Maioridade Nacional Civil e Religiosa
Maioridade Nacional Civil e Religiosa
Este é um dos documentos básicos dos Principios Fundamentais do Catolicismo Salomonita, onde Dom Salomão Ferraz faz a fudamentação do conceito de maioridade nacional civil e religiosa do Povo Brasileiro para assumir a Autonomia da sua Igreja no País. - Dom Felismar Manoel – Bispo Primaz da ICAI-TS (Natal de 2010)
Salomão Ferraz
Maioridade Nacional Civil e Religiosa
Conferencia pronunciada na Capital Federal, no 119º aniversario da Independência, 7 de setembro de 1941
Rio de Janeiro 1941
Tributo de Honra à memória de Diogo Antonio Feijó O inclito estadista que viu a realidade nacional em seus vários aspectos de religião e civismo, de liberdade e honra, como fanal que mostra o caminho da paz
Introdução
É veso, em certos círculos, chamar a capitulo os movimentos liberais do mundo moderno, como os únicos responsáveis pela desintegração social da época. E lembram, então, como contraste, os áureos tempos da idade média, com o seu apogeu em Inocêncio III e Gregório VII, e os seus últimos arrancos salvadores no Concilio Vaticano¹ e sob Pio IX, que condenam, in limine, o “livre exame” a liberdade de consciência, as democracias e proclama os dogmas da infabilidade papal como a grande tábua da salvação. Não resta duvida que há uma falsa liberdade, uma falsa democracia. Com o estigma degradante de “liberalismo”, isto é, a liberdade sem Deus, sem fé, sem ideal transcendente.
Mas o que de em geral se esqueceu os incondicionais acusadores do liberalismo, é que existe um autoritarismo igualmente pagão, absorvente, que transfere para o homem as prerrogativas de Deus. A divinização da autoridade humana, a maneira dos Césares de Roma, é tão pagã como o liberalismo indigitado, são como Cilas e Caríbides², em um e outro dos extremos, que ocasionam desastres. É como o “nazismo” hoje, que pretende salvar do “comunismo” a civilização “cristã”.
Nessa conferência não se pretende combater os males do cesarismo religioso com a panacéia de qualquer liberalismo, e, mormente, no sentido pejorativo atribuído ao termo hodiernamente, só há uma soberania absoluta e legitima: a de Deus.
Recai-se na apostasia e na confusão sempre que se pretende transferir-se a soberania de Deus para o homem, seja ele o representante da Igreja ou do Estado, ou o próprio povo diretamente.
Toda a sorte de soberania usurpadora tem sido experimentada, as dos Césares de Roma, a dos papas, a dos chefes de estado, a do povo e a dos indivíduos. O homem necessita de alguma soberania, visto que o regime “anárquico”, a ausência de toda e qualquer soberania, é impossível. O papado, com o andar dos tempos, veio a ocupar o lugar do cesarismo pagão, copiando-lhe os moldes e deixando-se eivar do mesmo espírito. Contra o poderio do papa surgiu a Reforma, especialmente na sua forma luterana, que transferiu o regime absoluto aos Príncipes regionais, com a sua forma clássica: “Cujus régio, ejus religio”. Procurando fugir de um e de outro destes termos, mas sem elevar-se do plano meramente
¹ Concilio Vaticano I, 1869-1870, promulgou o Dogma católico romano da Infabilidade Papal (Nota do Pe G) ² Cilas e Caríbides, seria como dizer: “Pular da frigideira e cair no fogo” (Nota do Pe G)
humanista, rompe a Revolução Francesa, criada pelos Enciclopedistas, proclamando a soberania do povo, o povo-rei, como a medida de tudo, e a vida presente, no planeta, como a única aspiração a ser alcançada.
Contra o predomínio papal de usurpação ergue-se o luteranismo, de que resultou a moderna “estatolatria”, que a Revolução Francesa, com a sua miopia e seus erros, concorreu para agravar. E a sociedade moderna, baseada no poder do ouro, tem sido o regime da plutocracia egoísta, com todas as chagas morais e sociais que resultam de um poderio sem fé, sem ideal, sem luz, sem norte, sem destino, a debater-se na lama e na escuridão.
Entre os grandes condutores do pensamento moderno, houve um que, como píncaro agudo, arrojado e rígido, erguendo-se acima dos demais, deixa a sua sumidade perder-se nas nuvens do infinito. Em que pese aos que só querem enxergar o erro e o mal da Reforma Protestante, e só descobrem a fé, a verdade e o bem alhures, cometer-se flagrante injustiça, se se deixasse passar em silencio um dos grandes vultos em conexão com a Reforma, e que foi a maior mentalidade religiosa e social de seu século. João Calvino, sustentando a sua tese fundamental da “soberania de Deus”, oferece realmente a chave que abre para a verdadeira ordem social, que não despreza o homem, que não despreza o povo, que não despreza a autoridade civil e religiosa, que não despreza as luzes do saber humano, nem mesmo os bens da vida, mas que coloca o centro de tudo diretamente em Deus. Não se quer com isso endossar todas as conclusões particulares que o próprio Calvino procurou tirar de sua tese invulnerável, e menos ainda todas as suas atitudes pessoais como chefe civil e eclesiástico.
De qualquer forma que se pense acerca do homem de Genebra, ninguém jamais poderá escurecer o brilho celeste que sua mente acendeu para nortear os passos dos homens sobre a terra, quer como individuo, quer como parte do corpo social. Só há uma soberania legitima, sem sucedâneos, e fora da qual não há ordem, não há estabilidade, não há paz, não há liberdade, e sem a qual não pode subsistir a razão de ser da vida e a própria alegria de viver: é a sabedoria de Deus, ο Reino de Deus impetrado na Oração Dominical: “Venha o Teu Reino”. Como que cada geração necessita de que se lhe repita de novo aos ouvidos o som das trombetas do Sinai, lembrado por Nosso Senhor ao doutor da Lei que lhe perguntava acerca do primeiro e grande mandamento: “Ouve, ó Israel, ο Senhor é Nosso Deus, o Senhor é Um Só” (Mc 12,29).
Tal é, em súmula, a tese defendida na presente conferência.
Mas alguém poderá objetar que a tese exige dos homens uma coisa que eles não têm: falta-lhes precisamente a fé. E por isso, em vez de se procurar restaurar na vida individual e social uma fé que se perdeu, pretendem segurar o mundo com algemas e grilhões, à maneira do endemoniado Gadareno³. Porem, o desgraçado possesso, como diz a Escritura, quebrava todas as prisões, com sua força descomunal de
³ Cf. Mc 5. Nota PE G.
energúmeno, e ninguém o podia reter preso. Porém, quando Cristo restaurou-lhe as faculdades, ele aprendeu o verdadeiro regime dos homens que sabem reger-se por si próprios, pela luz da razão saneada pela fé.
É preciso lembrar que o Reino de Deus, impetrado na Oração Dominical, e que é missão da Igreja implantar no mundo, consta dos seguintes elementos essenciais:
É o regime da fé – fé absoluta em Deus, fé nos homens, fé na finalidade transcendente do homem, como individuo e como espécie. É o regime da verdade. É o regime da justiça social. É o regime dos homens livres e dos povos livres, e da única ordem social compatível com a dignidade da natureza humana restaurada. “Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um Só”.
O fenômeno de “nacionalismo” é da categoria dos fatos de ordem natural e que, como os demais, pode ser um bem ou um mal, consoante o uso que dele se fizer. E será certamente uma benção, se for conduzido no espírito de devoção a Deus e de responsabilidade para com os homens, que só podem ser devidamente entendidos, não em multidão infinita, mas repartidos racionalmente em grupos limitados, ao exemplo oferecido pelo Senhor no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Pois reza o Evangelho que o Senhor, antes de benzer e repartir as provisões fez o povo assentar-se em “ranchos” de cento em cento e de cinqüenta em cinqüenta, uns maiores e outros menores nem grandes demais nem excessivamente exiguos.
Assim é o plano de Deus que a humanidade seja dividida em nações, sem os excessos do poderio babilônico, e sem a insignificância dos agrupamentos minúsculos.
Servir, pois, à nacionalidade, sem fins egoísticos, mas para a gloria de Deus e o bem de toda a espécie humana, é um imperativo tão claro como o de cada homem no tocante à sua própria personalidade, para cultivá-la e desenvolver-lhe as aptidões para o serviço social.
E um nacionalismo robusto, são, sem paroxismos doentios, só pode crescer à sombra do Evangelho na sua limpidez apostólica.
Em um país novo, ainda em formação, convém a máxima vigilância com os elementos que lhe vão sendo integrados na estrutura social, na estrutura étnica e, sobretudo, na estrutura mental.
Mera afirmação de nacionalismo, sem discernimento, sem ideais alevantados, sem a visão do espaço universal e transcendente da vida, que só a fé pode dar – leva ao desastre, ao caos, ao descalabro. Mas uma saudável afirmação nacional, com Cristo, e por amor de Seu Reino universal, de fé, de amor, de fraternidade ecumênica e a verdadeira liberdade, que é fruto da disciplina e o prêmio dos valores – é o supremo dever do momento.
Um organismo sadio, forte, exuberante de vida, é o que exerce normalmente as duas funções primaciais – a assimilação e a eliminação. Há elementos vitais que devem ser assimilados, e toxinas que é preciso remover. Há valores novos que são os velhos valores esquecidos – que devem ser integrados na vida nacional, e há velhas toxinas, verdadeiros corpos estranhos, que devem ser extirpados, com pulso firme e certeiro.
A argúcia do esculápio não se deixa persuadir de que algum elemento estranho entra a fazer parte do corpo, pela única razão de que conseguiu instalar-se nos centros vitais ou misturar-se com a própria massa do sangue. Ele distingue perfeitamente uma coisa da outra e procura debelar o mal ou por meio de re-agentes ou por um regime adequado, ou, em certos casos, pela impávida aplicação do bisturi. Mas, note-se bem: o bisturi do sábio, e não a foice devastadora de energúmenos sociais.
Se a presente conferência representa, de alguma sorte, algo apreciável para firmar legitimas diretrizes nacionais, é o que dirão os que a ouviram, no Dia da Independência, na Capital Federal⁴, é os que a virem, agora, na forma em que se apresenta ao publico.
S. F.
MAIORIDADE NACIONAL CIVIL E RELIGIOSA
Senhores!
Ao encetarmos, na Capital da República, uma obra religiosa de que a outrem, mais do que nós, deveria caber a iniciativa, como era de esperar, temos a convicção de que cumprimos um dever – iniludível dever que о
⁴ Rio de janeiro, então capital Federal. Nota de Pe G.
momento da Pátria e do mundo impõe a todo o homem que pensa e que procura nortear-se pela luz que vem de cima. E, sobretudo, nos penhora e conforta, nessa ocasião, a presença de personalidades de escol, que acodem, com solicitude, aos temas dessa ordem – lídimos expoentes, da imensa colméia da vida, de pensamentos e ação, e que se agita à sombra destas montanhas, com seus píncaros agudos, braços erguidos para o céu, ou estendidas, graves, como bustos gigantes curvados em oração; onde as obras de arte humana, por mais que avultem por mais que ostentem suas galas, ficarão sempre dominadas pelo céu e a natureza. Ambiente privilegiado, que predispõe aos altos pensamentos, aos grandes ideais destinados a tocar em seu âmago a vida, e firmar-lhe seguras diretrizes. Sitio singularmente sugestivo, em que o céu e a terra se encontram, e os homens são convidados a olhar para o alto, para o alcantil das montanhas, e, por cima delas, para o sol que ilumina a Pátria e lhe deixa ver a senda clara de uma especifica função espiritual, mais do que puramente material, no concerto dos povos.
Pois no meio de toda a brutal exibição de força, em nossos dias, em escala sem precedentes na historia da raça humana, ameaçando converter o humano em caos, em mar de fogo e sangue, tempo é, mais do que nunca, de se aprestarem os ouvidos aos ditames da verdade – que sem subterfúgios, sem evasivas, sem respeitos humanos. Só a verdade é que salva os homens e as nações. “Faça-se a luz”.
E apresentando hoje essa mensagem, destinada ao grande publico, na Pátria e além de seus limites, temos a consciência de que falamos a um povo que entende, e em cujo íntimo, honesto e bom, a sementeira da verdade não se faz em vão.
Brasilidade
Sentimo-nos feliz, hoje, com o ensejo que se nos oferece de falar a um auditório desta ordem, em um ambiente de brasilidade marcada, sadia, que soube traçar os seus próprios rumos, no espírito do Estado Novo, e que reclama, na esfera religiosa, uma mentalidade paralela, do mesmo tom, afinada ao mesmo lamiré de sentimentos cívicos e de responsabilidade nacional.
Há uma cerimônia religiosa que muitos apreciam, e não sem razão. É a solene instalação, no lar, de um quadro que representa Jesus com o Seu Sagrado Coração exposto. Motivos somente de louvor, em um gesto que
sugere a grande verdade que Jesus é amor, amor divino, transbordante, amor que redime e salva eternamente.
Cristo é Luz
Mas há também um outro aspecto essencial de Cristo, que convém levar em conta: é que ele igualmente é pensamento, é a verdade, é luz, o Verbo de Deus, por excelência. É amor, é calor, é afeição, mas é luz também. Cristo é também mentalidade, é celebração vigorosa. Mero calor, sem luz, é como um barco com potentes máquinas propulsoras, mas sem bússola, sem leme, ou sem piloto.
Importa, pois em tudo, conhecer a mente de Cristo, o seu pensamento, a sua orientação. E por isso ele é chamado a “luz do mundo”. Não basta sentir a alma de Cristo; é preciso pensar com a mente de Cristo, ter a visão de Cristo, e tomar as diretrizes que ele de uma vez para sempre traçou para os homens.
Cristo é coração, não há negar; mas também é luz, é energia criadora e construtiva. Cristo é tudo. Nada, pois, que de alguma sorte pretenda usurpar o lugar supremo que lhe cabe na vida do individuo, na vida dos grêmios humanos e na vida universal.
E por isso é que julgamos de máxima importância o tema que versamos. E pedimos que ninguém tome as alusões que fazemos a um ou outro dos povos, hoje em luta, como se o tivéssemos na conta de único culpado ou responsável pela situação trágica do mundo. O mal é de ordem geral, e devem ser as suas causas procuradas na generalizada opostas dos valores morais e espirituais, de que todos são culpados, sem excetuar a própria religião organizada.
E Deus nos ajude, para que, pensando com clareza, saibamos também agir com firmeza, no rumo que a Providencia nos apresenta, e que a fé nos diz ser o Único que leva ao salvamento.
O Poder da Palavra
Grande é o poder da palavra, especialmente a palavra da verdade que ilumina a alma, dissipa as sombras, levanta as forças abatidas e revela aos homens a rota do seu destino. Para que havemos nós de ir, Senhor? diziam pela boca de São Pedro os discípulos – se Tu tens as palavras de vida eterna, e nós temos crido e conhecido que Tu És o santo de Deus? As palavras de Cristo são, efetivamente, as palavras de vida, e vida eterna. Porem o poder da palavra cresce, avulta, assumindo as proporções de um peso tremendo, quando proferida em certas conjunturas. As palavras de um homem bom, ao registrar a sua última vontade, à frente de um notário, na presença de testemunhas de escol e na perspectiva de um
túmulo e do juízo de pósteros, à vista do juiz supremo e da eternidade, são de um valor imenso, incalculável.
Tais são as Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, proferidas naquela noite memorável da primeira Eucaristia, no Cenáculo, na véspera de Sua morte, e a vista de Sua obra futura, mediante os discípulos e Sua Igreja através dos séculos. As suas sentenças, nesta ocasião, levantam-se cada uma de per si, como verdadeiros padrões de luz, de poder e vida para os homens, e especialmente os que invocam o Seu Nome no seio da santa Igreja.
Há, nos grandes centros urbanos, uma repartição especial, destinada a aferição de pesos e medidas, para coibição de abusos ou de simples enganos do povo em suas relações comerciais.
Pois bem, pelas palavras de Cristo, no Cenáculo, devem ser igualmente aferidos e constantemente retificados os nossos conceitos no tocante as numerosas questões em que se debatem os homens, inclusive os próprios cristãos, e especialmente estes, para os quais a palavra do Mestre é sagrada e decisiva.
E entre as palavras do Senhor, proferidas no Cenáculo, em momento tão sério, tão grave, encontramos uma frase que diz tudo, e que define, em síntese admirável, a relação dos fiéis para com Ele e o espírito das suas relações uns com os outros. Oh, se as palavras de Cristo fora sempre ouvida e devidamente ponderada! Quantos males evitados! Quantos enganos desfeitos! Quanto atrito eliminado! Quanta nuvem dissipada! Quanta paz e harmonia entre os cristãos! Quanta benção sobre o mundo!
Tronco e Ramos
A grande Palavra do Senhor, nesta ocasião, e que desce como um clarão divino a iluminar todo um labirinto de confusão em que se debatem os homens, sem achar saída, e mesmo os próprios crentes, é simplesmente esta, que se encontra no capitulo quinze e versículo cinco do Evangelho de São João, e em que Nosso senhor diz: “Eu Sou a videira, vós sois as varas”.
Poucas palavras, na verdade, mas que dizem tudo, e apontam, qual um farol, o verdadeiro caminho, o caminho da fé, o caminho da luz, o caminho da paz e da ordem, o caminho de Deus e da vida.
“Eu Sou a videira, vós sois as varas”.
E o que disse Nosso Senhor, então, aos seus discípulos, no Cenáculo, é o que Ele continua a dizer sempre, em todo o lugar, a cada crente, a cada grêmio de cristãos. Ele é o tronco, por onde corre a seiva da videira. A nenhum dos Seus Apóstolos Ele transferiu as Suas prerrogativas de tronco da videira; todos eles, sem exceção, são sarmentos, são varas de videira.
O grande erro dos séculos tem sido o de pensar que o senhor conferiu a um dos Seus apóstolos, a Pedro, por exemplo, o privilegio de se tornar tronco, em lugar dele. O tronco é somente ele; Apóstolos, ministros e fiéis, todos são ramos ligados diretamente à verdadeira Vide. Quando meros ramos presumem de se haverem em se transformado em tronco, de modo que ninguém pode ter vida espiritual a aceitação com Deus, a não ser por intermédio deles, detentores, como se julgam, de singulares regalias, é visível então o espírito de idolatria e usurpação, contra o qual o Apostolo são Paulo, já nos dias primitivos, advertira os próprios fiéis em Roma: “Não te vanglories contra os outros ramos. Se te der vontade de vangloriar-te, lembra-te que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz que te sustenta a ti. Não te ensoberbeças, pois, mas enche-te de temor” (Rm 11,18-21).
Usurpação e Seus Efeitos
Incontáveis são os males que têm sobrevindo a Igreja, às nações, por via de ramos que querem passar como tronco; como se Nosso Senhor nada mais pudesse fazer sem eles; como se Nosso Senhor não fosse mais do que um galho deles! Eles é que são o tronco; ninguém pode pertencer a Cristo, sem ser subordinado a eles. Sem eles como alguns dizem até abertamente – Cristo não é nada; não há Igreja; não há Sacramentos válidos; não há verdadeira religião; não há virtude aceitável. Cristo afirmou de um modo absoluto: "Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu Nome, aí estou Eu no meio deles”. Mas eles acrescentaram uma clausula restritiva às palavras peremptórias de Cristo: “Se tiveram a nossa permissão”!
Tal é o espírito de usurpação, o espírito de predomínio e idolatria. É o transferir para o homem, como individuo ou como grêmio, uma soberania que só pertence a Cristo. E daí o espírito de escravidão, endossante de todas as ditaduras.
Escopo da Obra Religiosa
A verdadeira obra religiosa, no espírito apostólico, é a de ligar as almas diretamente a Cristo. A mediação do homem é precária, é transitória: é um simples ministério. Criaturas humanas amarradas umas as outras, em feixes, é obra humana, terrena, e não a verdadeira obra espiritual que faz de cada alma uma verdadeira vergôntea ligada diretamente ao tronco vital, que é Jesus Cristo. A união dos homens uns com os outros é por intermédio do Cristo, o tronco comum, e não por serem atados artificiosamente uns aos outros.
Nunca é demais denunciar o espírito de usurpação, em que meros servos e dispenseiros se arvoram em senhores ou consignatários exclusivos. E daí as disputas infindáveis, em que ninguém mais se entende.
São Pedro, na casa do Centurião Cornélio, no seu memorável discurso de instrução religiosa, proferiu uma sentença de incalculável alcance espiritual e prático. Ao referir-se a Jesus Cristo, assim disse o Apóstolo:
“Este é o Senhor de todos”. O direito do senhorio e de donos não pertencia ao Cesar de Roma, nem ao Apóstolo, nem ao Centurião ali na Sua presença, nem a qualquer grêmio político ou religioso: pertencia a Jesus Cristo. Ele é o Senhor de todos. Esta é a palavra que deve ser sempre repetida, em todos os tons, em todas as conjecturas, sempre e em toda a parte, em virtude de ser a palavra que mais facilmente os homens esquecem ou desvirtuam-lhe o sentido. De nada serve repudiar a soberania absoluta do poder civil do Estado, para firmar a do Papa; repudiar o poderio papal, para formar o do próprio grêmio estreito, farisaico, exclusivista; ou pretender sacudir todo jugo de humano poderio, apara afirmar o do próprio individuo, para ser o senhor de si mesmo, como pretende, e assim tornar-se dono dos outros.
Fora do domínio espiritual e moral de Cristo só há usurpação, tirania, escravidão. “Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”.
Alguém poderá interpelar-nos: Que mal pode haver em se receber a seiva de vida de algum dos ramos, pensando receber diretamente de Cristo; porventura o ramo não está ligado diretamente a Cristo, recebendo dele a seiva? Qual o inconveniente? Não é até mais pratico? Pois o ramo é algo visível e palpável, e Cristo é invisível. É mais fácil crer em um ramo que se vê, e nele arrimar-se, do que num Cristo que se não vê.
É precisamente aqui o ponto a que queremos chegar. Há uma serie infinda de males, muito graves, que resulta de considerar-se o ramo como tronco.
Insegurança e Incerteza
A primeira conseqüência, resultante de uma tal usurpação, é o senso de incerteza e insegurança que se infiltra nas almas. O tronco é puro, é santo, apontando sempre para o alto, ao passo que os ramos estão geralmente eivados de impurezas – galhos secos ou fraquejados de erva de passarinho. O que garante a realidade da vida espiritual é Cristo, o tronco, e não propriamente os ramos. Só pode haver uma vida cristã exuberante, livre, forte, vitoriosa, quando se possui a consciência da direta união com Cristo. Não pode haver sofismas aqui, em que pese a pretensão de certos ramos da Igreja, alguns velhos e outros novos, de serem eles, que não outros, o verdadeiro tronco da sagrada oliveira.
Verifica-se, não raro, um fenômeno esquisito: o de pessoas de religiosidade intensa, empenhados em atividade febril na igreja, e que de um momento para outro arrefecem e se deixam tomar de pessimismo, quando não caem em absoluta descrença. É que não tinham o senso de sua união direta e profunda com Cristo, como a fonte suprema de luz e vida, e por isso na primeira experiência em contato com os galhos secos ou doentes, desertam de sua posição.
O Desequilíbrio
Em segundo lugar, o ramo tomado como tronco faz perder o senso de equilíbrio, de paz e de unidade entre os homens. Oriente e Ocidente separam-se religiosamente, há séculos, apenas porque uns e outros se tinham na conta de verdadeiros troncos da árvore sagrada, esquecidos do tronco comum da unidade e vida que é Cristo. Não pode subsistir unidade universal em torno de meros ramos, por mais vigorosos que pareçam. Ramos, pela sua própria natureza, estendendo-se em diversas direções. O que faz a unidade é o senso vivo do tronco comum, que é Cristo. O papado, como tal, não pode ser o verdadeiro senso de unidade cristã, e nem tampouco o Patriarcado ortodoxo de Antioquia, nem qualquer outro lugar. O que reúne as almas e os grêmios humanos é Cristo diretamente. “Eu Sou a videira, vós sois as varas”. Fora daqui, somente rivalidades, confusão, anarquia, e o terreno preparado da impiedade.
O Homem Livre
Uma outra consequência da natureza funesta, resultante de ser o ramo considerado como tronco, é a de apagar-se a noção cristã do homem livre. O ramo, em lugar do tronco, faz o homem perder inteiramente o senso da soberania de Deus, para reconhecer apenas a sabedoria do grêmio e ou de seu chefe. Forma-se então a mentalidade gregária, em que os valores individuais se apagam e se anulam, para prevalecer somente o valor do grêmio e dos homens em massa. O efeito não é a elevação moral e espiritual do homem, mas a sua degradação, o seu aviltamento, eo terreno preparado para os sistemas políticos de escravidão. O homem não pertence mais a Deus, pertence ao grêmio. A sua responsabilidade não é mais para com Deus, mas para com o grêmio. A idéia de dever para com o próximo, no sentido em que cada criatura humana, de per si, merece o maximo respeito, pela imagem de Deus patente ou latente na sua fronte, não existe para o homem que hipotecou todo seu respeito, todo seu culto e veneração somente ao grêmio, como se o grêmio fosse o equivalente de Deus. Em tais condições, não existe mais o homem livre, nem instituições livres, e menos ainda uma Pátria livre.
Mentalidade Babilônica
Porém a mentalidade que subsiste o tronco dividido pelo ramo tem ainda um outro resultado, e não menos fatal à vida dos homens como indivíduos ou entidades coletivas. É a criação do espírito babilônico de megalomania, que só dá crédito às coisas de proporções ciclópicas, a colossal igreja, o grande império, a grande basílica, os formidáveis agregados humanos. O pequeno grêmio formado por indivíduos de retas intenções para os fins de Cristo, a consciência individual, o valor pessoal tudo se arrasa perante a mentalidade de Babilônia, inteiramente oposta ao espírito do Senhor, que se compraz nos pequeninos agregados humanos formados com retos intúitos: “os dois ou três reunidos em Meu Nome”, “Não temeis, ó pequenino rebanho”, e ainda: “Vede não desprezeis a um desses pequeninos”. E, sobretudo em flagrante desacordo com o espírito do Mestre, do qual diz o profeta: “não esmagará a cana quebrada, nem apagará a mecha que fumega”.
A mentalidade babilônica não crê nas pequeninas empresas com alevantados intúitos, despreza os pequeninos agregados humanos, não leva em conta as nações pequenas e fracas, não crê no homem livre. Só crê nos grandes impérios e no colossal sindicato. Só crê nos latifúndios e nos seus donos, a amizade dos quais procura com todo o empenho. Não crê no camponês, não crê no operário, a não ser para arregimentá-lo a serviço dos grandes potentados.
E bem sabeis, senhores, o que isso significa: significa a mentira, a opressão, a tirania, o aviltamento, a bestialização humana, com o apodrecimento e a gangrena fatal que acompanha todos os amontoados gigantescos.
São Paulo Inspirado!
Tal é, senhores, o espírito de usurpação do mero ramo que quer fazer as vezes de tronco divino, e que tem sido o inspirador de violências, e brutalidades, e opressões, e endossante de todas as ambições humanas ao predomínio universal – em prejuízo da única soberania de Deus, mediante Jesus Cristo, em dano do valor intrínseco da personalidade humana e do verdadeiro espírito social – antítese da mentalidade gregária e que só é possível aos homens livres.
E esse espírito babilônico responde, sobretudo, pela obliteração do verdadeiro senso do universal, o verdadeiro conceito católico, dos homens, do mundo, e da vida, á luz de Deus e da eternidade. É que ele não entende o que seja a fé universal, o amor universal, a fraternidade universal de nações livres, nem a livre unidade universal dos crentes. Só
entende uma forma universal: a de um império político universal no espírito pagão de Babilônia.
E por aí vemos quão inspirado foi o Apostolo São Paulo, alcançando situações futuras, ao advertir os fiéis em Roma contra o espírito de usurpação, em que um mero ramo se apresenta como tronco e raiz da verdadeira árvore da Igreja.
"In Nomine Domine"
Tomando Cristo como centro imediato e direto de vida para almas, o resultado é um senso glorioso de libertação espiritual e de paz interior, que se reflete saudavelmente nas relações sociais. “Benedictus qui venit in Nomine Domine”.
Se dirige diretamente aos seus semelhantes “em Nome do Senhor”, e não pela mediação de prepostos humanos, quer sejam grêmio ou indivíduos com pretensões ao senhorio sobre os homens.
A doutrina de um suposto poderio político conferido por Nosso Senhor a São Pedro, e depois dele aos Bispos de Roma, é mais perniciosa do que a primeira vista se afigura. Significa a sagração de um dos ramos em substituição ao tronco da verdadeira Vide, e as conseqüências não podem deixar de ser funestas. Porque manipular um simples e nobre primado pessoal de amor, de coragem e serviço, qual o que o Senhor confiou a São Pedro, e que ele cumpriu lealmente, e transformá-lo em situação de poderio e tutela absoluta sobre os demais – é passar os limites de Cristo e cair em terreno proibido, o de cesarismo pagão.
A Dosagem
Pois que as coisas são boas e saudáveis, somente quando feitas e usadas na medida, na dosagem própria. O arsênico, por exemplo, é medicamento, um tonificante valioso, mas na devida proporção. Se lhe carregam a dose – ninguém o ignora o efeito é tóxico, é mortífero, é fatal. O mesmo se pode dizer do primado apostólico de amor, de serviço e simples liderança que o Senhor conferiu a São Pedro, como vem conferindo a outros servos Seus, com ou sem tiara ou mitra, em todos os séculos, e que tem servido de pretexto para toda sorte de pretensões exorbitantes, abusivas, puramente pagãs na sua índole, nos seus efeitos.
O Senso Universal
Mas a coisa trágica que se observa, é a existência do mesmo espírito de usurpação em