Mistério da fé I

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Mistério da fé I

Dom Sumio Takatsu2000

Série Liturgia

Mistério da fé I


Introdução

A liturgia é a ação conjunta do povo de Deus. Ela é expressão da comunidade eclesial, da Igreja. A liturgia é uma ação; mais do que discurso; porém, não dispensa a palavra, o discurso, o texto, o canto e a música. Tudo isso faz parte de um conjunto.

Uma das ações fundamentais é a reunião. Sem a reunião do povo de Deus não há liturgia, praticamente. Ela fica só na cabeça, na memória de algumas pessoas. Quando ela se reúne sob a inspiração do Espírito Santo, o que está na cabeça, na memória e no papel se materializa concreta- mente; torna-se uma comunidade viva: como aquele vale de ossos secos transformando-se numa comunidade viva, (Ez. 37). A liturgia é, também, instrumento para a Igreja se tornar viva e visível.

Há, assim, uma estreita ligação entre a liturgia e a Igreja. Pois a ação conjunta do povo reunido, isto é, o ato de se reunir para a celebração dos atos de Deus nas leituras das Escrituras, na proclamação do Evangelho, no ministrar a água batismal, nas orações, na preparação da Mesa, na ação de graças sobre o pão e o vinho, no partir do pão, no comungar, na despedida ou no envio do povo para a missão, traduz o que quer dizer a Igreja (ekklesia); povo por Deus reunido nos confins da terra para o seu serviço, (por exemplo, Is. 43:5; 56:8; Jr. 31:8; Ez. 37:21). Embora seja tedioso ouvir, para quem já sabe, porém, é preciso frisar aqui que a Igreja não é o prédio, mas é a assembléia do povo reunido. Esse povo é sacerdotal (Ex. 19:6; IPe 2:9), habitação do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Jo. 14:23), o templo de Deus e do Espírito Santo e de Cristo, (ICo. 3:16-17; Jo. 2:20; Ef. 2:21). Somos todos admitidos a essa comunidade, ao eterno sacerdócio de Cristo, por meio da água e do Espírito Santo, conforme o nosso Rito Batismal. Assim, todos têm sua parte em função de um só Batismo. Porém, isso não implica em que não haja diferenciação das funções dentro da ação conjunta, em favor da mesma. Há funções diferenciadas de bispos, presbíteros e diáconos, em virtude de sua ordenação. No entanto, aqui se frisa dizer que, todos têm parte na ação conjunta e todos são ministros de Cristo em virtude do Batismo¹. É isso que faz a liturgia ser uma ação conjunta, e não de uma minoria de gente atuante e a maioria de espectadores passivos.


Mistério: contexto geral

Já insinuamos praticamente o que vem a ser o mistério de nossa fé, que a liturgia celebra. Porém, há um ou mais pontos a esclarecer a respeito desse termo mistério. Esse termo é empregado em diversos contextos. Nas novelas, quando o mistério ou segredo é revelado ou decifrado, termina o mistério. Na teologia, o mistério se refere não só à inadequação da linguagem humana para falar sobre Deus, mas também Deus permanece sempre um mistério na medida em que Ele revela Seus planos para com a humanidade e para com toda a Criação. Em outras pala- vras, mesmo em sua total disponibilidade, a tal ponto de entrar na Criação, na história e assumir a "carne" humana e passar por morte de cruz de Jesus Cristo, Ele não se faz "prisioneiro" de nada e de todo esse processo de participa- ção, de oferenda de Si mesmo. Assim, Sua presença, Sua atividade são insondáveis. Essa presença evoca uma profunda reverência, e, ao mesmo tempo, uma profunda alegria, que faz explodir o formalismo, a rigidez e a fossilização da liturgia. Pois o coração do mistério é o Deus que ressuscitou Jesus. Cristo, rejeitado, humilhado e morto. Por outro lado, esse alegria não deve ser uma "lei" no sentido de que todos devem ser alegres da mesma forma, pois, isso iria contra o Evangelho do fardo suave; vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados. Não serão as expressões "calculadas" de alegria, uma obriga- ção de estar alegre um fardo?


Mistério: contexto bíblico

O mistério tem a ver, no contexto bíblico, com a revelação do plano de Deus em Cristo: reunir todas as coisas, criar uma nova humanidade, inclusiva, abrangente, exemplifica-da na "reunião" de povos outrora antagônicos, como Israel e gentios, mediante a derrubada do muro de separação na Cruz de Cristo. É o autor da Carta aos Efésios que nisso insiste (Ef. 1:10; 2:11-22). Neste sentido, Cristo, o Evange- lho, e ministério (Ef. 6:19), o qual estava, outrora, oculto e revelado agora no tempo oportuno de Deus (3:1-8). E o ministério apostólico faz parte da "administração" ou dispensação (oikonomia), na revelação desse plano divino (3:8-9). Também, semelhante expressão aparece na Carta aos Romanos, na forma de doxologia (15:25ss.) e na 1ª Carta a Timóteo. Ali, o Cristo é o mistério de nossa fé e religiosidade (3:16;9). Essa concepção do Novo Testamento tem sua inspiração no Antigo Testamento.

Também há uma outra conexão. O mistério significou, no contexto greco-romano, ritos de iniciação nos mistérios das religiões. Por isso, pensava-se que, no início deste século, a liturgia cristã tivesse sua origem nesses ritos ou pesada influência deles. Sabe-se hoje que a liturgia cristã, principalmente a Eucaristia, tem sua matriz na tradição judaica⁴, embora essa tradição seja complexa e diversifica-da e tenha recebido as influências no mundo em que o judaísmo vivia. Assim, o mistério tem um sentido na Bíblia, e outro no mundo greco-romano. Por outro lado, é importan-te ressaltar que o termo mistério foi aplicado aos ritos ou sacramentos, no processo de diálogo e apologia na era patrística. O resultado disso e da pesquisa contemporânea⁵ é que o ser humano não dispensa símbolos e ritos, e que a Igreja cristã tem recorrido ao padrão ou à estrutura dos ritos, para celebrar o grande mistério do Cristo e da fé, como é dito na 1ª Carta a Timóteo, antes mencionada. O ministério pascal, por exemplo, é a celebração da "adminis-tração" do plano de Deus para a humanidade e toda a Criação, centrada na morte e na ressurreição de Jesus Cristo, conforme a Carta aos Efésios, já alhures menciona-da. Essa celebração é a antecipação de quando Deus será tudo em todos, segundo o apóstolo Paulo na 1ª Carta aos Coríntios. As leituras da Vigília Pascal apontam para o sentido desse mistério. A celebração da Eucaristia ou da Santa Comunhão é a proclamação, a oração e súplica (Veni, Senhor Jesus) para que esse mistério não só se torne real para nós, mas também se expresse em sua mani-festação plena, isto é, o reinado de Deus e de nossa participação nele.

Um outro ponto relevante para a liturgia é, como foi referido acima, a concepção da "administração" divina na revelação do seu mistério. Essa administração tem a ver com a construção da "casa" de Deus, a morada de Deus com toda a sua Criação. Sua família, a casa que somos nós (He. 3:6) é a comunhão, uma teia de relação de amor permeada Daquele que fez a doação de Si mesmo por todos: a qual foi reconhecida na Sua ressurreição e feita poder construtor dessa teia pelo Espírito Santo. Também, no Antigo Testa-mento, encontramos uma visão de que Deus fará do seu povo, da cidade, uma relação de vida, de convivência como sua morada (Zc. 8:3; 2:10). A casa, morada, cidade, comunidade/comunhão, convivência e sua administração (oikos e oikonomia) tem a ver, também, com o mundo como lugar bom para se habitar (ecologia). Há visão da transfor-mação dos instrumentos de guerra em instrumentos de produção para a paz, o convívio pacífico entre os seres humanos e animais, a renovação do meio ambiente (Is. 2:4ss.;1:6ss.;32:15ss.; 35). Conforme os salmos, todas as pessoas, todos os habitantes, animais, todos os seres e todos os dons são convidados a louvar, engrandecer o Deus (117:1; 145:1; 148:6; 150). E nisto, o povo de Deus, em sua liturgia, tem sua função facilitadora e sacerdotal. Como diz uma das orações eucarísticas "Com eles, dando expressão a toda a criatura, debaixo do céus, nós te aclamamos, glorificamos e proclamamos o teu Nome"...⁶. Essa celebração, a ação conjunta do povo de Deus requer seu preparo e tem sua estrutura.


Notas Bibliográficas:

1 Livro de Oração Comum, na página 11 diz: "em todos os ritos, assembléia cristã na sua totalidade participa de maneira tal que os membros de cada ordem na Igreja: leigo, bispos, presbíteros e diáconos cumpram as funções próprias de suas respectivas ordens tais como indicadas nas rubricas de cada rito". No Catecismo do Livro de Oração Comum se diz: "os ministros são leigos, bispos, presbíteros e leigos".

2 J.G.Davies advoga o lugar do riso na liturgia. O seu argumento se fundamenta no fato de que a adoração é feita nos termos do "penúltimo", isto é, aqui na terra por parte das pessoas cujo choro e riso fazem parte da vida. Ele termina o seu capitulo, O riso e a Adoração, em Novas Perspectivas sobre a Adoração hoje, citando Chad Walsh: "Mesmo no Santo dos Santos as pessoas são libertada pela presença última de Deus, para que, nessa comunhão, elas possam oferecer todos os dons que elas trazem, inclusive, o dom do humor", p.108.

3 Mais na literatura apocalíptica e sapiencial.

4 G.Dix, em sua obra The Shape of the Liturgy, L. Bouyer, Eucharist, reconhecem na cultura religiosa judaica, no período do Novo Testamento, as origens da Oração eucarística. G.Dix vê no gesto de Jesus as quatro partes da Eucaristia: Jesus tomou (preparação); Jesus deu graças (a oração eucarística); partiu (fracção); e deu (comunhão propriamente dita). G.Dix, L.Ligier (Studia Liturgica IX) e Thomas Talley (Studia Liturgica XI) compreendem que o padrão da Oração eucarística se encontra na bênção ou agradecimento judaico da mesa. É claro que o agradecimento judaico foi cristologicamente transformado. No caso de Talley, houve a inversão da primeira cláusula sobre a criação para a salvação em Cristo.

5 YARNOLD, E. A Theology of Worship, IN: JONES, e WAINWRIGHT,G. e YARNOLD, E.(EDS.) The Study of Liturgy, SPCK; SENN, F. Christian Worship, Fortress Press, Christian Liturgy, Fortress Press, Dicionário de Liturgia (Ed.Paulinas), reconhecem a importância das obras de Odo Casel associado com a teologia do mistério, no sentido de haver feito a abertura ao estudo da dimensão cultural e antropológica da liturgia, mas fazem restrição à localização das origens dos ritos cristãos, nos ritos das religiões greco-romanas.

6 No Relatório da Conferência de Lambeth 1968, numa pequena seção sobre uma Teologia da Criação, afirma-se o seguinte, "é necessário elaborar uma teologia da críação que veja Cristo, o agente de toda a criação, inaugurando uma redenção cósmica", após haver reconhecida responsabilidade humana diante de Deus pela poluição do ar, do solo, do oceano e pela ausência de equilibrio.p.75. Nos relatórios do Conselho Consultivo Anglicano tem sido tratada essa questão ecológica e ambiental.


Sobre o autor:

Dom Sumio Takatsu, nascido na Cidade de Sapporto, Hokkaido, Japão, e crescido em São Paulo, Brasil. Fez pré-teológico no Curso José Manoel da Conceição, Jandira, SP, e estudou no Seminário Teológico da IEAB e no Seminário Teológico de Virgínia (STM) e no Seminário Unido de Nova Iorque (STM). Recebeu Doutor Honoris Causa em Teologia do Seminário de Virgínia em 1979. Eleito e sagrado bispo de São Paulo em 1977. Resignou-se em 1990.

Foi membro do Conselho Consultivo Anglicano de 1983 (Singapura) até 1998 (Panamá e Lambeth). Participou das Conferências de Lambeth de 1978, 1988, como bispo diocesano, e 1998, como membro do Conselho Consultivo Anglicano.

Atualmente, é Bispo Emérito da Diocese Anglicana de São Paulo. Pertence ao quadro de assessores do CEA (Centro de Estudos Anglicanos), bem como é membro do Grupo Consultivo do mesmo.

Também tem colaborado junto ao Departamento de Comunica- ção da IEAB, na produção de artigos e materiais para diversas publicações.


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