O Espaço Sagrado e Litúrgico

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O Espaço Sagrado e Litúrgico

Pe. Enrique IllarzeoasbData desconhecida

O Espaço Sagrado e Litúrgico

Pe. Enrique Illarze,oasb.

I. - Conceitos básicos – Uma aproximação teológica.

A história da humanidade nos diz que, sempre têm existido lugares onde a presença do Sagrado é especialmente forte e onde os seres humanos tem tido a possibilidade de se comunicar e relacionar com ele, através da oferenda, a oração e a propiciação, sentindo-se assim próximos do Mistério. Esses lugares estavam primeiro na natureza: montanhas, fontes, árvores, pedras e depois foram edificados em seu entorno ou sobre eles, edificações que continham elementos representativos ou simbólicos sacros e nos quais a presença física do divino (imagem, símbolos cúlticos), era de especial relevância. Os Espaços Sagrados tem então a característica de serem LUGARES DE ENCONTRO entre o humano e o divino, nas suas diferentes formas. Nós, cristãos, damos a essa realidade transcendente e misteriosa o nome de Deus, nosso Criador e Pai, onipotente e onipresente, que se revela e quer se comunicar conosco. Por isso reservamos certos lugares onde realizar, de forma privilegiada, mas não única, nossa comunicação e relacionamento com Ele, e damos aos mesmos o nome de “Templos” ou de “Igrejas”. Eles não se identificam pela presença física do Divino, mas pela celebração do mistério que neles acontece.

II. - Templo ou Igreja?

Ambos os termos são usados como sinônimos, ainda que não o sejam. É bom saber por que seria preferível usar a palavra TEMPLO para designar o edifício ou lugar que define o espaço pública e exclusivamente dedicado ao culto de Deus. A palavra IGREJA designa algo mais grande e profundo do que a mera edificação física. Originariamente, a palavra grega ekklesia significava a reunião ou assembléia dos cidadãos, e só por extensão passou a designar o lugar da mesma. Para os cristãos é essa ação de se reunir o que define o espaço como sagrado, o lugar da presença de seu Mestre e Salvador: "Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu Nome, eu estou no meio deles” (Mt. 18,20). Seus seguidores somos convocados, semanalmente, no dia da sua Páscoa, para fazer memória de Ele, e assim reunidos, ser as “pedras vivas”, que integram o “Templo”, conforme as palavras de Pedro (1 Pe. 2,5) e Paulo (1Cor. 3,17). Falamos então que os cristãos UNIDOS pelo Espírito Santo constituem o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja propriamente dita.

Por isso, Jesus é o verdadeiro “lugar” do culto cristão, seu “Templo”, e doravante, o culto estará ligado a Ele: “mas Ele falava do Templo de seu corpo” (Jô, 2, 21), pois pela Encarnação divina, a humanidade de Jesus é o lugar da presença e da manifestação de Deus no meio de toda a Criação.

Todavia, e pelas suas limitações, o ser humano precisa expressar sua adoração servindo-se da materialidade do próprio corpo e criando, com suas mãos e inteligência lugares onde através da beleza e harmonia das ações neles desenvolvidas se expressem a Beleza e Bondade divinas, e possam se tornar espaços sagrados de culto, de “Encontro” com o mistério de Deus. Por todas estas razões preferimos usar o termo “templo” para nos referir à estrutura física (ex.: o templo da Catedral ou da Paróquia) e reservar "Igreja" para os cristãos reunidos ou para a Instituição (ex.: a Igreja Episcopal Anglicana; a Igreja local reuniu-se em Concílio).


III. - O templo cristão.

Ele foi definido como a casa onde o Povo de Deus, o “novo Israel”, se reúne para o culto, mas não é só uma sala de reuniões mas também uma verdadeira moradia do Senhor, conforme o Antigo Testamento (AT), que abriga o Corpo Místico do Senhor Jesus, que é a própria comunidade. Daí sua razão de ser. É, pois, um lugar, onde deveria poder-se experimentar o pré-gosto da vivência do amor evangélico, o novo mandamento, conforme João 13, 34, e onde aprendemos o que significa ter vida plena, renascer em Cristo, de forma nova e diferente. É no Templo que começa a "transfiguração” do cristão, pois nele se celebra o Mistério Pascal e as demais ações sagradas dos batizados.

Por isso é tão importante a construção adequada e cuidadosa do templo material, para que a sua edificação nos conduza através da liturgia comunitária a um bom momento de “encontro e diálogo" com Jesus.

A Liturgia cristã se expressa fortemente através da arquitetura (disposição das formas e dos espaços, da luz e do ar) e é condicionada também por ela.

Por isso, certos cuidados devem ser tomados, para que através das formas físicas do templo (sua arquitetura) possa-se dar um testemunho da fé do outro “templo vivo", o da comunidade que nele se congrega e que deve ser proclamada no bairro onde se encontra.

O que significa isto na prática?

Que o "Templo”, o material e o espiritual, devem preencher todas as necessidades, físicas e espirituais, da comunidade que o utiliza. Ser lugar de expressões de alegria, pesar, louvor, arrependimento e súplica, de sentimentos de pertença e acolhimento, de conforto espiritual e físico, com acessibilidade e beleza interna e externa, facilitando ao máximo a participação ativa, total e consciente dos fieis nos cultos. O templo é uma imagem terrena da “Jerusalém Celeste", conforme Apocalipse 21.

O EXTERIOR DO TEMPLO

Construir um templo é uma experiência que se dá uma vez a cada várias gerações, e que se feita de forma errada, será quase impossível depois corrigir o erro. O fato da construção ou de uma importante reforma proporciona à comunidade uma boa oportunidade para refletir e entender melhor os ritos e sobre como eles podem ajudá-la na compreensão de sua identidade e missão.

Doutrinas teológicas influenciam os estilos arquitetônicos dos templos. No momento atual as Igrejas privilegiam conceitos de participação, comunidade, inclusividade, cercania e beleza sem ostentação. Esses conceitos devem nortear às comunidades e os profissionais no seu refletir conjunto sobre o Espaço Sagrado.

  • O lugar: é muito importante a consulta a um profissional (arquiteto) sobre qual o melhor lugar para a construção: ele avaliará as condições do terreno, orientação, luminosidade, ventilação, drenagem, a fim de poder usar com sabedoria dos recursos existentes e evitar problemas posteriores. A comunidade deve pensar também que o lugar seja acessível, tanto para os que vão de carro quanto de ônibus (cercania), segurança, bons serviços de luz e água, e possibilidades de crescimento da comunidade (prever o espaço para o salão paroquial e a residência do pároco).
  • Identificação do edifício como um templo cristão: mediante a presença do símbolo cristão por excelência, que é a cruz, e que deve estar na frente da edificação. Um outro símbolo, não substitutivo da cruz, mas complementar, são os sinos, que historicamente formam também parte da tradição anglicana e que são dedicados pelo bispo numa cerimônia litúrgica de grande significado. A placa identifica tória deverá também estar, e é tão importante, que faremos algumas sugestões de forma especial para ela ao fim desta parte.
  • Proporcionalidade ao tamanho da comunidade, evitando-se tanto os extremos de uma capelinha minúscula quanto o de uma basílica faraônica, e prevendo-se um crescimento numérico da congregação em escala razoável assim como cultos especiais (casamentos, celebrações ecumênicas ou a nível diocesano: ordenações ou reuniões conciliares, por ex., na prática, para 180/200 pessoas sentadas para uma Paróquia, e 90/100 para uma Missão).
  • Contextualidade dos elementos arquitetônicos: tanto no uso de elementos e técnicas arquitetônicas locais, quanto na integração com o estilo dos edifícios do bairro onde se encontra, e ao mesmo tempo, que possa ser também um referencial na cidade ou no bairro, e contribua para a identificação da Igreja no lugar.
  • Convidativa: o exterior deve mostrar que a comunidade que ali se reúne faz questão de mostrar sua abertura ao mundo e quer receber a todos como seus hospedes muito especiais para o "banquete do reino”, sem exclusões (Mt. 22,9-10). As pessoas não devem sentir-se repelidas nem obstaculizadas a ingressarem no templo. Ele não é uma fortaleza nem a arca de Noé, e sim a casa onde o povo de Deus se congrega. Altos muros, escadarias, excessivo afastamento da rua, escuridão, total ausência de elementos naturais (grama, flores ou até alguma árvore), desinformação sobre as atividades comunitárias, templo “sempre fechado” (por abrir só aos domingos), devem ser evitados. A iluminação noturna deve existir, não só por razoes elementares de segurança, mas também para dar realce à arquitetura do edifício e ao mesmo tempo marcar presença e ser um referencial no bairro.
  • Acessibilidade: é uma característica associada à anterior. Pessoas de todas as idades e condições devem poder entrar, em especial crianças, idosos e portadores de deficiências, e devem poder fazer isso com segurança, devendo-se ter especial cuidado na colocação de rampas, corre-mãos, alturas adequadas dos degraus, elementos antiderrapantes em rampas e degraus, os passeios destinados ao trânsito em boas condições, boa iluminação (especialmente noturna), facilidade para estacionar carros em segurança.

AS PLACAS IDENTIFICATÓRIAS

Elas são essenciais e tão importantes que merecem um especial destaque. São o “cartão de apresentação” da comunidade e como tal devem poder dizer de forma simples e direta, a) quem nós somos, b) o que fazemos, c) quando o fazemos, d) e como pôr-se em contato conosco. Alguns elementos serão aqui sugeridos, mas cada comunidade os expressará de seu jeito. O importante é que os quatro princípios básicos sejam respeitados.

  • Instalação: pintada diretamente na parede externa do templo, ou uma placa pintada, colocada na parede externa ou colocada mais perto da rua.
  • Tamanho: uma boa dimensão estaria em torno de
  • Material: se a chapa metálica for a escolha, seria bom em chapa 20, de forma que possa resistir melhor a intempérie e ventanias.
  • Bases de apoio: em concreto ou metal, são melhores do que de madeira. No caso de metal, fazer primeiro a proteção anticorrosão e depois aplicar a tinta.
  • Estilo e tamanho das letras: evitar estilos de difícil leitura, como a letra gótica, por exemplo. Lembrar que há palavras que devem ter especial destaque, como o nome da Igreja e o da Paróquia ou Missão, mas todo deve ter uma harmonia.
  • Cores preferenciais: fundo branco, letras e números em negro, podendo haver um marco ou borda em tinta preta.
  • Elementos identificatórios: essenciais: o brasão Provincial, o nome por extenso da Igreja (estes dois elementos conforme o padrão oficial), o nome da Paróquia ou Missão, em destaque; Endereço completo e telefone; Dias e Horários dos Cultos e de atividades de Grupos Paroquiais (Catequeses, UMEAB, UJAB, etc.); Opcionais: o nome e o brasão da Diocese.

O dilema do templo aberto ou fechado.

A violência urbana tem levado a que os templos permaneçam fechados boa parte do dia, abrindo uma hora antes dos cultos e fechando logo após os mesmos. Isso evidentemente contraria os ideais antes expostos sobre abertura, convite e acessibilidade. Nem sempre é possível conseguir voluntários/as para um sistema de rodízio que assegure o local aberto em horas adequadas, tanto para oração, quanto para reflexão ou um breve descanso em paz e tranqüilidade e quiçá até escutar uma boa música que ajude a espiritualizar o momento no templo. Não há receita preparada e cada comunidade, na sua situação concreta, deverá refletir, junta, para achar vias que amenizem as limitações da violência urbana e lhe permitam adequações concretas ao cumprimento de sua missão: proclamar e testemunhar as Boas Novas de Jesus naquele lugar, sendo acolhedores.

PARA PENSAR SOBRE TODA ESTA PARTE.

  1. O que significa o Templo para nós? Por quê?
  2. Que elementos ou conceitos são importantes na arquitetura de um templo e por quê?
  3. Você considera que o templo de sua comunidade paroquial reflete esses elementos? Ou não? Por quê?

4.4.- O TEMPLO E SEU ESPAÇO SAGRADO INTERIOR.

Na visão cristã o Espaço Sagrado é um “sinal”, uma manifestação do divino entre nós, conosco; lugar onde o Deus vivo e doador de vida se faz presente, e de onde Ele irradia vida para o mundo. Nós, repousados n’Ele somos renovados e enviados ao mundo, para transmitir suas Boas Novas a través de nosso exemplo de vida. Se Cristo mora em nós (Gl. 2,20) e nós, comunidade formamos o espaço onde Ele se manifesta em nós, o Espaço Sagrado sou eu, somos todos nós. Isto nos leva a partilhar algumas das características do Espaço Sagrado sobre as quais seria bom poder refletir juntos:

  • É um LUGAR DE ENCONTRO, dos “filhos dispersos", do Sagrado e do Humano, onde nos sentimos Corpo de Cristo, e por tanto, Igreja (Ap.21,3).
  • De ADORAÇÃO E DE DIÁLOGO (oração), em “espírito e verdade (Jô. 4.23)”.
  • De ATENÇÃO E DE TENSÃO sobre a criação e sobre como orientar nossas Vidas
  • Da PALAVRA E DA APRENDIZAGEM DA ESCUTA.
  • Da VIDA COM QUALIDADE, expressada na Beleza e na Paz, onde o espaço de Deus (Perfeito e Simples) se integra com o espaço do ser humano redimido (Justo, Amoroso e Alegre).
  • De EXPRESSÃO DE FÉ, através da contextualização do Mistério, que se celebra nas formas da cultura local.
  • De celebração semanal da Páscoa do Senhor.

Por isso, a fé e o agir dos cristãos serve para mostrar ao mundo que a comunidade cristã que tem o templo como seu centro de referência é "o lugar” da Nova Criação, onde os descendentes do novo Adão se reúnem, e onde, pela encarnação, beleza, verdade e santidade se conjugam numa só coisa. Pela arte, ao longo de toda a Era Cristã, é revelada a forma como os seguidores de Jesus encaram a vida.

Que significa isto na prática? Que um templo deve “mexer” com a inteligência e com o espírito, tanto do crente quanto do agnóstico ou do curioso que nele entrar; mas isso só será possível se o projeto for bom e harmonioso, se o bem das pessoas for tomado em conta, que o elo com a tradição inculturada for preservado, de forma tal, que possa ser "sentida” sua Presença nesse lugar.

A organização do Espaço nos Templos. –

Ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, no Ocidente, a presença viva do Jesus ressuscitado era vivida e sentida, tanto nas celebrações eucarísticas, quanto no dia a dia dos fieis, e a organização do espaço celebrativo nos templos (a partir do séc. III) refletia e expressava essa consciência e essa fé. Jesus vivo na Palavra, na Assembléia e no Sacramento. A partir do séc. XIII, ficou só a presença sacramental, e as outras formas foram deixadas de lado. Isso modificou a forma e disposição interna dos templos, que por sua vez, só plasmavam materialmente aquelas visões teológico-liturgicas. No início do séc. XX surgiu na Europa o Movimento Litúrgico, cujo objetivo era a promoção de reformas litúrgicas que resgatassem o sentido primitivo da liturgia (sem cair no "antiquarismo") e alavancassem uma fé mais viva e um compromisso de vida cristã mais e mais aprofundado.


OS COMPONENTES ESSENCIAIS DO ESPAÇO SAGRADO.

Devem-se resgatar os sentidos teológico e pastoral (pedagógico) do ALTAR, do AMBÃO, do ESPAÇO DA COMUNIDADE e o LUGAR DA PRESIDÊNCIA. Se esses elementos foram bem refletidos e entendidos pelos eclesianos, será possível obter, no fim, participações mais conscientes, vivas, interiorizadas, frutuosas, comunitárias e orantes, na Sagrada Liturgia. Devemos sempre ter em consideração que TODA a Liturgia possui uma dimensão SIMBOLICO-SACRAMENTAL, e que ela começa pelo lugar físico onde a celebração acontece.

Veremos agora cada um dos componentes do Espaço Sagrado interior.

1.- ALTAR OU SANTA MESA

É o foco de convergência da atenção e da ação litúrgica no templo, mas não necessariamente o centro geométrico do mesmo. É o foco porque nos traz à memória a entrega total que por nós fez Cristo, e isso é para nós a coisa mais sagrada. O altar físico nos lembra que o verdadeiro altar não é esse material, mas que o próprio Cristo é o altar, e não só o altar, mas como diziam os Santos Pais: ele é também a vítima e o sacerdote (Cirilo de Alexandria e Epifanio). Ser o foco da atenção da comunidade significa:

a) que nada deve tirar-lhe essa centralidade (sacrário, estalas, órgão, castiçais...), pois é em seu redor, como em torno da mesa familiar, que a comunidade se reúne para a santa refeição, à qual todos são convidados. Lembremos que no Rito de Dedicação do Templo, dentro da tradição anglicana, o altar é consagrado e ungido, e nele são gravadas pelo Bispo consagrante, 5 cruzes, antes de poder ser utilizado para a celebração.

Altar ou Santa Mesa? Ambos os termos são corretos e acham abundante uso tanto no cristianismo primitivo quanto na Escritura. O termo “altar" enfatiza o aspecto de “sacrificio” de Jesus e o termo “Santa Mesa” o de refeição, comunidade e partilha. Mas não são termos opostos, porém complementares.

Cuidados práticos

a) Usa-se só uma toalha, que caia aos lados e não pela frente, para não ocultar a nobreza e beleza da peça. b) Não converter o altar em depósito de objetos: castiçais, vasos de flores, LOCs, hinários, estojos de óculos, galhetas, cálices e cibórios. c) Altares não precisam ser grandes. Uma boa medida poderia ser de 1,10 x 0,70 x 0,90 (altura). Existe uma tendência a resgatar formas mais quadrangulares antes que retangulares. A base pode ser de madeira, metal ou pedra, e a mesa em madeira ou pedra. O que sempre deve ser tido em conta é o USAR SEMPRE MATERIAIS DE BOA QUALIDADE, e que a peça seja bela e digna. d) O que pôr no altar? Em princípio e até o começo da Oração Eucarística: NADA. Flores e castiçais podem estar, sempre que sejam discretos, ainda que pudessem ser colocados aos lados ou na frente do altar. Evitar sempre colocar o cálice e a patena, cobertos ou não, e abrir o corporal ao começo da celebração. Tudo isso está na credencia e é levado até o altar no momento oportuno, e retirado depois das abluções da pós-comunhão. e) Os microfones devem ser discretos, especialmente aqueles que têm suportes. f) O altar precisa ser visível desde todos os ângulos do templo, mas não precisa ter 3 ou 4 degraus para aceder a ele. g) Lembrar que os antependios são algo tradicional, mas não são essenciais. h) A toalha de altar de modelo “laudiano” que cobre inteiramente o altar por todos os lados e chega ao chão, é parte da tradição anglicana desde o séc. XVII, mas não é já muito usada. A qualidade do material do tecido é fundamental.

2.- AMBÃO ou MESA DA PALAVRA:

É o lugar desde onde se proclama a Palavra de Deus. Deve ser de material nobre, em harmonia com o estilo e materiais do altar e da cadeira da presidência, e ser único, e usado exclusivamente para a proclamação das leituras ou fazer a homilia. Não é estante para avisos, folhas de cantos, comentários, etc. O valor do ambão é que ele sustenta a Palavra e a exibe às pessoas, assim como os vasos sagrados contém (mas não são) o Corpo e o sangue de Cristo. Porém, Cristo se faz presente na comunidade também através da Palavra. Sua decoração seja discreta, sem excesso de símbolos e preveja a colocação de um microfone. Normalmente, coloca-se nele um véu da cor litúrgica da quadra. O Ambão e o Ministro da Palavra devem ser claramente visíveis para todos os participantes na celebração.

Temos visto no estrangeiro ambões com um duplo estante, um direcionado para a congregação e no qual está sempre entronizada a Santa Bíblia e o outro, desde o qual, o Leitor proclama a Palavra, usando uma outra Bíblia. É outra possibilidade. Dimensões sugeridas podem ser: 1,20 de altura de frente x 0,35 de largura. As dimensões do estante onde se coloca o Livro poderiam ser em torno de 0,35 x 0,30.

3.- O LUGAR DA PRESIDÊNCIA DA CELEBRAÇÃO.

Devemos ter sempre presente que o verdadeiro presidente da Liturgia é sempre o próprio Cristo. Ele age através da pessoa do presidente da assembléia litúrgica: bispo, presbítero, diácono ou leigo encarregado, pois na Liturgia, Cristo está no meio do Povo de Deus que se reúne hierarquicamente. A cadeira do Bispo recebe o nome especial de “cátedra” e só ele pode usá-la. A cadeira do celebrante manifesta sua função de presidir a assembléia e dirigir a oração. Seu lugar é voltado para o povo, no presbitério, nunca diante do altar, e sim, detrás ou a um lado deste. O importante é que possa ser visível a todos e que não tenha a aparência de um trono, pois quem preside está para servir à comunidade e não para dominá-la: “Eu vim para servir e não para ser servido”. Junto a ela devem estar os lugares (cadeiras, assentos, bancos) para os outros ministros da celebração, deforma tal que eles não precisem passar continuamente diante do celebrante ou do altar. O material dos assentos deve ser digno e de boa qualidade e estar em harmonia com o ambão e o altar. Uma sugestão de medidas: o assento de 0,40x0,40x0,40. O respaldo de 0,45 x 0,30 com um angulo de inclinação de 95 graus.


4.- O ESPAÇO DA COMUNIDADE (NAVE)

A forma como é estruturado o espaço dos fiéis expressa qual é a compreensão da teologia da assembléia ali congregada. O povo está ali reunido como um “corpo”, como “pedras vivas” de uma comunidade que é o próprio Cristo, ou esta ali, como indivíduos numa “escolinha”, para serem doutrinados ou serem espectadores de um “show” que acontece lá diante, no presbitério? A atual disposição dos bancos, enfileirados, aponta nestas duas ultimas visões. Os lugares reservados aos fieis tem seu próprio valor e devem expressar a responsabilidade individual pela unidade da assembléia e não serem veículos de individualismo desagregador.

Se as celebrações litúrgicas são ações conjuntas de Cristo e do Povo de Deus hierarquicamente organizado, essa unidade na diversidade das funções testemunha o fato de que pelo batismo todos somos um só em Cristo. Por isso não pode haver bancos ou cadeiras isoladas ou reservadas para certas pessoas (exceto por razões de saúde), nem existir lugares ao fundo do templo que fiquem afastados e sem visão do altar. Assentos não necessários devem ser evitados, sem criar, porém espaços vazios ou sem sentido. Os bancos ou cadeiras devem ser cômodos (ergonômicos), ainda que não demais, pois se trata de facilitar a participação numa celebração litúrgica e não num evento artístico ou teatral.

Tenha-se cuidado com a decoração interna, a efeitos de que a mesma sugira o mistério do Divino, mas não tente ser “fotográfica”, nem serva para distrair.

Um outro cuidado é o da prudência nos enfeites florais e na colocação de plantas decorativas.

Os bancos (que não devem ser muito pesados) ou cadeiras devem dispor-se de forma que facilitem os movimentos na nave do templo, especialmente sobre as laterais. Devemos lembrar que NÃO EXISTE nenhuma disposição que obrigue a usar bancos. Podem ser cadeiras. Isso deve ser pensado bem no começo do projeto de reforma ou construção. Cadeiras permitem mudanças na disposição do espaço conforme as diferentes necessidades litúrgicas da comunidade.

As formas das janelas não precisam ser necessariamente góticas nem de arco inteiro (romano). Todo dependerá do estilo escolhido e da harmonia do conjunto.

Como critério geral, lembre-se que as visões teológicas dos séculos XVII aos mediados do XX propiciavam o “individual” (eu e Deus), tentando criar uma atmosfera na qual a pessoal não estivesse consciente dos outros participantes no culto. Hoje (como conseqüência do trabalho do Movimento Litúrgico a nível mundial e nas Igrejas históricas) a ênfase é outra: a Igreja deseja, quer e necessita que os fieis sintam-se atraídos a rezar e celebrar JUNTOS!

Mostram-se algumas disposições internas de templos, que podem ajudar na melhor compreensão de todo o dito.


OUTROS ELEMENTOS IMPORTANTES (Mas não essenciais)

O Átrio, a credencia, o tabernáculo, o lugar dos músicos e cantores.

5.- O ATRIO.-

Situado na entrada do templo, ele marca o espaço de transição entre o espaço sagrado do templo e o espaço externo ao mesmo, profano (“o não sacro”) e serve também como lugar de convivência para a comunidade e de comunicação de notícias: murais de avisos, proclamas, etc., permitindo aos fieis “estar juntos” antes e depois dos cultos, na “festa do encontro”. Tem também a função prática a de diminuir o barulho da rua e proteger a nave das inclemências do tempo (vento, umidades, etc.), e deveria permitir o ingresso no templo, tanto pela frente quanto pelos lados, e utilizar vidros ou similares, para não escurecer demais o interior do templo. É o lugar por excelência para exercer também o “ministério da acolhida (e da despedida) carinhosa” por parte dos encarregados desse ministério na comunidade.

6.- A CREDENCIA.-

É uma mesa colocada perto do altar. Não é, estritamente e depor si, um objeto litúrgico, mas cumpre uma função auxiliar indispensável: servir de apoio aos objetos sagrados a serem usados durante a celebração litúrgica, e evita ter que ir à sacristia a cada momento a buscar o que falta. Devem ser de forma simples e não muito pequenas, e estar em harmonia com o resto da mobília do presbitério. Aconselha-se, mas não é essencial, usar uma toalha não muito grande sobre a mesma. Dimensões sugeridas: 0,50 x 0,50 x 0,80 de altura.

7.- O LUGAR DOS MUSICOS E CANTORES.-

É necessário dizer que os ministros do canto e da música são parte e estão a serviço da Comunidade que está celebrando a Liturgia. Colocar esses ministros no fundo do templo ou num lugar afastado da comunidade (os “coretos”) não passa a impressão de integração na comunidade. O lugar dos músicos e coralistas é determinado pela sua função na liturgia, que é: guiar e sustentar o canto da comunidade, e por tanto deve estar bem visível e permitir ser ouvido por todos os participantes, deforma que possam provocar na congregação um “santo contágio” e eles mesmos se sentam “parte” e não afastados da comunidade.

Os aparelhos de som: o tema é delicado e requer bom senso e sentido litúrgico na escolha dos CDs. O uso justifica-se nos casos em que a comunidade não disponha de músicos aceitáveis e quando se querem ensinar novas canções. Mas, sempre deve ter como objetivo proporcionar uma experiência viva na celebração litúrgica.

Órgãos: é importante que no caso de restaurar ou adquirir um órgão sejam consultados previamente, especialistas para aconselhar o modelo de instrumento que melhor se adapte às condições acústicas do templo, e que o mesmo seja instalado num lugar que respeite o dito ao começo deste item sobre o ministério dos músicos e cantores.

8.- O SACRÁRIO (OU TABERNÁCULO).

É uma caixa ou cofre, onde são guardados os recipientes que contém as hóstias e o vinho a serem administrados aos doentes e os que contêm os Santos Óleos (para batismos, confirmações e ordenações e para os doentes). Existem desde o séc.II, e originariamente estavam nas sacristias, passando depois a uma das paredes laterais do presbitério. A partir dos séc. XIII/XIV com o surgimento das devoções eucarísticas e definitivamente desde o séc. XVI (na Igreja Romana), os mesmos passaram a ser instalados sobre os altares, respondendo às mudanças teológicas sobre a adoração eucarística. Os anglicanos não os usaram originariamente, por ter um posicionamento teológico diferente, mas como conseqüência do Movimento de Oxford (1833-45) eles voltaram a ser utilizados e ganharam aceitação após os trabalhos do Movimento Litúrgico, que percorreu todas as Igrejas históricas.

Na segunda metade do séc. XX entraram na IEAB e hoje muitas de nossos templos possuem um sacrário.

O uso e colocação dos sacrários: entre nós, eles não são instalados no meio da parede do fundo do presbitério, nem acima do altar, mas a um lado do altar ou numa parede lateral do presbitério e o tamanho deve ser proporcionado ai resto da mobília do santuário e ao tamanho dos recipientes que estarão no seu interior, i.e.: 1 cibório, seja em forma de caixa (“pix” ou “teça”) ou de cálice com cobertura para as hóstias, 1 recipiente para o Vinho e as oleiras com os Santos Óleos. Podem ser em madeira ou metal, afixados na parede ou dentro dela, com a porta com chave, de forma de dar segurança. Não é conveniente sua colocação sobre uma mesa. A porta pode ter algum elemento decorativo apropriado (ex.: espigas de trigo, uvas, peixe, cruz), mas simples e todo deve ser belo, digno e de matérias de boa qualidade. Pode ser colocada, bem perto dele, uma lamparina (geralmente elétrica), que fica sempre acessa, e que indica a Presença Sagrada, mas não é obrigatória entre nós. Uma sugestão de dimensões, no caso de uma caixa de forma cúbica, é de 0,30 x 0,30 x 0,30, mas deve ser tida em conta a altura do cibório a ser guardado nela. A altura da colocação da mesma é de forma que a chave fique a 1,40 do chão, para facilitar a abertura do sacrário. Em alguns lados, em baixo do sacrário, põem uma “mensula” (pequena mesa), coberta com uma toalha simples, do tamanho da tampa da mesa, mas que nunca é a credencia.

PARA REFLETIR JUNTOS

  1. Quais os quatro elementos simbólicos principais de um espaço litúrgico para uma celebração?
  2. O que representa cada um deles e por que são tão importantes
  3. Estão presentes no templo de sua comunidade?
  4. Quais os cuidados a ter com o altar onde se celebra a eucaristia comunitária, e por que tê-los? Como é o altar de sua comunidade?

4.5.-COMO A COMUNIDADE PAROQUIAL SE PROJETA NO MEIO SOCIAL?

“Sejamos corajosos e fortes no testemunho do Evangelho entre todas as pessoas”, expressa nosso LOC (p.80). Assim é que somos enviados em paz para proclamar as Boas Novas de Jesus e proclamá-las na sociedade. A comunidade centra-se na Palavra e no Sacramento e descentra-se em ação testemunhal.

Como se realiza isso normalmente?

1º.) A través do exemplo de sua vida cristã no seu contexto social. 2º.) Pelos meios de comunicação: boletim paroquial (tipo meia folha A4 de ambos os lados, com as leituras dominicais, um breve comentário do evangelho, atividades dos grupos paroquiais. A Comissão Diocesana de Comunicação, se consultada, estará muito contente em poder ajudar. 3°.) Onde elas existirem: poder dispor de alguns minutos nas rádios comunitárias locais, para marcar a presença da Paróquia. Cinco minutos diários já é suficiente, sempre que seja à mesma hora. Uma reflexão, uma oração, endereço, telefone e atividades dos grupos paroquiais. 4°.) Inserção no bairro: não somos um clube elitista nem a arca de Noé. Estamos num mundo, ainda que não sejamos dele. Por tanto, a presença paroquial na trama social é indispensável: associações de moradores, grupos de saúde, atenção aos dependentes, educação, segurança, etc. 5°.) Diálogos e contatos fraternos a nível ecumênico (com outras denominações cristãs) e inter-religioso (com outras fés: budistas, espíritas, afros, islâmicos...) lembrando que a Vida, dom de Deus, não é só para os cristãos, mas para toda a humanidade, sem exclusões, e que o Espírito Santo, doador da Vida, sopra onde ele quer, e que ninguém tem relações de exclusividade com ele.

Portanto, contatos ecumênicos e inter-religiosos e a participação ativa em eventos desse tipo, promover o uso de nossos templos para tais atividades é também uma forma de levar nossa presença e proclamar as Boas Novas de Jesus para todos.

6º.) Meios eletrônicos: “sites” e novas formas que vão aparecendo. Eles são cada vez mais um meio de comunicação mais difundido, barato e de grande penetração. Para quer sejam efetivos requerem pessoas experientes na sua formatação e depois, continuidade na alimentação do site com notícias e novos materiais, pois caso contrário deixam de ter interesse para os visitantes do site e deixam de ser acessados. Uma combinação equilibrada de meios eletrônicos e convencionais (papel), especialmente em comunidades onde nem todo tem acesso a computadores é o mais indicado.

Para refletir:

  1. Sua comunidade é uma comunidade fechada em si mesma ou não? Por quê?
  2. Que meios ela usa para fazer-se presente no meio social onde ela está?
  3. São eles suficientes ou não? Por quê?

4.6.- O ESPAÇO SAGRADO: SUGESTÕES PARA TER EM CONTA NO CASO DE CONSTRUÇÕES E/OU REFORMAS.-

I.- Contatos iniciais

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