Novas Igrejas Anglicanas e Episcopais no Brasil

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Novas Igrejas Anglicanas e Episcopais no Brasil

Rafael Vilaça Epifani Costa2024

NOVAS IGREJAS ANGLICANAS E EPISCOPAIS NO BRASIL

APRESENTAÇÃO

Desde que eu comecei a minha caminhada no Anglicanismo, o complexo quadro religioso desenhado pelas diversas Igrejas presentes no Brasil sempre me atraiu, seja por conversas informais nos círculos anglicanos ou até mesmo pesquisas minhas sobre o tema.

O livro que apresento ao público brasileiro é uma obra inédita e relevante para os novos estudos sobre o Anglicanismo no Brasil, especialmente no que se refere à pluralidade de denominações. Em um cenário religioso cada vez mais diverso e fragmentado, este livro surge como um esforço de organização de materiais dispersos em memórias, em páginas na Internet, e principalmente, pela dinâmica e mudanças ocorridas entre Igrejas anglicanas e episcopais nos últimos anos.

Através do mapeamento e análise criteriosa, com base nos meus estudos, iniciados em 2017, com o doutorado sobre o tema, a obra abordará quarenta e quatro denominações dentro do cenário brasileiro. As Igrejas ou Dioceses descritas nesta obra se apresentam ou reivindicam a sua identidade religiosa como anglicana ou episcopal e se encontram fora da estrutura oficial da Comunhão Anglicana mundial, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – contabilizando quarenta e cinco denominações no país.

Uma das grandes lacunas no campo acadêmico e eclesiástico brasileiro é justamente a escassez de materiais que tratem com profundidade o surgimento e desenvolvimento dessas novas igrejas anglicanas e episcopais. Poucos estudos abordam o impacto do realinhamento teológico global no contexto latino-americano, e quase nenhum investiga de forma abrangente a multiplicidade de grupos que adotaram, reinterpretaram ou reivindicaram o anglicanismo em suas diversas formas. Assim, diante da crescente fragmentação do Anglicanismo no Brasil — muitas vezes originada por razões teológicas, litúrgicas, organizacionais ou até mesmo pessoais —, este estudo se faz não apenas necessário, mas imperioso para qualquer análise séria do quadro religioso anglicano no país.

A obra está estruturada em cinco partes. A Parte I, intitulada GAFCON e o Realinhamento Anglicano, trata da Igreja Anglicana no Brasil (IAB), surgida de uma divisão na Diocese Anglicana do Recife (IEAB), e atualmente estruturada como Província brasileira da GAFCON (Global Anglican Future Conference), que busca manter uma identidade anglicana conservadora em relação à doutrina e à moral cristã, em oposição às mudanças progressistas observadas em outras províncias da Comunhão Anglicana, como a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

A Parte II volta-se para o Movimento Carismático e de Convergência, examinando duas expressões significativas: a Igreja Cristã Episcopal e a Igreja Episcopal Carismática do Brasil. Essas comunidades representam uma tentativa de unir três tradições da Igreja: sacramental, evangélica e carismática. São igrejas que surgiram da Diocese Anglicana do Recife, no início dos anos 2000, unindo-se à Província da GAFCON, como as mais relevantes do meio episcopal anglicano na capital pernambucana.

Na Parte III a obra aborda o chamado Movimento Contínuo, que abrange igrejas que reivindicam fidelidade às formas clássicas do anglicanismo, sobretudo em sua dimensão litúrgica e doutrinária tradicional. Aqui se destacam a Diocese Anglicana de Votorantim e a Igreja Anglicana Tradicional, que mantêm vínculos com o anglo catolicismo e com o ethos do Movimento Contínuo surgido nos Estados Unidos nos anos 1970.

A Parte IV analisa as chamadas Igrejas Anglicanas Independentes, oferecendo uma listagem ampla e cuidadosamente documentada de todas as igrejas fundadas e em atividade no Brasil que se autodeclaram anglicanas ou episcopais, embora não façam parte de nenhuma das comunhões internacionais históricas e que são canônicas. Trata-se de um verdadeiro panorama da diversidade e da criatividade eclesial no país, com histórias que frequentemente mesclam teologia, política e, muitas vezes, projetos pessoais.

Por fim, a Parte V trata das Igrejas Extintas, resgatando a memória de denominações que, embora não tenham sobrevivido ao tempo, compõem a teia histórica do Anglicanismo e Episcopalismo alternativo no Brasil. Essa seção é fundamental para compreender o surgimento e a extinção dessas comunidades religiosas.

Com a publicação dessa obra¹, creio que uma lacuna de duas décadas foi preenchida. Ela não apenas contribuirá para a literatura cristã brasileira, mas também será um guia de referência para os estudiosos de Religião, membros e clérigos das referidas Igrejas que aqui foram representadas e demais interessados interessada em temas ligados ao Anglicanismo. E, acima de tudo, poderá contribuir para a construção de pontes e a busca pela unidade, concretizando a oração de Jesus Cristo pela sua Igreja: “Que todos sejam um” (João 17:21).

Rev. Dr. Rafael Vilaça Epifani Costa


¹ Aqui o leitor deve se perguntar: Quais Igrejas citadas nesta obra podem ser consideradas como anglicanas ou episcopais? E quais não são? Não pretendo responder isso de forma direta ou resolutiva. Não cabe a mim um julgamento da legitimidade – perante Deus ou os homens –, de uma comunidade cristã, pelas suas origens, dissensões ou desenvolvimentos históricos ou teológicos. Todavia, pretendo sim, dar um passo para apontar critérios que permitam análises, diante do complexo quadro do Anglicanismo no Brasil. Estes terão por objetivos estabelecer a conjuntura da origem das novas Igrejas para futuras análises e estudos, através de três categorias: A) Igrejas históricas, cuja marca é o seu estabelecimento como uma Igreja Nacional, seja por um processo de uma missão, de reforma ou um acordo, como uma Igreja Unida; B) Igrejas de comunhão fragmentada, as quais, apesar das rupturas com o corpo eclesiástico originário, intencionam e mantêm elementos de continuidade da Tradição Anglicana; C) Novas Igrejas Anglicanas e Episcopais que surgiram a partir de iniciativas pessoais exclusivos de seus fundadores. O texto sobre o estudo e a tipologia das categorias acima está no livro Temas de Anglicanismo – Volume 2, publicado por este autor.


PARTE I

GAFCON E O REALINHAMENTO ANGLICANO


INTRODUÇÃO

Quando falamos das novas Igrejas e movimentos anglicanos e episcopais, em primeiro lugar, é preciso considerar que, a partir da segunda metade do século XX – e de modo mais intenso, a partir dos anos 2000 –, alguns grupos passaram a se organizar e se alinhar sob a supervisão de uma autoridade episcopal alternativa, em relação às suas respectivas Dioceses ou Províncias. Dentre os vários grupos que surgiram neste período, o principal movimento, desde o início dos processos de rompimento com a Comunhão Anglicana é o chamado Realinhamento Anglicano.

Este fenômeno se desenvolveu como uma reação às novas posturas institucionais quanto à aceitação da pluralidade de expressões da sexualidade humana nas Igrejas Episcopal norte-americana e Anglicana do Canadá, e à eleição do bispo Gene Robinson para a Diocese de New Hampshire, nos Estados Unidos. Em alguns casos, grupos ou dioceses inteiras deixaram sua jurisdição episcopal ou seu vínculo provincial, promovendo diferentes arranjos eclesiásticos fora da Comunhão Anglicana. Mas, em outros casos, ao invés de se separarem, buscaram nova supervisão episcopal, inclusive à revelia da autoridade do Arcebispo de Cantuária.

Em poucas palavras, o Realinhamento Anglicano é um fenômeno institucional em que, grupos e lideranças ligados à Comunhão Anglicana não desejam sair da Comunhão com a Sé de Cantuária, mas, ao mesmo tempo, por defenderem posições ortodoxas e de cunho conservador, não coadunam com as mudanças ocorridas em algumas Províncias. Nas palavras do bispo Robinson Cavalcanti:

Não dá para os conservadores simplesmente deixarem a Comunhão Anglicana, por duas razões: a primeira é que nós somos os Contínuos do que o Anglicanismo sempre representou; e, a segunda, é que nós somos a imensa maioria, e nunca maiorias deixam instituições. São as minorias que deixam, ou são deixadas, como aconteceu com as heresias dos primeiros séculos. Com a falta de poder jurisdicional por parte dos Instrumentos de Unidade/Instrumentos de Comunhão, e a autonomia de Províncias e Dioceses, o processo segue necessariamente lento, mas segue (CAVALCANTI, 2009, p. 163.)

Considerando que o texto de Robinson Cavalcanti foi publicado um ano após a Conferência de Lambeth de 2008, liderada sob o primado de Rowan Williams, percebemos que, como resultado desses tensionamentos e disputas, tivemos uma visível fragmentação no interior das Províncias que eram alvo de tais críticas. A saída maciça dos grupos divergentes acabou dando origem a novas Igrejas anglicanas, a exemplo da saída do grupo que formaria a Igreja Anglicana na América do Norte – ao desligar-se da Igreja Episcopal dos Estados Unidos –, e do grupo liderado pelo próprio bispo Robinson e que formaria a Igreja Anglicana no Brasil – após o seu processo de enfrentamento institucional e rompimento com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

Porém, ao analisarmos com mais profundidade o que foi o Realinhamento Anglicano, e seus processos de rompimento institucional com as denominações de origem e a criação de novas Igrejas ou movimentos anglicanos e episcopais, o que vislumbramos, é que tais episódios foram, em sua grande maioria, fruto de projetos pessoais de suas lideranças, cujos motivos para tais rompimentos eram sempre justificados por questões de ordem doutrinária, moral ou disciplinar.

Em alguns casos, acima citados, estes rompimentos levaram a uma fragmentação de Províncias, como o caso da Igreja Episcopal dos Estados Unidos ou da própria Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Mas o surgimento desses novos movimentos também possui outra face. Em diferentes momentos ao longo dos séculos XX e XXI, estes processos de rompimento institucional tomaram caminhos diferentes, criando comunhões eclesiásticas distintas do Anglicanismo, ou até mesmo foram mal sucedidos, criando grupos independentes que são conduzidos por uma liderança sem expressão ou relevância no meio religioso, a exemplo de bispos que buscavam apenas um simples status perante suas comunidades. Sejam quais forem as razões e as consequências desses episódios, iremos analisar as origens e características dos novos movimentos episcopais e anglicanos.


A GAFCON E A FCA

A Global Anglican Future Conference – GAFCON (sigla em inglês para Conferência Global sobre o Futuro do Anglicanismo) é uma conferência organizada por bispos anglicanos de linha conservadora, que se reuniram pela primeira vez em 2008, na cidade de Jerusalém, para discutir os riscos do crescente “secularismo” e do avanço da chamada "teologia liberal", assim intitulada por eles para definir declarações, posições e ações assumidas por grupos ou alas progressistas em algumas Igrejas que fazem parte da Comunhão Anglicana. O seu lema é: “Guardando e proclamando a imutável verdade em um mundo em mudança”.

Como fruto dessa Conferência, surgiu a Fraternidade de Confessantes Anglicanos (em inglês, Fellowship of Confessing Anglicans – FCA), uma rede de Igrejas que apoiaram e assinaram a Declaração de Jerusalém, sustentando uma apologia da fé anglicana "ortodoxa e evangélica", como foi conceituada por este grupo, como sendo a saída para a crise existente no Anglicanismo mundial.

Nesta Declaração de Fé, os participantes reconheciam o papel histórico do Arcebispo de Cantuária na condução da Igreja Anglicana, mas rejeitavam que sua liderança fosse tomada como uma pedra angular no estabelecimento e consolidação da identidade anglicana, de modo que o reconhecimento da autoridade das Igrejas Anglicanas não passava pela sua comunhão com a Sé de Cantuária, mas pela defesa de crenças e doutrinas cristãs inegociáveis.

Assim, para garantir a defesa da fé anglicana "ortodoxa e evangélica", a Declaração apelou para a formação de uma Fraternidade de Confessantes Anglicanos, a partir da reorganização das Igrejas ali representadas. A consequência política desse movimento foi o estabelecimento do Realinhamento Anglicano, fenômeno analisado pelo bispo Robinson Cavalcanti logo após a Conferência de Jerusalém, o qual apresentou os propósitos centrais da reunião da GAFCON.

Enquanto a maioria das Províncias Asiáticas se isola do conflito e as Províncias da África vão consolidando uma entidade regional forte, ortodoxos de 17 Províncias promovem, em Jerusalém, a Conferência sobre o Futuro Global do Anglicanismo (GAFCON), simbolicamente em Jerusalém, para comunhão e apoio mútuo, avaliação da conjuntura, estabelecimento de metas de ação conjunta na missão. Alguns Bispos comparecendo, também, para “marcar presença” na Conferência de Lambeth; outros não. O importante é a não aceitação do fato de que a minoria liberal rica do primeiro mundo dite a agenda e o espaço. Usando a imagem, os ortodoxos estão tomando a brideira nos dentes... (CAVALCANTI, 2009, p. 165).

Junto aos demais bispos que subscreveram a Declaração de Jerusalém, o Brasil teve como sua maior liderança o bispo Robinson Cavalcanti. Rapidamente o bloco ligado à Conferência se converteu na maior instância de reunião de lideranças anglicanas dentro – e também fora – da Comunhão Anglicana. Além da Conferência de 2008, outros encontros foram organizados em Londres (2012), em Nairobi (2013) e novamente em Jerusalém (2018), celebrando os dez anos da primeira Conferência. Esta última reuniu lideranças leigas e clericais, bispos e arcebispos das diversas Províncias ligadas à GAFCON/FCA. Sob a ótica do grupo, todos estes encontros representaram uma resposta das Igrejas realinhadas frente à missão do grupo de difundir uma “doutrina correta” e de enfrentar as “pautas liberais” dentro da Comunhão Anglicana e do mundo cristão.

O número de arcebispos ativos e aposentados que compareceram foi de trinta e oito, incluindo sete primazes de Igrejas da Comunhão Anglicana² do Sul-Global alinhados com o grupo. Além deles, cabe frisar a participação de dois dos bispos mais influentes na GAFCON, Foley Beach (ex-primaz da Igreja Anglicana na América do Norte) e Miguel Uchôa (atual primaz da Igreja Anglicana no Brasil), os quais lideravam as duas denominações que deixaram a comunhão com suas Igrejas de origem (a TEC e a IEAB, respectivamente). Outros seis primazes eméritos também participaram³. Todavia, nomes importantes, como Justin Badi Arama (Igreja Anglicana do Sudão do Sul) e Maimbo


² Jackson Ole Sapit (Igreja Anglicana do Quênia), Stanley Ntagali (Igreja Anglicana de Uganda), Laurent Mbanda (Igreja Anglicana de Ruanda), James Wong (Província Anglicana do Oceano Índico), Nicholas Okoh (Igreja Anglicana da Nigéria), Stephen Than Myint Oo (Província Anglicana de Mianmar) e Gregory Venables (Igreja Anglicana da América do Sul).

³ Peter Akinola (Nigéria), Eliud Wabukala (Quênia), Onesphore Rwaje (Ruanda), Jacob Chimeledya (Tanzânia), Tito Zavala (América do Sul) e Robert Duncan (América do Norte).


Mndolwa (Igreja Anglicana da Tanzânia), não compareceram ao encontro, apesar de confirmarem presença⁴.

A maior delegação nesta Conferência foi da Igreja da Nigéria, com 472 membros. Do ponto de vista teológico, o número de anglo católicos diminuiu muito em comparação às duas Conferências anteriores. Desse modo, percebemos uma influência da GAFCON no Sul Global, com uma presença também da Igreja Anglicana na América do Norte (Anglican Church in North America – ACNA), em oposição à Igreja Episcopal dos Estados Unidos e à Igreja Anglicana do Canadá.

O perfil teológico e litúrgico da GAFCON se fortalece cada vez mais em torno da corrente teológica Evangelical e de uma tradição litúrgica Low Church, com o crescente afastamento dos anglo-católicos de perfil conservador, que, em alguns casos, esvaziaram as Conferências do grupo; outros, diante das novas configurações do Anglicanismo mundial, iniciaram um movimento de ingresso na Igreja Católica Romana, após a publicação da Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus, em 2009, pelo Papa Bento XVI.

Este período foi decisivo para o Anglicanismo global, pois foi marcado pela realização – quase que simultânea – da 14ª Conferência de Lambeth, e da primeira Conferência da GAFCON, em Jerusalém, ambas ocorridas em 2008. Podemos apontar, também, que a criação da Fraternidade de Confessantes Anglicanos foi fundamental para a formação da Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA), a reafirmação das posições teológicas da Diocese Anglicana de Sydney (da Igreja Anglicana da Austrália) e o realinhamento protagonizado pela Igreja Anglicana do Cone Sul da América, especialmente com o apoio dado ao bispo Robinson Cavalcanti, quando do seu rompimento com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

A Igreja Anglicana na América do Norte (Anglican Church in North America – ACNA) foi fundada, em 2009, por membros e lideranças clericais oriundos da Igreja Episcopal nos Estados Unidos e da Igreja Anglicana do Canadá que estavam insatisfeitos com os ensinamentos doutrinários e sociais considerados por eles como “liberais” e contrários às crenças do Anglicanismo histórico. O episódio que desencadeou a formação desta nova denominação foi a eleição de


⁴ Uma conferência adicional, denominada G19, também aconteceu de 25 de fevereiro a 1º de março de 2019, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para aqueles que não puderam comparecer ao GAFCON III do ano anterior.


Gene Robinson – o primeiro sacerdote gay da Comunhão Anglicana a assumir publicamente que não era celibatário –, juntamente com a aprovação e a realização de ritos de bênção para uniões do mesmo sexo, na Diocese de New Westminster, na Igreja canadense.

Desde o início dos anos 2000, vários grupos de anglicanos conservadores começaram a receber apoio de Províncias apoiadoras do Realinhamento Anglicano. Estas Igrejas, com forte influência no Sul Global, passaram a fornecer apoio pastoral e suporte financeiro aos grupos insatisfeitos. Assim, muitas paróquias dos Estados Unidos e do Canadá decidiram manter a sua lealdade às Igrejas da América do Sul e da África, rompendo com as suas Dioceses e Províncias.

Em dezembro de 2008, delegados escolhidos por estes grupos organizaram uma Convenção Constitucional, se reunindo em West Chicago, Illinois, para formar uma nova “estrutura eclesiástica separada na América do Norte”. Em 22 de junho de 2009 foi organizado um encontro na Catedral de São Vicente, em Bedford, Texas, para a aprovação da nova Constituição e dos Cânones. Nesta reunião, Robert Duncan, bispo da Diocese de Pittsburgh, foi eleito o seu primeiro arcebispo, sendo oficialmente fundada a nova denominação alinhada com as demais Províncias que fazem parte da GAFCON: a Igreja Anglicana na América do Norte (Anglican Church in North America – ACNA).

Diferente da Igreja Episcopal e da Igreja do Canadá, a ACNA não é uma Província da Comunhão Anglicana. Desde o seu surgimento esta Igreja buscou estabelecer plena comunhão apenas com outras Províncias que mantêm a “fé anglicana ortodoxa", segundo os princípios apresentados pela Declaração da GAFCON. Buscando se fortalecer como uma instituição recém-criada, todo o espectro do Anglicanismo conservador foi incorporado à nova denominação. Como resultado, até certo ponto ela conseguiu acomodar diferentes orientações teológicas (anglo-católicas, evangélicas e carismáticas), muitas vezes divergentes entre si.

Ao incluir sob um mesmo teto grupos que se opõem e rejeitam e que, ao mesmo tempo, promovem e apoiam a ordenação feminina, foi gerada uma situação peculiar: em algumas dioceses as mulheres podem ser ordenadas, enquanto que outras mantêm um clero exclusivamente masculino. Porém, existe um ponto comum, o de impedimento da ordenação de mulheres ao episcopado. Estas divergências acerca da ordenação de mulheres aumentaram as barreiras dentro da ACNA para o estabelecimento de uma “comunhão” entre algumas de suas dioceses, de modo que esta é a questão que mais divide a Igreja atualmente. Já no campo da moral, a ACNA define o casamento como uma união entre um homem e uma mulher, sustentando que existem apenas duas expressões da sexualidade humana fiéis aos ensinamentos bíblicos: o casamento ou a abstinência. Como consequência dessas posições, a igreja também apoia pautas “pró-vida”, quanto ao aborto e à eutanásia.

Atualmente, a Igreja Anglicana na América do Norte está presente em todo o território do Canadá e dos Estados Unidos, também possuindo paróquias e missões no México e em Cuba. Em 2014, Robert Duncan deixou a primazia, sendo escolhido Foley Beach para assumir o cargo como o segundo arcebispo da denominação. Ele se destacou como uma das lideranças mais importantes nas Conferências da GAFCON, desde que assumiu a presidência do Conselho de Primazes. Em junho de 2024, o novo primaz da ACNA foi eleito durante a Assembleia Provincial. Stephen Dwain Wood sucedeu o arcebispo Foley Beach, na primazia da denominação, após este cumprir o limite máximo de dois mandatos de cinco anos. A eleição de Steve Wood foi recebida com entusiasmo e apoio de outros líderes da igreja, como o Arcebispo da Igreja da Nigéria, Henry C. Ndukuba, que o felicitou e destacou a importância da parceria entre as duas igrejas.

Já em relação à Igreja Anglicana da Austrália (Anglican Church of Australia), que é parte da Comunhão Anglicana, a influência da GAFCON ocorreu apenas na Diocese Anglicana de Sydney. Todavia, esta tem exercido um papel decisivo dentro do movimento de realinhamento anglicano, desde que o arcebispo Peter Jensen se opôs às decisões em prol da inclusão de pessoas homoafetivas na Igreja Episcopal dos Estados Unidos e na Igreja Anglicana do Canadá.

Por conta de sua participação na primeira Conferência de Jerusalém, em 2008, o arcebispo de Sydney assumiu a presidência da GAFCON, posteriormente conduzindo a Diocese Anglicana de Sydney e a Diocese Anglicana do Noroeste da Austrália a declararem plena comunhão com a Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA), emitindo posições completamente divergentes do resto da Província australiana. Atualmente, a Igreja australiana se encontra polarizada internamente, de modo semelhante à Igreja da Inglaterra no tocante à


Ordenação Feminina, embora não indique que venha a acontecer uma crise como em outras Províncias.

Embora estas duas dioceses não ordenem mulheres ao sacerdócio, a Igreja Anglicana da Austrália é um caso emblemático acerca da inclusividade, pois, juntamente com a Igreja Episcopal dos Estados Unidos e a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, foi uma das primeiras Províncias da Comunhão Anglicana a aprovar a ordenação feminina, em 1992. Anos depois, em 2008, a Diocese de Perth consagrou a primeira bispa anglicana da Austrália, Kay Goldsworthy. E em agosto de 2017, os delegados conciliares da Província da Austrália Ocidental elegeram-na como a primeira arcebispa⁵ da Igreja australiana. Entretanto, a decisão não foi aceita por toda a cúpula da Igreja. Em uma declaração que representa uma visão conservadora e que acentua as posições dessa parte da Igreja, o bispo Gary Nelson, da Diocese Noroeste da Austrália (vinculada à Província da Austrália Ocidental), disse que não reconheceria a jurisdição da nova arcebispa, uma vez que não concordava teologicamente com a ordenação feminina nem com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, posições defendidas por Kay Goldsworthy.

Kay conhece minha posição como um evangelical conservador que não vemos na Bíblia como permitindo mulheres em posições como liderança de igrejas. [...] As escrituras estão dizendo em vários lugares que posicionam para liderança na Igreja que Deus deu aos homens, não às mulheres. Deus se opõe a isso, portanto eu sou contra (THE WEST AUSTRALIAN, 15 fev. 2018).

Por fim, é necessário também falar da militância da Fraternidade de Confessantes Anglicanos na América Latina a partir da Igreja Anglicana do Cone Sul da América e, mais recentemente, pelo surgimento da Igreja Anglicana no Brasil. A primeira denominação teve papel fundamental no processo do realinhamento global, através do


⁵ Atualmente a Igreja Anglicana da Austrália é liderada pelo Primaz Phillip Aspinall, Arcebispo de Brisbane. Por conta de sua extensão territorial, a Igreja australiana é administrada por um sistema arquiepiscopal, sendo dividida em Províncias compostas por Dioceses, cujos bispos estão subordinados aos seus metropolitas. A Província da Austrália Ocidental é composta pelas dioceses Noroeste, Bunbury e Perth, da qual saiu a eleição da bispa Kay para ser arcebispa daquela Província.


bispo Gregory Venables no início dos anos 2000, especialmente quando se desenvolveram as tensões entre o bispo Robinson e a Província Brasileira.

Como consequência da articulação entre os dois bispos, o cisma que fragmentou a Diocese Anglicana do Recife acabou originando uma Província ligada à GAFCON nesta região. Esta questão será analisada de modo mais aprofundado no capítulo seguinte, no qual apresentamos um estudo de caso sobre a Diocese Anglicana do Recife e os episódios que culminaram com a crise promovida por seu bispo diocesano, os quais impactaram profundamente a Província brasileira da Comunhão Anglicana e colocaram a capital pernambucana como um centro estratégico – ainda desconhecido pelo público em geral, mas relevante em termos geopolíticos – nas relações eclesiais que ainda estão em disputa no seio do Anglicanismo mundial.


IGREJA ANGLICANA NO BRASIL

A Igreja Anglicana no Brasil (IAB), anteriormente conhecida como Diocese do Recife, é uma das principais denominações anglicanas brasileiras, tendo surgido a partir de um dos cismas mais significativos da história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e do Anglicanismo mundial. O nome de três bispos está intimamente ligado à sua origem, consolidação e expansão, respectivamente: dom Robinson Cavalcanti, dom Miguel Uchôa e dom Márcio Meira.

A visão de Igreja Anglicana, orientada a partir de três marcas – evangélica, ortodoxa e socialmente relevante –, surgiu a partir da missão e liderança promovida por Robinson Cavalcanti. Nascido em 21 de junho de 1944, na cidade do Recife, foi criado em União dos Palmares, interior de Alagoas. Durante a sua juventude, Robinson teve contato com diferentes tradições religiosas até se firmar como membro da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, freqüentando a paróquia do bairro de Casa Amarela, no Recife.

Formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tendo militado na Aliança Bíblica Universitária (ABU) e se envolvido ativamente com o movimento evangélico no Brasil. Ao longo da vida, teve forte atuação tanto no meio acadêmico tanto como professor quanto religioso, sendo uma das figuras mais influentes do Anglicanismo no país, sendo também um autor prolífico⁶.

Robinson foi ordenado ao diaconato em 1894 e ao presbiterato em 1985 na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, onde teve significativa carreira, sendo eleito bispo da Diocese Anglicana do Recife. Em uma grande cerimônia realizada em 05 de outubro de 1997, no Teatro Guararapes, na capital pernambucana, dom Robinson Cavalcanti se tornou o primeiro bispo do Nordeste da Comunhão Anglicana. Desde o início de seu ministério episcopal, sua postura teológica foi


⁶ No total, Robinson Cavalcanti escreveu 13 livros: Cristo na Universidade Brasileira? (1972); Uma benção chamada sexo (1975); Cristão, esse chato (1978); As origens do coronelismo (1984); Cristianismo e Política: teoria bíblica e prática histórica (1985); Igreja – Comunidade da Liberdade (1987) e Igreja – Agência de Transformação Histórica (1989) – depois publicadas juntas sob o título Igreja: um lugar de transformação e liberdade (2005) –; Libertação e Sexualidade: instinto, cultura e revelação (1990); A utopia possível: em busca de um cristianismo integral (1993); A Igreja, o País e o Mundo (2000); Igreja – Multidão Madura: construindo uma Diocese Anglicana (2001); Reforçando as Trincheiras: análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico (2007); e Anglicanismo – Identidade, Relevância, Desafios (2009).


firmemente alinhada ao anglicanismo ortodoxo e conservador, com ênfase na autoridade das Escrituras, na centralidade de Cristo como único Salvador, e na manutenção da ética sexual tradicional cristã. Essas posições começaram a contrastar fortemente com a crescente abertura da IEAB a pautas progressistas, especialmente no campo da inclusão de pessoas LGBT na vida plena da igreja, inclusive no ministério ordenado.

Como anglicanos, e como cristãos, estou certo de que todos queremos ser uma Igreja e não uma seita. Um espaço aberto, plural, e em constante renovação, e não um gueto estéril e uniformizante. Preocupa-nos influências estranhas ao anglicanismo (CAVALCANTI, 2001, p. 22).

A tensão se agravou a partir de 2003, especialmente após a ordenação de outro Robinson ao episcopado pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos (TEC). A eleição do bispo Gene Robinson, um homossexual assumido, repercutiu em toda a Comunhão Anglicana, e, de modo especial, no Brasil, através da posição mais conservadora à época, da Diocese Anglicana do Recife. O evento gerou uma crise internacional e a IEAB se posicionou de modo solidário à decisão da TEC, entendendo-a como coerente com os princípios de inclusão e justiça. Robinson Cavalcanti, por sua vez, rejeitou veementemente essa orientação, afirmando que ela feria a doutrina bíblica e representava um rompimento com a fé histórica da Igreja. O bispo do Recife teve o apoio de boa parte do clero e das comunidades diocesanas.

Entre 2004 e 2005, as tensões atingiram seu ápice. Dom Robinson liderou um grupo dentro da Diocese do Recife que se opôs abertamente às resoluções do Sínodo Geral da IEAB, declarando que permaneceria fiel ao Anglicanismo ortodoxo e não reconheceria decisões consideradas heréticas. A IEAB reagiu rapidamente: em janeiro de 2005, o Conselho Executivo do Sínodo da IEAB declarou a deposição de dom Robinson Cavalcanti do ofício episcopal, acusando-o de insubordinação e quebra da comunhão eclesiástica.

Robinson, por sua vez, considerou o ato nulo e sem valor, por julgá-lo juridicamente e canonicamente inválido. Ele manteve-se como bispo junto à maioria das paróquias, criando uma nova jurisdição diocesana chamada Igreja Anglicana – Diocese do Recife (IA-DR).


PARTE II

MOVIMENTO CARISMÁTICO E DE CONVERGÊNCIA


INTRODUÇÃO

A origem do Movimento Carismático é bastante complexa, deixando uma marca única na história do Cristianismo. Um dos marcos de sua fundação é a ligação entre movimentos distintos: a Renovação Carismática Católica e o Movimento Carismático no Anglicanismo, de modo que não é possível dissociar a influência de ambos para o crescimento desse fenômeno e suas diferentes manifestações no Cristianismo. A troca de experiência entre os grupos que dele surgiram foi fundamental para a rápida expansão e o estabelecimento de bases ecumênicas entre as Igrejas em que ele se manifestou.

No Anglicanismo muitas paróquias da Igreja Episcopal dos Estados Unidos começaram a organizar grupos de oração voltados para os dons do Espírito, e seus párocos passaram a pregar de maneira entusiasta, manifestando fenômenos como a glossolalia durante os ofícios. Um desses acontecimentos mais notáveis se deu em uma celebração dominical, no dia 03 de abril de 1960, na Paróquia de São Marcos, na Califórnia, depois de uma homilia do reverendo Dennis Bennett, quando este anunciou que ele e seus paroquianos começaram a falar em línguas.

A Igreja indicou uma comissão para avaliar o impacto do crescimento do movimento carismático na Diocese da Califórnia. Mas o resultado foi que, em termos gerais, em outras paróquias e em outras dioceses, surgiram manifestações desse tipo. Na década de 70 surgiram os movimentos do Cursilho e do Fé Viva que também ajudaram a espalhar o surgimento do entusiasmo evangelical através da Igreja. E nesta década, cada diocese episcopal tinha ao menos uma paróquia que se declarava a si mesmo como renovada. O movimento carismático cresceu cada vez mais e passou a tomar uma dimensão social. Muitos evangélicos e episcopais carismáticos tornaram-se ativos em suas comunidades, alimentando os famintos e trabalhando com os sem-teto. (OLIVEIRA, 2017, 136).

A partir de então, estas práticas passaram a ser cada vez mais difundidas não somente na Igreja Episcopal, chegando a alcançar também a Igreja da Inglaterra.

Nos anos 60 do século XX, em alguns países e denominações (batistas, presbiterianos, metodistas, congregacionais) veio a se dar o Movimento de Renovação Espiritual, que as divide institucionalmente entre “tradicionais” e “renovados” (os que aceitam os princípios pentecostais). Nos anos 70 ocorre o Movimento de Renovação Carismática, que, no caso do Anglicanismo inglês, se dá em sua ala Protestante, com figuras como os Reverendos Michael Harper (então Coadjutor do Rev. John Stott, na Paróquia de All Souls) e David Watson, um evangelista itinerante. A permanência no interior da instituição, uma visão menos legalista e uma visão menos centrada na glossolalia, diferenciam esse “carismatismo anglicano” dos seus congêneres pentecostais, embora se reconheça seu impacto na consagração de vidas, na flexibilização e inculturação litúrgicas e no fervor missionário (CAVALCANTI, 2009, p. 104).

Nos idos de 1960, uma leiga presbiteriana chamada Florence Dodge passou a organizar um grupo de oração carismático em sua casa, em Pittsburg. Possivelmente, através do contato com o movimento carismático nascente na Igreja Episcopal, ela teve a experiência que chamam de “Batismo do Espírito Santo”, que, dentre os fenômenos, dizem os seus adeptos que incentiva a pessoa a uma vida espiritual mais profunda e a manifestação de “dons” como o “falar em línguas”. Uma das freqüentadoras do grupo, Betty Schomaker, que

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