O EVANGELICALISMO ANGLICANO – Seu Legado, seu Apelo, seu Futuro –
O EVANGELICALISMO ANGLICANO
Seu Legado, seu Apelo, seu Futuro
Roger Steer
O Legado
O Arcebispo George Carey disse à Assembléia Evangélica Anglicana, de 1995, que ele tinha lido recentemente os comentários do Cônego Charles Smythe sobre os primeiros cinqüenta anos do reavivamento evangélico: “Dentro do incrível espaço de meio século, os evangélicos, embora uma minoria, converteram a Igreja da Inglaterra às missões estrangeiras, efetuaram a abolição do tráfico escravo e da escravidão, iniciaram a legislação trabalhista e reformas humanitárias, curando os piores efeitos da revolução industrial. Tem qualquer Igreja na cristandade realizado tanto em tão pouco tempo?
Por um longo período, também, creio que as realizações desses homens e mulheres têm sido memoráveis. Wycliffe e os Lolardos protestaram contra a corrupção da Igreja de Roma no fim da Idade Média, de modo que poucos historiadores católicos hoje poderiam negar. Eles procuraram persuadir os seus contemporâneos que a Bíblia era o "exemplar" eterno do cristianismo, e que uma religião com profundidade - fé e prática que tocassem o coração - era mais importante do que o mero formalismo. Cristo era o autor da salvação. Pessoas inglesas comuns, de todas as idades, teriam a oportunidade de ler as Escrituras na sua própria língua. O trabalho de tradução iniciado por Wycliffe, e sua equipe de eruditos, foi consolidado por Tydale e Coverdale.
Em uma época da agitação religiosa e política, quando um rei inglês tinha intensas razões pessoais para se ver livre da jurisdição do Papa, Cranmer assegurou que a Igreja na Inglaterra pudesse adorar a Deus em uma linguagem, e usando uma liturgia, que fossem familiar e bíblica. O último maior biógrafo de Cranmer, Diarmaid MacCulloch, crê que a palavra "Evangélico" descreve adequadamente as principais idéias dos reformadores da Inglaterra da época dos Tudor. Os anglicanos poderiam se dirigir a Deus usando orações em sua própria língua, que combinassem tudo que havia de melhor na tradição monástica com frases e imagens das Escrituras. Não tendo nenhuma dúvida de que Deus era bom para eles, o Parlamento aprovou leis que requereriam do povo inglês a freqüência à igreja, e aprovou os Artigos de Religião, que tinham sido redigido por homens que eram simpatizantes das idéias reformadas e evangélicas, mas que o fizeram de uma maneira engenhosa, que permitisse o apoio daqueles que no futuro tivessem uma inclinação mais católica.
O Arcebispo Matthew Parker, do reinado de Elizabeth, exerceu uma liderança sábia, erudita e tolerante na nova Igreja da Inglaterra, identificando-se com os reformadores moderados, enquanto preservava vínculos com o passado. Dois devonianos, John Jewel e Richard Hooker, pensaram e oraram profundamente sobre afinal o que seria o Anglicanismo, estabelecendo uma rota que distanciaria a sua Igreja do Catolicismo Romano e do Puritanismo. Em particular, Hooker (de quem muitas de suas idéias permanecem populares entre os evangélicos) compreendeu muito bem que na vida da Igreja alguma forma de autoridade tem que ser reconhecida, e escreveu seus pensamentos sobre o papel das Escrituras, da razão, da tradição e da experiência. Pode ser que a percepção que Hooker tinha do Anglicanismo tenha algo a oferecer ao movimento evangélico, em sua abrangência - a confiança que o Deus que inspirou as Escrituras é o mesmo Deus que criou o mundo e erigiu a sua ordem.
Nos primórdios do século dezessete, o Presidente puritano de um College da Universidade de Oxford persuadiu um, de certa forma, relutante Bispo de Londres, e a um também não tão entusiasmado rei Tiago I, que deveria haver uma nova tradução da Bíblia, a única a ser autorizada na Igreja da Inglaterra. A resultante "Versão Autorizada" alcançou uma imensa popularidade entre anglicanos de todos as tendências, e entre evangélicos de todas as denominações cristãs por trezentos e cinqüenta anos, até que fosse preterida por um grande número de novas traduções, na segunda metade do século vinte.
No final do século dezessete, Richard Baxter incendiou a pequena cidade de Kidderminster com sua vibrante pregação do evangelho e decorrente santidade. Seus escritos, fixaram altos padrões de comportamento e compromisso para gerações de ministros cristãos, dentro e fora da Igreja da Inglaterra, mesmo quando alguns expoentes evangélicos daquela época, e da atualidade, considerem inconsistentes os seus ensinamentos sobre a justificação.
No século dezoito, os Wesley e Whitefield promoveram um reavivamento religioso que se espalhou além da Igreja da Inglaterra, embora eles mesmos nunca tenham deixado a denominação na qual foram criados e ensinados a respeito das coisas de Deus. Evangélicos, trabalhando como clérigos anglicanos, que eram capturados pelo novo movimento do Espírito Santo, começaram a pensar sobre si mesmos com um novo sentido, como membros de um “partido", mais importante, porém, ainda trabalhando dentro da Igreja da Inglaterra como evangelistas bem sucedidos, pastores de seus rebanhos, e exemplos humildes de santidade. Em seus hinos, Charles Wesley expressava o pensamento e o espírito do reavivamento em memoráveis versos, que eram exuberantes no louvor a Deus e à sua graça, assim como na compreensão da natureza das respostas requeridas nas vidas dos crentes. Seus hinos são cantados ainda hoje por todo Anglicanismo e metodismo, e em muitas partes do mundo cristão.
Newton e Cowper também escreveram hinos que mantém a sua popularidade, e Scott criou um comentário bíblico que viria a influenciar os primeiros pensamentos de John Henry Newman. Selina, Condessa de Huntingdon, devotou sua vida, fortuna e personalidade formidável para assegurar que a mensagem evangélica fosse proclamada dos púlpitos anglicanos em muitas partes da Inglaterra.
George Whitefield levou o reavivamento a cruzar o Atlântico, para um novo mundo que já possuía considerável presença da religião. Devereux Jarratt, dedicada e entusiasticamente, trabalhou como um ministro evangélico dentro da Igreja da Inglaterra na colônia da Virgínia, pregando o Evangelho não somente à sua própria paróquia, mas em quase trinta condados na Virgínia, e no que é agora o Estado da Carolina do Norte.
O cristianismo evangélico, contudo, espalhou a sua vitalidade outra vez na nova Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América (PECUSA), atingindo algo como "uma idade de ouro" em meados do século dezenove, em Nova Iorque, Kentucky, Filadélfia, Nova Inglaterra, Ohio e Illinois, bem como na Virgínia. Nos anos 1840, е 1850, os evangélicos constituíam quase a metade da Câmara dos Bispos e aproximadamente um terço do clero norte-americano. Sob a influência de um capelão evangélico (que, posteriormente, se tornaria bispo), um reavivamento explodiu na Academia Militar de West Point. Faculdades Teológicas Evangélicas foram fundadas para treinar pessoas para o serviço da PECUSA, e pregadores poderosos e bem sucedidos - alguns dos quais eram também personalidades exuberantes e atraentes - reuniram grandes congregações nas Igrejas Anglicanas da América.
Por sua vez na Inglaterra, Charles Simeon ganhava gradualmente o respeito tanto da cidade quanto da Universidade de Cambridge como vigário da Santíssima Trindade, por cinqüenta e três anos de apoio a muitas causas evangélicas. Lord Macawlay acreditou que a influência de Simeon sobre a Igreja da Inglaterra foi maior do que a de qualquer Arcebispo.
Os membros do grupo de evangélicos progressistas da Paróquia de Claphan dedicaram seus bens, tempo e energia ao apoio de muitos aspectos da obra do Senhor, e a uma variedade de causas dos necessitados. William Wilbeforce, apoiado pelos membros do grupo, trabalhou dura e pacientemente por dezenove anos, pela abolição do tráfico escravo, e, finalmente, da próprio escravidão em todo o Império Britânico.
A Sociedade Missionária da Igreja (CMS), fundada pelos evangélicos anglicanos ingleses em 1799, procedeu a um trabalho missionário pioneiro em muitas partes do mundo, e, na década de 1990, ainda está trabalhando em mais de trinta países.
Membros do grupo de Claphan estiveram, também, intimamente envolvidos com a fundação da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira em 1804, e a maioria dos ocupantes dos seus cargos de direção eram evangélicos anglicanos, mesmo quando estivavam convencidos de que a provisão de bíblias para o mundo deveria ser uma causa na qual anglicanos e não-conformistas (denominações independentes) deveriam trabalhar juntos.
Nem todos os clérigos evangélicos ingleses do século dezenove foram tão bem sucedidos quanto Daniel Wilson, que no primeiro Culto de Confirmação, como vigário de Islington, apresentou ao bispo 780 candidatos! A maioria, contudo, trabalhava longas horas, organizando reuniões de oração, preparando sermões, pregando o Evangelho, dirigindo Escolas Dominicais e visitando os seus paroquianos. O próprio Wilson veio a se tornar Bispo de Calcutá em 1832, encarregando cada clérigo da Índia a ser um missionário, gastando meio dia em oração, lendo a Bíblia toda a cada ano, supervisionando a construção da Catedral de Calcutá, e tornando Cristo o tema de cada sermão que pregava.
O sétimo Lorde de Shaftesbury, que descrevia a si próprio como um evangélico dos evangélicos, tornou-se o mais eminente reformador social do século dezenove, trabalhando incansavelmente para promover as condições dos adultos e das crianças nas fábricas, nas minas e nas casas, reformando o cuidado aos doentes mentais, e providenciando lares e escolas para os trabalhadores de Londres. Ele influenciou a nomeação de bispos em todo o espectro da Igreja, incluindo sete evangélicos. Um evangélico, John Bird Summer, tornou-se Arcebispo de Cantuária em 1848.
Um grupo de leigos evangélicos de Islington fundou a Sociedade da Igreja de Ajuda Pastoral (CPAS) em 1836, com Shaftesbury como seu primeiro presidente e W. E. Gladstone como um membro do seu comitê. A CPAS permanece como a principal agência missionária doméstica da Igreja da Inglaterra, provendo recursos para paróquias, encorajando e apoiando o trabalho entre os jovens, e administrando as obras sociais de centenas de paróquias.
No outro lado Atlântico, pelo final do século dezenove, todos os evangélicos na PECUSA tinham ou se unido à dissidente Igreja Episcopal Reformada ou se tornado liberais. Nos primeiros sessenta anos do século vinte quase não havia nenhum evangélico no sentido tradicional do termo dentro da Igreja Episcopal (dos EUA). Mas, de 1960 em diante, uma nova onda de entusiasmo evangélico, parcialmente associado com a renovação carismática, fez-se presente no interior da Igreja. Como decorrência da iniciativa de um grupo de clérigos evangélicos em 1974, е inspirada na fé de Alf Stonway, uma faculdade teológica evangélica foi aberta em 1976, agora localizada e florescente em Ambridge, Pennsylvania. Em meados da década de 1990, no meio de uma ECUSA esmagadoramente “liberal" ou “revisionista"; não há nenhuma diocese que não tenha, ao menos, algumas congregações ortodoxas e dinâmicas de algum tipo. Em algumas dioceses elas predominam. A crescente rede de pessoas biblicamente informadas, ortodoxas, e, freqüentemente, carismáticas (com inclinações tanto evangélicas quanto católicas) tem-se frustrado crescentemente com a atitude que a maioria dos líderes de sua igreja nacional está aparentemente tomando, em distanciamento da fé cristã histórica.
Sob a bandeira do Congresso Anglicano Americano (AAC), e seu documento "Um lugar para Permanecer", esse grupo de episcopais ortodoxos agora se vêem na posição de conclamar todos os membros da ECUSA que reconhecem o que eles acreditam ser uma perspectiva anglicana clássica, para se juntarem a eles, para o encorajamento mútuo e para a tarefa de missão e ministério.
Na Inglaterra do século vinte, os evangélicos na Igreja Anglicana têm sido fortes, mas nem sempre unidos. Livros de John Stott, Jim Packer, Michael Green, David Watson e, mais recentemente, Alister McGrath, vieram a ser amplamente lidos por cristãos de todas as denominações. Todos esses homens, e outros como eles, pregam, dirigem missões e dão palestras em muitas partes do mundo. Sua palavra e seus escritos têm encorajado jovens a crer que o evangelicalismo pode se manter nos círculos acadêmicos, e que a própria fé cristã é algo que vale a pena proclamar e defender. Diversas gerações de jovens, crescidos em igrejas do modelo da Paróquia de All Souls, (Londres), e estudando aos pés dos mestres evangélicos, têm sido motivados a viverem vidas sacrificiais no serviço de Jesus, e no poder do Espírito, em seu país e no campo missionário.
A nomeação de Donald Coggan como Arcebispo de Cantuária em 1974, foi um encorajamento a mais para os evangélicos, e pela década de 1990 mais da metade de todos os ordinandos para a Igreja da Inglaterra foram treinados em faculdades evangélicas, comparados com menos de 30 por cento em faculdades “centristas" e menos de 20 por cento em faculdades anglo-católicas (embora que, na atualidade, indivíduos e corporações portadoras dessas etiquetas sejam cada vez menos fácil categorizar).
George Carey, que encontrou a Cristo em uma igreja anglicana evangélica no início dos anos 1950, quando da sua nomeação como Arcebispo de Cantuária em 1991, falou calorosamente da sua dívida para com o evangelicalismo e de seus fundamentos como uma “religião do coração", que se deleita em um amoroso relacionamento com um Senhor pessoal. Ele também falou do que aprendeu com os segmentos católicos, carismáticos e liberais dentro da Igreja, e como sua espiritualidade tem sido enriquecidas pelas tradições diferentes daquela onde se tornou um cristão.
A história do evangelicalismo anglicano constitui uma herança rica e inspiradora. Mas a história produz seus efeitos mais saudáveis quando é contada e escutada em um contexto mais amplo. À semelhança de como nós somos enriquecidos quando refletimos sobre as vidas e as realizações de uma sucessão de homens e mulheres de Wicliffe a Wilbeforce, e de Shaftsbury a Stott, semelhantemente somos enriquecidos, e temos a nossa compreensão ampliada, por idéias oriundas de autores de outras correntes do anglicanismo.
O Apelo
Historicamente, os evangélicos têm representado uma proposta mais atraente quando:
São devotados a Cristo. Max Warren destaca que, desde 1850, os evangélicos eram freqüentemente colocados na defensiva, desenvolvendo um complexo “anti": anti-Roma, anti-ritual, anti-crítica bíblica, anti-Darwin, anti-mundanismo. De uma certa medida isso promovia a unidade, porque não há algo mais fácil de se unir do que contra um inimigo comum. Warren porém destaca que a unidade mais sadia é aquela encontrada na devoção a Cristo.
Seguem uma religião do coração. Esse foi um dos maiores temas de Wycliffe. Tanto ele quanto os Lolardos insistiam que uma religião em profundidade - fé e prática que tocam o coração – era mais importante que o mero formalismo. George Hebert, dizia aos pregadores que cada uma de suas palavras deveria atingir o "fundo do coração".
Conseguem combinar a sua religião do coração com a disposição para pensar. Bem antes que James Barr, Mark Noll e Os Guiness criticassem os evangélicos por falharem no uso da mente, John Stott tinha argüido, vigorosamente, que a grande doutrina da criação, da redenção e do julgamento, implicam que temos um dever inescapável de pensarmos e afirmarmos de acordo com o que pensamos e conhecemos; caso contrário veríamos a multiplicação de cristãos “dedicados mas sem profundidade".
Conseguem um equilíbrio entre “ortodoxia" e "fogo". Peter Moore, o atual deão da Escola Episcopal Trinity para o Ministério, em Ambridge, Pennsylvania, faz essa colocação quando fala de adorar a Deus "com mentes tão bem como com os corações, e com os corações tão bem como com as mentes". Isso requer o tipo de disciplina possível, somente em uma comunidade de adoração onde a pesquisa é conscientemente cultivada em submissão à Palavra de Deus, e onde as pessoas são amorosamente mantidas em mútua responsabilidade.
O bispo Charles McIlvaine tinha um ponto a destacar, em 1836, quando disse à diocese de Ohio que se eles queriam "promover o espírito de vital presença de Deus no mundo", deveriam assim proceder “por meio não somente do corpo a Igreja. Vocês também devem esperar que suas mentes sejam sadias, mesmo quando seus corpos estejam enfermos, de modo que o espírito da religião floresça, mesmo quando o corpo da religião, a Igreja visível, esteja em desordem".
Em sua Apologia para Formas Litúrgicas Autorizadas (1646), Jeremy Taylor escreveu sobre a Igreja da Inglaterra de então:
"Às Igrejas da Comunhão Romana podemos dizer que a nossa é reformada; às igrejas reformadas podemos dizer que a nossa opera com ordem e decência: porque nos libertamos de imposições e erros de um espírito tirânico, assim como das extravagâncias de um espírito popular; nossa reforma tem sido feita sem tumulto, e, mesmo assim, vimos acontecer a reforma necessária; fomos zelosos para expulsar os velhos erros, mas nosso zelo foi contrabalançado com a consideração e os resultados da autoridade."
- Essa ênfase no valor de algum tipo de ordem, autoridade e responsabilidade na Igreja é importante, em uma época quando se fala na existência de algo como vinte e cinco mil denominações e seitas cristãs no mundo. Esse fato tem sido visto por muitos fora da Igreja como escandaloso.
Pregam o evangelho em seus países e no estrangeiro. Exemplos são encontrados em profusão, com Wesley viajando 250.000 milhas pela Grã-Bretanha, desafiando a oposição para pregar mais de 40.000 sermões; ou William Grimshow montando seu cavalo, para pregar em estábulos ou ao ar livre sob o frio norte da Inglaterra; ou o episcopal evangélico do século dezenove Gregory Townsed Bedell, a quem os residentes (e também os visitantes) de Filadélfia acorriam para ouvir; ou o famoso missionário Henry Martim dedicando toda sua curta existência para levar o Evangelho à Índia; ou, neste século, John Stott, David Watson e Michael Green conduzindo missões por todo o mundo.
Jim Packer tem destacado que o Ordinal e o Livro de Orações sempre requereram dos clérigos a catequese das crianças, e, desde então, o Anglicanismo tem sido evangelístico, embora a forma de evangelismo nem sempre tenha sido o “viajar com grandes tendas". O evangelismo tem-se dado com freqüência de forma institucional e estabelecida, como parte do trabalho regular do clero paroquial e da comunidade que o cerca.
Tratam a Bíblia com a máxima seriedade. Esse é um outro aspecto da herança que vem desde os tempos de Wicliffe. Muitos anglicanos concordam com os evangélicos que a Escritura, sob Deus, é a nossa principal autoridade. A Bíblia é crucial. Sem as Escrituras nós não teríamos praticamente nenhum conhecimento do plano de Deus para a salvação e sobre a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Por séculos, em cada continente, a Bíblia tem tocado corações, iluminando mentes e forjando vontades. De forma única ela tem falado a homens e mulheres, qualquer que seja sua raça, língua, necessidade ou habilidade intelectual.
Muitos evangélicos reconhecem que o mesmo Espírito que inspirou os autores da Bíblia também tem guiado a Igreja através dos séculos na formação das suas tradições. Essa tradição não é apenas a herança morta do passado; é a viva realidade da Igreja hoje (embora não infalível). Desse modo, devemos usar nossas mentes para compreendermos a Bíblia e a tradição, e podemos experimentar sua iluminação. Seria difícil que nós crêssemos em Deus sem qualquer experiência da sua presença.
A busca da santidade tem sido parte de sua história. O primeiro objetivo de John Wesley era “promover a santidade prescrita pelas Escrituras por toda a terra"; descrendo do autor francês Voltaire, ao desafiar a nomeação de um caráter mais belo do que o do Senhor, apontando para seu compatriota Fletcher de Madeley. Há uma tendência nos últimos tempos para negligenciar a santidade pessoal, o que tem surpreendido Jim Packer, pois as Escrituras insistem fortemente que os cristãos são chamados à santidade, que Deus se agrada da santidade e se ofende por sua ausência, e que sem santificação ninguém verá a Deus. (Heb.12:14)
- Demonstram o amor de Cristo na compaixão pelos outros. Thomas Scott abandonou o seu Unitarismo, não imediatamente ao ouvir os argumentos arrazoados por John Newton, mas quando o velho homem visitou um membro moribundo da sua paróquia. Lord Shaftesbury tomou sua decisão de “encontrar uma política baseada na Bíblia, com a vida pública observando a mais estrita justiça, e não só uma justiça fria, mas com uma ativa benevolência". No século vinte, um jovem anglicano membro da equipe da Aliança Evangélica recebeu a função de coordenar o então pequeno fundo da Aliança para ações de ajuda aos carentes. George Hoffman dedicou-se a essa tarefa com determinação, oração e visão. Em pouco mais de uma década, o Tear Fund tornou-se uma das principais fundações filantrópicas da Grã-Bretanha.
John Stott chama a atenção para como em seu próprio pensamento foi crescendo a consciência da responsabilidade social, e a sua busca de unir o evangelismo e a responsabilidade social sob a rubrica de missão.
- Assumem as dores. É, outra vez, uma herança que vem de Wicliffe, o filósofo de Ballial, que combinava um dom pela pregação popular com o mais alto grau de investigação intelectual - usando a habilidade que o seu país tem reconhecido quando lhe confiou importantes tarefas da diplomacia internacional. Recordem as dores de Cranmer quando, ultrapassando os tratados teológicos de Henrique VIII, redigiu o Livro de Oração Comum (LOC) e preparou as homilias para a Igreja da Inglaterra. Recordem Wilbeforce, em sua luta paciente por muitos anos para abolir o tráfego de escravos, ou Shaftesbury, sempre determinado de tudo examinar por si mesmo, nada tomando por sentado ou baseado no ouvir dizer, de modo que ele pudesse falar de reformas necessárias a partir de sua própria experiência. Nenhum desses homens foi inclinado a oferecer soluções instantâneas para problemas complexos.
O Futuro
Se os evangélicos anglicanos desejam pregar o Evangelho, eles não podem ter outra atitude senão a de procurar viver o Evangelho. As palavras de Paulo aos Filipenses permanecem verdadeiras: “Aconteça o que acontecer, conduzi-vos de uma maneira digna do Evangelho de Cristo". (Fl.1:17).
Tenho constatado que a história do evangelicalismo anglicano, em ambos lados do Atlântico, é uma história inspiradora para se contar. Nos 650 anos que se passaram desde que Wicliffe pregou uma religião do coração, baseada na Bíblia e centrada em Cristo, ela tem produzido santos, reformadores sociais e religiosos, evangelistas, missionários, estudiosos, (bem como alguns momentos não edificantes), e impactando as vidas de muitos milhares de “cristãos comuns", que têm amado ao seu Senhor, seu trabalho e suas Bíblias, e que não receberam registro nos livros de História. Não tenho qualquer dúvida de que novo milênio a Igreja Anglicana necessitará de uma maior representação de evangélicos; e compreendo o argumento de que o cristianismo evangélico é, em sua melhor expressão, cristianismo autêntico. Também creio que os evangélicos têm muito que aprender do que há de melhor na rica diversidade da herança anglicana. Oro para que no século vinte e um venha a haver o maior número de evangélicos que sentem que podem servir a Deus dentro da Comunhão Anglicana.
(Tradução e adaptação: Dom Robinson Cavalcanti)
Fonte: STEER, Roger. Church on Fire, The Story of Anglican Evangelicals, Hodder Stoughton, London, Sydney, Aukland, 1998, Part Eight