituição humana, existe uma organização. O apóstolo São Paulo já ensinava: "portanto, façam tudo com decência e ordem" (I Coríntios 14:40). Dentro dessa organização as pessoas desempenham diferentes funções, assim como os membros no corpo. Homens e mulheres são chamados para exercitarem seus diversos dons em favor do Reino de Deus, em benefício do próximo.

Muito cedo na história o ministério-guia da Igreja se tipificou na tríplice figura do bispo, presbítero e diácono¹⁶, ordens conservadas pelos anglicanos, e atribuiu aos dois primeiros a função principal nos ofícios religiosos. No nosso Livro de Oração Comum encontramos: “o oficiante principal do culto numa assembléia cristã é, normalmente, um bispo ou presbítero17”.

O que indica a função de cada um na liturgia são as rubricas (texto em letras menores no LOC) que possuem força de “lei e devem ser observadas em toda a Igreja 18”. Por isso, as orientações contidas nos ofícios do LOC devem ser observadas atentamente, e em caso de dúvidas deve se buscar informações com alguém que compreenda bem a liturgia, preferencialmente com o ministro ordenado.

4. Liturgia e Sentidos.

¹⁵ LLOYD, Trevor. The Future of Anglican Worship (Nottingham: Grove Books: 1987). ¹⁶ SOARES, Sebastião Armando Gameleira. Para Apascentar a Igreja de Deus (Santa Maria: DSO,1999). ¹⁷ LOC. ¹⁸ Constituição.


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Liturgia é vida, dela não participamos com seres desencarnados, mas como corpos que vivem em relação com o universo criado. Nós somos soma, corpo, ser humano em sua existência concreta¹⁹. O que nos relaciona com o mundo a nossa volta são os nossos sentidos: a visão, o paladar, a audição, o tato e o olfato.

Liturgia é coisa que se vê20”, a visão ocupa um lugar especial. Por isso temos as cores litúrgicas, os vitrais, os ícones, as imagens. A liturgia deve ser transparente, levar o olhar mais adiante para que veja além dos olhos! Ver a suprema beleza, enxergar aquilo que está proibido aos mortais, pois ninguém pode ver o seu rosto e continuar com vida (Êxodo 33:20).

A liturgia também trabalha com o nosso paladar. “O sacramento da Eucaristia é o sacramento do gosto21”. Participamos juntos da comida e da bebida, antecipando, na visão ortodoxa, o banquete celestial que celebraremos juntos na presença de Deus. No passado também sacerdotes católicos romanos colocavam sal na boca dos batizandos. Algumas comunidades utilizam ervas amargas nas celebrações da Quaresma.

Outro ponto forte na liturgia é o uso da audição. O rito nos vem em palavras, recitadas ou cantadas. Ouvimos o sermão, as leituras bíblicas, as palavras do ofício, o canto coral, a congregação. O problema é quanto se quer reduzir a participação no mistério sagrado a simples audição de textos e sermões22, sem deixar lugar para os outros sentidos.

Temos também o toque, o tato. Jesus sempre levou muito a sério o contato físico. Entre os muitos testemunhos da importância do contato físico temos a cura de um cego narrada por São João: Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e esfregou o barro nos olhos do cego (João 9). Na Igreja temos a imposição de mãos, as bênçãos, o abraço da paz, as orações de mãos dadas, o beijo santo.

Finalmente, o cheiro. A narrativa do nascimento de Jesus inclui incenso e mirra. No templo de Jerusalém existiam as ofertas cheirosas, no Salmo 141:2 se fala da oração como um incenso suave que sobe até a presença de Deus. O sacerdote Zacarias, pai de João Batista, quando teve a visão do anjo anunciando o nascimento do seu filho, havia entrado no santuário do Senhor para oferecer o incenso (Lc1:8-9). Por isso em alguns lugares as Igrejas conservam o habito do uso do incenso.

Devemos cuidar para que os elementos presentes na nossa prática litúrgica permitam que usemos diferentes sentidos do nosso corpo, ampliando assim a nossa capacidade de percepção da suprema beleza.

¹⁹ Referência ao uso do termo grego soma pelo apóstolo Paulo em MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico (São Paulo: Paulinas, 1983), pg. 191. ²⁰ MARASCHIN, obra citada, pg. 124. ²¹ Idem, pg. 125. ²² Idem, pg. 126.


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5. Elementos do Culto Litúrgico.

Esse tema encontra-se muito bem desenvolvido por Massey Shepherd, segundo sua apresentação toda liturgia conta com três elementos 23:

ORDEM – A ordem na liturgia é sua estrutura, sua forma. É o esqueleto onde se estruturam o rito e o cerimonial. RITUAL – É a parte que apela para nossa audição, são as palavras ditas ou cantadas. CERIMONIAL – A cerimônia inclui os atos do culto, os gestos, as ações. Apelam para o nosso sentido da visão.

6. Textos Litúrgicos.

A celebração cristã tem sua origem na maneira de cultuar do povo judeu que desde cedo adotou ordens claras dos ofícios e ritos fixos que incluíam cânticos, orações, bênçãos... Um bom exemplo disso é o “Shema” (ouve), uma oração que era recitada pela manhã e à tarde (Deuteronômio 6:4-9), e a participação de Jesus no ofício de uma sinagoga em Nazaré, no qual realiza dois momentos importantes: a leitura e a interpretação das Escrituras (Lucas 4:16-22). Por isso parecia estranho aos discípulos que Jesus não tivesse ainda ensinado aos seus nenhuma forma especial de oração que os identificasse (Lucas 11:1-4) 24.

Por isso, logo apareceram fórmulas estáveis nas primeiras comunidades cristãs, conservadas por escrito no Novo Testamento e nos escritos posteriores ao período apostólico, como a oração do Pai Nosso (Mateus 6:9-15; Lucas 11:2-4), o memorial da Eucaristia (1º Coríntios 11:23-26), em vários lugares do livro de Apocalipse 25, os ritos do batismo e Ceia do Senhor no Didaquê 26.

Com o desenvolvimento da Igreja foram aparecendo vários textos litúrgicos que são denominados pelos nomes dos seus prováveis autores: Liturgia de São Tiago, de São Marcos, de São Cirilo de Jerusalém, de São Clemente, de São Crisostomo 27.

²³ SHEPHERD, obra citada, pg. 66. ²⁴ “Consta, também, que há certo paralelo entre a Oração Dominical e a Oração de Santificação (kaddish) ou que as frases da OD se encontram em orações judaicas. Assim as frases, o modo como se desenvolve a oração e suas finalidades eram familiares aos discípulos antes de pedir a Jesus que lhes ensinasse a orar. A qualidade inesquecível da OD está não na originalidade, mas na concisão”. TAKATSU, Sumio. Liturgia Anglicana Sua diversidade, padrão e preocupações. Reflexões 06 (Porto Alegre: CEA, 1999), pg. 13. ²⁵ O livro de Apocalipse é construído, na nossa concepção, como uma grande liturgia que acontece no Santuário Celestial. O livro encontra-se repleto de ritos e cerimônias que sem dúvida reflete as celebrações das pequenas comunidades cristãs perseguidas pelo império romano em torno do ano 90 d.C. ²⁶ Um breve manual de moral e práticas escrito num período muito recente da história da Igreja, em torno do ano 150. ²⁷ Assis, Francisco de. Evolução dos Livros de Oração Comum. Reflexões 06 (Porto Alegre: CEA, 1999), pg. 2.


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Na Inglaterra, berço da Igreja Anglicana, a liturgia mais antiga foi a Celta, composta de quase todos os elementos das liturgias modernas. Com a chegada do monge Agostinho (596) enviado pelo papa Gregório Magno, um novo modelo litúrgico foi imposto por Roma. Esse modelo oficialmente adotado nas Igrejas inglesas, todavia, utilizava diversas contribuições locais atendendo uma orientação do próprio Gregório Magno a Agostinho: “Se você encontrar costumes, quer na Igreja de Roma ou da Gálea ou em qualquer outra que possam ser mais aceitos por Deus, eu gostaria que fizesse uma cuidadosa seleção, e ensinasse a Igreja da Inglaterra, a qual encontra-se nova na fé, tudo que você conseguiu aprender de bom dessas várias Igrejas28”.

Citamos a seguir um breve resumo dos principais ritos apresentado por Jorge Aquino no seu livro Anglicanismo: uma introdução.

1. Ritos Orientais.

Com o fim das perseguições e com a oficialização da religião cristã, a liturgia procura mais espaço para ser celebrada. Neste espaço litúrgico, os gestos essenciais da eucaristia seriam, de tal forma orquestrados, que cada rito ganhava uma significação própria e plena. Quanto aos ritos orientais citaremos para fins didáticos apenas dois: o rito atribuído a S. Tiago, celebrado pelos Calcedonianos (da família Antioquena) e o atribuído a S. João Crisóstomo, celebrado entre os Bizantinos.

2. Ritos Ocidentais.

Durante o período que vai do século IV ao VIII, as liturgias de fala latina se apresentavam regionalmente diversificadas, o que permitia uma enorme troca de elementos cúlticos e de influência. Vários ritos surgiram neste período; podemos citar aqui os ritos Romano, Ambrosiano, Hispânico, Celta e Galicano. Destes dois nos interessam de forma mais especial: o Romano e o Galicano.

a) Rito Romano.

O Rito Romano tem seu nome obviamente por causa da cidade de Roma. Já no século V, este rito exerce uma considerável influência em toda a Itália e fora dela. Este rito ficou preservado em muitos documentos que atestam sua importância. Dentre tantos, destacaremos: os Sermões de S. Leão (440-461), que demonstravam que os principais tempos e festas do ano litúrgico (exceto o Advento) já estavam estabelecidos, e os Sacramentários Leonino, Galesiano e Gregoriano (360?). Este último continha pelo menos 80 orações, revelando que a oração eucarística romana se distinguia claramente das equivalentes galicanas e hispânicas, bem como das anáforas orientais. Sua cristologia é calcedoniana e a soteriologia é agostiniana.

b) Rito Galicano.

²⁸ The Many Faces of Anglicanism.


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O Rito Galicano foi, sem dúvida, o rito mais importante que surgiu no ocidente, durante este período de criação litúrgica. Sua origem pode ser encontrada no século V, e ele é o resultado da confluência de práticas comuns à Gália, Espanha, Inglaterra, Irlanda e Itália do norte.

O Rito Galicano possuía algumas características. Enumeraremos apenas algumas aqui. (i) o rito Galicano, principalmente através das músicas e das respostas, valorizava a presença e a participação da congregação; (ii) o diácono foi conservado na sua primitiva função de dirigente das devoções, guiando as litanias e o cálice na comunhão; (iii) as orações Galicanas são mais prolixas e menos austeras que as Romanas; (iv) o rito era mais simbólico, extenso, dramático e flexível que o Romano e (v) o cerimonial era muito elaborado, com uso de muito incenso.

c) Rito de Sarum.

Este é o nome dado ao rito que surgiu junto à catedral de Salisbury e que é atribuído à pessoa do bispo Osmund em 1085. Esta liturgia era composta basicamente do (i) Breviário, que continha os ofícios diários; (ii) o Missal, que continha a Santa Eucaristia juntamente com as coletas, epístolas e evangelhos; (iii) o Manual, que continha o rito Batismal e outros ofícios ocasionais e (iv) o Pontificial, que continha os ritos próprios dos bispos, ou seja, a confirmação e as ordenações 29.

7. Igreja Anglicana e Liturgia.

A Reforma Anglicana, iniciada em 1534, foi essencialmente uma reforma litúrgica. A grande obra da reforma inglesa não foi um tratado de teologia, como entre os reformadores do continente, mas um livro contendo às cerimônias e ritos da Igreja, chamado Livro de Oração Comum 30.

O primeiro Livro de Oração (1549) foi obra do arcebispo de Cantuária Thomas Cranmer que tinha três propósitos em mente ao organizar a liturgia reformada: simplicidade, brevidade e maior uso das Escrituras na adoração. Desta forma, Cranmer acreditava estar retomando a liturgia da Igreja Primitiva naquilo que tinha de mais essencial.

Desde então, organizar sua fé, sua adoração e sua vida diária em torno das Sagradas Escrituras e do Livro de Oração Comum tornou-se características dos cristãos anglicanos.

A seguir apresentamos as características das edições inglesas do Livro de Oração, baseadas no trabalho já citado de Francisco de Assis Silva:

a) Livro de 1549.

²⁹ AQUINO, Jorge. Anglicanismo: Uma Introdução (Recife: Perfilgráfica e Editora, 2000) ³⁰ "Comum", significa da comunidade, de todos.


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A primeira edição do LOC resultado do trabalho de Thomas Cranmer, homem de transição entre a profunda consciência sacramental (que o vinculava ao pensamento medieval) e a profunda abertura para o movimento reformado. A composição básica deste livro era: (i) Ofícios matutinos e vespertinos – uma simplificação da tradição monástica da liturgia das horas; (ii) Eucaristia – mantendo a estrutura da celebração latina, purificada dos excessos próprios dos ritos medievais; (iii) Confirmação; (iv) Matrimônio – com ênfase ma publicidade da Cerimônia; (v) Unção de Enfermos – enfatizando o restabelecimento do enfermo e não a preparação para a morte; (vi) Ofício de Sepultura.

b) Livro de 1552.

Não agradou aos conservadores que desejavam a manutenção dos pesados ritos medievais e nem aos reformadores que desejavam aproxima-lo da tradição genebriana. Mais de qualquer maneira representou uma vitória dos reformadores, introduzindo um rito penitencial nos ofícios diários, abreviando a Oração Eucarística (suprimiu-se a epíclese e introduzindo a Oração de Humilde Acesso), retirando a ministração do Sacramento reservado aos enfermos, as orações pelos que partiram no rito de sepultamento, abolindo as referências sobre velas e vestes, excluindo a palavra "altar” do texto. O Ordinal foi introduzido no Livro, mas sem referência à entrega de símbolos nas ordenações, exceto a Bíblia.

Este livro teve menos de um ano de vigência. Maria, a católica, ascendeu ao trono em lugar de Eduardo VI e aboliu o Livro de Oração Comum, restaurando a comunhão plena com Roma.

c) Edição de 1559.

Com a subida ao trono de Isabel I, foi restaurado o Livro de Oração de 1552, com algumas revisões, entre as quais, a restauração das vestes, as palavras de ministração da comunhão e um novo calendário.

d) Edição de 1604.

A subida de novo rei ao trono inglês, James I, motivou uma petição dos puritanos pela abolição das rubricas e cerimônias. Após dias de reuniões entre os puritanos e representantes da Igreja estabelecida, chegou-se a um acordo que suprimia algumas coisas da edição anterior, aumentou-se o Catecismo e definiu-se uma nova edição da Bíblia, que veio a ser a famosa King James.

e) Livro de 1662.

Durante a ditadura de Oliver Cromwell (1643-1660) aboliu-se a monarquia e o episcopado na Igreja. A liturgia ficou marcada pelos padrões impostos pelos puritanos. Com a Restauração, reintroduziu-se o LOC com algumas modificações: foram introduzidas algumas Orações ocasionais, a bênção da água do Batismo, o partir do pão na Eucaristia, restaurou-se a epíclese, a absolvição nos ofícios diários foi reservada ao presbítero, o termo congregação foi substituído por


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Igreja e acrescentou-se a comemoração dos fiéis que partiram (na oração pela Igreja na Eucaristia). Introduziu-se pela primeira vez os Artigos de Religião 31.

Depois disso, como fruto da expansão do império britânico e do trabalho missionário, surgiram edições do Livro de Oração na Escócia (1637), nos Estados Unidos (1789/1928/1979) e em outros países. Especialmente nos últimos vinte e cinco anos apareceram muitas revisões do Livro de Oração Comum (LOC), motivadas principalmente pela expansão da Comunhão Anglicana que teve que se adaptar as exigências de cada povo e também as mudanças da sociedade. Mas, estes livros conservam um “padrão” comum que os identifica e faz com que os anglicanos se sintam em casa em qualquer lugar do mundo onde se encontrem.

Os princípios que norteiam essas reformas do Livro de Oração Comum são: a) Fidelidade às Escrituras; b) Flexibilidade Pastoral; c) Inculturação; d) Inclusividade e Ecumenicidade 32.

8. O Livro de Oração Comum no Brasil.

“Quando a Igreja foi implantada no Brasil, em 1890, havia apenas a tradução do LOC americano, feita por Richard Holden. Usou-se, no começo, um livrete com os ofícios diários, Litania e porções dos Salmos. Em 1893, através do trabalho de dois pioneiros, Rev. Brown e Rev. Cabral realizou-se uma tradução mais completa do LOC americano, impressa nos Estados Unidos. O primeiro livro completo brasileiro surgiu em 1930, contendo todos os ofícios e criando pela primeira vez um padrão litúrgico para toda a Igreja 33”.

A nova versão do Livro de Oração Comum que usamos hoje nas nossas comunidade foi aprovada em 1984. Essa versão tem por base a estrutura do Livro de Oração norte americano, mas adaptado as necessidades do anglicanismo brasileiro. Como encontramos no prefácio: “Esta liturgia representa o que de melhor herdamos através da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e da Inglaterra, acrescidos alguns ofícios opcionais, conforme as necessidades atuais da igreja brasileira sem, com isso, nos afastarmos em questões essenciais de doutrina, disciplina e culto das demais igrejas irmãs da Comunhão anglicana 34”.

9. Livro de Oração como padrão de Liturgia.

No primeiro parágrafo do prefácio do 1° Livro de Oração brasileiro encontramos escrito que: “Depois das Santas Escrituras, Regra divina de fé e prática, preza a Igreja Episcopal Brasileira o Livro de Oração Comum, como seu mais alto códice e padrão de doutrina e liturgia 35”.

³¹ Assis, Francisco de, obra citada, pg. 3-4) ³² ASSIS, Francisco de, obra citada, pg. 6-7) ³³ ASSIS, Francisco de, obra citada, pg. 5. ³⁴ Livro de Oração Comum (Porto Alegre: IEAB, 1984), pg. 7. ³⁵ Idem, pg. 9.


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Ainda na “Normas para o Culto da Igreja” no LOC encontramos que “a Santa Eucaristia, ato central da adoração no Dia do Senhor e noutras Festas Maiores, e os ofícios de Oração Matutina e Vespertina, tal como determina este Livro, são os ritos regulares designados para o culto público nesta Igreja 36”.

Outras fórmulas litúrgicas não contidas no LOC também podem ser usadas nas nossas comunidades, desde que autorizadas pela autoridade eclesiástica. Segundo a Constituição da nossa Igreja “aos bispos é permitido elaborar ou autorizar formas especiais de culto para ocasiões não previstas no Livro de Oração Comum 37".

Na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil tem se possibilitado a utilização de liturgias diferentes e enriquecidas pela nossa experiência e vivência. Todavia, as fórmulas e gestos litúrgicos tradicionais não representam entravamento a beleza da celebração desde que usadas com sentimento e criatividade. A simples leitura dos ritos nos ofícios e celebrações dominicais, sem nenhuma expressam verdadeira de coração, sem refletir a vida da comunidade, e sem criatividade pode ser um grande anti-testemunho da Igreja no mundo. É preciso cuidar e trabalhar para não tornar verdadeira nas nossas comunidades a frase de Dom Helder Câmara: “A Igreja fez o jogo do diabo, uniu a mediocridade ao mal gosto".

Martinho Lutero afirmava que algumas pessoas podem rezar o Pai Nosso mil vezes por dia, mas não rezam nem uma vírgula nem um til, porque o fazem automaticamente, sem perceber o que estão dizendo. Essa advertência continua valendo para nós hoje. Lembro do Deão da Catedral de Birmingham celebrando a Oração Matutina pelo LOC de 1662 com um pequeno grupo de quatro pessoas numa muito fria manhã de inverno. Havia nele tanto entusiasmo, tanto ardor, que parecia estar falando para uma grande multidão... E provavelmente estava! Estava diante da inumerável multidão de santos de que fala o livro de Apocalipse (Apocalipse 7:9-12) e enxergando a Beleza.

10. Ofícios Litúrgicos da IEAB.

a) Oração Matutina e Vespertina.

As Orações Matutina e Vespertina derivam diretamente das devoções espontâneas do povo cristão. Esses ofícios se desenvolveram especialmente nos mosteiros durante o período medieval, sendo conduzidos por leigos.

No nosso Livro de Oração Comum esses ofícios estão juntos, com alternativas para a prática de cada oração respectiva.

Uma ou mais sentenças introdutórias (23-27) podem ser ditas, respeitando-se o ofício e a quadra do ano cristão.

³⁶ Idem, pg. 11. ³⁷ Constituição da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (1984).


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Seguem-se então a confissão e absolvição de pecados (27-29). Após a confissão o oficiante usa uma das duas formas de súplica de perdão, quando estiver presente um bispo ou presbítero dirá a absolvição.

De pé é dito ou cantado o invitatório (30-32), seguido do Venite ou Jubilate, ou ainda outro hino de louvor. Depois é lido o Salmo designado, concluindo com o Gloria Patri.

O ofício prossegue com a leitura da Palavra de Deus (33), utilizando textos do Antigo e Novo Testamento, lembrando que uma dessas leituras pode ser omitida. É bom ressaltar que nos ofícios não é feita a Aclamação do Santo Evangelho, reservada para celebrações sacramentais. Caso o algum trecho do evangelho for lido, será como outra leitura qualquer do AT ou epistola. Normalmente depois das leituras vem o sermão, mas caso o oficiante não tenha permissão para pregar, deverá ser substituído pela leitura de textos edificantes para a congregação. Algumas vezes se usa uma paráfrase no lugar do Credo Apostólico (33-35), desde que esse seja dito na comunidade pelo menos uma vez por semana.

É feito, então, o ofertório (35), onde oferecemos para Deus a nossa vida e o fruto do nosso trabalho.

Depois elevamos a Deus as nossas orações (35-41), começando pelo Pai-nosso. Lembramos, então, de orar pela paz, pelas autoridades civis, por todo o povo de Deus, pela evangelização do mundo, pelos pobres e atribulados. É nessa ocasião que fazemos também a Coleta (oração) do Dia. Essa parte do ofício é fechada com a Geral Ação de Graças ou com a Oração de S. João Crisóstomo.

Em seguida são feitas as orações conclusivas, se um bispo ou presbítero estiver presente pode encerrar com uma bênção.

Existem ainda outras alternativas, mas devem atender as rubricas e as orientações do ministro ordenado.

b) Santa Eucaristia.

A Santa Eucaristia é o ato central da adoração no Dia do Senhor e noutras Festas maiores, pois nela temos de maneira especial a presença do Senhor.

Cada vez mais os leigos estão deixando de ser espectadores da liturgia da Santa Eucaristia e se tornando participantes ativos.

Temos o Rito I e Rito II e as Orações Eucarísticas Alternativas A e B. A primeira parte dos ritos e as orações eucarísticas podem ser combinadas, enriquecendo desta forma as celebrações da comunidade.

Tomando o Rito I como exemplo, percebemos que a Liturgia da proclamação da Palavra inicia com um momento de preparação (53-54), onde se faz a acolhida, a invocação trinitária, uma sentença adequada ao período do ano cristão, e também a coleta pela pureza.


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Em seguida, vem a ordem penitencial (54-57). O Decálogo é normalmente usado em celebrações que

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