Nossa Senhora de Walsingham – Da Inglaterra ao Brasil

Versão Integral em Texto

Nossa Senhora de Walsingham – Da Inglaterra ao Brasil

Rafael Vilaça Epifani Costa2025

NOSSA SENHORA DE WALSINGHAM

Da Inglaterra ao Brasil

RAFAEL VILAÇA EPIFANI COSTA


Costa, Rafael Vilaça Epifani Nossa Senhora de Walsingham – Da Inglaterra ao Brasil -- Recife, PE: Laud; Kindle Direct Publishing, 2025. ISBN-13: 9798269620053 ASIN: B0FKC56WZ7

  1. Virgem Maria 2. Mariologia.
  2. Devoções Marianas I. Título. CDU

“Nossa Senhora conduziu Richeldis em espírito a Nazaré e mostrou-lhe a casa onde o anjo a saudou. 'Olha, filha' disse Nossa Senhora. 'Tire as medidas desta casa e construa outra igual em Walsingham, dedicada a me homenagear. Todos os que chegarem lá encontrarão ajuda em suas necessidades.

'Será um memorial perpétuo da grande alegria da Anunciação, fundamento e origem de todas as minhas alegrias e raiz da graciosa Redenção da humanidade. Isto aconteceu através da mensagem de Gabriel de que eu seria mãe através da minha humildade e conceberia o Filho de Deus na virgindade.” (Balada de Pynson, 1485)


Para a minha Senhora e Mãe do Céu, à qual, um dia eu pedi, em sua Santa Casa, que eu me tornasse um sacerdote de seu Filho.


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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 7 INTRODUÇÃO 9

PARTE I - ORIGENS DA DEVOÇÃO NA INGLATERRA 15 A aparição da Virgem Maria para Lady Richeldis 16 O selo e a imagem de Nossa Senhora de Walsingham 20 Devoções marianas pela Inglaterra 28 A Reforma Inglesa e a supressão dos santuários 31

PARTE II - A DEVOÇÃO ANGLICANA 45 O Movimento de Oxford e o Anglo-Catolicismo 46 O Padre Alfred Hope Patten 51 O santuário anglicano de Nossa Senhora de Walsingham 55 A influência da devoção anglicana sobre os ortodoxos 61 Imagens em paróquias anglicanas e episcopais 63 Ordens religiosas marianas no Anglicanismo 66

PARTE III - A DEVOÇÃO CATÓLICA ROMANA 71 O restabelecimento do Catolicismo na Inglaterra 72 O Cardeal Manning e as devoções do povo inglês 73 O santuário católico de Nossa Senhora de Walsingham 75 Imagens em paróquias católicas 80 O testemunho ecumênico 83

PARTE IV - A DEVOÇÃO NO BRASIL 87 A relação do Brasil com Nossa Senhora de Walsingham 88 Imagens em Paróquias Anglicanas no Brasil 94 As imagens de Nossa Senhora de Walsingham no Recife 99

PARTE V - A REFLEXÃO TEOLÓGICA 105 A Teologia da Encarnação e a imagem de Walsingham 106 A Mariologia Anglicana existe e ela deve ser estudada 111 Os documentos da ARCIC 131

CONCLUSÃO 141 REFERÊNCIAS 143 ANEXO – A imagem perdida foi encontrada? 145


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APRESENTAÇÃO

Nessa obra inédita em língua portuguesa, apresento ao público brasileiro um panorama histórico e teológico sobre uma das mais belas devoções marianas na Tradição cristã. Desejo aproximar os fiéis de uma devoção que, embora esteja enraizada na Inglaterra, transcende fronteiras confessionais e culturais. Ao longo de minha caminhada como clérigo anglicano, e durante minhas pesquisas acadêmicas, procurei compreender não apenas o contexto histórico da aparição da Virgem Maria na pequena vila de Walsingham, em pleno século XI, mas também o significado teológico e espiritual dessa devoção que continua viva no coração de católicos, anglicanos e até mesmo de ortodoxos.

Para mim, ler, orar e meditar sobre a Virgem de Walsingham é revisitar a alma do Cristianismo inglês, marcada por uma profunda reverência à Encarnação e ao mistério da presença de Deus no mundo. A “Santa Casa” de Walsingham, inspirada na de Nazaré, é um símbolo da Encarnação vivida de forma concreta, é um espaço onde Maria é lembrada não apenas como Mãe de Deus, mas como aquela que acolhe o Verbo na simplicidade da vida humana. Essa dimensão encarnacional da fé cristã faz de Walsingham um santuário que fala a todos os cristãos, independentemente de suas tradições eclesiásticas e, inclusive, fala a nós, brasileiros, tão marcados pelas devoções marianas.

Ao trazer essa devoção para o contexto brasileiro, busquei mostrar como a espiritualidade de Walsingham pode dialogar com a nossa religiosidade popular e com a rica tradição mariana que molda o imaginário do povo brasileiro. E, por eu ser um clérigo anglicano, nesta obra darei uma ênfase à devoção mariana a partir do um ponto de vista da Teologia anglicana, para elucidar e desmistificar algumas questões.

Ao ler Nossa Senhora de Walsingham: Da Inglaterra ao Brasil, você leitor, não apenas encontrará um estudo histórico, mas uma ponte espiritual, um convite à unidade e à redescoberta do papel de Maria na vida da Igreja. É minha esperança que esta obra inspire a todos nós, anglicanos, católicos, ortodoxos – cristãos –, a contemplar, na Virgem de Walsingham, o sinal da maternidade divina que continua a acolher, interceder e reunir os filhos de Deus em torno de Cristo.

15 de outubro de 2025, Festa de Nossa Senhora de Walsingham Rev. Dr. Rafael Vilaça Epifani Costa


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INTRODUÇÃO

A devoção mariana na Inglaterra possui raízes profundas e complexas, atravessando séculos de história religiosa, conflitos políticos e transformações culturais. Desde os primórdios do Cristianismo britânico, a veneração a Maria se manifestou tanto em contextos populares quanto nos espaços litúrgicos das grandes catedrais e igrejas paroquiais. A Inglaterra medieval foi marcada por uma fé vivida intensamente, em que a figura da Virgem Maria desempenhava um papel central na espiritualidade do povo, sendo vista não apenas como mãe de Cristo, mas como intercessora, protetora e modelo de virtude cristã. Essa devoção, embora profundamente pessoal, refletia também o ethos comunitário de cada paróquia, moldando práticas de oração, festividades litúrgicas e expressões artísticas, que iam desde vitrais e esculturas até poesias e hinos dedicados à Santíssima Virgem.

Ao longo dos séculos XII e XIII, o culto mariano floresceu de maneira particularmente intensa, impulsionado pelo crescimento dos mosteiros e das peregrinações. A construção de santuários dedicados à Virgem se tornou uma prática comum, permitindo que fiéis de diversas regiões da Inglaterra pudessem buscar proteção espiritual, consolo em tempos de aflição e orientação moral. As crônicas da época registram milagres atribuídos à intercessão de Maria, fortalecendo sua imagem como figura central na vida religiosa. Ao mesmo tempo, a espiritualidade mariana não era apenas uma devoção popular; ela também constituía um elo entre o clero e os leigos, sendo ensinada nas liturgias, nos sermões e nas instruções catequéticas, reafirmando a importância da mediação da Virgem entre o humano e o divino.

Com a Reforma Inglesa iniciada no século XVI, a veneração à Virgem Maria sofreu intensas transformações nas Ilhas Britânicas. O rompimento radical com Roma e a implementação do Anglicanismo pelo rei Henrique VIII, o arcebispo Thomas Cranmer e seus sucessores, provocaram mudanças significativas nas práticas devocionais inglesas. Imagens, altares e santuários marianos foram destruídos, e a devoção à Virgem passou a ser fortemente desestimulada por algumas correntes protestantes, a exemplo dos puritanos e seus reformadores. Contudo, mesmo em meio aos desafios dos tempos da Reforma, a espiritualidade mariana não desapareceu completamente. Muitos fiéis continuaram, de forma privada, a cultivar sua devoção a Maria, preservando tradições


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orais, orações domésticas e lembranças de festas marianas, demonstrando a resiliência de uma fé enraizada profundamente na consciência religiosa inglesa.

O período pós-Reforma viu o surgimento de diferentes expressões do Anglicanismo, algumas das quais começaram a revalorizar certas práticas tradicionais, incluindo aspectos da devoção mariana. Movimentos como o Anglo-Catolicismo no século XIX trouxeram à tona uma renovada valorização de Maria, suas virtudes e seu papel na história da salvação. Escritos teológicos, hinos restaurados e a redescoberta de antigas tradições litúrgicas fomentaram um retorno gradual da espiritualidade mariana, desta vez articulada dentro do contexto da teologia anglicana. Esse renascimento não se limitou à dimensão formal, mas também refletiu uma busca pessoal e comunitária por experiências espirituais mais profundas, que integrassem a meditação, a liturgia e a prática devocional cotidiana. Dentro desse contexto histórico e religioso, surgiram novas expressões da espiritualidade católica – em sentido lato –, com a refundação de mosteiros, ordens religiosas e até locais de peregrinação que se tornaram pontos centrais para a devoção cristã anglicana e católica na Inglaterra.

Entre esses, o Santuário de Walsingham se destaca por sua história singular e pela profundidade da experiência espiritual que oferece aos peregrinos. Localizado em Norfolk, Walsingham é tradicionalmente identificado como o lugar de uma aparição mariana no século XI, quando Lady Richeldis de Faverches – uma senhora nobre local – teria recebido a visão da Virgem Maria instruindo-a a construir uma réplica da casa de Nazaré. Esse evento marcou o início de uma devoção que se expandiria ao longo dos séculos, tornando Walsingham um dos mais importantes centros de peregrinação da Inglaterra medieval, atraindo fiéis de todas as partes do país.

O papel das mulheres na devoção mariana, especialmente no contexto de Walsingham, torna Lady Richeldis uma personagem fundamental (entre uma devota e uma vidente), para a propagação e preservação da fé mariana na Inglaterra. A difusão da devoção aos santos passa, antes por pessoas devotas, incluindo mulheres em posições de destaque, capazes de influenciar a espiritualidade local. Essa análise contribui para uma compreensão mais completa da dinâmica social e religiosa da Inglaterra medieval.


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A espiritualidade em torno de Walsingham não se restringe apenas à história do local, mas envolve uma prática devocional viva, que sobreviveu aos séculos, sendo marcada até hoje por peregrinações, orações, cantos e celebrações litúrgicas regulares onde antes esteve o histórico santuário medieval. O culto mariano ali estabelecido no século XI e restaurado no século XX, reflete uma profunda intimidade entre o povo inglês e a Virgem Maria. Ao longo da história, Walsingham manteve seu significado como local de encontro entre o sagrado e o cotidiano, permitindo que gerações de cristãos, católicos e anglicanos, experimentassem uma espiritualidade centrada na contemplação e na presença materna de Maria na vida da comunidade.

Ao abordar a devoção mariana, é impossível ignorar a influência da Virgem de Walsingham na formação da identidade religiosa inglesa. O santuário tornou-se símbolo de resistência espiritual, de continuidade da fé e de integração entre tradição e renovação. Mesmo diante das turbulências da Reforma e das mudanças políticas, a memória de Walsingham permaneceu viva, consolidando-se como referência para a espiritualidade mariana e para a construção de uma identidade cristã inglesa que valoriza tanto a tradição quanto a experiência pessoal de fé.

Na parte histórica, a obra destaca a continuidade da tradição católica de Walsingham, que mesmo após períodos de crise, como o fechamento do santuário durante a Reforma, fiéis e clérigos e mantiveram viva a memória e a prática devocional de forma discreta, em casa ou em suas comunidades, preservando a narrativa, as orações e os relatos de milagres. Essa persistência evidencia a força da fé mariana e a resiliência da espiritualidade católica inglesa frente a desafios políticos e religiosos, sublinhando a importância de Walsingham como núcleo central da devoção da Inglaterra, sendo esta chamada popularmente de “O Dote de Maria”.

Do mesmo modo, a partir da história, será possível compreender as razões e o aprofundamento da devoção da Virgem de Walsingham, a partir do contexto anglicano. A relação entre o Santuário Anglicano de Walsingham e a espiritualidade mariana no Anglicanismo revelou-se um poderoso instrumento no processo de renovação espiritual desta tradição cristã, após o surgimento do Movimento de Oxford. Se a mensagem de Walsingham enfatiza a Encarnação de Cristo, o reavivamento espiritual que a Inglaterra passou a partir da segunda geração dos teólogos de Oxford – e sua aplicação na vida e na


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liturgia da Igreja –, atestaram que tais práticas, embora antigas, melhor respondiam às demandas do mundo moderno e seus paradoxos.

A obra também destaca a relevância da Virgem de Walsingham no diálogo ecumênico. A devoção, embora enraizada no contexto anglicano, é reconhecida e valorizada por católicos e ortodoxos, criando um espaço de convergência espiritual entre diferentes tradições cristãs. Esse aspecto é especialmente importante para o Brasil contemporâneo, onde comunidades diversas podem compartilhar a experiência devocional, promovendo a unidade na diversidade e fortalecendo a compreensão do papel de Maria como intercessora universal.

Foi no período das Guerras Mundiais, que Walsingham deu um testemunho como local de encontro entre as mais diferentes tradições: Católica, Anglicana e Ortodoxa. O patrimônio inglês foi partilhado entre diferentes Igrejas, através dos cantos marianos, as orações e até procissões litúrgicas conjuntas, que criaram uma nova atmosfera de transcendência entre o povo inglês, permitindo que a comunidade participasse ativamente dessa nova experiência de fé, após quatro séculos de incertezas no período pós-Reforma.

Ao longo da obra, será possível perceber que a devoção à Virgem de Walsingham transcende fronteiras britânicas, encontrando eco em outras partes do mundo, incluindo o Brasil. Comunidades anglicanas brasileiras têm sido pioneiras em apresentar e consolidar a devoção à Virgem de Walsingham no país, através de suas práticas devocionais e em celebrações litúrgicas. Além do enfoque histórico e litúrgico, a obra também aborda a dimensão artística da devoção mariana.

Esculturas, imagens, vitrais e ornamentos litúrgicos de Walsingham são analisados como expressões concretas da fé, revelando como a espiritualidade se materializa no espaço sagrado, traduzindo o “ícone” como mediador entre o sagrado e o fiel – conceituado por Yves Leloup como “um . Essa perspectiva amplia a compreensão da devoção, mostrando que a experiência espiritual não se limita ao aspecto intelectual ou emocional, mas se manifesta também na estética e na sensibilidade humana.

Nesta obra, buscaremos resgatar, analisar e aprofundar essa tradição inglesa milenar, trazendo à luz tanto a dimensão histórica quanto a espiritualidade que envolve a Virgem de Walsingham. Trata-se de um estudo inédito no contexto brasileiro, pois reúne fontes históricas, textos litúrgicos e análises teológicas, oferecendo uma visão


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abrangente e detalhada do fenômeno devocional que conecta a Inglaterra ao Brasil. Esta pesquisa procura não apenas narrar fatos, mas compreender a experiência espiritual, a prática de fé e a relevância da devoção para diferentes tradições cristãs, incluindo católicos, anglicanos e até ortodoxos que reconhecem, em Maria, um modelo de vida cristã.

Ao tratar das dimensões históricas, culturais, litúrgicas e espirituais da devoção de Walsingham, esta obra propõe uma melhor compreensão da espiritualidade mariana, mostrando como a experiência devocional moldou e continua a moldar a vida cristã. Lady Richeldis, ao receber a aparição da Virgem, inaugurou um percurso que atravessa séculos, transformando o espaço de Walsingham em um lugar de encontro com o divino Filho de Maria, refletindo ao mesmo tempo a riqueza e a simplicidade da espiritualidade popular inglesa, que há algum tempo também chegou em terras brasileiras.


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PARTE I

ORIGENS DA DEVOÇÃO NA INGLATERRA


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A aparição da Virgem Maria para Lady Richeldis

O percurso histórico da devoção à Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora de Walsingham, revela a complexidade da espiritualidade cristã, a partir da figura de Maria na Inglaterra. Desde a construção inicial promovida por Lady Richeldis até o auge das peregrinações medievais, o santuário desempenhou um papel central na vida religiosa do país. Durante séculos, fiéis percorriam longas distâncias para visitar a “Nazaré da Inglaterra”, como ficou conhecido o pequeno vilarejo, adentrando no santuário, buscando curas físicas e espirituais, orientação divina e consolo em tempos de dificuldade. Relatos históricos registram os vários milagres e experiências místicas, consolidando a fama do local como um centro espiritual de grande importância.

Toda a narrativa – e seus detalhes, históricos, simbólicos e lendários –, é emblemática para compreender o desenvolvimento da espiritualidade mariana de Walsingham e em toda a Inglaterra. A experiência de Lady Richeldis não se limita a um episódio isolado; ela inaugura uma trajetória espiritual que permeia a vida religiosa inglesa por séculos, influenciando tanto a prática devocional, litúrgicas, quanto a poesia, literatura e a arquitetura sacra, até os dias atuais.

A devoção a Nossa Senhora de Walsingham remonta ao século XI, durante o reinado de Eduardo, o Confessor, quando, segundo a tradição, a nobre viúva Richeldis de Faverches recebeu uma série de três visões da Virgem Maria, que a conduziu em êxtase ao local da Anunciação, em Nazaré. Durante essas visões, Maria teria revelado a Richeldis as dimensões exatas da casa da Sagrada Família, orientando-a a erigir uma réplica no vilarejo de Little Walsingham, transformando o local em uma espécie de “pequena Nazaré” na Inglaterra. Com isso, o vilarejo se tornaria uma extensão da Terra Santa, em uma época em que tantas pessoas que procuravam curas e auxílio divino, não tinham condições de sequer de sair das Ilhas Britânicas, ou de irem à Roma, muito menos à Jerusalém.

Richeldis de Faverches, também conhecida como Rychold, foi uma devota nobre cristã inglesa a quem se atribui o estabelecimento do santuário original de Nossa Senhora de Walsingham. A aparição da Virgem Maria a Richeldis é uma das primeiras aparições marianas registradas na Inglaterra. A história da visão foi contada no século XV


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em A Fundação da Capela de Walsingham, também conhecida como a Balada de Pynson, publicada por Richard Pynson.

O único testemunho escrito sobre ela aparece numa balada escrita em 1460, aproximadamente 400 anos depois de sua vida. Também é instrutiva a existência do lugar de Walsigham e referências ao mesmo na literatura da idade média” (DICKENS, 2009, p. 11-12).

De acordo com a tradição preservada na Balada, Richeldis teve uma série de três visões nas quais a Virgem Maria lhe apareceu. Nas visões, a nobre senhora viu a casa da Anunciação em Nazaré e foi instruída a construir uma réplica em Walsingham como um local de peregrinação onde as pessoas pudessem honrar a Virgem Maria.

Uma nobre viúva, certa feita dama desta cidade, Chamada Rychold, em plena e viva virtude, Fez a Nossa Senhora um pedido, Para honrá-La com uma obra generosa, Essa Virgem abençoada, a mais graciosa Senhora, Garantiu sua petição, como depois contarei, Para sua adoração edificar uma capela.

Diz-se que Maria prometeu: “Quem procurar minha ajuda não irá embora de mãos vazias”. Porém, a construção inicial encontrou seus primeiros obstáculos: os pedreiros não conseguiam levantar a estrutura no local indicado, até que, após uma noite de oração de Richeldis, a pequena capela apareceu miraculosamente pronta em um terreno seco escolhido pela Virgem – confirmando a direção divina.

Diz a tradição que, quando Richeldis tratou de começar a construção da “Santa Casa”, viu certa manhã, com espanto, olhando para um prado, dois pedaços planos do terreno misteriosamente não-atingidos pelo orvalho, e esses dois planos correspondiam exatamente às dimensões dos alicerces da casa de Nazaré, que Richeldis havia medido em sua visão; porém, quando ela fazia começar a construção num daqueles lugares assinalados, que ficavam na proximidade de duas fontes, sobrevinham singulares acontecimentos, que estorvavam ou retardavam os trabalhos iniciados. Tudo falhava, e ninguém mais acreditava que a capela fosse algum dia acabada. Mas Richeldis voltou-se aflita para a Mãe de


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Deus, pedindo-lhe auxílio e proteção para sua obra, e eis que, na madrugada de uma noite de oração fervorosa e confiante, seu pedido é satisfeito de modo maravilhoso: Richeldis encontra o santuário (a “Santa Casa”) muito bem construído a 200 pés de distância do lugar em que tinham começado a construí-lo. A esse grande milagre uniram-se muitas curas maravilhosas e o livramento dos mais variados perigos e necessidades. A fama de Walsingham como lugar de graças extraordinárias espalhou-se rapidamente, e começaram a afluir peregrinos de toda parte. Ao longo das estradas por onde passavam as peregrinações, foram erigidas de espaço a espaço capelas e outros lugares de oração. Duas capelas ainda existem: uma fica em King’s Lynn e é denominada Capela de Nossa Senhora da Colina Vermelha; a outra, situada em Honghton-in-the-Dale, é dedicada a Santa Catarina de Alexandria e conhecida por “Capela dos Chinelos”, porque aí os peregrinos tiravam os sapatos, continuando o trajeto descalços (ADUCCI, 2003, p. 93).

Esse evento marcou o nascimento concretizado da devoção local, com a capela atraindo os primeiros peregrinos. Relatos de curas, bênçãos e auxílio espiritual tornaram Walsingham um local reconhecido por sua atmosfera sagrada. Ainda de acordo com a tradição, estes problemas iniciais que envolveram a construção não apenas diziam respeito à ereção de um pequeno edifício para ser dedicado como um santuário análogo a outros da época, mas previa uma forma específica para ser construído, segundo as medidas exatas da casa original da sagrada família de Nazaré. Certa noite, Richeldis ouviu cantos e foi até seu jardim, onde descobriu que a casinha havia sido concluída a cerca de duzentos metros do local da construção original. Então, Richeldis viu o que ela considerou anjos saindo do edifício então concluído.

A Santa Casa original era uma estrutura simples de madeira medindo cerca de 24 por 13 pés (ou aproximadamente 8 por 4 metros), com quatro pequenas torres e uma torre central. A Santa Casa foi posteriormente revestida de pedra para protegê-la das intempéries.

Nesta narrativa que consta nas baladas e nas lendas em torno de Walsingham, temos a presença de figuras angélicas que transportam a casa para um terreno específico. Aqui há uma notável semelhança entre as histórias da Santa Casa de Walsingham, na Inglaterra, e a Santa Casa de Loreto, na Itália.


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Segundo a tradição, a Santa Casa de Loreto seria a própria casa em que a Virgem Maria viveu em Nazaré, enquanto a casa de Walsingham teria sido uma réplica dessa morada sagrada. Conta-se que a casa de Loreto foi milagrosamente transportada pelos anjos de Nazaré até o território italiano, passando por vários lugares até fixar-se definitivamente em seu local atual. Já a casa de Walsingham, teria se movido sobrenaturalmente cerca de sessenta metros até o ponto onde permanece até hoje. Das duas tradições, a de Walsingham é considerada mais antiga. A fundação de Loreto é datada de 1291, ao passo que a de Walsingham remonta a 1061. O primeiro registro escrito sobre Loreto surgiu em 1472, enquanto o de Walsingham é de pelo menos 1460.

É evidente que Walsingham não derivou de Loreto, mas o contrário. Por pelo menos dois séculos antes de se ouvir falar da casa italiana, multidões de peregrinos já acorriam à chamada “Nazaré da Inglaterra”. Verdadeiras ou não, as narrativas confundem-se com a fama de santidade adquirida pelos santuários, que durante séculos, registraram inúmeros milagres e graças que, segundo a tradição, foram ali concedidos. Em ambos os casos, algo chama a atenção: As duas Santas Casas possuem as mesmas medidas, que correspondem com a casa original, presente em Nazaré. E em momento algum, sejam videntes ou peregrinos, estiveram na Terra Santa.

Após a morte de Richeldis, seu filho – antes de partir para uma das Cruzadas – confiou o cuidado da Santa Casa aos cônegos de Santo Agostinho, uma ordem religiosa que viria a desaparecer séculos depois. Esses religiosos cercaram a pequena casa com uma grande igreja e construíram outros edifícios anexos, incluindo um hospício destinado a acolher peregrinos enfermos. As estradas que levavam ao santuário foram marcadas por cruzes e pequenas capelas, onde os viajantes paravam para rezar ao longo do caminho.

Sobre a datação histórica do edifício original do santuário, com base na revisão de documentos relevantes, o historiador J.C. Dickinson, defende uma data posterior para a fundação do santuário, em algum momento entre 1130 e 1153, que coincide com a fundação do priorado. Os Richeldis, identificados por Dickinson, morreram em 1145, deixando sua propriedade para seu filho. Antes de partir para se juntar à Segunda Cruzada, Lord Geoffrey de Faverches deixou a Santa Casa e seus terrenos para o seu capelão Edwin, o qual estabeleceu uma ordem religiosa para cuidar da capela de Nossa Senhora de Walsingham. À medida que viajar para o exterior se tornou mais difícil durante a época


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das Cruzadas, Walsingham tornou-se um local de peregrinação, ficando ao lado de Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela.

A Inglaterra é conhecida como o “Dote de Maria” desde que o Rei Ricardo II ofereceu formalmente o seu reino a Virgem Maria como seu dote, em 1381 – tão bem representado no Díptico de Wilton. A devoção do país a Maria era vasta e a espiritualidade e a piedade inglesas refletiam isso:

Ó Inglaterra, vós tende todos os motivos para estar feliz por ser comparada à terra prometida de Sião. A graça e o favor desta gloriosa Senhora atestam que em toda parte podeis ser chamada de terra santa, Dote de Nossa Senhora, nome que vos foi dada desde a antiguidade. Este título se deve ao fato de aqui ser construída a casa da nova Nazaré em homenagem à nossa Rainha celeste e à sua gloriosa Saudação. Assim como Gabriel a saudou com um Ave na velha Nazaré, aqui, isto é diariamente lembrado com alegria.

A partir de então, todos os peregrinos que visitavam com devoção este lugar da Nazaré inglesa, desenvolveram uma confiança maternal em receber da Senhora a graça que pediam. Hoje, usamos a palavra “dote” para significar o dinheiro que uma noiva traz para o seu casamento, mas o significado medieval na Inglaterra era diferente. Era a parte do dinheiro que um homem reservava no dia do casamento para sua esposa, para sustentá-la sempre, mesmo na viuvez. Assim a mãe, como coração do lar, poderia continuar a cuidar e orientar a família.

Por isso, a palavra “dote” ao referir-se essencialmente a algo “reservado”, fazia da Inglaterra um reino “reservado” do resto do mundo, como um presente para a Virgem Maria. Como disse o Rei Ricardo II, ao oferecer a Inglaterra a Nossa Senhora: “Este é o teu dote, doce Virgem; governe-o, ó Maria!”.

O selo e a imagem de Nossa Senhora de Walsingham

A iconografia de Nossa Senhora de Walsingham tem suas origens mais autênticas no selo medieval do Priorado de Walsingham, que representa a Virgem Maria entronizada, segurando o Menino Jesus, cercada pela imagem do santuário. Este selo, cunhado entre os séculos XII e XIII, tornou-se a única recordação visual direta da antiga estátua


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destruída durante a Reforma Inglesa. No lado reverso do selo, é retratada a Holy House, a Santa Casa que ter teria sido construída por Richeldis de Faverches, sob a orientação da Virgem.

O selo não era apenas decorativo, mas exerceu papel legal, autenticando documentos e proclamando a autoridade espiritual e temporal do Priorado. O uso do selo implicava reconhecimento do santuário como instituição sagrada e juridicamente estabelecida. A imagem que hoje conhecemos da Virgem de Walsingham, venerada nos santuários anglicano e católico, foi recriada no século XX pelo Padre Alfred Hope Patten. Ele baseou-se diretamente no selo antigo para esculpir uma estátua na Igreja de St. Mary and All Saints, em 1922.

A reprodução desse selo em tábuas, medalhas e materiais litúrgicos prosseguiu no século XX, especialmente a partir das décadas de 1920 e 1930, e teve como meta evocar a tradição espiritual perdida durante a Reforma. O estudo heráldico realizado em meados do século XX revelou que o selo trazia em seu escudo elementos simbólicos: lírios representando pureza, uma cruz negra simbolizando o sofrimento, e o emblema da Santa Casa, todos inscritos com o lema Domus Dei, Porta Caeli (Casa de Deus, Porta do Céu). A Santa Casa representada no selo reforça a convicção de que a visão de Richeldis tinha por objetivo trazer para a Inglaterra um locus sacramental análogo ao de Nazaré. Essa ideia foi cuidadosamente mantida na iconografia depois da destruição do primitivo santuário.

Representação do selo do Priorado de Walsingham. Este selo, que sobreviveu à destruição do Santuário original, está guardado no Museu Britânico, em Londres. Imagem: English School (19th Century); Look and Learn.


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Os símbolos presentes na imagem de Nossa Senhora de Walsingham

Descrição dos símbolos presentes na imagem de Nossa Senhora de Walsingham. Edição: Rev. Pe. Rafael Vilaça.

A imagem de Nossa Senhora de Walsingham possui algumas características próprias, que as difere de outras representações medievais da Virgem Maria. A mais marcante e a primeira notada é que ela está sentada num trono de madeira. Diferente de outras representações européias – como a estátua de Nossa Senhora de Paris, na Catedral de Notre-Dame, que se encontra em pé, em uma pilastra –, Maria é representada sentada em um trono, que possui dois pilares, representando a Casa de Deus, a Igreja. Esses pilares são unidos por um arco-íris no encosto atrás da imagem, representando a Aliança de Deus com o seu povo (Gênesis 9:12). Os sete anéis cravados nos pilares do trono representam os sete sacramentos da Igreja.


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Outra característica marcante é que ela representada como uma rainha inglesa do período medieval. Na cabeça, ela usa uma coroa saxônica com três pontas indicando as três pessoas da Trindade. Maria está igualmente vestida com as vestes de uma rainha anglo-saxã: o azul do seu manto representa a sua fidelidade a Deus e à sua Palavra, o vestido vermelho denota o seu estatuto real e o toucado branco denota a sua pureza. Na mão ela segura um cetro como Lírio-Triplo na sua ponta, símbolo da sua pureza, no momento da Anunciação de que iria conceber ao Filho de Deus, mas também de sua soberania como a nova Eva, de quem nasceu o novo Adão.

O tema da Encarnação é o principal motivo da imagem. O Menino Jesus – o Verbo encarnado – está sentado em seu colo, segurando o Livro dos Evangelhos. A sua mão direita abençoa, ao mesmo tempo que aponta para sua mãe, protegendo-a, com a sua própria bênção (“doravante todas as gerações me chamarão de Bem Aventurada”, Lucas 1:48), e também nos recordando de suas palavras na cruz “Eis a tua Mãe” (João 19:26-27). Maria, através do seu sim, nos apresenta a Jesus Cristo, como Senhor e Salvador da humanidade. E o mesmo, a partir de sua cruz,

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