Os 39 Artigos de Religião: Comentário Parcial

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Os 39 Artigos de Religião: Comentário Parcial

Data desconhecida

Os 39 Artigos de Religião: Comentário Parcial

Com base nos 42 Artigos de 1553, cujo autor principal foi o reformador anglicano Thomas Cranmer, em 1563 a Convocação, presidida pelo arcebispo Matthew Parker, elaborou um texto (os 39 Artigos de Religião) que assumiria a forma final em 1571, ano em que a adesão aos artigos foi tornada obrigatória pelo parlamento. As diferentes províncias da Comunhão Anglicana têm posturas diferentes sobre os 39 Artigos de Religião. Mas a declaração de Jerusalém, que é essencial ao GAFCON, nos diz que:

  1. Nós endossamos os Trinta e Nove Artigos como contendo a verdadeira doutrina da Igreja em concordância com a Palavra de Deus e como obrigatórios [authoritative] para os anglicanos hoje.

Os 39 Artigos não são uma confissão de fé completa, mas apenas uma declaração relativa aos conflitos do período da Reforma, na qual se ratifica a fé católica do anglicanismo e a resposta anglicana tanto para os reformadores mais radicais quanto para o tradicionalismo romano. Os artigos são divididos em quatro partes:

  • Artigos 1-8: Artigos Católicos
  • Artigos 9-18: Religião Pessoal
  • Artigos 19-31: Religião Corporativa
  • Artigos 32-39: Miscelânea

Os 39 Artigos foram originalmente publicados em inglês e em latim, e, por isso, o texto latino será empregado algumas vezes para esclarecer o sentido dos artigos.

A doutrina anglicana é aberta às contribuições de todas as épocas e correntes, desde que preservando o equilíbrio (via media). Além de citações das Sagradas Escrituras e dos pais da Igreja e teólogos anglicanos, os comentários abaixo fazem uso de vários documentos da fé anglicana, como o Catecismo do LOC de 1662, o Quadrilátero de Lambeth (1888), a Declaração de Jerusalém (GAFCON 2008) e várias orações e ritos do LOC (especialmente a versão de 1662 e o nosso LOCb), segundo o princípio lex orandi, lex credendi.

Nesses comentários, a preferência será pelo texto original dos 39 Artigos e dos demais documentos (mas vertidos ao português), e não a outras versões posteriores.

Uma vez que parte do conteúdo dos 39 Artigos coincide com as disciplinas de Teologia Sistemática do SAT, nem todos os temas serão abordados em profundidade, devendo o aluno remeter-se ao material ministrado naquelas disciplinas.

Para compreensão e aproveitamento adequados do assunto, é essencial que se faça leitura de todos os textos bíblicos referenciados, geralmente entre parênteses.


I. DA FÉ NA SANTÍSSIMA TRINDADE

Há um único Deus vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo, partes ou paixões; de poder, sabedoria e bondade infinitos; criador e preservador de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis. E na unidade desta Divindade há três Pessoas, da mesma substância, poder e eternidade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Assunto tratado em Teologia Sistemática I. Marca a adesão do anglicanismo ao teísmo clássico.


II. DO VERBO OU FILHO DE DEUS, QUE SE FEZ VERDADEIRO HOMEM

O Filho, que é o Verbo do Pai, gerado eternamente do Pai, verdadeiro e eterno Deus, e consubstancial com o Pai, assumiu a natureza humana no ventre da Virgem bendita, da sua substância¹; de sorte que as duas naturezas inteiras e perfeitas, isto é, a Divindade e a humanidade, se uniram inseparavelmente em uma pessoa, das quais há um Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; que verdadeiramente padeceu, foi crucificado, morto e sepultado, para reconciliar Seu Pai conosco, e ser sacrifício, não só pela culpa original, mas também por todos os pecados atuais dos homens².

A maior parte do artigo é tratada em Teologia Sistemática. É importante notar, porém, alguns pontos:

da sua substância

Os reformadores anabatistas Caspar Schwenckfeld (c.1490-1561), Bernhard Rothmann (c. 1495–c. 1535), Melchior Hofmann (c. 1495 – c. 1543), Menno Simons (1496–1561) e Dirk Phillips (1504–1568), rompendo com toda a cristologia anterior, pregavam que Cristo não havia recebido a natureza humana da virgem Maria, mas teria recebido uma "carne celestial". Desse modo, Maria não seria realmente mãe de Cristo, mas apenas "incubadora".

Ao contrário, o Art. 2 toma uma posição clara em favor da cristologia recebida: a natureza humana de Cristo foi recebida da substância de Maria (ex illius substantia). A cristologia histórica sempre afirmou que Maria é mãe de Jesus (At. 1:12) e, por isso, é chamada mãe do Senhor (Lc. 1:43), mãe de Deus ou Theotokos. Se Cristo não é filho biológico de Maria, também não é descendente biológico de Abraão e Davi (Rm. 1:3; Gl. 3:16). Cristo recebeu a humanidade mortal como a nossa (embora sem pecado).

naturezas inteiras

Diversas heresias chegaram a negar partes da natureza humana ou divina de Cristo, como o kenoticismo (que nega parte da natureza divina durante a encarnação) e o apolinarismo (que nega parte da natureza humana, a saber, a alma). A posição do Art. 2 é de que Cristo tinha as duas naturezas inteiras. Como Cristo se fez homem para redimir a humanidade, é necessário que sua natureza humana seja inteira: "O que não foi assumido não foi redimido." (São Gregório de Nazianzo)


se uniram inseparavelmente em uma pessoa: Nós não podemos separar a humanidade e a divindade de Cristo, e ele mesmo nunca mais as separará. Ele não deixará de ser humano, pois nossa salvação depende do seu sacerdócio perpétuo (Hb. 7:24-25), que depende de sua natureza humana, como oferta perpétua a Deus.

padeceu, foi crucificado, morto e sepultado, para reconciliar Seu Pai conosco: A reconciliação de Deus conosco, embora esteja centrada na cruz, também inclui os sofrimentos e o sepultamento de Cristo.

por todos os pecados atuais dos homens: Já se nota aqui o que se dirá de maneira mais clara no art. 31. Os 39 Artigos não abraçam a doutrina radical da expiação limitada, que se tornará dominante no calvinismo do século XVII.


III. DA DESCIDA DE CRISTO AO HADES

Assim como Cristo morreu por nós, foi sepultado; assim também deve ser crido que desceu ao Hades.

Na forma atual, é o menor artigo dos 39, e não nos diz nada sobre a descida de Cristo ao Hades, senão que ela aconteceu, repetindo as palavras do Credo Apostólico. Pode parecer estranho que ter um artigo para dizer só disso, pois essas duas linhas poderiam ser acrescidas ao artigo anterior sem dificuldade.

Ocorre que no século XVI houve um intenso debate entre reformados e luteranos sobre esse assunto. Enquanto certos luteranos defendiam uma descida literal (e física!) de Cristo ao Hades após sua morte, alguns reformados interpretavam a linha do Credo como linguagem figurativa. O artigo original, na versão de Cranmer (42 artigos), procurava dar uma resposta a essa questão, adotando uma posição intermediária:

Assim como Cristo morreu e foi sepultado por nós, também se deve crer que ele desceu ao Hades [into Hell, ad inferos]. O corpo jazeu no sepulcro até a ressurreição, mas seu espírito partindo dele estava com os espíritos que estiveram em prisão, ou no inferno [in Hell], e pregou aos mesmos, como o trecho de São Pedro testifica.

A versão definitiva dos Artigos procurou evitar o debate luterano-reformado, e é plenamente defensável do ponto de vista da Sagrada Escritura e dos Pais da Igreja.

Alguns esclarecimentos: o texto do artigo em inglês e em latim usa palavras que nós traduziríamos como “inferno”. Entretanto, nós atualmente usamos a palavra "inferno” para indicar a condenação eterna. Durante a maior parte da história da Igreja, porém, a palavra “inferno” era usada para designar o mundo inferior (daí a palavra “inferno”), onde moravam os espíritos dos falecidos, ao menos até Cristo ter descido lá. Para evitar a confusão, traduzimos como "Hades", palavra grega usada para indicar o mundo inferior.

No Salmo 88, o destino dos mortos, o submundo, é chamado terra do esquecimento, lugares tenebrosos, abismos; é "terra da sombra da morte e do caos, onde a própria luz é tenebrosa." (Jó 10:22). Quando Cristo morreu na cruz, desceu às partes mais baixas da terra (Ef. 4:9), ao coração da terra (Mt. 12:40), ao abismo (Rm. 10:7), e lá anunciou o seu evangelho àqueles que esperavam por ele (1Pe. 3:19; 4:6).


Essa descida ao Šě'ôl expressa a centralidade e exclusividade de Cristo na salvação: ninguém é salvo sem ele, ninguém vence a morte sem ele. Mesmo os patriarcas do Antigo Testamento, que foram salvos e justificados em Cristo, e morreram aguardando a cidade eterna, mas não tinham ainda ouvido a plenitude do Evangelho, tiveram de esperar a vitória do Filho de Deus.


IV. DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Cristo verdadeiramente ressuscitou dos mortos, e tomou de novo o Seu corpo, com carne, ossos e tudo o mais pertencente à perfeição da natureza humana, com os quais Ele subiu ao céu, e lá está assentado até que Ele volte a julgar todos os homens no derradeiro dia.

ressuscitou dos mortos

A ressurreição de Cristo também é essencial à nossa salvação; não é apenas um “desfazimento” da sua morte (cf. Rm. 4:25; 5:10; 6:4; 8:33-34; 14:9; 1Co. 15:17,21; 2Co. 5:15). Queremos conhecer o poder da ressurreição de Cristo para participarmos dela (Fp. 3:10-11).

Certos grupos reformados têm a tendência a reduzir o poder salvífico da ressurreição de Cristo apenas a um papel apologético (ela prova que Jesus era o filho de Deus) ou revelador (ela mostra que Deus aceitou o sacrifício). A doutrina anglicana, contudo, preserva o papel salvífico da ressurreição de Cristo, que nos livra do poder da morte.

COLETA DO DOMINGO DE PÁSCOA (LOCb): Ó Deus, que para a nossa redenção entregaste o teu unigênito Filho à morte de cruz, e pela sua gloriosa ressurreição nos libertaste do poder de nosso inimigo; concede que morramos diariamente para o pecado, a fim de que vivamos sempre com Ele na alegria de sua ressurreição; mediante Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

HOMILIA DA PÁSCOA: "Esse é o poder grandioso do Senhor em que nós cremos. Por sua morte ele engendrou para nós essa vitória, e por sua ressurreição ele comprou vida eterna e justiça para nós. Não bastaria que fôssemos libertos do pecado por sua morte, a menos que por sua ressurreição fôssemos dotados de justiça. E não adiantaria sermos libertos da morte, a menos que ele tivesse ressuscitado, para nos abrir as portas do céu, para entrarmos na vida eterna."

BATISMO DE CRIANÇAS PRIVADO (LOC 1662): "E nós te suplicamos conceder que, assim como ele agora é feito participante da morte do teu Filho, ele seja também da sua ressurreição;"

tomou de novo o Seu corpo

parece uma crítica à posição luterana mais radical de que Cristo teria descido ao Hades com corpo.

lá está assentado até que Ele volte a julgar todos os homens

A escatologia anglicana se resume à afirmação de que Cristo está assentado à direita do Pai e de lá virá para julgar os vivos e os mortos, como ensinam os três credos (Apostólico, Niceno, Atanasiano). Na coleta do 1º Domingo do Advento (a ser usada durante os 4 domingos), ora-se assim:


Deus Onipotente, dá-nos a graça de rejeitar as obras das trevas e vestir-nos das armas da luz, durante esta vida mortal, em que teu Filho Jesus Cristo, com grande humildade, veio visitar-nos; a fim de que, no último dia, quando ele vier em sua gloriosa majestade, para julgar os vivos e os mortos, ressuscitamos para a vida imortal, mediante Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, agora e sempre. Amém.

Essa oração resume bem a doutrina anglicana sobre o fim dos tempos, que é basicamente a mesma da maioria dos cristãos até tempos recentes: no último dia, Jesus virá em glória para julgar os vivos e os mortos, e nós queremos ressuscitar para a vida eterna nesse dia.

Isso se enquadra bem na revelação bíblica de Cristo, estando assentado à direita de Deus, aguardará lá até que seu último inimigo seja derrotado (Hb. 10:12-13), e de que, quando ele vier, a morte será definitivamente derrotada (1Co. 15:26-26,51-54) e ele julgará os vivos e os mortos (2Tm. 4:1), dando a cada um o seu destino (Jo. 5:28-29). Sobre isso, também a Declaração de Jerusalém nos diz:

"14. Nós nos alegramos esperando o retorno de Jesus em glória, e enquanto aguardamos esse evento final da história, nós o louvamos pelo modo como ele edifica sua igreja pelo seu Espírito mudando vidas de maneira milagrosa."


V. DO ESPÍRITO SANTO

O Espírito Santo, procedente do Pai e do Filho, é da mesma substância, majestade e glória que o Pai e o Filho, verdadeiro e eterno Deus.

Matéria tratada na disciplina de Teologia Sistemática. Observe-se, porém:

procedente do Pai e do Filho

O Art. 5 se posiciona em favor da cláusula filioque do Credo Niceno, ou seja, de que o Espírito Santo não procede apenas do Pai (como em uma leitura restritiva de Jo. 15:26), mas também do Filho. Essa processão do Espírito não se refere a algo que acontece no tempo, mas à origem eterna (não temporal) do Espírito. Não se trata, portanto, de algo que aconteceu no passado, mas que acontece eternamente, pois Deus é eterno.

Por isso, o Espírito é chamado “Espírito de Jesus” (At. 16:6), “Espírito de Cristo" (Rm. 8:9) e “Espírito do (seu) Filho” (Gl. 4:6). Por isso, na visão celestial, a água da vida (que simboliza o Espírito em Jo. 7:37-39; cf. Ap. 21:6) procede do trono de Deus e do Cordeiro (Ap. 22:1).

Entretanto, não há necessidade de fazer contraposição entre a teologia latina ("procede do Pai e do Filho") e a teologia grega (“procede do Pai através do Filho"). O sentido é o mesmo.


VI. SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS SAGRADAS PARA A SALVAÇÃO

A Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma que seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação. Pelo nome de Escritura Sagrada


entendemos os Livros canônicos do Antigo e Novo Testamentos, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja.

OS NOMES E NÚMERO DOS LIVROS CANÔNICOS

  1. Gênesis
  2. Êxodo
  3. Levítico
  4. Números
  5. Deuteronômio
  6. Josué
  7. Juízes
  8. Rute
  9. Primeiro Livro de Samuel
  10. Segundo Livro de Samuel
  11. Primeiro Livro de Reis
  12. Segundo Livro de Reis
  13. Primeiro Livro de Crônicas
  14. Segundo Livro de Crônicas
  15. Livro de Esdras
  16. Livro de Neemias
  17. Livro de Ester
  18. Livro de Jó
  19. Salmos
  20. Provérbios
  21. Eclesiastes ou Pregador
  22. Cântico dos Cânticos
  23. Os Quatros Profetas Maiores
  24. Os Doze Profetas Menores

E os outros Livros (como diz Jerônimo), a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma. São os seguintes:

  1. Terceiro Livro de Esdras
  2. Quarto Livro de Esdras
  3. Livro de Tobias
  4. Livro de Judite
  5. O restante dos livros de Ester
  6. Livro da Sabedoria
  7. Jesus, Filho de Siraque
  8. O Profeta Baruque
  9. O Cântico dos Três Mancebos
  10. A História de Susana
  11. De Bel e o Dragão
  12. Oração de Manassés
  13. Primeiro Livro de Macabeus
  14. Segundo Livro dos Macabeus

Recebemos e contamos por canônicos todos os Livros do Novo Testamento, como são comumente recebidos.

todas as coisas necessárias para a salvação

Santo Agostinho chama as Escrituras canônicas de "as fontes da fé da qual vive o justo" (Cidade de Deus, XIX, 18), aludindo a Rm. 1:17. Com razão, São Boaventura (1221–1274) chama a Escritura de "ciência de salvação" no seu Brevilóquio. Na doutrina anglicana, o propósito principal da Sagrada Escritura é ensinar sobre a salvação (entendida em termos amplos). Sobre a suficiência das Escrituras nesse ensino, cf. Jo. 20:31; Gl. 1:8-9; 2Tm. 3:15.

Isso é diferente do posicionamento de vários puritanos ingleses (como Cartwright), que queriam utilizar as Escrituras para responder qualquer tipo de questão. Na realidade, como Richard Hooker observa em seu debate com os puritanos, o entendimento da Escritura depende de outros conhecimentos nossos, que adquirimos através da razão, e que são anteriores à Escritura. A Escritura não ensina ninguém a ler, por exemplo.

O Quadrilátero de Lambeth declara:

  1. As Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos, como “contendo todas as coisas necessárias para a salvação”, e como sendo a regra e o padrão final de fé.

tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar

Nem tudo aquilo que a Escritura ensina está explícito. Algumas verdades podem ser lidas na Escritura (são explícitas), e outras verdades, embora não possam ser lidas, podem ser provadas através da Escritura (são implícitas). Parte do dogma da Trindade está implícito, por exemplo, como é o caso da divindade do Espírito Santo.

artigo de fé

doutrina necessária para todos os cristãos.

de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja

do ponto de vista histórico, não se pode encarar ao pé da letra essa expressão, visto que, em alguns momentos, houve dúvida sobre certos livros bíblicos. Mas os livros contidos no cânon anglicano incluem a maioria dos cristãos de todos os tempos.


como diz Jerônimo: Durante os primeiros séculos da Igreja, como Santo Agostinho testemunha no De doctrina christiana, havia entre igrejas divergências sobre o cânon do Antigo Testamento. Sobre isso, alguns pais da Igreja, como São Jerônimo e Santo Atanásio, se posicionaram em favor de um cânon menor, sem os “deuterocanônicos":

São Jerônimo, Prólogo ao livro de Reis: "Sabedoria, portanto, que geralmente carrega o nome de Salomão, e o livro de Jesus de Sirach [Eclesiástico], e Judite, e Tobias, e o Pastor [de Hermas] não estão no cânon. O primeiro livro de Macabeus se encontra em hebraico, mas o segundo é grego, como se pode provar pelo próprio estilo."

Santo Atanásio, Epístola 39: "Mas para maior exatidão também acrescento isto, escrevendo por necessidade: que há outros livros além desses, que não se incluem no cânon, mas selecionados pelos Pais para serem lidos pelos neófitos e por aqueles que desejam instrução na palavra de piedade. A Sabedoria de Salomão, e a Sabedoria de Sirach [Eclesiástico], e Ester, e Judite, e Tobias, e aquele que é chamado o Ensino dos Apóstolos, e o Pastor [de Hermas]. Os anteriores são incluídos no cânon, mas esses últimos apenas lidos..."

A posição anglicana é de que esses livros devem ser lidos, mas não se pode estabelecer nenhuma doutrina com base neles. Essa posição é a mesma dos luteranos e também dos primeiros reformados. Por isso, as Bíblias protestantes dos séculos XVI e XVII (incluindo a King James) incluíam esses livros (em uma seção separada).

A declaração de Jerusalém trata do mesmo tema desse artigo:

  1. Cremos que as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos são a Palavra de Deus escrita e contêm toda as coisas necessárias para a salvação. A Bíblia deve ser traduzida, lida, pregada, ensinada e obedecida em seu sentido claro e canônico, respeitando a leitura histórica e consensual da igreja.

respeitando a leitura histórica e consensual da igreja

A interpretação da Sagrada Escritura respeita a tradição da igreja. Por isso a importância dos credos e concílios, como veremos a seguir.


VII. DO ANTIGO TESTAMENTO

O Antigo Testamento não é contrário ao Novo; porquanto em ambos, tanto no Velho como no Novo, se oferece a vida eterna ao gênero humano, por Cristo, que é o único mediador entre Deus e o homem, sendo Ele mesmo Deus e homem. Portanto, não devem ser ouvidos os que pretendem que os antigos Pais só esperaram promessas transitórias. Ainda que a Lei de Deus, dada por meio de Moisés, no que respeita a cerimônia e ritos, não obrigue os cristãos, nem devem ser recebidos necessariamente os seus preceitos civis em nenhuma comunidade; todavia, não há cristão algum que esteja isento da obediência aos mandamentos que se chamam morais.

O Antigo Testamento não é contrário ao Novo

Segundo a doutrina marcionita, haveria uma contradição entre o Antigo Testamento e o Novo. A posição patrística, ao reconhecer ambos testamentos como inspirados por Deus (e Deus não se contradiz), foi de que entre eles não há contrariedade.


Isso significava, porém, que vários textos do Antigo Testamento teriam uma interpretação nova agora, e que várias partes da Lei não se aplicam mais hoje. As palavras de 2Tm. 3:15 referem-se ao Antigo Testamento (pois o Novo ainda estava sendo escrito e começando a circular). Assim, tanto o Antigo quanto O Novo Testamento giram em torno de Cristo: ambos apontam para a salvação através dele como único mediador (cf. Jo. 5:39), ainda que no Antigo Testamento essa verdade seja apresentada de maneira mais simbólica. A Bíblia é cristocêntrica.

cerimônias e ritos / preceitos civis / mandamentos morais

A teologia patrística e medieval havia classificado a Lei de Moisés em mandamentos cerimoniais, civis e morais. Essa distinção ajudava a guiar o modo como os cristãos devem ler e aplicar o Antigo Testamento.

A lei moral dizia respeito àquilo que Cristo considerou a parte mais importante da lei: “o juízo, a misericórdia e a fé” (Mt. 23:23). Afinal, ele mesmo havia dito que, dentre os mandamentos da lei, aqueles os sobre o amor a Deus e ao próximo eram os mais importantes e todos os demais dependiam deles (Mt. 22:40); na concepção cristã, a essência do cumprimento da Lei é o amor (Rm. Rm. 13:8-10; Gl. 5:14). Essa diferença de importância já havia sido pregada e ensinada pelos profetas do Antigo Testamento (cf. 1Sm. 15:22; Is. 1:11-16; Os. 6:6; Mq. 6:6-8). Essa lei é eterna porque reflete o caráter de Deus; embora seja mais clara no Novo Testamento, ela reflete o desejo universal de Deus.

A lei cerimonial dizia respeito à purificações, circuncisão, sacrifícios, sacerdócio, tabus, rituais e símbolos, os quais teriam sido substituídos no Novo Testamento por novas cerimônias, e sobretudo pelo sacrifício de Cristo, que suplantava qualquer sacrifício da lei de Moisés pelos pecados. Esses mandamentos tinham caráter alegórico e figurativo (Cl. 2:16-17; Hb. 10:1). A velha lei cerimonial nos ajuda a entender os mandamentos do Novo Testamento (cf. 1Co. 5:7), mas não se aplica literalmente de maneira idêntica ao tempo anterior a Cristo.

A lei civil dizia respeito à organização social do povo israelita, inclusive tutelando crimes e punições. Ela visa dar aos aplicadores da lei parâmetros para governar, julgar e punir. Assim, enquanto a lei moral proíbe o furto, a lei civil diz que punições cabem para esse crime, em diversas situações (cf. Êx. 22:1-4).

Nessa questão, até o surgimento da Reforma, acreditava-se que a lei civil do Antigo Testamento não precisaria ser aplicada no Novo, e que cada nação pode ter sua própria lei, podendo imitar e adaptar ou não essas leis. Mas com a Reforma Inglesa, os puritanos passaram a querer a aplicação da lei civil do Antigo Testamento (inclusive com pena de morte para idólatras), numa posição hoje conhecida como teonomia. Os anglicanos mantiveram a posição anterior, de que aquela lei não deve ser aplicada necessariamente, uma vez que, como Hooker argumentava, vivemos em circunstâncias diferentes. Os puritanos posteriores, que elaboraram a Confissão de Westminster, não consideravam a necessário aplicar-se a lei civil de maneira estrita.

Não se deve fazer uma distinção muito rígida entre mandamentos morais, cerimoniais e civis, pois os mandamentos civis e os mandamentos cerimoniais trazem sempre, de maneira direta ou indireta, algum princípio moral. Nós cristãos ainda praticamos a justiça e a pureza, ainda que não exatamente do mesmo modo como os antigos hebreus, pois toda a Escritura nos instrui em justiça (2Tm. 3:16).


Quanto a esse assunto, é importante atentarmos para duas tendências contrárias e igualmente nocivas: o exagero e o desleixo quanto aos mandamentos. Enquanto os puritanos queriam que a aplicação da lei civil (indo além da lei moral), diversas partes do mundo protestante enfrentaram a doutrina do antinomismo, que, partindo de uma radicalização da justificação pela graça, tornava os mandamentos morais inúteis na vida cristã: o cristão não precisaria aprender ou buscar seguir esses mandamentos, pois eles seriam conseqüências da fé; bastava à Igreja pregar a misericórdia de Deus. O artigo 7 afirma explicitamente que todos os cristãos estão obrigados à obediência à lei moral, e a liturgia anglicana favorece isso através da leitura dos dez mandamentos ou do sumário da lei.

Os reformadores falaram em três usos da Lei: conter os desobedientes (1Tm. 1:8-10), para que conheçamos os nossos pecados (Rm. 3:20) e nos guiar na santificação (Mt. 19:17).


VIII. DOS CREDOS

Os três credos, o Niceno, o Atanasiano e aquele comumente chamado Credo Apostólico, devem ser inteiramente recebidos e cridos; pois eles podem ser provados pelas garantias certíssimas da Sagrada Escritura.

Declaração de Jerusalém:

  1. Nós endossamos os Quatro Concílios Ecumênicos e os três credos históricos como expressando a regra de fé da Igreja uma, santa, católica e apostólica.

Quadrilátero de Lambeth:

  1. O Credo dos Apóstolos, como o Símbolo Batismal; e o Credo Niceno, como suficiente declaração da fé cristã.

credos

Os credos são afirmações breves da fé cristã, expressando o que cremos sobre Deus e aquilo que ele realizou por nós. Originalmente eram usados na instrução dos convertidos e na liturgia do batismo, vindo, depois, a ser incorporados à liturgia de culto, para que se pudesse combater certas heresias. O texto dos três credos pode ser conferido no Apêndice I.

devem ser inteiramente recebidos e cridos

A posição anglicana é de que os três credos são inteiramente corretos, pois tudo neles pode ser provado pela Sagrada Escritura.

Quatro Concílios Ecumênicos

Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Dá-se importância a esses concílios pois eles expressam a fé de todos os cristãos. Alguns anglicanos dizem a mesma coisa sobre os concílios posteriores do primeiro milênio, que basicamente explicaram o concílio de Calcedônia.

regra de fé

Os pais da Igreja chamavam os credos, na forma primitiva, de regula fidei (regra de fé).


IX. DO PECADO ORIGINAL OU DE NASCIMENTO

O pecado original não consiste na imitação de Adão (como vāmente pregado pelos pelagianos), mas é a falta e corrupção da natureza de todo o homem gerado naturalmente da semente de Adão, pelas quais o homem dista muitíssimo da justiça original, e é de sua própria natureza inclinado ao mal, de sorte que a carne sempre cobiça contra o espírito; e, portanto, em toda pessoa que nasce neste mundo ela merece a ira e a condenação de Deus. E essa infecção da natureza ainda permanece também nos que são regenerados, pela qual a concupiscência da carne, chamada em grego phronema sarkos (que uns interpretam sabedoria, outros sensualidade, outros afeição, e, outros, desejo da carne), não é sujeita à Lei de Deus. E embora não haja condenação para os que creem e são batizados, contudo o Apóstolo confessa que a concupiscência e desejo têm em si a natureza do pecado.

A matéria desse artigo é tratada em Teologia Sistemática. Entretanto, é importante pontuar alguns posicionamentos da Igreja da Inglaterra no contexto da reforma e contrarreforma.

A doutrina do pecado original foi primeiramente formalizada no Concílio de Orange (529), no qual se estabeleceu, com base nas Escrituras (na leitura de Santo Agostinho), que o homem foi, de corpo e alma, mudado para pior pelo pecado (cânon 1); o pecado, que é a morte da alma, passou adiante para toda a humanidade (cânon 2).

imitação de Adão

os pelagianos (seguidores de Pelágio), pregava que o ser humano é radicalmente livre para escolher entre o bem e o mal, e que não existe nenhuma tendência para o mal. Assim, para Pelágio, o pecado original consistiria apenas na imitação do pecado de Adão, e qualquer um de nós pode simplesmente escolher deixar de imitá-lo. Santo Agostinho, os pais da Igreja e os escolásticos foram claros a esse respeito: o pecado original não se transmite por imitação, mas por propagação. Na raiz está o ensinamento de Cristo de que o mal procede do nosso próprio coração (Mt. 15:19).

falta e corrupção da natureza

O texto latino desse artigo descreve o pecado como "vício e privação” (vitium et deprivatio naturae). Isso se insere na linguagem neoplatônica cristã, que descreve o mal como privação: o mal é a ausência do bem (privatio boni). Isso significa dizer que, debaixo do pecado original, somos privados de um bem espiritual, descrito a seguir. Em razão disso, habita em nós o mal que nos leva a pecar (Rm. 7:18-21).

o homem dista muitíssimo da justiça original

O bem do qual nascemos privados foi nomeado, pelos pais da Igreja, como “justiça original", que é a condição de inocência (falta de culpa) e de retidão. A primeira humanidade não tinha nenhuma inclinação ao pecado, podendo obedecer livremente a Deus. Como estamos privados da justiça original, não somos capazes de transmiti-la adiante; por isso, todo ser humano que nasce, nasce sem ela.

a carne sempre cobiça contra o espírito

Gl. 5:17; cf. Rm. 8:5-6.

merece a ira e a condenação de Deus

Nossa maldade herdada é contrária ao plano de Deus e, por isso, ela merece a ira (punição justa) de Deus.


ainda permanece também nos que são regenerados: A regeneração é a obra de restauração da humanidade, curando o dano do pecado original. Gl. 5:17 se refere a pessoas que já foram regeneradas (elas já têm o Espírito Santo), portanto a carne ainda nos leva ao pecado, embora essa influência não seja invencível (Rm. 6:14; 1Co. 10:13).

phronema sarkos

Essa expressão grega, “inclinação da carne” ou “pendor da carne”, remonta a Rm. 8:6. O texto do artigo se refere a traduções diferentes oferecidas: sabedoria da carne, sensualidade da carne, afeição da carne, desejo da carne. Independentemente da tradução, o resultado é o mesmo: contra Deus.

não é sujeita à Lei de Deus

Rm.

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