Mistério da fé III

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Mistério da fé III

Dom Sumio Takatsu2000

Série Liturgia

Mistério da fé III

Dom Sumio Takatsu


Palavras finais sobre a liturgia

Falamos, anteriormente, na importância do preparo da liturgia. Mas quando ela começa? Do ponto de vista teológico, a liturgia começou, e continua a começar, no coração de Deus, que enviou Jesus Cristo ao mundo, e O ressuscitou dentre os mortos pelo poder do Espírito Santo. Deus quer que nós e toda a Criação participemos de sua glória e comunhão. Neste sentido, a liturgia é um processo contínuo. Porém, vivemos num mundo onde somos regidos pelo relógio. Por isso, a liturgia tem o seu começo e o seu fim. Conforme a estrutura da Liturgia sugerida pela Consul-ta Internacional Anglicana sobre a Liturgia, o primeiro elemento é o rito da reunião. Associado a isso está o rito simples ou elaborado de entrada dos ministros, saudação, de um ato de louvor. Em nosso Rito I, essa parte inicial é denominado de Preparação. De fato, historicamente, a Coleta pela Pureza, Kyrie Eleison, e outros elementos que precedem à saudação, "o Senhor seja convosco", fazem parte disso. E, antes de ser dito por todos, houve momen-tos em que essa preparação fazia parte da preparação do celebrante e seus auxiliares na sacristia. Ao longo da história da liturgia, pode-se observar que houve variações de suas estruturas. Elas são histórica e socialmente condicionadas. Por exemplo, no período em que a Igreja estava na clandestinidade, reunindo-se na casa de um de seus membros, não havia espaço para uma procissão. Já em edifícios grandes, com a nave longa e repleta de numerosa congregação, tornou-se necessário um rito de entrada. Segundo G.Dix, no período anterior à oficialização do cristianismo, o bispo de sua cadeira atrás da Mesa com diácono e presbíteros começava com a saudação: o Senhor seja convosco... 9. Hoje, estamos acostumados a dar início à liturgia com uma simples ou com uma elaborada procis-são.

Mas é aí que começa a nossa liturgia? A. Schmemann disse que a Liturgia começa quando seus participantes deixam seus lares. É possível perceber sentido nessa afirmação sob mais de um ângulo. Do ponto de vista da vida muito agitada e fragmentada em muitas atividades e preocupações de nossos dias, é preciso ter o senso de que, ao se dirigir à liturgia, estamos respondendo à chama-da convocatória de Deus para ouvir, proclamar a Palavra com gratidão e louvor, chegando à sua presença com irmãos e irmãs, oferecendo a nós mesmos, e ter comunhão com Ele e uns com os outros por meio da Palavra e Sacramento. Essa caminhada de resposta pode ser um resumo, uma coleta ou um apanhado da caminhada de Abraão e Sara para a terra da promessa, daqueles oprimi-dos da terra de escravidão para a terra de liberdade, do exílio para a casa, das mulheres para o encontro surpreen-dente com o Senhor ressurreto no domingo da ressurrei-ção, dos discípulos a Emaús e, assim, por diante. Isso tem importância porque nem sempre estamos conscientes da razão do desejo de se reunir aos domingos. E o rito de entrada seria um resumo dessa caminhada de todos. Com isto, não se quer dizer que se devam elaborar e multiplicar as procissões. Um dos dicionários da Liturgia nos mostra que o empobrecimento ou deterioração da liturgia têm andado de mãos dadas com a multiplicação de procissões. Por isso, é importante que haja o preparo primordial do que foi dito num folheto anterior, para que não precise preencher um eventual "vazio" com alguns gestos e movi-mentos desnecessários. Esse preparo é uma questão de atitude, de se aproximar Daquele que recebe a todos e capacita cada um de nós a acolher uns aos outros. Acolher a presença Dele na Palavra e no Sacramento é ouvi-Lo. Então, é importante que cresçamos nas devoções diárias, nas leituras diárias, nas leituras prévias dos próprios do domingo seguinte: Antigo Testamento, Salmo, Cartas e o Evangelho. Para os leitores, esse preparo é imprescindível. Pois, é uma honra fazer a leitura de um recorte das Escritu-ras diante do povo de Deus, reunido em liturgia. As Escritu-ras contêm os testemunhos do mistério de nossa fé. Por isso, é importante que as leituras sejam ouvidas "até os confins" da nave, em todos os recantos do espaço litúrgico. Tudo isso significa que é imprescindível o trabalho de coordenação daquele que preside ou do "celebrante". Esse ministério não deve ser entendido como alguma coisa que se improvisa na hora. A coordenação abarca os momentos de preparação durante a semana, até o fim da celebração. O trabalho de coordenação bem feito dá "segurança" a quem preside. Ele ou ela poderá estar livre daquela impressão de gente atarefada, que corre para a sacristia ou vai para a nave falar com alguém. Isto não significa que essas coisas aconteçam em toda a parte, mas acontece aqui e ali, algumas vezes. Quem sabe seja até um desejo de imprimir "dinamismo” à liturgia ou à presidência, só que em lugar e momento impróprios. O importante em tudo isso é que a liturgia não é uma "corrida" de ações, embora liturgia seja ação. De qualquer forma, deve haver um bom preparo; é claro, dentro de nossas limitações.

O preparo primordial se estende, também, às pequenas coisas, como o cafezinho e pequena conversa após a celebração. Em algum lugar, há até momentos de hospitali-dade, com um bom vinho e queijo. E esses momentos estão tendo efeito benéfico para as celebrações e ao que podemos descrever como fraternidade, comunhão fraterna e solidariedade. Vi isso em Pelotas, e, também, no sul de Londres, num canto da nave de uma enorme igreja, construída no século XVIII.

Essas pequenas coisas requerem a acolhida mútua por parte de todos, o preparo por parte de alguns ou até de todos. Elas são ocasiões para que o mistério de nossa fé transpareça nessas pequeninas coisas, no sentido de que esse mistério abarque todas as dimensões da vida das pessoas e deste mundo criado, redimido e santificado pelo Deus Triuno.


Notas Bibliográficas:

9 The Shape of the Liturgy, pp.104ss. Ele diz que, no período pré-niceno, antes do ofertório, o diácono colocava um simples pano. Logo veio essa simplicidade cercada de simbolismo.


Sobre o autor:

Dom Sumio Takatsu, nascido na Cidade de Sapporto, Hokkaido, Japão, e crescido em São Paulo, Brasil. Fez pré-teológico no Curso José Manoel da Conceição, Jandira, SP, e estudou no Seminário Teológico da IEB e no Seminário Teológico de Virgínia (STM) e no Seminário Unido de Nova Iorque (STM). Recebeu Doutor Honoris Causa em Teologia do Seminário de Virgínia em 1979. Eleito e sagrado bispo de São Paulo em 1977. Resignou-se em 1990.

Foi membro do Conselho Consultivo Anglicano de 1983 (Singapura) até 1998 (Panamá e Lambeth). Participou das Conferências de Lambeth de 1978, 1988, como bispo diocesano, e 1998, como membro do Conselho Consultivo Anglicano.

Atualmente, é Bispo Emérito da Diocese Anglicana de São Paulo. Pertence ao quadro de assessores do CEA (Centro de Estudos Anglicanos), bem como é membro do Grupo Consultivo do mesmo.

Também tem colaborado junto ao Departamento de Comunica-ção da IEAB, na produção de artigos e materiais para diversas publicações.


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