Mistério da Fé II

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Mistério da Fé II

Dom Sumio Takatsu2000

Série Liturgia

Mistério da fé II


A celebração do Mistério

A preparação é muito importante para a celebração do mistério do Evangelho, o Cristo por várias razões. Ela é uma ação conjunta do povo de Deus. Sendo uma ação conjunta ela requer um preparo. Aqui a função de um ministro ordenado é a de coordenação. Não há uma boa reunião sem uma preparação adequada. E a coordenação implica em várias ações e vários agentes. E aqui, a sugestão da estrutura de uma liturgia eucarística anglicana apresentada no Relatório da Consulta Litúrgica Anglicana, realizada em Dublin, na Irlanda, em 1995, é bastante útil para nossa consideração.

Pistas para uma estrutura litúrgica

São cinco tópicos:

  • povo de Deus se reúne;
  • para proclamar e receber a Palavra de Deus;
  • para orar (oração do povo ou intercessões);
  • para celebrar à Mesa do Senhor;
  • para sair ao mundo para a missão.

São partes de uma liturgia como um todo. Cada uma delas comportam diversas funções e diversos(as) agentes ou ministros(as). Então, é importante que haja coordenação na preparação de cada parte. A reunião não é apenas um conjunto de desempenho de funções diversificadas. Ela é vida e traduz o plano divino de reunir todas as coisas em Jesus Cristo, como já foi dito alhures, e expressa a resposta de alegria, amor e esperança por parte da Igreja reunida a esse projeto, esse mistério divino. A reunião tem suas raízes históricas no Antigo Testamento (por exemplo, em Is. 56:8; Jr. 31:8; Ez. 37:2); e no Novo Testamento, vemos Jesus reunindo o povo de Deus (Jo. 11:52). Essa reunião, que é vida, em contraste com o insulamento, que é morte, vem da própria vida de Deus. É a comunhão na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que se manifesta na ressurreição de Jesus Cristo. Sob o fundo da voz: reunirei, congregarei, ressoa invitatório, tão familiar em nossa liturgia: vinde, cantemos ao Senhor... cheguemos ante a Sua face com ação de graças (Sl. 95:1ss; 100:2). A comunhão/comunidade (koinonia, no grego do Novo Testamento) permeia esses cinco pontos acima referidos.

Dentro da Eucaristia

A reunião ou assembléia é, assim, o primeiro e básico fato da Eucaristia. A comunhão é participação ou partilha, tendo em comum essas ações acima indicadas. Então, para uma boa celebração do mistério de nossa fé, há necessidade de um bom preparo das leituras, do uso da voz, dos sons, do sermão ou homilia, das intercessões e, também, do espaço litúrgico. Sempre há muito que preparar: desde a consulta nos livros, até coisas bem simples como a limpeza. E não pode deixar para a última hora. Tudo isso requer uma equipe bem sintonizada.

Há, por outro lado, uma necessidade imperiosa de preparo na dimensão interpessoal e não verbal. Pois a comunhão/koinonia tem essa dimensão afetiva, de relacionamento pessoal. E sempre há problemas nessa área. Pequenos desentendimentos em coisas até insignificantes, mas que não deixam de ser importantes para quem são ofendidos. O preparo pessoal e espiritual para a ação conjunta é imprescindível. Afinal, Deus diz por nosso intermédio às pessoas: vinde. E se não houver preparo, como haverá uma boa acolhida? Isto implica em que toda a comunidade ou congregação deve ser um ambiente humano de acolhida. Mas, também, isso envolve uma equipe de gente responsável pela acolhida, principalmente, dos visitantes e dos estranhos.

A hospitalidade ou acolhida mútua das pessoas e dos estranhos, comunhão/koinonia, participação e o anúncio do reinado de Deus têm convergência no Novo Testamento. É interessante observar, como faz o Prof. Koenig: a hospitalidade, a recepção ou acolhida do estranho e do diferente marcam as estórias nos quatro Evangelhos; por exemplo, com a presença dos diferentes e opostos na liderança dos seguidores de Jesus: pescadores, coletores de impostos - carregados de rejeição como colaboracionistas - zelotes, um outro extremo, mulheres no Evangelho de S.Lucas (8:1ss.). A hospitalidade que os autores das Cartas no Novo Testamento incluem nos seus encorajamentos é feita do termo "estranho", "o de fora" (He. 13:2; Ro. 13:12; I Tm. 3:2; Tt 1:8; I Pe 4:9). E o alojamento de que fala o autor do Livro dos Atos dos Apóstolos, onde Paulo recebeu gente para falar sobre o Evangelho, tem a ver com o termo que originalmente significou "o de fora" e veio a ser denominado de lugar de hospitalidade. Está implicada, também, a idéia da surpresa. Ser hospitaleiro é ser surpreendidos. Essa é a estória de Abraão e Sara. O casal recebeu o próprio Deus acolhendo os estranhos. Essa é, também, a estória surpreendente do juízo final em Mateus 25, da eucaristia, em Emaús (Lucas 24).


Considerações

A implicação disso para a liturgia é o preparo não só de uma equipe litúrgica, mas também de todos quantos possíveis, como participantes, para manifestar a Igreja como a comunidade acolhedora, como foi Jesus. Pois, a liturgia é a celebração desse mistério da acolhida, conforme Efésios já mencionado alhures. O autor e consumador de nossa fé (He. 12:2) se fez um de nós; um estranho, pela encarnação, e fez a doação de Si mesmo, inesgotavelmente, em favor de todos. Esse mistério nos encanta e nos enche de ousadia, alegria e esperança insondáveis. A nossa vida uns com os outros se eleva até os céus. Se usarmos a metáfora da verticalidade, se expande e se torna pré-gustação do Banquete final. O mistério nos encanta, espanta e leva-nos a refletir sobre a nossa responsabilidade. Pois a Igreja que somos é santa e pecadora ao mesmo tempo.

Uma outra conseqüência disso é a importância do deslocamento de todos que tomam a atitude de espectadores "consumistas" da liturgia, para participantes da acolhida e da comunhão/koinonia. O individualismo e a concepção da religião como fonte da bênção, que se equacionam com a prosperidade material, tornam as pessoas consumidoras da liturgia. Que resultado positivo estou tendo nesta liturgia? Que pensamento positivo estou tendo desta liturgia? Indagam os consumidores. O importante é que a liturgia seja a expressão do que a Igreja é - a comunidade de acolhida mútua. Isto requer um preparo contínuo. Esse é o preparo primordial e básico da preparação de todas as partes. Ao contrário, o preparo seria mais como fazer acontecer as coisas, que não deixa de ter importância, mas sem o senso do mistério ou sonho que encantam, espantam e movem as pessoas e até comunidades; todo o preparo ficaria limitado à "técnica" da liturgia. Em função desse preparo primordial, é preciso preparar os cantos, as leituras, as meditações, sermões, as orações, oferendas e todas as ações litúrgicas. É um encanto ouvir uma boa leitura, participar bem de um canto, e ser inspirado por um bom sermão, e participar da liturgia como um todo; como quem participa da oferenda de louvor e ação de graças pela graça de Deus, para que a ação de graças se expanda, isto é, vida de gratidão e louvor a Deus cresça no mundo (II Co. 4:12 e 15). Afinal, a liturgia expressa a antecipação pela graça do encontro face-a-face com o Deus Triuno e, ao mesmo tempo, o anseio pelo mesmo.


Notas Bibliográficas:

7 SCHMEMANN, A. The Eucharist, St. Vladimir's Seminary Press, p. 15. Esse autor ortodoxo denomina a Eucaristia de Sacramento do Reino e o ato da reunião como sacramento da assembléia.

8 KOENING, J. New Testament Hospitality. O autor é professor do Novo Testamento no Seminário Geral de Nova York, e pastor de uma Igreja luterana em Harlem. Nova York, onde ele coordena o trabalho com os moradores da rua.


Sobre o autor:

Dom Sumio Takatsu, nascido na Cidade de Sapporto, Hokkaido, Japão, e crescido em São Paulo, Brasil. Fez pré-teológico no Curso José Manoel da Conceição, Jandira, SP, e estudou no Seminário Teológico da IEB e no Seminário Teológico de Virgínia (STM) e no Seminário Unido de Nova Iorque (STM). Recebeu Doutor Honoris Causa em Teologia do Seminário de Virgínia em 1979. Eleito e sagrado bispo de São Paulo em 1977. Resignou-se em 1990.

Foi membro do Conselho Consultivo Anglicano de 1983 (Singapura) até 1998 (Panamá e Lambeth). Participou das Conferências de Lambeth de 1978, 1988, como bispo diocesano, e 1998, como membro do Conselho Consultivo Anglicano.

Atualmente, é Bispo Emérito da Diocese Anglicana de São Paulo. Pertence ao quadro de assessores do CEA (Centro de Estudos Anglicanos), bem como é membro do Grupo Consultivo do mesmo.

Também tem colaborado junto ao Departamento de Comunicação da IEAB, na produção de artigos e materiais para diversas publicações.


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