O Episcopado nas Conferências de Lambeth

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O Episcopado nas Conferências de Lambeth

OSERev. Jorge Aquino2003

O Episcopado nas Conferências de Lambeth

Rev. Jorge Aquino, OSE

"Nós temos conhecido a graça pela qual Deus nos deu um tríplice ministério em que os bispos são chamados a exercer cuidado pastoral e a resguardar a continuidade histórica e a autoridade na Igreja" (The Lambeth Conference 1968: Resolutions and Reports, p.124)

É possível que você se pergunte: por que mais um texto sobre o episcopado? Como já falamos na introdução de nosso texto anterior, chamado Reflexão sobre o Episcopado, “a maioria de nosso povo é proveniente de comunidades não apenas não episcopais mas anti-episcopais, o que faz forçosamente existir um 'hábito mental' não episcopal em parte do laicato e do clero. Este povo passou anos raciocinando com categorias congregacionais ou presbiterianas e agora se encontram em uma igreja completamente diferente que utiliza um outro paradigma mental para a definição dos papéis na igreja". Tendo em vista esta origem não episcopal de boa parte de nosso clero o que muitas vezes leva alguns a laborar em erro e a eleição de um bispo sufragâneo que se avizinha, resolvemos dar mais uma pequena contribuição buscando apresentar a visão que a Igreja Anglicana tem do seu próprio episcopado.

Acredito que uma reflexão sobre as Conferências de Lambeth pode apresentar pistas importantes sobre o papel dos bispos em uma igreja episcopal. Infelizmente há que se reconhecer uma limitação: todos os bispos presentes às Conferências já sabem o que é ser bispo, portanto, são poucos os textos que revelam a essência do episcopado, propriamente dita. Apesar disso, uma simples leitura dos textos nos faz ver a grande importância que tem um bispo em uma igreja de governo episcopal. Diferentemente do que se pode pensar, não há diferenças - entre os anglicanos no que diz respeito ao ministério dos bispos, que tenham origem nas correntes internas da igreja. Um anglicano evangélico é tão episcopal quanto um anglo-católico. A história do anglicanismo nos ensina que os evangélicos que não queriam se conformar e se submeter ao governo dos bispos saíram da Igreja da Inglaterra e formaram as igrejas congragacionalistas e presbiterianas. A maioria ficou.

Gostaríamos de lembrar que não tocamos em todos os assuntos que envolvem os bispos. E assim o fizemos devido a abrangência de temas que são estudados em uma conferência de bispos. Fizemos, portanto, um corte transversal em quatro conferências, tomando como tema principal o ministério episcopal e, selecionamos alguns sub-temas que norteassem os cortes a fim de lustrar a abrangência deste ministério.

Nosso estudo está dividido em duas partes. Na primeira estudamos o ministério episcopal nos textos que foram apresentados como subsídios para as Conferências e na segunda apresentamos algumas das resoluções que tratam propriamente do episcopado e que podem ilustrar o grande trabalho que envolve os bispos.

Ao Post. Quintino Orengo, que fotocopiou os relatórios das Conferências de Lambeth 58, 68 e 88 e me facilitou sobremaneira os estudos, meus agradecimentos. Trabalharemos, também, com a mais recente delas, a de 1998.

I. Os subsídios para estudo

Os subsídios de onde poderemos retirar informações sobre o pensamento das Conferências de Lambeth acerca do episcopado são normalmente chamados de Reports ou Relatórios: são documentos sobre os quais os bispos geralmente trabalham durante toda a Conferência com a finalidade de apresentar Resoluções acerca dos temas anteriormente debatidos.

Um conjunto de Reports particularmente interessante foram os apresentados na Conferência de 1968, presidida pelo Arcebispo A. M. Ramsey e que tinha como tema A Renovação da Igreja. Os relatórios apresentados para aquele conclave falavam da renovação da Igreja “na fé", "no ministério” e “na unidade".

O segundo Relatório nos interessa mais de perto. Escrito pelo Dr. Donald Ebor, versa sobre a renovação na perspectiva do ministério dentro da Comunhão Anglicana. Para tanto, ele se refere a um tema que precisa ser reestudado sempre pelos nossos clérigos: a natureza do episcopado.

Segundo o relatório, o bispo é, antes de mais nada, um "representante de Cristo" por uma lado, e "um representante da Igreja universal“ por outro. Ele é um "símbolo da unidade" da Igreja e o instrumento através do qual o sacerdote recebe pela imposição das mãos, “a comissão de Deus, a graça" e também o compartilhar do “ministério apostólico". [1]

O documento entende que todos nós, leigos e clérigos, recebemos um chamado para o ministério, mas que o bispo é especialmente chamado para "liderar a Igreja no cumprimento da comissão universal de Cristo".[2]

Cristo requer de todos aqueles que exercem algum tipo de liderança na Igreja, que exerçam esta liderança sendo servos de todos. Isto deve ser especialmente verdade em relação ao bispo. O bispo deve ser, antes de mais nada, um servo dos servos de Deus. Seu modelo é o próprio Cristo.

O centro do serviço do bispo é a “vida litúrgica e sacramental da Igreja, em sua celebração da Eucaristia, na ordenação e confirmação”.[3] Esta noção de ministério episcopal é milenar. O bispo é o presidente e ministro da Eucaristia, mas ele pode delegar este ministério aos sacerdotes. A ordenação e a confirmação, contudo, não são delegadas aos presbíteros, sendo uma ação exclusiva do bispo.[4] Na eclesiologia episcopal, o pastor é o bispo; o ministro ordinário da Eucaristia é o bispo, o ministro que confere a ordem é o bispo e o ministro que confirma é o bispo. Todos os demais presbíteros são apenas vigários (substitutos) do bispo, ordenados e enviados (comissionados) por ele para um trabalho paroquial.

Os Relatórios de Lambeth 68 nos apresentam um resumo sobre o trabalho desenvolvido pelo bispo, que compreende (1) o ensino; (2) a guarda da fé; (3) o cuidado e o (4) equipar a Igreja. Além disso, é também prerrogativa do bispo o aprofundamento nas relações ecumênicas, a orientação sobre o serviço, sobre o testemunho e ser a voz profética da Igreja.

A relação entre Cristo e o bispo aparece no relatório quando se diz: “Cristo que é o servo é também o Senhor. O bispo é chamado a exercer uma autoridade que é originada na autoridade do Cristo ressurreto".[5] Um elemento característico da eclesiologia anglicana é essa relação entre o ministério de Cristo e o ministério episcopal. Nos textos anglicanos sobre o ministério episcopal os bispos são apresentados como compartilhando dos ofícios de Cristo. Desta forma os bispos também possuem um ofício sacerdotal, profético e real. O bispo é o Cabeça da diocese. Esta autoridade deve ser exercida com base nos modelos que Cristo mesmo nos deu e que podem ser encontrados em João 13. É por isso que quando Paulo fala de sua autoridade como apóstolo ele fala especialmente de seu compartilhar do sofrimento e da humilhação de Cristo. Aquele que procura o episcopado deve, portanto, compreender que assumirá uma autoridade que se baseia no serviço e não na dominação.

Um item final tratado pelo texto diz respeito a colegialidade dos bispos. Na eclesiologia episcopal, o bispo exerce seu ministério em comunhão com outros bispos. Segundo o documento “em sua diocese ele deve guiar, ensinar e servir" tendo comunhão com os clérigos e os leigos, mas, enquanto bispo, ele também exerce uma parceria com seus irmãos bispos, tanto a nível regional quanto universal. Tradicionalmente o bispo é Pai em Deus para os clérigos e os leigos do território diocesano. E parte de sua vocação é "representar a Igreja Católica em sua diocese e, inversamente, representar sua diocese nos concílios da Igreja ampla" [6]. Este princípio, entendido como colegialidade, nos diz que o chamado apostólico, a responsabilidade e a autoridade são tradicionalmente ligados ao colégio dos bispos. Cada bispo individual tem uma dupla responsabilidade, como membro de seu colégio episcopal e como pastor chefe de sua diocese. A colegialidade do episcopado deve ser vista no contexto do caráter conciliar da Igreja, "envolvendo o consensus fidelium em que o episcopado tem seu lugar".[Z] Quando o colégio dos bispos se reúne - quer a nível de Província, quer quando da Reunião dos Primazes ou ainda nas Conferências de Lambeth - é evidente que deve haver um presidente. “Na Comunhão Anglicana esta posição é, no presente, exercido pelo ocupante da histórica Sé de Cantuária, que exerce um primado de honra mas não de jurisdição".[8]

Um exame deste documento parece revelar que ele caminha lado a lado com o espírito de renovação que soprava também no Vaticano II. A diferença é que, enquanto aquele espírito renovador do Vaticano II “relativamente à compreensão eclesial pós-tridentina e sua respectiva eclesiologia, não recebeu nos anos 70 e sobretudo nos anos 80 nenhuma estrutura institucional conseqüente da Igreja Oficial" [2], no anglicanismo ocorreu o contrário. Houve uma ruptura com uma visão hierarquizada -onde o bispo exercia um papel monárquico e a adoção de uma visão mais conciliar na divisão do poder. Por isso Lambeth 88, falando sobre a eleição dos bispos, pode dizer que "existem uma variedade de estruturas canônicas ou semi-oficiais nas dioceses e Províncias da Comunhão Anglicana... que expressam a mútua responsabilidade de bispos, clérigos e leigos" [10]. O princípio da sinodalidade (conciliaridade) deve incluir também os não bispos e tem sido muito bem praticado entre os anglicanos. É fazendo referência a isso que o documento O Dom da Autoridade diz que “a Comunhão Anglicana está explorando o desenvolvimento de estruturas de autoridade em suas províncias".[11] Em resumo, embora resguardando a autoridade dos bispos no que diz respeito à doutrina, à liturgia, à disciplina, à administração dos sacramentos, à ordenação, e ao pastoreio da diocese, Lambeth 68 contempla a discussão acerca da sinodalidade (ou de uma melhor representação de leigos e clérigos) na Igreja de Deus e em suas decisões.

A tradição anglicana, em que pese aceitar a sinodalidade, tem visto o episcopado como "parte essencial de sua herança Católica".[12] Assim sendo nós deveríamos olhar para o ministério episcopal como uma “extensão do ofício apostólico"[13] bem como de sua função, tanto no tempo quanto no espaço.

Um segundo conjunto de Reports de importância para nosso estudo nos vem da Conferência de Lambeth 1988, presidida pelo Arcebispo Robert Runcie. O primeiro deles, chamado Mission and Ministry, já inicia associando o ministério do bispo com a missão da Igreja. É convicção da Conferência de 88 que “o bispo deve então se tornar mais do que um líder na missão, e a estrutura da diocese, igrejas locais, treinamento teológico, etc. seriam tão reformada que se transformaria em um instrumento que gera tanto um movimento missionário quanto um cuidado pastoral".[14] O espírito da Conferência de 88 está identificado com a missão de todo o povo de Deus. Os setores anteriormente esquecidos (mulheres, jovens, velhos) precisam tomar consciência de sua importância na missão da Igreja e buscar o apoio e a ajuda necessários. Os bispos devem, diz a Conferência de 88, "ouvir o que os jovens estão dizendo"[15] a fim de se oferecer um forte suporte espiritual a esta liderança emergente.

Um tópico lembrado pelo Report Mission and Ministry, diz respeito ao Ministério Ordenado. Esse documento insiste para que haja um profundo entendimento acerca do papel daquele que exerce o ministério ordenado na Igreja de Deus. Uma atenção especial deve ser dada aos seguintes temas: a) O significado da vocação; b) A qualidade da vida ministerial; c) A realidade da autoridade e d) O significado da apostolicidade. Os bispos revelam que estão preocupados com a qualidade, com a capacidade e com o entendimento que os novos clérigos parecem ter sobre o ministério. A impressão que temos é que a onda de individualismo é tão grande que os clérigos parecem que podem ser clérigos sem que haja a presença de um bispo na realidade paroquial. Eles acreditam que a paróquia é a igreja local e que eles são os pastores. Eles negam, com sua ação, as instâncias que existem sobre eles. É por isso que Lambeth 88 lembra que aqueles que assumem a ordenação “devem de boa vontade estar sob a autoridade do bispo e da Igreja".[16] Isto deve ser assim porque o bispo, “abaixo de Deus lidera a igreja local e sua missão para o mundo". [17]

O restante do relatório aponta a necessidade de apoio e de treinamento para os que foram eleitos bispos conforme o documento Reflections on the Theology of, and the practice of, the Episcopate - e suas famílias; para a importância de um acompanhamento físico e espiritual do bispo, assim como da importância de um período sabático de descanso.

A Conferência de Lambeth 98, presidida pelo Arcebispo George Carey, se caracteriza por uma enorme gama de resoluções acerca de temas que precisam de uma palavra por parte da Igreja de Deus. Desta forma, Lambeth 98 se pronuncia sobre assuntos como Direitos Humanos, Violência, Sexualidade, e Dívida externa. O tema do episcopado quase não é tocado, em função da falta de relevância e da obviedade do tema. Todos ali, em tese, sabem o que significa ser bispo. Apesar disso a Conferência de 98 também fala um pouco do episcopado. No Relatório intitulado Called to Live and Proclaim the Good News, em sua subseção 6, quando trata da importância de se ser um bispo missionário em uma igreja missionária, se diz que o bispo é, distintamente dos presbíteros e diáconos, alguém para quem a "autoridade apostólica é dada".[18] O bispo é descrito aqui como aquele que testifica da ressurreição e da esperança da vinda de Cristo, no contexto da adoração eucarística da Igreja para aqueles que nunca ouviram. O bispo é o "guardião da fé recebida das gerações primitivas”[19] e o responsável pela sua transmissão aos bispos que o sucederão.

No Report 3 intitulado Called to Be a Faithful Church in a Plural World, a Conferência toca em dois assuntos já discutidos pelas outras conferências mas que deve ser sempre lembrado: a colegialidade e a conciliaridade (ou sinodalidade). Falando do tema da sinodalidade - o papel dos leigos e do clero na tomada de decisão, o documento nos diz que dentro da tradição Anglicana, a “autoridade do bispo é sempre exercida dentro de uma estrutura sinodal do governo da igreja" [20] onde, em função das necessidades de cada diocese, os cânones estabelecem o inter- relacionamento de cada estamento.

É sempre bom lembrar que a ênfase que os documentos oficiais anglicanos dão à sinodalidade parece representar uma resposta ao modelo romano de governo. É por isso que já no relatório sobre Doutrina na Igreja da Inglaterra, logo depois do tratamento dado ao tema do ministério na Igreja, se coloca uma nota falando da infalibilidade papal a se afirma categoricamente que “é sabido de todos que já no século dezesseis a Igreja da Inglaterra repudiou a supremacia papal".[21]

Para encerrar, não devemos esquecer que segundo o documento, os bispos exercem sua liderança em uma enorme variedade de estilos, refletindo a diversidade dos dons dados por Deus e a imensa variedade de contextos culturais que nos cercam. No entanto, em que pese a confluência destes elementos previsíveis na formação de cada líder, "o ministério do bispo deve ser predominantemente pastoral, missionário, educacional, profético e colegial". [22] Nas palavras do teólogo anglicano Richard Hooker: “O Bispo é um Ministro de Deus, diante de quem em permanente continuidade, é dado não apenas o poder da administração da Palavra e dos Sacramentos, cuja autoridade outros presbíteros têm; mas também, além disso, poder para ordenar as pessoas e o poder de chefiar em Governo sobre Presbíteros bem como leigos, o poder de ser por causa da jurisdição o Pastor dos pastores".[23]

II. As resoluções de Lambeth

Saindo um pouco do labor teológico e descendo às realidades da vida diocesana, os bispos são constantemente convidados a reagir diante de problemas bem reais. Quais as sugestões que as Conferências dão diante de temas mais práticos? Dividiremos nosso pequeno estudo em tópicos para facilitar o trabalho. Veremos a relação entre o episcopado e a missão, a formação, o mundo que nos cerca, e o ofício da superintendência.

1. O episcopado e a missão

Uma vez que é dever e ministério de todo batizado fazer Cristo conhecido em todo o mundo, a Conferência de 88 insta a cada bispo com sua diocese a dar os passos necessários para providenciar oportunidades, treinar e dar suporte para que este "estilo de ministério se transforme em realidade". (88.45)

O exercício da evangelização é algo que, na eclesiologia anglicana, está tão ligado ao ofício do bispo que a Conferência de 98 chega a afirmar que “a principal tarefa de cada bispo, diocese e congregações da Comunhão Anglicana é repartir e mostrar o amor de Deus em Jesus Cristo". (98.2.6.c) A primazia do bispo na missão é clara. Da mesma forma, quando trata do ministério dos jovens na igreja, a Conferência de 98 repete - na sua resolução 2.8 três vezes a expressão "que os bispos", demonstrando que sem eles não há compromisso com a formação da liderança, investimento em treinamento ou implementação de ministérios.

2. O episcopado e a formação

A Conferência de 68 compreende que a diocese deve "providenciar um treinamento contínuo para os clérigos depois da ordenação", apresentando um programa de estudos que contemple as rápidas mudanças que ocorrem no mundo. (68.42)

Nada mais natural em uma década que assistiu a Revolução em Cuba, a guerra fria, a morte de Kennedy, os levantes de estudantes na Europa, os golpes militares na América Latina, o surgimento de uma nova moral, etc. do que insistir que os clérigos estudassem mais e se preparassem mais, para o mundo para o qual eles iriam ministrar. Pergunto se hoje, com toda esta mudança de paradigmas que nos cerca e com a crise de um projeto civilizatório, nosso clero também não deveria ter um projeto de treinamento contínuo que o capacitasse a ler melhor a realidade nos cerca e a servir melhor este mundo.

3. O episcopado e o mundo que nos cerca

A conferência de 88 vai encorajar as dioceses a procurar as agências, seculares ou religiosas, que lutam pela justiça e pela reconciliação, com a finalidade de assumirem esta causa como uma causa comum. (88.27)

A mesma Conferência, diante do emergente problema causado pela disseminação da AIDS, convida os bispos a "aceitar sua responsabilidade de testemunhar do cuidado e da compaixão de Cristo, em resposta a esta crise". A Conferência convida ainda as dioceses a pensar estratégias que, envolvendo o ensino e o cuidado, atinjam este problema.

As resoluções de Lambeth 98, apontando para a defesa dos Direitos Humanos, nos fazem crer que nossa diocese está trilhando o caminho certo quando se manifesta - tanto por meio de sua Comissão de Direitos Humanos quanto pelo testemunho individual de clérigos a favor dos "excluídos e marginalizados“ (98.1.1) que sofrem os mais diversos tipos de privação em nossa sociedade que idolatra o capital, e que vive sob o signo do individualismo e do prazer sem medida.

4. O episcopado e a superintendência

O bispo na Comunhão Anglicana é entendido como aquele que possui jurisdição sobre uma diocese. Este episcopado é um sinal da unidade visível de um “ministério comum de supervisão, exercido de maneira pessoal, colegiada e comunitária em todos os níveis". (98.4.2) Na prática, este ministério gera alguns tipos de relações. Citaremos alguns:

Sua relação com as Comunidades Religiosas.

A Conferência de Lambeth reconhece com gratidão a contribuição das Comunidades Religiosas para a vida da Igreja e o valor do seu testemunho e "recomenda que em todas as Províncias onde existam, devem-se manter e desenvolver uma estreita cooperação entre o bispo e as Comunidades”(68.05)

É importante compreender que, segundo a visão das Conferências de Lambeth, a existência de Ordens Religiosas nas dioceses produz um enorme enriquecimento gerado pela interelação de irmãos - clérigos e leigos - diferentes ao redor de "carismas" e de estilos de vida próprios.

Sua relação com os Ministros Leigos.

A Conferência é de opinião de que a admissão para o ofício de Ministro Leigo (Sub-diáconos, Leitores, Catequistas) deve ser controlada e dirigida pelo bispo ou seu representante, tendo o exercício de seu ministério submisso à sua licença formal. (58.90)

Uma vez que a “comunhão com o bispo" é um dos fatores fundamentais para o exercício do ministério, o contato com o "Pai em Deus" deve ter início o mais cedo possível, a fim – até mesmo de promover maior conhecimento de parte a parte e permitir que a instituição seja feita sem reservas, por parte do diocesano.

Sua relação com o clero.

A relação do bispo com o clero diocesano, é uma relação paternal. Por isso ele é chamado de "Pai em Deus". Esta relação de proximidade tem origem formal no ato da ordenação quando o clero recebe dele, a graça, a comissão e a ordem. Diz a Conferência de 98 que “não há e nem deve haver coerção sobre nenhum bispo em assuntos concernentes a ordenação ou autorização”. (98.3.2) Só o bispo pode conferir as sagradas ordens, e por mais que a sinodalidade seja uma realidade, faz parte do múnus episcopal a ordenação.

Esta relação pastoral e paternal pode ser exemplificada quando a Conferência de 98 afirma a importância da prática dos ofícios diários para os bispos e os convida a se empenharem “na tarefa de encorajar os seus clérigos e o povo na disciplina da oração diária" (98.3.20)

Sua relação consigo mesmo.

Os bispos devem atentar para as resoluções acerca do diaconato que sugerem, caso seja necessário, que sejam feitas revisões nos ordinais para que se ressalte os elementos contínuos da diaconia “no ministério dos bispos e sacerdotes". (68.32)

Desde a Conferência de 68 que já se compreendia que uma oportunidade deveria ser criada para que os bispos tivessem uma espécie de treinamento para seu ofício. (68.39) Toda Província deve implementar um programa de preparação para aqueles que são eleitos e que também envolva os que já foram sagrados. (88.41) Este programa deve, também, envolver a família do bispo. Nos diz também a Conferência de 88 que "depois de 6 anos, todos os bispos devem ser encorajados a ter um período sabático para estudo e descanso". (88.41.2) Ainda falando sobre o ministério dos bispos, e diante do stress que atinge a vida dos bispos, a Conferência sugere que anualmente, pelo menos, os bispos façam exames médicos. (88.41.4)

Uma vez que este treinamento só ocorre, para a maioria dos bispos, no exercício prático do episcopado, e pensando na possibilidade de um maior treinamento, de um maior aprendizado e de uma maior descentralização na Igreja, a Conferência de 68 sugere que "todo coadjutor, sufragâneo e bispo assistente full-time deve exercer todos os tipos de funções episcopais e ter seu espaço como bispo nos Concílios da Igreja". (68.40)

Sua relação com os demais bispos.

Houve momento em que a indicação e a eleição para bispo, dentro da Comunhão Anglicana, atendiam a padrões bem próximos aos da Europa ou Estados Unidos. Desde a década de 40, contudo, percebeu-se a necessidade de se eleger bispos autóctones para dirigir as dioceses nas Províncias, digamos, satélites dos grandes centros do anglicanismo. Esta iniciativa foi saudada pela Conferência de 58. Lá se dizia que, uma vez que a Igreja transcende os limites raciais e nacionais, a Conferência se alegra que “bispos estejam sendo indicados e eleitos sem referência à raça ou nacionalidade". (58.59) Esta conferência marca o momento em que a Comunhão passa a deixar de ser majoritariamente dominada por brancos anglo-saxões e passa a ver o incremento da liderança negra terceiromundista.

Lambeth 98 compreende também que os bispos devem procurar se reunir em “grupos inter-regionais". (98.3.9) Este tipo de encontro - congregando bispos das regiões mais próximas - poderia fazer com que, além do óbvio intercâmbio inter-diocesano, houvesse a geração de oportunidades para se compartilhar experiências exitosas ou não e o mútuo estudo de temas que são comuns.

A conferência de 88, contudo, retoma um tema difícil para todos nós. A Conferência afirma que é um "comportamento inapropriado para qualquer bispo ou sacerdote nesta Comunhão exercer ministério episcopal ou pastoral em outra diocese sem primeiro obter a permissão e o convite da autoridade eclesial“. (88.72) É estranho, mas há bispos e clérigos que têm este comportamento. Numa Igreja onde a territorialidade é a base do paroquialismo, o respeito deveria ser uma constante. Mas não é isso que vê com uma certa freqüência. Nenhum bispo ou clérigo pode agir em outra paróquia ou diocese, sem o expresso consentimento da autoridade do lugar. Esta prática milenar, em função da urbanização e das facilidades da vida moderna (transporte e comunicação) parece está caindo em desuso. Contudo o respeito às regras ainda pode salvaguardar uma comunidade paroquial ou diocesana da presença de lobos nos campos do Senhor.

Para concluir, quero citar duas antigas fórmulas ditadas pelo bispo Cipriano de Cartago (200 d.C.). Em primeiro lugar, para ele a "igreja está constituída do bispo, do clero e de todos os fiéis".[24] Esta fórmula revela que desde o início dos tempos patrísticos que a autoridade dos bispos é destacada da autoridade dos demais membros do clero e dos leigos. A Segunda fórmula, e a que tem mais importância para nosso estudo, diz que “a Igreja sempre está estabelecida sobre os bispos e todo os atos da Igreja devem ser dirigidos por estes oficiais“[25] Em uma realidade de multiplicação de heresias e de contaminação da fé, a existência dos bispos foi fundamental para a preservação da Igreja. É o bispo o orientador e governador da igreja, e a preservação na santa doutrina implica necessariamente em se estar em comunhão com ele, pois onde estiver o bispo aí estará a Igreja.

Rev. Jorge Aquino, OSE, Reitor do Seminário Teológico Anglicano do Recife, e Ministro-Encarregado da Missão da Natividade, Natal, RN.

[1] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 101 [2] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 108 [3] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 108 [4] Na Igreja de Roma os bispos podem, quando necessário, delegar aos presbíteros autoridade para confirmar. [5] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 108 [6] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 137 [Z] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 138 [8] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 137 [9] Schillebeeckx, Edward História Humana: Revelação de Deus, p. 8 [10] The Truth Shall Make you Free: Lambeth Conference 1988. The Reports, Resolutions & Pastoral Letters from the Bishops, p. 62 [11] Dom da Autoridade, nº 56 [12] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 137 [13] The Lambeth Conference 1968, Resolutions and Reports, p. 137 [14] The Truth Shall Make you Free: Lambeth Conference 1988. The Reports, Resolutions & Pastoral Letters from the Bishops, p. 32 [15] The Truth Shall Make you Free: Lambeth Conference 1988. The Reports, Resolutions & Pastoral Letters from the Bishops, p. 50 [16] The Truth Shall Make you Free: Lambeth Conference 1988. The Reports, Resolutions & Pastoral Letters from the Bishops, p. 54 [17] The Truth Shall Make you Free: Lambeth Conference 1988. The Reports, Resolutions & Pastoral Letters from the Bishops, p. 61 [18] The Official Report of the Lambeth Conference 1998, p. 178 [19] The Official Report of the Lambeth Conference 1998, p. 178 [20] The Official Report of the Lambeth Conference 1998, p. 205 [21] Doctrine in the Church of England, p.125 [22] The Official Report of the Lambeth Conference 1998, p. 205 [23] Hooker, Richard Of the Laws of Ecclesiastica Polity, VII.x.1 [24] quando ecclesia in episcopo et clero et in omnibus stantibus sit constituta [25] Ut ecclesia super episcopos constituatur et omnis actus ecclesiae per eosdem praepositos gubernetur.

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