O BISPO ROBINSON E A TEOLOGIA DA SEXUALIDADE
O BISPO ROBINSON E A TEOLOGIA DA SEXUALIDADE
Rev. Luiz Marcos Silva, OSE
Durante o seu primeiro século em nosso país o protestantismo tratou a sexualidade como absoluto tabu; nada se falava, nada se escrevia. Nos anos 50 e 60 toda literatura se resumia ao livreto Mais Puro Que o Diamante e ao livro do padre-médico (católico romano) João Mahona A Vida Sexual dos Casados e Solteiros.
Os estudantes da Alianças Bíblicas Secundarista (ABS) e Universitária (ABU) – movimento do qual fui militante e obreiro – pressionaram o então leigo e assessor Robinson Cavalcanti para que escrevesse um livro em resposta às perguntas da juventude.
Depois de ampla pesquisa, era lançado no “Congresso Missionário“ (Curitiba 76) Uma Bênção Chamada Sexo, primeiro livro de teologia da sexualidade escrito por um evangélico brasileiro, que alcançou 8 edições, com mais de 20.000 exemplares vendidos no Brasil, Portugal e África, marcando gerações.
O Livro, baseado em ampla bibliografia, e tratamento teológico, histórico e socio-antropológico, abordava uma gama de temas, que ia dos casamentos mistos à poligamia, aclarando as tradições repressivas e permissivas, à luz das escrituras.
O impacto do livro foi enorme. Mereceu resenhas na imprensa religiosa e secular. Por vários anos o autor percorreu o país participando de debates e palestras.
A reação não se fez por esperar. As editoras fundamentalistas inundaram o Brasil com outros livros de cunho repressivo, desconsiderando as diversidades de posições vividas pela Igreja ao longo da história, e a contribuição científica.
A "revolução cultural" dos anos 60 dera lugar à “contra-revolução cultural" dos anos 90. A comunidade evangélica avançava em quase tudo, mas regredira em sua visão da sexualidade.
Em 1991, o já Rev. Robinson Cavalcanti publica Libertação e Sexualidade (Temática Publicações, SP, duas edições), aprofundando o assunto com um tratamento interdisciplinar, e especial valorização dos reformadores do século XVI. Milhares de leitores reagiram agradecidos; textos institucionais condenaram os “heréticos"...
Recursos internacionais foram empregados para subsidiar a publicação, com ampla propaganda do livreto “Libertação e Sexualidade Uma análise: um guia para a leitura do livro de Robinson Cavalcanti", do pastor batista Lourenço Stélio Rega, de São Paulo, trabalho panfletário, marcado pela desonestidade intelectual e pela ausência da interdisciplinaridade do trabalho que busca criticar, bem como pela falta de uma criteriosa apresentação de argumentos válidos do ponto de vista lógico.
O Conservadorismo católico romano e protestante atingem o seu apogeu: ECC e Jaime Kemp. O Bispo é discriminado.
As igrejas continuam a viver o dualismo entre um discurso oficial (Fundamentalismo + Moral Burguesa) na superfície Vs complexidade, ambigüidade, diversidade, desorientação, medo e culpa no cotidiano das vidas, na concretude da clandestinidade, na rotina da hipocrisia, da intolerância e do irrealismo pastoral.
Entidades ecumênicas e universidades convidam o bispo para falar em congressos e escrever artigos. As cartas, os telefonemas e as conversas em eventos continuavam a ser, ao longo dos anos uma discreta rotina pastoral, ministrando os dissidentes e os atípicos, que lhe tributam respeito e gratidão.
Depois de 34 anos, a ABU Editora, no ano passado, cessou de reeditar Uma Bênção Chamada Sexo. Enquanto isso, Libertação e Sexualidade tem sido usado como livro texto em seminários, agora fotocopiado. Pressiona-se por uma reedição, que esperamos venha logo a acontecer.
O bispo Robinson pagou o preço do pioneirismo, da coragem e da lucidez, e de estar sempre adiante do seu tempo. Sua motivação nunca foi outra senão a saúde emocional da igreja. Seu esforço não foi em vão.
Esperamos que ele receba as energias para retomar sua contribuição também nessa área, porque os cristãos, como afirmava Rubem Alves, passou a "ouvir as vozes do corpo".
O Rev. Luiz Marcos Silva, OSE, Secretário Diocesano de Educação, Pároco em Caruaru - PE (Paróquia da Reconciliação).