OS ANGLICANOS UNIDOS AMANHÃ

Versão Integral em Texto

OS ANGLICANOS UNIDOS AMANHÃ

J. I. Packer2003

OS ANGLICANOS UNIDOS AMANHÃ

J. I. Packer

Quadro Introdutório

De uma perspectiva, a Comunhão Anglicana é um acidente histórico, como o foram o Império Britânico e os Estados Unidos, que, em grande parte, a produziram. Da mesma perspectiva, o Anglicanismo é um delicado hibridismo, mais instável que os demais, em razão de suas permanentes tensões internas. Mas eu insisto que, teologicamente falando, o Anglicanismo é o cristianismo centrista, e o Evangelicalismo é o Anglicanismo centrista, e que nas tarefas pastorais e missionárias com que se depara a Igreja de Cristo nesse novo século, o anglicanismo evangélico deve procurar liderá-lo.


01. A Identidade Cristã

O Anglicanismo ideal, ao qual o Anglicanismo real deve se conformar, é, como diz-se com freqüência, o mero cristianismo, a religião apostólica do Novo Testamento, sem adição, subtração ou distorção. Embora a sua expressão institucional possa variar, mais ou menos, com a cultura de cada época e comunidade, sua essência revelada transcultural, transhistórica e transnacional, consiste de realidades imutáveis explicitadas nos Credos e nos XXXIX Artigos de Religião, tendo, em grande escala, como fundamento as Sagradas Escrituras. Essa substância toma corpo em três afirmações que se justapõem, a saber:

a) Todos os cristãos, mais do que qualquer coisa, devem ser um povo Romano

Na matriz teológica do ensino de Paulo na Carta aos Romanos nós aprendemos sobre a Trindade, a criação, a revelação natural de Deus, a realidade presente e o futuro da vida humana, o pecado em todos os seus aspectos, o julgamento, presente e futuro, a Lei de Deus, a pessoa e a obra de Jesus Cristo e do Espírito Santo, a Graça, a fé, as obras, a justificação, a santificação, a glorificação, a eleição, o Plano de Salvação, ο amor e as promessas de Deus, o significado do batismo, a natureza e a vida da Igreja, o lugar dos judeus e dos não-judeus, a filosofia da história da Igreja e da história do mundo, a mensagem do Antigo Testamento, os princípios da ética pessoal e da piedade, a cidadania dos cristãos, o caminho da verdade, do amor, da esperança e da obediência movidas por Deus mediante Cristo, a tarefa missionária, para não nos alongarmos. Que todos os caminhos na Bíblia nos levam à Carta aos Romanos, que unifica a mensagem bíblica, e que a Carta aos Romanos ilumina todos os temas do Novo Testamento, tornando-se, como insistiam os Reformadores, a chave para a compreensão bíblica, e é um fato demonstrável, então, que toda tarefa teológica faz bem em começar por aqui.

b) Todos os cristãos - e os Anglicanos tanto quanto os demais – devem ser um povo da Bíblia e do Evangelho

A expressão “o que Deus criou não deve ser separado" se aplica aqui, porque a Palavra escrita do Senhor nos conduz ao Senhor vivo da Palavra, que nos diz que o caminho do discipulado para Ele é para ser disciplinado pelas Escrituras que temos. O Antigo Testamento adicionado e interpretado pelo testemunho apostólico que emerge do Novo Testamento. O povo da Bíblia e do Evangelho lê e explora a Bíblia como eles o fariam com uma carta da pessoa amada, e recebe todos os seus ensinos, histórias, promessas e lições sobre a semelhança e a dessemelhança das próprias instruções canônicas de Deus. Ele nunca se cansa em ouvir, recapitular, meditar e contar sobre a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo, seu reino presente, seu retorno futuro, sua mediação e o seu amor. Jesus é o foco de sua fé em Deus, sua adoração e devoção, e de sua comunhão uns com os outros e seu testemunho para o mundo. Essa é a mentalidade bíblica e evangélica. Constitui-se precisamente na dimensão interior da vida cristã como o Novo Testamento a apresenta, e devem marcar os anglicanos - não porque eles sejam anglicanos, mas porque eles são cristãos.

c) Todos os cristãos – os Anglicanos tanto quanto os demais – devem ser um povo centrado em Cristo

Isso decorre do que já foi dito. Os verdadeiros cristãos amam o seu Senhor, o servem, o proclamam, e procuram de todas as maneiras exaltá-lo. Conhecer, compartilhar e celebrar o Cristo das Escrituras como seu Salvador, governante e guia de suas vidas em sua paixão. Não devem eles ser individualistas na relação pessoal com o Cristo, porque eles se percebem como unidades do organismo da igreja mundial, que é o Corpo de Cristo, o edifício e a noiva. Cristocentrismo e eclesiocentrismo é o núcleo da verdadeira identidade cristã. Como uma expressão do mero cristianismo, o Anglicanismo deve sempre se esforçar para exibir a identidade que descrevemos. Contudo, muitos em nossas igrejas ainda não a assumiram, ou dela se afastaram.


02. O Perfil Anglicano

A herança anglicana, desenvolvida no último meio-milênio, encontra a a sua expressão em documentos (XXXIX Artigos de Religião, os dois Livros de Oração Comum de Cranmer, e os seus descendentes), em instituições (o sistema paroquial e o episcopado histórico), e em um método teológico (o uso da razão e da tradição advogado por Hooker para a compreensão e a aplicação das Escrituras, o que gera confiança na disciplina do debate na relação entre verdade e discernimento).

O Anglicanismo é uma forma pastoral de cristianismo, com os seguintes marcas:

(i) É bíblico. As Sagradas Escrituras recebidas como “Palavra Escrita de Deus", e como suficiente para a salvação, é historicamente a base e a espinha dorsal da adoração e da nutrição espiritual anglicana.

(ii) É doutrinário. As crenças trinitárias, encarnacionais, soteriológicas e eclesiológicas expressas no Credo, incorporadas ao Livro de Oração Comum e expandidas nos Artigos de Religião se constituem em pedras fundamentais do Anglicanismo histórico.

(iii) É litúrgico. Seu histórico Livro de Oração Comum tem sido com freqüência descrito como a Bíblia arranjada para a adoração, e que a sabedoria de Cranmer no uso de uma seqüência temática pecado-graça-fé, na composição dos ofícios principais (cujo ápice é a Eucaristia de 1552) forma congregantes com uma atitude evangélica quando adoram a Deus.

(iv) É Episcopal. A compreensão anglicana do episcopado histórico, primeiro nas comunidades locais, e, depois, em sua forma diocesana, é um desenvolvimento da Igreja modelada no papel pastoral apostólico de Pedro, Paulo e João, para a supervisão unificadora dos presbíteros e do povo, para a manutenção da ortodoxia e da disciplina, e para a implementação da missão.

(v) É nacional - isto é, comunitariamente orientado. Aonde o Anglicanismo vai, ele procura não somente evangelizar e discipular os indivíduos e as famílias, mas, também, civilizar e cristianizar os padrões e as instituições públicas. Muitas vezes isso tem sido confundido com imperialismo cultural e paternalismo, quando melhor deveria ser percebido como samaritanismo, ou seja, formas de amor ao próximo.

(vi) É racional. O Anglicanismo escolhe ter uma interface com o saber secular a fim de ajustá-lo às formas cristãs, clarificando a coerência das alegações levantadas à fé cristã. Isso é apologética a serviço da natureza: Butler, Lewis, Sayers, Palkinghorne são bons exemplos. Os anglicanos se sentem contentes em viver com o aparente desconforto causado por divergências, incertezas debatíveis, trabalhando dúvidas honestas e sugerindo variações no que diz respeito à crença ortodoxa, no lugar de simplesmente ignorá-las ou silenciá-las, ou às vezes que a expressam.

(vii) É ecumênico. Não pretendendo uma perfeição auto-suficiente, o Anglicanismo dedica atenção a todas as tradições cristãs, buscando assim a plenitude da fé católica e a mais plena comunhão com o resto do mundo cristão.

(viii) É inclusivo. Não apenas por razões pragmáticas, mas por princípio, o Anglicanismo, embora almejando a unanimidade, recusa-se a excluir a qualquer pessoa que abrace os fundamentos explicitados nos Credos e articulados nos Artigos de Religião, enquanto nos aspectos não-fundamentais permite “pensar e deixar pensar" (para usar uma frase de John Wesley).

Esse perfil, mais o seu legado literário, seguramente torna a herança anglicana única, rica e sábia, e justifica permanecermos no Anglicanismo hoje (mesmo quando ele passa por maus momentos), em virtude do que Deus tem abençoado o Anglicanismo no que ele poderá se tornar amanhã, à medida que sua herança é renovada.

O Evangelicalismo anglicano histórico preenche plenamente esse perfil, e com ele se identifica. Suas ênfas não são nem mais nem menos do que esses aspectos do anglicanismo que temos destacado.


03. A Identidade Evangélica

O anglicanismo evangélico é a forma de cristianismo conscientemente centrada na proclamação e na resposta ao Evangelho essencial, o Evangelho - do qual deriva o seu nome. Ele é uma mistura de doutrina da graça da Reforma Protestante e dos Puritanos com a práxis pietista dos séculos XVII e XVIII de evangelismo e alimento espiritual. Historicamente, o seu foco doutrinário tem sido a justificação pela fé em Cristo, tendo como base a morte expiatória, e sua práxis tem sido centrada na ênfase na conversão pessoal e no discipulado a Cristo, e na decorrente criação de grupos e sociedades de comunhão, grandes e pequenos, dentro do todo da Igreja, visando a implementação da vida espiritual. Na Inglaterra, onde essa proposta foi elaborada, ela tem-se percebido tanto como um movimento de reavivamento quanto de renovação dentro de uma Igreja da Inglaterra indolente, e de um corretivo pastoral ao sacramentalismo do Catolicismo Romano oficial e do seu eco no Anglo-catolicismo. Sempre, e em toda parte, tem enfatizado a autoridade bíblica, a realizada obra de Cristo na cruz, a necessidade na fé pessoal no Cristo ressuscitado, Senhor reinante, e na prioridade do empreendimento evangelístico para o mundo.

Os anglicanos evangélicos têm muitas vezes visto a si mesmo, e sempre sido vistos pelos outros como um partido ou uma seita com interesses limitados, marginais ao anglicanismo como um todo, embora apostando uma contribuição útil para o mesmo.

Uma afirmação mais verdadeira, contudo, é que o evangelicalismo é o centro do Anglicanismo, contrapondo-se a excessos racionalistas, ritualistas e formalistas na igreja, ao destacar e priorizar as verdades básicas da vida cristã.

De Whitefield, os Wesley e Wilbeforce a Max Warren e Stephen Neill, de Charles Simeon a John Stott, essa tem sido a auto-compreensão operativa entre os líderes pensadores evangélicos, muito embora expressões ocasionais de sectarismo e de separatismo tenham acontecido aqui ou acolá entre os seus militantes. Seguramente, é tempo de reafirmarmos a centralidade evangélica dentro de um anglicanismo conceitual, e nos assegurarmos de que os líderes evangélicos do amanhã tenham essa clara percepção.


04. Unidade e Desunidade do Anglicanismo

(i) Parâmetros bíblicos. Ο Novo Testamento trata a unidade de todos os crentes em Cristo como um fato consumado, a ser reconhecido e expressado pelo mútuo reconhecimento e pela prática conjunta na doutrina, ética, amor ativo e serviço, aceitação dos ministérios e sacramentos, bem como cooperação em todos aspectos da missão. Denominações que pretendem destacar verdades que outros ignoram ou negam, não são parte do quadro descrito pelo Novo Testamento, e pelo anglicanismo global que se afirma como um "mero cristianismo", e que não se percebe como uma denominação nesse sentido, mesmo que alguns anglicanos assim se percebam. O Anglicanismo é simplesmente a Igreja de Cristo tornada visível dentro de um arranjo estrutural particular e em áreas particulares do mundo.

(ii) História Anglicana. A história anglicana desde a Reforma é freqüentemente narrada em termos de episódios isolados de conflitos entre seus líderes e seguidores, mas seria mais útil e mais profundo narrá-la em termos de como Anglicanos / Evangélicos se destacaram sobre aspectos menores de cada era. A partir desse ponto de vista, parece que as diferenças, algumas vezes furiosas, nem sempre eram fundamentais. Assim, dos teólogos carolíneos, institucionalistas teologicamente abertos, de Gilbert Burnet a William Temple, e alguns da Igreja Larga do século XIX tais como Arnold e Maurice, aparecem na companhia de Reformadores, de Puritanos pastorais e de líderes evangélicos desde o século XVIII, contra a desupernaturalização dos latitudinários, liberais e radicais do século XVII em diante. O Anglo-Catolicismo, que provocou reações por seu estilo romanizante, sua visão dos bispos em sucessão apostólica como da essência da Igreja, sua doutrina altamente sacramentalista, e sua falta de precisão sobre a expiação, a justificação e a segurança, tinha em seu coração o amor por Cristo como Salvador e Senhor, e uma alta visão da Bíblia, que se ombreia com o evangelicalismo contra o relativismo, o pluralismo e o agnosticismo no que diz respeito aos fundamentos da fé. No “velho Ocidente" pós-cristão de hoje, particularmente, é importante que esse fato seja percebido.

(iii) Tensões atuais. A confusão e a desunião que atualmente aflige os anglicanos se deve aos fatores que a seguir listamos, descritivamente:

a) generalizado afastamento do pensamento e do uso dos Livros de Oração cranmerianos como padrões de fé, formação e adoração;

b) a ordenação feminina ao presbiterado e episcopado tendo por base exegeses e teologias questionáveis;

c) a campanha do lobby gay dentro da igreja para a aceitação e benção das relações homossexuais e a ordenação de homossexuais praticantes, outra vez à base de teologia e exegese dúbia;

d) o centralismo administrativo diocesano, tornando possível um retorno ao clericalismo hierarquizante;

e) pluralismo teológico e litúrgico descontrolado, e falta de foco na educação teológica;

f) ignorância e desvalorização da nossa herança, de modo que se perde a influência ampliadora, estabilizadora e geradora de sabedoria da tradição anglicana;

g) demandas para que a igreja em toda a parte se torne orientada para a missão no lugar de mantenedora da rotina.

Sob essas e outras influências em doutrina, disciplina, devoção e direção, regularmente refletindo a suspeita de que o mundo tem a sabedoria e que a igreja deve segui-la, anglicanos têm caminhado em todas as direções.

O consenso anglicano, informado pelo passado anglicano, significa cada vez menos, e cresce a pressão para que as pessoas sejam menos condicionadas pelo seu passado. Enquanto se torna evidente a bancarrota da teologia liberal, o amor liberal pela mudança constante, pelo menos no “velho Ocidente", ainda continua em alta.


05. Tarefas para os Anglicanos Evangélicos

O Anglicanismo global varia de acordo com a sua idade, sua história e sua disseminação em cada lugar, e de acordo com os padrões culturais nativos no qual existe. Os ideais evangélicos do evangelismo e do alimento espiritual, o cuidado pastoral e a adoração, a santidade e a expansão, foram aprendidos da Bíblia e não são negociáveis, mas a ação para atingi-los irá diferir em detalhes em cada diferente situação local. Ações devem ser tomadas localmente e batalhas locais deverão ser tratadas a fim de reabilitar a verdade evangélica nas várias comunidades anglicanas.

Mas, eu tenho um sonho que gostaria de compartilhar. É a visão de um corpo global de anglicanos evangélicos, em permanente consulta, buscando juntos melhor equipar os congregantes de hoje e o clero de amanhã naquilo que tenho me referido como a verdadeira fé e herança anglicana. Eu sonho em vê-los aceitando a responsabilidade por iniciativas teológicas que afirmarão o evangelicalismo como o melhor caminho.

Tradução e Condensação: Bispo Robinson Cavalcanti, OSE Divulgação: Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir

J. I. Packer é teólogo e escritor anglicano, atualmente lecionando no Wycliffe Hall, Oxford, Inglaterra.

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