Ordens Religiosas e o Ethos Anglicano
Ordens Religiosas e o Ethos Anglicano
Por M.L. Antonio de Padua Santos, OSF
Há diferentes formas de expressão da religiosidade entre os cristãos. A história da Igreja mostra que as diferenças de expressões religiosas surgem por diversas razões, desde as razões interiores, da experiência pessoal com Deus indo até as razões culturais e socioeconômicas. Entre as várias formas de expressão da religiosidade, as ordens religiosas expressam uma religiosidade orientada por um compromisso expresso através dos votos. É claro que como cristãos devemos ser comprometidos com a missão a qual Jesus Cristo nos confia, e as ordens religiosas nos fazem lembrar constantemente deste compromisso com Cristo e para isso desenvolvem suas formas de religiosidade.
A Diocese Anglicana do Recife tem três ordens religiosas: A Ordem de São Tiago, a Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir e a Ordem de São Francisco. Estas ordens expressam compromisso com o chamado de Cristo segundo a forma de culto da Igreja Episcopal Anglicana como parte da Igreja Universal de Cristo seguindo o exemplo desses santos. As ordens religiosas não são grupos isolados, ou separados. Antes de serem grupos de pessoas religiosas, as ordens são formas de religiosidade, são um tipo de expressão de fé. A mesma fé em Jesus Cristo expressa por diferentes pessoas que compõem o corpo de Cristo é evidenciada nas ordens religiosas.
Mas, uma ordem religiosa significa um meio de expressão de nossa vida com Deus? Não apenas isso, mas também seguir um exemplo é aprender. As ordens religiosas também nos ensinam. Elas surgiram com algo em comum. Podem existir diferentes carismas entre as ordens, podem existir diferenças na forma de expressão de sua religiosidade e podemos até listar essas diferenças, mas tem algo que é comum a todas as ordens religiosas. O que todas têm em comum é o desejo de seguir a Cristo, o desejo de ser aprendizes do Senhor, o desejo de ser discípulos de Cristo. Mas se aprendemos durante toda a vida, também é certo que aprendemos em comunidade. Os doze discípulos de Cristo são um exemplo claro que o aprendizado não é algo isolado, ou separado. Quantas vezes os discípulos demonstraram dúvidas e erros? Mas Cristo ensinava e mostrava o caminho da salvação através da partilha, da vida em comunidade. Portanto as ordens trazem a herança de que só aprendemos a ser cristãos em comunidades. Não adianta ser cristão e não ir a igreja, ou, como alguns dizem, que crêem em Deus, mas que não sabem ou não gostam de viver em comunidade. Da mesma forma as ordens religiosas só se realizam em comunidade. No nosso caso, a realização das ordens é naturalmente na diocese na medida em que os membros das ordens são de diferentes paróquias e missões, fortalecendo os laços dos que estão distantes, onde cada um traz um pouco de cada paróquia e missão para a ordem; e no outro sentido, cada um leva um pouco do que se vivencia nas ordens para suas paróquias e missões. A existência das ordens é um exemplo de uma diocese viva, atuante e dinâmica. Viva porque a ordem é uma forma visível de expressão religiosa, atuante porque as ordens promovem diversos tipos de ações ministeriais. Desde a liturgia, a música, as orações etc, a até a participação da Diocese em ações sociais fora do meio anglicano, em parceria com outras denominações como temos visto ultimamente. Dinâmica porque existem três ordens religiosas na Diocese Anglicana do Recife, mostrando que a expressão da religiosidade não se limita a um único tipo de carisma. É claro que a uma diocese viva, atuante e dinâmica não se limita às ordens religiosas, porém as ordens refletem as características de uma diocese.
Agora já sabemos que as ordens religiosas são expressão da fé e aprendizagem. Porém, fé e aprendizagem não são dissociadas. A fé é que leva ao aprender. Não haveria os doze discípulos se estes não tivessem fé em Cristo. Da mesma forma, a fé em Cristo leva os membros das ordens religiosas ao aprendizado. E o primeiro passo da aprendizagem é justamente viver em comunidade. Este viver em comunidade da ordem religiosa significa perceber o outro, que se identifica com a mesma expressão de religiosidade, mas tem sua própria experiência com Deus. O primeiro fruto da ordem religiosa é que as experiências pessoais com Deus não são da mesma forma para todos, mas que todos podem expressar sua fé segundo o carisma de uma determinada ordem. O segundo fruto da ordem religiosa é que amadurecemos nossa fé e aprendemos uns com os outros na medida em que externamos e compartilhamos nossas experiências com Deus. É por isto que uma das principais características das ordens religiosas é a contemplação. Estes frutos surgem simultaneamente, e, a partir deste momento, alimentam e dão vida às ordens religiosas.
Seguir o Senhor é um aprendizado que se faz em comunidade. Temos sempre o que aprender e só aprenderemos de fato se percebermos o outro. Esta é uma das primeiras lições que Cristo nos ensina: Perceber o outro! Neste sentido, precisamos estar abertos a reconhecer as diferentes expressões religiosas dentro da nossa comunidade anglicana. Uma propriedade do anglicanismo é a compreensividade como atitude de inclusão perante a diversidade das correntes do anglicanismo como também a diversidade do corpo de Cristo. Esta compreensividade nos leva a um respeito mútuo e nos enriquece. Mas então, como vivenciar a compreensividade que caracteriza o anglicanismo? A compreensividade tem origem naquilo que faz de nós anglicanos: O Quadrilátero de Lambeth. Desta forma, como parte do corpo de Cristo, nos expressamos como uma igreja bíblica, credal, sacramental e episcopal. Nenhum desses quatro lados do Quadrilátero de Lambeth pode ser desprezado. Sendo uma igreja bíblica cremos que as sagradas escrituras contém todas as coisas necessárias a salvação. Credal ao aceitar o credo Niceno e o credo Apostólico e fundamentalmente porque cremos em Deus Pai; em Jesus Cristo, o Filho de Deus, e em Deus Espírito Santo segundo a aliança batismal; Sacramental porque os sacramentos são meio de graça e nos alimentam espiritualmente. Os sacramentos do Batismo e Santa Eucaristia Instituídos pelo próprio Cristo são de vital importância e a estes sacramentos há também os ritos sacramentais. Episcopal como uma igreja que tem no bispo um pastor que administra os ritos de confirmação, confere as ordens sacras e supervisiona a igreja local (diocese) sendo os reverendos pastores locais e representantes do bispo nas paróquias e missões.
Vivenciar a compreensividade significa vivenciar o Quadrilátero de Lambeth. O Quadrilátero de Lambeth não é uma teoria, é uma prática. Se fosse uma teoria, o anglicanismo também o seria. O ethos anglicano se evidencia pelas diferentes formas de ser anglicano, das correntes anglicanas, da forma de se expressar como anglicano. Assim, a existência de ordens religiosas dentro do anglicanismo é tão natural como a existência das correntes anglicanas, pois elas (ordens e correntes) revelam a diversidade existente no anglicanismo. Por outro lado, o Quadrilátero de Lambeth nos leva a unidade na diversidade na medida que o praticamos. Esta prática não existe sem compreensividade. É perceber que nossa contribuição nos enriquece como igreja mesmo sendo diferentes, com fraquezas, limitações, mas também com a inspiração do Espírito Santo. Sendo cristãos não somos excludentes. Isto faz com Igreja Anglicana possa dar importantes passos na realização da missão que Cristo nos confiou. O anglicanismo mostra que ser sal da terra e luz do mundo pode ser vivido de diferentes maneiras e assim damos graças a Deus pelas Ordens de Santo Estevão Mártir, São Tiago e São Francisco.
Sobre ethos anglicano: Rev. Jorge Aquino, OSE, Anglicanismo: Uma introdução, Cap. 12.