O Trabalho da Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana e o Ecumenismo Prático
O TRABALHO DA COMISSÃO NACIONAL ANGLICANO-CATÓLICA ROMANA E O ECUMENISMO PRÁTICO
Rafael Vilaça Epifani Costa¹ Wilson Cardoso de Sá²
RESUMO: Surgida em 1982, a Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana (CONAC) é fruto do diálogo desenvolvido pelo Sínodo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Sua principal missão é traduzir, estudar e divulgar os textos da Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (ARCIC, sigla em inglês), organizada em 1966, a partir do encontro entre o Papa Paulo VI e o Arcebispo de Cantuária Michael Ramsey. Apesar dos esforços e dos frutos gerados pelo trabalho conjunto da CONAC, sobretudo nos anos 90 e início dos anos 2000, nos anos seguintes houve uma estagnação das reuniões da Comissão, especialmente no período do pontificado do Papa Bento XVI e das crises institucionais que afetaram internamente a IEAB. Tomamos por objeto de pesquisa o trabalho até então realizado pela Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana, e, sendo tal pesquisa de cunho qualitativo, pautamos sua fundamentação teórica a partir de fontes documentais e bibliográficas, as quais classificamos como primárias – documentos da ARCIC traduzidos e comentados pela CONAC e demais documentos ligados às duas Igrejas –, secundárias – livros sobre a história do diálogo anglicano-católico romano, em nível internacional e nacional – e terciárias – notícias veiculadas na Internet, de acontecimentos ligados às atividades da Comissão Nacional. Neste trabalho buscaremos analisar os avanços e problemas surgidos desde sua fundação e propor saídas para a continuidade desse diálogo entre as duas denominações cristãs, a partir do conceito de um Ecumenismo Prático, de modo a atualizar as pesquisas sobre o tema no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: CONAC. Igreja Católica no Brasil. Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Diálogo Ecumênico.
¹ Professor universitário no Centro Universitário Joaquim Nabuco (UNINABUCO – Recife). Bacharel em Direito (2014) e mestre em Ciências da Religião (2017), pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atualmente cursando o doutorado em Ciências da Religião pela mesma instituição. Graduando em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Também é seminarista da Diocese Anglicana do Recife, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB). E-mail: rafaelvilaca.e.costa@gmail.com. ² Possui graduação em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (1986), graduação em Teologia pelo Instituto Teológico João Paulo II, convalidado pela UNIFIL (2017) e mestrado em Teologia pelo Instituto Santo Anselmo em Roma (1996), revalidado pela PUC Rio (2008). Atualmente é professor do Centro Universitário da Grande Dourados, professor da Faculdade UNIGRAN Capital e professor do Instituto Teológico João Paulo II. Professor na área de Teologia, com ênfase em Teologia Sistemática, dede 1997. Coordenador e professor na Universidade Católica Dom Bosco.
1 INTRODUÇÃO
Após quatrocentos anos de separação entre as Igrejas Anglicana e Católica Romana, o Arcebispo de Cantuária Michael Ramsey visitou o Papa Paulo VI, em Roma, no ano de 1966. Esse evento histórico marcou o início de uma série de encontros ecumênicos entre as duas denominações, a partir dos quais foi formada a Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (Anglican Roman Catholic Internacional Comission – ARCIC, em inglês). A partir dessa comissão bilateral, iniciou-se o trabalho de diálogo ecumênico a partir de encontros regulares entre representantes da Santa Sé e da Comunhão Anglicana, nos quais são tratadas questões ligadas à doutrina da Eucaristia, do Ministério e Ordenação da Autoridade na Igreja, da Salvação e a Igreja, e da Comunhão Eclesial.
Nesse mesmo espírito, em 1982 surgiu a Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana (CONAC), a partir de uma iniciativa conjunta do Sínodo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O trabalho encarregado pela CONAC ao longo dos anos foi o de traduzir e estudar os relatórios produzidos pela ARCIC, de modo a apresentar aos fiéis das Igrejas do Brasil os frutos do trabalho da Comissão Internacional, dar testemunho da unidade e propor caminhos para que as denominações se conheçam melhor, cooperem naquilo que for comum e respeitem as diferenças dentro da pluralidade existente nas teologias anglicana e católica romana.
Porém, após os anos 2000, percebemos um hiatus no trabalho da Comissão Nacional, que de alguma forma, estagnou, durante um período marcado por novas configurações institucionais no Papado e o Ecumenismo – a transição do pontificado de João Paulo II para o de Bento XVI e a instituição da Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus, em 2009 – e na Comunhão Anglicana, com a fragmentação e tensões surgidas na mesma – a ascensão da GAFCON e grupos contrários ao avanço da ordenação feminina e de novas pautas teológicas assumidas por algumas Igrejas da Comunhão, como a ordenação e o casamento religioso de pessoas homoafetivas – as quais geraram cismas dentro de denominações anglicanas que se aprofundaram em tais questões, a exemplo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Em face dos novos desafios que surgiram para o campo ecumênico brasileiro, especialmente a nova configuração do mercado religioso brasileiro – com a ascensão das teologias carismática e neopentecostal, após os anos 2000, marcadas por uma resistência doutrinária ao Ecumenismo do século XX, por conta do ideário de conversão e de confronto ao “diferente” –, somada à falta de articulação da CONAC nos últimos anos, para trabalhar conjuntamente em temas e assuntos de interesse comuns – a partir das mudanças surgidas no período de Bento XVI e da crise institucional na Comunhão Anglicana –, este trabalho visa atualizar as pesquisas sobre o Ecumenismo, tomando por objeto de pesquisa o trabalho realizado até então pela Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana, sendo, pois, uma pesquisa inédita, acerca do objeto estudado.
De que maneira a CONAC pode dar continuidade ao diálogo entre as Igrejas Anglicana e Católica Romana do Brasil, no atual contexto da Comunhão Anglicana e do pontificado do Papa Francisco? Para responder a estas perguntas, buscaremos analisar o trabalho desenvolvido pela Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana (CONAC), a partir de um breve histórico do diálogo ecumênico realizado entre as Igrejas Anglicana e Católica Romana no Brasil, analisando os avanços e problemas surgidos desde o surgimento da Comissão Nacional, para que possamos propor possíveis soluções para a continuidade dos trabalhos, pautadas no conceito do ecumenismo prático.
2 BREVE HISTÓRICO DA FORMAÇÃO DA ARCIC E DA CONAC
Não é possível falar do diálogo anglicano-católico romano sem falar do movimento ecumênico. Ao contrário do que se imagina popularmente, o Ecumenismo enquanto movimento surgido entre as Igrejas Cristãs não tem origem na Igreja Católica Romana. Historicamente, “o movimento ecumênico surgiu no seio das Igrejas e Comunidades Eclesiais derivadas da Reforma. Não só a Igreja Católica, mas também as Igrejas orientais ortodoxas aderiram muito mais tarde ao movimento ecumênico” (CNBB, 1979, p. 178), uma vez que este nasceu junto com as federações, uniões e conferências interconfessionais, a exemplo da Conferência de Lambeth da Igreja Anglicana (1867), a Conferência Metodista Mundial (1881), a Convenção Luterana Mundial (em 1947, transformada na Federação Luterana Mundial), e outras reuniões do gênero.
O ano de 1960 pode ser considerado o marco inicial do diálogo anglicano-católico romano, quando, em um gesto considerado inédito, o Papa João XXIII recebeu o Arcebispo de Cantuária Geoffrey Fisher, sendo o primeiro encontro entre ambos os líderes das respectivas Igrejas desde a Reforma inglesa. No ano seguinte o Papa recebeu pela primeira vez, como chefe do Estado do Vaticano, a Rainha da Inglaterra.
Como consequência direta de encontros ecumênicos que desenvolvia há anos com patriarcas ortodoxos, antes mesmo do seu pontificado, Angelo Roncalli sentiu que era o momento de traçar novos fundamentos para uma Igreja que necessitava dialogar com o mundo moderno. Em 1961 foram publicadas as encíclicas Mater et Magistra, no mês de maio, atualizando a Doutrina Social da Igreja; Aeterna Dei Sapientia, em novembro, em que conclamava os cristãos à unidade; e por ocasião do Natal, publicou a bula Humanae salutis, convocando o Concílio Vaticano II para o ano seguinte. A 1ª sessão de trabalhos foi aberta em 11 de outubro, encerrando-se em 8 de dezembro de 1962, em Roma.
Com a morte de João XXIII, coube ao novo Papa, Paulo VI, eleito em 21 de junho de 1963, a tarefa de dar continuidade ao Concílio, que foi concluído em 8 de dezembro de 1965, em sua 4ª sessão. Durante as reuniões, em 21 de novembro de 1964, Paulo VI publicou o Decreto Conciliar Unitatis Redintegratio, que tratava sobre o Ecumenismo. Este documento possui grande importância, pois nasceu diretamente do espírito do Concílio Vaticano II, por meio dos debates promovidos e dos anseios levados à Roma pelos padres conciliares.
A partir desse documento, a Igreja Católica traçou os princípios que deveriam ser utilizados para o diálogo com outras denominações cristãs, fundamentando tal prática no desejo de Jesus Cristo de que recuperar a unidade de todos os cristãos. Inclusive, em suas palavras iniciais, o Decreto afirma que “Ele fez nascer entre os nossos irmãos separados um movimento para recuperar a unidade de todos os cristãos. Esse movimento de unidade é chamado movimento ecumênico” (CNBB, 2005, p. 28). Sobre o termo, “irmãos separados", utilizado no Decreto Conciliar, vale ressaltar que atualmente ele não é mais utilizado, vistos os avanços promovidos pelos encontros ecumênicos.
A expressão "irmãos separados" é própria do Decreto Conciliar Unitatis Redintegratio e, como tal, é usada quando se cita o documento. À época do Concílio, era sinal de avanço. Hoje essa expressão já está superada, como vemos na Encíclica Ut Unum Sint e em outros textos oficiais. Atualmente, a expressão mais usada é "outros cristãos" (CNBB, 2005, p. 31).
Seguindo o espírito do nascente ecumenismo dentro da Igreja Católica, em 1966 aconteceu um segundo encontro entre os líderes das Igrejas Católica Romana e Anglicana, quando o Papa Paulo VI se reuniu com o Arcebispo de Cantuária, Dr. Michael Ramsey. Do compromisso assumido pelos dois, nasceu a Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (ARCIC). A partir de então, a Igreja Católica Romana e a Comunhão Anglicana entraram num processo de diálogo fecundo, que se tem caracterizado pela descoberta de significativos elementos de fé que compartilhamos e por um desejo de manifestar o que temos em comum, conjuntamente, através do testemunho, da oração e do serviço.
Em 1981 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o Sínodo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil começaram os trabalhos para o estabelecimento então chamada Comissão Bilateral Anglicana-Católica Romana, posteriormente intitulada Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana. Após estas reuniões preparatórias, em 1982 a CONAC foi oficialmente organizada, sendo escolhida a cidade de São Paulo como a sua sede.
Um dos destaques que damos nesse processo é o papel central da Casa da Reconciliação³, de propriedade da Arquidiocese de São Paulo, que serviu de local para as reuniões e onde se encontra o arquivo da Comissão. O atual responsável é o padre José Bizon, que relata em sua obra sobre o Ecumenismo a composição da Comissão, que se dá da seguinte maneira: “a Câmara dos Bispos da Igreja Anglicana escolhe os seus representantes e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil escolhe os seus. A coordenação da Comissão se dá com um bispo de cada uma das tradições” (BIZON; DRUBI (Orgs.), 2004, p. 12).
A importância da CONAC não se revela apenas na busca de estabelecer um diálogo a nível nacional entre as duas denominações cristãs, mas, sobretudo, em ter realizado um proficuo trabalho desde a sua fundação, indo além da tradução dos documentos da ARCIC e outras iniciativas, que por muito tempo, construíram um Ecumenismo com sólidas bases.
³ A Casa de Reconciliação tem origem na década de 80, com a chegada da Congregação dos Frades Franciscanos da Reconciliação, uma comunidade católica dos Estados Unidos que tinha como Carisma criar laços de Unidade e de Fraternidade entre os diferentes credos. Logo passaram a articular e facilitar o trabalho ecumênico já realizado pela Arquidiocese de São Paulo. Em 1994, com o retorno dos Frades da Reconciliação para os EUA, a casa foi doada para a Arquidiocese, que passou a utilizá-la como centro de estudos e reuniões de suas comissões e movimentos ecumênicos. Dentre os primeiros grupos que ali se estabeleceram, destacamos o Movimento de Fraternidade de Igrejas Cristãs (MOFIC); a Comissão Arquidiocesana de Ecumenismo e de Diálogo Inter-religioso da Arquidiocese de São Paulo (CEDRA) – a antiga CEA; a Comissão Nacional de Diálogo Anglicano Católico-Romano (CONAC); e a Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico Judaico (DCJ).
3 O TRABALHO DESENVOLVIDO PELA CONAC
A proximidade entre anglicanos e católicos era bastante visível nos anos 80. Uma confirmação desse fato se deu no dia 18 de maio de 1987, quando o bispo anglicano Desmond Tutu, ao visitar a cidade do Recife, fez questão de se encontrar com Dom Helder Câmara. Além da agenda de visitas à Igreja Anglicana e outras formalidades com autoridades locais, uma foto do abraço entre o sul-africano vencedor do prêmio Nobel da Paz de 1984 e o Arcebispo de Olinda e Recife – que havia sido boicotado pelo regime militar de concorrer ao Nobel, em anos anteriores –, tornou-se à época um dos símbolos do Ecumenismo no Brasil.
Este clima de cordialidade e cooperação mútua, sem dúvida, ajudou a CONAC no desenvolvimento dos trabalhos, não apenas teológico-acadêmicos, mas também prático-pastorais. No campo teológico-acadêmico, sem dúvida a maior contribuição foi a tradução e estudo dos vários documentos produzidos pela Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (ARCIC), que deram origem às obras Relatório Final (1990), Unidos no Diálogo: Anglicanos e Católicos (1992), O Dom da Autoridade (1999), Vida em Cristo (2001), Maria: Graça e Esperança em Cristo (2005) e Crescer Juntos na Unidade e na Missão (2010). Também destacamos o trabalho voltado para a importância do Ensino Religioso com programas ecumênicos, nas escolas públicas, bem como a recomendação que a disciplina “Ecumenismo” fosse introduzida nos currículos das faculdades e seminários teológicos das Igrejas Cristãs no Brasil.
Durante essas décadas de trabalho, algumas datas merecem destaque. Nos dias 20 e 21 de novembro de 1992 foram celebrados os dez anos de fundação da CONAC, em um encontro realizado na cidade de São Paulo, que contou com vinte e um participantes, vindos de vários estados do Brasil e um representante de Portugal. O fruto mais concreto do encontro foi a obra Unidos no Diálogo: Anglicanos e Católicos, publicada neste mesmo ano.
Vindos de várias partes do Brasil no espírito fraterno que sempre nos caracterizou, os membros da CONAC (Comissão Nacional Anglicano-Católica Romana) se reuniram na Casa da Reconciliação, em São Paulo, para comemorar os 10 anos da Comissão. Nestes dois dias, em oração e louvor a Deus, refletimos sobre a nossa vocação ecumênica e julgamos nossa caminhada à luz da palavra de Deus, da realidade ecumênica e das experiências vividas e nos propusemos algumas ações para o futuro. Apesar das dificuldades que se apresentam ao diálogo em nível internacional, constatamos o vivo desejo de todos de continuar em nosso esforço comum e mesmo ampliá-lo (CONAC, 1992, p. 125).
No campo prático-pastoral, ao longo dos anos houve um esforço para a promoção das Campanhas da Fraternidade Ecumênicas de 2000, 2005 e 2010. Em nível internacional, a CONAC participou do Encontro Internacional em Mississauga, Canadá, em 2001, com Dom Glauco Soares de Lima, representando a IEAB, e Dom Antônio Celso de Queiroz, representando a CNBB.
A Comissão participou do encontro de bispos anglicanos e católicos romanos, procedentes de treze países, em Mississauga, grande Toronto, Canadá, de 14 a 20 de maio de 2000, convocados por Sua Eminência o cardeal Cassidy e Sua Graça o arcebispo George Carey. Como resultado desse encontro a Comissão já organizou dois encontros no Brasil de bispos da Igreja Anglicana e da Igreja Católica, e está se preparando para o terceiro encontro (BIZON; DRUBI (Orgs.), 2004, p. 12).
Como consequência dos três grandes encontros entre bispos anglicanos e católico-romanos no Brasil, ocorridos em 2001, 2003 e 2007, que marcaram o diálogo entre as duas Igrejas, também foram produzidas liturgias comuns para as celebrações ecumênicas. Em especial, o encontro do ano de 2007 merece destaque pela celebração dos vinte e cinco anos de instalação da CONAC.
Dom Maurício Andrade, Primaz da IEAB e dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, receberam juntos dezenas de bispos anglicanos e católicos, reverendos, padres e centenas de leigos das duas igrejas, que acorreram, ontem, à Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, em São Paulo, para celebrar os 25 anos de instalação da Comissão Nacional Anglicano- Católico-Romana – Conac. Organizado pelo padre José Bizon, da Casa de Reconciliação - Conac e pelo rev. Arthur Cavalcanti, pároco da Santíssima Trindade, o Oficio de Vésperas incluiu orações na versão ecumênica o Credo e o Pai Nosso, tradicionais hinos anglicanos e cânticos à Virgem Maria. O pregador foi dom José Alberto Moura, arcebispo de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e para o Diálogo Inter-religioso da CNBB (DIOCESE ANGLICANA DE BRASÍLIA, 19 abr. 2007).
Dentre as fontes escolhidas para analisar os trabalhos da Comissão Nacional, as principais são os relatórios da comissão de relações ecumênicas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, apresentados a cada Sínodo da instituição. A partir da criação da CONAC, em 1982, temos os seguintes relatórios, nos respectivos Sínodos realizados.
Sobre o Documento Bilateral da ARCIC (Anglicana Roman Catholic International Committee): (a) Grupo Meridional – Sul-Ocidental: Rev. Luiz Osório Pires Prado, Rev. Oswaldo Kickhöfel, Rev. Laudelino Corrêa Gusmão e Rev. Carlos Getúlio Hallberg; (b) Grupo Central – Sul-Central: Revmo. Dom Sumio Takatsu, Rev. Jaci Correia Maraschin, Rev. Sydney Alcoba Ruiz e Rev. Celso Franco de Oliveira; (c) Revmo. Dom Edmund Knox Sherrill, Rev. Paulo Ruiz Garcia, Rev. Júlio Pedro Seelig e Profa. Yara Lins Silva (IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, 1984, p. 23).
Nas Atas do Sínodo de 1984, acima transcritas, temos a eleição da primeira comissão que representaria a IEAB para iniciar os trabalhos de tradução do documento da ARCIC. Destacamos a escolha dos membros para que cada diocese fosse contemplada com seus respectivos representantes. Entretanto, percebemos a participação de apenas uma mulher, dentro do universo masculino. Este passo institucional foi importante para o início dos trabalhos, os quais passaram a serem registrados também nas Atas dos Sínodos seguintes.
Comissão Bilateral Anglicana-Católica Romana, nomeada respectivamente pelo Sínodo e pela CNBB, já completou a tradução do documento ARCIC (da Comissão Internacional) como já foi mencionado anteriormente e está em fase de fazer uma tradução popular dos documentos para o uso nas igrejas. A tradução oficial terá o prefácio do Primaz e do Presidente da CNBB, apreciação crítica de ambas as Igrejas, e o comentário da própria Comissão. A nossa apreciação já entregue ao CONIC é o que a Câmara dos Bispos pronunciou a respeito e encontra-se apenso a este relatório (IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, 1986, p. 55).
Este documento da ARCIC citado nas Atas do Sínodo de 1986 é a obra Relatório Final (1990), sendo a primeira tradução em língua portuguesa e publicada no Brasil. O destaque desse documento é o parecer emitido ao final do livro pela CONAC, comentando cada um dos tópicos abordados pela ARCIC (Doutrina Eucarística, Ministério e Ordenação, Autoridade na Igreja, Jus Divinum, Jurisdição e Infabilidade).
Continuam os trabalhos em São Paulo. A Comissão tem dado atenção às pesquisas realizadas, a nível internacional, em torno das Ordens Anglicanas. Dois pontos merecem a nossa atenção: 1 o reconhecimento, a nível das pesquisas, de que o Ordinal em uso na Igreja da Inglaterra na época da Reforma estava baseado nas tradições antigas do Ocidente e do Oriente. E a forma imperativa: recebe o Espírito Santo, estava em uso na Idade Média. Hoje a Igreja Católica Romana com o retorno ao padrão primitivo reencontra-se com o anglicanismo. 2 Quando o papa da época decidiu declarar nulas as Ordens anglicanas o fez com um bom número de assessores esclarecidos opinando o contrário. Na ocasião da visita do Arcebispo de Cantuária a São Paulo, a CONAC preparou a liturgia do culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, onde vieram cerca de mil pessoas, numa segunda-feira à noite, e, houve procissão do clero da Catedral, os bispos e os representantes ecumênicos, que vieram até do Estado do Espírito Santo. Ali o Arcebispo foi saudado pelo Cardeal de São Paulo como mensageiro de Deus, apóstolo da paz, amigo dos pobres e defensor dos direitos humanos (IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, 1990, p. 63-64).
Durante a visita do Arcebispo de Cantuária ao Brasil, foi realizada a primeira liturgia ecumênica do gênero, com grande participação dos membros das duas denominações.
Esta comissão tem se reunido regularmente. Suas atividades constaram de leituras e estudos sobre artigos referentes ao papado, suas estruturas, problemas e sugestões por parte de autores católicos romanos em outros países. A atividade mais recente foi o lançamento do Texto base da CF 2000 Ecumênica, juntamente com o MOFIC e a Associação de Educação Católica/SP, com a presença de cerca de 600 pessoas, sendo a maioria professores católicos romanos nas instituições educacionais do estado, do município e dos particulares (IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, 2000, p. 57).
A partir da segunda década dos anos 2000, com os trabalhos concentrados em São Paulo, a IEAB buscou priorizar a participação de clérigos e clérigas oriundos dessa região eclesiástica. Neste período, damos destaque à participação do clero da Diocese Anglicana de São Paulo (DASP), a exemplo dos bispos Dom Sumio Takatsu, Dom Hiroshi Ito e Dom Roger Bird, dos reverendos Jaci Maraschin, Francisco Cézar, Arthur Cavalcante, Tadeu dos Santos, Sérgio Pacheco e das reverendas Carmen Kawano e Valéria Silva. Do lado católico romano, destacamos a participação dos bispos Dom Décio Pereira, Dom Antônio Celso de Queiroz, Dom Caetano Ferrari, dos padres Alcides Costa, Alcides Pinto da Silva, José Bizon, Paulo H. Gozzi, e das irmãs Gisa Fonseca e Palmira Miranda.
4 PROBLEMAS E HIATUS NO DIÁLOGO ECUMÊNICO
Desde o início da década de 80, a Igreja Católica Romana dava sinais de preocupação quanto aos avanços das pautas relativas à Ordenação Feminina na Comunhão Anglicana. O próprio relatório da Comissão de Relações Ecumênicas para o Sínodo da IEAB de 1986 destacava os entraves surgidos na ARCIC.
A Comissão Bilateral Anglicano-Católica Romana foi incumbida, nesta segunda fase, de tratar do Crescimento para Reconciliação entre ambas as Comunhões. E a correspondência havida entre o Arcebispo de Cantuária, o Papa João Paulo II e o Cardeal J. Willebrands, no período de 20 de dezembro de 1984 a 16 de junho de 1986, indica que constará das pautas da Comissão as questões referentes à Ordenação Feminina, reconhecimento das Ordens Anglicanas e outros impedimentos para a unidade. No que se refere ao reconhecimento das Ordens Anglicanas, é persuasão católica romana que haverá solução desse problema quando houver acordo mútuo entre ambas as Igrejas em matéria de Eucaristia e Ministério (IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, 1986, p. 49-50).
Ao contrário do texto apresentado no Sínodo de 1990, quando a CONAC havia destacado os avanços no diálogo acerca da validade das Ordens Anglicanas, a situação nos anos 2000 mudou drasticamente, sobretudo com o avanço da ordenação feminina para os três ministérios, bem como a aprovação da ordenação e do casamento de pessoas homoafetivas, a exemplo da eleição e ordenação do bispo Gene Robinson, na Igreja dos Estados Unidos, que gerou grande controvérsia e divisão entre as Igrejas da Comunhão Anglicana, no chamado Grande Cisma do Recife, ocorrido na Diocese Anglicana desta cidade.
⁴ Em 2004, o então Bispo da Diocese Anglicana do Recife, Robinson Cavalcanti, rompeu com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil devido a conflitos internos surgidos entre grupos progressistas e conservadores da Diocese, ocorridos à mesma época da eleição do bispo homoafetivo Gene Robinson, para a Diocese de New Hampshire da Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Deste cisma originou-se a Igreja Anglicana no Brasil, que filiou-se à Conferência Global do Futuro Anglicano (GAFCON), grupo surgido de uma série de conferências de bispos e líderes anglicanos de linha conservadora, que se reuniram em Jerusalém, em 2008, para discutir os avanços da "corrente liberal" e os riscos do crescente “secularismo" dentro das Igrejas Anglicanas. Desta reunião surgiu esta nova "Comunhão" de Igrejas que apoiavam tais posicionamentos. Atualmente, a Igreja Anglicana no Brasil é liderada pelo Arcebispo Miguel Uchôa, tendo a sua sede em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.
Na semana passada, a Comissão Internacional Anglicano-Católica (ARCIC) reuniu-se em Roma para uma nova rodada de discussões ecumênicas. Agora que os anglicanos têm bispas, bispos homossexuais e estão bem adiantados no longo do caminho em direção ao casamento de pessoas do mesmo sexo, há algum ponto de comunhão? Os cínicos argumentam que esse tipo de reunião ecumênica é mera fachada. Um analista comparou o evento às rodadas intermináveis de détente [relaxamento das tensões diplomáticas entre EUA e URSS na década de 1970] durante a era soviética, em que ambos os lados apertavam as mãos e sorriam para as câmeras, mas estavam realmente esperando para ver que lado iria criar a divisão primeiro (IHU UNISSINOS, 11 mai. 2015).
Durante todo o século XX a Comunhão Anglicana sofreu fragmentações com o surgimento do Movimento Carismático, Movimento Continuante e grupos anglo-católicos ou evangelicais que saíram das suas respectivas Províncias, por discordarem de posições teológicas ou doutrinárias assumidas por estas Igrejas, a exemplo da Ordenação Feminina.
A Comunhão Anglicana já não é a mesma depois da ordenação sacerdotal da Revda. Li Tim Oi, primeira presbítera anglicana. [...] É bem verdade que algumas Províncias ainda não aceitaram a ordenação presbiteral e episcopal para as mulheres, mas creio que isto é apenas uma questão de tempo (AQUINO, 2000, p. 117).
Devido à contestação de alguns grupos anglo-católicos, por não se sentirem mais identificados ou representados dentro da Comunhão Anglicana pelas posturas liberais de algumas Igrejas, ou na própria GAFCON, que assumiu uma identidade mais evangelical, vislumbrou-se um crescente desejo de muitos anglicanos ingressarem na Igreja Católica Romana, sem, no entanto, abrirem mão dos seus costumes. Esse movimento de “retorno à casa", como foi interpretado na época pelos católicos romanos e os anglicanos em questão, foi acolhido pelo Papa Bento XVI, quando o pontífice, em 2009, erigiu o sistema do Ordinariato Pessoal para Anglicanos, por meio da Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus. Assim, de modo unilateral, a Igreja Católica Romana criou uma estrutura eclesial para receber anglicanos preservando seus costumes que tinham fundamento no período pré-Reforma.
⁵ Entre 2011 e 2012 a Congregação para a Doutrina da Fé criou três ordinariatos pessoais, ou seja, para serem administrados pelos fiéis, sob a supervisão de um bispo católico romano, mas sem um território definido, como uma diocese. Sua constituição segue o modelo dos ordinariatos militares. Os três ordinariatos foram criados na seguinte ordem: Ordinariato Pessoal Nossa Senhora de Walsingham (Personal Ordinariate of Our Lady of Walsingham), para a Grã- Bretanha; Ordinariato Pessoal da Cátedra de São Pedro (Personal Ordinariate of the Chair of Saint Peter), para o Canadá e Estados Unidos; e o Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora do Cruzeiro do Sul (Personal Ordinariate of Our Lady of the Southern Cross), para a Austrália e Japão.
Devido a esse processo de perda de fiéis e de patrimônio, ocorreu um desgaste nas relações Roma-Cantuária, que somente foram resolvidas com os encontros entre o Papa Francisco e o Arcebispo Justin Welby, nos anos de 2016 e 2017. A eleição do Papa Francisco revelou uma nova política adotada pela Igreja Católica ao inverter a lógica das relações ecumênicas do papado de Bento XVI. Ao invés de incentivar e facilitar o ingresso de anglicanos na Igreja Católica, o novo Papa optou que estes permanecessem em suas Igrejas, postura esta que havia evidenciado quando da criação dos Ordinariatos.
Em 2009, quando o Papa Bento XVI criou o ordinariato pessoal, a nova estrutura jurídica para os anglicanos que se convertem ao catolicismo, Bergoglio chamou o bispo Gregory Venables, primaz anglicano do Cone Sul (em comunhão com Canterbury) e residente em Buenos Aires. Durante o almoço, recorda Venables, 'disse-me muito claramente que o ordinariato era algo absolutamente desnecessário e que a Igreja precisava de nós como anglicanos' (IHU UNISSINOS, 03 fev. 2015).
Neste mesmo período pós-Bento XVI, ocorreu uma retomada dos trabalhos da Comissão Internacional, quando a ARCIC III se reuniu no Rio de Janeiro, em 2013. Além de ser a primeira reunião da Comissão Internacional na América Latina, ela contou com amplo apoio dos bispos anglicanos e católicos brasileiros. Esse encontro deu origem ao documento Caminhando Juntos pelo Caminho: Aprendendo a Ser Igreja - Local, Regional, Universal (livre tradução do inglês, ainda sem previsão para publicação em português).
A Comissão Internacional Anglicana/Católico Romana (ARCIC), órgão oficial de diálogo teológico criado pelas duas comunhões, realizou a terceira reunião de sua nova fase (chamada ARCIC III) no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, de 29 de abril a 7 de maio de 2013. Foi a primeira vez em sua história de quarenta anos que a ARCIC se reuniu na América Latina e, mais precisamente, no hemisfério sul. [...] Vários textos foram preparados para a reunião. A discussão desses textos ajudou a Comissão a prosseguir rumo ao objetivo de produzir uma declaração conjunta. Nesta terceira fase, a Comissão tem o mandato de explorar a igreja como comunhão, local e universal e como em comunhão a igreja local e universal chega ao discernimento do ensino justo em questões éticas. Em cumprimento a esse mandato, os membros da comissão se dedicaram à análise teológica e à reflexão compartilhada sobre a natureza da igreja e sobre as estruturas que contribuem para o discernimento e a tomada de decisão (SNIEAB, 08 mai. 2013).
Após um hiatus de publicações da ARCIC, a mesma voltou a divulgar um novo documento em 2017, fruto de reuniões na Alemanha, como parte das celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante. Os temas trabalhados neste novo documento, ainda não traduzido para o português, enfatizavam dois assuntos já aprofundados em documentos anteriores: autoridade e eclesiologia. Essa retomada dos referidos temas, deveu-se aos entraves enfrentados na primeira década de 2000, pelas divergências teológicas surgidas pelos avanços no campo ministerial e teológico de algumas Igrejas da Comunhão Anglicana.
Seu último documento foi "Maria: Graça e Esperança em Cristo", de 2005, com um hiato desde então até 2010, depois que o Papa João Paulo II se posicionou contra a nomeação do bispo episcopal de New Hampshire, Gene Robinson, que é abertamente gay e depois também revelou estar em um relacionamento. O novo documento, fruto de um acordo em uma reunião em Erfurt, na Alemanha, em 2017, publicado on-line de forma discreta na manhã do dia 2 de julho de 2018, faz parte do que a comissão considera a terceira fase do trabalho. Os co-presidentes do grupo Bernard Longley, arcebispo de Birmingham, Inglaterra, e David Moxon, arcebispo anglicano da Nova Zelândia, que acabou de encerrar seu mandato como representante do arcebispo de Canterbury junto à Santa Sé dizem, no prefácio, que esta fase deve recuperar dois temas