Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: Identidades e(m) números

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Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: Identidades e(m) números

Rafael Vilaça Epifani Costa2024

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: Identidades e(m) números

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO DO AUTOR 7

INTRODUÇÃO 9

PARTE I

A IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL 15

1.1. Uma Igreja de proporções nacionais e internacionais 16

1.2. Uma análise crítica dos dados estatísticos da IEAB 30

1.3. As novas ênfases teológicas 53

1.3.1. Uma Igreja inserida nas questões políticas e sociais 56

1.3.2. O novo Livro de Oração Comum e a inclusividade litúrgica 78

1.3.3. A Ordenação Feminina 104

1.3.4. A Ordenação e o Casamento de Pessoas LGBT+ 130

1.4. A Inclusividade como parte do ethos anglicano 147

PARTE II

O SÍNODO GERAL DE 2018 157

2.1. Os Sínodos que prepararam o caminho 159

2.2. O XXXIV Sínodo Geral da IEAB 163

2.3. A votação e a mudança canônica 167

2.4. A recepção do Sínodo nas Dioceses 172

2.5. A recepção do Sínodo em outras Igrejas 178

PARTE III

A CONFERÊNCIA DE LAMBETH DE 2022 185

3.1. Um breve histórico 187

3.2. A organização da Conferência de 2022 191

3.3. A participação dos bispos e bispas da IEAB 194

3.4. Debates, documentos e registros de Lambeth 2022 197

3.5. Para onde caminha o Anglicanismo no Brasil? 204

CONCLUSÕES 217

REFERÊNCIAS 223

ANEXOS 235


APRESENTAÇÃO DO AUTOR

Escrever sobre o Anglicanismo é uma tarefa árdua, diante da sua complexidade, diversidade e riqueza. Independente das conclusões a que os leitores e leitoras desse trabalho chegarão, o intuito principal foi apresentar o fenômeno anglicano e suas implicações na história do Cristianismo – especialmente para o contexto religioso brasileiro –, em toda a sua diversidade, problemas, desafios e possibilidades. Ou utilizando as palavras do célebre teólogo inglês J. I. Packer: “O Anglicanismo contém a mais rica, a mais vasta e a mais sábia herança de toda a cristandade”.

Esta obra é fruto de um recorte da minha Tese em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (2021), intitulada:“Unidade na diversidade, unidade na adversidade”: A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e as múltiplas identidades do Anglicanismo no século XXI.Saliento que, o conteúdo que apresento, não reflete, necessariamente, as posições oficiais da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e das demais Igrejas aqui relatadas, ou as perspectivas teológicas e opiniões de suas respectivas lideranças, sendo, portanto, a visão do autor acerca do fenômeno do Anglicanismo brasileiro e mundial.

Do ponto de vista eclesiológico e pastoral, tenho como objetivo que esta pesquisa se torne um recurso de estudo para a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, contribuindo para uma melhor compreensão dos processos que estabeleceram as suas múltiplas identidades, de modo a servir como um instrumento de análise de sua história recente, e propor caminhos possíveis para uma atuação mais pragmática, a partir dos eventos que definiram o seu perfil eclesial para o século XXI.

Gostaria de agradecer a todos os bispos, clérigos, secretários e secretárias que enviaram informações de suas Dioceses e da Província para que eu pudesse descrever o Sínodo Geral de 2018.Espero que este livro possa ajudar a todos que se debruçarem sobre os parágrafos que foram construídos ao longo de quatro anos de pesquisa, a partir de um olhar crítico sobre o fenômeno do Anglicanismo no Brasil e no mundo.

E que, seja possível, após o kairós, abrir novos espaços no diálogo inter (ou intra) anglicano, curar as feridas abertas em tempos passados e reconstruir a tão sonhada e cristológica Unidade na Diversidade.

Rev. Dr. Rafael Vilaça Epifani Costa


INTRODUÇÃO

Quando se reflete acerca do Estado da Arte nas pesquisas feitas no Brasil sobre o Anglicanismo, temos algumas lacunas a serem preenchidas. As obras e pesquisas presentes no Brasil abordam, em sua maioria, a história institucional da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Teologia desenvolvida por esta denominação na contemporaneidade, e temas considerados polêmicos debatidos até hoje, a exemplo da questão da Inclusividade e da ordenação e casamento de pessoas LGBT+ na vida sacramental e comunitária da Igreja.

Porém, as pesquisas acadêmicas feitas em nosso país ainda carecem de uma análise mais profunda acerca do que realmente aconteceu nos últimos anos dentro do espectro do Anglicanismo brasileiro e mundial. Notamos que, embora algumas obras tenham sido publicadas recentemente, estas apresentam as mesmas informações históricas de outras publicações do gênero, dando algumas novas pinceladas sobre os temas atuais acima citados, sem se aprofundar neles. Notamos também que, até o momento, não foi desenvolvido um trabalho em nível acadêmico sobre o tema Anglicanismo, que aborde tais questões, atualizando as pesquisas anteriores, de modo almejamos alcançar este objetivo nestas páginas.

Ainda sobre as publicações sobre o tema desta pesquisa, no campo da bibliografia sobre História, destacamos algumas publicações antigas sobre o Anglicanismo e a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil¹, além de obras publicadas recentemente². Também destacamos algumas obras publicadas a partir dos anos 2000, que tratam de temas relevantes e que ainda se encontram em debate no universo do Anglicanismo nacional e mundial³. Alguns trabalhos de pós-graduação também são

¹ Aqui são indicados apenas os títulos e o ano de publicação, uma vez que a referência completa das obras citadas está presente na lista bibliográfica deste trabalho: História da Igreja Episcopal Brasileira (1949); A Igreja Militante (1951); O Anglicanismo: panorama histórico e síntese doutrinária (1960); Notas para uma História da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (1995). ² Conheça a Igreja Anglicana (2010); Nossa Identidade (2012); História do Anglicanismo nos Estados Unidos da América (2017); História do Anglicanismo na Inglaterra (2017). ³ Anglicanismo: uma introdução (2000); Reforçando as trincheiras (2007); Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios (2009); Missão que Amplia a Vida: Perspectivas Globais da Comunhão Anglicana (2015).

dignos de nota, a exemplo dos pesquisadores como Gecionny Rodrigo Pinto de Souza⁴ e Cristiany Morais de Queiroz⁵ – estes, contribuindo para o presente Estado da Arte e para a atualização dos estudos sobre o referido tema.

Buscaremos apresentar uma radiografia da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a partir de uma análise da sua estrutura enquanto instituição e dos dados coletados nas últimas décadas. Na segunda parte deste capítulo, traremos uma análise sobre a construção das múltiplas identidades da IEAB: através de quatro eixos: A inserção da Igreja em questões políticas e sociais; a Ordenação Feminina; a Ordenação e o Casamento de Pessoas LGBT+; e o novo Livro de Oração Comum. Estes eixos estão ligados por um elemento em comum. Em todos eles perpassa o conceito da Inclusividade, o qual, neste trabalho é apresentado como parte inerente do ethos anglicano, ou “o jeito de ser” da Província brasileira.

Também faremos uma análise do Sínodo Geral de 2018, que ocorreu na cidade de Brasília, quando a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aprovou a mudança canônica, passando a realizar o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo, tornando-se a terceira Província da Comunhão Anglicana a realizar este rito. Nesta assembleia sinodal foi realizada uma “observação em campo” pelo autor, mais precisamente foi utilizada a técnica da Observação Participante.

A Observação Participante é realizada em contacto direto, frequente e prolongado do investigador, com os atores sociais, nos seus contextos culturais, sendo o próprio investigador instrumento de pesquisa. Requer a necessidade de eliminar deformações subjetivas para que possa haver a compreensão de factos e de interações entre sujeitos em observação, no seu contexto. É por isso desejável que o investigador possa ter adquirido treino nas suas habilidades e capacidades para utilizar a técnica (CORREIA, 1999, p. 31).

Uma vez que, o pesquisador é membro da Igreja – à época, na condição de seminarista –, o mesmo pediu autorização do bispo diocesano para estar presente no Sínodo, na condição de participante observador (sem direito a voto), viajando até Brasília, junto com a

⁴ Os desafios da Igreja Anglicana na atualidade (2020). ⁵ Anglicanismo: um estudo antropológico da Catedral Anglicana do Recife (2017).

delegação da Diocese Anglicana do Recife – o que ironicamente, na prática, o colocava na posição de um pesquisador dentro do Sínodo⁶ –, inclusive, com conhecimento dos bispos e dos delegados da assembleia sinodal sobre a razão da sua presença e o trabalho que ali seria desenvolvido.

(...) um pesquisador participa como membro do grupo que está estudando. Às vezes, o pesquisador informa ao grupo que ele é um observador e também um participante, e às vezes o pesquisador finge ser um membro comum (VOGT, 1999, p. 208).

O mesmo esteve presente em todas as sessões plenárias, ofícios religiosos e debates, de modo que foi possível registrar boa parte da programação do Sínodo em imagem e vídeo⁷, os quais serviram de fonte para a redação deste trabalho e a análise etnográfica dos temas debatidos e do comportamento dos delegados e delegados durante os momentos mais importantes. Devido ao fato de que o pesquisador não estava fingindo ser um membro da Igreja, mas interagindo de modo constante, inclusive nos intervalos das sessões, podemos apontar que, ao invés de uma “observação participante”, ali foi desenvolvida uma “participação observante”.

Durante os dias da CONFELIDER e do Sínodo Geral, o pesquisador esteve em contato com os participantes, observando a programação e seus temas durante os dias de reunião, inclusive buscando mais informações sobre a Igreja e os temas ali debatidos, entre as sessões e em conversas informais, com membros do laicato, do clero e da Câmara Episcopal, e também junto às lideranças da juventude, para melhor entender a participação de cada pessoa e a dinâmica holística do evento.

Buscaremos traçar um paralelo sobre as diferenças doutrinárias, litúrgicas e teológicas do Anglicanismo, comparando-as com as novas ênfases promovidas pela IEAB, em especial, sobre questões ligadas aos Direitos Humanos e a hermenêutica desenvolvida acerca de questões

⁶ O autor ficou hospedado junto com as delegações no Centro Israel Pinheiro, que abrigou o evento. ⁷ Além das imagens e vídeos – os quais registraram alguns trechos das sessões e o momento da votação da alteração canônica – o autor também escreveu alguns textos da edição nº 1825 do Estandarte Cristão, publicado em dezembro 2018, que abordou o Sínodo Geral.

sobre Gênero e Sexualidade. E dessa forma, poderemos compreender como a atuação e posicionamentos adotados pela Província brasileira da Comunhão Anglicana em seu Sínodo Geral de 2018 podem reestruturar nos próximos anos o Anglicanismo em nosso país, através da consolidação de um novo ethos e de diferentes identidades eclesiais.

A respeito da Conferência de Lambeth, que abordaremos ao final do livro, como esta não foi realizada em 2018 – devido a questões de natureza político-eclesiástica –, nem no ano de 2020, como era esperado – devido à Pandemia do COVID-19 –, o pesquisador passou a acompanhar as notícias publicadas pelo site do evento e o Serviço de Notícias da Comunhão Anglicana, para permanecer atualizado sobre os acontecimentos e a participação da Província brasileira. Para se aprofundar ainda mais na estrutura organizada e na programação, também manteve contato com o professor e biblista Paulo Ueti – representante da Anglican Alliance e do Escritório da Comunhão Anglicana para a América Latina.

Ao longo desse trabalho foi utilizado o método da Análise de Conteúdo. Este se fundamenta como uma técnica para ler e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos, que, quando analisados adequadamente, nos abrem as portas ao conhecimento de aspectos e fenômenos da vida social, de outros modos inacessíveis. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, abre-se a possibilidade de lançar mão de fontes que não podem ser expressas em palavras. Para este estudo, além dos instrumentos bibliográficos já mencionados, serão apresentados gráficos sobre os dados demográficos do Censo de 2010, e também dados estatísticos relativos aos templos, fiéis, clero, da IEAB, buscando atualizar tais informações. Para facilitar o acesso ao conteúdo aqui exposto a leitores brasileiros, optamos por traduzir para o português todos os textos em outras línguas e, quando necessário, destacaremos em itálico os termos estrangeiros (em inglês, latim, etc.).

O problema aqui levantado é que, partir da sua autonomia administrativa, conquistada em 1965, quando se tornou a 19ª Província da Comunhão Anglicana, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil passou a construir a sua identidade de uma Igreja Nacional a partir de referenciais ou eixos específicos. Quais foram os parâmetros escolhidos e quais as influências internas e externas que a IEAB recebeu durante este processo de construção de sua identidade eclesial?

A hipótese que buscaremos apresentar é que, desde a década de 1980, a crescente atuação da IEAB, através da promoção de ações,


PARTE I

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil


A construção da Unidade na Diversidade

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é uma denominação cristã centenária. Como fruto da confluência da missão episcopal norte americana, das capelanias inglesas erigidas nas principais cidades do país e do trabalho missionário entre os membros da colônia japonesa, ela hoje se organiza como uma Igreja Nacional, a 19ª Província da Comunhão Anglicana. A partir da década de oitenta, novas ênfases teológicas começaram a surgir na Província. Nos últimos anos, a Igreja tem-se posicionado a respeito de diversos temas debatidos pela sociedade brasileira, buscando ser condizente com o seu discurso, através de uma postura pautada no conceito da Inclusividade Anglicana.

Embora tenha surgido na cidade de Porto Alegre – onde se encontra a Catedral Nacional da Santíssima Trindade –, ao longo da história ela se expandiu, passando por diversas mudanças em suas identidades, liturgia, teologia e até mesmo no seu ethos, o seu “jeito de ser”. Os próprios membros da Igreja compreenderam que a sua identidade não era algo pré-determinado e afixado por tradições seculares e fórmulas acadêmicas, mas, sim, algo a ser construído e reconstruído, dependendo do momento histórico e cultural. Hoje, a Igreja deixou de ter uma orientação “norte-americana” e “gaúcha” para se transformar em um mosaico anglicano que reflete a diversidade social, linguística e cultural que existe no Brasil. Assim, a Igreja também ganhou uma cara nordestina, amazonense, nortista, carioca, paulista, candanga.

No campo da eclesiologia, a Igreja ficou mais parecida com os católicos romanos brasileiros e estes mais parecidos com a IEAB. No âmbito das questões políticas e sociais, a Igreja se tornou altamente ecumênica, defendo abertamente os Direitos Humanos e os movimentos sociais que se originam de suas pautas. Da mesma forma, como parte disso, ela absorveu o discurso e prática feministas, abrindo caminho para a ordenação de mulheres às três Ordens Sagradas e sua participação ativa na liderança da Igreja. Como consequência, também se discutiu o acesso pleno aos sacramentos por todas as pessoas, inclusive as homoafetivas. Não somente em relação ao Batismo e à Eucaristia, mas à Ordem e ao Matrimônio.

Na visão de cristãos e religiosos progressistas, a Igreja tem avançado em diversas questões para com as quais outras denominações

brasileiras mantêm com restrições ou sequer permitem que sejam debatidas. Por essa razão, algumas pessoas enxergam a denominação como vanguardista em muitos aspectos, não somente entre as Igrejas do Brasil, mas, também, dentro na Comunhão Anglicana. Já para outras lideranças religiosas e grupos conservadores, a postura inclusiva da IEAB é frequentemente denunciada como sendo herética, fruto de sua militância em pautas sociais, que seriam alheias ao Cristianismo e à própria mensagem bíblica.

O desafio enfrentado nos últimos anos foi a busca pela consolidação de uma Igreja inclusiva e em contínua reforma. A Ordenação Feminina não enfrentou resistências para a aceitação de mulheres no sacerdócio, porém, a eleição de bispas para a Província Brasileira levou mais tempo para concretizar-se. Embora esta seja uma das questões que mais divide as Igrejas da Comunhão Anglicana, no Brasil, a ordenação de pessoas homossexuais ao sacerdócio e a realização do casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se a questão mais polêmica e debatida nos últimos vinte anos na Igreja, custando, inclusive, a unidade da própria Igreja.

Tais questões, por sua vez, estão intimamente ligadas a outros temas debatidos, como a Teologia Pública, e sua busca por inserir a Igreja na sociedade e nos problemas estruturais de nosso país, como a desigualdade social, a concentração fundiária, a violência doméstica, o racismo, a homofobia e a xenofobia. Da mesma forma, a Teologia e a Eclesiologia estão intimamente ligadas com a forma como a Igreja celebra. Assim, tais mudanças acompanharam também a publicação do novo Livro de Oração Comum, que, por meio de uma atualização da estrutura dos ritos e de sua forma – especialmente pelo uso da linguagem neutra – promoveu, em toda a Província, o que aqui chamamos de Inclusividade Litúrgica, a qual é inerente ao próprio ethos anglicano.

Para desenvolvermos este capítulo, elencamos quatro pontos que abarcam a questão da Inclusividade Anglicana e norteiam a formação das múltiplas identidades da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: a defesa de pautas sociais e políticas, a Reforma Litúrgica com a publicação do novo Livro de Oração Comum, a Ordenação Feminina e a inclusão plena das pessoas LGBT+ na vida sacramental da Igreja. A partir deles, fizemos uma análise das mudanças ocorridas nas últimas décadas. Por meio de um método quantativo-qualitativo, foi feita uma análise dos dados estatísticos da IEAB. Através deles, será possível

compreender como a Igreja se organiza, a quantidade atualizada de membros e de comunidades, os avanços e retrocessos. Também abordamos, neste capítulo, o Plano Estratégico Provincial (2020-2023), elaborado após as diretrizes do Sínodo Geral de 2018. Por meio dessas informações, é possível entender como a Igreja construiu a sua identidade a partir de uma participação cada vez mais ativa das lideranças do clero e do laicato.

Os dados da quantidade de membros da Igreja foram obtidos através de registros feitos pelo Estatístico Provincial da época (reverendo Oswaldo Kickhöfel), que se encontram presentes nas Atas dos Sínodos da IEAB. Também foram utilizados os dados dos Censos do IBGE dos anos 2000 e 2010, com informações obtidas partir dos microdados da POF 2003 e da POF 2009. Da mesma forma, vários bispos e bispas, clérigos e clérigas, secretários e secretárias enviaram informações sobre suas Dioceses, sendo possível construir as tabelas que apresentamos neste capítulo. Somente por meio dessa radiografia da instituição, em seus aspectos teóricos e práticos, é que podemos entender como, nos últimos anos, diferentes pessoas, com distintas visões e vivências, contribuíram para a construção do mosaico que é a Província brasileira e seu lugar na Comunhão Anglicana.

1.1 Uma Igreja de proporções nacionais e internacionais

Para que se possa compreender como a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil construiu as suas múltiplas identidades ao longo da história, precisamos antes, compreender como ela se organiza. Essa organização é fruto da sua Teologia e da sua Eclesiologia. Ao mesmo tempo em que ela resulta de uma missão da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, também é uma Província da Comunhão Anglicana, o que faz dela uma Igreja de proporções nacionais e internacionais.

A Eclesiologia dicotômica do Anglicanismo faz com que a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil seja, ao mesmo tempo, Hierárquica e Democrática, Tradicional e Moderna, Canônica e Pastoral. A solução para este desafio eclesiológico se encontra no conceito da “Unidade na Diversidade”. Desse modo, é necessário se aprofundar na forma como a Igreja se constitui e funciona através dos seus diferentes órgãos, organizações e instituições internas, os quais são regidos e disciplinados pela Constituição e Cânones Gerais.


Tabela 1 – Estrutura da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

SÍNODO GERAL CONSELHO EXECUTIVO (CEXEC)
BISPO(A) PRIMAZ SECRETARIA GERAL
CÂMARA EPISCOPAL CÂMARA CLERICAL E DO LAICATO
BISPOS(AS) CONSELHO DIOCESANO
PRESBÍTEROS(AS) SECRETARIAS
DIÁCONOS(AS) CONCÍLIO DIOCESANO
PARÓQUIAS (Autônomas e Subvencionadas) MISSÕES E PONTOS MISSIONÁRIOS
DISTRITO MISSIONÁRIO CATEDRAIS
ORDENS DIOCESES
SODALÍCIOS UNIÃO DA JUVENTUDE ANGLICANA DO BRASIL (UJAB)
IRMANDADES
FUNDO DE APOSENTADORIA E PENSÕES DA IEAB (FAPIEB) JUNTA NACIONAL DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA (JUNET)
TRIBUNAL SUPERIOR Eclesiástico
COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E CÂNONES COMISSÃO NACIONAL DE LITURGIA
OUTRAS COMISSÕES PROVINCIAIS

Antes de abordarmos a estrutura da Igreja, é necessário entendermos, em poucas palavras, a Teologia que fundamenta a organização do seu corpo eclesial, formado por clérigos e leigos. Existem funções específicas no Tríplice Ministério (Episcopado, Presbiterato e Diaconato), bem como para a participação dos leigos na vida das comunidades. Todas elas se encontram detalhadas na Constituição e nos Cânones Gerais da instituição.

Os bispos e bispas atuam ao mesmo tempo como pastores e principais lideranças da Diocese. São quem preside a celebração Eucaristia e demais ofícios litúrgicos. Eles e elas também são responsáveis pela ordenação às Ordens Sagradas, como sucessores dos apóstolos. Assim, têm como dever "conservar a fé, unidade e disciplina da igreja toda, proclamar a palavra de Deus, agir em nome de Cristo para reconciliar o mundo e edificar a Igreja; e ordenar outros para continuar o ministério de Cristo". Além das funções espirituais, também exercem funções administrativas, visto que a palavra “bispo” (do grego, epískopos) significa “supervisor”, “administrador".

Como parte do tríplice ministério, os bispos e bispas são auxiliados pelos presbíteros e presbíteras, os quais lideram as comunidades locais. A palavra “presbítero” (do grego, presbúteros) significa “ancião”. Assim, assumem o papel de representantes da autoridade diocesana, na celebração eucarística e pregação. Por sua vez, são auxiliados pelos diáconos e diáconasno trabalho missionário, da mesma forma no exercício do seu ministério no atendimento aos pobres e enfermos. Pela sua própria raiz etimológica, a palavra “diácono” (do grego, diákonos) significa “aquele ou aquela que serve”, ou exerce a prática da dianonia.

Qualquer ministro ou ministra, oriundos de outra Igreja cristã, só podem ter sua ordenação reconhecida como válida, se a tiver recebido das mãos de um bispo ou bispa com sucessão apostólica. Outros critérios, segundo a Tradição, além do ministro ordinante (o epíscopo), incluem que estas ordenações tenham sido fiéis na matéria (o ato da imposição das mãos), forma (oração para a ordenação) e a intenção (que o ministro ordinante tenha sido fiel ao seu ministério e cumprido as funções para as quais foi ordenado). Por sua vez, ministros procedentes de igrejas evangélicas ou protestantes que não tenham sido ordenados segundo estes requisitos são "reordenados”, de acordo com as normas canônicas.


Por sua vez, os leigos também possuem uma participação importante como parte do “sacerdócio universal de todos os crentes”. Diferentes dos membros do clero – separados para um “sacerdócio ordenado” para a condução do povo de Deus –, os leigos exercem um “sacerdócio batismal”, ampliado ou amadurecido através da Confirmação como membros do Corpo de Cristo, uma vez que, a própria palavra “leigo” (do grego, laikós) significa “aquele que não recebeu ordens sacras”.

No Anglicanismo, alguns membros do laicato, após a devida formação, são indicados para exercerem um ministério especial na condução de comunidades que geralmente necessitam de lideranças ou não contam com clérigos disponíveis; assim, são escolhidos pelos bispos para serem ministros leigos. É importante frisar que tais ministros são instituídos para mandatos, não são ordenados, podendo esta função cessar quando não mais for necessária, diferente dos membros do clero, que, uma vez ordenados, fazem parte de suas Ordens Sagradas para sempre, uma vez que elas são de caráter indelével e cumulativas. Quando ordenado, um bispo continua sendo presbítero e, ao mesmo tempo, diácono, embora faça parte de uma ordem distinta, dentro do ministério ordenado.

Sobre a estrutura da Igreja, esta é dividida em três níveis: Paróquia, Diocese e Igreja Nacional. A unidade mais básica é chamada de Paróquia (a depender do tamanho da congregação, as comunidades são consideradas Missões ou Pontos Missionários). As primeiras são lideradas por um(a) pároco(a) ou reitor(a), enquanto que as duas últimas, por serem menores, são lideradas por um(a) ministro(a) encarregado(a). Já a Diocese, formada pelas paróquias e missões de uma determinada área geográfica, é liderada por um bispo ou bispa.

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é formada pela união das Dioceses. Dentro da Comunhão Anglicana, a Igreja Nacional é a sua 19ª Província, liderada pela figura do Primaz, que é escolhido a cada Sínodo. Este, por sua vez, é um primus inter pares (“o primeiro entre os iguais”), exercendo a primazia da Igreja entre os demais bispos e bispas que formam a Câmara Episcopal⁸.

⁸ Atualmente, a Câmara Episcopal é composta pelos seguintes membros: Bispa Marinez Rosa dos Santos Bassotto, Diocese Anglicana da Amazônia e Primaz da IEAB; Bispo Maurício Andrade, Diocese Anglicana de Brasília; Bispo Francisco de Assis da Silva, Diocese Sul-Ocidental; Bispo Humberto Maiztegui, Diocese Meridional; Bispo João Câncio Peixoto, Diocese Anglicana do Recife; Bispo Eduardo


A história da criação das Dioceses teve início com o desmembramento do Distrito Missionário, em 1949. A partir deste marco, surgiram a Diocese Meridional (Porto Alegre), a Diocese Sul Ocidental (Santa Maria) e a Diocese Brasil Central (Rio de Janeiro). A primeira deu origem à Diocese de Pelotas, em 1988, enquanto que a última originou a Diocese Sul Central (São Paulo), em 1969; a Diocese Setentrional (Recife), em 1976; a Diocese de Brasília, em 1982; a Diocese do Paraná, em 2003; e a Diocese da Amazônia, em 2006.

Cada Diocese institui uma paróquia que se torna a sua Catedral. Dentre as funções do bispo ou da bispa, está a condução da Igreja Local, formada pelo laicato e pelo clero, e a manutenção da ordem apostólica, pela ordenação de seminaristas para as Sagradas Ordens do Diaconato e do Presbiterato. Juntamente com as funções pastorais também se encontra a administração da Diocese, feita em conjunto com o Conselho Diocesano e as Secretarias.

Todas as comunidades se reúnem anualmente⁹ em Concílio, para tratar de assuntos internos, escolher os oficiais diocesanos, atualizar os cânones, eleger os candidatos para a sucessão episcopal ou os seus representantes para o Sínodo Geral. As nove Dioceses e o Distrito estão distribuídos em áreas provinciais, a saber: Área 1, formada pelas Dioceses Meridional, Sul Ocidental e Pelotas; Área 2, formada pelas Dioceses do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná; e a Área 3, formada pelas Dioceses do Recife, Brasília, Amazônia e o Distrito Missionário.

Da mesma forma é importante registrar a presença de Ordens Religiosas na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – também presentes em outras Províncias da Comunhão Anglicana –, como parte da espiritualidade monástica que ressurgiu no Anglicanismo após o Movimento de Oxford, no século XIX. Existem Ordens femininas,

Coelho Grillo, Diocese Anglicana do Rio de Janeiro; Bispa Meriglei Borges Silva Simin, Diocese Anglicana de Pelotas; Bispo Francisco Cézar Fernandes Alves, Diocese Anglicana de São Paulo; Bispa Magda Guedes Pereira, Diocese Anglicana do Paraná; Bispo Clovis Erly Rodrigues, Emérito; Bispo Almir dos Santos, Emérito; Bispo Celso Franco, Emérito; Bispo Jubal Pereira Neves, Emérito; Bispo Orlando Oliveira, Emérito; Bispo Filadelfo Oliveira, Emérito; Bispo Saulo de Barros, Emérito; Bispo Renato Raazt, Emérito; Bispo Naudal Alves Gomes, Emérito. ⁹ A periodicidade das reuniões conciliares varia entre as Dioceses, a depender dos seus Cânones Diocesanos, podendo ser anualmente ou a cada dois anos. O importante é que o Concílio se reúna com regularidade para tratar de assuntos vitais para a Igreja Local.

masculinas e mistas, somente para membros do clero, só para leigos ou mistas. Elas se organizam através de uma disciplina de vida, a regra, que rege não apenas a espiritualidade, mas, também, o comportamento de seus membros no cotidiano e impulsiona a vocação missionária da Igreja. Por se encontrarem dentro da Província e das Dioceses, as Ordens têm suas próprias obediências; também respeitam a hierarquia diocesana e possuem um bispo visitador. Elas são: Ordem de São Bento (OSB-EA)¹⁰, Ordem de São Tiago de Jerusalém (OST)¹¹, Ordem da Terceira Sociedade de São Francisco (TSSF)¹², e a Ordem das Filhas do Rei¹³. Algumas foram criadas, mas posteriormente foram extintas, como a Ordem de Santo Estêvão (OSE)¹⁴ e a Ordem de Santa Maria¹⁵.

¹⁰ A origem da Ordem de São Bento (Episcopal Anglicana) se encontra no desejo de clérigos da IEAB de cultivarem a espiritualidade beneditina. Em 1990, o cônego Sebastião Teixeira recebeu o apoio da Congregação Beneditina do Brasil (da Igreja Católica), na pessoa do então Abade Dom Joaquim de Arruda Zamith, que orientou e deu uma benção especial para se organizar esse ramo anglicano beneditino no país. A Ordem foi oficialmente instituída em 04 de novembro de 1993, pelo bispo Cláudio Vinicius de Senna Gastal e difundida, mais tarde, pelo bispo Luiz Osório Pires Prado. Atualmente está presente em várias dioceses, tendo como Prior, o reverendo Márcio Figueirêdo, da Diocese Anglicana de Pelotas. ¹¹ A Ordem de São Tiago de Jerusalém surgiu a partir de um grupo de seminaristas e clérigos que se reuniram para compartilhar questões relativas à Igreja. Foi fundada em 21 de janeiro de 1987, na

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