Ordenação ao Presbiterato de Lilian Pereira

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Ordenação ao Presbiterato de Lilian Pereira

ML. Orildo Lima e SilvaOST2001

18/11/2024, 14:31 Natal Natal, 15 de Dezembro de 2001

Ordenação ao Presbiterado de Lílian Pereira da Costa Linhares

São João da Cruz, monge, 1591

"Sejam agradáveis as palavras da minha boca e o meditar do meu coração, Senhor rocha minha e Redentor meu".

Houve um tempo de minha infância e adolescência em que todos os domingos ouvi esta saudação de um presbítero já idoso e pároco da minha comunidade. Um homem sábio que apesar de adoentado permanecia firme e forte na pregação do Evangelho. Este servo de Deus chamava-se André Pinheiro Vargas, um homem de fé que até o fim de seus dias orgulhava-se de dizer: "durante anos da minha vida fui um olho-de-gato a beira da estrada a iluminar o caminho dos que buscavam seguir a verdadeira jornada. Para quem já morou ou conhece uma região serrana é fácil compreender a importância desses pequenos postes pretos pintados de amarelo na ponta, que na presença dos faróis dos ônibus e automóveis tornam-se sinais luminosos que indicam o caminho aos motoristas."

E é desta forma, e em memória do Reverendo André Vargas, que gostaria de saudar a todos aqui hoje: "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e o meditar do meu coração, Senhor rocha minha e Redentor meu".

Gostaria também de agradecer o convite e a honra que me foram concedidas pela Reverenda Lílian, pelo Reverendo Cláudio e pelo Reverendo Abel, reitor e coadjutores desta bela Casa de Deus.

A Paróquia de Jesus de Nazaré, o bairro de Jardim Progresso, a cidade do Natal e o Estado do Rio Grande do Norte vivem hoje um momento muito importante, uma grande festa! Estamos aqui na presença de um seleto número de clérigos da Diocese Anglicana do Recife representando todos os estados do nordeste, do Reverendíssimo Bispo Diocesano D. Robinson Cavalcanti, do Reverendíssimo D. Filadelfo de Oliveira Neto, eleito Bispo Auxiliar na última Reunião Conciliar, realizada na aprazível Paripueiras, lá no litoral das Alagoas, na semana passada. Muito nos honra também nesta tarde a presença do recém designado Venerável Arcediago para a Paraíba e Rio Grande do Norte, Reverendo Luiz Souza de França, da Paróquia da Ressurreição em João Pessoa, e todos os demais presbíteros, diáconos e ministros que visitam, nesta data tão importante, esta comunidade.

Estamos nos preparando para o Natal. Iniciando um novo Ano Cristão, estamos no tempo do Advento: tempo de recomeço, de avaliação da caminhada, tempo de diminuir o ritmo da corrida do nosso dia-a-dia, tempo de repensar, tempo de contemplar o menino que nasceu na manjedoura, trazendo a salvação ao mundo, tempo de perdão: de perdoar e ser perdoado, tempo de São Francisco de Assis.

Esse também é o tempo de São João da Cruz, que honrou suas origens humildes e, mesmo tendo chegado a superior da sua Ordem, e apesar das tantas críticas daqueles que diziam que a oração interior e a contemplação eram perda de tempo e ociosidade perigosa para a fé, impressionou seus contemporâneos por sua humildade, fraternidade e vida intensa de oração.

É esse o kairós que Deus, em sua soberania e liberdade, escolheu para esta festa de hoje. Aqui estamos para louvar e celebrar a vida e o ministério cristão da primeira mulher ordenada ao presbiterado, pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, em terras potiguares. Ou se quisermos ser um pouco mais inclusivos, em terras tabajaras (incluindo-se assim, o prodigioso Estado da Paraíba).

Deus hoje, em sua imensa sabedoria, houve por bem provocar um divórcio. Pela vontade de Deus, e do Conselho Diocesano, o Diácono Cláudio Linhares será ordenado somente no próximo sábado, na Paróquia Boas Novas, na formosa Caaporã, na vizinha Paraíba, juntamente com o Reverendo Israel Cardoso, autor deste primeiro rito litúrgico anglicano com coração nordestino. A Providência Divina, em sua imensurável sabedoria, houve por bem separar o casal, momentaneamente, para que o brilho desta tarde fosse bem feminino.

Enquanto no outro lado do mundo, nossos irmãos americanos jogam bombas em nossos irmãos afegãos, em nome de uma justiça que julgam ser divina, estamos todos aqui reunidos para louvar e celebrar este momento, talvez


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o mais marcante na vida da nossa reverenda, o resplendor da sua vocação. Como não podemos mudar a vontade de Deus, quis Ele que fosse aqui, junto a esta comunidade que lhe acolheu e que juntamente com o Reverendo Cláudio, pastoreou e se mostrou presente, em louvor e oração, nestes três meses de ausência do nosso amado Abel, em sua peregrinação junto à Diocese Central da Pensilvânia.

Mas de repente, alguém pode estar, ainda, se questionando: mas uma mulher pode ser Reverenda? Não sei se existe uma resposta pronta para esta pergunta. Acredito que a pessoa que melhor pode nos ajudar a esclarecer esta dúvida é a nossa mãe. Sim, todas as pessoas têm ou tiveram uma mãe. E sabem que ela nos aceita e nos ama como nós somos, com nossos erros, acertos, defeitos e virtudes. Então se Deus nos ama e recebe do jeito que somos, podemos dizer que Deus é Pai e Mãe, não é? E se Deus é Mãe e Pai, também é uma benção de Deus, que uma mulher exerça este ministério que, tradicionalmente, era legado aos homens! Amém?

A palavra de Deus hoje nos diz, através do profeta Isaías, que “o deserto e a terra se alegrarão, o ermo exultará e florescerá como o narciso" (Is 35.1). Esta comunidade é uma flor no deserto. Quem a conheceu, há quatro anos atrás, sabe do que estou falando! O trabalho desenvolvido aqui, pelo Reverendo Abel, começou com um pequeno grupo que se reunia aqui ao lado e hoje, não é somente uma rosa no deserto, é um jardim florido. O prédio antigo é agora a escolinha e o consultório médico, de um projeto que deu seus primeiros passos a mais ou menos um mês atrás e, que se Deus quiser vai crescer muito no próximo ano! E este templo grandioso vai florescer mais ainda, graças ao trabalho de todos: estes jovens, as crianças, mulheres e homens; com o apoio do Reverendo Abel, da Reverenda Lílian e do Reverendo Cláudio.

Escutemos hoje também, a resposta que Jesus enviou para João Batista: "os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o Evangelho (Mt 11.5)". Aqui estão se cumprindo as escrituras. Do deserto estão brotando flores!

Esta paróquia e esta Diocese estão em pleno crescimento. Chegamos à Natal há quatro anos e hoje, aqui estão nossos Bispos. Sim, temos hoje um Bispo Diocesano e um Bispo Auxiliar, eleito no último Concílio. Juntamente com eles, aqui também está o Reverendo Souza, com a incumbência de liderar aqueles que levarão a Igreja Anglicana ao interior da Paraíba e Rio Grande do Norte, ao Ceará e ao Piauí. Esta é uma Igreja para o Nordeste Brasileiro.

E é preciso também, que a Diocese busque nos próximos anos, através do apoio solidário de nossos Companheiros em Missão, recursos para que se construam novos templos, para que os projetos missionários cresçam e, principalmente, que uma parte destes recursos sejam destinados ao sustento e manutenção daqueles que se dedicam à propagação do Evangelho. Até o deão da Catedral já tem esta mesma compreensão. Foi assim que procedeu o Bispo Edmund Knox Sherrill, quando convidou o Reverendo Paulo para trabalhar em Recife. É urgente que a Diocese garanta o trabalho missionário, através de projetos de dois ou três anos de subsídio aqueles(as) que se sentem vocacionados(as), garantindo sua sobrevivência e garantindo a "construção de tendas", conforme expressão do Bispo Diocesano no último Concílio.

Quem sabe se destes jovens, aqui presentes hoje, não sairão os(as) futuros (as) missionários(as) das novas dioceses nordestinas que irão surgir? Um bom exemplo, de desprendimento e vocação, está aqui na vossa frente, meus irmãos: em janeiro de 1999, a Reverenda Lílian, junto com Cláudio e Diana deixaram o Rio de Janeiro, emprego e estudos por concluir, em busca deste kairós. E o que pediram a Deus, lhes foi concedido.

Lílian: o caminho ainda é longo, é preciso muita paciência e o silêncio da espera da água da chuva, para que a semente brote e a planta viçosa produza frutos.

Para concluir irmãos, gostaria que vocês, juntamente com a Reverenda Lílian, guardassem esta palavra de Tiago:

"Sede pois Irmãos, pacientes, até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas (Tg 5.7)"

ML. Orildo Lima e Silva, OST

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